23 mar 09

Paradoxos são irresistíveis. No começo, a gente custa a entender, mas depois de moer o cérebro, algumas coisas começam a fazer sentido. Segundo Oscar Wilde, um dos maiores criadores de paradoxos e mais polêmicos escritores de todos os tempos, “quando ouvimos um paradoxo, ganhamos um saber que não tínhamos. Ficamos mais sagazes e temos consciência disso”.
Paradoxo vem do grego antigo paradoxon (estranho, inesperado) e significa a expressão de um ponto de vista contrário ao senso comum. E, note bem, no momento em que expressa a contradição, o paradoxo revela nada menos que a ambivalência da natureza humana.
Pois o que me fez pensar nisso foi uma mesa redonda sobre design que participei semana passada. O assunto era ecodesign e a sua busca pelos produtos sustentáveis e materiais recicláveis. Pois foi aí que um dos debatedores levantou uma questão que eu não tinha pensado.
A gente está sempre em busca de insumos recicláveis, é quase uma compulsão. O pessoal mais consciente, quando que vê um objeto legal, sempre tenta saber mais sobre os materiais com os quais ele é construído. Mas, em algumas situações, é mais sustentável que o material não seja reciclável. Parece um paradoxo? Talvez, mas olha só.
Ele citou o exemplo da cadeira projetada pelo designer Philippe Stark (outro tipo polêmico) chamada Mr. Impossible. A cadeira tem esse nome porque foi concebida há alguns anos, mas até pouco tempo não existia tecnologia possível para construí-la. A peça é toda feita em policarbonato, um tipo de plástico duríssimo e muito resistente. O desafio era unir duas peças ovais sem usar cola e sem deixar emendas visíveis. As cadeiras agora são “coladas” a laser.
Atenção para um aspecto da malfadada cadeira: ela é praticamente indestrutível, portanto, também não é reciclável. Isso quer dizer que daqui a uns 200 anos, esse objeto vai continuar sendo uma cadeira. Pois não seria melhor mesmo assim? Que a gente não tivesse tantos objetos recicláveis, justamente para não ter que reciclá-los?
Para o ambiente, melhor que reciclar é reusar. Reciclar implica gasto de energia e reprocessamento; reusar exige criatividade e habilidade apenas.
É claro que os gadgets eletrônicos mudam a todo momento e se tornam obsoletos rapidinho. No caso deles, então, é imprescindível que sejam recicláveis, pois a gente não dá conta de tanto lixo. Mas móveis, roupas, louças, objetos de decoração e utilitários podem continuar sendo o que são por anos e anos, sem prejuízo para ninguém (desde que não sejam descartados, é claro). Se forem indestrutíveis, tanto melhor. Ou não? A afirmação me parece perigosa. Convém pensar mais um pouco.
Acho melhor então terminar esse texto com um paradoxo do genial Luís Fernando Veríssimo: “Se você tentou falhar e conseguiu, você descobriu o que é paradoxo.”
É ou não é?
Lígia Fascioni | www.ligiafascioni.com.br

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