23 mar 11
Faz tempo que procuro um livro específico sobre teoria das cores e, como freqüentadora contumaz de livrarias, estou ficando cada vez mais irritada. Olho com cuidado, busco, reviro tudo e necas de encontrar o tal livro. Em compensação, acho o tal “O segredo” em verso, prosa, ilustrado, box de luxo, comentado, capa dura, brochura, light, poster, pocket book e até em DVD. Pirâmides enormes. Cartazes impactantes. Uma verdadeira overdose de indiscrição para uma coisa que se auto-intitula secreta.
Já demonstrei várias vezes aqui a minha resistência assumidamente preconceituosa contra livros de auto-ajuda, mas agora me rebelei e não quero nem saber, resolvi tocar o dedão bem no meio da polêmica.
Não sou nenhuma especialista em filosofia, aliás, meus conhecimentos na área são bem parcos, mas é dela mesma que vou me valer para argumentar. Minha opinião é a seguinte: a auto-ajuda pode até realmente ajudar algumas pessoas (principalmente seus autores), mas, no mais das vezes, contribuem mesmo é para detonar a auto-estima dos incautos. Eu explico.
Assim como o tal “segredo” e tantas outras obras afins, o mantra repetido à exaustão reza que você pode tudo, que mudar a sua vida só depende da sua força de vontade. Se você ainda precisa de ônibus para se locomover, a Playboy não te chamou para posar nua, sua conta bancária não é Personnalité, suas noites de sábado não saem nas colunas sociais, seu marido está te traindo com a vizinha, sua TV não tem 296 polegadas, seus filhos são umas pestes, seu chefe tem mau hálito, você está 15 kilos acima do peso e seu purê de batatas mais parece cola, a culpa é toda sua! Faltou força de vontade! Você não mentalizou o suficiente! Não seguiu os 7 passos! Os livros bradam aos berros (com ou sem ilustrações): sua vida só é uma droga porque você quer! Ou seja, o ser humano normal que não freqüenta a capa da Caras pode escolher entre se achar burro, masoquista ou incompetente.
Então, o que nos resta? Escondida lá no fundo da livraria, a Marilena Chaui, no excelente “Convite à filosofia“, explica que um dos legados mais importantes da filosofia grega para o pensamento ocidental é a formalização da diferença entre o que é necessário (o que não pode ser senão como é) e o contingente (que pode ou não ser). Além disso, os gregos nos ensinaram que o contingente pode ser dividido entre o acaso e o possível.
Olha só: o necessário é aquilo que a gente não pode escolher, pois acontece e vai acontecer sempre, independente da nossa vontade. Assim, sempre haverá dias e noites; o tempo vai passar; todas as coisas serão atraídas pela gravidade; você vai morrer algum dia.
Já o contingente é aquilo que pode ou não acontecer na natureza ou entre os homens. Quando o contigente é do tipo acaso, também não está em nosso poder escolher. Exemplos de acaso: não posso determinar se um motorista bêbado vai ou não abalroar meu carro e provocar um acidente; não posso optar por ser ou não assaltado; também não posso arbitrar que meu pai seja ou não um jogador compulsivo nascido na Croácia.
Que coisa, heim? Então posso escolher nada? Bem, pode. É justamente por isso que existe o segundo tipo de contingente: o possível. O possível é tudo aquilo que está em meu poder mudar ou não. Posso optar por fumar ou não; posso ficar até mais tarde estudando ou vendo televisão; posso ouvir uma fofoca calada ou contar para todo mundo; posso ler o texto até o fim ou parar por aqui.
Sacou como os gregos eram espertos? Essa estrutura lógica de pensamento nos permite concluir duas coisas importantíssimas: nem somos guiados cegamente pelo destino, daquele tipo “fui despedida porque Deus quis“, nem tampouco podemos tudo, mover céus, montanhas e mares ao sabor dos nossos desejos.Algumas coisas a gente pode mudar, outras, não!
Uma parte das coisas depende realmente da nossa força de vontade, da definição de objetivos, de nossas ações; mas outra parte, não desprezível, depende do contexto, está fora de nossa alçada. Veja só: adoro ler porque cresci em uma casa cheia de livros. Meus pais escolheram isso, apesar de nenhum dos dois ter tido oportunidade de fazer um curso superior. Que mérito há em me comparar com alguém que nasceu em uma favela e engravidou do primeiro filho aos 13 anos? As condições são absolutamente diversas, não se pode medir forças de vontade de maneira tão rasa e simplista!
Alain de Botton, um professor de Filosofia da London University, publicou “Desejo de Status” justamente falando sobre a situação constrangedora com que a modernidade acabou envolvendo a maior parte da população do mundo.
Um dos grandes paradoxos que criamos é que os nossos ideais de igualdade democrática contribuíram ainda mais para a desigualdade. Em toda a história, por razões diversas, sempre houve pouca gente com muita coisa e muita gente com quase nada. Mas se antes, pelo sistema de castas ou pouca mobilidade social, o sujeito era um pobre camponês porque tinha nascido assim, era o seu destino, não havia muito o que fazer a respeito, na nossa pseudo igualdade ele é um incompetente. O pressuposto é de uma simplicidade cruel: se todos nasceram iguais e com o destino nas próprias mãos, então o sucesso de uns poucos deve ser resultado de seu talento e força de vontade. Já a miséria, as dificuldades e o fracasso social são culpa exclusiva dos ineptos e incapazes.
A busca pelo status e pelo reconhecimento é angustiante. O sucesso é medido por dinheiro, beleza, poder e fama. O tal “segredo” ensina você a ganhar milhões ou conseguir o emprego dos sonhos. O livro ao lado ajuda você a conseguir um marido rico. O outro, a perder muitos quilos sem sacrifício. A referência passa a ser o que os outros consideram o ideal, não você.
É, gente, aquela gordinha solteira que não quer fazer uma pós-graduação, acha normal ser empregada e considera o Uno Mille um carrão, só pode ser uma acomodada da pior espécie, merece mesmo todos os males que a afligem.
E sabe o que é pior? Em vez da Marilena Chaui ou do Alain de Botton, as pessoas insistem em dar para ela livros do tipo “o segredo” no aniversário. Ninguém merece.
Lígia Fascioni | www.ligiafascioni.com.br
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Publicado originalmente em agosto de 2007.
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