Arquivo de maio, 2011

31 mai

Pelo jeito, a palavra multifuncional está bombando mesmo por aqui essa semana.

Se você é como eu, que adora aquelas revistas lindas de design como a abcDesign e a ArcDesign, vai entender o drama.  Leio, olho, namoro e não tenho coragem de me desfazer das belezuras.

O resultado é que a pilha só faz aumentar e me deixar um pouco desesperada com a falta de espaço e desapego de minha parte. O desapego vai ficar mesmo é para a próxima encarnação, ainda mais agora, que descobri esse projeto incrível na newsletter do Think Big Chief com a solução para os meus, os seus, os nossos problemas!

A ideia é dos designers alemães do NJUStudio. Inspirador!

31 mai

Sempre gostei de estantes e móveis multifuncionais (até por necessidade, pois tenho muitos livros), mas essa semana está especialmente recheada do assunto aqui no blog. Recebi do Michel Téo Sin, o fotógrafo de ideias mais brilhante que conheço (são dele as fotos do site e do blog, além do vídeo), um projeto realizado durante a graduação em design (ele também foi meu aluno, mas em outras disciplinas).

Olha só que coisa mais bem bolada e realmente multifuncional. Nota 10!

30 mai

Fotografia: Manuel Archain

O nome Suzana Herculano não me era estranho, mas nunca tinha prestado muita atenção até ser completamente abduzida por uma reportagem da TPM (minha revista favorita). Lá fiquei sabendo que a moça formou-se em biologia aos 19 anos e foi estudar genética nos Estados Unidos, quando apaixonou-se por neurociência. Mergulhou literalmente de cabeça no negócio e já recebeu prêmios internacionais de respeito por sua pesquisa na área. Pensa que a nega é daquelas CDFs que nem sabem o que é batom? Pois saiba que é uma morena bem bonita, mãe de dois filhos, que também toca piano, violão, violoncelo e flauta transversal. Já fez musculação, corrida, sapateado e agora pratica pilates. Lê de tudo um pouco, vai ao cinema, adora viajar e escreve muito bem. Enfim, como não se apaixonar? Virou minha ídola instantaneamente.

Foi fechar a revista e correr para comprar os livros dela (são 6, mas só li 2 até agora). Fiquei sabendo também que Suzana tem um quadro no Fantástico chamado Neurológica, mas como não assisto, vou aprender o que puder pelos textos mesmo (meu cérebro não tem muita paciência de ir atrás dos vídeos).

O grande barato dessa neurocientista de plantão, como se autodenomina, é que ela usa absolutamente tudo o que acontece no dia-a-dia como pretexto para explicar como o cérebro funciona em cada caso. Por que ela adora o cheirinho da filha; por que sente saudades do marido; o que o cérebro faz enquanto a gente vê TV; o que acontece enquanto a gente dorme, se apaixona, leva um fora ou se lembra de algo. Enfim, é uma aventura sem fim, cheia de explicações interessantes e com forte embasamento científico oferecidas como papinha de nenê, bem mastigadinhas.

Em “Pílulas de neurociência para uma vida melhor” (jamais compraria um livro com esse título se não tivesse uma indicação; meu cérebro é muito preconceituoso) ela começa explicando que a última coisa que o famoso teste de QI mede é a inteligência. O questionário nasceu em 1904, quando o governo francês encomendou ao psicólogo Alfred Binet um instrumento para identificar crianças com dificuldade de aprendizado (o objetivo era prover reforço para elas). O teste media quantas tarefas uma criança conseguia acertar em relação às outras da mesma idade. A diferença entre a pontuação da criança e a média das outras de sua idade revelava sua “idade mental”. Subtraindo-se a “idade mental” da idade biológica da criança, chegava-se ao “nível intelectual”. As crianças com maior diferença entre as “idades”, iam para um programa especial de educação.

Em 1912, três psicólogos americanos resolveram mudar a conta: em vez de diminuir a idade cronológica da idade mental, dividiram uma pela outra, criando o famoso “quociente  de inteligência”. A ideia era usá-lo para recusar a entrada de imigrantes considerados de “raça inferior” e o negócio virou moda. Mas, na real, o teste diz que se uma pessoa de 30 anos tem um QI de 138, quer dizer que sua idade mental é de 30 x 1.38, ou seja, 41.1 anos, o que significa que ela é mentalmente mais velha do que de fato o é; nada mais além disso.

Binet deve estar se revirando no túmulo com o uso que fizeram do teste dele, principalmente porque a neurociência descobriu que a inteligência, definida como a capacidade de analisar situações novas e usar informações anteriores para resolver problemas, tem uma metade facilitada pela genética, mas a outra depende do ambiente (educação e experiências). Além do mais, é perfeitamente possível aumentar o nível de inteligência desenvolvendo habilidades que exercitem a capacidade de resolver problemas. Fato.

Outra coisa interessante é quando ela fala que opção sexual não é lá um termo muito correto, pois a preferência de uma pessoa quanto a esse quesito é biológica (perfeitamente identificável no cérebro). A pessoa já nasce com os genes predipostos a se sentir atraída por pessoas do sexo oposto ou do mesmo sexo, independente de fatores externos (ambiente, cultura, educação, etc); é como ter olhos azuis ou pernas compridas. Estatisticamente, cerca de 10% da população nasce homossexual, não escolhe; por isso, é complicado falar em opção. A única opção que a pessoa tem, no caso, é entre violentar ou não sua natureza; tentar ou não ser feliz.

Suzana fala também que o cérebro precisa de carinho físico para se desenvolver melhor, principalmente quando ainda está na fase de formação. Quem teve azar quando criança (viveu num orfanato ou tinha pais nórdicos pouco dados a demonstrações), ainda pode se recuperar se ganhar bastante carinho depois de adulto. Fazer cafuné nas pessoas que a gente ama faz bem para o cérebro em qualquer idade, quem poderia desconfiar de uma coisa dessas?

E tem mais: suar fazendo exercícios físicos é fundamental para a saúde do cérebro. Se seus neurônios ficarem moles e preguiçosos, não adianta passar o dia na frente do computador ou hibernando na biblioteca. Tem que sair para a rua e botar as glândulas sudoríparas para trabalhar, não tem outro jeito.

Ela explica também por que frequentar restaurantes a quilo engorda; da importância de beber água; porque o sentido mais importante e vital é o equilíbrio (controlado pelos órgãos vestibulares, como o labirinto); porque o melhor remédio para a memória é… dormir; enfim, dá para se divertir um montão.

Depois disso tudo, minha massa cinzenta não se cansa de questionar: por que é que não ensinam neurociência na escola, do jardim de infância até a faculdade, heim? Os cérebros todos seriam muito mais saudáveis e felizes. E nossos corpitchos também…

Lígia Fascioni | www.ligiafascioni.com.br

30 mai

Faz uns dias fiquei babando por uma estante feita com caixas projetada por designers gringos (ver Muito prático). Mas agora a designer gaúcha Mariana Piccoli escreveu para mostrar um projeto muito mais bacana.

A ideia é semelhante: caixas que podem se transformar em qualquer coisa que se queira: mesa de cabeceira, escrivaninha para crianças, cesto de brinquedos e até estantes. Mas a grande sacada é que os projetos da Mariana são construídos a partir de resíduos industriais; o fundo e a lateral das caixas são feitos com bobinas de papelão, motivo pelo qual, aliás, esse móvel funcional se chama Mobina.

A moça talentosa descreve tudo no seu Trabalho de Conclusão de Curso, mas já dá para ver alguns detalhes no portfólio dela. Vai fazer uma visita!

29 mai

Tendo que trabalhar nesse domingão lindo de sol, só me resta fazer algumas pausas para me divertir com o spam que insiste em abarrotar a caixa de correio (com o advento dos sites de compra coletiva, a coisa piorou muito).

Pois recebi um agora que chega a ser um enigma, olha só. Uma empresa que oferece cursos de comunicação com técnicas teatrais que se chama “Toque de areia“.

Fiquei bem intrigada com esse nome, afinal, para uma marca que quer traduzir uma comunicação interativa agradável, o toque poderia ser de qualquer coisa macia. Toque de areia me faz lembrar quando a gente pega jacaré na praia e um montinho de areia se imiscui dentro do biquíni. Ou quando cai do skate e raspa o joelho naquela areinha perto da calçada. Ou quando entra um grãozinho torturante dentro do sapato. Enfim, por mais que tente, não consigo encontrar nada agradável no contato com areia. Fui no site (a empresa parece ser competente, respeitável e com clientes importantes) e não encontrei nenhuma explicação para um nome tão áspero. Seria a volta ao pé-no-chão?

Até que poderia ser, mas o que mais me intrigou mesmo foi a peça publicitária do mailing: um peixe saindo fora de um aquário e indo para outro maior (isso é que é ambição). Reparem que é certeza que o pobre vai se esborrachar no chão; não tem como acertar a trajetória.

Nem um grão de areia para esclarecer a metáfora do peixe suicida. Será que o programa do curso de comunicação inclui desvendar charadas?

Choquei…

28 mai

Estava lendo Start with why, de Simon Sinek, e me dei conta de que a gente não dá muita bola para algumas coisas realmente importantes em marketing. Não que Simon tenha feito alguma descoberta extraordinária que o pessoal que estuda ciência cognitiva já não tenha estudado, mas ele descreve as coisas de uma maneira tão simples que faz todo o sentido.

Simon começa questionando se você sabe porque os clientes de sua empresa são clientes. E por que os funcionários são funcionários, parceiros são parceiros? Por que seu cônjuge continua com você? Por que seus amigos são seus amigos? Perguntas um pouco complicadas de responder, né? Afinal, a gente sabe muito pouco sobre o que move a conduta das pessoas e a interação entre elas.

Para tentar ajudar na busca de respostas para essas questões tão importantes, Sinek explica que o comportamento humano pode ser influenciado basicamente de duas maneiras: manipulação e inspiração.

A manipulação é a forma mais comum, a publicidade está cheia dela e a vida em geral também. Você convence alguém a tomar uma atitude supervalorizando as qualidades do produto (a única TV com tecnologia XYZ), exagerando as expectativas (faça o curso tal e duplique seu salário), supervalorizando o posicionamento (o alicate de unhas mais vendido no mundo), usando argumentos sedutores (você vai ficar muito mais bonita com o batom X), ameaçando mesmo (compre até amanhã, senão acaba!) ou, como último apelo, pratica um preço que ninguém resiste, o que não é, de maneira alguma, sustentável. Aliás, Sinek diz que competir por preço é como se viciar em drogas: depois que começa, meu amigo, o fundo do poço só faz ficar mais perto. Muito difícil se livrar.

A gente está acostumado com a manipulação porque foi educado assim (coma tudo, senão não vai brincar; estude, senão fica de recuperação; tome esse remédio, senão não vai sarar, etc) e essa técnica não é intrinsecamente ruim. Pensemos: o que são as leis e a justiça, senão a manipulação do nosso comportamento social? A disciplina para atingir um resultado qualquer também se encaixa no conceito (fazer 200 abdominais por dia para ficar com uma barriga tanquinho ou nadar 6 horas por dia para me classificar para as Olimpíadas).

Acontece que a manipulação molda e disciplina nosso comportamento, mas não nos satisfaz, não nos faz felizes, não desenvolve lealdade. O povo está se dando conta de que comprar movido por manipulação é frustrante, não motiva. Aí é que entra o outro catalisador do nosso comportamento: a inspiração.

Todo mundo quer inspirar e há uma receita básica velha conhecida do pessoal de marketing: a empresa diz o que faz, qual é seu diferencial e espera que você fique morrendo de vontade de ser sua cliente. Algo do tipo: “essa aqui é nossa academia de ginástica. Temos os melhores equipamentos e professores, as salas foram projetadas pelo arquiteto da moda. Venha malhar com a gente” ou “nosso hambúrguer tem o maior percentual de carne e ganhou o concurso de mais saboroso do ano. Venha experimentar”.

Quantos sites e peças publicitárias você consegue resumir dessa maneira? Olha, acho que um percentual bem próximo da totalidade. Foi assim que se aprendeu a fazer. Não está errado, mas também não inspira. Daí, não tem jeito – só resta apelar para a manipulação.

Inevitavelmente, Sinek usa o contra-exemplo da Apple. Se ela fosse uma empresa comum e seguisse essa receita, sua linha de argumentação seria mais ou menos a seguinte: “Nós fazemos ótimos computadores. São os mais lindos e fáceis de usar do mercado. Quer comprar um?

Pois é, mas a Apple não é uma empresa comum. (mais…)

27 mai


Fotografia: Romolo Maceroni

Estava um dia lindo e nos sentamos para almoçar, famintos. A vista era muito bonita e me lembro de ter pensado: pena que nublou rápido, o dia estava tão ensolarado… será que vai chover? Levei apenas alguns segundos para me dar conta que o sol continuava cumprindo o seu horário, o problema é que o vidro era fumê…

Essa forma plasmática em sua versão enfumaçada (você sabia que o vidro é um líquido de alta viscosidade?) tem o poder de descolorir o dia, fazer desmaiar as cores e até tornar o cenário um pouco ameaçador. A pergunta que não fica quieta é por que as pessoas escolhem ver o mundo desbotado de livre e espontânea vontade? E por que ainda topam pagar mais caro por isso?

A minha implicância com o vidro fumê não vem de hoje – nunca gostei desse efeito. Tem a versão original, com pigmentos no próprio vidro, e tem a versão película (algumas em estranhos tons de roxo). Nos anos 80 e 90 eles viveram o ápice do reinado obnubilado em diversas tonalidades; era sinal de elegância, classe e requinte. Sempre achei que essas três coisas fossem melhor traduzidas com limpeza, transparência e valorização da luz, mas acho que sou minoria. O que vale é que os arquitetos contemporâneos decretaram que vidro fumê está datado e praticamente aposentaram esses odiosos elementos em seus projetos. Mas nos carros, o fumacê continua bombando.

Lembro de ter andado de carona no veículo de um amigo, de vidros escuríssimos. A sensação foi horrível, o dia lindo parecia esconder uma tempestade. Também fiquei pensando como é que ele conseguia dirigir com aquela cortina preta? Se num dia de sol mal se enxerga alguma coisa, imagina só em dias chuvosos?

Não vamos discutir o duvidoso efeito estético que uma película provoca no design de um veículo, pois isso é gosto pessoal – se a pessoa acha lindo, fazer o quê? Até porque, boa parte dos peliculosos alega que usa esse artifício por questões de segurança.

Vamos então analisar esse ponto: segurança de quem? Para o motorista que está atrás, a película é insegura, já que não se consegue enxergar através do carro – é como se um caminhão se postasse à sua frente. Para o motorista que está num cruzamento, saindo ou entrando de uma rua, a película também é um risco, pois ele não consegue ter certeza de que o condutor das trevas conseguiu vê-lo e ter ciência da manobra – o contato visual é totalmente perdido. O mesmo vale para pedestres que vão passar perto do carro ou atravessar a rua. Para o próprio piloto do bólido escurecido, fica difícil de enxergar as coisas direito, principalmente à noite. Ele pode, inclusive, dirigir com um assaltante lhe apontando uma arma no banco do carona, pois ninguém verá (a película não “protege” se a pessoa for abordada enquanto entra no carro).

Então, se é que a película realmente defende alguém contra assaltos, a mensagem que ela transmite, mesmo sem adesivos, é: “Minha segurança em primeiro lugar, o resto do mundo que se dane!

Ok, ainda há os que alegam usar o recurso para que o carro não esquente muito com o sol. Legal, mas se essas pessoas estão tão preocupadas com problemas de refrigeração, por que continuam a comprar carros pretos? E mesmo assim, o seu conforto térmico vale o risco?

Olha, não sei vocês, mas para mim, o único argumento que justifica uma pessoa usar película, seja no carro, em casa ou em qualquer outro lugar, é porque acha bonito ou então porque não suporta mais tanto colorido no mundo. Pois é. Gosto não se discute e cada um olha o mundo com as lentes que escolhe.

Lígia Fascioni | www.ligiafascioni.com.br

*** Publicado originalmente em janeiro de 2009.

26 mai

Alguém aí ainda tem LPs de vinil? Olha só que ideia genial achei na Thumblr da Oficina de Estilo. Só não sei como eles cortaram os bolachões (deve ter alguma faca especial tipo chancela de gráfica), mas adorei demais da conta. De tudo o que vi de reciclagem de vinil, essa foi, de longe, a ideia mais linda e poética. E você, o que achou?

25 mai

Já tinha postado aqui a experiência que fiz com uma foto tirada no Eastside Museum, um pedaço de 2 km do muro de Berlim que serviu de tela para artistas do mundo inteiro e virou um museu a céu aberto; mandei a foto nas proporções que eu queria para uma empresa de signs e eles imprimiram em vinil adesivo. Pois agora me empolguei e fiz outra, em uma coluna do apartamento (o Conrado disse que agora já deu…eheheh). É um recorte de uma foto do muro com a bicicleta que aluguei para ir até lá.

É uma solução barata (o adesivo da coluna, medindo 2,15 x 0,79 m custou R$ 79,00, instalação inclusa) e bem original; a sua casa vai ficar diferente de todas as outras. As moças do quadro de trás são minhas (colagem e acrílico sobre tela) e o quadro vertical é do Luciano Martins (adoro!).

Olha só como ficou bacana, ainda mais com as participações especiais do Haroldo e do Heitor.

25 mai

O pessoal do SENAI São Paulo me convidou para publicar um artigo no informativo mensal da instituição sobre design chamado INFOPAPER. Para lê-lo, é só clicar aqui.

Vale a visita, pois tem um montão de artigos bem interessantes na base de publicações deles, escritos por gente que sabe muito. Para quem está pesquisando, é um prato cheio mesmo!

24 mai

Não é novidade para ninguém que a fronteira entre o México e os Estados Unidos é uma das mais policiadas que existem, justamente por ser uma rota de imigração ilegal das mais frequentadas.

Pois aí alguém teve a ideia de “decorar” o lado mexicano do muro com esses caixões estilosos (estética bem mexicana e colorida), lembrando o número de pessoas que morrem a cada ano na tentativa.

Para ser sincera, não sei se gosto ou não. Não sei de quem foi a ideia e não deixa de ser uma maneira original e até bem-humorada de chamar atenção, mas será que só eu achei que o negócio ficou meio macabro?

Achei no Update or Die.

24 mai

Fotografia: Matt Stuart

Tá bom, você, como eu, não consegue mais ouvir sobre o tal foco no cliente. É um tal de “nossa empresa tem foco no cliente, viu? Nós acordamos, comemos, trabalhamos, dormimos e sonhamos pensando em como fazer nossos clientes felizes” que não é fácil. Claro que na parede, não falta nunca uma declaração de missão e visão, espremendo a palavrinha mágica “cliente” entre previsíveis e entendiantes gerúndios, combinando bem com a moldura de gosto duvidoso.

E se em vez de ficar nesse teatrinho de roteiro ruim, as empresas realmente pensassem no cliente, só de vez em quando, para variar? Não precisa ser nada muito difícil para começar.

Brindes com a marca da empresa estampada de maneira bem discretinha dentro da pasta/sacola/bolsa já contribuiria muito para evitar a sensação de raiva que dá ao ver aquela pasta bacaninha totalmente destruída por uma marca gigantesca bem na frente (algumas tem o desplante de incluir alguma frase idiota com a palavra “cliente”).

Vamos falar sério: alguém que realmente pensa no cliente seria capaz de uma indelicadeza dessas? Estampar sua marca de maneira indiscreta, intrusiva e deselegante pode, em algum planeta, ser encarado como uma gentileza (que, de resto, pelo menos teoricamente, deveria ser o objetivo primeiro dos tais mimos)? Não seria muito mais fino ganhar um porta cartões de visita cuja marca do generoso patrocinador estivesse grafada discretamente do lado de dentro? Você não deixaria nunca de ver a tal marca, mas não nutriria um sentimento de raiva insana cada vez que a olhasse e, melhor, passaria a usar e valorizar de fato o tal brinde.

Outro exemplo bobinho: você visita uma página web porque quer um serviço simples, uma informação qualquer, até mesmo comentar um post em um blog e jogam, bem na sua cara, a tal CAPTCHA*. Você deve estar pensando que nunca foi vítima de um palavrão desses, mas eu explico. O sistema CAPTCHA é materializado em uma imagem contendo palavras graficamente distorcidas e pede para você confirmar o que está escrito em um campo apropriado. Sabe para que serve? Para que o administrador do site/blog tenha certeza de que você é um humano, e não um software tentando se fazer passar por um. É que há muitos softwares (também chamados robôs virtuais) que procuram endereços de e-mail e blogs para gerarem spam.

Ok, mas vamos analisar: você é o cliente, o visitante, ou seja lá quem for, que só quer obter as informações. Se a página está ou não sendo invadida, se o administrador está gastando sua beleza apagando spams, isso é problema dele, não seu; ele que se vire e instale um bom anti-spam. Você é cliente, não tem nada a ver com isso. Você é a razão do negócio, tem que ser bem tratado e poupado dessas chateações que não têm nada a ver com você. Por que o administrador impinge a você a resolução de um problema que é só e absolutamente só dele? E ainda tem empresas, pasmem, querendo fazer propaganda nos captchas. É mole?

Mais um exemplo: a maioria esmagadora dos hoteis estipulam o meio-dia como limite de horário para check-in e check-out. Para que isso? Ora, para resolver um problema de administração deles! De novo, você não tem nada a ver com isso. Você deveria pagar por cada intervalo de 24 horas que ocupa o quarto, sendo contados a partir do horário em que você entra, seja ele qual for. Alguns hoteis no mundo já acordaram para essa aberração administrativa que pune os clientes por causa de incompetências internas e têm horários de check-incheck-out flexíveis (deve ser porque o foco deles realmente está no cliente).

Esses dias fui fazer compras em uma loja e o dono do negócio alugou meus ouvidos um tempão reclamando das operadoras de cartão de crédito e que por isso ele só estava aceitando pagamento em dinheiro ou cheque. Beleza, concordo com tudo que ele falou. Mas isso é um problema dele, sacou? Eu prefiro pagar com cartão – ele que se resolva lá com a operadora. Se ele não resolver, lá vou eu para o concorrente que está mais preocupado comigo do que com as agruras do relacionamento da operadora (que, por sinal, deveria vê-lo e tratá-lo como um cliente; o tal apenas reproduz o comportamento equivocado como num modelo dominó).

E a menina da padaria que declarou, com a maior desenvoltura, que era melhor que eu tivesse troco porque ela estava sem? Melhor para quem, jovem senhorita sem-noção? Para quem mesmo?

Mais um caso: você vai a uma clínica médica, mas não tem vaga para estacionar. As únicas 3 disponíveis estão ocupadas com os carros dos médicos (o sujeito ainda me explicou que chega cedo porque é difícil de encontrar vaga na região). Tem como falar alguma coisa?

Isso é o que dá ficar chamando os clientes de público-alvo. Alvo é um objeto idiota que só existe com a finalidade de ser espetado. Os concorrentes disputam o alvo, mas nunca perguntam o que ele quer, o que ele sente, o que ele deseja. As empresas ganham sempre; já o alvo, nunca.

Empresas (e profissionais liberais, blogueiros, jornalistas, funcionários e mais todo mundo que tem clientes) parem de se hipnotizar com seu próprio umbigo e olhem com atenção para quem está do outro lado do balcão. Não é por nada não, mas já tem gente olhando, e com intenções bem sérias…

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* CAPTCHA: Completely Automated Public Turing Test to tell Computers and Humans Apart ou Teste Público de Turing Completamente Automatizado para Diferenciação de Computadores e Humanos.

Publicado originalmente em setembro de 2010.

Ligia Fascioni | www.ligiafascioni.com.br

23 mai

Peguei o livro do irlandês Gerard Donovan na mão e me senti irremediavelmente atraída, mas dessa vez errei. Imaginava que fosse um romance falando sobre as descobertas da física com toques filosóficos, mas nada disso. A quarta capa trazia umas frases genéricas e avisava que a obra era finalista do Man Booker Prize, um prêmio muito prestigiado. Caí no canto da sereia.

Não que o livro seja ruim, mas só li até o fim de teimosa, prejudicada pelo erro de julgamento e expectativa. O texto, apesar de muito bem escrito, é lúgubre, melancólico e muito triste. Relata uma tarde em que os prisioneiros de uma cidadezinha europeia, durante alguma guerra genérica, são levados para um terreno ao relento, no campo. O frio é demais (talvez isso tenha me incomodado mais que tudo). Neva e venta nervosamente o tempo todo.

O protagonista é o padeiro da cidade, sujeito irremediavelmente misantropo, que está cavando um buraco. Aparentemente, quem fiscaliza a obra é o professor da cidade. Os dois passam a tarde congelando e discutindo sobre as coisas da vida, história, filosofia, guerra, amor e assuntos variados.

Já estava quase no final quando descobri o que, afinal, o telescópio de Shopenhauer tinha a ver com aquilo. É que o professor explica que esse grande filósofo do século XIX disse que, para ganhar perspectiva de qualquer problema, devemos viajar 50 anos para o futuro e utilizar o telescópio invertido para olhar para nós mesmos, como somos e tomar as decisões com o benefício da retrospectiva. Faz sentido. Muito.

A trama, apesar de simples, é bem relatada e o final surpreende um pouco. A questão é que o livro é chatinho mesmo, mas vale a pena se a pessoa tiver paciência. Não me arrependi de ter ido até o final, só não digo que tenha sido divertido. De qualquer maneira, olhando pelo telescópio, daqui a 50 anos, isso não vai fazer a menor diferença…

23 mai

A pessoa usa as caixas para fazer a mudança e logo em seguida elas viram…estante! Também dá para fazer divisórias e tudo o mais o que se quiser. O mais impressionante é como fica bonito. Ideia absurdamente simples (e por isso mesmo, genial) dos designers Antxon SalvadorRoger Zanni. Taí, uma ideia sustentável de verdade.

22 mai

Olha só que bacana: em julho o Conrado e eu vamos nos mudar para Berlin, na Alemanha (sim, aquela cidade maravilhosa pela qual me apaixonei no ano passado, quem diria!). É que o Conrado assumiu algumas responsabilidades a mais na empresa onde ele já trabalha, que tem sede na Alemanha, e eu vou aproveitar para fazer um sabático e aprender a língua dos bárbaros (ótimo exercício para os neurônios, heim?).

Dizem que alemão é complicado, mas não deve ser pior que eletromagnetismo. Além disso, estudei um semestre no século passado e ainda me lembro como se conta até dez, de maneira que não vou começar do zero (começarei do onze…eheheh). Vai ser uma delícia voltar para a sala de aula.

Não sabemos ainda quanto tempo iremos ficar (espero que seja bastante, pois estamos vendendo as motos aqui para comprar lá e explorar o velho continente), mas viremos ao Brasil algumas vezes por ano, pois tanto ele como eu precisamos voltar a trabalho.

Então, viajo dia 21 de julho, mas depois volto e passo o mês de novembro inteiro aqui por conta de alguns compromissos já assumidos (ainda tenho algumas datas livres — quem quiser palestras, consultorias e cursos tem que aproveitar e fazer as reservas!). Depois, só em março, e por aí vai. Vou tentar organizar a agenda com bastante antecedência para fazer tudo em um mês, nas vezes em que vier.

Vamos manter o apartamento em Floripa (minha mãe vai morar nele para cuidar dos gatículos, pois não dá para levar os fofos agora) e, com o tempo, vamos ver como as coisas irão se desdobrar; talvez eu faça um pós-doutorado, ainda não sei. A única certeza é que o mundo vai ficar muito maior e mais cheio de coisas interessantes para ver e aprender.

O blog vai ter mais assuntos do cotidiano, design e coisas pitorescas do lado de lá; todo mundo vai sair ganhando. Ah, e se algum veículo estiver precisando de  uma correspondente em Berlin, é só chamar que a gente conversa!

21 mai

O aproveitamento do espaço não é dos melhores, mas essas estantes descoladas sempre ficam mais interessantes para quem não tem tantos livros assim. Gostei dessa proposta do designer Michaël Bihain. E você?

Dica do sempre ótimo Yanko Design.

20 mai

Lá vou eu comer pão de queijo de novo, ó sacrifício…eheheh… mas agora é só em julho, mais especificamente dia 2 de julho.

É que vai rolar o Branding Minas 2011, o primeiro evento em Minas Gerais com o objetivo de trazer a prática do branding para o universo de gestores, empreendedores, profissionais de RH e diretores de marketing e comunicação. Vai ser um dia inteiro de palestras em Belo Horizonte falando sobre branding sob os mais diversos pontos de vista. Manja só o naipe dos palestrantes:

Luiz Malta: Gestor da Marca da USIMINAS – Usina Siderúrgica de Minas Gerais desde 2001 e participou da criação e aplicação do projeto de branding e do lançamento da Soluções Usiminas e da Rede Usiminas.

Daniel Guimarães: fundador e sócio-diretor da 2DA Branding & Design, um dos escritórios pioneiros em estratégia e gestão de marca em Minas Gerais, fundado em 2001 sobre os pilares do branding.

Flávio Tófani: coordenador de vários cursos de pós-graduação em Gestão de Marcas e Identidade Corporativa, Comunicação Interna para Relacionamentos Estratégicos, Gestão de Marketing e Comunicação Estratégica. Atua também como consultor e palestrante.

José Roberto Martins: consultor e palestrante, é autor e co-autor de 5 livros sobre branding e fundador da Globalbrands, primeira consultoria brasileira especializada na área, tendo dirigido projetos para diversas organizações.

Lígia Fascioni: consultora e palestrante, autora de 4 livros sobre design, identidade corporativa e atitude profissional, desenvolveu o método GIIC — Gestão Integrada da Identidade Corporativa, tema de seu mais recente livro, DNA Empresarial.

Quer saber tudo sobre o evento e se inscrever? Clica aqui!

19 mai

Dessa vez, não tive que procurar essas palavras no dicionário para escrever o contículo: o Antonio Bandeira as achou para mim e postou tudo no Facebook. Valeu, Antonio, mas vê se da próxima encontra palavrinhas mais fáceis…eheheh

***

Antenor estava mesmo de mau-humor. Trabalhava o dia inteiro e ainda tinha que aturar a Silvinha, professora chata que ficava insistindo para ele ler aquela pilha de livros mais chatos ainda que ela chamava carinhosamente de bibliografia, arma letal para a paz de espírito de alunos desesperados.

Logo hoje que ele acordou lembrando dos olhares que tinha recebido do Arnold logo cedo. Acordar com aquele ser cheiroso e macio respirando bem junto do ouvido.  Abriu os olhos e se perdeu no oceano dourado que eram os olhos do seu amigo. Num mar de cerveja, como não se embriagar?

Nunca pensou em se envolver com um ruivo, mas olha só as peças que a vida prega na gente. Depois da partida do Didi, achou que nunca mais iria ansiar por um macho peludo e quente encostando no seu peito, dormindo na sua cama. E aconteceu mais cedo do que ele pensava. Compungido, pensou na sorte que tinha.

Mas tinha que ler a tal bibliografia e a palavra que ele tinha que estudar era rágade. Hummm… tem uma definição aqui… meodeos, que professora mais sem-vergonha! O que é que essa mulher está querendo? Começou a ficar totalmente confuso, pois se deu conta de que estava era pensando nas rágades da Silvinha.

Melhor esquecer e se concentrar no texto; a última coisa que ele queria agora, na sua vida, era confusão. E a Silvinha tinha uma confusão incrível, quer dizer, rágades, ou melhor… esquece.

Mas antes, lembrou de chamar o Arnold. Estava na hora de encher o prato da ração.

16 mai

Em tempos de inovação, os especialistas em ciência da cognição são unânimes: nosso cérebro é um mandrião que tende a simplificar tudo o que vê para economizar trabalho (o nome pomposo para esse preconceito inato é  “categorização preditiva”). Ele olha o negócio mais ou menos e já vai tascando uma classificação, sem nem levantar o traseiro da cadeira.

A coisa funciona mais ou menos assim: nossos sensores (ou sentidos), passam o dia recolhendo informações por aí e vão amontoando tudo numa espécie de buffer no nosso cérebro – tipo um quartinho da bagunça.

Quando a gente relaxa (no banho, na cama, meditando ou se distraindo), nosso processador central reconhece que os sensores pararam de atulhar o tal quartinho e, esperto como é, começa logo a arrumação para liberar mais espaço: é a hora em que cada coisa é colocada em sua respectiva prateleira, digamos assim. Se o cérebro não for preconceituoso demora uma data para organizar o tal cafofo, pois tem que analisar tudo muito bem antes de fazer a guardação.

Ora, como se sabe, ideias novas não nascem do nada – elas são apenas recombinações do que já existe. Essas ideias são geradas justamente durante o período em que o quartinho está sendo arrumado, quando rolam festinhas neurais onde as informações diferentes aproveitam o clima para fazer amizade (dizem que quando a coisa esquenta mesmo rola até sexo e às vezes nascem ideiazinhas, batizadas de memes).

Beleza, mas se eu tenho as mesmas informações e prateleiras que todo mundo tem, então a probabilidade de criar algo que ninguém pensou é bem baixa, confere? Festinhas com figurinhas repetidas, mesmo que apimentadas, não geram lá muita coisa interessante e acabam cedo, pois o cérebro põe a casa em ordem rapidinho.

Então, para criar um clima e fazer a festa ser realmente legal, tem que trazer gente de fora; todo promoter descolado sabe disso. Assim, para acabar com essa mania de estabelecer preconceitos (preconceito é quando você forma uma opinião a partir de informações incompletas) e trazer gente nova para o pedaço, uma coisa que funciona bem é a gente apresentar ao nosso cérebro coisas que ele nunca viu antes (como ainda não tem prateleira para colocar, faz a confraternização durar mais).

Então, o ideal é resistir à rotina e experimentar cheiros, texturas, visões e experiências inéditas. E quer melhor oportunidade que isso do que viajar?

Atraída pelo título bizarro “O olhar do hipopótamo”, do editor de revistas de turismo Ronny Hein (o nome é gringo, mas o sujeito é brasileiro), comecei a folhear o livro e não consegui mais largar. O Amyr Klink, que faz o prefácio, já previne que o negócio é viciante.

Ronny deve ter dado um monte de voltas ao mundo e, rapaz culto que é, consegue sempre um olhar irônico, elegante e bem-humorado. O livro tem 18 capítulos e cada um é uma viagem pouco convencional. Tem uma excursão de motoneve no Canadá (fiquei com água na boca!), um passeio com o maior veleiro do mundo, um safári na Botsuana (onde o tal hipopótamo olhou para ele), um hotel feito todo de gelo (recomendam não suar porque tudo o que é líquido congela – sexo, nem pensar!), um transatlântico de luxo só para alemães e um voo de balão no Quênia, entre outras aventuras exóticas. Duvido que, depois de umas voltas assim, o vivente não volte cheio de ideias sensacionais.

Daqui pra frente, meu objetivo na vida vai ser seguir esse caderninho, fazer todos esses passeios, ou pelo menos os mais legais. Fala se não é uma motivação e tanto para uma pessoa desenvolver a criatividade? Enquanto não dá para ir pessoalmente, vou tentar pelo menos pegar uma carona virtual nos livros, o que já é um começo.

Já dizia Mark Twain, que cruzou continentes quando ainda não existia programa de milhagem: “Viajar é fatal para preconceitos, para o fanatismo e para as mentes estreitas”.

Bora arrumar já as malas?

Lígia Fascioni | www.ligiafascioni.com.br

15 mai

Ilustração: Arturo Elena

“Quem compra coisas que não precisa ou que não usa está roubando de si mesmo”

Ditado sueco tirado da sempre ótima Oficina de Estilo.