Arquivo de janeiro, 2012

31 jan

Segundo o talentosíssimo e muito espirituoso Aravind Adiga, autor do “The white tiger“, o tigre branco é um dos animais mais raros que existem; só nasce um a cada geração inteira. Pois “tigre branco” é como se auto denomina o protagonista da história, Balram Halwai.

O livro é daqueles que a gente começa e não consegue desgrudar mais, tão bem escrito. Na verdade, é uma carta que Balram está escrevendo para o presidente da China, que, segundo ele soube pelo jornal, vem visitar a Índia. Balram então conta a sua história, triste, engraçada, inocente, perigosa, humilhante, poderosa, curiosa e fonte inesgotável de reflexão.

Ele adianta que seu relato é principalmente sobre empreendedorismo, uma vez que de potencial funcionário vitalício de uma casa de chás miserável ele se tornou dono de uma transportadora de respeito numa das maiores cidades do país.

O Tigre Branco nasceu numa cidadezinha do interior, e na casta errada, para seu azar. As castas mais altas (e de pele mais clara) são a luz; as mais baixas (e de pele mais escura), a escuridão. A mobilidade social é praticamente impossível, uma vez que os papeis são definidos por uma longa tradição e a própria família se encarrega de encarcerar o indivíduo no sistema.

Mas Balram não consegue viver preso no destino que lhe foi confiado e sai da cidade fazendo-se motorista (apesar de pertencer a uma casta de fazedores de doces). Depois de aventuras mirabolantes, cheias de descrições de miséria absoluta, corrupção e injustiças que lembram muito o Brasil (é assustador, mas real e perfeitamente possível, tanto lá como aqui), nosso protagonista acaba matando seu próprio patrão.

Na história, porém, não há bandidos nem mocinhos. Balram é inocente sob alguns aspectos (principalmente os religiosos), mas seu caráter foi (de)formado na própria cultura que dá razão ao professor roubar todo o dinheiro da merenda, dos livros e dos uniformes, pois faz meses que não recebe o salário (que, por sua vez, foi desviado por outro). Ninguém escapa de encontrar um jeito torto de viver na selva indiana e Balram não é exceção; extorque, engana, rouba, mata, mas tenta ser o mais justo possível dentro da sua ótica, por mais paradoxal que possa parecer.

O quadro sobre o empreendedorismo indiano é formidável e assustador; cidades como Delhi e Bangalore, onde prédios luxuosos brotam do dia para a noite a partir de trabalho praticamente escravo do povo da escuridão é de doer; mas dá para reconhecer traços brasileiros no cenário (talvez isso seja o que mais impressione).

Mesmo com tanta desgraça, ele consegue escrever a história com leveza, bom-humor e doses inteligentes de sarcasmo e ironia. O moço não ganhou o Man Booker Prize de 2008 à toa não. Vai lá que eu garanto.

31 jan

Apesar do montão de trabalho, de coisas para estudar e dos 10 ºC negativos de temperatura (segunto o wetter.de, sensação térmica de -20 ºC), o dia estava tão lindo que me enchi de coragem e fui dar uma volta na quadra no bairro onde estudo (Prenzlauerberg).

A luz estava linda demais e quando não venta fica até tranquilo de andar, desde que devidamente encapotada. Acho que valeu a pernada, concorda?

29 jan

Sabe de onde vem a palavra digital? Vem do latim digitus, que em bom português é dedo, desses que você tem 5 em cada mão. Antes da palavrinha cair na boca do povo, era tudo analógico, o que quer dizer que as ondas elétricas que mostravam a variação da grandeza no tempo eram análogas à natureza do negócio a ser medido.

Para facilitar a manipulação e simplificação dessas ondas tão complexas é que a eletrônica transformou tudo em dígitos. Em vez de toda a infinita gama de variações possíveis, a coisa passou a ser modularizada. O sistema digital tem esse nome porque resolve tudo com um dedo só (ou um bit, como queira). Se o dedo está levantado, significa 1 (sinal); se está abaixado, é zero (não sinal). Ou seja, o sistema digital transforma tudo em 0 ou 1. Sempre há perdas na transformação, pois, ao contrário do analógico, cuja resolução é infinita, no sistema digital sempre há que se tomar uma decisão sobre quantos dedos levantados ou abaixados vou usar para representar a mesma coisa (ou seja, quantos bits).

Tá, mas por que esse papinho nerd agora? É que acabei de vir de um concerto na Filarmônica de Berlin que me fez pensar essas coisas. Não, não estou louca; já explico a relação entre os assuntos: é que o concerto era com apenas um órgão* (desses de igreja, que ocupa uma parede inteira de tubos e é operado por meio de uma coisa parecida com um piano) e um saxofone. Sim, a música clássica contemporânea pode ser bem ousada quando quer: eles simplesmente reuniram um órgão, cuja morada natural é uma igreja bem antiga, com um sax (para mim, o instrumento mais pagão e sensual de todos). Olha, não entendo muito de música, mas adorei a mistura inusitada.

Uma das coisas mais sensacionais nessa cidade é que as crianças todas aprendem música clássica na escola e ouvem-na desde pequenininhas; o resultado é que os músicos eruditos são como atores globais por aqui e os espetáculos, numerosos, estão sempre cheios. As estrelas aparecem em revistas, programas de entrevistas, jornais, cartazes espalhados pela cidade e são tratadas como celebridades. As fotos das instrumentistas parece um book de propaganda de shampoo; os maestros, por sua vez, capricham no ar de mocinho descabelado de romance antigo.

Bom, já sei que tem gente aí com o discurso previsível pronto e ensaiado: “isso é que é país de primeiro mundo; cultura boa é essa, não pagode e nem axé“.

Pois era justamente nesse ponto que eu queria chegar. Sim, aqui tem música clássica da boa e todo mundo gosta. Mas deve ser também a cidade com a maior quantidade de clubes por metro quadrado do continente. E toca de tudo: house, rock, world, jazz, blues, metal, coutry, pop, folk, progressivo, trance, fusion e todas as variações eletrônicas com aqueles nomes estranhos que nomeiam também as tribos; não me surpreenderia se tivesse pagode. Tem espetáculo de música africana; tem batuque caribenho, tem Bebel Gilberto, tem Lady Gaga, tem Adele e tem Michel Teló também, sim senhor.

Isso, para mim, é que traduz a real cultura. Não se deixar deslumbrar pelo digital, pelo sim OU não, pelo isso OU aquilo. O que impede a pessoa de sair de uma ópera direto direto para um café que toca música cubana? A lendária banda Scorpions (sim, eles ainda existem) compartilha a mesma bilheteria de ingressos que aquele maestro com estampa de canastrão, o André Rieu. Uma violoncelista célebre e o Coldplay podem jantar no mesmo restaurante que as pessoas não se ofendem ou tomam partido como se fossem torcedores fanáticos de clubes de futebol adversários.

É que eles sabem que o mundo é, na verdade, analógico. A digitalização traz conforto e simplicidade sim, mas para para não se perder informações importantes é preciso de muito mais dedos do que sonhamos ter. Por que teimar em digitalizar tudo, categorizar os gostos em bom ou ruim, certo ou errado, feio ou bonito, brega ou chique, culto ou popular, 1 ou 0?

A ideia não é decidir o que as pessoas têm que gostar ou não. A ideia é justamente explorar as infinitas nuances que o analógico permite; prover o maior número possível de opções e variações para cada um escolher o que quer, sem ter que abrir mão de nada.

Parece que tem um povo que anda meio esquecido disso, mas não custa lembrar: gente, a vida não é digital; a vida é analógica, com todos os ruídos e imperfeições que isso implica. E com todas as infinitas possibilidades também.

_______

* NOTA 1: Nunca tinha visto ninguém tocando um órgão antes. A moça, de 22 anos, virtuose consagrada e ganhadora de vários prêmios, senta num banco comprido e toca com as mãos os 4 andares de teclado; os pés operam um quinto teclado, que fica no piso do instrumento. Pois ela sapateia, faz moonwalk e dança mexendo o corpo todo enquanto toca; teve uma peça que ela tocou inteirinha só com os pés. Analógico no último…

NOTA 2: Sim, é claro que o controle interno do instrumento devia ser eletrônico. Antes dos comentários óbvios, quero dizer que estou usando aqui os sistemas analógico e digital apenas como metáfora, ok?

28 jan

Pena que meu trabalho secreto dificultou tirar muitas fotos lá no brechó Humana, mas as estampas das décadas passadas me deixaram fascinada. Não pude deixar de me lembrar da minha querida amiga Renata Rubim, a mulher mais florida que conheço…rsrsrs. A Renata iria surtar naquele lugar, certeza.

Olha só quanta variedade; não é de fazer os olhinhos rodarem?

27 jan

Como eu já tinha comentado, o quente aqui são as coisas de segunda mão. Com roupas não é diferente. Pessoas realmente descoladas e que ditam tendências, não se vestem nas H&M, Zara e C&A da vida (como eu); nem nas Gucci ou Prada (isso é para turistas). Elas querem coisas originais; então vão nos brechós.

Tem muita roupa para vender nos flohmärkte, mas nos brechós é que a coisa esquenta mesmo. Tem os exclusivos, especializados em peças vintage (bem caros, por sinal) e os mais populares. A rede Humana tem 13 lojas em Berlin (e mais meia dúzia em outras cidades), mas a top mesmo é a da Torstraβe, com 5 pavimentos!

Hoje fui dar uma voltinha por lá com minha câmera secreta (acho que vou estudar jornalismo; descobri que adoro essa vida de repórter), já que, como em todas as lojas, é proibido fotografar, mesmo se for para fazer propaganda a favor (vai entender….).

Essa loja da Humana é como qualquer loja de departamentos, só que mais despojada na infraestrutura (acho que faz parte do conceito); os cartazes são de papel escritos à mão, assim como as etiquetas. A loja é decorada com algumas colagens de revista, bem alternativa mesmo. Mas também muito organizada; é tudo separado por cores (como no meu guarda-roupa, quando eu tiver um…rsrsrsr). A principal diferença de uma loja de departamentos comum é que não tem duas peças iguais, são todas diferentes.

No térreo fica a seção feminina; primeiro andar, mais roupas de mulher e crianças. No segundo, roupas masculinas e calçados. No terceiro, tem de tudo: cortinas, lençois, louças, toalhas de banho, brinquedos, livros, discos, CDs, patins, bolsas, cintos, material de escritório, vestidos de noiva, utensílios domésticos variados e tudo o mais que você possa imaginar. No último é a sessão vintage: as roupas estão separadas por décadas: 50, 60, 70 e 80. Mesmo que você não compre nada, é um passeio e tanto.

Os preços variam muito (claro, tem camisetas de € 4, como na H&M, mas também casacos de pele ou couro de € 350); entre uma coisa e outra, há de tudo. Vem comigo!

Fachada do parque de diversões

Tudo separado por tipos e cores

Acho que é aqui que o Augustinho da Grande Família compra as camisas

É muita estampa bacana

Como não se divertir num lugar desses?

Tinha gente às gargalhadas experimentando de tudo

Vestidos de noiva horrorosos, acompanhados de soutiens pretos (?!)

Sim, também dá para comprar calcinhas ultra modernas (e pijamas, cuecas, meias, louças, tapetes, toalhas, brinquedos, enfeites, camisolas, cortinas, enfim, tudo para o seu enxoval)

Blusinhas fofas que eu jamais usaria

Onde mais você encontraria esse belíssimo vestido verde e o macacão no melhor estilo Dancing Days? O incrível é que ele é todo forrado de pele por dentro...

Ainda tem mais um montão de fotos, mas iria ficar pesado postando aqui. Quer ver todas? Clica aqui e vai lá nomeu Flickr!

26 jan

Aiaiai… acordar no escuro, com -6 ºC para ir à aula é muita vontade de aprender alemão, né?

Mas tem suas vantagens (além das óbvias, claro). É muito interessante observar a passagem do tempo aqui na parte de cima do mundo. É que quanto mais perto da linha do Equador, mais os dias e as noites têm a mesma duração. Quanto mais longe, mais o dia difere da noite, dependendo da estação do ano.

Na Patagônia, bem lá embaixo, já dava para ver que no verão só escurecia às 10 da noite (estamos mais ou menos na mesma latitude, só que para cima). Nos casos mais extremos, como a Finlândia e a Groelândia, bem pertinho do polo norte, praticamente metade do ano é dia (o sol da meia noite) e metade, noite (onde acontece a Aurora Boreal).

Aqui a gente não está tão alto, mas a passagem do tempo fica muito mais clara e as estações, mais definidas. Depois do solstício de inverno (22/23 de dezembro), onde acontece a noite mais longa do ano, o dia começa a ficar um pouquinho mais comprido todo dia.

Em dezembro, às 15h30 já estava escurecendo, e o sol só nascia depois das 8 da matina. Do solstício para cá, todo dia a noite fica um ou dois minutos mais curta. Parece pouco, mas em um mês é quase uma hora a mais de luz.

Antes, eu só via o sol nascer da janela da sala de aula. Agora dá para vê-lo na conexão do metrô, indo para a escola.

Parece bobagem? Talvez. Mas penso que no Brasil, onde as estações não são muito diferentes e o dia não muda tanto assim durante o ano, a gente sente menos a passagem do tempo.

Aqui é sempre diferente; a temperatura vai mudando sensivelmente; as árvores ficam verdes, depois alaranjadas e, por fim, peladas, para começar a brotar novamente na primavera, uma folhinha de cada vez. O sol, esse senhor da vida, nunca passa despercebido. E a gente fica mais atento para não perder nosso precioso tempo com bobagens. A coisa anda, e rápido.

Nosso lugar no espaço, as mudanças do mundo e a finitude da vida, vistos daqui, são mais claros. O que, a meu ver, faz um bem danado para a gente aproveitar melhor o dia.

Carpe diem para vocês também!

26 jan

O Jr. Guimarães me mandou uma dica muito legal: uma coleção de vasos com retratos. Fica bem engraçado, pois parece que as plantas são os cabelos. Pena que aqui em casa a maioria ia ficar careca logo…rsrsrs…

O link que ele me mandou foi esse aqui, mas o original é esse aqui.

24 jan

Fotografia: Rankin

Oliver Sacks é um dos neurologistas mais famosos do mundo. Em parte devido ao seu brilhantismo acadêmico; em parte pelo seu talento em explicar coisas complicadas para pessoas comuns. Oliver escreveu vários livros contando e explicando casos muito interessantes sobre como a cabeça da gente funciona.

The Mind’s Eye” é a mais nova cria desse senhor incansável. Aqui ele fala sobre como nossos olhos conversam com nosso cérebro e o que acontece quando uma das partes não está funcionando como deveria.

Ele começa contando a história de Lilian Kallir, uma célebre pianista que subitamente começou a ter dificuldades para interpretar as partituras. Fenômeno semelhante aconteceu também com a leitura; ela enxergava perfeitamente as letras, mas não conseguia juntá-las (nossa, para mim, isso parece filme de terror). Incrivelmente, a pianista continuava a escrever sem nenhum problema. Com o tempo, Lilian começou a ter dificuldades também em reconhecer formas e infelizmente a doença, causada por uma anormalidade na área do cérebro responsável pela integração de símbolos, não tem cura. Lilian continuou a ter uma vida razoavemente normal graças aos anos de treino que permitiram que ela continuasse tocando piano de memória. Essa trágica disfunção tem o poético nome de alexia (do grego: a= negação e lexia= palavra) e acontece depois que a pessoa já domina a leitura e escrita; sua prima mais popular é a dislexia (onde a dificuldade aparece durante o aprendizado e a pessoa mistura as letras).

O próprio Oliver confessa que não consegue reconhecer rostos de maneira nenhuma; ele percebe um nariz, uma boca, mas não consegue juntar tudo num quadro só. O autor ainda é capaz de identificar faces de pais e irmãos, mas relata casos em que a pessoa não reconhece sequer o cônjuge ou os filhos (a doença é conhecida como Face Blindness, ou cegueira facial). O relato do próprio autor e as cartas dos pacientes descrevem as sensações estranhíssimas que se sente numa situação como essa, em que ninguém no mundo parece familiar. O pior é que 2% da população já nasce com propospagnosia, que é o nome técnico do negócio. E ninguém ouve falar, né? Deve ser porque pouca gente acredita que a pessoa simplesmente não consiga reconhecer faces. Reveja aí seus conceitos antes de acusar alguém de seachismo, heim?

Oliver conta também que sempre foi fascinado pela capacidade que o olho humano tem de perceber o espaço tridimensional (chamada estereoscopia), a ponto de ser um dos membros mais ativos da Sociedade Americana de Estereoscopia, que se dedica a estudar o fenômeno — agora muito mais popular com o realismo do cinema 3D. Mas para isso acontecer, a gente precisa dos dois olhos funcionando direitinho; com um só já não configura mais visão estéreo e a pessoa enxerga tudo chapado, como se fosse um plano só.

Pois não é que aos 72 anos ele teve um melanoma ocular e acabou perdendo a visão do olho direito? Os relatos sobre a experiência são impressionantes; nunca tinha me ocorrido que uma pessoa que só enxerga de um olho não consegue avaliar distâncias. Além disso, se perde a visão periférica, fica sem perceber o que acontece bem do seu lado, sem dizer que os corpos ficam aos pedaços (a pessoa parece que tem as pernas ou braços cortados quando não se consegue vê-la inteira). Bem complicado mesmo.

A última parte conta histórias de gente que ficou cega em momentos diversos da vida e como o cérebro se adaptou para conviver com esse novo cenário.

Há o caso do professor John Hull, que foi perdendo a visão aos poucos até ficar completamente cego aos 35 anos. Convencido de que imagens não faziam mais parte de sua vida, ele parou de pensar nisso e começou a desenvolver uma nova maneira de “ver” baseado nos outros sentidos. Essa nova construção mental não tem nenhum paralelo com a visão, e parece funcionar perfeitamente para ele, que não vê mais nada nem mesmo em pensamento, e se esqueceu completamente o que vem a ser cores e tudo mais.

Já o psicologista australiano Zoltan Torey, cego aos 21 anos de idade por causa de um acidente, continua completamente visual. Ele diz que os outros sentidos contribuem para que ele consiga construir mentalmente a imagem física que as coisas têm e o sucesso é tão grande no método que o sujeito conseguiu consertar o telhado sozinho, para espanto e pavor dos vizinhos. Zoltan conta que sempre teve facilidade em imaginar cenários detalhados e que sua infância foi muita rica em fornecer combustível para histórias.

E ainda tem Sabrine Tenberken, uma alemã destemida que viajou sozinha por todo o Tibete construindo escolas para cegos. Ela mesma parou de enxergar aos 12 anos; antes disso, adorava pintar e desenhar. A técnica que ela usa para compensar a falta da visão é usar os outros sentidos para inventar um cenário ou aparência bem detalhados que ela imagina serem mais bacanas para compor a realidade.

Enfim, Oliver mostra que não há um padrão para lidar com a cegueira ou à limitação de visão; cada pessoa encontra o seu caminho para fazer as coisas funcionarem e adaptar seu cérebro para mantê-la viva, atuante e interessada.

Já contei aqui minha experiência inesquecível ficando artificialmente cega por algumas horas e tomara que nunca venha a saber como isso acontece de verdade.

Tudo isso parece meio sem sentido, mas penso que quem estuda criatividade e inovação precisa tentar conhecer e aprender outras maneiras de ver o mundo.

Então, vai aqui uma dica: até agora, o método mais indolor que conheço é lendo Oliver Sacks. Vai lá.

22 jan

Berlinerinen quer dizer, em tradução livre, mulheres berlinenses. Pois são elas que estão me inspirando ultimamente para desenhar. Essa série fiz no iPad usando fotos que tirei dos muros da cidade como fundo. Vou imprimir algumas para fazer posters (quem quiser comprar que se apresente…ehehehe).

Que tal?

21 jan

Uma coisa que dá para notar claramente é que os europeus são muito menos consumistas que nós, brasileiros. Eles não se importam de repetir roupa por dias seguidos, mas não vi ninguém cheirando mal, nem no metrô lotado. Aqui perto de casa fica o centro comercial da cidade no quesito lojas de grife; elas vivem lotadas, mas sempre são turistas.

Uma tradição que o povo aqui adora são os brechós. São muitos e estilosos; qualquer dia vou fazer um apanhado dos mais bacanas. O chato é que se você tem uma câmera profissional e parece jornalista, é capaz até que eles deixem tirar fotos; mas com a minha maquininha furreca, fica claro meu amadorismo (curso de fotografia: meta para 2013).

Mas me encantei esses dias foi com um brechó especializado em sapatos, que nunca tinha visto.

Pena que era domingo e não deu para entrar. Mas os sapatos pareciam novinhos e o estabelecimento era puro charme. Será que a ideia pegaria no Brasil? Eu adorei; qualquer dia volto lá para olhar direito.

Olha que lindos os desenhos na frente (como não lembrar da Andréa?)

A porta lateral não fica por menos; até que foi bom a loja estar fechada.

Tudo parece bem novinho

Eu quero um sapato amarelo!

19 jan

Estamos tendo aula de política e aproveitei para dar uma geral no vocabulário; cheguei à concusão que se a gente usar os mesmos nomes que eles usam ficaria muito mais adequado à nossa realidade, olha só.

Tem um partido aqui que se chama FDP. Devia estar no Brasil, né?

STATIST não é estadista não; é comparsa.

RAT é conselho. Se fosse bom não tinha esse nome, não é mesmo?

BUNDES é a união dos Estados; daí é que sai o BUNDESPRÄSIDENT, o

BUNDESRAT, o BUNDESTAG, o BUNDESMINISTER e tudo mais. Aqui, tudo no governo é BUNDES!

Essa o Fernandinho Beiramar vai gostar. Sabe como é presidência? PRÄSIDIUM (e olha que o ä tem som de é)

Pena que a gente não tem nenhum político chamado ERNST; esse sim, seria sério.

Discurso é REDE (realmente, se a pessoa ouvir com atenção, fica preso)

FUND lá nunca é perdido, uma vez que é achado.

E olha como eles assumem as coisas: Federação é FÖDERATION!!

***

Tem bastante coisa engraçada, mas vou separar por assuntos.

19 jan

Fazia tempo que eu não postava exemplos de empresas com crise de identidade (dizem uma coisa e mostram o contrário). Olha só essa pérola que recebi por e-mail da Luiza Silva (não, essa não estava no Canadá…rsrsrs).

Se até o Obama confia nesse sujeito engraçadinho que só fala a verdade e preza pelos princípios éticos do uso da imagem alheia, por que você não confiaria, né?

Pode ir, é Batata!

** Ele devia ter colocado “Criatividade & Trabalho“. Minha sugestão…

18 jan

Gente, o mundo está virado numa confusão mesmo. Olha só essa galinha, garota-propaganda de um restaurante; em vez de ovos, ela bota… abóboras? E essas aí ainda devem ser de “pais” diferentes, repare bem a variedade.

Qual será a mensagem, que não consegui captar?

Ideias?

Menina em estado de choque: ela olha e não acredita!

Sim, aqui está bem frrrrriooooo…..

17 jan

Esperei um tempo para postar as fotos do corpo de bombeiros do bairro Kreuzberg aqui em Berlin porque achei uma coisa tão sensacional que merecia uma apreciação à parte.

Já mostrei aqui e aqui algumas obras e paisagens que vi caminhando pelas ruas, paraíso da street art. Pois nem os bombeiros escaparam do bom-humor que impera no lugar.

Vê se tem como não amar…

Ai, fortão, vem me salvar!

Muito medo desse bombeiro...ehehehe

Caminhão lindão: inspiração nos sonhos de criança

Conhece alguma porta mais estilosa que essa, com ameba explodindo e tudo?

Igualzinho nos melhores (e piores) filmes!

Não podia faltar uma loira gostosona sendo salva pelo herói :)

Para o pessoal que gosta de brincar de carrinho

17 jan

Alguém pode me explicar essa embalagem bizarra de lenços umedecidos que acabei de encontrar no supermercado? Estou rindo até agora.

Os dizeres “Você já beijou hoje?” acompanhando uma foto de uma moça beijando um bumbum masculino são tão, tão, tão….sei lá… fiquei sem palavras…  talvez seja uma campanha para as pessoas beijarem mais essa parte do corpo, vai saber.

Pelo jeito, designers e publicitários “geniais” existem no mundo todo… :)

16 jan

Fonte: Smashinghub.com

What the dog saw“é o mais novo livro do Malcom Gladwell (já falei do moço aqui) e reúne suas melhores colunas no jornal The New Yorker, onde escreve desde 1996.

O livro é dividido em três partes: a primeira fala de pioneiros, obsessivos e outras variedades de gênios menores e é o conjunto de textos que mais gostei. Ele relata histórias de pessoas comuns, porém, bem-sucedidas no que fazem, e tenta entender o que passa pela cabeça delas no processo de tomada de decisão.

Uma das mais interessantes conta a história de duas publicitárias e o impacto de seu trabalho na indústria da tintura de cabelo, bem como o papel dessa indústria no movimento de libertação das mulheres. Não faz muito tempo, quem pintava o cabelo era “mal-vista” e considerada “fácil” ou rebelde; moças de família não faziam esse tipo de coisa. Pois Shirley Polykoff, uma publicitária judia e muito à frente de seu tempo, achava muita injustiça as pessoas não poderem ter os cabelos da cor que desejassem.

Quando pegou a conta da empresa Miss Clairol, que tinha desenvolvido uma fórmula clareadora menos agressiva, Shirley bolou o lendário slogan “Does she or doesn’t she?” (uma brincadeira com ser ou não ser, onde a pessoa se pergunta se ela é ou não é “tingida“, uma vez que a tintura era tão perfeita que não havia como saber). Shirley dizia que, se ela só tinha uma vida para viver, preferia passá-la loira (certa ela).

Depois veio Herta Herzog, que era, na verdade, líder de um grupo de estudos da Universidade de Viena, cujo trabalho tentava entender as motivações das pessoas e seu comportamento social usando todas as ferramentas disponíveis da psicanálise. Herta fez pesquisas de campo e descobriu a relação estreita entre o movimento feminista e a grande revolução de comportamento que estava acontecendo nos anos 60 nos EUA. Depois de muito pesquisar, descobriu que pintar os cabelos representava uma espécie de prática libertadora que nada tinha a ver com armas de sedução enfatizadas por Miss Clairol. E trouxe, para a L’Oreal, a campanha “Porque eu mereço” (se ela visse o ridículo que são as propagandas dubladas no Brasil morreria de vergonha alheia), onde a mulher não estava mais focada em conquistar ninguém, mas em seu próprio e merecido bem-estar e independência. Há uma discussão bem interessante sobre o tema e seus desdobramentos, até porque Herta ainda vive e foi entrevistada pelo autor.

Outra história que me chamou atenção foi a que deu o título ao livro, sobre a história de Cesar Millan, o famoso “encantador de cães” da National Geographic (adoro!).  Malcom queria entender o que é que os cachorros viam em César para ficarem tão hipnotizados e submissos quando ele entrava em ação.

O autor explica que o antropologista  Brian Hare fez experimentos e concluiu que os cachorros são os animais mais interessados em seres humanos que existem. Eles realmente ficam fascinados com a nossa presença e não perdem nenhum movimento nosso; uma espécie de fã no nível mais descontrolado mesmo.

O autor pesquisou mais um pouco e descobriu que aí é que está o segredo: César se move como um bailarino, segundo a análise de duas coreógrafas e estudiosas da dinâmica e expressão corporais. Ele tem perfeito domínio sobre seu centro de gravidade (César é baixo e forte), além de mover seu corpo de maneira a comunicar sem equívocos o que quer e o que pensa; sua expressão facial também está sintonizada com o resto. Os cães ficam literalmente encantados com essa segurança, que é tudo o que sonham em seus devaneios caninos.

Tem ainda a longa e fascinante história da invenção da pílula anticoncepcional por um católico fervoroso (sim, você não leu errado) que acreditava (pelos motivos errados) que esse era um método rigorosamente natural, de maneira que nunca compreendeu a rejeição de sua própria Igreja. Vale a pena ler com calma, pois as surpresas são muitas.

A segunda parte fala de teorias, predições e diagnoses, onde ele conta sobre os erros que levaram a Enron a falir e a levar junto tantos acionistas; os paradoxos da inteligência e a diferença entre choque e pânico, entre outras histórias bem interessantes.

A terceira parte fala sobre personalidade, caráter e inteligência. Ele discorre sobre gênios precoces e tardios, investiga algumas características da mente criminosa e discute até sobre o que revelam comportamentos em entrevistas de emprego.

Mas olha, vou confessar que só leio Malcom Gladwell porque ele fala de assuntos realmente fascinantes e é um pesquisador de respeito; sempre se aprende (e se surpreende muito) com as obras dele. Mas o moço bem que podia achar um jeito mais interessante de falar tanta coisa bacana e não desperdiçar palavras; a redação do moço é chata de doer, maçante até não poder mais.

Pois agora: será que os cachorros também acham?

15 jan

Aqui, as janelas do metrô, trem, ônibus e bonde são todas estampadinhas com um desenho estilizado do portão de Brandemburgo (os ônibus de Floripa podiam ter a ponte, né?).

Penso que essa é uma ótima ideia para consolidar a marca da cidade e fica bem charmoso. Além disso, dá uns efeitos bem bacanas quando uma mané deslumbrada tira fotos do por-do-sol de dentro do trem… vê se não é mesmo!

15 jan

Kreuzberg é um bairro tão cheio de surpresas que a gente fica meio desorientado sem saber direito para que lado olhar e com medo de perder alguma coisa. Grandes nomes do street art mundial estão lá, inclusive nossos queridos Osgemeos que só fazem encher a gente de orgulho por onde passam.

Segue uma amostra grátis do negócio.

Dois relógios amarelos e uma cabeça de chaminé...

Esse muro da frente tem 2 m de altura. Imagina o tamanho da tela.

Orgulho de ser brasileira como Osgemeos

O povo não perdoa uma parede (e nem tudo fica bonito)

Esse astronauta é famoso, pois à noite a luz do escritório da frente reflete e causa um efeito interessante.

Sehr sofisticado...

Assustador...

Nesse jardim-de-infância, nada de branca de neve

Parece mesmo desenho de criança

Até as lojas entram na brincadeira

Quer ver todas? Clica aqui e vai lá no Flickr!

15 jan

Apesar de eu estar morrendo de gripe (são 2 litros de água por hora que saem do meu nariz), hoje o dia amanheceu tão lindo e ensolarado que não deu para ficar em casa. Vesti meu Michelin (aquele casaco fofo e horrível que faz a gente parecer o boneco do comercial da Michelin Pneus) para enfrentar os -2 ºC e fui ser feliz em Kreuzberg, o bairro turco.

Kreuzberg é conhecida como “a pequena Istambul” porque a partir de 1959, quando as empresas alemãs começaram a crescer e a enfrentar falta de mão-de-obra, o governo facilitou a imigração de trabalhadores vindos da Grécia, Espanha, Turquia, Portugal, Marrocos, Túnis e Yugoslavia. Esse povo ganhou visto de trabalho e cidadania alemã.  Em 2000 chegou outra leva de imigrantes turcos, pois a Alemanha ofereceu asilo para as vítimas do grande terremoto de 1999. O resultado é que 10% da população de Berlin é de origem turca e quase 4% da população alemã vêm de lá também.

Fazia tempo que eu queria andar por aquelas ruas com mais calma, mas faz semanas que só faz chover (nada de neve ainda). Imaginem um bairro completamente coberto por street-art (aqueles grafites de rua) de todos os tamanhos, cores e formas. A gente não sabe nem para que lado olhar. Sem contar os inúmeros restaurantes árabes, turcos, indianos, sudaneses, tailandeses, tunisianos, yoguslavos e de outros países que nem sei pronunciar o nome. Pena que era domingo e estava tudo fechado, além de ser inverno. Imagina só num dia se semana de verão, como isso não deve ferver…

Tem como não amar um lugar tão lindo, colorido e cheio de vida?

As fotos são tantas que vou fazer vários posts, separados em temas, tá? Vem comigo dar uma voltinha para conhecer Kreuzberg.

Fiquei um tempão esperando o trem passar para compor o amarelo. Quase deitei ao lado dela...

Você conhece alguma loja de sapatos usados mais charmosa que essa?

Adorei essa vitrine...

Haroldo, é você?

Uma surpresa em cada esquina

Loucura, loucura, loucura!!

Tantas cores que eu nem sei o nome...

Imagina no verão, cheio de mesas na calçada?

Chora não, moça, outro dia eu venho de novo...

Quer ver mais fotos? Clica aqui e vai lá no Flickr.

13 jan

Uai, esse aí tentando passar por mineiro, é, na verdade, turco…

Reza a lenda que o Döner Kebap foi inventado por turcos aqui em Berlin para agradar ao paladar dos alemães (10% da população da cidade é turca).

Eles empilham fatias de carne em um espeto gigante e vão cortando as beiradas. Depois embrulham junto com salada numa folha de pão e fica uma delícia. Mas que essa escultura de carne é bem bizarra, ninguém pode negar…