Arquivo de agosto, 2012

31 ago

Meu querido ex-orientador de mestrado, o Vitório Mazzola, me mandou uma imagem pelo Facebook tão bacana que fui procurar a fonte correndo, de tão fascinada. Olha que ideia mais original os arquitetos/designers Denise Braga e Pablito Leyvio bolaram: uma cadeira de praia com a cara do Brasil! Puxa, nunca vi alguém traduzir tão bem o nosso país, de uma maneira tão elegante e sem usar aqueles estereótipos tão batidos que a gente está cansado de ver.

Nem sei como isso ainda não ganhou nenhum prêmio e as peças não viraram febre em toda a orla. Na minha opinião, é uma das peças de mobiliário mais geniais que vi nos últimos tempos!

E você, o que acha?

Obrigada, Vitório!

30 ago

A maioria das estações de metrô é padronizada e muito parecida, mas algumas são tão especiais (não consegui descobrir o critério ainda) a ponto de serem decoradas por artistas convidados.

Já tinha postado a U-Bahn Station Deutsche Opera aqui; estou tão encantada, agora que comecei a prestar mais atenção, que vou criar uma categoria Estações de Metrô para postar as novas que eu for descobrindo aqui e acolá.

Agora é a vez de mais duas: Rohrdamm e Jungfernheide, ambas da linha U7 e construídas em 1980 pelo mesmo arquiteto, o alemão Rainer G. Rümmler.

Não são lindas?

29 ago

Gente, está uma febre de bubble tea por aqui que só vendo. Todo dia abre uma loja nova de alguma das franquias já existentes. Pois é, uma das franquias se chama Boba (como já mostrei aqui). Pois agora chegaram duas concorrentes de peso: BoboQ (não consigo evitar de ler “boboca”) e Let’s Boba (Hã?).

Veja com seus próprios olhos:

Minha conclusão é a seguinte: eles estão usando esse nome como doidos porque é sonoro e se parece com a pronúncia de “bubble” que são as tais bolhas que vão no chá. Você já experimentou? É como um sagu gigante que eles colocam no kissuco que eles chamam de chá. É tamanha química que dá até medo de ver o tanto de máquinas que a moça usa para preparar o elixir, além de ser caro.

Posso dizer porque já experimentei: eita negócio mais bobo mesmo….ehehehe

28 ago

Fotografia: Su Blackwell

Isso aconteceu de verdade esses dias, e queria compartilhar para não esquecer. Foi tão lindo…

Estava no metrô indo para a aula (e lendo), quando uma borboletinha amarela pousou na página aberta. Levei um susto e tentei pegá-la (metrô não é lugar de borboleta!). A pobre voava que nem louca, tentando sair do vagão. Um moço tentou espantá-la, mas a maioria queria era capturá-la para acabar logo com a agonia da lindinha. Bom, passaram-se várias estações com várias pessoas tentando espantá-la quando a porta abria, mas a bobinha nunca conseguia.

Acabei voltando para o meu livro, quando uma senhora cutucou meu ombro. Ela estava mostrando que uma menina tinha conseguido pegar a borboleta e a estava guardando para quando as portas se abrissem ela pudesse levar a pequena passageira voadora para fora da estação, libertando-a.

Quando o metrô parou e a menininha saiu com as mãos fechadas em concha, todo mundo bateu palmas e eu fiquei com vontade de chorar. A borboletinha já tinha cumprido seu papel, que era de aproximar as pessoas e mudar seu dia.

Enquanto as borboletas existirem, ainda tem esperança para esse mundo. Eu acho.

27 ago

Fotografia: Romain Laure

Quando comecei a aprender alemão tinha um povo que dizia que ia ser fácil, pois tinha muita coisa parecida com o inglês. Não sei de onde tiraram essa ideia!

Só porque Mutter e Mother, Vater e Father têm pronúncias parecidas, não quer dizer que as línguas tenham algo em comum.

E o que elas mais têm de diferente entre si é a maneira de estruturar a frase. Em inglês, a gente fala mais ou menos como no português: “Eu tiro a roupa quando chego em casa” ou “I take off my clothes when I get home“.

Mas em alemão fica mais ou menos assim: “Eu ro minha roupa ti, quando eu em casa chego” (Ich ziehe meine Kleidung aus, wenn ich nach Haus komme). Parece até brincadeira, né?

Pois olha só mais exemplos de como o inglês e o alemão são “quase” a mesma coisa.

***

1) Se um alemão lhe oferecer um Gift, não aceite.

GIFT (inglês) = presente

GIFT (alemão) = veneno

***

2) Você olha uma placa e está escrito AUSGANG. Olha no dicionário e aprende: Ausgang é saída. Anda mais um pouco e vê outra placa: NOTAUSGANG. Ora, nem precisa olhar de novo no dicionário, é claro que é para não entrar, certo? Errado. Notausgang é saída de emergência em alemão!!

NOT (inglês) = não

NOT (alemão) = necessidade extrema, emergência

***

3) Moças, se um alemão chamarem vocês de Angel, isso não é um elogio, ok? Não em alemão…

ANGEL (inglês) = anjo

ANGEL (alemão) = vara de pesca

***

4) Um rapaz fortinho diz para você que é Turner, você logo pensa que ele trabalha como torneiro, certo? Não se o rapaz for alemão…

TURNER (inglês) = torneiro

TURNER (alemão) = ginasta

***

5) Se alguém lhe disser que você parece Herb, não pense que a pessoa está falando em ervas…

HERB (inglês) = ervas

HERB (alemão) = áspero, seco

***

6) Para acabar: se você vê a palavra man em uma frase em alemão, logo pensa que é um homem fazendo alguma coisa, não é? Pois homem em alemão é Mann.

MAN (inglês) = homem

MAN (alemão) = a gente (ou o pronome indefinido da terceira pessoa, como, por exemplo o “se” em português em “sabe-se, ouve-se, diz-se”).

***

E aí, prontos para a prova?

27 ago

Depois do intervalo da aula, eis que olho para meus pés e vejo isso:

Pois é, enquanto me arrumava, fiquei na dúvida sobre qual sapato usar. Acabei me distraindo com outra coisa e me esqueci de decidir. Saí assim mesmo, sem perceber.

O engraçado é que na ida, como não tinha notado, fui bem desligada, lendo meu livrinho. Na volta fiquei mais atenta às pessoas e aconteceu três vezes, todas com mulheres: elas olhavam para meus pés, davam uma risadinha disfarçada. Eu olhava para elas, ria também e estava estabelecida uma conexão, quase uma cumplicidade. Teve uma senhorinha que, inclusive, puxou conversa e disse que ela já tinha feito isso.

Gente, não seria esse um meio criativo de aproximar pessoas? Sair com alguma coisa trocada ou faltando para provocar o contato com o outro de maneira completamente desarmada? Já reparou que quando alguém está com a bolsa aberta ou deixa cair algo no chão, todo mundo corre atrás tentando um contato?

Talvez essa possa ser uma boa estratégia em encontros de negócios para aproximar e desarmar as pessoas; você expõe uma pequena fraqueza (mas pequena, tá?) para a outra parte se identificar e, talvez, solidarizar-se. Aí a conversa já começa animada e aberta. Pode ser uma boa ideia.

Vou pensar mais a respeito, e vocês?

26 ago

Continuando a coluna anterior, em que falava do livro “How to find  fulfilling work“, de Roman Krznaric, vou compartilhar alguns dos exercícios que ele propõe e que achei muito interessantes.

O primeiro se chama “mapa de escolhas”, que consiste em desenhar o mapa da sua carreira. Nele, você indica todos os trabalhos que já teve e as diferentes motivações e forças que definiram sua rota em cada ponto (ex: escolhas educacionais, expectativas dos pais, aconselhamento de um profissional, oportunidade que surgiu, etc).

Esse aí é o meu exercício, com os trabalhos mais importantes.

Agora olhe seu desenho: você consegue ver algum padrão, algo que sempre foi mais relevante para nortear suas escolhas? Que motivações sempre pesaram mais: dinheiro, status, respeito, paixões, talentos, pessoas? Quais dessas motivações você quer priorizar no futuro?

No meu caso, já desconfiava, mas agora tive certeza: minha principal motivação é aprender, de preferência com gente bacana. É claro que também quero ganhar dinheiro, mas já recusei salários maiores porque não tinha muita perspectiva de aprender ou porque a equipe não era amigável (num dos casos, na entrevista, a pessoa me disse que a principal característica do grupo é que eles eram muito competitivos — eu não sou nada competitiva, iria me dar muito mal).

Agora outro, mais bacana: imagine 5 universos paralelos; em cada um deles você tem uma profissão diferente que gostaria de experimentar. Quais seriam elas?

Bom, aqui fui bem conservadora e pouco criativa, pois coloquei algumas coisas que já faço, mesmo que de maneira amadora, como ilustração. Também adoro ser palestrante, por isso vou continuar fazendo esse trabalho no Brasil e não pretendo desistir dessa carreira. Se eu conseguisse ganhar algum dinheiro escrevendo também seria ótimo. Mas ok, a ideia é começar a explorar possibilidades, sempre dá para refazer o exercício quando surgirem novas ideias. Também achei importante destacar o que me encanta em cada um desses universos, mas fica a seu critério colocar mais informações.

Agora, outro exercício desafiador: faça uma propaganda de você mesmo, descrevendo seus talentos (ex: você fala japonês e toca guitarra), suas paixões (ex: cultivo de orquídeas e coleção de carros de modelismo), causas em que você acredita (ex: proteção animal ou ambiental) e suas características pessoais (ex: impaciência, vaidade, sabe guardar segredos).

Depois, mais algumas coisas que sejam importantes, como o mínimo que você gostaria de ganhar ou o local de trabalho. Atenção: não coloque sua qualificação educacional ou trabalhos anteriores e nem se auto-elogie. Não conduza a propaganda para uma determinada carreira, tente ser o mais neutro possível.

Olha aqui a minha.

É uma propaganda, por isso saí assim, bonitinha...ehehe

Agora faça uma lista de 10 pessoas que você conheceu em diferentes estágios da vida e envie esse “anúncio” para algumas (poucas) em que você confia. Peça para elas sugerirem duas ou três carreiras que poderiam se adequar a esse candidato (por favor, não mandem para mim, não estou conseguindo dar conta da correspondência normal).

Peça para que elas sejam específicas; em vez de “trabalhar com crianças”, melhor seria dizer “trabalhar num projeto social com filhos de presidiários no RJ”.  Essa é uma fonte muito interessante de ideias que podem ser exploradas; com certeza, algumas jamais teriam passado pela sua cabeça.

Olha, taí um exercício bom para todo mundo fazer, pois dá uma organizada no que é mais importante para a gente e pode dar origem a ideias originais. Fique à vontade para me sugerir carreiras, ok?

E agora sim, vamos todos voltar ao trabalho que amanhã já é segunda-feira outra vez.

24 ago

Lá fui eu devorar mais um livrinho da coleção mais caprichada do mundo.

Gente, como não amar uma série de livros de bolso encadernados com tecido brilhante e fitinha de seda para marcar? Como boa malandra recém alfabetizada, estou escolhendo os mais magrinhos, mas minha meta é devorar todos eles, sem dó nem piedade!

A história da vez é “Monsieur Ibrahim und die Blumen des Koran” (algo como “Seu Ibrahim e as flores do Corão“) contada por um autor francês, Eric-Emmanuel Schmitt (estou preferindo livros traduzidos, pois os alemães “da gema” têm um jeito muito complicado de pensar que se reflete na escrita).

O romance conta a história de Moses, um menino que vive sozinho com o pai depressivo (a mãe abandonou ambos quando ele ainda era neném), que ignora completamente a existência do filho. Moses é esperto, mas compreensivelmente carente e inseguro.

Em suas andanças, acaba ficando amigo de um árabe muçulmano que tem uma quitanda no bairro. A amizade deles é cheia de casos engraçados, mas com sacadas bem bacanas.

Seu Ibrahim ensina várias coisas para o menino baseado no Corão, que ele interpreta e adapta segundo sua conveniência e bom senso. A primeira coisa que o menino aprendeu é que sorrir não é um luxo só para ricos, como pensava; é a chave para abrir o coração das pessoas. Moses vira puro charme e muda quase tudo à sua volta só com esse gesto simples.

Tem uma passagem bem interessante sobre o lixo (eles fazem uma longa viagem juntos). Seu Ibrahim fala que se você passa por um lugar e não há nem latão e nem lixo espalhado, é porque as pessoas que moram lá são muito ricas. Se tiver somente latões, mas nenhum lixo, as pessoas não são ricas nem pobres. Se tiver lixo, mas nenhum latão, as pessoas são pobres. E se as pessoas estiverem no meio do lixo, aí são miseráveis. Se a gente prestar atenção, é bem verdade. Interessante abordagem, né?

Outra do Seu Ibrahim, disparada quando Moses, que está dirigindo, tenta pegar uma auto-estrada: “as auto-estradas dizem ‘vá em frente, aqui não tem nada para ver’. Elas são para idiotas, que querem ir o mais rápido possível de um ponto ao outro. Nós não estamos fazendo geometria, estamos viajando…“. Essa eu ADOREI, por motivos motociclísticos…eheheh

Ele ainda fala sobre a dança: “Quando você dança, seu coração canta como se fosse uma ave querendo se unir a Deus“. E ensinou uma dança circular praticada pelos muçulmanos no Kette, um tipo de mosteiro. Moses se entrega ao ritual e consegue se livrar de todas as mágoas que estava guardando dentro de si. De fato, a dança liberta e faz a gente se sentir mais leve (pelo menos no meu caso). Se em vez xingar no Twitter as pessoas dançassem mais…

Não é lindo?

E ainda descobri que tem também em português, para quem tiver interesse em passear com o seu Ibrahim. Recomendo demais!

23 ago

Estou aproveitando que é verão e tem bastante luz para descobrir os bairros mais afastados da cidade. Hoje fui até Tegel e me encantei novamente; Berlin não para de me surpreender.

Tegel fica mais para o norte da cidade e é lá que está localizado o aeroporto internacional (que já devia estar fechado desde junho, mas para escândalo dos alemães, o novo não ficou pronto e nem tem data para inaugurar; está o maior bafão por causa disso — e aqui o povo nem pode falar “imagina na copa?“…ehehehe).

O lugar é banhado pelas águas do rio Spree e parece uma colônia de férias. É lá que estão a maioria dos clubes de remo, iates-clubes e marinas. A alameda que contorna a margem é belíssima, e a região, para não contrariar a cidade toda, é verdíssima. O incrível é como um bairro comum, bem populoso e cheio de prédios consegue esconder essas obras civis todas embaixo de árvores. Viu só como é possível? Tegel é a prova!

Vem comigo passear um pouco por mais um pedacinho dessa cidade verdolenga e sensacional!

Fotografia: Höfs&Görlich Immobilien

Além de barcos, aqui também tem muita bicicleta

Uma das pontes que cruzam o canal (lindona!)

Ótimo lugar para pensar na vida...

Paraíso do povo do mar

Tem uma dessas no seu bairro?

A água é bem transparente e vi várias pessoas tomando banho (sem roupa)

Essa velha senhora se chama "Dick Marie" ou "Maria Gorda" e tem nada menos que 900 anos! É mais velha que Berlin, que esse ano completa 775 primaveras.

Povo feliz da vida, fazendo a fotossíntese

Esses cisnes gigantes são uns folgados; chegam perto só para ver se ganham uma coisinha

Mas eles merecem; trabalham como modelos profissionais

Quem não quer uma beira-rio assim perto de casa?

Tem até lugar para a farofa...

As flores não poderiam faltar, né?

Gostou? Pois tem muito mais, é só clicar aqui e ir direto no álbum do Flickr.

22 ago

Imagem: Ambient Media

Estou aqui lutando para não misturar inglês e alemão na cabeça, mas está difícil. Acho que só vou conseguir voltar a falar um inglês minimamente inteligível depois que o alemão estiver bem firme e eu conseguir separar as duas coisas automagicamente dentro do “célebro”.

Mas enquanto isso não acontece, continuo lendo em inglês para não esquecer e pegando umas dicas aqui e ali. Achei essa aqui ótima para quem quer relembrar umas regrinhas. Você faz uma assinatura grátis no Tecla SAP e recebe um e-mail por semana com alguma dica valiosa (é só clicar aqui). Na primeira mensagem você ainda recebe o e-bookPagando mico em inglês“.

Isso não é propaganda paga, é que achei o projeto bacana e resolvi dar uma força (bom para todo mundo). Recomendo!

22 ago

Olha só que ideia maluca, engraçada e muito ousada o designer Sang-soon Lee inscreveu no concurso Electrolux Design Lab; ele ficou entre os 30 finalistas (tem outras coisas interessantes, olha aqui). Ele bolou uma máquina de lavar roupas em forma de bambolê; enquanto você rebola, sua roupa fica limpinha. Taí uma boa parceria entre academias de ginástica e lavanderias, não acha?

É claro que é um produto conceitual e não dá para lavar lençóis desse jeito; mas achei muito bacana a capacidade que o sujeito teve de pensar numa coisa dessas. Adorei!!

Fiquei sabendo pela newsletter do Yanko Design.

21 ago

Imagem: Alexei Lyapunov & Lena Ehrlich

Esse é meu ano sabático, em que parei de trabalhar para aprender alemão; mas em 2013 (se o mundo não acabar antes), volto ao batente, dessa vez aqui em Berlin.

Ora, mas todo o trabalho que desenvolvi no Brasil está calcado no domínio da língua portuguesa (consultorias, livros, palestras, cursos, etc); vou ter que dar um nó no cérebro para me reinventar novamente e descobrir como posso fazer alguma coisa interessante e lucrativa desse lado do oceano. Talvez volte a ser engenheira; talvez trabalhe com inovação; talvez até colabore com alguma empresa que queira atuar no Brasil, sei lá. A ideia inicial era fazer um pós-doutorado, mas não sei se tenho mais paciência com o mundo acadêmico; isso não está descartado, mas agora quero trabalhar.

O frio na barriga está grande, mas sei que não estou sozinha. Descobri isso na estante de uma livraria, nas páginas de “How to find fulfilling work”, de Roman Krznaric. No início, o livro nem me chamou muito atenção, pois faz parte da coleção “The school of life”, expressão com a qual não simpatizo nem um pouco. Talvez porque no Brasil as pessoas tenham o hábito de usar “a escola da vida” como substituta da escola formal, como se elas fossem mutuamente exclusivas; como se quem está vivo não frequentasse obrigatoriamente a tal da “escola da vida” independente de sua vontade (então, que mérito há?).

Pois é, fiz um esforço para vencer o preconceito e vi que o editor da série é o Alain de Botton, um filósofo suíço que gosto muito (já conversamos sobre esse moço: veja aqui e aqui). Aí fiquei mais confiante, mergulhei nas páginas e não me arrependi.

Roman Krznaric começa explicando que o desejo de um trabalho gratificante, que nos proporcione um senso de propósito, reflita nossos valores, paixões e personalidade, é uma invenção recente. O autor diz que existem duas novas aflições no mercado de trabalho sem precedentes na história: uma é a praga da insatisfação com o trabalho; a outra é uma epidemia de incerteza sobre qual carreira seguir (é verdade, recebo e-mails quase que diariamente de pessoas em crise profissional).

Ele apresenta pesquisas que mostram que metade da força de trabalho no ocidente está insatisfeita com sua situação profissional. Cerca de 60% dos trabalhadores escolheriam mudar de carreira se pudessem começar novamente. O trabalho de uma vida, aquele em que a pessoa começava e se aposentava na mesma empresa, virou relíquia do século XX; agora os contratos estão mais curtos e as pessoas mais ansiosas.

Roman nos conta ainda que a valorização do trabalho começou no renascimento, quando os valores de conformismo da igreja foram desafiados e as pessoas ficaram mais individualistas; são dessa época as autobiografias, os selos pessoais em cartas, os diários íntimos, os auto-retratos. Se o trabalho faz parte da vida, então ele também deve traduzir a pessoa, suas crenças pessoais e valores.

A coisa teve um impulso maior depois da revolução industrial e explodiu depois da segunda guerra, com a invenção de carreiras nunca antes imaginadas. O problema (e a solução) é justamente esse: nunca houve tantas opções para se escolher. E quanto mais liberdade, mais duro é, pois não estamos equipados psicologicamente para lidar com essa infinidade de alternativas; elas estão além de nossa capacidade cognitiva. Segundo o psicólogo Barry Schwarz, a partir de um certo ponto, não conseguimos mais lidar com a diversidade de opções e elas passam a nos tiranizar a ponto de nos deixar paralisados. Quanto mais opções são dadas a alguém, mais tempo esse alguém demora a decidir e ainda assim nunca tem certeza se a outra alternativa era melhor.

Uma coisa muito perigosa que o autor cita são os testes vocacionais; ele relata casos realmente absurdos e a origem dessas ferramentas pseudo-científicas que mais confundem do que ajudam.

Krznaric diz ainda que há três aspectos fundamentais para que a pessoa possa considerar seu trabalho gratificante: significado, fluxo e liberdade.

Sobre o significado, ele aparece sob 5 formas: ganhar dinheiro, obter status, fazer diferença, seguir nossas paixões e usar nossos talentos. Os dois primeiros são conhecidos como fatores motivacionais extrínsecos, isto é, vêm de fora. Nesse caso, o trabalho é um meio para se chegar até eles. Já os outros três são intrínsecos, onde o trabalho é um fim em si mesmo.

Roman diz que combinar dinheiro e valores nunca é simples (sobre isso vou falar numa próxima ocasião); mais fácil é combinar talentos e valores. Quando as necessidades do mundo encontram nossos talentos, aí podemos desenvolver nossa vocação (atente bem para isso: vocações são desenvolvidas, não descobertas). E aí, onde é que seus talentos encontram-se com as necessidades do mundo?

Há também uma discussão sobre a cultura de que, para explorar melhor nossos talentos, o ideal é que a pessoa se especialize. Mas isso não leva em consideração que a gente pode ser muitos ao mesmo tempo; dificilmente alguém tem um talento só. Sobre isso, existem duas abordagens clássicas: o generalista renascentista, que consegue levar várias carreiras simultaneamente (ex: Woody Allen, assim como Luís Fernando Veríssimo, toca profissionalmente numa banda de jazz) ou o especialista serial, que vai mudando de profissão, mas exerce apenas uma de cada vez (acho que sou a combinação das duas abordagens). Ele dá vários exemplos de profissionais, incluindo uma engenheira da Nasa que virou urbanista e diz que o mundo tem coisas interessantes demais para que a gente tenha que escolher apenas uma para a vida toda.

Enfim, para quem está num período de questionamentos e transição profissional, ou mesmo só para quem quer refletir a respeito, recomendo fortemente.

Roman sugere alguns exercícios que podemos fazer para avaliar nossas possibilidades profissional e aumentar o auto-conhecimento; vou compartilhar alguns bem interessantes na próxima coluna, aguardem.

Agora, voltemos ao trabalho.

19 ago

Desde a primeira vez que pus os olhos sobre “Die Analphabetin“, da Agota Kristof (já resenhei outros livros dela aqui e aqui), foi encantamento à primeira vista. É que agora, conseguindo ler um pouco em alemão, já me sinto uma semi-analfabeta. Mas quando cheguei aqui, há quase um ano, a sensação de ver as placas nas ruas, propagandas e vitrines era exatamente essa. Olha, posso garantir que não é nada agradável.

Agota é húngara e teve que fugir de seu país aos 21 anos quando o leste europeu ficou sob o domínio da antiga União Soviética. A travessia da fronteira com a Áustria foi dramática, pois ela e o marido levavam a filha de 4 meses; tiveram que caminhar pela floresta escura à noite e quase se perderam. Foram recebidos em um acampamento para refugiados e depois enviados para a Suíça francesa, para trabalhar numa fábrica. As dificuldades de adaptação foram imensas; tanto que, do seu grupo, 4 pessoas se suicidaram porque não conseguiram suportar a saudade, a solidão e o desespero de não entender a língua, e duas se arriscaram a voltar à Hungria, mesmo sabendo que seriam condenadas e presas caso conseguissem chegar. Muito triste.

Agota demorou 5 anos para falar francês com fluência e outros 2 para ler/escrever. Isso foi realmente difícil, pois a moça praticamente suportou todas as dificuldades da guerra e da vida porque amava ler e escrever. Hoje já publicou vários livros, encenou peças, escreveu novelas e participou de saraus no país que a acolheu e na língua com a qual agora possui mais intimidade.

Mas Agota admite que sua relação com o francês é complexa; o idioma acaba afogando e matando aos poucos sua língua natal, o húngaro, pois ela quase não tem mais com quem falar.

Pensei bastante a esse respeito. Imagino que vá levar pelo menos uns 5 anos para ser fluente e minimamente segura no alemão; um dos motivos pelos quais meu aprendizado tem sido lento é porque não estou completamente imersa. Só convivo com estrangeiros e escrevo todos os dias em português; é uma forma de não perder o contato com minha língua querida, mas realmente dificulta a imersão.

Vá lá, vou demorar mais um pouco, mas estou disposta a pagar o preço, pois, assim como a Agota, escrever é uma das coisas que mais amo fazer na vida (meu sonho é viver disso). E, escrever num alemão perfeito, com a desenvoltura e o conforto que tenho na minha língua mãe, acho que só morrendo e nascendo de novo na terra de Goethe…

Não encontrei a versão em português, mas há várias em espanhol (que dá para ler tranquilamente). Recomendo.

18 ago

Pois é, ontem fui conhecer outro pedacinho dessa cidade linda. Spandau fica bem no lado noroeste e é uma das áreas habitadas mais antigas. O lugar conta com a tradicional Rathaus (uma espécie de sub-prefeitura que cada bairro tem), o centro antigo com a respectiva igreja (a St. Nikolai de Spandau foi construída no século XIV) e é banhada pelo rio Spree, como toda Berlin.

Spandau, que passou a fazer parte da grande Berlin em 1920, foi também foi sede da maioria das indústrias berlinenses na época áurea da economia alemã (final do século XIX e início do XX); muitas já estão desativadas e viraram museus que se pode visitar (vou colocar na minha lista). A fábrica BMW das nossas queridas motos também fica lá; na região tem uma área inteira chamada Siemens por causa da empresa. Enfim, a economia desse pedaço é bem desenvolvida.

Mas o que tem de mais especial mesmo em Spandau é a cidadela, uma fortificação medieval construída no século XVI. Ocupa toda uma ilha no rio Spree e tem muralha e torre, como manda o figurino. A fortificação foi usada para fins militares até o final da segunda guerra, quando sofreu bastante com bombardeios; a partir de 1960 ela começou a ser restaurada e hoje funcionam lá uma escola de artes, vários ateliers, um centro cultural, um teatro, um restaurante, um café, e algumas galerias e museus entre outras coisas bacanas.

O pátio central é bastante utilizado para festas e shows (no dia em que fui tinha um palco gigante onde um roqueiro iria se apresentar com a orquestra de uma cidade próxima; pelo ensaio, a coisa prometia).

Mas vamos parar de conversa e ver esse lugar tão especial e cheio de história!

Essa foto aérea da Cidadela dá para ter uma ideia da beleza do lugar. Imagem: www.Berlin-Motive.de

Saguão do prédio da Rathaus

Cantinhos da cidade antiga

Mesmo nesse lugar histórico e tradicional, as pessoas não têm medo de ousar (esse carro parecia ter sido pintado à mão)

Casarão do meio é um bar que funciona desde 1743

Torre da igreja St. Nikolai

Entrada da Cidadela

Só faltaram os jacarés para compor o quadro...

Como dá para ver de cima da torre, a cidade é bem verdinha

Tem um restaurante rústico estilo medieval dentro do forte, mas no verão as mesinhas na calçada é que fazem sucesso

Essas estátuas todas (28) estavam no meio do Tiergarten e sofreram bombardeios durante a guerra. Aí foram recolhidas do jeito que estavam e trazidas para cá.

Gostou e quer ver mais? Então clique aqui e vá direto no álbum do Flickr.

16 ago

Seguinte: a quantidade de Street Art que vejo todo dia na rua é tamanha que resolvi criar uma seção sobre o assunto e separar por tema.

Hoje vamos ver um pouco das moças nas paredes de Berlin; veja como essas berlinenses são lindas, charmosas e interessantes…

Gostaram? Semana que vem tem mais!

15 ago

Olha essa mini-coleção de paredes cegas que fotografei nas minhas andanças pela cidade. Amo muito isso…

15 ago

Berlin tem um programa para pessoas sem teto muito bacana; para pagar a moradia e ter um dinheirinho, o povo vende um jornal de variedades no metrô, concebido especialmente para esse projeto. O sujeito entra no trem e recita o discurso decorado, bem ao estilo “menino do amendoim” brasileiro, mas as vendas nunca são muito boas.

Pois de vez em quando (já o vi várias vezes) aparece um moço com um auxiliar tão carismático que é um sucesso de vendas. O peludão vai desfilando bem feliz com o produto e no final ganha um biscoito pelo trabalho. Impossível não se render ao charme desse lindo, viu? Veja com seus próprios olhos.

14 ago

Olha só que instalação interessante encontrei na Schönhauserallee (Prenzlauerberg): um muro coberto com fotos de rostos bem expressivos. Adorei, e você?

Pena que não descobri o autor (se bem que aqui o povo não está muito preocupado em brigar para ser o pai da criança, a prioridade é fazer diferença), mas bem pode ser obra de um dos muitos coletivos de artistas que fazem intervenções na cidade.

14 ago

Gente, desculpaí a mãe de vocês, mas essa moça maravilhosa que ilustra o post é a minha mãe. É, não adianta chorar, a minha é mais esplendorosa e fim.

Pois calhou que essa mulher interessantíssima faz aniversário hoje (66 anos, olha que número lindo) e queria aproveitar a oportunidade para espalhar umas verdades sobre ela por aí.

*  A Clotilde criou, junto com meu pai, 4 pessoas dignas e honestas. Nos dias de hoje, isso é quase um milagre. Respect!

*  Ela publicou 2 livros infantis e 2 romances espíritas que tiveram edição esgotada (˜˜˜inveja˜˜˜) e está com o terceiro a caminho, além de ter participado com contos em várias coletâneas.

*  Inventou pratos e ganhou vários concursos de culinária sem testá-los antes em casa (é sério!).

*  Tem uma medalha de tiro ao alvo.

*  Era sempre a mãe mais bonita da escola (é só olhar a foto para entender, né?).

*  Reencontrou seu primeiro amor depois de quase 50 anos separados (beijo, Adalberto!).

*  Já botou um bandido armado para correr (essa você não se lembrava, heim, Clô?).

*  Passou os anos 70/80 zunindo pelas ruas de Campinas (SP) com seu Opala amarelo (a desculpa era levar a gente para a escola rápido, pois estávamos sempre atrasados…eheheh).

*  É uma vendedora nata (quando quer).

*  Sabe aplicar injeções e costura muito bem (quando quer).

*  Pinta belíssimos quadros a óleo (quando quer).

*  Dei um computador usado para ela e não ensinei quase nada. Um mês depois a danada tinha duas contas de e-mail, um blog e já tinha ganho um celular num concurso online.

*  Adora margaridas, arco-íris, bicicletas, perfume de alfazema e viajar.

*  Ela curte muito ler os obituários no jornal e rastreia listas de aprovados no vestibular para achar nomes exóticos.

*  Acha o máximo roupas de bolinhas.

*  Junto com o Adalberto, cuida dos meus 4 fofuchos queridos com carinho que só as avós sabem dar.

*  Já sei que vai chorar depois de ler isso (paciência, é de família).

Bem, como acabei de demonstrar, a Clô é uma luxus-top-master-blaster-mega-super-plus-xyz-ultra mãe, sem chances para nenhuma outra almejar nem mesmo um humilde segundo lugar. Fato.

Minha querida, obrigada por existir e desejo a você um aniversário cheio de gostosuras, risadas, pessoas queridas, gatos fofos e surpresas boas. Te amo muito, viu?

12 ago

Eu já implicava com um desodorante no Brasil cuja propaganda alardeava a capacidade de proteção por 48 horas (dois dias inteiros sem encarar um chuveiro? É isso?). Mas, gente…

Pensemos juntos: então o que significa um desodorante que protege por 96 horas? Olha, fiquei com medo de pensar a respeito, ainda mais considerando que o negócio promete fazer o “usuário” ficar invencível. É muita asa…