Isso aí até eu faço!

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Desde que me conheço por gente me interesso por arte, mas por diversos motivos, continuo bastante ignorante no assunto. Leio o que encontro, frequento museus e galerias, consigo reconhecer as obras mais famosas e tenho alguma noção de história da arte, mas não vou muito além disso. Como diria minha mãe, é cultura de almanaque de farmácia (para quem não sabe, beeem antigamente, as farmácias produziam revistinhas de conhecimentos gerais com curiosidades diversas). Tenho plena consciência de que a coisa é muito mais complexa.

No último mês até fiz algumas aulas sobre artistas alemães com o João Rizek, que está fazendo mestrado aqui em Berlim, e que edita, com a Laura Ammann, o ótimo arteconceituando.com. Adorei cada minuto, mas quanto mais se aprende, mais se tem noção do tanto que falta aprender.

Para mim, o mais difícil é compreender a proposta da arte contemporânea. Gosto muito de algumas obras (com predileção pelo hiper realismo), outras me incomodam, mas boa parte não consegue produzir nenhum efeito particular sobre minhas emoções.

Por isso, fiquei tão curiosa quando vi “Das kann ich auch! Gebrauchsanweisung für moderne Kunst” (tradução livre: “Isso eu também posso! Instruções de uso para a arte moderna“), de Christian Saehrendt e Steen Kittl.

Os autores explicam, de um jeito muito bem humorado, os principais conceitos relacionados ao tema e como funciona o mercado.

Na primeira parte, falam da mudança radical que a arte moderna provocou na maneira como se produzia e se consumia arte até então. O advento da fotografia tirou o valor da reprodução perfeita e desafiou os artistas a mostrarem seu talento usando outros recursos. A pintura fez acrobacias incríveis, até quase o esgotamento das técnicas, e novos meios não pararam de aparecer (vídeo, projeções, internet, a própria fotografia, etc).

Aí que alguns artistas passaram a usar o próprio corpo como objeto de arte (as performances mais bizarras são descritas no livro; algumas famosas, outras nunca tinha ouvido falar, mas realmente ousadas). As experimentações estéticas chegaram a ponto de, nos anos 60, a famosa performance de Marina Abramovic (em que ela se colocava nua, à disposição do público, ao lado de objetos diversos como uma faca e um revólver) estabelecer a máxima de que “a boa arte precisa doer”.

Até uma exposição que não apresentava nada além de paredes vazias aconteceu em 1958, por Yves Klein, em Paris, sendo repetida onze anos depois em Amsterdam, por Robert Barry (com uma radicalização a mais: a galeria estava fechada durante a vernissage). O livro fala também do trabalho do artista alemão Joseph Beuys e suas polêmicas obras. Enfim, um capítulo inteiro dedicado a descrever casos e curiosidades de exposições de arte moderna e contemporânea e seus respectivos bastidores.

Na segunda parte, aparecem os atores do mercado: artistas, colecionadores, marchands, galeristas e curadores de museus, bem como o papel e a influência de cada um. Como em qualquer mercado, é preciso ter os contatos certos e cair nas graças de alguém influente para ter seu trabalho reconhecido. Considerando que no mundo há cerca de 20 mil galerias, 22 mil museus de arte, 1500 casas de leilão e dúzias de feiras especializadas, sem contar os próprios artistas, dá para se ter ideia de que não é coisa para amadores. Somente na Alemanha, são 360 mil pessoas trabalhando no setor, sendo 55 mil artistas formados nas escolas de arte. É claro que não tem espaço para todo mundo, de maneira que os autores, ambos formados em história da arte,  descrevem a rotina de um artista médio, desde o sonho de viver de seu talento, até a necessidade de trabalhar em outras áreas para se sustentar e da suprema felicidade em conseguir uma vaga de professor. Difícil mesmo.

No capítulo três, são apresentadas as dinâmicas das vernissages e performances, o público que costuma frequentar esses eventos, o papel dos museus e dos colecionadores, enfim, muita informação interessante.

Nos dois capítulos finais, eles falam sobre como ler os textos herméticos que discorrem sobre arte (quase impossível para um leigo entendê-los), como conversar com um artista (cheio de ironias), as utilidades da arte como terapia, sempre armados um escrachado deboche.

Os autores também lembram que não faz muito sentido perguntar se algo é arte ou não. Os critérios, parâmetros, referências, tudo foi mexido, transformado, resignificado. Nossos gostos pessoais dependem de uma infinidade de variáveis e dificilmente podemos considerá-los com objetividade. Se uma obra é ou não arte, hoje em dia depende mais do artista declarar que ela o é do que de qualquer outra coisa. Ou do observador considerá-la arte, como queria Marcel Duchamp.

Para terminar, uma provocação: o que acontece então, se tudo é arte? O mundo da arte roubou o mundo das coisas. Não demora, o mundo das coisas vai se vingar. Já está acontecendo: algumas fotografias e experimentos científicos, por exemplo, equiparam-se à fruição estética de maneira muito próxima ao que experimentamos ao contemplar obras de arte.

E mais. Se tudo for arte, então não precisamos mais de artistas! Temos um mundo cheio de estímulos estéticos para contemplar e sentir. Mas, isso, de certa forma, seria matar a arte, uma ideia muito difícil de absorver. A pergunta que se faz então é: quantos e quais artistas contemporâneos serão lembrados daqui a 20 ou 50 anos? Que qualidade seus trabalhos deverão ter para não ser esquecidos?

A arte está sempre se reinventando e ainda não há respostas.

De minha parte, continuo cada vez mais fascinada.

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