A salvação do design

Quando me apaixono por um livro, não consigo ficar quieta! Leia a minha coluna dessa semana no AcontecendoAqui e veja o que design e a filosofia têm a ver com “Aprender a viver”!

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O DESIGN DA FILOSOFIA

15-10-07 Há apenas uma semana, se alguém me perguntasse que livro eu levaria para uma ilha deserta, responderia, sem titubear, “O jogo da amarelinha”, de Julio Cortazar. É um romance cujos capítulos estão estruturados para serem lidos em qualquer ordem. Cada seqüência que o leitor escolhe gera uma história diferente. Muitos livros em um. Ideal para uma ilha, não é?

Pois agora mudei. Levaria mesmo é o “Aprender a viver: filosofia para os novos tempos”, do filósofo francês Luc Ferry, com o qual estou encantada. Há tempos não encontrava um livro tão transformador. Luc apresenta, de maneira que um leigo consegue entender, nada menos que a história do pensamento ocidental. Finalmente consegui vislumbrar uma ordem nos capítulos de todos os livros sobre o assunto que eu havia lido antes.

O autor não foge à pergunta clássica: “para que serve a filosofia?” Para Luc, a função essencial desse exercício de pensamento é nos dar algum conforto, alguma salvação, algum sentido para a existência, alguma saída para o medo da morte.

Os estóicos, precursores da filosofia grega, acreditavam que a salvação estava no divino (que era o próprio mundo). O universo era belo, perfeito, harmônico e bom. Devíamos nos conformar com tudo o que acontecia conosco, pois o divino assim o queria e a morte nada mais era do que uma transformação. A salvação dependia de cada um descobrir um meio, usando a razão, de se integrar ao universo. Pena que ao morrer, a pessoa perdia a sua identidade para ser mais uma partícula do todo. Não muito animador, mas, enfim, era o que havia.

Depois veio o revolucionário Cristianismo, onde o divino não era mais o universo em si, mas um Ser externo, Deus. Ele prometia a vida eterna, a ressurreição, o reencontro com os entes queridos e, principalmente, a manutenção do indivíduo como um ser único, não mais como uma simples partícula do universo. Mas quanto custaria tanta maravilha? Simples, o cristianismo lhe oferecia tudo isso em troca da sua razão. Para ganhar vida eterna, basta que você não duvide mais, não questione, não pense. Apenas acredite. O preço é a troca da razão pela fé. A responsabilidade agora é de Outro; terceirizamos a nossa salvação.

Essa tese dominou a história do pensamento até o Renascimento, quando os avanços da ciência mostraram que nem o universo era tão belo e harmônico, como queriam os estóicos, nem a terra era o centro do universo, como queriam os cristãos. Comprovou-se cientificamente o caos, as assimetrias, as desordens, as injustiças e as feiúras do mundo. Argumentos que eram praticamente leis há séculos, foram todos por água abaixo pelos telescópios de Galileu e Copérnico, e os Principia de Newton.

Nessa época, o homem ficou sem chão, com suas referências todas dizimadas pela tábula rasa de Descartes, que consistia em zerar as certezas e duvidar de tudo. A única coisa indubitável era que, se penso, então é porque existo. Filósofos modernos, como Kant, introduziram assim o Humanismo, que nada mais era do que uma forma de centralizar todas as referências de pensamento no próprio homem. Há aqui uma bela discussão sobre o que diferencia o homem dos outros animais. Voltava-se à razão para tentar descobrir as relações de causa e efeito no mundo a um ponto que culminou no materialismo.

Sobre a salvação, o homem humanista encontra maneiras de obter a imortalidade envolvendo-se em causas maiores que a vida, pelas quais vale a pena até morrer. E encontrou meios de se tornar eterno por três modos bastante discutíveis, que o autor chama de “religiões de salvação terrestre”: o patritotismo (as guerras em nome da pátria, o herói que entra para a história); o comunismo (onde seus líderes, como Stalin, são idolatrados como deuses): e o cientifismo (vale tudo em nome do progresso da ciência). Na verdade, o que diferenciava os cristãos dos ateus era apenas o nome do deus que cada um adorava. No fundo, eram todos crentes.

Foi nesse mar de religiões terrestres que apareceu Nietzche e destruiu tudo de novo. Mostrou que esses ídolos da salvação eram de barro, e contestou tudo o que se acreditava antes, inclusive o conceito de salvação. Nietzche valorizava, sobretudo, a vida. Dizia que essa busca insana pela salvação nos impedia de viver o presente, de fruir o momento. Chamava de niilistas aqueles que negavam a vida real em favor de alguma outra causa ou ideal. Ele falava de viver “em grande estilo”, equilibrando as forças reativas (a lógica, a razão) e as ativas (a sensibilidade, a arte). É no domínio desse caos interno que residem o poder e a felicidade (esqueça a salvação). A filosofia pós-moderna, além de Nietzche, tinha em Freud, Lacan e Marx a força desconstrutora dos ícones estabelecidos.