Arquivo de ‘Acontecendo Aqui’

7 mai

Fotografia: Studio Furia

Já é a terceira vez essa semana que leio comentários de diferentes pessoas nas redes sociais reclamando que alguém roubou sua ideia e ficou rico. “Fulano pegou a minha ideia e agora está ganhando um monte de dinheiro” brada um revoltado; “dei uma ideia na sala de aula, um colega pegou e montou um negócio; nem se lembrou de me pagar” reclama outro; “já estou de saco cheio de ter neguinho ganhando dinheiro nas minhas costas, às custas das minhas ideias”, finaliza uma terceira.

Mas, gente, ter ideias é a parte mais fácil e prazerosa. É como fazer sexo, sabe? Algumas pessoas têm um talento natural para a coisa; outras preocupam-se em desenvolver técnicas, empenham-se, praticam bastante e conseguem excelentes resultados. Há aqueles que dão até uma ajudinha para a natureza e outros que levam a coisa tão a sério que viram amantes profissionais. Mas é isso. Não dá para achar que o mundo lhe deve algo por causa desse “esforço”.

Uma ideia, sem sua materialização, não é nada. Na verdade é: prazer, brincadeira, exercício, interação. Mas a materialização é que cria o fato e talvez (apenas talvez) gere riqueza.

Ter ideias e não levá-las adiante é como ter filhos e largá-los pelo mundo. A parte chata, de empreender, é justamente aquela que ninguém quer: arranjar dinheiro para alimentar o neném e fazê-lo crescer; passar as noites em claro quando as coisas não vão bem; colocá-lo na escola e levá-lo ao médico; reunir um time de profissionais que vão da professora de inglês até o pediatra e bancar os gastos; aguentar as crises da adolescência; velar 24 horas por dia, com todo cuidado, carinho e amor durante anos. Isso tudo sem ter a mínima garantia que vai dar em alguma coisa. Pode surgir daí um Paul McCartney ou um Barak Obama. Ou uma Apple. Mas também pode ser uma Amy Winehouse. Ou o fulaninho que voltou do intercâmbio sem aprender nada. Não há como saber.

Os investidores (pais e mães) não podem adotar todas as crianças do mundo abandonadas por pais prolíficos em ideias, mesmo que sejam muito ricos. Precisam escolher onde vão apostar toda sua dedicação, pois sabem que o risco é altíssimo e parte importante do resultado vai depender do quanto vão se empenhar de verdade na tarefa.

Aí vêm os pais biológicos, que só participaram na hora da festa, e querem ser chamados de pais da criança quando a coisa dá certo?

Ah, mas se não fosse a minha ideia o negócio não teria nem nascido. Não pensam que sem o investidor que adotou o rebento, o pobre teria morrido de inanição ainda no berço. Não querem dividir os prejuízos quando o negócio não dá certo, não querem trocar fraldas quando precisa. Não querem correr o risco de investir seu precioso tempo na tal ideia esplendorosa. Não têm paciência para cuidar de crianças, mas querem colher os frutos do sucesso alheio.

Ah, vá. Ficam fazendo filhos, abandonam por aí para os outros criarem e ainda querem ter direitos.

Não têm não, viu? No máximo, uma bolsa família.

E olhe lá.

29 abr

Uma coisa muito pouco explorada no Brasil é a propaganda que usa a bicicleta como veículo (literalmente). Talvez porque andar de bicicleta no nosso país ainda seja uma temeridade; com o desrespeito geral que impera no trânsito e os pouquíssimos quilômetros de ciclovias, pedalar não é para os fracos.

Mas as empresas bem que podiam ajudar os cidadãos a ficar mais saudáveis, as cidades menos poluídas e ainda ganhar moral com isso. E não é apenas para grandes corporações não; dá para patrocinar alguém que usa bastante a bicicleta no dia-a-dia ou até frotas inteiras para aluguel. Dá até para usar sua própria bike para fazer propaganda de sua start-up, já pensou?

Bom, aqui também tem uns comerciantes espertinhos que estacionam estrategicamente a magrela devidamente paramentada num lugar bem movimentado e a deixam lá, para exposição. De qualquer maneira, a cidade só ganha com essa invasão do bem.

Olha aqui alguns exemplos para o pessoal se inspirar!

Feita à mão... propaganda de uma escola de dança especializada em tango

Auto-referência: propaganda de aluguel e venda de bicicletas

O café fica num pátio interno, meio escondido. Então é só deixar a magrela na porta, que o povo entra!

Veículo da empresa de massagens em domicílio

Mesmo velhinha, a bike serve de suporte hype para placas de sinalização

Uma escultura montada na bike, olha só que original!

Como não notar tanta discrição?

Estúdio fotográfico que curte enigmas visuais...

A loja fica numa ruazinha paralela, então tem que aparecer na avenida de algum jeito (só achei que, pela marca que divulga, a bike devia ser toda estampadinha e colorida. Ruído na identidade.).

A GE, que faz carros elétricos, não podia ficar de fora!

Essa aí não tem placa, mas compõe a fachada de uma floricultura.

Hoteis, aprendam: aluguem bicicletas e façam propaganda ao mesmo tempo!

Minha favorita!

14 mar

Fotografia: Dean Freeman

Tem pessoas que são assim: você pode xingar a mãe, chamar o filho de coisas inomináveis, discutir polêmicas políticas, falar mal do time do coração e até questionar sua sanidade mental; em quase todas as situações elas conseguem manter uma relativa civilidade. Mas experimente corrigir seu português.

Nunca entendi por que tem gente que fica tão mortalmente mordida com isso.

Geralmente o ofendido ou a ofendida reclama que estava tratando de um assunto importante e quem corrigiu só olhou para o erro; mas é por isso mesmo, minha gente! Se o assunto é importante, não merece ser perturbado por um ruído bobo como um erro de português. Para mim, é como avisar que o zíper está aberto ou tem feijão no dente. Melhor corrigir rápido e não se fala mais nisso. Tão simples!

Mas não. As redes sociais estão cheias de amizades desfeitas por conta de alguém que, incomodado com a vergonha alheia, quis acabar com o espetáculo e se deu mal. Os corrigidos ficam furiosos, a reações são desproporcionais. Alguém devia fazer um estudo psicológico a respeito.

Há quem considere uma questão de honra e questione a validade da regra (?), dizendo que se a gente procurar no Google, vai achar a palavra escrita dessa maneira também (como se o buscador fosse uma gramática; por falar nisso, procure “voçê” e assuste-se com as ocorrências). Há quem declare solenemente que não liga para as regras e adora quebrá-las, com um ar blasé que mal consegue dissimular o ódio profundo pela intromissão.

Já vi pessoas martelando o bordão de que o conteúdo é mais importante que a forma; sou da opinião que a forma inadequada pode prejudicar a compreensão (e até a credibilidade) do conteúdo.

Sinceramente, não consigo entender qual é o problema numa questão, para mim, tão simples. O que há de tão sensacional num erro de português? Nossa língua é sabidamente difícil, cheia de regras e exceções. Quando eu era pequena, era comum a gente discutir sobre palavras exóticas, suas origens e significados na hora do almoço; por isso, na cozinha sempre tinha um dicionário.

O que me deixa encafifada é que as pessoas não têm vergonha de errar; elas têm vergonha é de ser corrigidas! Como lidar?

Adoro quando corrigem meu português (mentira, preferia não ter errado, mas acho pior manter o engano), pois quando alguém me dá um toque significa que vou parar de pagar mico em público porque sim, todo mundo percebe, mas finge que não viu nada com medo de apanhar. Acho melhor ainda quando, em vez de um simples erro de digitação, o caso é daqueles que você tem que ir até uma gramática para ter certeza. Já participei de debates bem interessantes sobre algumas situações onde aprendi muito mais do que apenas a correção do erro em questão.

Já fui corrigida (mais de uma vez) publicamente no meio de uma palestra, então posso dizer de cadeira: não dói nada admitir a incorreção e agradecer o auxílio luxuoso. Dá até para fazer graça com o ocorrido, sem dramas. Na verdade, até incentivo esse tipo de interação; muito melhor do que ninguém prestar atenção no que você fala porque está fofocando com o colega ao lado sobre a mancada que o palestrante fez.

Se o texto é só uma bobagem, não dá para ficar corrigindo tudo (senão sua rede social vai virar uma rede solitária). Mas quando o ruído perturba muito, tento fazer o que gostaria que fizessem comigo: aviso o redator. Na verdade, fazia. Depois de levar muita pedrada, fiquei mais comedida. Se o negócio me incomodar demais, simplesmente ignoro, paro de ler e sigo a vida.

Hoje em dia só corrijo quem eu sei que não vai levar a mal; na verdade, só ouso corrigir pessoas de quem gosto muito e cujo trabalho respeito profundamente. Algumas discussões alongam-se e o desafio vira um ótimo entretenimento. Em algumas empresas onde trabalhei, apostávamos caixas de Bis para ver quem estava certo e todo mundo adorava.

Por isso não consigo entender: para que tanto drama?

Coincidência ou não, esse povo que gosta de ser corrigido é quem menos erra, quase não dá para se divertir…

24 fev

Ilustração: Ingela Och Vi

Ontem recebi um e-mail de uma moça desesperada, pois tinham roubado um projeto que ela estava desenvolvendo sozinha havia anos. Pior, a ladra foi a própria chefe.

O mau caratismo e incompetência da chefe, que apresentou o projeto aos superiores como se fosse seu, é fato, nem vamos discutir isso (boa oportunidade para pedir as contas e sair desse antro, menina). Mas, no geral, penso que a culpa é da moça mesmo.

Pois é, a Sonia (vamos chamá-la por esse nome) é que se colocou na posição ideal para que isso acontecesse. Não conheço a profissional, mas já dá para deduzir que ela foi egoísta, centralizadora, desatualizada e arrogante; não é que merecesse o castigo, mas espero que ela possa aprender com a experiência. Escrevo isso para alertar as outras muitas sonias que ainda existem no mercado.

Bom, então vamos explicar os xingamentos que fiz, um a um, para você ver que não estou cometendo injustiças; apenas querendo ajudar.

Egoísta: qual era sua intenção com esse projeto, Sonia? Contribuir para o crescimento da empresa, melhorar a vida das pessoas ou apenas ter uma arma à mão para sacar quando fosse preciso? Esconder coisas não se encaixa nem no primeiro e nem no segundo objetivos. O que justifica tanto segredo?

A Marina Lima, uma das minhas (ainda) compositoras prediletas, usa muito bem o trocadilho com a palavra guardar na música “Deve ser assim”:

Guardar, guardar, guardar…

Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la,

Em cofre não se guarda nada,

Em cofre, perde-se a coisa à vista,

Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por admirá-la.

Isto é: iluminá-la ou ser por ela iluminado.

Estar acordado por ela,

Estar por ela,

Ou ser por ela…

É isso, Sonia. Se o projeto era tão bacana, não devia ficar trancado, escondido, mofando na sua gaveta por tantos anos. Se desde o começo você tivesse compartilhado a ideia, escrito, sei lá, um artigo e submetido a um congresso, apresentado como proposta numa reunião ou mesmo postado num blog, ninguém iria duvidar da autoria. Mas você foi egoísta, não quis ser iluminada pela boa ideia, não quis deixá-la brilhar. Preferiu colocá-la numa prisão, confinando-a no  HD do seu computador. O único objetivo de ideias presas, sequestradas e encarceradas é buscar a liberdade. Elas sempre vão encontrar um jeito de se livrar do algoz, é só uma questão de tempo.

Centralizadora: a Sonia não quis que ninguém contribuísse para o seu projeto, que é o que fatalmente iria acontecer se ela o colocasse na roda. Seu plano iria receber críticas, sugestões de modificações, contribuições de outros pontos de vista, enfim, a Sonia iria perder o controle absoluto. Mesmo que o resultado final fosse ficar mais maduro e refinado, ela não quis largar o osso (no caso, desenterrar o osso…rsrsrs). Pois é.

Desatualizada: Alguém precisa dizer para essa moça que já estamos bem entrados no século XXI. Não existem mais segredos que possam ser guardados por muito tempo. Autoria é um conceito em plena mutação e colaboração é a palavra de ordem no desenvolvimento de novas ideias. Se ela tivesse aberto espaço para a co-criação ainda levaria os créditos por ter iniciado o projeto e pela sua liderança, além de poder contar com outras competências para fazer a coisa andar. Ninguém sabe tudo o que é necessário para fazer o que quer que seja; todo mundo precisa de conhecimentos que não possui. Espero que finalmente a Sonia se dê conta disso agora.

Arrogante: Pessoas que desenvolvem um projeto de maneira isolada, sem mostrá-lo para ninguém, geralmente superdimensionam seu valor. Já tive oportunidade de ser contactada por vários profissionais que diziam ter tido uma ideia genial e não queriam mostrar para ninguém para não serem roubados. Quando eu ia ver, não era nada de tão espetacular. Apenas alguém admirando seu próprio umbigo e receoso que outros pudessem criticar ou contribuir de alguma maneira para uma ideia bem mais-ou-menos.

Olha, não sei o que é que  a Sonia estava esperando para trazer seu projeto à vida e fazê-lo existir de fato; mas os acontecimentos acabaram traindo seus planos, sejam lá quais fossem.

Se você tem alguma coisa escondidinha aí na sua gaveta, abra-a e pense um pouquinho: se o negócio é tão bacana, seja generoso e compartilhe com o mundo. Convide seus colegas para fazer parte, pesquise as competências necessárias para fazê-lo melhor. Você sairá ganhando bastante, eu garanto. Mas olhe com uma visão crítica, por favor. A coisa pode ter embolorado e agora talvez esteja inutilizada pelos anos de confinamento.

E faça um favor para você mesmo, capriche na faxina e livre-se do lixo acumulado.

Ah, e aproveite para jogar junto a chave da gaveta.

15 fev

Imagem: Alexandra Valenti

Aconteceu de novo. É só pegar um táxi com o Conrado que, ao final da corrida, o motorista, intrigadíssimo, pergunta em que língua nós estávamos conversando.

Português brasileiro é uma língua linda e exótica. E, como toda língua exótica, pouca gente conhece.

E antes que se levantem os defensores do idioma (como se ele estivesse sofrendo algum tipo de ataque) bradando que a nossa é a sétima língua mais falada do mundo, quero lembrar que a primeira é o mandarim (alguém aí é fluente?) e que a segunda é o hindi (desafio alguém no Brasil achar uma escola que ensine isso).

Essas línguas são muito faladas só porque a população nativa dos seus países é grande, como no Brasil. Se a gente considerar as línguas mais faladas sem que o sejam necessariamente por nativos, o inglês ocupa o segundo lugar, e antes do português ainda temos o hindi, o espanhol, o russo e o bengali.

Além do Brasil e Portugal, o português é falado apenas em alguns países africanos. E deu. Mas é que realmente aprender português como segunda, terceira ou quarta língua é só para quem pode mesmo, pois o idioma é bem difícil (descobri, para minha surpresa, que a pronúncia é ainda pior que a gramática).

Meu professor de fonética, que fala 6 idiomas, só sabe do português brasileiro que é uma língua muito musical. Faz sentido. Um dos meus parceiros de Tandem (que também já fala 3 línguas) está estudando porque adora música brasileira.

Outra moça está namorando um brasileiro e minha terceira parceira quer aprender porque está inscrita num programa de ajuda humanitária na África. Ao contrário das outras línguas, as pessoas aprendem português por amor… ou então por amor. Não tem outro motivo (achei lindo isso).

Se o Brasil fosse do tamanho da Ucrânia, por exemplo, falar português não seria um problema, pois todos nós falaríamos com fluência pelo menos uma segunda língua (tenho uma amiga libanesa que foi alfabetizada em francês e árabe, normal nas escolas de lá; e eles ainda precisam aprender inglês, claro). Mas porque nosso país tem dimensões continentais e uma economia forte, não é uma necessidade tão premente assim aprender outro idioma. É possível viver tranquilamente uma vida inteira como monoglota, inclusive sendo um excelente profissional, coisa impensável em alguns países. Se por um lado é bem confortável, por outro nos isola muito do resto do mundo…

Enfim, uma pena. A língua portuguesa é linda, musical, poética, mas infelizmente não tem muita utilidade prática no resto do mundo. Como dizia Olavo Bilac, “Última flor do Lácio, inculta e bela/ És a um tempo, esplendor e sepultura”.

Pena mesmo, pois é a única em que que consigo escrever com real fluência, do fundo do coração (claro, é minha língua mãe) e isso reduz em muito meu número de leitores.

É que falar português, amigos, temos que reconhecer, é um luxo…

***

Referências: Revista Galileu, BritannicaBBC.

6 fev

Fotografia: Ligia Fascioni

A empresa Gradiente fez parte da minha infância. Por isso, fico triste com esse ato desesperado e sem noção de utilizar a marca iPhone no Brasil.

A princípio, não parece que a empresa tenha realmente tido má-fé. De fato, ela entrou com o registro da marca em 2000 (a Apple já tinha o iMac e o iBook, mas não era ainda tão popular assim no Brasil). O INPI, com toda a agilidade que lhe é peculiar, só concedeu o registro em 2008 (o iPhone da Apple foi lançado em 2007). Agora, cinco anos depois, a Gradiente resolveu botar as manguinhas de fora e fazer valer seus direitos (a Apple não vai mais poder usar a marca aqui no Brasil por causa disso).

A Gradiente tem direito e é apoiada pela lei, isso é fato. Mas e a questão ética? Quando falo de ética aqui, ressalto, principalmente, a intenção. Com que intenção uma empresa brasileira teima em usar um nome comercial consagrado por outra, ícone no mundo todo?

Não estou aqui questionando a lei. Ela tem direito e pronto, isso não está em pauta. Mas por lei, o Renan Calheiros também tem o direito de estar onde está e não precisamos discutir o que a ética tem a ver com isso. Com base na lei, barbaridades de todo o tipo acontecem diariamente no nosso país. Temos que cumprir a lei sim, é claro, mas uma empresa que quer consolidar sua marca precisa ir além disso. Precisa se preocupar em entregar valor para seus clientes, precisa respeitar sua própria identidade. Precisa ter dignidade.

A identidade da empresa é seu bem mais precioso, é o que a distingue no mundo. A Apple já tem uma identidade conhecida e consagrada. A Gradiente passou por trancos e barrancos e está tentando se reeger. Mas sob que bases essa  ressurreição está sendo construída? Sob a infelizmente famosa e corriqueira “Lei de Gérson”, aquela que glamouriza a esperteza de levar vantagem em tudo?

Penso que não usar a marca iPhone, no caso da Gradiente, não é uma questão de direito. É uma questão de visão estratégica. E ouso dizer mais: é até uma questão de senso de ridículo.

A empresa lançou seu aparelho celular com o nome homônimo da marca Apple integrando o sistema operacional concorrente, o Android. O vídeo promocional reconhece que o aparelho da Apple é melhor (como diferencial, a Gradiente diz que o seu é o único que aceita 2 chips). Há quem tenha elogiado a “honestidade” da empresa em reconhecer que seu telefone não é tão bom quanto o aparelho que usa o nome iPhone no mundo todo há muito mais tempo (mas tinha como ser diferente?). Mas só o que consigo ver é um amontoado de incoerências e uma estratégia confusa.

Qual o posicionamento ela vai usar? O aparelho é xing-ling, mas somos protegidos aqui por lei porque por sorte tivemos a ideia do nome primeiro? Finalmente o iPhone brasileiro pelo preço que você queria? “Chupa” Apple?

Como estudiosa da área de identidade corporativa, vejo um claro problema de identidade: a empresa quer parecer moderna, honesta, esperta, descolada, popular, ou o quê?  O propósito não é claro.

Certamente ela não pode enfatizar a ética como diferencial; já vimos aqui que a questão não está apenas em cumprir a lei.  E não há dúvida, ela está se aproveitando sim da marca que outra empresa consagrou. É o equivalente a pendurar uma melancia no pescoço para ganhar espaço na mídia (inclusive internacional). A empresa, da qual nunca mais ninguém tinha ouvido falar, voltou às manchetes dos principais jornais com essa polêmica. Mas nesse contexto, é tão bom assim aparecer? Tendo suas intenções questionadas publicamente?

Do ponto de vista da inovação, fica bem constrangedor enfatizar esse aspecto. Certamente a Gradiente não pode usar isso como diferencial; é evidente que ela não conseguiria sustentá-lo.

A ênfase podia ser no heroísmo barato, no patriotismo malandro: “somos pequenos e brasileiros, mas botamos uma das maiores empresas do mundo para comer na nossa mão” (por pura sorte, mas isso não vem ao caso). É sabido que a Apple desperta paixão e ódio na mesma medida; então a Gradiente poderia explorar melhor a antipatia que alguns potenciais consumidores nutrem pela marca da maçã.

Mas fundamentar seu diferencial no ódio que alguns consumidores têm por outra empresa (o que poderia facilmente ser interpretado como inveja ou recalque) pode mesmo sequer ser aventado como estratégia?

Penso que uma empresa séria e que buscasse um relacionamento com seus clientes a longo prazo sob bases sólidas, poderia sim, abrir mão do uso da marca, por uma questão de coerência. E ainda se diferenciar e ganhar a simpatia do mercado com isso. Minha sugestão, caso alguém tivesse me perguntado:

Sim, nós da Gradiente poderíamos usar a marca iPhone, temos esse direito. Mas não o faremos, pois sabemos que não é o certo. Se você quer um iPhone, compre um da Apple. Nós temos um produto genuinamente nacional que pode ajudar o país a crescer e gerar empregos aqui. Nosso aparelho, inclusive, atende melhor aos consumidores brasileiros, pois tem capacidade para dois chips, coisa que o concorrente não tem. Nós não usamos a marca iPhone, mas não por causa da Apple. Optamos por não usá-la porque respeitamos você, consumidor, que é inteligente o suficiente para fazer suas escolhas sem o uso desse tipo de malandragem.”

Não sei vocês, mas eu acharia mais digno. E do ponto de vista estratégico, muito mais inteligente.

O fato é que não sei o que será da Gradiente depois desse iPhone xing-ling.

Aguardemos.

28 nov

Imagem: Granado

Depois que ser inovador entrou na moda, tem empresa surtando de tal maneira que chega a colocar em risco sua própria marca.

Boa parte das organizações esqueceu-se de um ponto essencial: inovação é um meio, não um fim. O fim é seduzir o cliente e fidelizá-lo; para isso há que se entregar valor. E, não custa lembrar, inovação, principalmente a desmedida, nem sempre é percebida como valor.

Digo isso porque até semana passada, eu era cliente fiel do O Boticário (tinha até carteirinha).  Deixei de sê-la porque a empresa não me quer mais e me deu um pé.

Acompanhe.

Entrei numa loja do grupo para comprar uma loção de limpeza para o rosto que uso há anos; considero os produtos para a pele da marca excelentes. Até reparei que eles colocaram um moço para atender, que se apresentou como maquiador (adorei!).

Pois é, o drama começou quando pedi a tal loção. Todo feliz, ele explicou que a empresa estava inovando em tudo e que meu produto tinha sido substituído por um tônico (mais caro 50%, diga-se de passagem). Retruquei explicando que tônico e loção têm funções diferentes, portanto não poderiam ser a mesma coisa.

Ele insistiu, dizendo que era exatamente igual, só tinham trocado a embalagem (ó moço, não faça isso não; então você está me dizendo que a empresa finge que inova para cobrar mais caro?). Eu insisti que não poderia ser a mesma coisa. Eis que entra na conversa outra vendedora, explicando que a linha era muito inovadora e que a minha loção tinha virado uma espuma (mas era igualzinha, repetia, só tinha trocado a embalagem).

Bom, como vi que aquilo não ia nos levar a lugar algum, tentei um batom que uso há pelo menos 20 anos (sim, meninas, o lápis avelã, top seller da marca). Pois o rapaz, novamente empolgado (agora estávamos falando de maquiagem, seu metier), explicou que o batom estava para sair de catálogo e seria substituído por uma linha completamente nova. Aliás, ele me informou todo feliz que eles estavam inovando também a maquiagem que seria completamente renovada a cada estação, de maneira que nada daquilo estaria à venda dali a 3 ou 4 meses.

Trocando em miúdos, o que o moço disse foi  “experimente, mas não se empolgue muito, pois, se gostar, logo não vai ter mais para vender”.

Estranha maneira de fidelizar o cliente, não acham? Endeusando a malfadada inovação, eles tiram de linha os produtos mais básicos. Trata-se da arte de puxar o tapete dos próprios pés; sinceramente, não consigo entender. É como se uma pizzaria tradicional tirasse a margherita, a portuguesa e a muzzarela definitivamente e o cardápio fosse trocando os sabores toda semana. Gostou da pizza? Azar o seu, semana que vem não vai ter mais. É o preço da compulsão pela inovação.

Sim, é bacana inovar, mas é preciso ter uma base. Não se pode perder de vista que o tradicional pode ser um valor muito caro ao cliente (se não fosse assim, o que seria dos clássicos?).

Na mão contrária de O Boticário, deparei-me, encantada, com toda a linha Granado redesenhada, valorizando justamente seus clássicos: não apenas o famoso polvilho antisséptico, mas também toda uma linha de coisas novas, mas com os cheiros antigos que fundamentaram o desenvolvimento da marca. Donos também de outra marca tradicional, a Phebo, a organização está apostando forte na revalorização do vintage.

O redesenho das embalagens é lindo; destacou a tradição sem parecer velho. A Granado sabe que vai ser difícil copiá-la, simplesmente porque não dá para qualquer um abrir uma empresa hoje e contar uma história que começou em 1870. As peças todas conversam entre si, incluindo o site. Taí uma empresa que soube dar valor aos clientes fieis.

O Boticário, não contente em jogar fora seu maior ícone, a embalagem do perfume original, que era linda e icônica como uma garrafa da Coca-Cola, agora  surtou a ponto de dispensar seus clientes mais fieis.

Uma pena. Depois que a febre passar, não sei se vai sobrar muita coisa.

E o pior de tudo é que fiquei sem meu batom preferido…

14 nov

Fotografia: Marcos López

Uma das questões mais polêmicas das minhas palestras é quando falo que a empresa não precisa ficar ansiosa por se destacar em inovação ou projetos ambientais se isso não faz parte do DNA dela. É óbvio que não estou dizendo que ela não deve inovar ou cuidar do ambiente; claro que deve, como todo mundo. Mas que tenha consciência de que não está fazendo mais do que a obrigação. Ela vai fazer a lição de casa, mas outros atributos, mais fortes, devem prevalecer como verdadeiros diferenciais.

Aí sempre aparece alguém que discorre sobre as tendências e necessidades do mercado, que exigem inovação total e preocupação com o planeta, o tempo todo. Gente, mas de qual mercado estamos falando? Do famoso “público em geral”? Isso simplesmente não existe, é obra de aluno malandro que deixou para fazer o trabalho na véspera ou profissional com preguiça de pensar

O objetivo da marca é seduzir clientes e fidelizá-los. Não tem como seduzir todo mundo e as empresas devem colocar isso na cabeça de uma vez por todas! É preciso escolher quem se quer seduzir, estudar seu comportamento, entender o que é valor para esse público (que, não custa lembrar, não é um alvo e nem deve ser tratado como tal) e descobrir, na sua própria essência, o que pode ser usado como base para um relacionamento duradouro.

E isso, pode ter certeza, não se descobre em estudos que mostram tendências e afirmações etéreas sobre o que “o mercado quer”.

Só para ilustrar, dois exemplos. Fala-se por aí que o mercado quer mais ética por parte das empresas. Ok, mas que mercado? O que compra DVD no camelô? Ou o que pirateia softwares? Ou seria aquele que paga uma cervejinha para o guarda para escapar da multa? Sim, de fato, há uma parte do mercado muito preocupada com a questão ética; mas é uma parte, não o malfadado “público em geral”.

Ok, o mercado quer comida orgânica e menos junk food. Mas qual parte, aquela que adoraria ter uma cartão de fidelidade do McDonald’s? Ou a que almoça e janta lasanha pronta de caixinha e macarrão instantâneo?

Percebem a diferença? O mercado é formado por pessoas, e, por serem pessoas, são intrinsecamente diferentes entre si, não cabe fazer juízo de valor. A empresa precisa encontrar o público que tem afinidade com suas características.

Qual é a real identidade da empresa? O que ela tem para entregar? Qual parte do público enxerga essas características como valor? Essas são as perguntas que valem um milhão, não aquela preguiçosa e anacrônica “o que o mercado quer?”.

Só para concluir, não estou aqui defendendo que pesquisas de mercado e de tendências sejam inúteis e não devam ser usadas. O que estou chamando atenção é que elas não servem para o “público em geral” e devem ser contextualizadas.

É ou não é, meu querido público específico?

31 out

Esse mês vou ministrar um curso sobre um método de definição do DNA de empresas e não me canso de me surpreender como ainda se dá pouca atenção a um assunto tão importante. E não falo só das pequenas empresas não; falo das grandes também.

A identidade de uma empresa é sua essência, seu DNA. No caso de uma fusão ou aquisição, é imprescindível conhecer os atributos essenciais de todas as partes envolvidas. Quando alguns desses atributos se contradizem, significa que elas não são compatíveis e a transação está fadada ao fracasso.

Exemplos é o que não faltam, mas um que me marcou muito foi o da incensada marca de cosméticos The Body Shop, da lendária Anita Roddick. A The Body Shop foi a primeira empresa a se preocupar abertamente com o meio ambiente, a saúde das pessoas que trabalham na mata fornecendo as matérias primas naturais e a qualidade de vida dos funcionários. Foi também a primeira loja de cosméticos que não prometia milagres e cremes rejuvenescedores; Anita prometia apenas bem estar.

Sim, você está reconhecendo a ideia, não é? Bem, não sei qual é a história verdadeira, mas me parece que há uma clara inspiração da brasileira Natura na empresa de Anita (o que eu acho ótimo, o mundo só ganha com empresas assim).

Só que o conceito não surgiu num brainstorming de uma agência de propaganda ou foi uma grande sacada do pessoal de marketing nos idos de 1976. Simplesmente estava no DNA da fundadora. Anita era ativista dos direitos humanos das mais aguerridas; lutava também pela igualdade social, a preservação do meio ambiente e o consumo ético. Quando abriu a empresa, o objetivo era claro: a ex-hippie era agora casada, tinha dois filhos e precisava muito ganhar dinheiro. Mas, para uma pessoa (ou empresa) com princípios claros, esse dinheiro não poderia custar vidas de pessoas ou de animais.

A empresa foi um sucesso e o crescimento foi rápido; naquela época, ainda não se saía por aí mentindo sobre a sustentabilidade e a ética empresarial para ganhar pontos com os consumidores. Os selos verdes ainda não estavam na moda. Mas eis que as pessoas acreditaram e gostaram da ideia; a marca virou um ícone.

Pena que tanto sucesso acabou atrapalhando; Anita reconhece que errou quando resolveu abrir o capital para acionistas. A partir daí, ela perdeu o controle absoluto das decisões e o DNA da organização não foi mais respeitado. Doente (foi diagnosticada com Hepatite C, vindo a falecer alguns anos depois), acabou vendendo a The Body Shop para a gigante multinacional L’Oreal, justamente o extremo oposto de seu DNA. Até testes de cosméticos com animais eram prática comum na empresa compradora.

Essa foi uma triste história de uma operação genética que simplesmente destruiu o DNA da empresa menor, totalmente açambarcado pela empresa grande.

Hoje, a The Body Shop é uma rede de cosméticos como outra qualquer, sem personalidade, sem diferencial, sem respeito pelas suas origens, com uma identidade frágil e contraditória, envolvendo-ser em polêmicas o tempo todo. A marca não é nem uma sombra do que era, sobrevive graças ao poder e à força da multinacional que a mantém.

Uma pena que as empresas não se preocupem em analisar a compatibilidade genética antes de realizar uma operação tão importante, economizaria desgastes, tensões, desconfianças e, principalmente, dinheiro.

Para saber mais sobre o curso: www.ligiafascioni.com.br/cursoDNA

11 out

Fotografia: Natasja Fourie

Ontem aconteceu uma coisa que me fez lembrar o meu queridíssimo amigo e parceiro Tio Flávio, famoso pelas suas aulas e palestras brilhantes sobre marketing. É que o moço costuma andar com um saco de pirulitos dentro da mochila. Quando o povo está muito agitado, o Flávio distribui os confeitos e instantaneamente a paz e a atenção absoluta são restauradas no ambiente. Não é um gênio, esse rapaz?

É que vi uma mulher no metrô com uma cara tão indignada e mal-humorada que me fez pensar na teoria do pirulito. Se eu tivesse um na bolsa, juro que ofereceria para a moça na mesma hora. Se ela recusasse, a cara não ia ficar pior mesmo. Mas se aceitasse o mundo ganharia mais um sorriso, o que não é pouco se a gente for um pouquinho ambicioso e pensar na coisa em escala.

Repare bem, é impossível ficar irritado e chupar um pirulito ao mesmo tempo; são tarefas mutuamente exclusivas. Além de se dar conta do ridículo que é ficar com a cara amarrada, a pessoa percebe que é fisicamente muito complicado manter a carranca nessas condições.

Imagine uma reunião tensa entre líderes de países em crise, naquele momento em que todo mundo quer ter razão e ninguém quer ceder. Se o pessoal da diplomacia fosse mais esperto, sairia distribuindo pirulitos. Certeza de sucesso! Quem sabe guerras não seriam evitadas com esse artifício?

Chupando um pirulito todo mundo fica mais concentrado e instrospectivo. Passa a ver o mundo sob uma perspectiva mais doce. Cala a boca e ouve mais. Sente-se criança novamente e se dá conta de que nada é assim tão dramático que não possa ser calmamente resolvido enquanto se delicia uma guloseima bem doce e colorida.

Pense numa pessoa grossa e mal educada empurrando outros numa fila. Pense nesse mesmo ogro chupando um pirulito nessa hora. Tudo muda, incluindo o comportamento do próprio, não tem como ser diferente.

Enfim, é de se pensar porque as pessoas param de chupar pirulitos quando crescem. Não deveriam.

Não sei se poderia ser uma solução para o problema da violência no mundo, mas do mau-humor e da malcriação, com certeza seria.

Nesse dia das crianças, saboreie um pirulito bem devagar e pense a respeito.

7 out

Há alguns anos, antes de ter esse blog, aconteceu um fato que me marcou muito, apesar de aparentemente trivial.

Morava num prédio que, apesar da excelente localização, era antigo e não tinha elevador. As portas dos apartamentos eram todas diferentes, tanto nas cores como na textura (algumas tinham até aqueles relevos e vernizes de caixão de defunto, sabe?). Mas enfim, gosto é gosto, cada um tem o seu e isso nunca me incomodou.

Ao me mudar, logo percebi que aquela diversidade poderia me ser favorável, pois adoro diferenças. É que eu tinha planos mirabolantes para a minha porta que jamais poderiam ser colocados em prática em um edifício novo, com portas padronizadas.

Fiz da minha entrada uma manifestação de boas vindas aos visitantes e passantes. A idéia é que ninguém (nem eu), conseguisse passar da soleira para dentro com a cara amarrada ou mau humor. Para mim, alto astral é tudo num lar.

Cuidei para que o tema não ofendesse ninguém, não fizesse propaganda de partidos políticos, religião ou times de futebol, que não fosse agressivo, enfim, que não conseguisse reunir elementos nem mesmo para ofender o mais ortodoxo dos muçulmanos. O objetivo era um só: provocar bem-estar, bom humor, divertimento. Mostrava uma moça sorridente fotografando o visitante (a lente da câmera era o meu olho mágico).

Pois eis que alguns dias depois recebo uma correspondência do condomínio intimando a mundaça da minha porta no prazo máximo de 5 dias porque ela estava “fora do padrão”, sob pena de receber multas diárias. Ora, ora. Então quer dizer que o condomínio tinha um padrão? Qual seria? E ainda pensei, na mais pura ingenuidade: mas como será que todo mundo vai mudar as suas portas em apenas 5 dias? E fui bater na porta da síndica (por sinal, de uma madeira entalhada que eu nunca tinha visto nas redondezas).

Bom, conversamos bastante, eu pressionando para saber qual era o padrão, ela desconversando. No final, confessou: alguns moradores a obrigaram a tomar uma providência porque a minha porta estava muito diferente. Cada um podia ter a porta que quisesse, o problema era só com a minha. Isso mesmo — e o pior é ninguém a achou feia, nem ofensiva, nem mesmo de mau gosto. As pessoas apenas estavam incomodadas porque ela era muito diferente do normal.

Resumo da ópera: fiquei muito magoada, chateada mesmo, mas acabei trocando a tal da porta, pois ela acabou causando um efeito contrário ao desejado, então tinha perdido o sentido. Mas confesso que aquilo me derrubou um pouco e até hoje me lembro do episódio com tristeza.

De qualquer forma, já estava um pouco acostumada. Sofri outras vezes por ter algumas ideias diferentes do normal: fui cobrada sistematicamente tanto por gente conhecida como estranha porque escolhi não ter filhos; consegui amealhar inimigos que até hoje investem seu precioso tempo me enviando e-mails desaforados porque não concordam com minhas ideias sobre design e sobre atitude profissional de designers (certa feita fui desclassificada em um concurso para professor numa disciplina onde tenho doutorado sob a ridícula alegação de que não possuía diplomas e publicações suficientes); transformei um apartamento de três quartos num quarto e sala, derrubando todas as paredes, para escândalo de muitos; matriculei-me numa auto-escola para aprender a pilotar motos aos 39 anos. De fato, tenho que concordar com essa gente: não sou normal não. E estava ficando cada vez mais difícil me adaptar às portas-padrão…

Talvez por isso é que quando cheguei em Berlin e vi que a senhorinha que trabalhava como caixa no supermercado tinha metade do cabelo verde e a outra metade pink; que casais gays andavam de mãos dadas sem incomodar ninguém; que pessoas fantasiadas de personagens de quadrinhos pegavam o metrô sem chamar atenção; que um homem de peruca chanel e sandálias altas podia tomar café na padaria rodeado de amigos vestindo ternos escuros sem ser incomodado; que cachorros frequentavam livrarias; que as fachadas eram ousadas e originais; e que, veja só, até as portas eram todas bem diferentes, bem… me senti em casa.

Impossível descrever a sensação de ter finalmente encontrado meu espaço no mundo. Definitivamente, nasci para viver numa cidade assim, onde as pessoas não são julgadas por suas portas. Não tenho nenhuma identificação com a língua e nem com a cultura desse lugar, mas sua essência me atrai e me completa.

Berlin, somos duas anormais, amiga. E juntas, espero, seremos felizes para sempre…

24 set

Ilustração: Jeffrey T. Larson

A maioria das pessoas que conheço que vêm a Berlin pela primeira vez ficam encantadas com 3 coisas: a espantosa quantidade de área verde; o excelente transporte público; e a segurança.

E quase automaticamente, vem a pergunta: dá para ganhar bem trabalhando aqui?

Aparentemente, uma coisa não tem nada a ver com outra, mas penso que a conexão é mais profunda do que parece à primeira vista; eu explico.

Berlin não é um parâmetro muito válido porque é considerada uma cidade pobre para os padrões alemães, uma vez que aqui é a sede administrativa do país e não possui muitas indústrias. Mesmo assim, dá para dizer uma coisa que vale para o país todo e que talvez deixe muita gente aí no Brasil chocado: a diferença entre o salário de um operário (ou caixa de supermercado) e de um diretor de empresa é, no máximo, 5 vezes. Isso inclui funcionários públicos de alto escalão, professores universitários doutores, juízes e médicos.

Um amigo comentou que o mesmo acontece na Suécia; um professor universitário, com doutorado, ganha, no máximo 2 mil Euros líquidos. Para se ter uma idéia, um almoço no restaurante universitário lá custa 8 Euros. Não é fácil, né? No entanto, esses países são os que se considera como tendo a melhor qualidade de vida.

Então, imagine: é como se no Brasil, o rendimento máximo bruto de qualquer pessoa que vive de salário fosse R$ 5 ou 6 mil reais. Disso, quase 40% ficam retidos para os impostos, aposentadoria e plano de saúde obrigatório. Pois é, não sobra muito.

Por isso é que aqui a gente não vê um funcionário público, seja ele quem for, se achando o Sr. Rei da Cocada Preta (no Brasil, nosso apartamento fica perto do ministério público; é de dar nojo a empáfia do povo que trabalha lá). Os alemães não têm muita sobra no orçamento, como se pode ver; mas adoram viajar e ler. Então, lavam e passam a própria roupa, fazem a própria comida e limpam a própria casa.

Aqui não tem pet shop para dar banho em cachorros; os próprios donos se encarregam disso. A maior parte das pessoas compra seus móveis na IKEA e aluga um carro ou reboque para levar a encomenda para casa. Para montar uma cozinha inteira, por exemplo, é só ler o manual de instruções; tem que botar a mão na massa mesmo.

Os professores da minha escola são altamente qualificados (a escola é uma das que melhor paga); pois todos levam marmita e ninguém acha feio. Andam o máximo que podem de bicicleta e, no inverno, de transporte público. Os que têm carro usam modelos menores (aquelas horrosidades gigantes com vidro fumê e ar condicionado ligado no máximo não tem aqui, para minha felicidade). Outro efeito colateral é que o trânsito é excelente; a velocidade máxima permitida nos bairros é 30 km/h e eu nunca vi engarrafamentos na hora do rush.

Os prédios não têm porteiro e uma vez por semana vem uma empresa terceirizada varrer as escadas. Quando chega uma encomenda e não estou em casa, sempre tem um bilhetinho na caixa do correio avisando com qual vizinho está o pacote; é só ir lá pegar (e aproveitar para fazer um social). Às vezes a gente também fica com correspondência de vizinhos.

É claro que tem gente rica também (geralmente donos de grandes negócios). Mas eles jamais destratam serviçais, simplesmente porque aqui não há subcategorias menores, como no Brasil. As pessoas ricas também metem a mão na massa, por uma questão de filosofia mesmo.

No Brasil, ainda trazemos indícios da cultura escravagista; todo mundo quer ter alguém para mandar (e, de preferência, humilhar e maltratar, para mostrar quem é que manda). O que puder ser terceirizado, será. As pessoas contratam outras para fazer as coisas mais básicas, de levar cachorro para passear até levar o lixo para a rua; e isso é em todos os níveis. A moça que trabalha de empregada e mora na favela paga alguém para fazer faxina na casa dela; certeza.

Uma amiga brasileira que mora aqui me contou das chateações que uma alemã que morou no Brasil passou porque gostava de cuidar do próprio jardim (realmente, eles adoram). A questão é que a moça morava no Alphaville, condomínio de alto padrão em São Paulo; frequentemente era motivo de chacota porque uma pessoa do nível dela (adoro isso de “nível de pessoa”; só que não) podia muito bem pagar um jardineiro. É a cultura da sinhazinha moça e do senhor de engenho levada às últimas conseqüências.

Fico triste quando vejo a vida girar em torno na ostentação no nosso país; como as pessoas não têm vergonha de ganhar 30, 40, até 50 vezes mais que outras (sendo que a maioria é funcionária pública) e ainda acham isso o máximo; ficam esnobando o sucesso como se fosse mérito próprio, e não uma distorção do sistema. É um tal de quem consegue ganhar mais para comprar um carro maior, mandar o máximo que puder com uma prepotência totalmente alheia à realidade das coisas, que chega a doer. Seria apenas ridículo, se não fosse tão dramático.

A mordomia é irresistível (quem não gosta), mas qual é o preço disso tudo?

Só para terminar fazendo a conexão com o assunto lá do começo: se a diferença de salários não é grande (e olha que a Alemanha é a maior economia capitalista da Europa), não tem porque haver essa violência toda que a gente experimenta no Brasil.

Aqui tem gente pobre, mas não tem favela. O transporte público funciona bem porque ele é essencial; até os funcionários públicos mais graduados dependem dele para se locomover. As áreas verdes são muitas e bem cuidadas porque não são privilégio de bairros chiques; tem na cidade toda, para todo mundo.

Fico vendo as notícias do Brasil e fico pensando: não seria a hora das pessoas acordarem e passarem a viver como ricos de verdade?

14 set

Esses dias calhou de eu assistir alguns vídeos das palestras que rolaram na casa TPM (um evento promovido pela revista TPM, que adoro) e um deles era da Suzana Herculano-Houzel (já falei dessa moça brilhante aqui).

A neurocientista foi convidada para falar sobre as diferenças que existem entre o cérebro do homem de da mulher. Num lugar onde estava todo mundo louvando as características femininas, veio a intrépida Suzana e disse o que ninguém esperava ouvir: as diferenças anatômicas são praticamente mínimas, quase inexistentes, assim como o funcionamento; não tem essa de cérebro pink, de lado direito e de características essencialmente femininas.

Basicamente, o cérebro do homem é maior do que o da mulher porque, na média, os homens são fisicamente maiores mesmo. O peso do órgão varia de 1,2 a 1,4 kg, dependendo do tamanho da pessoa (quem é maior, tem mãos, pés e orelhas maiores; por que o cérebro também não seria proporcional?). Mas aqui pode-se afirmar com certeza: tamanho não é documento. Só a título de informação, o do Einstein tinha apenas 1,2 kg; e imagine quanto deve pesar o cérebro de um búfalo ou o de um elefante marinho.

Mas de onde tiraram a ideia de que homens são mais racionais e usam mais o lado esquerdo; ao contrário das mulheres, mais emocionais, que usam mais o lado direito?

Suzana explica como é que começou essa história da carochinha que repetimos até hoje como papagaios. É que em 1863, conseguiram, pela primeira vez, documentar bem direitinho uma lesão no cérebro, com imagem e tudo. O paciente era um homem e tinha perdido a fala. A imagem mostrava um buraco no lado esquerdo; daí que se deduziu que essa parte era responsável pela fala. Até aí, perfeito, fazia todo o sentido.

Mas eis que um grupo de biólogos resolveu aproveitar a deixa e desdobrar a ideia: se a fala está no lado esquerdo, então todas as coisas “úteis” também devem estar no mesmo lado: o pensamento lógico, as atividades motoras, a razão. Como o grupo era todo formado por homens, numa época em que eles dominavam tudo ainda mais que hoje, rapidamente associaram essas atividades como masculinas. Mas então, o lado direito, para manter a simetria, teria que compensar: a irracionalidade, a emoção, a subjetividade, ficaram representando o feminino.  Só que o negócio nunca teve nenhum fundamento científico; era pura viagem desse bando de rapazes criativos; a coisa pegou de tal jeito que até hoje todo mundo repete, como se fosse uma grande verdade.

Então, minha gente, não tem essa conversa de usar mais um ou o outro lado do cérebro (sim, há muita gente boa que usa essa divisão, mas é apenas uma metáfora; e, como toda metáfora, não possui compromisso com a realidade); a gente usa os dois lados o tempo todo, homens e mulheres.

Ah, mas mulher chora mais. Sim, mas não porque seu cérebro seja diferente. Isso acontece por causa dos hormônios.

E aquela história que os homens são melhores em matemática do que as mulheres?

Aí é que vem a grande sacada da palestra, na minha opinião.

É que para se fazer qualquer coisa na vida, é necessário motivação, aquela força que faz a gente levantar da cama quando ela está bem quentinha ou ficar até mais tarde estudando mesmo quando está morrendo de sono. E a motivação está diretamente relacionada às expectativas. Eu faço determinado “sacrifício” porque espero um determinado resultado. É assim que funciona.

As expectativas da sociedade também são projetadas nas pessoas. Existem inúmeros experimentos que mostram que se você falar para um grupo de alunos que eles são mais inteligentes, eles vão se sair melhor (infelizmente, o contrário também funciona). Os experimentos comprovaram o mesmo comportamento para cor de pele, gêneros, orientação sexual, qualquer coisa. Se a pressão explícita é forte, acontece o fenômeno conhecido como profecia auto-realizável (já falei sobre isso aqui).

Se as meninas crescem ouvindo que não ruins em matemática, que isso é coisa de homem, que elas só são boas para cuidar de crianças e da casa, o que esperar como resultado? Elas ligam a televisão e o mantra se repete; elas lêem romances que continuam a historinha; enfim, fica bem complicado motivá-las a estudar física (alguns dos meus professores na engenharia não se cansavam de me lembrar onde era meu “lugar”). A não ser que elas tenham alguma outra força mais influente, um universo de referências mais amplo, fica muito difícil investir em algo cujo retorno esperado é tão decepcionante.

Faria bem para todo mundo acabar com essa bobagem de cérebros diferentes; isso é cultural, não biológico. Todo mundo pode tudo, a princípio.

O bom é que as coisas estão começando, devagarzinho, a se esquilibrar. Hoje se vê mais homens que choram, que valorizam as emoções e sabem cuidar; e vemos também meninas como a Hermione, do Harry Potter, inspirando toda uma geração.

Não sei vocês, mas estou adorando.

***

Para ver o vídeo original da Suzana explicando isso e muito mais, clique aqui.

26 ago

Continuando a coluna anterior, em que falava do livro “How to find  fulfilling work“, de Roman Krznaric, vou compartilhar alguns dos exercícios que ele propõe e que achei muito interessantes.

O primeiro se chama “mapa de escolhas”, que consiste em desenhar o mapa da sua carreira. Nele, você indica todos os trabalhos que já teve e as diferentes motivações e forças que definiram sua rota em cada ponto (ex: escolhas educacionais, expectativas dos pais, aconselhamento de um profissional, oportunidade que surgiu, etc).

Esse aí é o meu exercício, com os trabalhos mais importantes.

Agora olhe seu desenho: você consegue ver algum padrão, algo que sempre foi mais relevante para nortear suas escolhas? Que motivações sempre pesaram mais: dinheiro, status, respeito, paixões, talentos, pessoas? Quais dessas motivações você quer priorizar no futuro?

No meu caso, já desconfiava, mas agora tive certeza: minha principal motivação é aprender, de preferência com gente bacana. É claro que também quero ganhar dinheiro, mas já recusei salários maiores porque não tinha muita perspectiva de aprender ou porque a equipe não era amigável (num dos casos, na entrevista, a pessoa me disse que a principal característica do grupo é que eles eram muito competitivos — eu não sou nada competitiva, iria me dar muito mal).

Agora outro, mais bacana: imagine 5 universos paralelos; em cada um deles você tem uma profissão diferente que gostaria de experimentar. Quais seriam elas?

Bom, aqui fui bem conservadora e pouco criativa, pois coloquei algumas coisas que já faço, mesmo que de maneira amadora, como ilustração. Também adoro ser palestrante, por isso vou continuar fazendo esse trabalho no Brasil e não pretendo desistir dessa carreira. Se eu conseguisse ganhar algum dinheiro escrevendo também seria ótimo. Mas ok, a ideia é começar a explorar possibilidades, sempre dá para refazer o exercício quando surgirem novas ideias. Também achei importante destacar o que me encanta em cada um desses universos, mas fica a seu critério colocar mais informações.

Agora, outro exercício desafiador: faça uma propaganda de você mesmo, descrevendo seus talentos (ex: você fala japonês e toca guitarra), suas paixões (ex: cultivo de orquídeas e coleção de carros de modelismo), causas em que você acredita (ex: proteção animal ou ambiental) e suas características pessoais (ex: impaciência, vaidade, sabe guardar segredos).

Depois, mais algumas coisas que sejam importantes, como o mínimo que você gostaria de ganhar ou o local de trabalho. Atenção: não coloque sua qualificação educacional ou trabalhos anteriores e nem se auto-elogie. Não conduza a propaganda para uma determinada carreira, tente ser o mais neutro possível.

Olha aqui a minha.

É uma propaganda, por isso saí assim, bonitinha...ehehe

Agora faça uma lista de 10 pessoas que você conheceu em diferentes estágios da vida e envie esse “anúncio” para algumas (poucas) em que você confia. Peça para elas sugerirem duas ou três carreiras que poderiam se adequar a esse candidato (por favor, não mandem para mim, não estou conseguindo dar conta da correspondência normal).

Peça para que elas sejam específicas; em vez de “trabalhar com crianças”, melhor seria dizer “trabalhar num projeto social com filhos de presidiários no RJ”.  Essa é uma fonte muito interessante de ideias que podem ser exploradas; com certeza, algumas jamais teriam passado pela sua cabeça.

Olha, taí um exercício bom para todo mundo fazer, pois dá uma organizada no que é mais importante para a gente e pode dar origem a ideias originais. Fique à vontade para me sugerir carreiras, ok?

E agora sim, vamos todos voltar ao trabalho que amanhã já é segunda-feira outra vez.

6 ago

Tem um povo no Facebook e no Twitter cujo esporte predileto é lamentar a chegada da segunda-feira. Não sei se estão profundamente insatisfeitos com o trabalho ou apenas refletindo um sentimento comum à maioria das pessoas.

Sobre a realização profissional falaremos na próxima coluna (estou lendo um livro ótimo a esse respeito), mas a segunda-feira realmente carrega simbolismos e desperta reações não exatamente empolgadas; tanto que chega a afetar até as pessoas que não trabalham. Eis que o negócio está tão popularizado que a depressão que se instala depois da musiquinha do Fantástico (mesmo em países onde esse programa não passa…rsrsr) recebeu até um nome dos pesquisadores: síndrome de segunda-feira.

Isso me fez lembrar do livro “Positivamente irracional” do Daniel Ariely (já falei sobre isso aqui). Nele, o autor conta que depois de sofrer um acidente terrível onde teve o corpo quase totalmente queimado, submeteu-se a um tratamento bem pesado por conta de uma infecção oportunista; os remédios provocavam sintomas parecidos com os de uma quimioterapia. E o pior: ele tinha que tomar a medicação sozinho, em casa. O projeto durou um longo e doloroso ano e fazia parte de uma pesquisa; do grupo todo, apenas ele conseguiu levar a cabo o tratamento (e se curar). Todos os outros desistiram no caminho, pois era muito difícil se automotivar para tanto sofrimento.

Daniel conta como conseguiu: ele sempre programava uma atividade que adorava (assistir filmes), justamente para nesse dia. Assim, na noite anterior o moço sempre tentava se concentrar no que tinha de bom para o dia seguinte, não na experiência desagradável que sabia ter que passar.

Já pensou que essa pode ser uma boa ideia para melhorar sua segunda; associá-la a alguma coisa que você adora?

Por incrível que pareça, a maioria das pessoas faz exatamente o contrário. Segunda-feira já é chata por natureza, e o infeliz ainda quer completar o estrago começando uma dieta ou se torturando na academia? Fala sério, né? Não tem como funcionar. Por que não reservar justamente esse dia para ir ao cinema (é mais barato e não tem fila) ou liberar o chocolate? Ou estrear sua playlist cuidadosamente preparada no final de semana? Ou almoçar com os amigos? Ou caprichar no café da manhã?

Lembrei disso porque tenho aulas todos os dias de manhã e acabo adorando as segundas-feiras por um motivo bem simples. É o dia em que a aula começa uma hora mais tarde (claro que termina uma hora mais tarde também, mas né?).

A causa não tem nada a ver com motivação; é o dia em que os novos alunos fazem os testes para ver em que nível estão, mas funciona.  Aos domingos vou sempre dormir bem feliz sabendo que vou poder dormir uma hora a mais.

É simples, não custa nada e funciona muito bem. Fica aí uma ideia para você sugerir para o seu chefe, ou, no caso de você ser um, implementar na sua empresa. No extremo, dá até para abolir o expediente na segunda de manhã e compensar as horas nos outros dias.

Essa é só uma ideia. Mas pensa aí: como fazer a sua segunda ser de primeira?

25 jul

Imagem: Dominique Piccinato

A maioria das pessoas que conheço (e me incluo também) se auto-descreve como otimista. Pois é, pelo que acabei de ler, parece que o povo está falando sério mesmo.

Se tivesse que resumir o livro “The optimism bias: why we’re wired to look on the bright side” do neurocientista Tali Sharot em um frase, diria que ele explica porque as pessoas tendem a ver sempre o lado positivo das coisas. Não tem mistério: somos programados assim por uma questão de sobrevivência, olha só.

Tali começa mostrando como a nossa percepção vive nos pregando peças. As ilusões visuais são velhas conhecidas (ele mostra algumas clássicas no livro), mas podemos nos autoenganar com todos os outros sentidos. Além disso, geralmente a gente acha que é mais competente, inteligente, interessante, lógico e bonito do que realmente é, entre outras coisas.

Não adianta você dizer que não e sair desfilando sua modéstia; isso é estatisticamente verificado; o autor apresenta pesquisas feitas no mundo todo. O entrevistador pede para a pessoa se auto-avaliar e dizer se está abaixo, na média, ou acima da média em vários quesitos (ex: honestidade, beleza, liderança, bom senso, inteligência, relacionamentos, etc) .

Só para se ter uma ideia, 93% das pessoas consideram que dirigem melhor que a média. Ótimo, então como é que apenas 7% podem estar na média ou abaixo dela?  A conta não fecha. Conclusão: tem muita gente (a maioria) se achando melhor do que é de fato.

O engraçado é que a gente consegue ver claramente esse desvio nos outros, mas dificilmente em nós mesmos. Nossa percepção da realidade é subjetiva e não raro é diferente da realidade objetiva.

A explicação é que de fora fica mais fácil de ver a diferença entre a realidade e o que o outro está percebendo. Como a gente não consegue ver a nossa, automaticamente conclui que somos menos sucetíveis a esse tipo de distorção de julgamento, por isso se acha melhor que os demais. Sei que dói ouvir, mas isso é verdade para mim, para você e para toda a torcida do Flamengo.

Uma outra coisa importantíssima é a nossa habilidade de viajar mentalmente no tempo e no espaço; podemos voltar ao passado ou projetar o futuro num piscar de olhos, sem nenhuma preparação especial; é só querer. Nosso cérebro foi desenvolvido com essa capacidade e quanto mais a gente usa, mais consegue fazer isso bem.

Pois é, agora é que vem o fato curioso: em última instância, é justamente essa capacidade de viajar mentalmente que nos faz ser tão otimistas. O desvio para ver as coisas de maneira positiva (inclusive em nós mesmos) simplesmente não existe sem a capacidade elementar de considerar o futuro.

A nossa percepção da realidade, aliás, é afetada por muitos fatores. Um dos mais importantes é imaginar o que os outros esperam de nós. O livro apresenta mais uma batelada de pesquisas onde o desempenho das pessoas varia absurdamente por causa de uma palavra citada antes de um teste (a simples menção da palavra “estúpido” no cabeçalho de uma prova pode alterar completamente a média geral para baixo, para se ter uma ideia).

Ele fala também o fenômeno da profecia auto-realizável: você ou outra pessoa projeta expectativas que acabam acontencendo porque você  se esforça para fazê-las acontecerem. Por exemplo: diga aleatoriamente para 5 alunos em uma sala de aula que eles são mais inteligentes que os outros e veja quem tirará as melhores notas. Batata, não tem erro.

Tali fala também que, por causa dessa nossa capacidade de projetar o futuro, adoramos esperar um pouco para receber a recompensa. Se a comida for deliciosa, aguardar por ela faz parte do prazer da refeição; se o carro é customizado, você não se incomoda de ficar um mês inteiro sonhando até o dia de seu tesouro chegar. É aquele ditado que diz que preparar a festa é tão ou mais gostoso que a festa em si; é a ciência abalizando o que sua avó sempre disse. Quanto maior a expectativa do prazer, mais as pessoas curtem a espera e até se decepcionam um pouco quando a coisa acontece rápido demais.

O livro, que recomendo bastante, fala ainda sobre a relação entre o otimismo e a depressão; sobre como o cérebro aumenta de tamanho as áreas que são mais trabalhadas da mesma maneira que os músculos crescem quando exercitados; enfim, tem muita coisa boa para se aprender.

Como conclusão, as pesquisas só mostram o que todo mundo já sabia faz tempo: porque a sexta-feira (e não o sábado) é o dia mais adorado da semana (e não o domingo, quando ninguém trabalha).

Pois é, então só posso desejar pra todo mundo o óbvio depois de ler isso tudo: uma longa e deliciosa espera até um final de semana cheio de surpresas ótimas!

5 jul

Fototgrafia: John Crosley

Não faz muitos anos, a pessoa só precisava descrever suas competências profissionais no currículo (mesmo assim, só quando carecia de achar um emprego). Hoje, além da fila andar muito mais rápido, tem uma galera trabalhando de maneira autônoma ou como pessoa jurídica.

Vai daí que quase todo mundo que está no mercado precisa se apresentar profissionalmente de maneira resumida, seja em sites, blogs, redes sociais, palestras, artigos, entrevistas ou até, veja só, o bom e velho currículo.

O que tenho visto é que tem um povo por aí misturando as coisas e sendo alvo de vergonha alheia por pura desinformação (e, muitas vezes, por falta de noção também).

Geralmente você tem que vender seu peixe em poucas linhas e a tentação de usar clichês e se auto-elogiar é grande, mas resista, por favor.

Claro que, dependendo do perfil e do serviço oferecido, a pessoa sempre pode ousar mais e fazer poesia, trocadilhos, usar frases de efeito e tentar ser engraçada, mas aí o risco cresce bastante. Se você prefere pagar para ver, fique à vontade. Mas seguem algumas dicas para pensar a respeito.

Para seu próprio bem, pense mil vezes e depois mais mil antes de usar os seguintes termos para se apresentar (serve para empresas, estúdios e agências também):

Criativo. Adoro (só que não) quando isso vem no perfil de um designer, arquiteto, publicitário ou ilustrador (ou empresas da área). Sim, porque se essa gente não for criativa, morre de fome; é pré-requisito básico para trabalhos como esses. É mais ou menos como um dentista dizer que tem coordenação motora fina ou um jornalista dizer que seu português é bom (se que que há muitos com português péssimo, mas vá lá). Não acrescenta nenhuma informação relevante e depõe contra o bom senso do profissional (o pior é quando isso aparece como diferencial).

Inovador. Esse é meu preferido; quase todo mundo que se acha muito criativo coloca junto o onipresente “inovador“. Só para esclarecer: inovador é aquele sujeito que transforma uma ideia original em negócio (de preferência, lucrativo). O inovador, quando é bom mesmo, chega a mudar a base de competição do mercado. E aí, vai bancar? Acho melhor não, viu? É sempre preferível que o mercado conclua sozinho se você merece o atributo (ou não, como diria Caetano).

Proativo. Quem é proativo não diz, mostra: quais negócios iniciou, quais projetos realizou, quais mudanças fez nas empresas onde trabalhou ou na escola onde estudou, que diferença fez onde se meteu. De resto, quem tem permissão para usar esse adjetivo para se referir à qualidade do seu trabalho são os outros, jamais (entendeu bem? jamais!) a própria pessoa.

Motivado. Aiaiai… motivação é uma coisa tão básica, mas tão básica para alguém que está se apresentando profissionalmente que, já que você colocou isso como atributo diferencial, aproveite e diga também que é limpinho e cheiroso (toma banho todo dia).

É bom no relacionamento com colegas. Esse item também costuma ser chamado de “sabe trabalhar em equipe“. Você conhece alguém que diga que tem dificuldades de relacionamento no trabalho ou que não sabe trabalhar em equipe? Eu não. Novamente, essa característica só os seus colegas (ou chefes, ou subordinados) podem atestar. Sua palavra, nesse caso, não vale.

Aprende rápido. Outra obviedade que não acrescenta nada; todos os profissionais que estão no mercado, de um jeito de outro, aprendem rápido. Senão estariam fora.

Ético. Observe o naipe das pessoas que têm usado esse adjetivo para se descrever (lembrando que esse ano é de eleições). Significa alguma coisa? Sim, significa que é pelas atitudes que sabemos quem é ou não ético; não pelo discurso. Tire essa palavra da sua apresentação, ela não vai ajudar (é tipo o hotel escrever numa placa que é familiar; se precisa escrever é porque obviamente não é).

Comprometido com os objetivos. Raciocinem comigo: faz sentido alguém oferecer algum tipo de serviço se não quer se comprometer com o resultado? Alguém, em sã consciência, se auto-descreveria como “tô nem aí, só quero levar o meu“? Qualquer profissional, por mais incompetente e personalista que seja, vai jurar pela avó falecida que é comprometido com os objetivos. O que significa que essa expressão não significa rigorosamente nada numa apresentação.

Pôxa, mas que chata e estraga prazeres! Assim não sobrou nada para escrever!!

Sobrou sim, e justamente a parte que interessa: sua formação resumida (o que aprendeu) e os serviços que você oferece (o que você fez com o que aprendeu). Tudo em poucas linhas, sem muitas firulas e, principalmente, nenhum (mas nenhum mesmo) adjetivo. Economiza o tempo de todo mundo, livra você de constrangimentos desnecessários e demonstra objetividade.

Já faz algum tempo, tenho visto algumas variações interessantes: o sujeito coloca a formação, o que faz e mais uma frase final com alguma curiosidade engraçadinha, para quebrar o gelo, tipo: Pedro da Silva, físico nuclear com doutorado em fusão a frio, pesquisador do laboratório tal e tocador de pandeiro. Membro fundador da Associação de Trekking de Pindaíba do Sul. Pedro não precisa dizer que é uma pessoa com interesses diversos, integrado na sociedade e praticante de esportes; ele mostra.

Outro exemplo: Sabrina Matos, administradora de empresas, consultora em finanças com mestrado na PUC e MBA em Cambridge. Cinéfila e praticante de asa delta nas horas vagas. Repare que a Sabrina mostrou que é ousada, dinâmica e apreciadora de arte sem usar essas palavras e se auto-elogiar. Muito mais elegante. Mas atenção, não é um texto inteiro sobre seus gostos e preferências recheado de piadas e gracinhas; é só uma frase com uma dica reveladora e bem-humorada.

Gosto bastante do modelo, mas ainda não me arrisquei não. Convém pensar bastante antes de partir para a ação. É mais difícil do que parece.

Bora dar uma revisada no seu perfil?

23 jun

Hoje aconteceu a Parada Gay aqui em Berlin, mais conhecida como Christopher-Street Day. O nome vem de uma rua de New York, onde, em 28 de junho de 1969, num bar chamado Stonewall, houve a primeira manifestação pública contra a homofobia. Com o tempo, vários países da Europa adotaram o final de junho para fazer a festa (o Brasil também).

Nesse ano, mais um motivo chama atenção para o fato: hoje é também o aniversário do nascimento de Alan Turing, precursor da informática e um dos maiores gênios matemáticos que a Inglaterra já produziu. Todo mundo que trabalha com informática já ouviu falar da Máquina de Turing, o protótipo do primeiro computador. Alan inventou o conceito de algoritmo e, além disso, era filósofo. Durante a Segunda Guerra Mundial ajudou os militares a vencer decifrando mensagens nazistas criptografadas.

Pois é, mas nem mesmo tudo de sensacional que ele fez pelo seu país o livrou de ser preso por um motivo idiota: era homossexual. Ficou doente na prisão, recebeu um “tratamento” com hormônios e acabou se suicidando. E o mundo perdeu um gênio aos 42 anos, no auge de sua produtividade, por pura burrice. O mesmo aconteceu com Oscar Wilde, outra mente brilhante vítima da ignorância.

Sério, por mais que eu me esforce, não consigo entender como é que a vida íntima de uma pessoa pode incomodar tanto outras que não são sequer minimamente impactadas por ela. Que diferença faz se o sujeito só pega no sono com a TV ligada, se adora cebolas cruas ou se prefere pessoas do mesmo sexo para se relacionar? Se você não pretende dormir com ele, nenhuma.

Ainda mais se a gente considerar que a neurociência já descobriu faz tempo que a prediposição para a homossexualidade é biológica e a pessoa já nasce com os genes predipostos a se sentir atraída por pessoas do sexo oposto ou do mesmo sexo, independente de fatores externos (ambiente, cultura, educação, etc). É como ter olhos azuis ou pernas compridas; a pessoa nasce assim e não tem nada de errado nisso.

Então, minha gente, ter preconceito contra homossexuais é igualzinho a ser racista; você está considerando apenas um detalhe genético irrelevante como argumento para prejudicar pessoas. Não é justo. O nazismo usava as mesmas bases, pense nisso.

Estatisticamente, cerca de 10% da população nasce homossexual, não escolhe; por isso, é complicado falar em opção. A única opção que a pessoa tem, no caso, é entre violentar ou não sua natureza; tentar ou não ser feliz.

As desculpas para se perseguir (mesmo que de maneira velada) os homossexuais são tão bizarras que chegam a ser motivo de vergonha alheia. Selecionei algumas colhidas entre conhecidos meus, com nível superior e teoricamente mais esclarecidos. Vai vendo só o naipe das desculpas; a frase invariavelmente começa assim: “Não tenho preconceito contra gays, mas…

“…não é uma coisa normal“. Gente, mas o que é ser normal? Ser a maioria? Então devemos sair dando pauladas para exterminar todos os ruivos, pois eles são apenas 4% da população mundial; muito menos normais que os gays, portanto.

…não permito que meus filhos convivam com gays, pois eles podem se influenciar“. Bom, como já se sabe que a predisposição para a homossexualidade é biológica, essa frase tem o mesmo não-sentido que “Não permito que meus filhos convivam com pessoas de canelas finas, pois eles podem se influenciar“. Ridículo, não? Pois homofobia é ridícula mesmo.

…tenho medo que um gay abuse do meu filho; eles são perigosos“. Bom, segundo uma pesquisa da Universidade de Medicina do Colorado, 82% dos abusadores são heterosexuais e parentes próximos das vítimas (não raro, os próprios pais). Tire suas próprias conclusões.

“…não ando com gays porque tenho medo de levar uma cantada“. Olha, para mim essa é a melhor. Primeiro, a pessoa se acha gostosa a ponto de achar que o(a) gay em questão vai ficar irresistivelmente atraído(a) por ela. Segundo, por que alguém teria medo de levar uma cantada? Será que nunca levou nenhuma? Funciona assim, ó: se estiver a fim encoraje, se não estiver, diga não e pronto. Não doi nada, vai por mim.

Infelizmente ainda tem muita luta pela frente para as pessoas pararem de se incomodar com bobagem e deixar cada um levar a vida como melhor lhe convém, desde que não prejudique os outros; a homossexualidade ainda é considerada crime em mais de 100 países, em pleno século XXI, acredita?

Mas já se esteve mais longe.

Pelo menos aqui em Berlin, os casais gays, homens e mulheres, andam de mãos dadas na rua e ninguém liga. O prefeito da cidade é gay assumido e os partidos não ficam de enrolação fazendo média sem se posicionar; cada um tinha o seu carro oficial na parada com pelo menos um representante.

Coisa linda ver uma festa colorida assim, famílias inteiras com crianças (que não têm preconceitos, isso é coisa de gente grande), shows, música, comida, bebida e, principalmente, muita paz. Talvez demore um pouco ainda, mas tenho fé que o mundo todo ainda vai chegar num nível de civilidade que respeite e valorize as diferenças.

E que não se percam mais Turings, Wildes e outras vidas preciosas em nome da intolerância, da burrice e do preconceito.

Tudo de importante nessa cidade acontece na frente do portão de Brandemburgo

Festa linda, com gente bonita, colorida e bem humorada; como não amar?

Casais hetero aproveitando a festa, que era para todos

Aqui os cadeirantes sempre têm vez

Adorei as perucas coloridas

Bom humor à toda prova

Ano que vem vou comprar uma peruca dessas; amei

Lindona!

Quer ver mais fotos dessa festa coloridíssima? Clique aqui e vá direto no Flickr.

17 jun

Ilustração: Arturo Elena

Você sabia que o brasileiro é o povo que mais consome celulares no mundo? O governo vende isso como vantagem (pois se até o recorde na compra de carros eles consideram sucesso em vez de ver que isso só reflete a falência do sistema de transporte coletivo, falar o quê, né?), mas a questão não é tão simples não, olha só porquê.

Uma pesquisa feita em 2010 (fonte aqui), revela que, além de celulares, o Brasil também compra mais televisões e notebooks que o resto do mundo. Não me admira, conheço gente que tem 3 telefones e “atualiza” o notebook todo ano (talvez alguns estejam participando, emocionados, da Rio+20); isso sem falar que no Brasil, até a casinha de cachorro tem TV própria.

Pois olha só que interessante: nos países ricos, 40% do povo que respondeu a pesquisa disse não ter nenhuma intenção de comprar eletrônicos em 2011. Já nos países do Bric (Brasil, Rússia, Índia e China) a coisa é bem diferente: 91% da galera quer continuar na farra.

Reparando esse cenário de pessoas ensandecidas para se livrar de aparelhos em excelente estado de funcionamento, fico me lembrando de um conto de ficção científica que li há muitos anos e me impressionou muito.

O conto, de Frederik Pohl, chamado “O homem que comeu o mundo” conta a história de um menino que vive em algum lugar no futuro.

No mundo dele, onde a produção não pode parar de crescer, o consumo também não pode estabilizar. Sua família é muito pobre e, por isso, os pais são obrigados a passar os dias e as noites consumindo desenfreadamente em shoppings, bares e afins.

O menino mora numa casa imensa e se sente solitário com seus numerosos guardiães eletrônicos e montanhas de brinquedos inteligentes, trocados diariamente. E é profundamente infeliz.

Você pode pensar onde é que está o problema. Não é esse justamente o sonho de consumo de um monte de gente (talvez até, em certa medida, você eu?). Gastar insanamente, no melhor estilo Sex and City, como se não houvesse fatura de cartão de crédito amanhã?

Pois é, a questão é que o menino quer um quarto pequeno e aconchegante, e não um salão temático. Ele sonha em dormir abraçado todo dia com o mesmo ursinho de pelúcia, mas as versões mudam a cada dia e ele precisa acompanhar as tendências. Ele chora porque quer o colo da mãe, mas ela tem que consumir, e, além disso, os robôs-babás precisam ser testados. Ele quer brinquedos simples, mas tudo tem que interagir e desenvolver suas infantis capacidades cognitivas. Ele quer chorar, mas os mecanismos eletrônicos criados para acalmar crianças são insuportáveis e efadonhos.

Ele quer ser rico.

Rico é quem não precisa mais comprar. Rico é quem já tem o que precisa; rico não desperdiça, gosta das coisas que possui e não tem que servir de cobaia para novos lançamentos. Rico não sente a obrigação de ter, pode se preocupar apenas em ser. E o máximo dos máximos, os meninos ricos podem ficar com o mesmo ursinho de pelúcia até crescerem e eles mesmos decidirem quando não o querem mais.

Rico não precisa mostrar para todo mundo que tem o modelo mais caro da marca. Quem é rico mesmo, inclusive, encanta-se com o charme retrô das coisas usadas, aquelas gastas, que têm histórias para contar. Rico é aquele que tem muito mais que apenas dinheiro (e, às vezes, nem tem tanto assim).

Ok, nossa cultura não favorece, o mundo não facilita e os amigos não colaboram. Está cada vez mais difícil resistir aos lançamentos da Apple, mas acho que vale a pena pelo menos tentar.

Não sei vocês, mas eu já sei o quero ser quando crescer: milionária.

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O conto citado, “The man who ate the world”, é parte do livro “The science fiction weight-loss book”, editado por Isaac Asimov em 1983.

24 mai

Fotografia: Jean Louis von Dardel

Outro dia, enquanto caminhava pela rua com a queridíssima Rosana Hermann, ela comentou comigo que aqui em Berlin até os mendigos eram chiques, pois ela tinha visto um recolhendo as garrafas do lixo a bordo de uma bicicleta bem bacana.

Hoje vi outro e me dei conta. Aquela pessoa não é mendiga. Ela apenas está precisando de dinheiro. Então, recolhe as garrafas nas lixeiras, leva até o supermercado, coloca nas máquinas de reciclagem e recebe um troco de volta. Problema (pelo menos parcialmente) resolvido.

É isso que as pessoas aqui fazem quando precisam de dinheiro, sem vergonha nenhuma (não é vergonha precisar de dinheiro; ou é?).

No Brasil, o cidadão se afunda em dívidas de cartões de crédito para manter as aparências e se sente humilhado em fazer coisas que não são consideradas “dignas” para alguém de sua “classe”.

E não estou falando hipoteticamente não; estou incluindo eu e você. Pelo menos, não me imagino catando garrafas nas lixeiras sem me sentir constrangida. E isso deveria ser encarado como uma coisa absolutamente normal. Steve Jobs, no seu famoso discurso em Stanford, disse que viveu meses dessa maneira quando abandonou a universidade. No Brasil, as pessoas que fazem isso são invisíveis, quase como se pertencessem a uma subcategoria de gente. A cena nos constrange tanto que nem sequer olhamos para essa gente, como se eles estivessem fazendo algo vergonhoso. Não estão.

Depois, na aula, estava comentando com o professor que no Brasil não temos tradição de comprar objetos usados. Ele perguntou: “Como assim? E o que vocês fazem com as coisas antigas?”. Eu disse que a gente jogava fora e comprava outras novas. Entendi a cara que ele fez e confesso que fiquei com vergonha. Principalmente porque é verdade…

Aqui, qualquer coisa que tenha uma história, mesmo que não seja tão antigo, conta mais. Você pode comprar xícaras e pires comuns que perteceram a uma senhorinha da outra quadra num mercado de pulgas, por exemplo, pelo mesmo preço ou até um pouco mais caro do que pagaria numa IKEA. Mas o povo curte mais. Acontece a mesma coisa com roupas e sapatos. Não se trata de antiguidades, mas de coisas que não tem em qualquer esquina para vender; na HM você compra uma camiseta a preço de banana feita na China seguindo as tendências, mas o pessoal prefere uma usada pelo mesmo preço porque não tem outras 500 iguais no cabide. É uma abordagem totalmente diferente, menos consumista, mais consciente. Esses dias teve até uma manifestação onde as pessoas levavam camisetas usadas na Alexander Platz para trocar; pena que eu tinha aula, senão teria participado.

Vejo isso e fico pensando no quanto a gente no Brasil ainda é pobre. E pobre daquele jeito que a Coco Chanel falava: “tão pobre, mas tão pobre, que só tem dinheiro e mais nada“.  Temos muito, mas muito dinheiro; muitas riquezas, de todos os tipos imagináveis.

Mas é só isso. Como não temos cultura e nem educação, não sabemos gastar essa fortuna toda. Desperdiçamos tudo, de água a espaço urbano, de comida a material de construção, de combustível a eletricidade. As pessoas chegam a sentir vergonha até de levar para casa as sobras de um jantar caríssimo no restaurante (as que fazem, dizem que são para o cachorro ou para o porteiro).

A displicência é tão grave que não nos preocupamos nem sequer como o dinheiro fruto do nosso suor, aqueles dos impostos, que é desviado escandalosamente todos os dias e ninguém liga. No final, vira piada.

Pobres de nós, crianças ricas, mimadas e sem nenhuma noção do perigo…