O cachorro de Nureyev

Um livro doce, delicado, sensível, achado por acaso num mercado de pulgas. Tem coisa melhor?

Nurejews Hund oder Was Sensucht vermag” (Tradução livre: “O cachorro de Nureyev ou do que a saudade é capaz”), de Eleke Heidenreich ilustrado maravilhosamente por Michael Sowa, é uma fábula das mais belas.

Na história, o bailarino russo Rudolf Nureyev está em New York participando de uma festa na casa do escritor Truman Capote. Rudolf bebe muito e passa a noite na poltrona da sala; então repara na presença de um cachorro deselegante, olhos lacrimejantes, pernas curtas e patas grossas, pelagem que vai do branco sujo ao bege passando por um cinza desbotado, que observa o mundo de seu canto. No café da manhã, pergunta ao anfitrião o nome do cachorro. Truman responde que tal criatura não lhe pertence, certamente algum convidado o esqueceu.

Nureyev então decide adotar o cão, chamando-o de Oblomov. Os dois ficaram juntos durante mais de oito anos, até a morte do bailarino. O cão acompanhava seu tutor em todas as aulas e ensaios de balé, conhecia todas as coreografias.

Uma amiga de Nureyev, também bailarina, que fica com o cachorro após a morte dele, flagra o cão ensaiando desajeitadamente passos de balé durante uma madrugada. E a cena se repete algumas vezes.

Toda a poesia da dança, a sensibilidade do animal, as relações entre a feiúra e a beleza, entre a deselegância e a elegância, entre a dança e a vida são apresentadas de maneira bela, profunda, tocante.

Na vida real, de fato Nureyev teve um cachorro. Mas era uma fêmea de Rottweiller chamada Solaria, com quem ele ficou apenas um ano (logo em seguida, faleceu); Solaria foi adotada por uma amiga querida.

De qualquer forma, a fábula é muito linda. Parece um livro infantil, mas serve para todas as idades. Recomendo muitíssimo!