Arquivo de ‘comportamento’

2 jun

Quando me mudei para cá, em agosto de 2011, recordo o desespero que era visitar as muitas livrarias maravilhosas que tem em Berlin; eu era uma completa analfabeta (agora sou só metade…rsrsrs) e foi muito difícil porque ler é uma das coisas que mais gosto de fazer na vida.

Desse tempo, uma coisa não posso deixar de lembrar: o romance “Tschick“, de Wolfgang Herrndorf estava em todas as prateleiras dos mais vendidos e assim permaneceu por quase um ano.

Eu morria de curiosidade, mas só de folhear já via que não ia dar conta; pois essa semana resolvi me arriscar. Olha, com certeza perdi muitas das nuances por causa do meu pobre e deficiente alemão, mas juro que não entendi o porquê de tanto sucesso.

Sim, o livro é bom, mas nada de extraordinário. Conta a história de dois adolescentes de 14 anos que não são exatamente os mais populares da escola, principalmente entre as meninas.

O livro é narrado por Maik Klingenberg e o Tschick do título é o apelido do outro rapaz, o descendente de russos Andrej Tschichatschow. Ambos têm problemas em casa e são apaixonados por meninas na mesma sala (sem serem correspondidos, claro). Depois do final das aulas, os dois resolvem sair de férias em um carro roubado (na verdade, um Lada velho que o irmão de Tschick encontrou na rua). É claro que passam por aventuras diferentes para meninos dessa idade viajando sozinhos e sem juízo nenhum e conhecem pessoas pitorescas ao longo do caminho, como é de se esperar.

Não sei se é porque já li tantas histórias de adolescentes rejeitados e viagens transformadoras, que, sinceramente não achei muito original não. Ou talvez o livro seja ótimo e eu é que passei da idade de apreciá-lo como deve ser.

Está longe de ser ruim; para mim, foi apenas previsível demais. De qualquer maneira, recomendo a leitura (acho que já existe em português com o mesmo título).

14 mai

Nossa, olha que projeto mais genial: a Joanninha, uma loja criada pelas sócias Alessandra Piu e Anna Fauaz, aluga livros, brinquedos e fantasias para crianças de até 7 anos, em vez de vendê-los. Os alugueis são por mês, trimestre ou ano e a criança pode trocar o brinquedo alugado nesse período. Se ela quiser muito, mas muito mesmo, a loja até pode vendê-lo, mas a ideia não é essa.

Todas as peças são feitas com materiais certificados e a criança deve devolvê-lo na mesma sacola em que ele veio (nossa, é assim que se educa crianças de verdade; sendo coerente nos mínimos detalhes). Outra coisa bacana é que lá não tem essa bobagem de brinquedos de ação para meninos e tudo rosinha para meninas; todo mundo pode brincar com o que quiser.

Cada objeto tem um caderninho que conta sua história, de onde esteve e como participou da vida da criança (elas próprias escrevem no caderninho, que vai circulando conforme o brinquedo vai sendo alugado). Assim o joguinho ou boneco não é descartável, pois tem sua história registrada. Ao mesmo tempo em que brinca, a criança aprende a dar valor às experiências, exercita a escrita (mesmo que com a ajuda dos pais) e aumenta sua rede de relacionamentos.

O serviço é oferecido em São Paulo e Belo Horizonte e, olha, fico orgulhosa de habitar um mundo onde uma ideia dessas vai pra frente. Assim dá até para ter alguma fé no futuro; o que tenho visto no dia-a-dia são serezinhos cada vez mais egoístas, mal-educados e consumistas.

Mas olha que máximo, nem tudo está perdido!

Achei a dica preciosíssima no sempre ótimo Mosca Branca.

7 mai

Fotografia: Studio Furia

Já é a terceira vez essa semana que leio comentários de diferentes pessoas nas redes sociais reclamando que alguém roubou sua ideia e ficou rico. “Fulano pegou a minha ideia e agora está ganhando um monte de dinheiro” brada um revoltado; “dei uma ideia na sala de aula, um colega pegou e montou um negócio; nem se lembrou de me pagar” reclama outro; “já estou de saco cheio de ter neguinho ganhando dinheiro nas minhas costas, às custas das minhas ideias”, finaliza uma terceira.

Mas, gente, ter ideias é a parte mais fácil e prazerosa. É como fazer sexo, sabe? Algumas pessoas têm um talento natural para a coisa; outras preocupam-se em desenvolver técnicas, empenham-se, praticam bastante e conseguem excelentes resultados. Há aqueles que dão até uma ajudinha para a natureza e outros que levam a coisa tão a sério que viram amantes profissionais. Mas é isso. Não dá para achar que o mundo lhe deve algo por causa desse “esforço”.

Uma ideia, sem sua materialização, não é nada. Na verdade é: prazer, brincadeira, exercício, interação. Mas a materialização é que cria o fato e talvez (apenas talvez) gere riqueza.

Ter ideias e não levá-las adiante é como ter filhos e largá-los pelo mundo. A parte chata, de empreender, é justamente aquela que ninguém quer: arranjar dinheiro para alimentar o neném e fazê-lo crescer; passar as noites em claro quando as coisas não vão bem; colocá-lo na escola e levá-lo ao médico; reunir um time de profissionais que vão da professora de inglês até o pediatra e bancar os gastos; aguentar as crises da adolescência; velar 24 horas por dia, com todo cuidado, carinho e amor durante anos. Isso tudo sem ter a mínima garantia que vai dar em alguma coisa. Pode surgir daí um Paul McCartney ou um Barak Obama. Ou uma Apple. Mas também pode ser uma Amy Winehouse. Ou o fulaninho que voltou do intercâmbio sem aprender nada. Não há como saber.

Os investidores (pais e mães) não podem adotar todas as crianças do mundo abandonadas por pais prolíficos em ideias, mesmo que sejam muito ricos. Precisam escolher onde vão apostar toda sua dedicação, pois sabem que o risco é altíssimo e parte importante do resultado vai depender do quanto vão se empenhar de verdade na tarefa.

Aí vêm os pais biológicos, que só participaram na hora da festa, e querem ser chamados de pais da criança quando a coisa dá certo?

Ah, mas se não fosse a minha ideia o negócio não teria nem nascido. Não pensam que sem o investidor que adotou o rebento, o pobre teria morrido de inanição ainda no berço. Não querem dividir os prejuízos quando o negócio não dá certo, não querem trocar fraldas quando precisa. Não querem correr o risco de investir seu precioso tempo na tal ideia esplendorosa. Não têm paciência para cuidar de crianças, mas querem colher os frutos do sucesso alheio.

Ah, vá. Ficam fazendo filhos, abandonam por aí para os outros criarem e ainda querem ter direitos.

Não têm não, viu? No máximo, uma bolsa família.

E olhe lá.

1 mai

Lembro até hoje da primeira vez que, de dentro de um trem, avistei um Kleingartenverein (também conhecido como Schrebergarten). Era final de outono e o lugar parecida uma favela; um terrenão cheio de tralhas e construções estranhas. Aliás, eram vários lotezinhos com barracos de madeira, sempre separados por cercas e com muito mato em volta.

Ué, mas na Alemanha tem favela?

Não se preocupe, não tem não.

Aquelas “comunidades” não eram de fato favelas. Mas olha só que curioso (sei lá porque ninguém fala a esse respeito, já que a ideia é tão sensacional): os alemães são tão apaixonados por jardinagem que eles arrendam lotes na perferia das cidades só para poder cultivar suas próprias flores, já que a maioria mora em apartamentos pequenos. Não é lindo?

A ideia surgiu na época da revolução industrial, quando a vida dos operários era realmente miserável. Além de morarem em pulgueiros e trabalharem demais, os pobres comiam muita porcaria. Foi aí que um médico da cidade de Leipzig, o Dr. Daniel Schreber teve a ideia de pegar um terreno grande e separar em lotes (numerados, claro, estamos falando da Alemanha..rsrsr). Ele organizou uma espécie de comunidade e incentivou cada operário a plantar sua própria comida e flores (que, na cultura alemã, são quase tão importantes quanto).

Além de relaxar trabalhando com a terra e plantando suas próprias sementes, a alimentação também ficou mais saudável. Os terrenos são bem pequenininhos (é para não caber uma casa mesmo, pois a ideia não é essa); então eles têm no máximo uma cabana ou rancho para guardar ferramentas, insumos e cadeiras de sol. Os ranchos também são necessários para instalar pias ou tanques para as tarefas de plantar e regar. O capricho é tamanho que alguns terrenos têm chalezinhos que parecem de brinquedo, de tão bonitinhos.

No inverno o lugar é feio, claro, cheio de barraquinhas e apetrechos diversos de jardinagem (por isso achei que fosse um tipo de favela). Mas na primavera, tudo se transforma. As lojas ficam cheias de ofertas de ferramentas, sementes e vasos; parece que fazem concurso para ver quem faz o jardim mais lindo.

Aliás, lindo não, idílico. Suspeito que, no fundo, os alemães são muito românticos no sentido de ter uma vida de contos de fadas. Observando esses jardins, dá para ver duendes, princesas, bichinhos diversos, flores para todos os lados e arranjos caprichados. A impressão é que cada um constroi seu próprio mundo de fantasia particular e se entrega aos detalhes do fundo do coração, como se estivesse brincando de casinha. Deve funcionar como uma espécie de refúgio perfeito para escapar dos problemas.

As famílias vão todo final de semana e as crianças adoram. Olha só; não é uma ótima ideia para desestressar esse povo das grandes cidades brasileiras?

Pena que se os governos já são pão-duros para construir praças e áreas verdes, imagina ter um terreno enorme só para as pessoas plantarem suas flores…

Mas não custa sonhar, né? Tirando os duendes, os bichos de cimento e os anões de jardim, o resto é muito lindo; dá só uma reparada…

Quer ver mais fotos? O álbum completo está aqui, no Flickr.

27 abr

Olha só como as ideias viajam pelo mundo e vão parar em lugares insuspeitados!

Em 2009, a Unisul promoveu um workshop de design em parceria com a Universidade de Firenze (Itália) e a Universidade de Tecnologia de Eindhoven (Holanda). Os professores dessas universidades vieram orientar um workshop de design que durou quase um mês e tive a oportunidade de participar como professora convidada. Trabalhei com 3 alunas: as ótimas Maíra Scirea, Isabelle Kowalski e Claudia Peterle.

O curso de moda também estava participando, então a ideia era criar roupas inovadoras para a empresa Mormaii, parceira do projeto.

Bom, o conceito do nosso trabalho final foi o seguinte: desenvolver uma roupa que não fosse descartável e pudesse ser customizada e personalizada como algo único para o indivíduo. A roupa deveria participar da trajetória da pessoa ao longo de toda a sua vida. O primeiro paralelo que fizemos foi com a pele, nossa roupa mais básica, que registra nossas interações com o mundo sem perder nenhum detalhe.

E se a roupa também pudesse mostrar as marcas das nossas emoções, como a pele já faz? Na verdade, bom seria poder trocar uma pela outra, como uma espécie de versão fashion de “O retrato de Doryan Gray” (mas isso já é elucubração minha). Se a roupa pudesse deixar registrados todos os nossos movimentos rotineiros, como a pele faz, formando marcas e rugas, ela seria única no mundo e parte da história de quem a usaria. Ela só seria emprestada para alguém que pudesse contribuir com nossa história, como um filho, por exemplo.

Bom, definida a ideia central, partimos para a prototipação, que era experimentar materiais que pudessem deixar registrados os movimentos; o primeiro teste foi cobrir uma camiseta com massa corrida, como dá para ver na foto abaixo.

Eu experimentando a camiseta de massa corrida e as meninas não gostando muito do resultado...rsrsr

Depois a gente acabou aplicando cola sobre lycra preta e colocando no freezer para craquelar (esses experimentos científicos fazem a gente testar cada coisa…). O resultado ficou mais discreto e aplicável; a gente pensou que ele poderia ser usado comercialmente se fosse desenvolvido algum tipo de produto que pudesse ser aplicado sobre o tecido e registrasse as marcas, mas sem estragá-lo. Pois bem, isso foi há 4 anos.

Semana passada, uma das orientadoras do programa nos mandou um e-mail de uma foto do Pinterest com a coleção 2013/2014 do celebrado estilista espanhol Balenciaga. Dá só uma reparada no modelito…

Balenciaga para a coleção 2013/2014

Aahahahah… não é bacana? Não, nenhuma de nós está achando que isso é plágio ou algo do tipo. A gente nem conhece bem o conceito da coleção do estilista e acho pouco provável que ele tenha tido acesso ao nosso projeto (eu mesma penei para achar um vídeo perdido no Youtube). Para quem trabalha com roupas e tecidos, era só uma questão de tempo para chegar a esse resultado, que, afinal, nem era nada de tão espetacular assim.

A questão é que as ideias voam, viajam, pululam, vivem, multiplicam-se e isso é lindo!

De qualquer maneira, para nós era só uma ideia que nunca iríamos colocar em prática, pois foi apenas um exercício de aprendizado. A empresa parceira também nunca manifestou a vontade de desenvolvê-la, de maneira que a pobre da ideia ia passar o resto da vida no limbo, não fosse essa iniciativa (que nem sabemos se vai dar certo, pois ainda é bem conceitual).

Mas achei essa coincidência divertida e uma amostra prática de como com tanta gente tentando ter ideias originais ao redor do mundo, elas acabam se esbarrando um dia.

Segue uma foto da equipe (foi uma delícia trabalhar com as meninas; sinto muitas saudades desse trabalho tão divertido e proveitoso!) e um vídeo que fizemos para apresentar o conceito do projeto, onde dá para ver melhor o teste com a massa corrida.

Equipe visionária criando tendências para o futuro da moda...rsrsrsr: Eu, a Isabelle Kowalski, a Maíra Scirea e a Claudia Peterle.

19 abr

Estava aqui pensando quanta ideia errada eu tinha sobre a Alemanha antes de me mudar. As pessoas falavam coisas e eu acreditava na boa, já que não tinha como conferir; mas agora tenho. Aproveite para não ser iludida como eu fui…rsrsrs

MITO 1: Dá para sair na neve com roupa normal e só um bom casaco por cima.

Gente, isso é só em filme. Ou então a pessoa veste um casaco com super-poderes (que ainda não encontrei). Aquela história da moça sair de vestidinho leve e scarpin (alô Carrie Bradshaw) é só no cinema mesmo. Você fica pelo menos três meses vendo suas pernas e braços só na hora de tomar banho; é sempre duas calças, três meias, 5 camisetas e o tal do casaco. E, olha, mesmo que o casaco fosse de pele de urso polar, como é que ficam os pés, que chegam a endurecer os dedos se você estiver só com uma meia? Não caia nessa, é pura enganação.

MITO 2: Dá para ficar de camiseta e chinelo em casa no inverno.

Sim, se a camiseta for de lã e o chinelo for de pelúcia (não esquecer das meias). Mesmo colocando o aquecedor no máximo, não dá para ficar sem um casaquinho. A não ser que os aquecedores dos filmes americanos sejam mais fortes que esse aqui de casa.

MITO 3: Europeus amam artesanato porque aqui quase não existe trabalho manual.

A mais pura mentira; qualquer feirinha de natal por aqui bate as feirinhas hippies brasileiras em termos de quantidade de artesanato à venda. Algumas coisas são diferentes, claro, mas outras são exatamente iguais. Sem dizer que lojinhas de material para artesanato e revistas especializadas existem aos montes.

MITO 4: Saudade só existe em português.

Não consegui descobrir quem inventou isso, mas foi tão fácil de acreditar… Como se só os brasileiros (e portugueses) sentissem saudades e o resto do mundo fosse habitado por gente insensível. Em alemão existe Sehnsucht que é a tradução literal da palavra. Sem mais.

MITO 5: Alemão é uma língua estruturada.

Essa, para mim, foi a pior, pois caí do cavalo em grande estilo. Vim preparada para aprender um conjunto de regras e aplicá-las. Tolinha…. essa língua tem tantas exceções que para algumas coisas eles nem se deram ao trabalho de criar a regra; tem que aprender que é assim e aceitar. Ponto.

MITO 6: Alemão é o povo mais pontual do mundo.

Olha, no resto da Alemanha pode ser, mas em Berlin, em todos os encontros de Tandem que agendei em cafés, sempre fui a primeira a chegar. Tem um parceiro com quem já tive uns 10 encontros que sempre chega pelo menos uns 15 minutos atrasado (vai ver por isso é que ele quer aprender português….rsrsrsrs). Também já fui convidada para uma festa na casa de uma alemã da gema e cheguei pontualmente para não fazer feio. Pois é, ela ainda não estava pronta e os outros convidados só começaram a chegar 20 minutos depois…

MITO 7: Alemães não são muito amigáveis.

De fato, alguns realmente são mais difíceis, é verdade. Mas também conheci pessoas queridíssimas e muito delicadas. Como em qualquer lugar…

15 abr

Esse ditado latino pode ser traduzido livremente como “a verdade no vinho” e quer dizer, mais ou menos, que depois de uma ou mais taças de vinho é que a pessoa se revela e a verdade vem à tona. Sendo uma das bebidas preferidas lá em casa, sempre temos pelo menos uma garrafa para acompanhar as refeições.

E, vamos combinar, rótulos de vinho são uma diversão à parte, seja nas prateleiras de uma enoteca, seja em um supermercado. Os projetos gráficos me encantam, mas entretenimento mesmo são os nomes de vinhos portugueses e espanhois (que fazem mais sentido na nossa língua e ficam bem engraçados).

Vejam algumas pérolas da minha coleção…

Esse vinho devia custar mais barato por causa do nome, né? Produto com subsídio....

Cuidado com o dedo...rsrsrsr

Aahahahaha... se não gostar, não reclame. Apenas fique p...

O nome nem é tão exótico, mas olha que ilustração mais linda!

Os modelos estão mais para gatinhos, mas va lá... são muito fofos...

8 abr

Estava pesquisando minha coleção de imagens para montar um workshop e achei essas aqui que tirei de uma ponte pênsil em Nuremberg.

Sempre achei muito esquisita essa moda de pendurar cadeados em pontes com o nome de um casal, como se fosse algo muito romântico. Para mim, casamento e cadeado são duas coisas absolutamente antagônicas; me incomoda demais a ideia de estar presa (seja a um lugar ou uma pessoa). Quero estar junto porque quero, desejo; não porque preciso, porque estou irremediavelmente amarrada e não tenho outra alternativa.

Amor, para mim, é o contrário do que um cadeado simboliza: amar é compartilhar a liberdade, ter companhia para voar, cultivar o crescimento, contemplar as asas do outro com sincera satisfação; não vejo como associar esse conceito com uma prisão ou qualquer coisa vagamente assemelhada.

Por isso achei tão bacaninha esse varal de cadeados coloridos. Aí não tem o nome de nenhum casal; é apenas uma instalação colorida que brinca com as cores. Vejo essa combinação mais como um ábaco, uma brincadeira, algo que ajuda a pensar.

E você?

25 mar

Se tem uma coisa que eu amo fazer é me perder pela cidade. Desço numa estação de metrô aleatória (ou ponto de ônibus) e fico explorando os arredores. Pois hoje desci na estação Hallesches Tor, onde tinha que fazer uma conexão e comecei a flanar para aproveitar o solzinho (apesar do frio de -6 °C).

Fui me metendo pelas ruas e acabei entrando num condomínio simples que tinha tudo para ser um tédio. Mas acontece que o pessoal que participa da reunião de condomínio parece ser mais arejado das ideias e resolveu apostar num grafiteiro (quem sabe ele até mora lá).

Prepare seus olhinhos para a festa. Lá vai!!!

Quer ver mais? Eu surtei e fiz um álbum inteiro só para esse lugar. Clique aqui e vá no Flickr!

20 mar

Faz tempo que queria mostrar uma empresa que conseguiu reinventar o negócio do chocolate de uma maneira que considero realmente inovadora; então vamos aproveitar a proximidade da páscoa para falar um pouco sobre isso. A Ritter Sport é uma marca de chocolate alemã com 100 anos de idade, mas de gagá não tem nada, olha só.

Num mercado tão competitivo como o europeu, que conta com os famosos chocolates belgas, além dos suíços e franceses, os alemães da Ritter tiveram que realmente escolher um posicionamento único, e conseguiram. Eles escolheram ser reconhecidos pela variedade de sabores e apostaram forte nisso.

Tudo começou nos primeiros anos da fábrica, quando a filha do fundador descobriu que se a barra fosse quadrada, em vez de retangular, era mais fácil de carregar no bolso. A partir daí, a fórmula do quadradinho norteou todo o design da empresa, inclusive o da marca gráfica. Para traduzir a enorme variedade de sabores, eles contam com boa parte das cores da tabela Pantone; há tantas cores quanto sabores e receitas de chocolate. Com um símbolo gráfico tão simples e colorido, o grupo conseguiu desdobrar a marca em produtos diversos para o fã-clube (tem desde roupinha de bebê até cadernos e bolsas). Ok, até aqui nenhuma novidade; um monte de marcas faz isso e com excelentes resultados.

A novidade é a loja de chocolates personalizados chamada Bunte Chokowelt (algo como “mundo colorido do chocolate”) que eles abriram em Berlin há dois anos. Você chega lá e escolhe o tipo de chocolate para criar sua barra: branco ou preto. Depois, vai definindo o que quer, como se fosse um sanduíche: nozes, passas, avelã, crocante, mel, iogurte, marzipan, flocos, menta, rum, coco, marshmallow, chili, etc; olha, não descobri quantos sabores tem, mas são muuuuitos. Depois ainda tem a cobertura, com outras tantas opções; uma loucura! Você monta sua barra de chocolate (quadrada, naturalmente) e depois de 30 minutos pode vir buscá-la!

Se quiser esperar dentro da loja, tem uma infinidade de opções de chocolates prontos, mas tem também um café bem charmoso no mezzanino com docinhos de chocolate e muffins diversos. Pode ficar tranquilo sentado num sofá lendo seus e-mails ou apenas folheando uma revista; o ambiente é bem aconchegante.

Esse, para mim, é um claro exemplo de identidade bem definida e posicionamento assertivo.

Eles têm projetos ambientais porque, claro, chocolate não dá na Alemanha e o deles vem da Nicarágua — então é necessário ajudar a conservar a floresta porque o cacau precisa da cobertura verde para proteger a plantação. Eles também têm um trabalho de educação ambiental bem interessante (dentro da loja tem uma sala de exposições que mostra o processo de cultura do cacau e porque ele precisa de uma floresta saudável no entorno) e um forte investimento em energias limpas (em especial a energia solar). Os outros ingredientes também são certificados, ou seja, a lição de casa está sendo feita direitinho.

Mas o além do esperado é o que diferencia a empresa: a aposta nos quadradinhos coloridos é tão séria que a marca mantém o Museu Ritter com obras de arte moderna e contemporânea inspiradas na figura geométrica. Fica ao lado da fábrica, na cidade de Waldenbuch (que ainda não conheço).

Olha, não sou chocólatra nem nada (entrei e saí da loja sem comprar nem comer nada), mas virei fã da marca. Penso que a identidade visual ainda precisa de alguns ajustes na tipografia, mas a ideia dos quadradinhos coloridos é genial. E aí, ficou com água na boca?

Então vamos passear um pouquinho pela loja que faz um chocolate especial só para você (de verdade)!

Entrada bem colorida.

A entrada cheia de cores

Dessa vez não precisei tirar fotos escondida; o gerente deixou, numa boa.

Para um chocólatra deve ser o paraíso...

A loja fica logo atrás.

Vista do mezzanino.

É pra comer com os olhos!

O café, no mezzanino.

Hipnotizante...

14 mar

Fotografia: Dean Freeman

Tem pessoas que são assim: você pode xingar a mãe, chamar o filho de coisas inomináveis, discutir polêmicas políticas, falar mal do time do coração e até questionar sua sanidade mental; em quase todas as situações elas conseguem manter uma relativa civilidade. Mas experimente corrigir seu português.

Nunca entendi por que tem gente que fica tão mortalmente mordida com isso.

Geralmente o ofendido ou a ofendida reclama que estava tratando de um assunto importante e quem corrigiu só olhou para o erro; mas é por isso mesmo, minha gente! Se o assunto é importante, não merece ser perturbado por um ruído bobo como um erro de português. Para mim, é como avisar que o zíper está aberto ou tem feijão no dente. Melhor corrigir rápido e não se fala mais nisso. Tão simples!

Mas não. As redes sociais estão cheias de amizades desfeitas por conta de alguém que, incomodado com a vergonha alheia, quis acabar com o espetáculo e se deu mal. Os corrigidos ficam furiosos, a reações são desproporcionais. Alguém devia fazer um estudo psicológico a respeito.

Há quem considere uma questão de honra e questione a validade da regra (?), dizendo que se a gente procurar no Google, vai achar a palavra escrita dessa maneira também (como se o buscador fosse uma gramática; por falar nisso, procure “voçê” e assuste-se com as ocorrências). Há quem declare solenemente que não liga para as regras e adora quebrá-las, com um ar blasé que mal consegue dissimular o ódio profundo pela intromissão.

Já vi pessoas martelando o bordão de que o conteúdo é mais importante que a forma; sou da opinião que a forma inadequada pode prejudicar a compreensão (e até a credibilidade) do conteúdo.

Sinceramente, não consigo entender qual é o problema numa questão, para mim, tão simples. O que há de tão sensacional num erro de português? Nossa língua é sabidamente difícil, cheia de regras e exceções. Quando eu era pequena, era comum a gente discutir sobre palavras exóticas, suas origens e significados na hora do almoço; por isso, na cozinha sempre tinha um dicionário.

O que me deixa encafifada é que as pessoas não têm vergonha de errar; elas têm vergonha é de ser corrigidas! Como lidar?

Adoro quando corrigem meu português (mentira, preferia não ter errado, mas acho pior manter o engano), pois quando alguém me dá um toque significa que vou parar de pagar mico em público porque sim, todo mundo percebe, mas finge que não viu nada com medo de apanhar. Acho melhor ainda quando, em vez de um simples erro de digitação, o caso é daqueles que você tem que ir até uma gramática para ter certeza. Já participei de debates bem interessantes sobre algumas situações onde aprendi muito mais do que apenas a correção do erro em questão.

Já fui corrigida (mais de uma vez) publicamente no meio de uma palestra, então posso dizer de cadeira: não dói nada admitir a incorreção e agradecer o auxílio luxuoso. Dá até para fazer graça com o ocorrido, sem dramas. Na verdade, até incentivo esse tipo de interação; muito melhor do que ninguém prestar atenção no que você fala porque está fofocando com o colega ao lado sobre a mancada que o palestrante fez.

Se o texto é só uma bobagem, não dá para ficar corrigindo tudo (senão sua rede social vai virar uma rede solitária). Mas quando o ruído perturba muito, tento fazer o que gostaria que fizessem comigo: aviso o redator. Na verdade, fazia. Depois de levar muita pedrada, fiquei mais comedida. Se o negócio me incomodar demais, simplesmente ignoro, paro de ler e sigo a vida.

Hoje em dia só corrijo quem eu sei que não vai levar a mal; na verdade, só ouso corrigir pessoas de quem gosto muito e cujo trabalho respeito profundamente. Algumas discussões alongam-se e o desafio vira um ótimo entretenimento. Em algumas empresas onde trabalhei, apostávamos caixas de Bis para ver quem estava certo e todo mundo adorava.

Por isso não consigo entender: para que tanto drama?

Coincidência ou não, esse povo que gosta de ser corrigido é quem menos erra, quase não dá para se divertir…

11 mar

Olha, depois daquela luminária em forma de cavalo, achei que não iria me deparar com nada tão bizarro por um bom tempo. Mas a criatividade humana e a capacidade de desafiar o status quo é inesgotável. Olha só que achei na LikeCool: manequins que servem de base para luminárias, com roupa e tudo, imagine!

Segundo o estúdio Al-Hamad, a ideia é criar objetos de luxo (?) que surpreendam e encoragem encorajem a interação (isso eles conseguem mesmo).

As figuras vestem roupas típicas do Kwait e o tecido da cúpula cobre a cabeça do boneco. Para acender a luminária, basta apertar as mãos dos manequins (que também são vendidos na versão infantil!). Nas versões masculinas, há um alto falante no dorso.

Olha, o negócio deve fazer sucesso nas festas dos milionários kwaitianos, mas achei aterrorizante. Imagina o susto de levantar à noite, acender a luz e dar de cara com isso!

Esse último é especialmente sinistro….

9 mar

Ontem passei pela frente da vitrine da C&A (curiosidade: o site em alemão é www.CUNDA.de) e achei muito louca essa cabeça de cavalo deprimida vestindo um tutu de bailarina e rodeado por garfinhos e colheres de plástico (quem não acharia?).

Eis que fui saber mais a respeito desse negócio e olha só quanta coisa legal acabei descobrindo.

A vitrine faz parte do projeto Reimagine Design Challenge promovido pela seção européia da empresa. É o seguinte: eles convidaram 8 designers de vários países para criar roupas conceituais usando utensílios plásticos (garfos, colheres, copos, pratos).

O desafio começou em 24 de janeiro e termina dia 13 de abril, com a premiação do vencedor. Você pode votar na Fan Page do projeto na criação que mais gostou; o designer vencedor ganhará € 10 mil para aprimorar seu atelier.

O bacana é que eles fizeram vídeos lindos, fotos e blogs para acompanhar o processo criativo de cada um; o pessoal da moda vai amar!

Olha aqui as criações e seus autores (se quiser votar ou saber mais a respeito do projeto, é só clicar aqui).

Acima: a capa (?) vermelha com saia branca é da Halina Mrozek, de Varsóvia (Polônia) e o vestido branco é da Pauline Van Dongen, de Arnhem (Holanda).

Acima: O moço com o cabelo da orelha espetado é obra do Tom van der Borght, de Gent (Bélgica); o vestido branco é da parisiense Axelle Migé.

Acima: a aplicação de ramos e flores feita com garfinhos verdes derretidos é da alemã de Schondorf Miriam Lehle. Já esse detalhe nas costas do casaco branco é da Georgina Santiago, de Barcelona.

Esses dois aí de cima são, para mim, os mais bonitos. As criações são, respectivamente, do Andreas Eberharter, de Viena, e Günselí Turkay, de Istambul.

***

Olha, gostei muito e tals. Mas continuei sem entender qual é a do cavalo….

9 mar

A praga dos sobrinhos que sabem “mexer” nos programas e por isso podem sair por aí fazendo cartazes parece ser onipresente. Mas os daqui conseguem se superar (eu acho). Analisem comigo esse cartaz de propaganda dentro de um vagão de metrô.

Bom, tem que explicar primeiro o contexto da “obra”. É comum músicos entrarem no metrô com alguns instrumentos e um amplificador e fazerem um pocket show entre duas estações para recolher contribuições dos passageiros no final. As músicas são quase sempre as mesmas (ainda bem que agora deram um tempo do “Ai se eu tchi pego“), mas algumas bandas são mais empolgadas que outras.

Voltando à propaganda; o cartaz mostra um casal de modelos que parece não entender nada de música (queria ver alguém tocar violão com aquela quantidade de pulseiras que a moça usa) e traz os seguintes dizeres:

Nós desejamos a você músicos de metrô com talento“.

Até aí tudo bem, se logo em seguida não aparecesse uma lista com os seguintes itens:

- lentes de contato

- acessórios

- serviços top

A propaganda é de um SITE QUE VENDE LENTES DE CONTATO!!! Isso mesmo, minha gente!

Acho que esse sobrinho, além de mexer nos programas, deve estar consumindo alguma substância alucinógena. Só pode…

E quero crer que o tio dono do negócio esteja viajando e a mãe do rapaz é que aprovou a peça; é a única explicação.

3 mar

É triste, é revoltante, é de se indignar.

A East Side Gallery, à beira do rio Spree, um pedaço original de 1,3 km do muro de Berlin, sobrevivente do desmonte e plataforma para 106 artistas do mundo inteiro celebrarem a liberdade, está com sua integridade física ameaçada. O projeto, de 1990, é considerado a maior galeria de arte a céu aberto do mundo.

Na verdade, era.

Uma incorporadora resolveu construir um condomínio de luxo bem atrás do muro (com vista para o rio) e simplesmente vai derrubar 23 metros dele. As autoridades fingiram-se de mortas, os artistas sequer foram avisados e as máquinas invadiram o local dia primeiro de março, sexta-feira. Uma grande manifestação aconteceu no local e os moradores não se conformam (não é para menos).

Chega a ser surreal de tão absurdo; um patrimônio da humanidade, um museu tão importante ser desrespeitado dessa maneira. Estamos, infelizmente, meio que acostumados com comportamentos assim no Brasil, mas, pelo jeito, “a força da grana que ergue e destrói coisas belas” é inexorável em qualquer lugar do mundo. Daqui a pouco alguém vai dizer que o Portão de Brandemburgo está ocupando uma área nobre e pedir para derrubá-lo também. Só falta.

Hoje foram 6 mil pessoas protestar contra tal barbaridade; estive lá e constatei: os policiais, que deviam estar a postos para proteger essa herança cultural, estão servindo de leões de chácara para a tal empreiteira para garantir a destruição sem a interferência de manifestantes. Olha, é de dar vergonha mesmo.

Bem escreveu um jornalista do Der Tagesspiegel: isso é o resultado da atuação de empreiteiros grandes e políticos pequenos.

Políticos minúsculos, eu diria.

Bom, passei a tarde de sábado documentando todas as obras, uma a uma, pois não sei por quanto tempo ainda continuarão lá. É um prato cheio para criativos, mas é também minha contribuição para as pessoas se darem conta do que estão jogando fora…

Para visitar a galeria pelos meus olhos, vá ao álbum no Flickr clicando aqui.

E chore.

Policial do lado errado da força

Sexta-feira só conseguiram derrubar esse pedaço

Dias contados...

Está faltando amor no mundo

Se prestassem atenção nas mensagem dos artistas, não cometeriam essa atrocidade

Veja todas as obras da galeria clicando aqui.

3 mar

Tá bom, fantasias sexuais não se discute; cada um tem a sua e não se fala mais nisso. Mas gente, o que é essa vitrine de uma sex shop em Nuremberg?

Tive que me segurar para não ficar gargalhando sozinha na frente da loja; cada personagem mais bizarro que o outro. E esse ET? Alguém é capaz de achar esse boneco mal-humorado minimamente excitante?

Tem uma cena que parece que ele está desenrolando papel higiênico. Queria saber o que se passou na cabeça do vitrinista que montou esse cenário….ahahahahahah

O ET pesca os moços com uma rede cheia de luzinhas, é isso?

Tem para todos os gostos, tudo junto e misturado: pirâmide, ET, pistolas futuristas, robô, baratas gigantes metalizadas....rsrsrsr

É muita sensualidade, minha gente!

Esse moço aí parece ter vindo diretamente de um desfile da Sapucaí....rsrsrs

E você, o que achou?

1 mar

Quando fui visitar o Memorial do Tribunal de Nuremberg, é claro que deu aquela vontade de fazer um xixizinho (típico). Pois lá fui eu para o banheiro do prédio e me deparo com isso:

Ziehen = Pull = Puxe

Eu pensei: “caracas, como é que conseguiram quebrar o puxador da porta?”. Vou ter que ir em outra.

Aí olhei para o lado e vi isso aqui:

Ué, mas estão todas as portas quebradas?

Gente, mas como pode ser isso? Um banheiro com 4 cabines, todas elas com as maçanetas quebradas? Bom, tentei abrir por cima (não dava; a porta ia até o batente), por baixo (também não dava, pois encostava no chão). Tentei empurrar e nada. Mas não era possível; quando o banheiro não está funcionando eles colocam uma placa de interditado. Com esse aqui parecia tudo certo.

Olha, gastei uns bons “par de minutos” pensando no enigma. Aí comecei a apalpar a porta e vi que toda a lateral dela era contornada por um perfil de alumínio, de cima a baixo (esse aí pintado de rosa clarinho). Se colocar os dedos por dentro, dá para puxar. Então era para puxar ISSO?

Não sei vocês, mas achei deboche do designer. Não duvidaria que tivesse uma câmera escondida filmando as pessoas como pegadinha.

Quem for professor de usabilidade ou design, fique à vontade para usar o mau exemplo. Para mim, esse foi o top-master-blaster prêmio internacional de mau design. Nem loiras merecem um banheiro desses….rsrsrsr

1 mar

Das Ehekarussel” (carrossel do casal) é um chafariz que foi encomendado em 1977 pela prefeitura de Nuremberg ao artista Jürgen Weber. A ideia era decorar o centro histórico com uma obra exclusiva do reconhecido escultor, que trabalhou por anos e inaugurou a alegoria em 1984.

Olha. Foi um choque para os cidadãos nurembergenses.

O chafariz ilustra as fases do casamento e acho que o tal Weber não teve uma experiência muito feliz não. Todo mundo achou, não fui só eu. A reclamação foi geral, mas agora, fazer o quê? Virou ponto turístico, claro.

Acompanhem essa linda história de amor, passo a passo…

(Taí a obra bem no meio da praça)

(Um pouco mais de perto; não é propriamente uma beleza, né?)

***

1) Primeira fase: a moça mostra o cofrinho para ver se pega alguém.

(Um cofrinho tão caprichado que chega a empoçar água)

***

2) Segunda fase: Ôpa, tem um rapaz interessado.

(O moço parece ter dotes musicais, mas o bode não aprecia)

***

3) Terceira fase: ah, como o amor é lindo…

(Beijinhos e carinhos, mas tem fim)

***

4) Quarta fase: eles se casam e ela vira prisioneira do vilão malvado.

(A "louca" com esse cabelinho cheio de bobs...hummm...sei não....)

***

5) Quinta fase: a mulher fica deprimida, come como uma porca e engorda muito. O marido se desespera.

(Que esganada!)

(Repara na falta de modos da ogra...)

***

6) Fase seis: eles só não se separam por causa das crianças, que deixam os dois desnorteados (devem ser uns anjinhos).

(O pai parece que está estudando uma maneira de aprender a voar)

***

7) Fase sete: a mulher não aguenta mais e a relação se desgasta. Final trágico.

(Sujeito romântico e de bem com a vida esse artista, heim?)

E aí, curtiu?

***

NOTA: Para monumentos assim, a prefeitura devia impedir placas de propaganda em volta. Elas arruinam qualquer tentativa decente de enquadramento, que coisa!

24 fev

Ilustração: Ingela Och Vi

Ontem recebi um e-mail de uma moça desesperada, pois tinham roubado um projeto que ela estava desenvolvendo sozinha havia anos. Pior, a ladra foi a própria chefe.

O mau caratismo e incompetência da chefe, que apresentou o projeto aos superiores como se fosse seu, é fato, nem vamos discutir isso (boa oportunidade para pedir as contas e sair desse antro, menina). Mas, no geral, penso que a culpa é da moça mesmo.

Pois é, a Sonia (vamos chamá-la por esse nome) é que se colocou na posição ideal para que isso acontecesse. Não conheço a profissional, mas já dá para deduzir que ela foi egoísta, centralizadora, desatualizada e arrogante; não é que merecesse o castigo, mas espero que ela possa aprender com a experiência. Escrevo isso para alertar as outras muitas sonias que ainda existem no mercado.

Bom, então vamos explicar os xingamentos que fiz, um a um, para você ver que não estou cometendo injustiças; apenas querendo ajudar.

Egoísta: qual era sua intenção com esse projeto, Sonia? Contribuir para o crescimento da empresa, melhorar a vida das pessoas ou apenas ter uma arma à mão para sacar quando fosse preciso? Esconder coisas não se encaixa nem no primeiro e nem no segundo objetivos. O que justifica tanto segredo?

A Marina Lima, uma das minhas (ainda) compositoras prediletas, usa muito bem o trocadilho com a palavra guardar na música “Deve ser assim”:

Guardar, guardar, guardar…

Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la,

Em cofre não se guarda nada,

Em cofre, perde-se a coisa à vista,

Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por admirá-la.

Isto é: iluminá-la ou ser por ela iluminado.

Estar acordado por ela,

Estar por ela,

Ou ser por ela…

É isso, Sonia. Se o projeto era tão bacana, não devia ficar trancado, escondido, mofando na sua gaveta por tantos anos. Se desde o começo você tivesse compartilhado a ideia, escrito, sei lá, um artigo e submetido a um congresso, apresentado como proposta numa reunião ou mesmo postado num blog, ninguém iria duvidar da autoria. Mas você foi egoísta, não quis ser iluminada pela boa ideia, não quis deixá-la brilhar. Preferiu colocá-la numa prisão, confinando-a no  HD do seu computador. O único objetivo de ideias presas, sequestradas e encarceradas é buscar a liberdade. Elas sempre vão encontrar um jeito de se livrar do algoz, é só uma questão de tempo.

Centralizadora: a Sonia não quis que ninguém contribuísse para o seu projeto, que é o que fatalmente iria acontecer se ela o colocasse na roda. Seu plano iria receber críticas, sugestões de modificações, contribuições de outros pontos de vista, enfim, a Sonia iria perder o controle absoluto. Mesmo que o resultado final fosse ficar mais maduro e refinado, ela não quis largar o osso (no caso, desenterrar o osso…rsrsrs). Pois é.

Desatualizada: Alguém precisa dizer para essa moça que já estamos bem entrados no século XXI. Não existem mais segredos que possam ser guardados por muito tempo. Autoria é um conceito em plena mutação e colaboração é a palavra de ordem no desenvolvimento de novas ideias. Se ela tivesse aberto espaço para a co-criação ainda levaria os créditos por ter iniciado o projeto e pela sua liderança, além de poder contar com outras competências para fazer a coisa andar. Ninguém sabe tudo o que é necessário para fazer o que quer que seja; todo mundo precisa de conhecimentos que não possui. Espero que finalmente a Sonia se dê conta disso agora.

Arrogante: Pessoas que desenvolvem um projeto de maneira isolada, sem mostrá-lo para ninguém, geralmente superdimensionam seu valor. Já tive oportunidade de ser contactada por vários profissionais que diziam ter tido uma ideia genial e não queriam mostrar para ninguém para não serem roubados. Quando eu ia ver, não era nada de tão espetacular. Apenas alguém admirando seu próprio umbigo e receoso que outros pudessem criticar ou contribuir de alguma maneira para uma ideia bem mais-ou-menos.

Olha, não sei o que é que  a Sonia estava esperando para trazer seu projeto à vida e fazê-lo existir de fato; mas os acontecimentos acabaram traindo seus planos, sejam lá quais fossem.

Se você tem alguma coisa escondidinha aí na sua gaveta, abra-a e pense um pouquinho: se o negócio é tão bacana, seja generoso e compartilhe com o mundo. Convide seus colegas para fazer parte, pesquise as competências necessárias para fazê-lo melhor. Você sairá ganhando bastante, eu garanto. Mas olhe com uma visão crítica, por favor. A coisa pode ter embolorado e agora talvez esteja inutilizada pelos anos de confinamento.

E faça um favor para você mesmo, capriche na faxina e livre-se do lixo acumulado.

Ah, e aproveite para jogar junto a chave da gaveta.

15 fev

Imagem: Alexandra Valenti

Aconteceu de novo. É só pegar um táxi com o Conrado que, ao final da corrida, o motorista, intrigadíssimo, pergunta em que língua nós estávamos conversando.

Português brasileiro é uma língua linda e exótica. E, como toda língua exótica, pouca gente conhece.

E antes que se levantem os defensores do idioma (como se ele estivesse sofrendo algum tipo de ataque) bradando que a nossa é a sétima língua mais falada do mundo, quero lembrar que a primeira é o mandarim (alguém aí é fluente?) e que a segunda é o hindi (desafio alguém no Brasil achar uma escola que ensine isso).

Essas línguas são muito faladas só porque a população nativa dos seus países é grande, como no Brasil. Se a gente considerar as línguas mais faladas sem que o sejam necessariamente por nativos, o inglês ocupa o segundo lugar, e antes do português ainda temos o hindi, o espanhol, o russo e o bengali.

Além do Brasil e Portugal, o português é falado apenas em alguns países africanos. E deu. Mas é que realmente aprender português como segunda, terceira ou quarta língua é só para quem pode mesmo, pois o idioma é bem difícil (descobri, para minha surpresa, que a pronúncia é ainda pior que a gramática).

Meu professor de fonética, que fala 6 idiomas, só sabe do português brasileiro que é uma língua muito musical. Faz sentido. Um dos meus parceiros de Tandem (que também já fala 3 línguas) está estudando porque adora música brasileira.

Outra moça está namorando um brasileiro e minha terceira parceira quer aprender porque está inscrita num programa de ajuda humanitária na África. Ao contrário das outras línguas, as pessoas aprendem português por amor… ou então por amor. Não tem outro motivo (achei lindo isso).

Se o Brasil fosse do tamanho da Ucrânia, por exemplo, falar português não seria um problema, pois todos nós falaríamos com fluência pelo menos uma segunda língua (tenho uma amiga libanesa que foi alfabetizada em francês e árabe, normal nas escolas de lá; e eles ainda precisam aprender inglês, claro). Mas porque nosso país tem dimensões continentais e uma economia forte, não é uma necessidade tão premente assim aprender outro idioma. É possível viver tranquilamente uma vida inteira como monoglota, inclusive sendo um excelente profissional, coisa impensável em alguns países. Se por um lado é bem confortável, por outro nos isola muito do resto do mundo…

Enfim, uma pena. A língua portuguesa é linda, musical, poética, mas infelizmente não tem muita utilidade prática no resto do mundo. Como dizia Olavo Bilac, “Última flor do Lácio, inculta e bela/ És a um tempo, esplendor e sepultura”.

Pena mesmo, pois é a única em que que consigo escrever com real fluência, do fundo do coração (claro, é minha língua mãe) e isso reduz em muito meu número de leitores.

É que falar português, amigos, temos que reconhecer, é um luxo…

***

Referências: Revista Galileu, BritannicaBBC.