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Entenda por que preconceito = preguiça de pensar

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O neurocientista Gregory Berns, autor do ótimo “O iconoclasta”, já explicou: nosso cérebro foi construído de maneira a consumir o mínimo possível de energia.

Fato é que, mesmo que a gente passe o dia inteiro deitado sem fazer nenhum movimento, o danado continua gastando; por uma questão de sobrevivência, ele teve que bolar um jeito de ser menos perdulário.

Para resolver isso, nossa CPU bolou alguns truques que a fazem ficar mais eficiente: um deles é rotular tudo o que lhe aparece pela frente, num esquema chamado categorização preditiva (o nome científico pode até parecer bonito, mas na linguagem popular isso é o mesmo que preconceito).

A coisa funciona da seguinte maneira: em vez de processar uma informação completa e cheia de detalhes toda vez que entra em contato com algum tipo de estímulo, o cérebro infere o que está vendo, ou seja, ele registra apenas uma parte da cena e conclui o resto.

Assim, nossos miolos escolhem algumas partes mais familiares que conseguem reconhecer e ignoram o resto. Isso economiza energia e funciona muito bem no dia-a-dia, mas destrói, sem dó nem piedade, toda nossa imaginação, cultura e capacidade criativa. É que sem trabalhar, nosso cérebro engorda e fica jogado o dia inteiro no sofá comendo besteira. Para ter ideias que mudem o mundo, precisamos de um cérebro atleta, saudável, em excelente forma física.

Por que então preconceito é a mesma coisa que preguiça de pensar?

Porque preconceito é exatamente isso: em vez de considerar todas as variáveis, a gente pega só um pedaço da informação e tira uma conclusão inteira. Claro que a conclusão vai se basear ou em experiências anteriores (não preciso analisar todos os elementos do feijão cada vez que saboreio uma feijoada; basta olhar um bago e já sei que gosto tem) ou em experiências de outros (minha avó dizia que os ciganos são todos dissimulados. Então eu, que nunca vi um cigano ao vivo em toda minha vida, já sei exatamente como eles são, pensam e sentem, só de ver uma moça de saia comprida).

Para quem quer obedecer cegamente à natureza e economizar energia de verdade, é simples. Pegue um livro antigo cheio de regras e cumpra-as à risca, sem questioná-las (melhor ainda, interpretando-as da maneira que exija o mínimo esforço mental possível). Repita opiniões terceiros sem nem ao menos checar se têm fundamento ou não. Leia só a manchete e não o texto inteiro. Interprete a palavra normal como sinônimo de certo. Veja só que econômico. Não se gasta praticamente nenhuma caloria nisso. E o cérebro fica lá, lerdo e flácido, mergulhado feliz no ócio do preconceito.

A única maneira de fazer o nosso sr. Preguiçoso fazer musculação e estar em forma para novos desafios é confrontar o sistema perceptivo com algo que ele não sabe como interpretar, pois nunca viu nada parecido antes. Isso força a criação de novas categorias de classificação.

É como se a gente tivesse prateleiras para guardar todas as informações dentro da cabeça, para recuperá-las quando precisar. Pois quem não questiona e só segue regras, tem meia dúzia de prateleiras montadas por outros, com ideias simplórias, repetidas, rasas e muito, muito preconceituosas.

Quando a gente lê, duvida, conhece novos lugares, novos hábitos e novas ideias, constrói guarda-roupas inteiros dentro da cabeça, cheios de prateleiras, gavetas e sistemas requintados de classificação. Não é que a gente não pratique mais a categorização preditiva, mas ela vai ficando mais refinada, mais precisa. Quando vejo uma moça de saia comprida, não basta colocá-la na única gavetinha disponível, aquela que herdei da minha avó; há uma imensidão de possíveis nichos para guardar aquela informação e, não raro, preciso construir mais um para acomodar a nova pessoa que acabei de conhecer.

No fim, esse trabalho infinito de marcenaria é a tal musculação. É o que nos faz humanos inteligentes, o que nos faz evoluir.

E não sou eu quem estou dizendo isso não. Uma pesquisa canadense aponta a forte relação entre pessoas conservadoras e um QI médio mais baixo, ou seja, os preconceituosos são menos inteligentes; depois de pensar sobre o que o Dr. Berns nos explicou, faz todo o sentido, né?

Quando alguém só tem meia dúzia de prateleiras para guardar tudo e vê algo que não se encaixa, seu cérebro ignorante simplesmente rejeita, diz que não presta e ataca, por puro medo do desconhecido. Nem sabe onde anda o martelo para o caso de ter que construir alguma coisa. Em casos extremos de burrice aguda, chega a bater ou matar só para não ter que levantar do sofá.

Você conhece tipos assim. Pessoas que, tendo cérebro, não o usam. Muitas dizem acreditar na existência de num Criador; mas será que não se dão conta que não há maior desrespeito que esse? Ter um cérebro e não usá-lo?

Acho que não. Para concluir isso, teriam que pensar.

Não precisa chutar o balde para empreender

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Basta abrir um site, uma revista, um jornal, ou mesmo ligar a televisão, para sermos bombardeados por histórias de pessoas que largaram um emprego chato e tornaram-se donas de seu próprio negócio. Dentistas que deixaram o consultório para abrir uma pousada, publicitários que abandonaram a agência para tocar um food-truck, executivos que trocaram as viagens frequentes por uma fábrica de bijuterias na garagem, engenheiros que, sei lá, viraram guias de turismo. Os relatos sempre são de pessoas muito felizes e realizadas, algumas até milionárias.

A questão é que as matérias são escritas de tal forma que a única conclusão possível é que trabalhar em uma empresa que não é sua saiu de moda há muito tempo e o indivíduo precisa ser mesmo muito acomodado para manter uma carteira de trabalho assinada. Omitem o fato de que, de acordo com o IBGE, 48% das empresas fecham as portas antes de completar três anos de vida; também se esquecem que nem todo mundo tem perfil para largar tudo e recomeçar do zero, e nem por isso são profissionais menos importantes ou menos valorizados.

Empreender significa experimentar, realizar, tomar iniciativa, colocar em prática. E para quem é empreendedor, fazer acontecer na sua empresa ou na de outrem dá no mesmo. Há pessoas que, por motivos diversos, preferem ter a segurança do salário, das férias remuneradas, do décimo terceiro e da licença médica quando precisar. Isso não quer dizer, de maneira alguma, que elas sejam acomodadas ou menos empreendedoras que aquelas que tentam carreira solo.

Convencer o chefe ou o departamento que a ideia é boa, factível e que pode ser lucrativa é tão difícil quanto convencer um investidor. Estruturar uma equipe com gente competente, engajada, com talentos complementares e sintonizadas com a visão da empresa é igualmente desafiador se você é o dono ou se é apenas o coordenador. Administrar o tempo e os recursos, cumprir prazos e não deixar faltar dinheiro é complicado em qualquer contexto. Um empreendedor carrega a proatividade no sangue, seja como dono, seja como colaborador.

O segredo, nos dois casos, é a  consciência da liderança.

O líder é um sujeito que consegue enxergar para o futuro e ver um cenário que deseja que se torne real. Como o líder quer muito que essa visão se materialize, pensa num jeito de fazê-la acontecer; estuda caminhos e descobre um jeito. Quanto mais ambicioso é o cenário, mais o líder entende que não consegue construi-lo sozinho — precisa de ajuda de outras pessoas, outros profissionais, outras competências. Precisa de mais gente que também tenha a mesma visão e que queira ir junto com ele no caminho para chegar lá.

Então, o que o líder faz? Apresenta esse cenário de maneira que consiga inspirar outras pessoas a segui-lo. Ele consegue comunicar a ideia de maneira que os seguidores consigam ver e entender o papel e a importância de cada um na construção do caminho. E tanto faz se ele precisa convencer o chefe, os companheiros de departamento, o gerente do banco ou futuros colaboradores que começarão ganhando pouco.

E tem mais: dependendo da complexidade do cenário, o líder entende que o caminho é longo, penoso e que não consegue dar conta sozinho. Aí, não tem outro jeito: ele tem que preparar alguns seguidores para assumir a liderança em determinados trechos. Os envolvidos sabem que o foco é a visão, o cenário futuro, que não inclui o umbigo de ninguém. Quem é o líder em qual parte do caminho é apenas um detalhe técnico.

Resumindo, o líder é alguém com uma visão e sabe como fazer para torná-la real. Quando faz isso em sua própria empresa, é um empreendedor. Quando faz isso numa organização da qual não é sócio, é um intraempreendedor.

As empresas sabem que líderes são valiosos e importantes para realizar sua visão; sem eles, não há como ter sucesso.

Então, se você não está disposto a arriscar tudo para abrir um negócio baseado na incerteza e prefere um pouco de segurança para ousar, o caminho é esse mesmo. Encontre uma empresa que compartilhe da sua visão, que esteja alinhada com seus valores e faça acontecer.

O mercado, a sua família, a empresa, os clientes, os colegas de trabalho e os investidores agradecem.

Como podemos ser menos canalhas?

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Estou me controlando para não ler mais nada em português (meu pobre alemão suplica para que eu diminua o relacionamento com minha língua mãe e lhe dedique mais tempo), mas está difícil.

Da última vez que estive no Brasil, tive a sorte e o privilégio de assistir uma palestra do brilhante professor Clóvis de Barros. Feliz com essa aula tão inspiradora, não pude resistir quando, na volta, já no aeroporto, fui aliciada na livraria pelo “Somos todos canalhas: filosofia para uma sociedade em busca de valores”, cria dele com o também professor de filosofia Júlio Pompeu.

Como já dizia meu ídolo Oscar Wilde, “posso resistir a tudo, menos às tentações”. Então vamos lá…

O livro já começa com um formato interessante; inspirados em Platão, os dois professores dialogam sobre o conceito de valor. Um escreve um texto, outro complementa, o primeiro refuta, o segundo defende e assim vai. O objetivo não é nos fazer chegar a uma conclusão, mas, apresentadas as ideias de filósofos consagrados e os conceitos que eles tinham de valor, fazer-nos pensar para entender, afinal, qual é o nosso conceito pessoal de valor (que é subjetivo e diferente para cada pessoa).

Na primeira parte, os professores apresentam o início da ideia de valor: a importância ou exatidão de uma coisa em relação a uma referência. O grande desafio é encontrar essa tal referência como sendo o sinônimo de melhor (que também é um conceito relativo).

Eles começam apresentando o que os gregos pensavam a esse respeito: o valor de uma ação humana é resultado da comparação entre ela e a ideia de virtude, em que os principais parâmetros seriam a verdade, a beleza e o bem.

Eles falam também que os gregos acreditavam que uma coisa tinha valor, e, portanto, era justa (ou seja, ajustada às virtudes), quando cumpria sua função no cosmos. Para usar tal conceito, partia-se do princípio de que o cosmos era perfeito e que cada coisa que existia nele tinha uma função específica: cabia a cada coisa e a cada ser descobrir sua razão de existir e executá-la da melhor maneira possível. Um profissional excelente, sob esse ponto de vista, seria o equivalente a uma árvore que desabrocha a partir de uma semente e desenvolve todo o seu potencial.

Mas essa teoria também admite que há pessoas que nascem para ser mato e, então, todo o esforço para virar árvore contraria a natureza, veja só. Dessa forma, para os gregos, existiam seres humanos melhores e mais valorosos que outros. Essa medida era dada segundo a função que a natureza lhes atribuía concedendo-lhes talentos específicos.

E eis que chegamos à segunda parte, que fala de Cristo e dos filósofos modernos. Aí houve uma ruptura radical no conceito de valor, começando do princípio que todos os seres humanos teriam as mesmas possibilidades e potencialmente, o mesmo valor, mesmo que desigualmente desprovidos pela natureza de recursos e talentos.

Enquanto para os gregos, a superioridade viria da riqueza dos talentos naturais, para os cristãos, viria do emprego que se faz do livre arbítrio, ou seja, como cada um usa os recursos que a natureza lhe deu para agir de acordo com os ensinamentos do Criador.

O Júlio chama atenção para uma coisa interessante: convivemos hoje em dia com os dois critérios simultaneamente. Às pessoas que nos são próximas, julgamos o valor pelas suas atitudes. Àquelas que não conhecemos, usamos o critério mais genérico, a natureza (quando estigmatizamos grupos inteiros por suas características étnicas, por exemplo).

Bem, a discussão filosófica segue longe, cada vez mais interessante.

De tudo, o que mais me marcou foi a definição atualizada de ética. O gregos definiam esse termo como a vida boa e feliz, em conformidade com a natureza e a função que ela auferiu a cada coisa e a cada ser vivo.

Acontece que a teoria de valores do filósofo Stuart Mill, denominada consequencialista, diz que o valor da conduta humana não está na intenção de quem age, como acreditam os cristãos, mas na eventual felicidade que proporciona a todos por ela afetados.

Clóvis se baseia nela, de certa forma, para cunhar o conceito de ética adaptado aos dias de hoje: “ética é o emprego da inteligência coletiva para o aprimoramento da convivência”.

Antiética, portanto, é a pessoa que não pensa nos outros, que não tem capacidade de empatia, que prioriza seu bem-estar e vantagens pessoais em primeiro lugar. E, com isso, voltamos ao título do livro, “somos todos canalhas”, ou seja, todos temos momentos em que nos despimos de nossa capacidade de empatia e desprezamos a convivência, o coletivo. Em que pensamos mais no nosso conforto do que no impacto que os nossos hábitos causam ao planeta e aos outros seres humanos. Por isso, somos canalhas.

Ao reconhecer o fato depois da bela aula desses dois filósofos contemporâneos, fica a questão: se queremos uma convivência melhor (menos guerras, menos violência, menos poluição), como podemos trabalhar para ser pelo menos um pouco menos canalhas?

Temos que achar rápido essa resposta, o mundo está se desintegrando enquanto a gente discute…

Revaler 99

Imagina um terreno enorme, cheio de galpões igualmente imensos, além de muita área livre, onde em 1867 foi construída uma oficina de manutenção de trens para a empresa ferroviária real prussiana; para se ter uma ideia do tamanho, em 1882 a organização chegou a empregar 1200 funcionários.

Com a reunificação da Alemanha, aos poucos as oficinas passaram para outras regiões com mais infra-estrutura e ficou tudo abandonado até 1999, quando uma associação cultural arrendou o lugar.

Pela quantidade de galpões, muitos deles parcialmente demolidos, às vezes o local parece um pouco sinistro; mas só parece. Na verdade, trata-se de um “antro” de criatividade, arte, esportes radicais e economia sustentável.

RAW-tempel (RAW é a abreviação de Reichsbahnausbesserungswerk, ou oficina imperial de manutenção de estradas de ferro) é o nome da associação cultural que administra o lugar e arrenda os galpões para todo tipo de atividade cultural. Hoje em dia tem arena coberta para skate, escola de escalada, taekwondo, meditação, cross-fit, casas de show e discotecas (Astra, Cassiopeia, Suicide Circus, RAW Club, etc), galerias de arte (Urban Spree e Art RAW) e até um delicioso e imperdível festival de street-food que acontece todo domingo à tarde no Neue Heimat (que também funciona como clube de jazz), além de estúdios de design e fotografia.  Nos domingos de verão, também abriga um mercado de pulgas bem interessante e, em algumas datas, cinema ao ar livre.

O lugar é inteirinho grafitado e frequentado por todo mundo que gosta de arte; na minha opinião, a mais completa tradução de Berlim.

Fica na Revaler 99, Friedrischain, bem pertinho das estações de trem e metrô da Warschauer Straße.

Mas vá antes que acabe; vi no jornal que a área foi vendida a uma incorporadora na semana passada. Tomara que não queiram acabar com um dos locais mais charmosos e icônicos da cidade…

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Grafites estão por toda parte.

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Pista de skate coberta pra ninguém botar defeito.

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Aqui até o entulho vira arte.

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Num dos dias que fui, tinha uma feira de quadrinhos na galeria Urban Spree.

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Esses galpões sinistros… 

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Torre de escalada (faz parte de uma escola e também tem paredes internas de várias alturas próprias para a prática). 

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Bom-humor sempre, em toda parte.

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Street-food aos domingos, não dá para perder!

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Mercado de pulgas que só funciona no verão.

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Fila para entrar nos galpões de street-food.

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Para se exercitar…

Achado é roubado sim!

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Ontem vi uma notícia no jornal* que me fez rever meus valores. É claro que aprendi em casa que quando a gente acha uma coisa que não nos pertence, devemos fazer de tudo para conseguir devolvê-la ao seu legítimo dono.

Mas não é essa a cultura do país em que nasci e cresci. Além da máxima “achado não é roubado” repetida à exaustão, a prova é que, quando alguém devolve algo de valor, logo vira notícia de jornal ou post no Facebook. Esse último, não raro publicado pelo próprio autor da “boa ação”, recebe uma chuva de comentários elogiosos parabenizando pela altiva e nobre atitude.

Pois ontem descobri que aqui na Alemanha é diferente. Achado é roubado sim, se a pessoa ficar com o bem. Como eles conhecem muito bem a natureza do ser humano (e como conhecem!), resolveram deixar bem claro o procedimento nesses casos. Está no código civil: encontrando algo que não é de sua propriedade de valor acima de € 10, a pessoa deve procurar o setor de achados e perdidos do local; se não houver, deve entrega-lo à polícia. Se depois de seis meses o dono não aparecer, a pessoa tem direito a ficar com o bem, a não ser que ele tenha sido encontrado dentro do sistema de transporte público. Nesse caso, a empresa de transportes é que fica com a propriedade.

O negócio é tão sério que até o valor das recompensas está previsto. Se o bem valer entre €50 e €500, o proprietário deve remunerar a pessoa que o econtrou com 5% do valor. Para bens mais valiosos, 3% são suficientes. Para bens de valor sentimental, prevalece o bom senso entre o achado e o perdido.

Enquanto a pessoa não entrega o objeto (ou animal; também vale para bichos) para a polícia ou autoridade competente, é responsável por cuidar e manter sua integridade, ou seja: se entregar para alguém que não for o dono, é crime igual. E se não entregar para as autoridades competentes na primeira oportunidade, é considerado roubo.

Enfim, encontrar um objeto perdido aqui é coisa de muita responsabilidade; torça para não acontecer com você…

*Se tiver curiosidade de ler (em alemão) o artigo do Die Welt ao qual me referi, clique aqui.

Heroína na adolescência

A vida está sempre nos pregando peças. Penso que minha geração inteira leu “Eu, Christiane F., 13 anos, drogada e prostituída…” na adolescência e ficou tão chocada como eu com a história da menina que começou a fumar hachiche aos 12 anos para se sentir incluída e acolhida num grupo e acabou tendo que se prostituir para sustentar seu vício em heroína.

Mas o que eu jamais imaginaria é que um dia ainda iria reler o livro em sua língua original reconhecendo boa parte dos lugares de Berlim que ela relata. E que continuaria igualmente chocada e impressionada.

A história começa com sua família totalmente desajustada (os pais se casaram praticamente obrigados quando sua mãe engravidou, mas o pai não aceitava nem mesmo que ela o chamasse de pai na frente dos estranhos; era sempre o “tio”). A mãe trabalhava o dia todo para sustentar a família e ela passava o dia sozinha, sem ter com quem conversar. A pré-adolescência foi difícil, até que encontrou um grupo de crianças com problemas similares num clube de igreja, e acabou entrando nas drogas, que já circulavam por lá.

A moça tentou se livrar da heroína inúmeras vezes; confessa que ainda não está livre até hoje, com mais de 50 anos de idade e um filho que não consegue criar (ela perdeu a guarda por conta das confusões nas quais se meteu por causa das drogas). Christiane tem graves problemas circulatórios e é portadora de hepatite C, que contraiu por meio de seringas contaminadas; por causa disso, pode ter uma crise fatal a qualquer momento. Ela publicou outro livro em 2013 (“Mein zweites Leben” ou “Minha segunda vida”, em tradução livre) contando o que aconteceu depois da publicação deste que se tornou um clássico da literatura adolescente no mundo todo.

O namorado da Christiane, que no início do namoro chegou a se prostituir para comprar drogas para os dois e poupá-la da humilhação e dos riscos, conseguiu se livrar e hoje trabalha como motorista de ônibus em Berlim. Mas sua melhor amiga sucumbiu a uma overdose na flor de seus 14 anos.

Muito triste mesmo a história de uma moça inteligente que estragou completamente sua vida por pura carência e insegurança. Esse livro devia ser leitura e debate obrigatório nas escolas (assim como o filme Traffic, que me impressionou bastante também), mas não apenas isso.

É preciso também dar mais perspectiva às crianças (elas precisam de uma escola segura e acolhedora e, principalmente, de amor em casa) e suporte psicológico às pessoas que querem se tratar do vício.

Drogas são um problema sério, complexo e caríssimo para o Estado e para as famílias. Devia ser tratado com mais seriedade e respeito, principalmente pelos governos.

Mas penso, na minha ignorância de leiga, que a principal defesa é uma autoestima bem construída e a segurança que a pessoa tem em se sentir amada. Sem isso, talvez seja uma causa perdida. Sortuda eu que tive tudo isso em casa…

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O título original pode ser traduzido livremente por “Nós, crianças da estação Zoo” e remete à estação de trem/metrô em que Christiane e sua turma usavam como base para se encontrar, consumir drogas e se prostituir.

 

Empatia: a coisa mais linda do mundo!

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Essa semana ficamos todos chocados com o acidente aéreo ocorrido com a empresa Germanwings, durante um vôo entre Barcelona e Dusseldorf. O avião caiu nos Alpes e matou 150 pessoas. O mais chocante da história é que tudo indica que o co-piloto derrubou deliberadamente a aeronave, aproveitando-se do momento em que o piloto foi ao banheiro, trancando o cockpit por dentro.

Pois acabei de ler no jornal que uma passageira da Gemanwings que ia ontem de manhã de Hamburgo para Colônia, naturalmente apreensiva por causa do acidente, relata que o piloto, em vez de dar as boas vindas pela cabine, foi até a área de passageiros, pegou o microfone e disse que estavam todos muito tristes com o que tinha acontecido. Muitos funcionários da empresa recusaram-se a voar naquele dia, mas ele e sua tripulação estavam lá por livre vontade. Todos eles tinham família e iam fazer todo o possível para chegarem sãos e salvos em casa no final do dia.

Os passageiros, compreensivelmente emocionados, depois do silêncio inicial devido a surpresa, aplaudiram o gesto. Com certeza, foi um vôo bem mais tranquilo por causa da sensibilidade desse piloto. ‪#‎pormaisgenteassimnomundo‬

Quem quiser ler a notícia original (em alemão), aqui está o link do jornal Die Welt.

O suor dos inocentes

IMG_0021Vou ser uma velhinha cheia de histórias para contar; olha mais essa. Ontem deu um dia daqueles bem cinzas e o Conrado e eu decidimos fazer sauna. Eu já tinha mais ou menos uma ideia do que me esperava por conta de relatos de amigas que já tinham ido, mas não deixa de ser uma experiência pra lá de pitoresca para uma tupiniquim como eu.

Começa que sauna é sauna mesmo, não o que no Brasil costuma-se chamar pelo singelo nome de “whiskeria”. As pessoas vão lá para suar, relaxar e voltar para casa novas em folha.

A que a gente foi era no térreo de um prédio, com um pátio cheio de plantas no meio. Na recepção, uma moça de camiseta sem manga e shorts (apesar dos 2 graus de temperatura na rua) nos deu a chave de um guarda-volumes e uma toalha de banho. O vestiário (assim como a sauna e os chuveiros) é misto. Quando chegamos, tinha uma senhorinha muito simpática se vestindo.

Aí a gente tira a roupa e vai para um corredor aberto cheio de chuveiros tomar um bom banho (com sabonete e tudo, senão não pode entrar na sauna). Começamos pela seca, uma experiência meio surreal. Contei 16 pessoas, 12 homens e 4 mulheres, todos nus. A toalha servia para cobrir os bancos de madeira, já que nenhuma parte do corpo deve tocá-los por uma questão de higiene.

A iluminação é bem suave e a moça da recepção foi lá colocar as ervas na “churrasqueira”; ela dá umas abanadas por alguns minutos e, quando acaba a sessão, todo mundo aplaude (?!). O interessante é que ninguém olha para ninguém, cada um está concentrado no seu próprio suor. Silêncio absoluto, como se estivessem todos em meditação profunda.

Depois de 15 minutos (não aguento mais que isso), fomos para o pátio a céu aberto, cheio de trepadeiras bem verdes, mesmo no inverno (o calor da sauna deve ter alguma coisa a ver com isso). Ficamos um tempo repousando nas espreguiçadeiras com outras pessoas. Daí reparei numa plaquinha que recomendava o silêncio para respeitar a concentração de quem estava ali para relaxar. Mais uma sessão de sauna úmida, um banho final, um pouco de leitura na sala de descanso e um suco de pera para hidratar.

Dá para imaginar no Brasil um lugar assim, onde todo mundo fica pelado num ambiente confinado, no mais profundo silêncio e sem ninguém olhar para os outros? Hahahaha… eu não consigo…rsrsrsr

O feminismo e o chocolate

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É uma pena que muita gente (e muitas empresas) ainda não tenham entendido que o dia internacional da mulher não é para as moças ficarem se autocongratulando por terem nascido mulheres nem ficar felizes por receber rosas murchas pelas ruas. É um dia de muita reflexão, para que todo mundo pense a respeito sobre o que pode ser feito para que as diferenças entre os gêneros, que infelizmente continuam enormes, possam ser minimizadas, e que finalmente cheguemos ao mais alto estágio civilizatório, que é o da igualdade.

Para quem pensa que isso não é necessário e que já evoluímos bastante (uma parte conseguiu andar um pouco pra frente sim, mas ainda falta muito), basta lembrar que enquanto você lê esse texto, mulheres de todas as idades continuam a apanhar, ser estupradas, ter seus hímens retirados a sangue frio e ser apedrejadas até a morte sem dó nem piedade, só porque nasceram mulheres. Nem vou comentar o salário menor, os problemas de autoestima porque não conseguem se adequar a um modelo idealizado por outros ou as condições de trabalho.

Em vez de ficar aqui repetindo o quanto somos maravilhosas (sei que vou ser muito xingada por isso, mas se estamos falando de seres humanos iguais, nascer com uma vagina não torna a pessoa automaticamente maravilhosa; só a torna mais vulnerável, e é disso que temos que tratar), vamos ao que interessa: o que podemos fazer para que todas tenham chance de se desenvolver e ser respeitadas, que possam contribuir para que o mundo seja um lugar melhor para se viver.

Daí que resolvi trazer um exemplo sensacional que existe aqui em Berlim. Chama-se Shokofabrik e é uma cooperativa feminina.

O lugar tem esse nome porque a edificação onde a cooperativa está instalada funcionou como fábrica de chocolate entre 1888 e 1968. O prédio foi ocupado pelo movimento feminista e de lésbicas em 1981 e, desde então, tem feito um trabalho fantástico.

Como está instalado no bairro de Kreuzberg, onde uma parte significativa dos moradores é turco, a organização foi fundada, num primeiro momento, com foco nas mulheres dessa nacionalidade, que sofrem até hoje por causa do machismo de sua cultura.

Como é uma cooperativa, boa parte dos trabalhos é voluntário, mas trabalha-se também para que a renda revertida consiga sustentar os cursos, oficinas, consultorias e serviços ali oferecidos. Há cursos profissionalizantes, de línguas, de integração na cultura alemã, de empreendedorismo, de defesa pessoal; há uma creche que abriga atualmente 23 crianças de 1 a 6 anos de idade; há uma oficina para as mulheres que queiram construir seus próprios móveis; há diversas atividades físicas; há um café e até um serviço que vou testar em breve: o banho turco, uma antiga tradição  chamada Hamam.

A casa tem 13 mil m² distribuídos em 6 andares e é um desses empreendimentos que mudam a história de pessoas para sempre. Essas mulheres construíram um lugar de referência e proteção para suas irmãs e estão de fato transformando para melhor o mundo em que vivem.

Penso que são iniciativas assim que merecem nossa atenção e reflexão no dia de hoje. O que cada um de nós, homens e mulheres, pode fazer para tornar o mundo um lugar mais justo e igual?

Para quem quiser saber mais, recomendo uma visita ao site Shokofabrik. Além de turco e alemão, está disponível também em inglês.

 

O tal do círculo

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Toda vez que vejo um livro na lista dos mais vendidos, logo penso: ôba, um bestseller! Deve ter muita ação e ser fácil de ler. Aí, quando dei uma olhada no resumo do “Der Circle“, de Dave Eggers, a decisão de lê-lo estava tomada: é a história de uma empresa, chamada Circle que compra as outras gigantes da internet e se apodera de todas as informações pessoais dos usuários. Como resistir?

Bom, em princípio pensei que fosse algo do tipo “A rede“, estrelado pela Sandra Bullock. Ledo engano.

O problema já começa com a protagonista, que só conseguiu um emprego na tal empresa porque era colega de quarto da moça que se tornou uma das principais executivas do grupo. Não há como se identificar: ela é boba, chata, sem graça e desinteressante, além de ser acéfala e presa fácil para servir de inocente útil para a empresa. Chega a ser irritante o tanto que a moça simplesmente não pensa (saudades das heroínas do Sidney Sheldon).

A empresa mais parece uma universidade (mais ou menos como seria hoje uma pessoa trabalhar na Google). De fato, o parque fabril é chamado de campus e tem todas as facilidades para os 12 mil funcionários: moradia, restaurantes, lojas, academias, shows e  festas diárias, clínica de saúde. Tudo grátis.

Eles mantêm e obrigam os funcionários a participar ativamente das redes sociais internas e externas, a ponto de terem um ranking de popularidade que conta muito na avaliação de desempenho. São encorajados a interagir o tempo todo a tal ponto que a moça topa usar um colar com uma câmera expondo absolutamente toda a sua vida (e a dos amigos e parentes que interagem com ela) à apreciação pública.

A obsessão pelo que eles chamam de transparência ultrapassa todos os limites lógicos. Os lemas da empresa são: “segredos são mentiras“, “compartilhamento é cura” e “privacidade é roubo“. E ninguém acha estranho, exceto os pais da moça e o ex-namorado. A idiota acha que eles são caipiras por não quererem câmeras em todos os cômodos da casa para que o pessoal possa acompanhar o dia-a-dia deles (uma coisa tão legal, né, gente?).

O que mais me irritou no livro foi o discursinho barato usado por um dos fundadores para convencê-la que abrir mão da privacidade era uma coisa ótima: iria diminuir os crimes e a corrupção no mundo, as pessoas iriam pensar mais antes de fazer as coisas erradas ao saber que tem gente assistindo tudo o que elas fazem. Uma criança de quinta série é capaz de rebater o raciocínio com mais competência que ela; era só perguntar por que ele próprio não usava o colar. Sério.

A empresa mais parece uma seita, pois nunca vi um grupo de colaboradores tão desprovidos de senso crítico. Até poderia ser bacana, se eles não achassem que o que é bom para eles é também o melhor para o mundo e deve ser obrigatório para o bem comum (a palavra totalitarismo parece ser um termo desconhecido para esses nerds desmemoriados).

Olha, só cheguei no final das 558 páginas porque era realmente muito fácil de ler e meu alemão está realmente precisado de exercícios desse tipo. Mas se a pessoa vai ler em português, acho perda de tempo.

Meu resumo do livro: uma obra de ficção que se passa num mundo onde nunca ninguém leu ou sequer ouviu falar em “1984” de George Orwell.

Mas pelo menos o autor podia ter dado uma olhadinha, né?

Supermercado só no nome

Olha, não sei porque esse lugar se chama Supermarket, pois não se parece nada com um. Talvez a ideia tenha sido reunir ofertas variadas e acessíveis, só que num segmento mais cultural; sei lá.

Esse espaço conceitual (como eles mesmos se descrevem) reúne artistas, designers, arquitetos, fotógrafos, empreendedores e o povo da mídia em exposições muito bacanas. A instalação fica naquele shopping bacana que falei há um tempo (o Bikini Berlin) e é um misto de loja, galeria, lounge, restaurante e café. Aos domingos tem sempre uma banda de jazz tocando enquanto o povo relaxa e se joga num brunch.

Com vista para o zoológico e uma decoração aconchegante, dá vontade de morar nesse pedaço. Dá não?

Vem ver!

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Comece olhando para o teto e repare o capricho <3

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Comidinhas simples e frescas, todas feitas aqui mesmo.

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Jazz in Brunch, todo domingo a partir das 11 h.

Inferno

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Já faz um tempo que terminei de ler “Inferno”, do Dan Brown, mas agora me dei conta de que não compartilhei a dica de leitura.

Não é uma obra que eu leria em português, mas, para quem está aprendendo uma língua estrangeira, recomendo bastante (li em alemão e achei bem acessível). Os livros do Dan Brown são ótimos porque descrevem apenas cenas de ação; o personagem principal, o professor de simbologia Robert Langdon, não pensa, não come, não bebe, não dorme, não transa, não faz xixi, enfim, não faz nada a não ser correr e tentar decifrar enigmas. Isso reduz bastante o vocabulário e, porque os capítulos são bem curtos e sempre terminam com um gancho para o próximo, facilita demais.

Bom, a maior parte do enredo se passa em Firenze e só a descrição dos monumentos e museus já vale a leitura. Ainda não visitei essa belíssima jóia italiana, mas a vontade só aumenta. Ele passa um dia em Veneza e outro em Istambul também.

A história, apesar de muitíssimo criativa e bem descrita, tem vários furos (personagens que somem, partes mal explicadas), mas o que me impressionu mesmo foi justamente o argumento central da trama.

Eis que um cientista genial, polêmico e controverso, incomoda-se muito com o fato da população do planeta estar aumentando exponencialmente de maneira insustentável (apesar de ser o vilão, o moço tem toda razão e argumentos muito válidos). Por causa do aumento da expectativa de vida e redução da mortalidade infantil (devido a vacinas, curas de doenças, hábitos de higiene, tecnologias de reprodução, melhoria na alimentação, etc.) conquistadas no século XX, nunca houve tantos habitantes no planeta explorando tanto. Dá uma olhada no gráfico do crescimento populacional que ele apresenta no livro e assuste-se comigo. É apavorante:

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Fonte da imagem aqui.

Essa curva tende a subir infinitamente e o problema é que os recursos do planeta são limitados. Só para se ter uma ideia: se toda a população de hoje tivesse o mesmo nível de consumo de água, energia e produzisse a mesma quantidade de lixo que você e eu (estou considerando que somos ambos classe média), precisaríamos de quatro planetas Terra. Como não temos tantos planetas, a única maneira de manter nosso padrão de vida é que a maior parte da população da Terra seja absolutamente miserável no último grau de degradação. Você já pensou no absurdo que é isso? Sem falar que o número de seres humanos continua aumentando, sem nenhuma perspectiva de diminuir. Mesmo que se reduza o consumo de recursos e a produção de lixo, não há como sustentar essa situação.

Pois é, na história, o vilão ataca as organizações internacionais de ajuda humanitária e os acusa de ajudar a aumentar a população salvando pessoas e não dando a devida atenção a programas de planejamento familiar. Por todas as pistas que ele dá (usando o capítulo que trata do inferno na Divina Comedia de Dante Alighieri e episódios da peste negra) e que o protagonista interpreta, o que está em jogo é um super vírus que irá reduzir a população da Terra e resolver o problema, pelo menos, por ora. O tal cientista maluco se suicida durante a busca para impedir a tragédia que seria disseminar o tal vírus e a corrida do herói para “salvar” a humanidade é frenética.

Olha, não vou contar o final, mas achei surpreendente e muito criativo. Vai lá…

Pedalando sem lenço nem documento

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Coisas com as quais a gente tem que se acostumar, afinal, é outra cultura. Estou fazendo o checkup geral e teve aquela prova de esforço onde a pessoa tem que pedalar morro acima. Pois a menina grudou os negocinhos todos do aparelho em mim e me mandou pedalar… sem camisa! Sem nada! Toda vez que vou no médico é isso: seja homem ou mulher, eles ficam conversando na boa com o paciente sem roupa; é muito bizarro para quem nasceu e cresceu no Brasil, onde até topless é proibido. Aqui eles pegam sol pelados no parque e ninguém se incomoda. Fiquei pedalando e rindo e a moça nem entendeu nada…rsrsr

A parte boa é que, segundo o médico, meus exames estão todos fantastisch!! (nada de piadinhas, quem fez o exame foi a assistente, ele nem estava na sala, ok? Rsrsrsr).

A reinvenção do shopping center

Os berlinenses (e ouso dizer, os europeus, de maneira geral) não curtem muito passar horas em shopping centers. Diria até que detestam. O comércio de rua aqui é rei e, além disso, o consumismo não é tão desenfreado. Passear num shopping num dia de folga é considerada uma ideia bem bizarra por aqui, aliás. Qualquer berlinense preferirá ir a um museu, exposição,  ficar à toa na vida num parque ou ocupando a mesa de um café qualquer.

Por isso, os shopping aqui são pequenos (se comparados com os brasileiros), nada espetaculosos e prioritariamente frequentados por turistas.

Digo isso porque há alguns meses foi inaugurado o maior shopping de Berlim, que, para um brasileiro, é apenas mais do mesmo que a gente já está acostumado a ver: muito mármore, muito vidro, muito dourado, muito luxo, muitas lojas de marca…zzzzzz  O empreiteiro pediu falência ao término da obra, que teve vários atrasos, e o povo até fica fazendo piada com isso (o tal schadenfreude, palavra alemã que significa se alegrar com a desgraça alheia).

Mas no começo do ano passado teve um projeto bem ousado com o objetivo de mudar o conceito de shopping center: o Bikini Berlin, bem onde era o antigo centro do lado ocidental da cidade. Aí sim, conseguiram fazer um empreendimento com a cara e o conceito da cidade.

O Bikini Berlin, olhando de fora, parece mais um centro comercial (de fato, a construção não é muito grande, e a ideia não é essa mesmo). Todo o estilo da decoração é baseado em pallets e é bem minimalista: não tem dourado, não tem mármore, não tem gesso, não tem luxo (ufa!).

Na verdade, esse prédio é uma releitura do antigo Bikinihaus, que ficava no mesmo lugar, construído no auge da invenção do biquíni, nos anos 50. A edificação ganhou esse nome porque era arquitetonicamente dividida em duas partes, como a famosa roupa de banho tão em voga na época, veja que interessante.

O shopping fica coladinho ao Zoologische Garten (visitei o zoo durante a construção e foi bem difícil para os bichos, coitados, que sofreram demais com o barulho e a sujeira da obra) e tem vista para a ilha dos macacos balbuínos (aqueles com a bunda vermelha).

A maior parte das lojas do vão central é do tipo pop-up (ou seja, são temporárias) e montadas sobre estruturas de madeira e arame. Mesmo as lojas fixas são bem despojadas, com piso de cimento queimado e com o máximo de coisas feitas à mão (incluindo cartazes com o nome dos estilistas das lojas de fashion design).

A parte que mais gosto é um pano de vidro que dá diretamente para o zoológico; a moldura da janela tem almofadas espalhadas para a pessoa passar o dia inteiro lá meditando, se quiser. A parte externa tem um pátio também com vista para o zoo onde os cafés colocam mesinhas e sofás com design bem original. Além de cafés e lojas, o complexo de 7000 m² tem um cinema de rua, restaurantes, escritórios, uma escola de design, ateliers e um hotel (um dos mais bacanas que já vi, por sinal, totalmente dentro do conceito). Aliás, sobre os cafés vou falar depois; eles merecem um post só para eles…

Enfim, é tudo muito diferente do que a gente está acostumado a ver num shopping. Pelo que li, o lugar ganhou o coração dos berlinenses, mas não o bolso (parece que o retorno financeiro ficou um pouco aquém do esperado).

Para quem precisa alimentar os olhos todo dia com coisas bacanas e os neurônios com ideias novas, recomendo demais!

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Até a fachada é diferente dos outros shoppings, já que a construção não é um bloco, mas vários prédios interligados.

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Pano de vidro com vista para o zoológico; sim é possível ter paz dentro de um shopping.

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Os cartazes na frente dos cabides indicam os nomes dos estilistas.

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Em busca do cool

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Com certeza você já ouviu esse termo por aí: coolhunter. Mas você sabe o que significa, de onde veio essa palavra, para que ela serve?

Pois a queridíssima e muito competente Fah Maioli, expert no assunto, teve a delicadeza de escrever um livro explicando todos os pormenores, o Manual do Coolhunting: métodos e práticas.

Essa gaúcha que trabalha como trend analyst há 16 anos em Milão, conta que  o primeiro a usar a palavra foi Malcom Gladwell, num artigo escrito em 1997 para o periódico New Yorker. Revela ainda que antes do coolhunter, a palavra que mais se aproximava dessa prática era o flaneur, aquela pessoa que adora passar o tempo caminhando pelas ruas para contemplar cada detalhe da cidade: as coisas, as pessoas, os cenários, os personagens, a música, os cheiros (ah, como me identifico!).

Mas a partir daí, quando o coolhunter foi integrado ao sistema da moda, a coisa ficou muito mais complicada e sofisticada, pois há toda uma estrutura complexa por trás das coisas que consumimos, desde a forma como são identificadas e/ou definidas tendências, a observação do estilo de vida das pessoas até a valorização dos formadores de opinião; enfim. A Fah tem toda a paciência de destrinchar cada termo e cada papel, de explicar a influência de cada comportamento, além de contar um pouco da história da moda do ponto de vista antropológico e de cultura do consumo.

Então, para resumir bem, o coolhunter é a pessoa que caça hábitos, estilos de vida e tendências de consumo cool (bacanas, legais, com potencial para ser desejados e copiados, que possam impactar o mercado), incluindo aí moda, gastronomia, arte, música, design, arquitetura, literatura, cinema, etc. Ele é um intermediário de cultura que faz a ponte entre aos centros de produção cultural e as empresas de produção de bens de consumo.

E a Fah lembra que coolhunter não é uma profissão, mas um conjunto de atividades profissionais. Fiz um desenho para compreender melhor, mas não sei se está certinho (posso ter entendido errado, corrija aí alguma falha, amiga!) que mostra os diferentes papeis que o coolhunter pode assumir e as conexões entre eles.

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Se você é interessado em entender o espírito do tempo (Zeitgeist), não pode perder de jeito nenhum. Recomendo fortemente!

Aqui tem para vender.

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Se quiser saber mais sobre o tema, resenhei outros dois livros também interessantes: “Observatório de sinais: teoria e prática da pesquisa de tendências”, de Dario Caldas e “Cool Hunter“, de Scott Westerfeld

 

Redesenhando a liderança com simplicidade

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Desde “As leis da simplicidade” virei fã do John Maeda. E, pelo jeito, não fui só eu; depois de publicar o livro e fazer uma palestra no TED, ele foi convidado para ser o diretor da maior e mais tradicional escola de design dos EUA, a Rhode Island School of Design.

Apesar de ser um sujeito de múltiplos talentos, esse engenheiro japonês que depois virou designer respeitado e artista plástico premiado no mundo todo, era um pacato professor do MIT (Massachussets Institute of Technology) e nunca tinha assumido um cargo de tanta responsabilidade, ainda mais porque o convite foi feito quando a escola enfrentava o auge de sua pior crise financeira.

Mas Maeda já tinha passado por muita coisa para saber que o que ele mais gosta de fazer na vida é aprender. Então, saiu de sua zona de conforto para descobrir, on the fly, o que é ser um bom líder. Diz ele que está aprendendo até hoje (para a sorte de todos) e, generoso como os líderes devem ser, compartilha as coisas que vem testando, praticando e avaliando no livro “Redesigning Leadership”, escrito com a colega Becky Bermont.

A primeira coisa a se observar é que o moço não perde a coerência: adepto da simplicidade, o livro só tem 80 páginas e, à parte da introdução e agradecimentos, é dividido em quatro capítulos: o criativo como líder, o tecnologista como líder, o professor como líder e o humano como líder. A maior parte da organização do conteúdo foi estruturada nos 1.200 posts que John publicou no Twitter nos primeiros anos da experiência, veja só.

Na introdução ele já compartilha um certo desconforto, pois além de até então ter trabalhado prioritariamente sozinho, reconhece que líderes não são muito respeitados no meio criativo porque evocam uma ideia de autoridade. Então se viu repentinamente no lugar da pessoa que, tradicionalmente, designers e artistas costumam criticar. Mas ele aprendeu com seus pais e alguns mestres japoneses que o trabalho fica mais bem-feito quanto mais a gente se empenha apaixonadamente em fazê-lo. Eis que Maeda mergulhou de cabeça no aprendizado.

Ele começou tentando entender na prática como a instituição funcionava. Para isso, imiscuiu-se nas entranhas da universidade: serviu lanches na cafeteria, ajudou a carregar a bagagem dos novos estudantes que chegavam ao campus, levou comida encomendada pelo pessoal da segurança, almoçou na cantina ouvindo as conversas. Ele foi entender a engrenagem do negócio por dentro e estava se achando muito inovador (designers e artistas são assim mesmo, não temem colocar a mão na massa) quando descobriu que muitos anos antes um outro diretor já tinha feito o mesmo (e era um ex-administrador de hospital).

Nessa fase, começou a questionar o delicado equilíbrio entre ser um líder participativo e microgerenciar, que é um desrespeito às funções de outras pessoas. Entendeu também a importância de não apenas reunir as informações mais relevantes para compartilhar com sua equipe mas explicar porque é tão vital que todo mundo as conheça. Mais do que apresentar dados, é importante que as pessoas entendam porque eles estão lá e o que de fato significam. Nesse momento, percebeu também o fundamental papel do feedback e da ciência que é saber ouvir.

Como tecnologista, Maeda compreendeu que mais importante que ser transparente, é ser claro e assertivo. De quebra, compartilha uma dica preciosa que ganhou de um antigo mestre: sempre que explanar um conceito, continue a explicação com a frase “por exemplo…”. Ele também descobriu que numa reunião sempre tem as pessoas que vão de boa vontade, as que vão porque são obrigadas (e ficam o tempo todo futucando seus smartphones) e aquelas que só estão atrás da comida (e que bom humor é fundamental sempre!).

Como professor, ele entendeu que precisava formar um time e que a visão precisaria ser clara e atrativa o suficiente para as pessoas realmente quisessem, de coração, fazer parte. E que ele não seria um bom líder se também não aprendesse a ser um bom seguidor.

Finalmente, como humano, compreendeu que liderar implica tomar decisões que podem ferir (ele foi obrigado a demitir pessoas) e intuiu que havia informações que ele podia compartilhar com o grupo abertamente e outras que não. E que a melhor maneira de decidir sobre isso era ouvir, ouvir, ouvir, ouvir sempre.

Por último, John aprendeu que o líder conquista o respeito das pessoas por seu próprio mérito; ele não vem automaticamente por causa da posição hierárquica na empresa.

Se Maeda está sendo um bom líder para a organização que agora preside eu não sei; mas, nós, comuns mortais, agradecemos imensamente pela oportunidade de aprender com essa jornada.

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Dei uma pesquisada e vi que o título não foi lançado em português, mas a versão original, em inglês, está disponível na Livraria Cultura.

Um povo e suas contradições

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Todo país tem suas contradições e a Alemanha não seria exceção. O povo que fundou o partido verde, que é super consciente nas questões de consumo, que se preocupa com o ambiente e com a procedência da comida que come, que é maluco por plantas, parques e tudo o que é verde, que habita o lugar onde as crianças comem cenouras cruas, pepinos e pimentões como se fossem frutas na merenda, onde imperam as redes de supermercados bio, onde tudo é eco-friendly, enfim.

Pois é, esse mesmo povo vai lá na floresta, corta pinheirinhos, enfeita-os por um mês e depois simplesmente os joga fora, na rua mesmo. Essa semana as calçadas vão ficar cheias deles, tadinhos.

A estimativa é que, só em Berlim, sejam 400.000 dessas pobres árvores descartadas (é mais de uma árvore para cada 10 habitantes; imagina isso na Alemanha inteira?). Tem um serviço especial que as recolhe para que sirvam de combustível nas usinas de aquecimento de água, mas mesmo assim, né?

Eu acho um absurdo. Absurdo. Absurdo. Não sei que lorota contam para as crianças, tão preocupadas com o meio ambiente, mas pelo jeito, deve colar, pois ninguém acha nada demais aqui…

Horas de foguetório

O reveillon aqui em Berlim tem umas coisas que nunca tinha visto em outros lugares: eita povo mais fanático por fogos! É claro que há algumas queimas de fogos oficiais, como a tradicional festa no Portão de Brandemburgo (mas tem que chegar lá no máximo umas 5 da tarde se quiser ver alguma coisa; nesse frio não anima) e no Gendarmenmarkt, mas o grosso do foguetório é disparado pelos moradores mesmo.

Olha, acho que tem gente que passa o ano todo comprando fogos para soltar, não é possível.

Para vocês verem como não estou mentindo, um sujeito se deu ao trabalho de colocar uma câmera no carro e passear pela cidade; são 13 minutos ininterruptos, dá quase para sentir o cheiro de pólvora.

Olha:

Gente feia

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Como tinha gostado muito de Coolhunter, do Scott Westerfeld, resolvi conhecer outros livros dele. O autor é especializado em literatura para jovens, mas estou preferindo leitura mais fácil agora porque alemão já é complicado que chega (um dia lerei Thomas Mann no original, mas ainda vai demorar um pouco..rsrs).

Ugly: verlier nicht dein Gesicht* é uma obra de ficção científica onde, num futuro indefinido, a terra foi destruída pelos chamados “brutos” (nós) e alguns sobreviventes reconstruíram a civilização usando a tecnologia para usar menos recursos naturais e não poluir. A questão é que o conceito de limpeza foi extrapolado também na questão estética.

Nesse futuro, todas as pessoas crescem e estudam normalmente (a maioria em internato, pelo menos até a adolescência). Aos 16 anos, quando considera-se que o corpo já está formado, são todos submetidos a uma cirurgia plástica radical para aperfeiçoar não apenas a aparência, mas também o funcionamento do corpo (ossos são alongados com ligas sintéticas ultra resistentes, a pele toda é substituída, entre outras coisas). Os cientistas definem o que é considerado tecnicamente belo em termos de simetria e proporções e vai todo mundo para a forma.

A maioria esmagadora dos adolescentes adora, inclusive porque são condicionados a acreditar que são todos feios (uglies), a ponto de morarem numa parte separada da cidade. Eles têm softwares que simulam sua nova aparência (apesar das variações, são obviamente, todos muito parecidos). A protagonista sonha com esse dia, já que os “recém-bonitos” têm todos 16 anos e vivem em festas e reuniões sociais aparentemente pagos pelo governo (a população parece realmente ter diminuído muito). Além do que, seu namoradinho, algumas semanas mais velho, já sofreu a cirurgia e mora do outro lado da cidade.

A aventura acontece quando a mocinha conhece uma amiga que se acha bonita mesmo quando todos insistem que ela é feia. Ela gosta de ser como é e descobre um grupo de rebeldes que fugiu para viver em um lugar secreto sem ter que submeter à tal cirurgia transformadora.

Uma parte interessante é quando a moça encontra uma revista antiga (sobrevivente dos destroços do fim do mundo) e descobre que aquelas mulheres bizarramente magras e estranhas que estampam as páginas eram o padrão de beleza dos “rudes”. Ela se surpreende com a variedade de formas que o rosto e o corpo humano podem ter, vejam só.

Ler ficção científica em outra língua é meio complicado porque são descritas coisas que ainda não existem, mas pelo que pude deduzir, o povo todo se locomove por meio de skates voadores eletromagnéticos (amei essa parte).

Bem, a heroína passa por toda uma situação complicadíssima e arriscada, inclusive com teorias conspiratórias que não vou contar para não estragar. Ainda mais porque pensava que era uma trilogia e agora, pesquisando na Amazon, descobri que na verdade é uma quadrilogia. Só li o primeiro, então aguardem os desdobramentos.

Dei uma pesquisada e vi que a coleção foi lançada em português. Para saber mais, é só clicar aqui.

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*tradução livre: “Feio: não perca seu rosto”

Era uma casa nada engraçada…

Hausvogteiplatz, Berlin.

Bethlehemkirchplatz, Berlin.

Nos últimos tempos tenho conhecido e tido notícias de muita gente que está participando do programa Ciências sem Fronteiras, que leva universitários brasileiros a estudar no exterior. Como todo projeto grande, há de tudo: estudantes que aproveitam cada segundo e outros que só vêm fazer turismo e nunca aparecem na aula (o triste é que, pelo que soube de alguns professores, não é permitido mandar o sujeito de volta como punição, pois nada pode estragar as estatísticas…). Vantagens e desvantagens à parte, estou com uma sensação estranha e espero muito que esteja enganada.

O Brasil nunca teve um projeto sério de educação. Tive a sorte de sempre ter estudado em escolas públicas, do primário ao doutorado. Havia escolas ótimas, o problema é que eram poucas; nem todo mundo tinha acesso. Não venho de família rica e sempre ralei bastante; mesmo durante o doutorado trabalhei 40 horas/semana numa empresa privada. Mas não posso negar que tive muita sorte: consegui acesso a esse quartinho bom, mas pequeno, com um monte de gente querendo entrar. Se tivesse nascido e crescido num canavial em algum lugar no interior do Brasil, dificilmente teria essa chance. Repito, foi pura sorte.

Nossa situação na educação agora é sair desses quartinhos e construir uma casa. Justiça seja feita, até hoje governo nenhum se dignou a pensar nisso. Pela primeira vez na história, há alguma movimentação nesse sentido, de construir a tal casa. Só que temos aí vários problemas.

O primeiro é que não há um projeto para a casa. Nem um orçamento planejado. Nem uma equipe qualificada com a responsabilidade de construi-la.

E, para piorar, começa-se a obra pelo telhado. Não são medidos esforços para comprar telhas de vários tipos, de maneira completamente aleatória (pelo menos é a minha percepção). Há gente boa estudando maneiras eficientes de se fazer a melhor cobertura, há gente comprando telha de papel e vendendo como se fosse de ouro (que, de qualquer maneira, não seria adequado), tem gente construindo telhados com células solares pensando na sustentabilidade, tem quem use materiais tóxicos e ainda tem telhas baratas importadas da China; enfim, um pouco de tudo.

Para qualquer um que critique a maneira como a casa está sendo feita, seguem-se as maravilhosas cifras de tudo o que já foi investido até agora em telhas, algo que nunca foi feito antes (o que é verdade, não nego).

Mas, gente? Não temos projeto, não temos alicerces, não temos fundamentos! Onde vamos colocar essas telhas? Aliás, nem os tais quartinhos bons nos quais estudei estão recebendo manutenção adequada. Nossos estudantes estão entre os piores do mundo em todas as métricas internacionais para o ensino básico. As escolas não têm merenda, não têm livros, alguém superfaturou computadores velhos e nem a internet funciona. Dei aula para analfabetos funcionais no ensino superior (que está mais para ensino inferior) e fiquei impressionada. As pessoas não conseguem entender conceitos básicos como o de porcentagem, não conseguem estruturar uma frase completa.

Sei que a escola básica não é responsabilidade do governo federal, e sim dos estados e municípios. Mas a casa é uma só; tem que federalizar a coisa mais estratégica que esse país tem, que é a formação de gente! É nossa única salvação, a meu ver.

Há que se fazer um projeto sério, pensando no longo prazo, que seja justo, inclusivo e priorize o acesso à educação em todos os níveis. Que as pessoas aprendam a pensar por si próprias, não a reproduzir ideologias, seja lá quais forem. Que aprendam a ler, escrever, fazer contas, entender seu papel no mundo. Que possam sonhar, mas aprendam a fazer.

Por sorte, não entendo nada de construção de casas e nem de educação. É minha esperança.

Essa ignorância é o que me dá forças para acreditar que estou enxergando tudo errado e distorcido, e que a coisa não é tão ruim assim.

Tomara.