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Vidas extraordinárias

Desde a última vez que estive no Brasil, em dezembro do ano passado, estou para compartilhar uma experiência riquíssima que tive em Belo Horizonte; fui convidada a assistir uma palestra sobre inclusão de pessoas com deficiência promovida pelo Programa SENAC de Acessibilidade. As histórias que ouvi, na ocasião, fizeram-me ver as coisas de um modo totalmente novo.

Primeiro, aprendi que o termo “pessoas portadoras de deficiência” não é adequado, pois tudo que é portado por alguém, não faz parte da pessoa, e pode ser retirado quando não for mais necessário. Posso portar uma bolsa, um crachá, um telefone. Mas não uma deficiência.

A expressão “pessoas com necessidades especiais” também não cabe, pois necessidades especiais são 300 toalhas brancas no camarim de um astro pop, por exemplo. Quem apenas quer se locomover, trabalhar, viver, não tem está pedindo nada de especial; são necessidades básicas de qualquer ser humano.

Pessoa deficiente” enfatiza uma qualidade negativa que não é o principal fator identificador daquele ser humano. Então, o mais adequado é “pessoa com deficiência“.

No total, foram quatro palestras muito inspiradoras e transformadoras. Primeiro, fiquei conhecendo o projeto Mano Down, um trocadilho bem-humorado com o nome do famoso rapper brasileiro Mano Brown. Leonardo Gontijo tem um irmão caçula, o Dudu, com síndrome de Down. Desde a infância, os dois são muito ligados e Leonardo resolveu se dedicar a fazer de Dudu uma pessoa autônoma e realizada. Dudu do Cavaco, como é mais conhecido, é músico e faz shows e palestras por todo o Brasil. Uma linda história de amor entre dois irmãos.

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Leonardo Gontijo e Dudu do Cavaco, o Mano Down.

Depois da palestra esclarecedora da advogada Patrícia Siqueira, do Ministério do Trabalho, sobre as leis de cotas nas empresas, veio a incrível história do David. Um moço bonito e inteligente, de 27 anos, cheio de dúvidas, questionamentos e desejos; exatamente como você e eu. Só que o David nasceu sem as pernas e com apenas o toco do braço esquerdo. O mais incrível do caso dele, para mim, foi a atitude da mãe. Grávida aos 17 anos e sozinha (o pai do menino não quis nem saber e desapareceu assim que soube da gravidez), fez tudo que estava ao seu alcance para fazer do filho uma pessoa independente e com uma autoestima saudável. Lutou para que ele sempre estudasse em escolas públicas comuns, frequentasse todos os programas dos garotos da idade, andasse pela cidade sozinho e sem auxílio, enfim. Essa mulher é um ser humano realmente excepcional, conseguiu fazer com que a falta dos membros do filho fosse apenas um detalhe na vida dele (e dela). O resultado é o que David conseguiu estudar (faz Direito), viaja e se locomove sozinho com o auxílio de uma cadeira de rodas elétrica e trabalha como palestrante na mesma empresa que me representa no Brasil, a DMT Palestras. Não é para encher de orgulho todos os envolvidos?

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David Cesar, meu colega de trabalho.

Por último, impossível não se encantar com o bom-humor dos Irmãos FOT, os queridos Romário e Ricardo Fot. Eles são gêmeos e se descobriram completamente cegos aos nove anos de idade, vítimas da “Síndrome do olho de gato“. Mas isso não os intimidou: ambos têm curso superior e pós-graduação, sendo que o Ricardo é professor em uma faculdade de administração. Os dois também viajam pelo Brasil dando palestras, ajudando as empresas a entender e incluir a diversidade nos seus quadros.

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O Brasil tem nada menos de 45 milhões de pessoas com algum tipo de deficiência, que você não vê porque elas sequer conseguem andar na rua, quando mais estudar. Nem toda pessoa com deficiência tem uma família estruturada, bem resolvida e amorosa para ajudar a superar tantas dificuldades. Quanto mais gente conhecer a realidade, mais se perderá o medo do desconhecido e se aproveitará esses talentos desperdiçados.

Se você tem uma empresa, penso que seria de grande valia contratar qualquer um deles (ou todos); empatia, superação, proatividade e, principalmente, muito amor envolvido. Só pode fazer bem.

Muito obrigada, SENAC/MG, Tio Flávio Cultural e DMT Palestras; vocês, como sempre, me proporcionando essas experiências inesquecíveis.

Como ver o mundo

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Encontrei “How to see the world”, do professor de mídia, cultura e comunicação da New York University, Nicholas Mirzoeff, num cantinho da livraria do Kultur Forum, em Berlim. Estava saindo meio atordoada da belíssima exposição Boticelli, que reúne originais e releituras, quando dei de cara com essa brochura linda da coleção A Pelican Introduction (já vi que tem outros títulos ótimos).

Como resistir a alguém que se propõe a ensinar a gente a ver o mundo? Dica: não resista. Vale cada sílaba impressa. Os capítulos são divididos em: Como ver o mundo; Como ver você mesmo; Como pensamos sobre o ato de ver; O mundo da guerra; O mundo da tela; Cidades mundiais, mundos de cidades; O mundo em mudança; Mudando o mundo; Ativismo visual.

É muita coisa para resumir numa resenha de uma página, mas, na minha opinião, já na introdução ele mostra a que veio e apresenta números impressionantes (e atuais,  pois o livro é do final de 2015) como o fato de 52% da população da Nigéria ter menos de 15 anos (assim como 40% de toda a população da África Sub-Sahariana). Tanto na Índia como na China, mais da metade da população tem menos de 25 anos de idade. Que 6 bilhões de horas de vídeo são assistidos todos os meses no Youtube, uma hora para cada pessoa na Terra. Somente no ano de 2014, um trilhão de fotos foram tiradas; um belo número, se a gente considerar que até 2011, todas as fotos existentes somavam 3 a 5 trilhões. Até o final da década, segundo o Google, serão 5 bilhões de pessoas conectadas à internet (em 2012, mais de 33% da população já tinha acesso).

Ele conclui que, querendo ou não, somos uma sociedade cada vez mais visual e a tendência é aumentar a comunicação por esse meio, uma vez que o mundo é majoritariamente jovem e vive nas cidades. E a internet não é mais um meio de comunicação de massa. É o primeiro meio universal do Planeta Terra.

Ele mostra que isso também mudou a maneira como vemos as coisas e o mundo.

Nicholas usa como exemplo uma foto da Nasa, de 1972, tirada pelo astronauta Jack Schmitt, tripulante da Apollo 17. A imagem intitulada “Mármore Azul” é uma das mais reproduzidas até hoje, pois pela primeira vez o planeta aparece inteiro numa fotografia. Ele a compara com a mesma foto tirada em 2012, que utiliza uma montagem de várias imagens de satélite com as cores e distorções corrigidas. É mais exata que a foto original, mas é falsa. É uma montagem. Ninguém foi lá e fez o click. A imagem é uma combinação de informações mais precisas, porém, parciais. É assim que estamos vendo o mundo agora.

E mais; no mesmo ano de 2012, o astronauta japonês Aki Hoshide estava na mesma situação de Jack Schmitt, mas em vez de fotografar a Terra vista do espaço, ele virou a câmera e fez uma selfie. A Terra aparece em segundo plano, no reflexo do seu capacete. Mais emblemático, impossível.

Não à toa, o primeiro capítulo é todo sobre o fenômeno das selfies. O bacana é que o autor não gasta tempo fazendo críticas a “essa juventude que está aí”. Ele analisa fatos, tendências e nos ajuda a ver esse mundo tão surpreendente, conectado, imediatista e cada vez mais visual.

Mirzoeff afirma que cultura visual envolve as coisas que nós vemos, o modelo mental que define como e o que nós vemos, e o que podemos fazer com o resultado disso. Cultura visual é a relação entre o que percebemos visível e o nome que damos ao que está sendo visto. E isso implica em conhecer também o que é invisível, o que não percebemos.

Ele ainda diz que o conceito de cultura visual mudou de 1990 para cá; antes, tínhamos que ir ao cinema para ver filmes, ao museu para ver exposições, ou visitar alguém em casa para ver suas fotografias. E ele diz mais: “Ver não é acreditar. É algo que nós fazemos, uma espécie de performance”.

Olha, vale ler o livro inteiro. Ele fala sobre os grafites, os mapas, a diferença conceitual entre as atuais selfies e os antigos auto-retratos, as mudanças climáticas, a arte contemporânea, o fenômeno da urbanização, a comunicação e a conexão nas cidades, e, principalmente, sobre como é possível mudar o mundo por meio de mensagens visuais.

Vai lá. Garanto que você não vai se arrepender.

Para que serve uma palestra?

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Dia desses, ao saber que viajo frequentemente ao Brasil para ministrar cursos e palestras para empresas, uma pessoa me perguntou: ok, cursos eu entendo que as empresas contratem, elas precisam dar treinamento para seus colaboradores desenvolverem novas habilidades. Mas por que alguém pagaria por uma palestra?

Boa pergunta, viu? E muita gente tem a mesma dúvida; então vou tentar responder o melhor que puder.

Bem, em linhas gerais, existem três tipos de palestras corporativas: as motivacionais, as biográficas e as informativas*.

As motivacionais são aquelas onde o palestrante transforma o senso comum em show. Elas servem para inspirar os colaboradores, fazer com que eles repensem seu dia-a-dia, mas não trazem informações novas; a base é o entretenimento. Nesse caso, vale tudo: teatro, música, performances, dinâmicas, piadas, desafios, cenários, etc.

As biográficas são histórias de vida contadas por alguém que teve uma experiência especialmente interessante. Geralmente são apresentadas por pessoas famosas, empresários bem-sucedidos, sobreviventes de catástrofes, aventureiros, pessoas com talentos especiais, atletas, jornalistas, artistas, escritores, enfim, expoentes em alguma área.

As informativas (onde me encaixo, pois não tenho talentos especiais nem sou famosa…rs) são palestras que compartilham algum tipo de conteúdo técnico, mas apresentado de maneira acessível e atraente aos leigos. São específicas para determinadas áreas e geralmente ministradas por professores ou profissionais reconhecidos. A ideia é contextualizar o assunto e provocar na audiência curiosidade para saber mais e buscar aprofundamento. Por isso, nesse tipo de palestra, quase sempre são fornecidas referências adicionais (livros, vídeos, textos) que as pessoas podem procurar depois.

Essa classificação não é estanque e pode se misturar, mas penso que em linhas gerais, é isso. As palestras motivacionais e biográficas são as mais valorizadas em termos financeiros; talvez as pessoas gostem mais de shows e de saber detalhes da vida alheia… brincadeira! Penso que o verdadeiro motivo é porque o primeiro tipo exige um enorme talento artístico para transformar eventos banais do dia-a-dia em grandes espetáculos transformadores; tem que ser muito bom mesmo. E gente famosa ou com vida extraordinária, além de rara, sempre é fonte de curiosidade.

Mas vamos falar um pouco mais sobre o valor das palestras informativas. A pergunta era: para que elas servem mesmo?

Minha resposta taxativa: para economizar o tempo e o dinheiro das empresas e dos participantes.

Vamos pensar: para apresentar o assunto tratado, o palestrante terá que ter feito muitos cursos sobre o assunto, comprado/lido/estudado dezenas de livros e trabalhado bastante sobre as ideias de vários autores até concluir alguns pontos que tornem esse conhecimento útil para ser aplicado na vida real. O próximo passo é arquitetar uma maneira de apresentar os fundamentos e as conclusões de maneira clara, didática, rápida e, principalmente, atraente; tudo isso em algumas dezenas de minutos (palestras costumam ter, no máximo, 90 minutos). Quanto mais curta a palestra, mais difícil é estruturá-la, mais trabalho dá.

Imagine se cada participante tivesse que fazer todos os cursos, ler todos os livros e conhecer todos os autores só para ter uma ideia geral sobre determinado tema que ele ainda nem sabe se se é ou não relevante para a empresa, se a ferramenta ou método apresentados são ou não adequados aos problemas da gestão atual, se a abordagem é ou não interessante, pertinente ou oportuna para a realidade de seu mercado. Complicado, demorado e caro, né?

Então, para saber se valeu a pena a empresa pagar por uma palestra, ela deve pensar quanto dinheiro foi economizado e quanto valor foi produzido no evento.

Mas, para evitar desperdícios e insatisfações generalizadas, é necessário que os organizadores cuidem de alguns aspectos; a negligência de um deles pode colocar tudo a perder.

— Certificar-se que o assunto interessa à plateia, que deve conseguir ver utilidade ou valor no tema.

— Verificar o nível de conhecimento dos participantes sobre o assunto para evitar que saiam sem nenhuma informação ou referência nova além das que já tinham; que pelo menos consigam ver a questão sob um ângulo que amplie sua visão.

— Informar-se sobre o palestrante; se domina o tema e se costuma apresentá-lo de maneira organizada e atraente, respeitando o tempo disponível.

— Cuidar para que a apresentação ajuste-se ao perfil e à linguagem do público.

— Preparar o ambiente para que ele favoreça a comunicação.

— Observar se o momento é adequado.

Por motivos óbvios, acredito fortemente que palestras são fontes de valor e podem trazer muitos benefícios para as empresas de uma maneira rápida e relativamente barata. Basta que a contratação seja adequada e observe os fatores acima.

De minha parte, adoro assistir palestras tanto quanto compartilhar as coisas que aprendo.

Para mim, um excelente investimento, especialmente em tempos de crise. E para você?

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NOTA: * Essa classificação eu acabei de inventar, pois pesquisei e não encontrei nada que ajudasse a explicar melhor o que estou tentando dizer.

Sempre me perguntam

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Nessa temporada no Brasil, estou ministrando palestras e cursos em várias cidades. No final, sempre me fazem perguntas curiosas que nada têm a ver com os temas abordados, mas dessa vez, uma das questões mais frequentes passou a ser mais frequente ainda; virou frequentíssima. A ponto de me motivar a escrever a respeito.

É fato conhecido que tenho 49 anos de idade e não tenho filhos. Pois essa é a questão que mais intriga moças e rapazes que me assistem e vêm conversar. As frases que mais tenho ouvido ultimamente: “Você não se arrepende? Todo mundo diz que vou me arrepender…“;”Também não quero ter filhos, mas não tenho como explicar isso às pessoas; será que sou anormal?“; “Todo mundo diz que não serei uma mulher completa sem filhos…“; “As pessoas dizem que sou muito egoísta porque não quero ter filhos“; “Minha mãe diz que nunca conhecerei o amor incondicional“; “Meu marido não quer ter filhos também e todo mundo acha isso muito estranho“. Mulheres que não têm filhos conhecem essas frases muito bem e muitas outras mais (reuniões familiares em épocas natalinas são prolíficas nesse tipo de comentário).

Bom, vamos comer a alcachofra pelas pétalas.

Não, não me arrependo. Minha vida é exatamente da maneira como eu queria que fosse. Não consigo me imaginar sendo mãe. Meu marido também está muito feliz com essa situação. Fui fazer terapia há alguns anos por causa das cobranças e não, não há nada errado comigo e nem posso ser diagnosticada como sendo mais egoísta que a média. Sou uma mulher perfeitamente normal e completa (seja lá o que isso queira dizer).

Uma ideia simples que parece ser quase impossível para a sociedade entender é que os seres humanos são diferentes; essa é justamente a graça e a riqueza do mundo. Há pessoas com raças, credos, orientações sexuais, visões, cabelos, corpos, estilos de vida, gostos pessoais e opiniões muito diversas umas das outras. Ainda bem que é assim.

Há mulheres que sempre sonharam ser mães, como a minha irmã. Que ótimo! É uma das melhores mães que conheço. Mas também tem mulheres que nunca tiveram esse sonho. Ok, sem problemas. Acho maravilhoso as que decidem adotar; para mim isso sim é que é amor incondicional. Não é seu sangue, não tem seus genes, mas você ama aquele ser como uma parte sua.

Existem inúmeros motivos racionais para não se ter filhos nos dias de hoje. O mundo está superpopuloso e sabe-se que precisaríamos de quatro planetas Terra para que todos os atuais habitantes pudessem usar a mesma quantidade de comida, água, energia que eu e você, que está lendo esse texto, usamos. Não temos 4 planetas. E o número de viventes está aumentando exponencialmente de forma assustadora. Há também a violência, as drogas, etc. Mas não vale a pena se aprofundar no tema porque o motivo que faz com que uma pessoa escolha ou não ter filhos não é racional. É total e inteiramente emocional.

Essa é uma escolha que muda a vida. Não apenas da pessoa, mas da criança. Por isso, o desejo de procriar tem que ser muito forte.

Na minha opinião, se somente as pessoas que realmente quisessem ter filhos o fizessem, não estaríamos nessa situação enlouquecedora. Pessoas que de fato, do fundo do coração, querem se dedicar a formar e educar outros seres humanos, deviam fazer isso com gosto. As demais, principalmente os que não têm 100% de certeza, poderiam pensar mais um pouco, para o bem de todos. E o Estado, que também seria muito beneficiado, deveria apoiar, principalmente porque ainda há mulheres demais sem esse direito básico e fundamental de escolher, seja por questões práticas, seja por pressão cultural.

Tenho várias amigas da minha idade e até bem mais velhas sem filhos; não conheço nenhuma que tenha se arrependido da decisão. De qualquer maneira, se isso acontecer, sempre poderão adotar; o que não falta é criança jogada no mundo por quem nunca as desejou.

Mas também conheço muito mais mães do que gostaria que me confessaram que, se tivessem ideia de como seria ter um filho (que hoje amam mais que tudo), não o teriam tido. Sonham com uma máquina do tempo que faça tudo ser como antes. Esse arrependimento, do meu ponto de vista, é o pior, pois não tem conserto.

Meninas e rapazes que sonham em ter filhos: façam isso e caprichem. Meninas e rapazes que não querem ter filhos: não há nada errado com vocês, não há nada para explicar, apenas sejam felizes.

É isso.

Arquitetura do treinamento

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Sabe quando você ganha um presente que impacta a visão que você tem do seu trabalho e muda tudo daí pra frente? Melhor presente, não é? Pois ganhei um desses da empresa que me representa no Brasil, a DMT Consulting, por meio do seu braço especializado em cursos abertos, a DMT Inspira.

A mágica aconteceu num encontro presencial de dois dias inteiros sobre arquitetura do treinamento, facilitado pela querida e competentíssima Fernanda Godoy, cujo trabalho extraordinário ainda não conhecia. Tive que rever, criticar, desconstruir e reavaliar todos os cursos que ministrei até hoje (céus, como ainda tenho que comer feijão para fazer um trabalho memorável!).

Enquanto uma palestra serve para provocar reflexões, um treinamento existe para que um determinado grupo melhore sua performance por meio da repetição, fundamental para desenvolver uma habilidade específica. Por isso, é tão importante que um treinamento esteja fundamentado em apenas um conceito a ser trabalhado por vez. Eu disse UM.  E é necessário que essa performance possa ser medida e comparada depois. Ou seja, a avaliação de um curso não tem nada a ver com o fato dos participantes terem ou não ido com a cara do facilitador, se o coffee-break estava bom, se o ar-condicionado estava gelado ou se os conhecimentos de quem estava orientando os trabalhos estavam à altura do desafio. A questão a ser respondida é: funcionou? Será que objetivamente a performance das pessoas naquela medida que se propunha de fato aumentou? Quanto? Agora parece tão óbvio, mas em toda a minha vida de facilitadora, nunca recebi o resultado de uma avaliação que mensurasse isso.

É claro que já tinha lido algo a respeito da andragogia, da construção do conhecimento pelos participantes. Até já tinha trabalhado alguma ideias, mas ainda era cética de que seria possível aplicar em qualquer área do conhecimento (não esqueçamos que sou engenheira e, no meu entendimento, é preciso que o professor ensine de um jeito bem mastigado como resolver uma integral tripla; levaria 2368 encarnações para descobrir sozinha ou em um grupo na sala de aula). A questão é que, como ainda não tinha tido contato com métodos ou instrumentos específicos, queria fazer uma transição usando modelos mentais antigos. Ainda não sei se isso se aplica no ensino de cálculo avançado, mas pude rever muita coisa no meu próprio trabalho, agora que tenho mais ferramentas.

A premissa mais importante é que adultos têm experiências anteriores que devem ser valorizadas. Além disso, é necessário associar prazer no processo. Já li essas frases mil vezes, mas sem instrumentos, elas não servem para quase nada. Eram só frases bonitas que não se conectavam com minha experiência, exceto em casos muito específicos. Por isso o curso fez tanta diferença na minha vida.

Outra coisa importante que passa batida: para preparar um treinamento, é imprescindível que se saiba em que nível de consciência da incompetência o público está (não sabe que não sabe; sabe que não sabe; sabe que sabe; não sabe que sabe). Geralmente a gente não tem essa informação.

A Fernanda salientou para o fato de que o design instrucional (projetar instruções que cumpram seu objetivo de desenvolver determinada habilidade e que ao mesmo tempo sejam prazerosas) é muito trabalhado em cursos à distância, mas pouco explorados em atividades presenciais, pelo menos no Brasil.

Com os exercícios práticos, ficou bem claro sobre como costumamos pensar longe das necessidades reais. O RH da empresas define que os gerentes precisam desenvolver habilidades de liderança, por exemplo, mas de uma maneira muito vaga (as avaliações continuam focando no curso, não no resultado observado no dia-a-dia depois). Qual é o problema mais urgente agora? Cumprimento de prazos? Retenção de talentos? Aumento da visão estratégica? E para quê? Onde e como vai se medir se a performance melhorou nesses aspectos depois do curso realizado?

A definição de metas e objetivos claros são fundamentais para pensar toda a arquitetura do treinamento: desde o conceito central, desenvolvido como o núcleo de um mapa mental, até a definição da forma propriamente dita e seus respectivos instrumentos (pode ser que, no final, descubra-se que não é necessário um treinamento, mas uma campanha de comunicação ou um jogo, por exemplo, mais adequados ao desenvolvimento da habilidade em questão).

Espero que esse curso venha aumentar meu desempenho na criação e execução de treinamentos, principalmente agora que tenho mais ferramentas e que me dei conta de que estava no nível “eu sabia que não sabia, mas não tinha ideia que a ignorância era tão gigante!”…

Como diz a Fernanda, não é que o buraco seja mais embaixo; é que ele está em outro corpo…rs

Olha, foram dois dias inteiros de pancadas na cabeça (que, paradoxalmente, foram também deliciosas), de maneira que não dá para resumir todas as ideias num artigo escrito por uma leiga no assunto ainda em estado de choque.

O que posso dizer? Obrigada, DMT! Papai Noel não poderia ter me trazido um pacotinho mais bacana que esse!

Mas eu me mordo de ciúme…

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Gente ciumenta, todo mundo sabe, é um problema. Problema para quem tem ciúme, claro. Sofre, agoniza, perde a razão e não mede esforços para ser desagradável, hostilizar, chantagear e desrespeitar o outro em todas as oportunidades. Ciumentos são incansáveis e não desistem até atingir seu objetivo, que é perder o ente amado.

Exemplo: um ciumento doentio faz o quê? Persegue, espiona, desconfia, chateia, inferniza o infeliz alvo de seu afeto até que ele desista e vá viver sozinho ou procurar outra pessoa, pois não aguenta mais tanta aporrinhação. Tudo é motivo para briga, desentendimento, barraco, constrangimento.

O que a pessoa ciumenta não entende é que se seu objeto de apego não quiser mais ficar com ela, ele não vai ficar mesmo e não há nada nesse mundo que possa impedi-lo. Pode até amarrar o pobre no pé da mesa e colar um selo de propriedade, mas o pensamento é livre e não está no controle de ninguém. Além do quê, sonhar ainda é de graça. É impossível prender o coração se ele quiser voar (ou fugir, no caso).

O que fazer, então, para não perder o grande amor? Ora, o óbvio. Empenhar-se para que ele não QUEIRA ir embora. Ou seja, fazendo tudo ao contrário do que o ciumento faz: tornando a vida da pessoa mais agradável, entregando valor para ela, preocupando-se com seu bem-estar, respeitando a liberdade dela, valorizando-a, confiando nela, fazendo com que cada momento ao seu lado seja memorável e encantador. Quem ama de verdade mesmo, faz isso com prazer e naturalidade. E não perde noites torturando-se com a suspeita de bilhetinhos imaginários escondidos em algum lugar.

Mas ciúme é um sentimento e, por isso, totalmente emocional, ilógico, teimoso, instável e cego. Pessoas, quando têm algum problema de auto-estima (acham que não são boas o suficiente e sentem-se ameaçadas por alguém fictício que possa ser melhor) fazem coisas idiotas. Sabotam-se. Dão chiliques. E precisam buscar ajuda.

Mas empresas e organizações não podem ser emocionais, não podem ser desequilibradas. Elas têm que raciocinar, pensar, analisar. Elas têm que entregar valor. Não podem ter surtos de ciúme doentio e ataques nervosos. Não podem querer resolver a questão no braço, na força bruta ou na base do decreto. Não podem ir às vias de fato querendo dar porrada na rua. Não podem chantagear quem as sustenta e ainda querer ter razão.

Se elas infernizarem a vida do cliente, ele vai embora batendo a porta com toda a força. Vai correr desesperado para os braços de outrem (e se o concorrente capricha nos mimos, mais difícil ainda para essa alma tão maltratada resistir aos encantos do desconhecido sedutor). E a empresa ciumenta vai à falência, desempregando pessoas, desonrando contratos, esgotando-se na sede de vingar-se dos competidores.

É sério.

Pena que há algumas organizações que nem assim conseguem enxergar o óbvio pugilista, aquele que aparece e dá um soco na cara para ver se acorda os distraídos. Né, senhores taxistas? Operadoras de telefonia e Internet, restaurantes, lojas, bancos…

Mais alguém?…

Para quem está começando

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O Atitude Profissional: dicas para quem está começando foi escrito porque eu queria muito um livro assim quando estava começando minha vida profissional. Fiz um monte de bobagens e teria evitado muita queimação de filme se tivesse tido algo semelhante para me orientar.

Se você está começando sua vida profissional ou conhece alguém que esteja (pode ser um estudante de qualquer nível também) baixe o conteúdo grátis ofereça a essa pessoa.

A versão impressa foi publicada em 2009 e a edição está esgotada.  Assim, revisei e ampliei essa segunda edição e resolvi publicá-la para download gratuito em formato PDF. Meu desejo é que ela seja novamente impressa, mas dessa vez distribuída gratuitamente a estudantes brasileiros; se alguém quiser encabeçar o projeto, tentarei ajudar no que for possível.

É de graça, não custa nada. É só clicar aqui para baixar :)

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Se tiver interesse, tenho outros livros grátis para baixar. Veja aqui.

Empatia: nunca vi, nem comi, só ouço falar.

Ligia Fascioni

Se você sair por aí perguntando que características as pessoas gostariam de melhorar, as respostas mais frequentes seriam: paciência, força de vontade, disciplina, inteligência, etc. As variações seriam muitas, mas é quase certo que, além do bom senso (que todos acreditam ter o suficiente), o outro item que não apareceria na lista seria a empatia.

E olha que empatia está na moda, a julgar pela quantidade enorme de frases de efeito que vêm circulando nas redes sociais (até um museu da empatia abriu em Londres; muito bacana).

Mas aí a pessoa curte todas as matérias sobre o tema e logo depois publica 5 selfies feitas na academia seguidas da foto de seu prato de almoço e da preciosa informação: “partiu aeroporto!”.

Com Fan Pages não é diferente: em textão, textinho, animação ou meme; empatia é a palavra de ordem. Logo em seguida a empresa pede colaboração para conseguir mais likes para a página (estamos quase chegando nos xxx mil!!).

Analisemos o fenômeno.

Empatia, todos sabemos, é a capacidade de se colocar no lugar do outro, sentir o que ele sente, experimentar o que ele experimenta. Mas por que deveríamos desenvolver essa qualidade? Para entender o mundo com mais clareza, para amar melhor, para ampliar nossos horizontes, para sair do mundinho centralizado no nosso umbigo. Praticar empatia significa reconhecer que não sou o centro do universo, significa focar nossa atenção no outro.

Pelo menos para as empresas, essa habilidade deveria ser usada para conseguir compreender o que é valor para a pessoa que está do outro lado, o que é importante para ela. Se a empresa consegue entender isso, vai se comunicar melhor com seus clientes e colaboradores, vai se conectar com eles.

Em minhas consultorias para empresas, não raro alguém pergunta: olha que bacana, vamos publicar isso na Fan Page? Vamos dar isso como brinde? Minha pergunta (sempre!): isso é valor para seu cliente?

Uma pergunta tão simples e básica, minha gente. É valor para mim, como cliente, se a empresa tem 10, 100 ou 1 milhão de likes? Não sei vocês, mas para mim tanto faz. Diferença zero na minha vida.

É valor para alguém ganhar uma sacola maravilhosa cuidadosamente estragada pela estampa gigantesca de uma marca? Já falei e repito; presente com empatia tem a marca da empresa bem pequena e do lado de dentro, para a pessoa se lembrar da gentileza, não ficar com raiva e ter que doar o mimo por impossibilidade de uso sem parecer um outdoor.

É valor para mim, como colaborador da empresa, ter como prêmio de desempenho um final de semana em Miami, considerando que não tenho visto, minha mulher não pode ir junto por causa do trabalho e estou com um filho doente em casa?

É valor para mim, como cliente, saber se a empresa bateu a meta de vendas desse mês? Se o funcionário tal fez aniversário? Se o presidente apareceu na coluna social? Se recebeu a visita de fulano, que é famoso?

Algumas dessas informações têm valor sim, mas para segmentos específicos: seus colaboradores e acionistas, talvez. Em alguns casos, para fornecedores e parceiros também. Então, o lugar de publicá-las não é na página em que os clientes têm acesso, mas no espaço dos colaboradores e parceiros, por exemplo.

É claro que depende de cada empresa e do perfil de quem vai ler a notícia ou receber o presente; não há uma regra que valha para todo mundo. Valor é uma coisa subjetiva e muito difícil de mensurar; há que se estudar cada questão cuidadosamente da maneira mais empática possível.

Nos perfis pessoais e profissionais, se a pessoa valoriza a empatia, vale a mesma coisa: será que isso é valor para quem está lendo?

Pensemos: para quem é valor uma foto do meu guarda-roupa novo? Minha mãe, minha colega de quarto, minha prima que está pensando em comprar um também? Então, olha, são três pessoas. Para que compartilhar essa informação com mais 3 mil que não se interessam pelo assunto?

Para quem é valor saber quantos km você correu hoje? Seu grupo de amigos que pratica corrida? Beleza, por que então não mandar essa informação somente para eles, em vez de informar toda a sua timeline, que inclui colegas do curso de direito tributário, parentes distantes, sua contadora, seu grupo de literatura comparada e seu dentista?

Ressalto: não quero fazer o papel de polícia da internet, apenas convidar à reflexão. Obviamente cada um faz o que quer com o espaço que possui. Inclusive porque o conceito de valor é bem vago.

Não há certo ou errado, é pessoal mesmo, não dá para colocar regras. Mas dá para tentar se colocar no lugar do outro, imaginar qual o impacto daquilo que a gente está compartilhando vai ter lá na outra ponta. Não vamos acertar sempre, mas com certeza, seremos menos inconvenientes. Vamos tornar a vida de quem está do outro lado um pouco melhor (ou menos ruim, que seja). E não é essa a ideia da empatia?

Então, se a você concorda mesmo que falta empatia no mundo, fica a sugestão para começar agora mesmo. É só responder à pergunta básica e simples antes de publicar ou oferecer algo: “isso é valor para quem está do outro lado?”

***

Espero sinceramente que esse texto tenha valor para alguém :)

Arte de rua em Bruxelas

Pelo pouco tempo que fiquei na cidade (apenas um dia e meio), não dá para tirar uma conclusão. Mas a impressão que fica é que a arte de rua em Bruxelas é bem mais comportada que em Berlin.

Boa parte das intervenções tem uma linguagem de cartum ou ilustrações de época.  É claro que há obras em estilo mais contemporâneo, como a coleção maravilhosa que vi num beco no bairro gay, mas o contraste com Berlim é bem grande.

De qualquer forma, do meu ponto de vista, arte de rua é sempre bem-vinda e contribui demais para tornar a cidade mais interessante, instigante e bem-humorada; não seria diferente com esse lugar lindo que é Bruxelas.

Vamos dar uma volta para ver minhas descobertas?

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Essas ilustrações de época são lindas e misteriosas…

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Fachada em 3D de um cinema de rua. Show!

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O contraste entre o contemporâneo e o clássico nessas ruazinhas que parecem de outros tempos.

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Aqui parece uma ilustração de quadrinhos com um Bansky wannabe ao lado. Adorei!

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Essa linguagem de quadrinhos realmente domina as ruas (não é à toa que a cidade onde nasceu Tintim e os Smurfs tem longa tradição na área).

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Moradores criativos: como não amar?

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Essa série colorida e maravilhosa achei num beco. É uma campanha contra a homofobia. Não é linda?

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Mais uma da série <3

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Essa é uma das mais bonitas <3

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O realismo das fotos, a escolha do texto, a estampa das roupas: tudo perfeito!

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Turma do rock.

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Porquinho entediado…

Se quiser ver mais sobre a cidade: Bruxelas, bela surpresa!De volta para o futuro e o Metrô das mil e uma noites.

Pertinho do céu

Morar em Berlim me faz ter esperança que o mundo ainda tem jeito. Fazia tempo que eu sabia da existência do Klunkerkranisch, mas hoje resolvi fazer uma visita. Olha, restaurei minha fé na humanidade mais um pouco.

Já disse aqui que shopping center em Berlin não faz o menor sucesso; os maiores são prioritariamente frequentados por turistas, mas a maioria é centro comercial de bairro mesmo.

Outra coisa que já falei aqui é que só tem carro quem realmente precisa. E que jamais vai passar pela cabeça de um Berlinense pegar um carro para ir passear (?!!) num shopping. A cidade tem mais de mil parques e jardins, quase uma centena de lagos, que competem arduamente com os montes de cafés e museus. Shopping não tem chance mesmo.

Pois um deles (dos pequenos e antigos), instalado no centro do bairro hype de Neuköln, fica num prédio de 6 andares. O shopping ocupa os três primeiros, no quarto tem a biblioteca pública e os dois últimos são de estacionamento. Só que, como falei, quase ninguém vai de carro ao shopping.

Eis que pessoas querendo mudar o mundo (tem muitos deles nessa cidade) resolveram fazer um projeto para transformar os telhados planos da cidade em áreas verdes. Conseguiram mudas de plantas com o Ministério do Meio Ambiente e, pasmem: desativaram o estacionamento do sexto andar.

O que tem instalado lá agora é bem a cara de Berlim: um misto de jardim, horta comunitária, clube aberto, caixa de areia para crianças, street-food, cinema, teatro e shows ao ar livre. Nos intervalos, tem sempre um DJ tocando, das 10 da manhã à 1h30 do dia seguinte. A partir das 16h eles cobram ingresso (não sei quanto é porque cheguei antes, mas deve ser simbólico). É chegar e arrumar um sofá, pufe, banquinho ou sentar/deitar num tablado curtindo a vista maravilhosa.

É bem despojado, como tudo na cidade: móveis reaproveitados, muito pallet, vasinhos, jardins, matinhos, gambiarras e muita criatividade. Não tem moda, não tem exibicionismo, não tem lounge, não tem comida gourmet, ostentação é prática ignorada e ninguém fica desfilando por lá. O povo só quer se divertir num belo cenário e ser feliz. E disso, os berlinenses entendem mais que ninguém, pois conseguem se concentrar no essencial, sem perder tempo com firulas e jogos de aparências.

Tudo foi construído por iniciativa dos cidadãos; o Klunkerkranisch não tem dono, pois faz parte de uma associação que mantém o lugar. O legal é que você não precisa consumir nada, o espaço é livre para todo mundo curtir. Esse é o primeiro “telhado” a ser transformado em área verde cultural e funciona desde junho de 2013; o melhor é que esse povo do bem quer ocupar todos!

Fala sério: não é demais? Não é à toa que amo tanto esse lugar…

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Repare como o estacionamento do 5. andar está vazio.

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Uma verdadeira novela

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Lutei por mais de 140 páginas e desisti. Detesto fazer isso, mas estava ficando mortalmente entediada com “Von der Schönheit” (Sobre a Beleza) da prestigiadíssima Zadie Smith e não estava vendo perspectiva de mudar a situação nas 370 que ainda faltavam. Que me desculpem os fãs da escritora, mas foi o que me restou.

Fazia tempo que estava curiosa para ler Zadie, considerada uma das revelações da literatura britânica nos últimos anos. Para mim, seu principal mérito é que o núcleo central da trama é composto por negros e a cor da pele deles em nada importa na história, ao contrário na maioria das obras de outros autores, onde os protagonistas ou são escravos ou vivem num submundo fugindo de preconceitos.

Já estava na hora de personagens negros contarem histórias onde a cor da pele não é a protagonista. Não estou negando o racismo, que, infelizmente, continua firme e forte, nem diminuindo os romances históricos de lutas e conquistas, mas penso ser saudável essa mudança de cenário.

Para mim, a autora coloca os personagens onde eles sempre deveriam ter estado: num papel comum, onde a cor não importa, é apenas uma característica física como outra qualquer. Na verdade, a cor até tem seu papel nas questões existenciais dos personagens, mas é compreensível, já que as questões existenciais integram a origem e a história da pessoa. Mais ou menos como um judeu questionando a própria existência e seus valores, ou um imigrante de qualquer país com cultura diferente. Não é a questão central, apenas faz parte da constituição de cada história de vida e da chave de seu entendimento.

No livro, um adolescente filho de um professor universitário, apaixona-se pela filha do maior rival acadêmico de seu pai. O problema é que fico com a impressão de estar assistindo uma novela das oito daquelas passadas no Leblon, onde se gasta capítulos inteiros descrevendo banalidades do dia-a-dia que não têm relevância alguma na trama (tipo dois personagens discutindo o que vão comer no almoço ou se um vai primeiro ao banco e depois na padaria). Não gosto de autores que desperdiçam palavras, frases, parágrafos inteiros sem dizer nada.

Não é que eu considere a autora ruim (até porque não li o livro inteiro);  a moça não deve ser tão respeitada e consagrada à toa. Talvez ainda tente mais uma vez, com outra obra. Parte da minha percepção pode ser devido ao fato de ter lido a versão em alemão, língua que estou longe de dominar totalmente; parte porque não me identifico com o estilo.

Se você quer se arriscar, vá lá. Mas vá com tempo, pois as coisas demooooooram para acontecer…

6 perguntas sobre trabalhar na Alemanha

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Não estou dando conta de responder ao tanto de emails e mensagens de gente querendo vir morar na Alemanha. A maior parte é da área técnica (engenheiros, analistas de sistemas, etc) ou criativa (publicitários, designers, etc).

Selecionei as perguntas mais comuns; vai que você está pensando em me escrever para perguntar justamente isso, né?

1. Como você veio parar na Alemanha?

Meu marido veio a convite de uma empresa alemã. Ele é um engenheiro extremamente qualificado e já havia morado aqui antes por 6 anos antes de fazer o mestrado na Inglaterra (o doutorado foi no Brasil); a vaga dele foi divulgada por cinco semanas aqui (hoje em dia não precisa mais se a pessoa vier com um emprego que pague acima € 44 mil/ano). Como não apareceu nenhum alemão com o perfil, foi contratado como diretor da empresa com a Blaue Karte (visto especial para alta qualificação). Depois de 21 meses contribuindo para a previdência social, ele obteve a autorização permanente para trabalhar e residir. Hoje temos nossa própria empresa de tecnologia (infelizmente, ainda não estamos contratando).

2. Dá para ir sem visto de trabalho?

Se vier como turista, pode ficar 90 dias por semestre na União Europeia sem visto, mas não pode trabalhar. Aí é só comprar a passagem e vir. Se vier como estudante, penso que tem que estar matriculado numa escola/universidade; aí o prazo pode ser bem maior (acho que mais de um ano), mas também não pode trabalhar. Para conseguir esse visto, é preciso comprovar que tem renda suficiente para se manter nos meses em que pretende ficar. O visto de trabalho eu não sei exatamente como funciona, mas o melhor de tudo é vir já com um emprego (aí, geralmente a empresa se encarrega de dar as orientações necessárias). Não se pode perder de vista que a concorrência é grande; italianos, espanhóis, portugueses e todos os profissionais que moram na União Européia não precisam de visto para morar e trabalhar aqui. Naturalmente, os brasileiros que possuem cidadania europeia também não têm esse problema.

3. Precisa falar alemão?

Olha, se a pessoa for um expoente na sua área, pode ser contratado só sabendo inglês, mas aí tem que trabalhar numa start-up (pessoal mais jovem e cosmopolita) ou numa multinacional. No começo dá para se virar só com o inglês, mas a pessoa precisará de ajuda, pois todos os contratos de serviços (aluguel, telefonia, transporte, internet, seguro saúde, registro de moradia, etc) são em alemão.

Outra coisa; para um adulto brasileiro, aprender alemão não é rápido como aprender inglês ou uma das línguas latinas próximas à nossa (espanhol, italiano, francês). Leva mais tempo, porque, além de uma gramática muito mais complexa, é preciso aprender a pensar de um jeito completamente diferente. Leia aqui sobre a minha experiência pessoal, caso tenha curiosidade.

4. O mercado está bom para a profissão tal?

Depende muito do currículo do profissional. Como em qualquer lugar do mundo, quem é mais qualificado, tem mais chances. Berlim, que é onde moro e conheço mais, é uma cidade pobre para os padrões alemães porque não tem muitas indústrias e a economia está mais voltada para serviços, onde a rede de relacionamentos é tudo. Tem muita gente da área criativa morando aqui e se equilibrando para pagar as contas no final do mês, pois a maior parte trabalha como freelancer. Há também muitas start-ups, mas essas geralmente não têm tantos recursos para contratar. Já em outras cidades da Alemanha, mais ricas, como Hamburgo, Munique e Stuttgart, penso que há um mercado mais aquecido em termos de trabalho, principalmente na área técnica. É nesses lugares que o dinheiro está.

Se você quiser fazer universidade ou mestrado aqui, sugiro esse ótimo post da Agenda Berlim (clique aqui para ler).

5. Como eu arrumo um emprego aí?

Tem alguns sites onde é possível pesquisar as vagas e o perfil que eles estão precisando. Veja alguns links:

Experteer

Meinestadt

Jobs.de

Aktuelle Jobs

Stellenanzeigen

Artconnect Berlin

Além desses, é possível pesquisar a empresa onde a pessoa quer trabalhar e entrar no portal para ver as vagas disponíveis. Algumas têm filiais no Brasil, o que pode facilitar o processo de recrutamento.

6. Dá para ganhar bem?

Essa pergunta é tão comum que fiz até um post só falando a esse respeito. Clique aqui para ler.

Atualização: Esse site aqui mostra os salários das profissões de nível superior nas diferentes regiões da Alemanha.

***

Bem, isso é o que tenho de informações por ora. Se alguém tiver mais para contribuir, fique à vontade para usar o campo de comentários.

Espero que tenha ajudado um pouco e viel Glück!!

 

Sorria, você está sendo energizado!

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Quem me acompanha sabe que dificilmente posto assuntos muito pessoais, a não ser que a experiência possa ser útil para alguém. Pois esse é o caso agora.

Semana passada tive que fazer uma cirurgia na boca (uma daquelas aborrecidas operações que incluem dentes, gengivas, muita linha preta e injeções doloridas que não valem a pena detalhar). Fato é que saí do consultório parecendo que levei um soco no queixo e com a recomendação de falar o mínimo necessário, mexer a boca muito de leve, e usar uma placa de contenção no palato. Beleza.

A dor e o desconforto são coisinhas chatas, mas fazem parte. Como quase todo mundo, já fiz cirurgias diversas e passei momentos doloridos (felizmente poucos, pela minha lembrança). Mas nunca tinha me sentido tão mal, apesar da intervenção ser tecnicamente simples.

Passei a semana me sentindo fisicamente fraca (mas o negócio foi só na boca!), sem ânimo para nada. Olho no espelho e vejo uma mulher 10 anos mais velha, de aparência acabada. As pessoas que geralmente me tratam bem em todos os lugares (mesmo com famosa “frieza” dos alemães, sempre me senti acolhida) mal me olham. Até o Conrado achou que eu estava muito diferente. Estou mesmo. Nem passear na cidade, a coisa que mais adoro fazer, me animou no final de semana. E olha que numa outra oportunidade já caminhei 6 quarteirões com fortes náuseas e vomitando em duas praças no caminho só para ver um grafite, toda feliz (sim, tenho vergonha de dizer isso, mas é verdade….rsrsrs).

Alguma coisa estava errada comigo e eu precisava muito descobrir o que era; não estava gostando de jeito nenhum da pessoa que estava vivendo nesse corpo fraco. Ontem, conversando longamente com meu personal analista-marido, finalmente descobri: é que eu não podia mais sorrir por recomendações médicas (gargalhar então, nem pensar!) e isso nunca tinha me acontecido antes.

Não que eu esteja sempre sorrindo, mas tento ser agradável com quem faz contato visual, mesmo que sejam minhas gatinhas . Isso me anima, me fortalece, me dá energia. Quando a gente não sorri, murcha completamente em todos os sentidos, é impressionante, juro! Como disse, já passei por alguns perrengues muitíssimo mais difíceis (na verdade, incomparáveis), mas eu podia sorrir e até fazer piada da desgraça. Mas agora fui proibida e não consegui dar conta.

Não é muito louco isso, minha gente? Preste atenção e faça o teste: fique um dia sem sorrir. É para acabar com a pessoa.

Se o seu médico não proibir expressamente, por favor, sorria. Mesmo que não tenha motivos, mesmo que não tenha vontade, mesmo que o mundo esteja caindo na sua cabeça, mesmo que você não queira, faça uma forcinha. Todo dia, sempre que puder, em todas as ocasiões; não tenha medo de ficar com cara de bobo. Eu vivi feliz 48 anos com cara de boba e posso dizer que é infinitamente melhor, mais divertido e mais saudável do que essa interminável semana encarnando a séria carrancuda.

Bom, esse era o recado. Amanhã vou tirar os pontos e tudo vai voltar a ser como antes.

Desejem-se sorte :)

***

PS: Esse desenho é da nova safra: mulheres sorridentes.

Ladrões de beleza

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Acabei de ler “Diebe der Schöneheit“, de Pascal Bruckner e, olha, posso dizer que gostei. Não foi tão fácil de ler porque não é um livro de ação  (aqui os personagens pensam e filosofam) e as limitações com o alemão certamente me fizeram perder algumas sutilezas da escrita. Mas a história é fascinante, a ponto de me deixar impressionada. A boa notícia é que andei pesquisando e a obra já existe em português, com o título “Ladrões de beleza“.

Benjamin é um sujeito meio sem escrúpulos, preocupado basicamente com sua sobrevivência e bem-estar. Não é um mau caráter, mas digamos que lhe falta um pouco de empatia. Por conta de um romance que ele escreve na forma de um mosaico de frases roubadas de autores célebres, acaba conhecendo Helène, uma  parisiense jovem, rica e entusiasmada com o melhor que a vida pode oferecer. Ela praticamente adota Benjamin: compra-lhe roupas caras, ensina-o a apreciar bons vinhos e comidas, enfim, mima até não poder mais o moço, que está sempre entediado.

Eis que os dois estão voltando de um fim de semana nos Alpes e ficam presos na estrada por causa de uma tempestade de neve, perto de um vilarejo ermo. São socorridos pelo mordomo de um casarão próximo e aí começa o conto de horror.

*** Atenção: daqui em diante tem spoiler. Se quiser ler o livro pare aqui ***

O casal de proprietários é louco de pedra, ajudado pelo mordomo corcunda, fiel serviçal. A mulher, professora de filosofia, que teve uma juventude devassa e promíscua em busca de um sentido para a vida, é a chefe da quadrilha. Ela domina o marido, um advogado aposentado bem sucedido, e o mordomo. Juntos, eles constroem porões onde mantêm presas as jovens mais belas que conseguem encontrar.

A ideia é que gente bonita (serve para homens também, mas eles são mais difíceis de capturar) é culpada pelas outras pessoas se sentirem feias. Eles investigam a vida das eleitas e escolhem aquelas que usam a própria beleza para, de alguma forma, usar as outras pessoas. Fazem um tribunal próprio, sem que as “culpadas” tenham a menor chance de se defender, escolhem as vítimas, sequestram e as trancam por um ou dois anos, até que a beleza murche completamente e dela não sobre mais nada. As moças ficam no escuro, sozinhas, sem nenhuma informação, referência de tempo e nem o motivo pelo qual estão presas. Um belo dia, quando estão feias o suficiente, são devolvidas ao mundo completamente destruídas (e, na maioria dos casos, desequilibradas mentalmente também).  Fiquei especialmente impressionada com a crueldade dessa descrição, cheguei até a sonhar com isso.

O casal acaba sendo vítima do trio e não consegue fugir. Não porque sejam modelos de beleza, mas porque acabam conhecendo o segredo. O acordo para que sobrevivam é que Helène seja mantida presa e que Benjamin viaje até Paris com o mordomo para capturar três exemplares de beldades.

Passam-se meses, e a coisa só piora. No final, Benjamin ainda descobre que os malucos são tão bem conservados porque o cheiro das moças é rejuvenescedor (achei um pouco desnecessária essa alusão sutil ao “O perfume” de Patrick Suskind).

Benjamin conta a história toda para uma jovem médica psiquiatra que está fazendo plantão num hospital em Paris que fica intrigada com tudo. Ela consegue conferir e confirmar algumas pistas; o que ele conta parece ser verdade, mas não há muito como ajudar. Quando ela visita o casarão, tudo parece abandonado.

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Vou abrir aqui um parênteses sobre uma experiência pessoal que me aconteceu, enquanto lia o livro. A Bee Rosa, que acompanho no Facebook, faz colares lindos a partir de flores naturais colocadas dentro de bolinhas de vidro. Ela me ofereceu um presente: faria um colar com minha flor preferida, bastaria colhê-la e enviar a ela pelo correio. Fiquei toda empolgada com a ideia, e coloquei uma caixinha pequena dentro da bolsa para ir recolhendo florzinhas lindas por onde passasse.

Mas na primeira, levei um choque quando abri a mochila: a caixinha era um quarto escuro. A flor estava toda feliz pegando um sol com as amigas e curtindo a vida. Eu fui lá, tirei-a do seu ambiente e ia trancá-la dentro de um porão sem nenhum motivo por um longo tempo, até que ela murchasse. Exatamente como na história. Não consegui fazê-lo (contei para a Bee e ela deve ter me achado louca).

Mas não deixa de ser um pouco assustador reproduzir, mesmo que em escala, comportamentos que a gente acredita serem tão cruéis. É triste ver que, às vezes, mesmo sem perceber, a gente busca acabar com a beleza e a alegria assim que as vê; como tantos se incomodam em ver os outros felizes e livres. A Bee me salvou dizendo que posso deixar as flores no sol depois de colhê-las; é um dos métodos de conservação que posso usar sem deixá-las no escuro, vou tentar.

Eu ainda estou digerindo o livro.

Coloquei uma flor dentro dele.

Entenda por que preconceito = preguiça de pensar

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O neurocientista Gregory Berns, autor do ótimo “O iconoclasta”, já explicou: nosso cérebro foi construído de maneira a consumir o mínimo possível de energia.

Fato é que, mesmo que a gente passe o dia inteiro deitado sem fazer nenhum movimento, o danado continua gastando; por uma questão de sobrevivência, ele teve que bolar um jeito de ser menos perdulário.

Para resolver isso, nossa CPU bolou alguns truques que a fazem ficar mais eficiente: um deles é rotular tudo o que lhe aparece pela frente, num esquema chamado categorização preditiva (o nome científico pode até parecer bonito, mas na linguagem popular isso é o mesmo que preconceito).

A coisa funciona da seguinte maneira: em vez de processar uma informação completa e cheia de detalhes toda vez que entra em contato com algum tipo de estímulo, o cérebro infere o que está vendo, ou seja, ele registra apenas uma parte da cena e conclui o resto.

Assim, nossos miolos escolhem algumas partes mais familiares que conseguem reconhecer e ignoram o resto. Isso economiza energia e funciona muito bem no dia-a-dia, mas destrói, sem dó nem piedade, toda nossa imaginação, cultura e capacidade criativa. É que sem trabalhar, nosso cérebro engorda e fica jogado o dia inteiro no sofá comendo besteira. Para ter ideias que mudem o mundo, precisamos de um cérebro atleta, saudável, em excelente forma física.

Por que então preconceito é a mesma coisa que preguiça de pensar?

Porque preconceito é exatamente isso: em vez de considerar todas as variáveis, a gente pega só um pedaço da informação e tira uma conclusão inteira. Claro que a conclusão vai se basear ou em experiências anteriores (não preciso analisar todos os elementos do feijão cada vez que saboreio uma feijoada; basta olhar um bago e já sei que gosto tem) ou em experiências de outros (minha avó dizia que os ciganos são todos dissimulados. Então eu, que nunca vi um cigano ao vivo em toda minha vida, já sei exatamente como eles são, pensam e sentem, só de ver uma moça de saia comprida).

Para quem quer obedecer cegamente à natureza e economizar energia de verdade, é simples. Pegue um livro antigo cheio de regras e cumpra-as à risca, sem questioná-las (melhor ainda, interpretando-as da maneira que exija o mínimo esforço mental possível). Repita opiniões terceiros sem nem ao menos checar se têm fundamento ou não. Leia só a manchete e não o texto inteiro. Interprete a palavra normal como sinônimo de certo. Veja só que econômico. Não se gasta praticamente nenhuma caloria nisso. E o cérebro fica lá, lerdo e flácido, mergulhado feliz no ócio do preconceito.

A única maneira de fazer o nosso sr. Preguiçoso fazer musculação e estar em forma para novos desafios é confrontar o sistema perceptivo com algo que ele não sabe como interpretar, pois nunca viu nada parecido antes. Isso força a criação de novas categorias de classificação.

É como se a gente tivesse prateleiras para guardar todas as informações dentro da cabeça, para recuperá-las quando precisar. Pois quem não questiona e só segue regras, tem meia dúzia de prateleiras montadas por outros, com ideias simplórias, repetidas, rasas e muito, muito preconceituosas.

Quando a gente lê, duvida, conhece novos lugares, novos hábitos e novas ideias, constrói guarda-roupas inteiros dentro da cabeça, cheios de prateleiras, gavetas e sistemas requintados de classificação. Não é que a gente não pratique mais a categorização preditiva, mas ela vai ficando mais refinada, mais precisa. Quando vejo uma moça de saia comprida, não basta colocá-la na única gavetinha disponível, aquela que herdei da minha avó; há uma imensidão de possíveis nichos para guardar aquela informação e, não raro, preciso construir mais um para acomodar a nova pessoa que acabei de conhecer.

No fim, esse trabalho infinito de marcenaria é a tal musculação. É o que nos faz humanos inteligentes, o que nos faz evoluir.

E não sou eu quem estou dizendo isso não. Uma pesquisa canadense aponta a forte relação entre pessoas conservadoras e um QI médio mais baixo, ou seja, os preconceituosos são menos inteligentes; depois de pensar sobre o que o Dr. Berns nos explicou, faz todo o sentido, né?

Quando alguém só tem meia dúzia de prateleiras para guardar tudo e vê algo que não se encaixa, seu cérebro ignorante simplesmente rejeita, diz que não presta e ataca, por puro medo do desconhecido. Nem sabe onde anda o martelo para o caso de ter que construir alguma coisa. Em casos extremos de burrice aguda, chega a bater ou matar só para não ter que levantar do sofá.

Você conhece tipos assim. Pessoas que, tendo cérebro, não o usam. Muitas dizem acreditar na existência de num Criador; mas será que não se dão conta que não há maior desrespeito que esse? Ter um cérebro e não usá-lo?

Acho que não. Para concluir isso, teriam que pensar.

Não precisa chutar o balde para empreender

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Basta abrir um site, uma revista, um jornal, ou mesmo ligar a televisão, para sermos bombardeados por histórias de pessoas que largaram um emprego chato e tornaram-se donas de seu próprio negócio. Dentistas que deixaram o consultório para abrir uma pousada, publicitários que abandonaram a agência para tocar um food-truck, executivos que trocaram as viagens frequentes por uma fábrica de bijuterias na garagem, engenheiros que, sei lá, viraram guias de turismo. Os relatos sempre são de pessoas muito felizes e realizadas, algumas até milionárias.

A questão é que as matérias são escritas de tal forma que a única conclusão possível é que trabalhar em uma empresa que não é sua saiu de moda há muito tempo e o indivíduo precisa ser mesmo muito acomodado para manter uma carteira de trabalho assinada. Omitem o fato de que, de acordo com o IBGE, 48% das empresas fecham as portas antes de completar três anos de vida; também se esquecem que nem todo mundo tem perfil para largar tudo e recomeçar do zero, e nem por isso são profissionais menos importantes ou menos valorizados.

Empreender significa experimentar, realizar, tomar iniciativa, colocar em prática. E para quem é empreendedor, fazer acontecer na sua empresa ou na de outrem dá no mesmo. Há pessoas que, por motivos diversos, preferem ter a segurança do salário, das férias remuneradas, do décimo terceiro e da licença médica quando precisar. Isso não quer dizer, de maneira alguma, que elas sejam acomodadas ou menos empreendedoras que aquelas que tentam carreira solo.

Convencer o chefe ou o departamento que a ideia é boa, factível e que pode ser lucrativa é tão difícil quanto convencer um investidor. Estruturar uma equipe com gente competente, engajada, com talentos complementares e sintonizadas com a visão da empresa é igualmente desafiador se você é o dono ou se é apenas o coordenador. Administrar o tempo e os recursos, cumprir prazos e não deixar faltar dinheiro é complicado em qualquer contexto. Um empreendedor carrega a proatividade no sangue, seja como dono, seja como colaborador.

O segredo, nos dois casos, é a  consciência da liderança.

O líder é um sujeito que consegue enxergar para o futuro e ver um cenário que deseja que se torne real. Como o líder quer muito que essa visão se materialize, pensa num jeito de fazê-la acontecer; estuda caminhos e descobre um jeito. Quanto mais ambicioso é o cenário, mais o líder entende que não consegue construi-lo sozinho — precisa de ajuda de outras pessoas, outros profissionais, outras competências. Precisa de mais gente que também tenha a mesma visão e que queira ir junto com ele no caminho para chegar lá.

Então, o que o líder faz? Apresenta esse cenário de maneira que consiga inspirar outras pessoas a segui-lo. Ele consegue comunicar a ideia de maneira que os seguidores consigam ver e entender o papel e a importância de cada um na construção do caminho. E tanto faz se ele precisa convencer o chefe, os companheiros de departamento, o gerente do banco ou futuros colaboradores que começarão ganhando pouco.

E tem mais: dependendo da complexidade do cenário, o líder entende que o caminho é longo, penoso e que não consegue dar conta sozinho. Aí, não tem outro jeito: ele tem que preparar alguns seguidores para assumir a liderança em determinados trechos. Os envolvidos sabem que o foco é a visão, o cenário futuro, que não inclui o umbigo de ninguém. Quem é o líder em qual parte do caminho é apenas um detalhe técnico.

Resumindo, o líder é alguém com uma visão e sabe como fazer para torná-la real. Quando faz isso em sua própria empresa, é um empreendedor. Quando faz isso numa organização da qual não é sócio, é um intraempreendedor.

As empresas sabem que líderes são valiosos e importantes para realizar sua visão; sem eles, não há como ter sucesso.

Então, se você não está disposto a arriscar tudo para abrir um negócio baseado na incerteza e prefere um pouco de segurança para ousar, o caminho é esse mesmo. Encontre uma empresa que compartilhe da sua visão, que esteja alinhada com seus valores e faça acontecer.

O mercado, a sua família, a empresa, os clientes, os colegas de trabalho e os investidores agradecem.

Como podemos ser menos canalhas?

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Estou me controlando para não ler mais nada em português (meu pobre alemão suplica para que eu diminua o relacionamento com minha língua mãe e lhe dedique mais tempo), mas está difícil.

Da última vez que estive no Brasil, tive a sorte e o privilégio de assistir uma palestra do brilhante professor Clóvis de Barros. Feliz com essa aula tão inspiradora, não pude resistir quando, na volta, já no aeroporto, fui aliciada na livraria pelo “Somos todos canalhas: filosofia para uma sociedade em busca de valores”, cria dele com o também professor de filosofia Júlio Pompeu.

Como já dizia meu ídolo Oscar Wilde, “posso resistir a tudo, menos às tentações”. Então vamos lá…

O livro já começa com um formato interessante; inspirados em Platão, os dois professores dialogam sobre o conceito de valor. Um escreve um texto, outro complementa, o primeiro refuta, o segundo defende e assim vai. O objetivo não é nos fazer chegar a uma conclusão, mas, apresentadas as ideias de filósofos consagrados e os conceitos que eles tinham de valor, fazer-nos pensar para entender, afinal, qual é o nosso conceito pessoal de valor (que é subjetivo e diferente para cada pessoa).

Na primeira parte, os professores apresentam o início da ideia de valor: a importância ou exatidão de uma coisa em relação a uma referência. O grande desafio é encontrar essa tal referência como sendo o sinônimo de melhor (que também é um conceito relativo).

Eles começam apresentando o que os gregos pensavam a esse respeito: o valor de uma ação humana é resultado da comparação entre ela e a ideia de virtude, em que os principais parâmetros seriam a verdade, a beleza e o bem.

Eles falam também que os gregos acreditavam que uma coisa tinha valor, e, portanto, era justa (ou seja, ajustada às virtudes), quando cumpria sua função no cosmos. Para usar tal conceito, partia-se do princípio de que o cosmos era perfeito e que cada coisa que existia nele tinha uma função específica: cabia a cada coisa e a cada ser descobrir sua razão de existir e executá-la da melhor maneira possível. Um profissional excelente, sob esse ponto de vista, seria o equivalente a uma árvore que desabrocha a partir de uma semente e desenvolve todo o seu potencial.

Mas essa teoria também admite que há pessoas que nascem para ser mato e, então, todo o esforço para virar árvore contraria a natureza, veja só. Dessa forma, para os gregos, existiam seres humanos melhores e mais valorosos que outros. Essa medida era dada segundo a função que a natureza lhes atribuía concedendo-lhes talentos específicos.

E eis que chegamos à segunda parte, que fala de Cristo e dos filósofos modernos. Aí houve uma ruptura radical no conceito de valor, começando do princípio que todos os seres humanos teriam as mesmas possibilidades e potencialmente, o mesmo valor, mesmo que desigualmente desprovidos pela natureza de recursos e talentos.

Enquanto para os gregos, a superioridade viria da riqueza dos talentos naturais, para os cristãos, viria do emprego que se faz do livre arbítrio, ou seja, como cada um usa os recursos que a natureza lhe deu para agir de acordo com os ensinamentos do Criador.

O Júlio chama atenção para uma coisa interessante: convivemos hoje em dia com os dois critérios simultaneamente. Às pessoas que nos são próximas, julgamos o valor pelas suas atitudes. Àquelas que não conhecemos, usamos o critério mais genérico, a natureza (quando estigmatizamos grupos inteiros por suas características étnicas, por exemplo).

Bem, a discussão filosófica segue longe, cada vez mais interessante.

De tudo, o que mais me marcou foi a definição atualizada de ética. O gregos definiam esse termo como a vida boa e feliz, em conformidade com a natureza e a função que ela auferiu a cada coisa e a cada ser vivo.

Acontece que a teoria de valores do filósofo Stuart Mill, denominada consequencialista, diz que o valor da conduta humana não está na intenção de quem age, como acreditam os cristãos, mas na eventual felicidade que proporciona a todos por ela afetados.

Clóvis se baseia nela, de certa forma, para cunhar o conceito de ética adaptado aos dias de hoje: “ética é o emprego da inteligência coletiva para o aprimoramento da convivência”.

Antiética, portanto, é a pessoa que não pensa nos outros, que não tem capacidade de empatia, que prioriza seu bem-estar e vantagens pessoais em primeiro lugar. E, com isso, voltamos ao título do livro, “somos todos canalhas”, ou seja, todos temos momentos em que nos despimos de nossa capacidade de empatia e desprezamos a convivência, o coletivo. Em que pensamos mais no nosso conforto do que no impacto que os nossos hábitos causam ao planeta e aos outros seres humanos. Por isso, somos canalhas.

Ao reconhecer o fato depois da bela aula desses dois filósofos contemporâneos, fica a questão: se queremos uma convivência melhor (menos guerras, menos violência, menos poluição), como podemos trabalhar para ser pelo menos um pouco menos canalhas?

Temos que achar rápido essa resposta, o mundo está se desintegrando enquanto a gente discute…

Revaler 99

Imagina um terreno enorme, cheio de galpões igualmente imensos, além de muita área livre, onde em 1867 foi construída uma oficina de manutenção de trens para a empresa ferroviária real prussiana; para se ter uma ideia do tamanho, em 1882 a organização chegou a empregar 1200 funcionários.

Com a reunificação da Alemanha, aos poucos as oficinas passaram para outras regiões com mais infra-estrutura e ficou tudo abandonado até 1999, quando uma associação cultural arrendou o lugar.

Pela quantidade de galpões, muitos deles parcialmente demolidos, às vezes o local parece um pouco sinistro; mas só parece. Na verdade, trata-se de um “antro” de criatividade, arte, esportes radicais e economia sustentável.

RAW-tempel (RAW é a abreviação de Reichsbahnausbesserungswerk, ou oficina imperial de manutenção de estradas de ferro) é o nome da associação cultural que administra o lugar e arrenda os galpões para todo tipo de atividade cultural. Hoje em dia tem arena coberta para skate, escola de escalada, taekwondo, meditação, cross-fit, casas de show e discotecas (Astra, Cassiopeia, Suicide Circus, RAW Club, etc), galerias de arte (Urban Spree e Art RAW) e até um delicioso e imperdível festival de street-food que acontece todo domingo à tarde no Neue Heimat (que também funciona como clube de jazz), além de estúdios de design e fotografia.  Nos domingos de verão, também abriga um mercado de pulgas bem interessante e, em algumas datas, cinema ao ar livre.

O lugar é inteirinho grafitado e frequentado por todo mundo que gosta de arte; na minha opinião, a mais completa tradução de Berlim.

Fica na Revaler 99, Friedrischain, bem pertinho das estações de trem e metrô da Warschauer Straße.

Mas vá antes que acabe; vi no jornal que a área foi vendida a uma incorporadora na semana passada. Tomara que não queiram acabar com um dos locais mais charmosos e icônicos da cidade…

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Grafites estão por toda parte.

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Pista de skate coberta pra ninguém botar defeito.

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Aqui até o entulho vira arte.

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Num dos dias que fui, tinha uma feira de quadrinhos na galeria Urban Spree.

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Esses galpões sinistros… 

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Torre de escalada (faz parte de uma escola e também tem paredes internas de várias alturas próprias para a prática). 

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Bom-humor sempre, em toda parte.

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Street-food aos domingos, não dá para perder!

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Mercado de pulgas que só funciona no verão.

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Fila para entrar nos galpões de street-food.

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Para se exercitar…

Achado é roubado sim!

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Ontem vi uma notícia no jornal* que me fez rever meus valores. É claro que aprendi em casa que quando a gente acha uma coisa que não nos pertence, devemos fazer de tudo para conseguir devolvê-la ao seu legítimo dono.

Mas não é essa a cultura do país em que nasci e cresci. Além da máxima “achado não é roubado” repetida à exaustão, a prova é que, quando alguém devolve algo de valor, logo vira notícia de jornal ou post no Facebook. Esse último, não raro publicado pelo próprio autor da “boa ação”, recebe uma chuva de comentários elogiosos parabenizando pela altiva e nobre atitude.

Pois ontem descobri que aqui na Alemanha é diferente. Achado é roubado sim, se a pessoa ficar com o bem. Como eles conhecem muito bem a natureza do ser humano (e como conhecem!), resolveram deixar bem claro o procedimento nesses casos. Está no código civil: encontrando algo que não é de sua propriedade de valor acima de € 10, a pessoa deve procurar o setor de achados e perdidos do local; se não houver, deve entrega-lo à polícia. Se depois de seis meses o dono não aparecer, a pessoa tem direito a ficar com o bem, a não ser que ele tenha sido encontrado dentro do sistema de transporte público. Nesse caso, a empresa de transportes é que fica com a propriedade.

O negócio é tão sério que até o valor das recompensas está previsto. Se o bem valer entre €50 e €500, o proprietário deve remunerar a pessoa que o econtrou com 5% do valor. Para bens mais valiosos, 3% são suficientes. Para bens de valor sentimental, prevalece o bom senso entre o achado e o perdido.

Enquanto a pessoa não entrega o objeto (ou animal; também vale para bichos) para a polícia ou autoridade competente, é responsável por cuidar e manter sua integridade, ou seja: se entregar para alguém que não for o dono, é crime igual. E se não entregar para as autoridades competentes na primeira oportunidade, é considerado roubo.

Enfim, encontrar um objeto perdido aqui é coisa de muita responsabilidade; torça para não acontecer com você…

*Se tiver curiosidade de ler (em alemão) o artigo do Die Welt ao qual me referi, clique aqui.

Heroína na adolescência

A vida está sempre nos pregando peças. Penso que minha geração inteira leu “Eu, Christiane F., 13 anos, drogada e prostituída…” na adolescência e ficou tão chocada como eu com a história da menina que começou a fumar hachiche aos 12 anos para se sentir incluída e acolhida num grupo e acabou tendo que se prostituir para sustentar seu vício em heroína.

Mas o que eu jamais imaginaria é que um dia ainda iria reler o livro em sua língua original reconhecendo boa parte dos lugares de Berlim que ela relata. E que continuaria igualmente chocada e impressionada.

A história começa com sua família totalmente desajustada (os pais se casaram praticamente obrigados quando sua mãe engravidou, mas o pai não aceitava nem mesmo que ela o chamasse de pai na frente dos estranhos; era sempre o “tio”). A mãe trabalhava o dia todo para sustentar a família e ela passava o dia sozinha, sem ter com quem conversar. A pré-adolescência foi difícil, até que encontrou um grupo de crianças com problemas similares num clube de igreja, e acabou entrando nas drogas, que já circulavam por lá.

A moça tentou se livrar da heroína inúmeras vezes; confessa que ainda não está livre até hoje, com mais de 50 anos de idade e um filho que não consegue criar (ela perdeu a guarda por conta das confusões nas quais se meteu por causa das drogas). Christiane tem graves problemas circulatórios e é portadora de hepatite C, que contraiu por meio de seringas contaminadas; por causa disso, pode ter uma crise fatal a qualquer momento. Ela publicou outro livro em 2013 (“Mein zweites Leben” ou “Minha segunda vida”, em tradução livre) contando o que aconteceu depois da publicação deste que se tornou um clássico da literatura adolescente no mundo todo.

O namorado da Christiane, que no início do namoro chegou a se prostituir para comprar drogas para os dois e poupá-la da humilhação e dos riscos, conseguiu se livrar e hoje trabalha como motorista de ônibus em Berlim. Mas sua melhor amiga sucumbiu a uma overdose na flor de seus 14 anos.

Muito triste mesmo a história de uma moça inteligente que estragou completamente sua vida por pura carência e insegurança. Esse livro devia ser leitura e debate obrigatório nas escolas (assim como o filme Traffic, que me impressionou bastante também), mas não apenas isso.

É preciso também dar mais perspectiva às crianças (elas precisam de uma escola segura e acolhedora e, principalmente, de amor em casa) e suporte psicológico às pessoas que querem se tratar do vício.

Drogas são um problema sério, complexo e caríssimo para o Estado e para as famílias. Devia ser tratado com mais seriedade e respeito, principalmente pelos governos.

Mas penso, na minha ignorância de leiga, que a principal defesa é uma autoestima bem construída e a segurança que a pessoa tem em se sentir amada. Sem isso, talvez seja uma causa perdida. Sortuda eu que tive tudo isso em casa…

Christiane-Kinder-Cover

O título original pode ser traduzido livremente por “Nós, crianças da estação Zoo” e remete à estação de trem/metrô em que Christiane e sua turma usavam como base para se encontrar, consumir drogas e se prostituir.