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Pertinho do céu

Morar em Berlim me faz ter esperança que o mundo ainda tem jeito. Fazia tempo que eu sabia da existência do Klunkerkranisch, mas hoje resolvi fazer uma visita. Olha, restaurei minha fé na humanidade mais um pouco.

Já disse aqui que shopping center em Berlin não faz o menor sucesso; os maiores são prioritariamente frequentados por turistas, mas a maioria é centro comercial de bairro mesmo.

Outra coisa que já falei aqui é que só tem carro quem realmente precisa. E que jamais vai passar pela cabeça de um Berlinense pegar um carro para ir passear (?!!) num shopping. A cidade tem mais de mil parques e jardins, quase uma centena de lagos, que competem arduamente com os montes de cafés e museus. Shopping não tem chance mesmo.

Pois um deles (dos pequenos e antigos), instalado no centro do bairro hype de Neuköln, fica num prédio de 6 andares. O shopping ocupa os três primeiros, no quarto tem a biblioteca pública e os dois últimos são de estacionamento. Só que, como falei, quase ninguém vai de carro ao shopping.

Eis que pessoas querendo mudar o mundo (tem muitos deles nessa cidade) resolveram fazer um projeto para transformar os telhados planos da cidade em áreas verdes. Conseguiram mudas de plantas com o Ministério do Meio Ambiente e, pasmem: desativaram o estacionamento do sexto andar.

O que tem instalado lá agora é bem a cara de Berlim: um misto de jardim, horta comunitária, clube aberto, caixa de areia para crianças, street-food, cinema, teatro e shows ao ar livre. Nos intervalos, tem sempre um DJ tocando, das 10 da manhã à 1h30 do dia seguinte. A partir das 16h eles cobram ingresso (não sei quanto é porque cheguei antes, mas deve ser simbólico). É chegar e arrumar um sofá, pufe, banquinho ou sentar/deitar num tablado curtindo a vista maravilhosa.

É bem despojado, como tudo na cidade: móveis reaproveitados, muito pallet, vasinhos, jardins, matinhos, gambiarras e muita criatividade. Não tem moda, não tem exibicionismo, não tem lounge, não tem comida gourmet, ostentação é prática ignorada e ninguém fica desfilando por lá. O povo só quer se divertir num belo cenário e ser feliz. E disso, os berlinenses entendem mais que ninguém, pois conseguem se concentrar no essencial, sem perder tempo com firulas e jogos de aparências.

Tudo foi construído por iniciativa dos cidadãos; o Klunkerkranisch não tem dono, pois faz parte de uma associação que mantém o lugar. O legal é que você não precisa consumir nada, o espaço é livre para todo mundo curtir. Esse é o primeiro “telhado” a ser transformado em área verde cultural e funciona desde junho de 2013; o melhor é que esse povo do bem quer ocupar todos!

Fala sério: não é demais? Não é à toa que amo tanto esse lugar…

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Repare como o estacionamento do 5. andar está vazio.

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Uma verdadeira novela

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Lutei por mais de 140 páginas e desisti. Detesto fazer isso, mas estava ficando mortalmente entediada com “Von der Schönheit” (Sobre a Beleza) da prestigiadíssima Zadie Smith e não estava vendo perspectiva de mudar a situação nas 370 que ainda faltavam. Que me desculpem os fãs da escritora, mas foi o que me restou.

Fazia tempo que estava curiosa para ler Zadie, considerada uma das revelações da literatura britânica nos últimos anos. Para mim, seu principal mérito é que o núcleo central da trama é composto por negros e a cor da pele deles em nada importa na história, ao contrário na maioria das obras de outros autores, onde os protagonistas ou são escravos ou vivem num submundo fugindo de preconceitos.

Já estava na hora de personagens negros contarem histórias onde a cor da pele não é a protagonista. Não estou negando o racismo, que, infelizmente, continua firme e forte, nem diminuindo os romances históricos de lutas e conquistas, mas penso ser saudável essa mudança de cenário.

Para mim, a autora coloca os personagens onde eles sempre deveriam ter estado: num papel comum, onde a cor não importa, é apenas uma característica física como outra qualquer. Na verdade, a cor até tem seu papel nas questões existenciais dos personagens, mas é compreensível, já que as questões existenciais integram a origem e a história da pessoa. Mais ou menos como um judeu questionando a própria existência e seus valores, ou um imigrante de qualquer país com cultura diferente. Não é a questão central, apenas faz parte da constituição de cada história de vida e da chave de seu entendimento.

No livro, um adolescente filho de um professor universitário, apaixona-se pela filha do maior rival acadêmico de seu pai. O problema é que fico com a impressão de estar assistindo uma novela das oito daquelas passadas no Leblon, onde se gasta capítulos inteiros descrevendo banalidades do dia-a-dia que não têm relevância alguma na trama (tipo dois personagens discutindo o que vão comer no almoço ou se um vai primeiro ao banco e depois na padaria). Não gosto de autores que desperdiçam palavras, frases, parágrafos inteiros sem dizer nada.

Não é que eu considere a autora ruim (até porque não li o livro inteiro);  a moça não deve ser tão respeitada e consagrada à toa. Talvez ainda tente mais uma vez, com outra obra. Parte da minha percepção pode ser devido ao fato de ter lido a versão em alemão, língua que estou longe de dominar totalmente; parte porque não me identifico com o estilo.

Se você quer se arriscar, vá lá. Mas vá com tempo, pois as coisas demooooooram para acontecer…

6 perguntas sobre trabalhar na Alemanha

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Não estou dando conta de responder ao tanto de emails e mensagens de gente querendo vir morar na Alemanha. A maior parte é da área técnica (engenheiros, analistas de sistemas, etc) ou criativa (publicitários, designers, etc).

Selecionei as perguntas mais comuns; vai que você está pensando em me escrever para perguntar justamente isso, né?

1. Como você veio parar na Alemanha?

Meu marido veio a convite de uma empresa alemã. Ele é um engenheiro extremamente qualificado e já havia morado aqui antes por 6 anos antes de fazer o mestrado na Inglaterra (o doutorado foi no Brasil); a vaga dele foi divulgada por cinco semanas aqui (hoje em dia não precisa mais se a pessoa vier com um emprego que pague acima € 44 mil/ano). Como não apareceu nenhum alemão com o perfil, foi contratado como diretor da empresa com a Blaue Karte (visto especial para alta qualificação). Depois de 21 meses contribuindo para a previdência social, ele obteve a autorização permanente para trabalhar e residir. Hoje temos nossa própria empresa de tecnologia (infelizmente, ainda não estamos contratando).

2. Dá para ir sem visto de trabalho?

Se vier como turista, pode ficar 90 dias por semestre na União Europeia sem visto, mas não pode trabalhar. Aí é só comprar a passagem e vir. Se vier como estudante, penso que tem que estar matriculado numa escola/universidade; aí o prazo pode ser bem maior (acho que mais de um ano), mas também não pode trabalhar. Para conseguir esse visto, é preciso comprovar que tem renda suficiente para se manter nos meses em que pretende ficar. O visto de trabalho eu não sei exatamente como funciona, mas o melhor de tudo é vir já com um emprego (aí, geralmente a empresa se encarrega de dar as orientações necessárias). Não se pode perder de vista que a concorrência é grande; italianos, espanhóis, portugueses e todos os profissionais que moram na União Européia não precisam de visto para morar e trabalhar aqui. Naturalmente, os brasileiros que possuem cidadania europeia também não têm esse problema.

3. Precisa falar alemão?

Olha, se a pessoa for um expoente na sua área, pode ser contratado só sabendo inglês, mas aí tem que trabalhar numa start-up (pessoal mais jovem e cosmopolita) ou numa multinacional. No começo dá para se virar só com o inglês, mas a pessoa precisará de ajuda, pois todos os contratos de serviços (aluguel, telefonia, transporte, internet, seguro saúde, registro de moradia, etc) são em alemão.

Outra coisa; para um adulto brasileiro, aprender alemão não é rápido como aprender inglês ou uma das línguas latinas próximas à nossa (espanhol, italiano, francês). Leva mais tempo, porque, além de uma gramática muito mais complexa, é preciso aprender a pensar de um jeito completamente diferente. Leia aqui sobre a minha experiência pessoal, caso tenha curiosidade.

4. O mercado está bom para a profissão tal?

Depende muito do currículo do profissional. Como em qualquer lugar do mundo, quem é mais qualificado, tem mais chances. Berlim, que é onde moro e conheço mais, é uma cidade pobre para os padrões alemães porque não tem muitas indústrias e a economia está mais voltada para serviços, onde a rede de relacionamentos é tudo. Tem muita gente da área criativa morando aqui e se equilibrando para pagar as contas no final do mês, pois a maior parte trabalha como freelancer. Há também muitas start-ups, mas essas geralmente não têm tantos recursos para contratar. Já em outras cidades da Alemanha, mais ricas, como Hamburgo, Munique e Stuttgart, penso que há um mercado mais aquecido em termos de trabalho, principalmente na área técnica. É nesses lugares que o dinheiro está.

Se você quiser fazer universidade ou mestrado aqui, sugiro esse ótimo post da Agenda Berlim (clique aqui para ler).

5. Como eu arrumo um emprego aí?

Tem alguns sites onde é possível pesquisar as vagas e o perfil que eles estão precisando. Veja alguns links:

Experteer

Meinestadt

Jobs.de

Aktuelle Jobs

Stellenanzeigen

Artconnect Berlin

Além desses, é possível pesquisar a empresa onde a pessoa quer trabalhar e entrar no portal para ver as vagas disponíveis. Algumas têm filiais no Brasil, o que pode facilitar o processo de recrutamento.

6. Dá para ganhar bem?

Essa pergunta é tão comum que fiz até um post só falando a esse respeito. Clique aqui para ler.

Atualização: Esse site aqui mostra os salários das profissões de nível superior nas diferentes regiões da Alemanha.

***

Bem, isso é o que tenho de informações por ora. Se alguém tiver mais para contribuir, fique à vontade para usar o campo de comentários.

Espero que tenha ajudado um pouco e viel Glück!!

 

Sorria, você está sendo energizado!

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Quem me acompanha sabe que dificilmente posto assuntos muito pessoais, a não ser que a experiência possa ser útil para alguém. Pois esse é o caso agora.

Semana passada tive que fazer uma cirurgia na boca (uma daquelas aborrecidas operações que incluem dentes, gengivas, muita linha preta e injeções doloridas que não valem a pena detalhar). Fato é que saí do consultório parecendo que levei um soco no queixo e com a recomendação de falar o mínimo necessário, mexer a boca muito de leve, e usar uma placa de contenção no palato. Beleza.

A dor e o desconforto são coisinhas chatas, mas fazem parte. Como quase todo mundo, já fiz cirurgias diversas e passei momentos doloridos (felizmente poucos, pela minha lembrança). Mas nunca tinha me sentido tão mal, apesar da intervenção ser tecnicamente simples.

Passei a semana me sentindo fisicamente fraca (mas o negócio foi só na boca!), sem ânimo para nada. Olho no espelho e vejo uma mulher 10 anos mais velha, de aparência acabada. As pessoas que geralmente me tratam bem em todos os lugares (mesmo com famosa “frieza” dos alemães, sempre me senti acolhida) mal me olham. Até o Conrado achou que eu estava muito diferente. Estou mesmo. Nem passear na cidade, a coisa que mais adoro fazer, me animou no final de semana. E olha que numa outra oportunidade já caminhei 6 quarteirões com fortes náuseas e vomitando em duas praças no caminho só para ver um grafite, toda feliz (sim, tenho vergonha de dizer isso, mas é verdade….rsrsrs).

Alguma coisa estava errada comigo e eu precisava muito descobrir o que era; não estava gostando de jeito nenhum da pessoa que estava vivendo nesse corpo fraco. Ontem, conversando longamente com meu personal analista-marido, finalmente descobri: é que eu não podia mais sorrir por recomendações médicas (gargalhar então, nem pensar!) e isso nunca tinha me acontecido antes.

Nunca tinha reparado, mas estou sempre sorrindo, sempre. Isso me anima, me fortalece, me dá energia. Quando a gente não sorri, murcha completamente em todos os sentidos, é impressionante, juro! Como disse, já passei por alguns perrengues muitíssimo mais difíceis (na verdade, incomparáveis), mas eu podia sorrir e até fazer piada da desgraça. Mas agora fui proibida e não consegui dar conta.

Não é muito louco isso, minha gente? Preste atenção e faça o teste: fique um dia sem sorrir. É para acabar com a pessoa.

Se o seu médico não proibir expressamente, por favor, sorria. Mesmo que não tenha motivos, mesmo que não tenha vontade, mesmo que o mundo esteja caindo na sua cabeça, mesmo que você não queira, faça uma forcinha. Todo dia, sempre que puder, em todas as ocasiões; não tenha medo de ficar com cara de bobo. Eu vivi feliz 48 anos com cara de boba e posso dizer que é infinitamente melhor, mais divertido e mais saudável do que essa interminável semana encarnando a séria carrancuda.

Bom, esse era o recado. Amanhã vou tirar os pontos e tudo vai voltar a ser como antes.

Desejem-se sorte :)

***

PS: Esse desenho é da nova safra: mulheres sorridentes.

Ladrões de beleza

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Acabei de ler “Diebe der Schöneheit“, de Pascal Bruckner e, olha, posso dizer que gostei. Não foi tão fácil de ler porque não é um livro de ação  (aqui os personagens pensam e filosofam) e as limitações com o alemão certamente me fizeram perder algumas sutilezas da escrita. Mas a história é fascinante, a ponto de me deixar impressionada. A boa notícia é que andei pesquisando e a obra já existe em português, com o título “Ladrões de beleza“.

Benjamin é um sujeito meio sem escrúpulos, preocupado basicamente com sua sobrevivência e bem-estar. Não é um mau caráter, mas digamos que lhe falta um pouco de empatia. Por conta de um romance que ele escreve na forma de um mosaico de frases roubadas de autores célebres, acaba conhecendo Helène, uma  parisiense jovem, rica e entusiasmada com o melhor que a vida pode oferecer. Ela praticamente adota Benjamin: compra-lhe roupas caras, ensina-o a apreciar bons vinhos e comidas, enfim, mima até não poder mais o moço, que está sempre entediado.

Eis que os dois estão voltando de um fim de semana nos Alpes e ficam presos na estrada por causa de uma tempestade de neve, perto de um vilarejo ermo. São socorridos pelo mordomo de um casarão próximo e aí começa o conto de horror.

*** Atenção: daqui em diante tem spoiler. Se quiser ler o livro pare aqui ***

O casal de proprietários é louco de pedra, ajudado pelo mordomo corcunda, fiel serviçal. A mulher, professora de filosofia, que teve uma juventude devassa e promíscua em busca de um sentido para a vida, é a chefe da quadrilha. Ela domina o marido, um advogado aposentado bem sucedido, e o mordomo. Juntos, eles constroem porões onde mantêm presas as jovens mais belas que conseguem encontrar.

A ideia é que gente bonita (serve para homens também, mas eles são mais difíceis de capturar) é culpada pelas outras pessoas se sentirem feias. Eles investigam a vida das eleitas e escolhem aquelas que usam a própria beleza para, de alguma forma, usar as outras pessoas. Fazem um tribunal próprio, sem que as “culpadas” tenham a menor chance de se defender, escolhem as vítimas, sequestram e as trancam por um ou dois anos, até que a beleza murche completamente e dela não sobre mais nada. As moças ficam no escuro, sozinhas, sem nenhuma informação, referência de tempo e nem o motivo pelo qual estão presas. Um belo dia, quando estão feias o suficiente, são devolvidas ao mundo completamente destruídas (e, na maioria dos casos, desequilibradas mentalmente também).  Fiquei especialmente impressionada com a crueldade dessa descrição, cheguei até a sonhar com isso.

O casal acaba sendo vítima do trio e não consegue fugir. Não porque sejam modelos de beleza, mas porque acabam conhecendo o segredo. O acordo para que sobrevivam é que Helène seja mantida presa e que Benjamin viaje até Paris com o mordomo para capturar três exemplares de beldades.

Passam-se meses, e a coisa só piora. No final, Benjamin ainda descobre que os malucos são tão bem conservados porque o cheiro das moças é rejuvenescedor (achei um pouco desnecessária essa alusão sutil ao “O perfume” de Patrick Suskind).

Benjamin conta a história toda para uma jovem médica psiquiatra que está fazendo plantão num hospital em Paris que fica intrigada com tudo. Ela consegue conferir e confirmar algumas pistas; o que ele conta parece ser verdade, mas não há muito como ajudar. Quando ela visita o casarão, tudo parece abandonado.

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Vou abrir aqui um parênteses sobre uma experiência pessoal que me aconteceu, enquanto lia o livro. A Bee Rosa, que acompanho no Facebook, faz colares lindos a partir de flores naturais colocadas dentro de bolinhas de vidro. Ela me ofereceu um presente: faria um colar com minha flor preferida, bastaria colhê-la e enviar a ela pelo correio. Fiquei toda empolgada com a ideia, e coloquei uma caixinha pequena dentro da bolsa para ir recolhendo florzinhas lindas por onde passasse.

Mas na primeira, levei um choque quando abri a mochila: a caixinha era um quarto escuro. A flor estava toda feliz pegando um sol com as amigas e curtindo a vida. Eu fui lá, tirei-a do seu ambiente e ia trancá-la dentro de um porão sem nenhum motivo por um longo tempo, até que ela murchasse. Exatamente como na história. Não consegui fazê-lo (contei para a Bee e ela deve ter me achado louca).

Mas não deixa de ser um pouco assustador reproduzir, mesmo que em escala, comportamentos que a gente acredita serem tão cruéis. É triste ver que, às vezes, mesmo sem perceber, a gente busca acabar com a beleza e a alegria assim que as vê; como tantos se incomodam em ver os outros felizes e livres. A Bee me salvou dizendo que posso deixar as flores no sol depois de colhê-las; é um dos métodos de conservação que posso usar sem deixá-las no escuro, vou tentar.

Eu ainda estou digerindo o livro.

Coloquei uma flor dentro dele.

Entenda por que preconceito = preguiça de pensar

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O neurocientista Gregory Berns, autor do ótimo “O iconoclasta”, já explicou: nosso cérebro foi construído de maneira a consumir o mínimo possível de energia.

Fato é que, mesmo que a gente passe o dia inteiro deitado sem fazer nenhum movimento, o danado continua gastando; por uma questão de sobrevivência, ele teve que bolar um jeito de ser menos perdulário.

Para resolver isso, nossa CPU bolou alguns truques que a fazem ficar mais eficiente: um deles é rotular tudo o que lhe aparece pela frente, num esquema chamado categorização preditiva (o nome científico pode até parecer bonito, mas na linguagem popular isso é o mesmo que preconceito).

A coisa funciona da seguinte maneira: em vez de processar uma informação completa e cheia de detalhes toda vez que entra em contato com algum tipo de estímulo, o cérebro infere o que está vendo, ou seja, ele registra apenas uma parte da cena e conclui o resto.

Assim, nossos miolos escolhem algumas partes mais familiares que conseguem reconhecer e ignoram o resto. Isso economiza energia e funciona muito bem no dia-a-dia, mas destrói, sem dó nem piedade, toda nossa imaginação, cultura e capacidade criativa. É que sem trabalhar, nosso cérebro engorda e fica jogado o dia inteiro no sofá comendo besteira. Para ter ideias que mudem o mundo, precisamos de um cérebro atleta, saudável, em excelente forma física.

Por que então preconceito é a mesma coisa que preguiça de pensar?

Porque preconceito é exatamente isso: em vez de considerar todas as variáveis, a gente pega só um pedaço da informação e tira uma conclusão inteira. Claro que a conclusão vai se basear ou em experiências anteriores (não preciso analisar todos os elementos do feijão cada vez que saboreio uma feijoada; basta olhar um bago e já sei que gosto tem) ou em experiências de outros (minha avó dizia que os ciganos são todos dissimulados. Então eu, que nunca vi um cigano ao vivo em toda minha vida, já sei exatamente como eles são, pensam e sentem, só de ver uma moça de saia comprida).

Para quem quer obedecer cegamente à natureza e economizar energia de verdade, é simples. Pegue um livro antigo cheio de regras e cumpra-as à risca, sem questioná-las (melhor ainda, interpretando-as da maneira que exija o mínimo esforço mental possível). Repita opiniões terceiros sem nem ao menos checar se têm fundamento ou não. Leia só a manchete e não o texto inteiro. Interprete a palavra normal como sinônimo de certo. Veja só que econômico. Não se gasta praticamente nenhuma caloria nisso. E o cérebro fica lá, lerdo e flácido, mergulhado feliz no ócio do preconceito.

A única maneira de fazer o nosso sr. Preguiçoso fazer musculação e estar em forma para novos desafios é confrontar o sistema perceptivo com algo que ele não sabe como interpretar, pois nunca viu nada parecido antes. Isso força a criação de novas categorias de classificação.

É como se a gente tivesse prateleiras para guardar todas as informações dentro da cabeça, para recuperá-las quando precisar. Pois quem não questiona e só segue regras, tem meia dúzia de prateleiras montadas por outros, com ideias simplórias, repetidas, rasas e muito, muito preconceituosas.

Quando a gente lê, duvida, conhece novos lugares, novos hábitos e novas ideias, constrói guarda-roupas inteiros dentro da cabeça, cheios de prateleiras, gavetas e sistemas requintados de classificação. Não é que a gente não pratique mais a categorização preditiva, mas ela vai ficando mais refinada, mais precisa. Quando vejo uma moça de saia comprida, não basta colocá-la na única gavetinha disponível, aquela que herdei da minha avó; há uma imensidão de possíveis nichos para guardar aquela informação e, não raro, preciso construir mais um para acomodar a nova pessoa que acabei de conhecer.

No fim, esse trabalho infinito de marcenaria é a tal musculação. É o que nos faz humanos inteligentes, o que nos faz evoluir.

E não sou eu quem estou dizendo isso não. Uma pesquisa canadense aponta a forte relação entre pessoas conservadoras e um QI médio mais baixo, ou seja, os preconceituosos são menos inteligentes; depois de pensar sobre o que o Dr. Berns nos explicou, faz todo o sentido, né?

Quando alguém só tem meia dúzia de prateleiras para guardar tudo e vê algo que não se encaixa, seu cérebro ignorante simplesmente rejeita, diz que não presta e ataca, por puro medo do desconhecido. Nem sabe onde anda o martelo para o caso de ter que construir alguma coisa. Em casos extremos de burrice aguda, chega a bater ou matar só para não ter que levantar do sofá.

Você conhece tipos assim. Pessoas que, tendo cérebro, não o usam. Muitas dizem acreditar na existência de num Criador; mas será que não se dão conta que não há maior desrespeito que esse? Ter um cérebro e não usá-lo?

Acho que não. Para concluir isso, teriam que pensar.

Não precisa chutar o balde para empreender

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Basta abrir um site, uma revista, um jornal, ou mesmo ligar a televisão, para sermos bombardeados por histórias de pessoas que largaram um emprego chato e tornaram-se donas de seu próprio negócio. Dentistas que deixaram o consultório para abrir uma pousada, publicitários que abandonaram a agência para tocar um food-truck, executivos que trocaram as viagens frequentes por uma fábrica de bijuterias na garagem, engenheiros que, sei lá, viraram guias de turismo. Os relatos sempre são de pessoas muito felizes e realizadas, algumas até milionárias.

A questão é que as matérias são escritas de tal forma que a única conclusão possível é que trabalhar em uma empresa que não é sua saiu de moda há muito tempo e o indivíduo precisa ser mesmo muito acomodado para manter uma carteira de trabalho assinada. Omitem o fato de que, de acordo com o IBGE, 48% das empresas fecham as portas antes de completar três anos de vida; também se esquecem que nem todo mundo tem perfil para largar tudo e recomeçar do zero, e nem por isso são profissionais menos importantes ou menos valorizados.

Empreender significa experimentar, realizar, tomar iniciativa, colocar em prática. E para quem é empreendedor, fazer acontecer na sua empresa ou na de outrem dá no mesmo. Há pessoas que, por motivos diversos, preferem ter a segurança do salário, das férias remuneradas, do décimo terceiro e da licença médica quando precisar. Isso não quer dizer, de maneira alguma, que elas sejam acomodadas ou menos empreendedoras que aquelas que tentam carreira solo.

Convencer o chefe ou o departamento que a ideia é boa, factível e que pode ser lucrativa é tão difícil quanto convencer um investidor. Estruturar uma equipe com gente competente, engajada, com talentos complementares e sintonizadas com a visão da empresa é igualmente desafiador se você é o dono ou se é apenas o coordenador. Administrar o tempo e os recursos, cumprir prazos e não deixar faltar dinheiro é complicado em qualquer contexto. Um empreendedor carrega a proatividade no sangue, seja como dono, seja como colaborador.

O segredo, nos dois casos, é a  consciência da liderança.

O líder é um sujeito que consegue enxergar para o futuro e ver um cenário que deseja que se torne real. Como o líder quer muito que essa visão se materialize, pensa num jeito de fazê-la acontecer; estuda caminhos e descobre um jeito. Quanto mais ambicioso é o cenário, mais o líder entende que não consegue construi-lo sozinho — precisa de ajuda de outras pessoas, outros profissionais, outras competências. Precisa de mais gente que também tenha a mesma visão e que queira ir junto com ele no caminho para chegar lá.

Então, o que o líder faz? Apresenta esse cenário de maneira que consiga inspirar outras pessoas a segui-lo. Ele consegue comunicar a ideia de maneira que os seguidores consigam ver e entender o papel e a importância de cada um na construção do caminho. E tanto faz se ele precisa convencer o chefe, os companheiros de departamento, o gerente do banco ou futuros colaboradores que começarão ganhando pouco.

E tem mais: dependendo da complexidade do cenário, o líder entende que o caminho é longo, penoso e que não consegue dar conta sozinho. Aí, não tem outro jeito: ele tem que preparar alguns seguidores para assumir a liderança em determinados trechos. Os envolvidos sabem que o foco é a visão, o cenário futuro, que não inclui o umbigo de ninguém. Quem é o líder em qual parte do caminho é apenas um detalhe técnico.

Resumindo, o líder é alguém com uma visão e sabe como fazer para torná-la real. Quando faz isso em sua própria empresa, é um empreendedor. Quando faz isso numa organização da qual não é sócio, é um intraempreendedor.

As empresas sabem que líderes são valiosos e importantes para realizar sua visão; sem eles, não há como ter sucesso.

Então, se você não está disposto a arriscar tudo para abrir um negócio baseado na incerteza e prefere um pouco de segurança para ousar, o caminho é esse mesmo. Encontre uma empresa que compartilhe da sua visão, que esteja alinhada com seus valores e faça acontecer.

O mercado, a sua família, a empresa, os clientes, os colegas de trabalho e os investidores agradecem.

Como podemos ser menos canalhas?

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Estou me controlando para não ler mais nada em português (meu pobre alemão suplica para que eu diminua o relacionamento com minha língua mãe e lhe dedique mais tempo), mas está difícil.

Da última vez que estive no Brasil, tive a sorte e o privilégio de assistir uma palestra do brilhante professor Clóvis de Barros. Feliz com essa aula tão inspiradora, não pude resistir quando, na volta, já no aeroporto, fui aliciada na livraria pelo “Somos todos canalhas: filosofia para uma sociedade em busca de valores”, cria dele com o também professor de filosofia Júlio Pompeu.

Como já dizia meu ídolo Oscar Wilde, “posso resistir a tudo, menos às tentações”. Então vamos lá…

O livro já começa com um formato interessante; inspirados em Platão, os dois professores dialogam sobre o conceito de valor. Um escreve um texto, outro complementa, o primeiro refuta, o segundo defende e assim vai. O objetivo não é nos fazer chegar a uma conclusão, mas, apresentadas as ideias de filósofos consagrados e os conceitos que eles tinham de valor, fazer-nos pensar para entender, afinal, qual é o nosso conceito pessoal de valor (que é subjetivo e diferente para cada pessoa).

Na primeira parte, os professores apresentam o início da ideia de valor: a importância ou exatidão de uma coisa em relação a uma referência. O grande desafio é encontrar essa tal referência como sendo o sinônimo de melhor (que também é um conceito relativo).

Eles começam apresentando o que os gregos pensavam a esse respeito: o valor de uma ação humana é resultado da comparação entre ela e a ideia de virtude, em que os principais parâmetros seriam a verdade, a beleza e o bem.

Eles falam também que os gregos acreditavam que uma coisa tinha valor, e, portanto, era justa (ou seja, ajustada às virtudes), quando cumpria sua função no cosmos. Para usar tal conceito, partia-se do princípio de que o cosmos era perfeito e que cada coisa que existia nele tinha uma função específica: cabia a cada coisa e a cada ser descobrir sua razão de existir e executá-la da melhor maneira possível. Um profissional excelente, sob esse ponto de vista, seria o equivalente a uma árvore que desabrocha a partir de uma semente e desenvolve todo o seu potencial.

Mas essa teoria também admite que há pessoas que nascem para ser mato e, então, todo o esforço para virar árvore contraria a natureza, veja só. Dessa forma, para os gregos, existiam seres humanos melhores e mais valorosos que outros. Essa medida era dada segundo a função que a natureza lhes atribuía concedendo-lhes talentos específicos.

E eis que chegamos à segunda parte, que fala de Cristo e dos filósofos modernos. Aí houve uma ruptura radical no conceito de valor, começando do princípio que todos os seres humanos teriam as mesmas possibilidades e potencialmente, o mesmo valor, mesmo que desigualmente desprovidos pela natureza de recursos e talentos.

Enquanto para os gregos, a superioridade viria da riqueza dos talentos naturais, para os cristãos, viria do emprego que se faz do livre arbítrio, ou seja, como cada um usa os recursos que a natureza lhe deu para agir de acordo com os ensinamentos do Criador.

O Júlio chama atenção para uma coisa interessante: convivemos hoje em dia com os dois critérios simultaneamente. Às pessoas que nos são próximas, julgamos o valor pelas suas atitudes. Àquelas que não conhecemos, usamos o critério mais genérico, a natureza (quando estigmatizamos grupos inteiros por suas características étnicas, por exemplo).

Bem, a discussão filosófica segue longe, cada vez mais interessante.

De tudo, o que mais me marcou foi a definição atualizada de ética. O gregos definiam esse termo como a vida boa e feliz, em conformidade com a natureza e a função que ela auferiu a cada coisa e a cada ser vivo.

Acontece que a teoria de valores do filósofo Stuart Mill, denominada consequencialista, diz que o valor da conduta humana não está na intenção de quem age, como acreditam os cristãos, mas na eventual felicidade que proporciona a todos por ela afetados.

Clóvis se baseia nela, de certa forma, para cunhar o conceito de ética adaptado aos dias de hoje: “ética é o emprego da inteligência coletiva para o aprimoramento da convivência”.

Antiética, portanto, é a pessoa que não pensa nos outros, que não tem capacidade de empatia, que prioriza seu bem-estar e vantagens pessoais em primeiro lugar. E, com isso, voltamos ao título do livro, “somos todos canalhas”, ou seja, todos temos momentos em que nos despimos de nossa capacidade de empatia e desprezamos a convivência, o coletivo. Em que pensamos mais no nosso conforto do que no impacto que os nossos hábitos causam ao planeta e aos outros seres humanos. Por isso, somos canalhas.

Ao reconhecer o fato depois da bela aula desses dois filósofos contemporâneos, fica a questão: se queremos uma convivência melhor (menos guerras, menos violência, menos poluição), como podemos trabalhar para ser pelo menos um pouco menos canalhas?

Temos que achar rápido essa resposta, o mundo está se desintegrando enquanto a gente discute…

Revaler 99

Imagina um terreno enorme, cheio de galpões igualmente imensos, além de muita área livre, onde em 1867 foi construída uma oficina de manutenção de trens para a empresa ferroviária real prussiana; para se ter uma ideia do tamanho, em 1882 a organização chegou a empregar 1200 funcionários.

Com a reunificação da Alemanha, aos poucos as oficinas passaram para outras regiões com mais infra-estrutura e ficou tudo abandonado até 1999, quando uma associação cultural arrendou o lugar.

Pela quantidade de galpões, muitos deles parcialmente demolidos, às vezes o local parece um pouco sinistro; mas só parece. Na verdade, trata-se de um “antro” de criatividade, arte, esportes radicais e economia sustentável.

RAW-tempel (RAW é a abreviação de Reichsbahnausbesserungswerk, ou oficina imperial de manutenção de estradas de ferro) é o nome da associação cultural que administra o lugar e arrenda os galpões para todo tipo de atividade cultural. Hoje em dia tem arena coberta para skate, escola de escalada, taekwondo, meditação, cross-fit, casas de show e discotecas (Astra, Cassiopeia, Suicide Circus, RAW Club, etc), galerias de arte (Urban Spree e Art RAW) e até um delicioso e imperdível festival de street-food que acontece todo domingo à tarde no Neue Heimat (que também funciona como clube de jazz), além de estúdios de design e fotografia.  Nos domingos de verão, também abriga um mercado de pulgas bem interessante e, em algumas datas, cinema ao ar livre.

O lugar é inteirinho grafitado e frequentado por todo mundo que gosta de arte; na minha opinião, a mais completa tradução de Berlim.

Fica na Revaler 99, Friedrischain, bem pertinho das estações de trem e metrô da Warschauer Straße.

Mas vá antes que acabe; vi no jornal que a área foi vendida a uma incorporadora na semana passada. Tomara que não queiram acabar com um dos locais mais charmosos e icônicos da cidade…

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Grafites estão por toda parte.

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Pista de skate coberta pra ninguém botar defeito.

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Aqui até o entulho vira arte.

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Num dos dias que fui, tinha uma feira de quadrinhos na galeria Urban Spree.

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Esses galpões sinistros… 

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Torre de escalada (faz parte de uma escola e também tem paredes internas de várias alturas próprias para a prática). 

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Bom-humor sempre, em toda parte.

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Street-food aos domingos, não dá para perder!

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Mercado de pulgas que só funciona no verão.

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Fila para entrar nos galpões de street-food.

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Para se exercitar…

Achado é roubado sim!

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Ontem vi uma notícia no jornal* que me fez rever meus valores. É claro que aprendi em casa que quando a gente acha uma coisa que não nos pertence, devemos fazer de tudo para conseguir devolvê-la ao seu legítimo dono.

Mas não é essa a cultura do país em que nasci e cresci. Além da máxima “achado não é roubado” repetida à exaustão, a prova é que, quando alguém devolve algo de valor, logo vira notícia de jornal ou post no Facebook. Esse último, não raro publicado pelo próprio autor da “boa ação”, recebe uma chuva de comentários elogiosos parabenizando pela altiva e nobre atitude.

Pois ontem descobri que aqui na Alemanha é diferente. Achado é roubado sim, se a pessoa ficar com o bem. Como eles conhecem muito bem a natureza do ser humano (e como conhecem!), resolveram deixar bem claro o procedimento nesses casos. Está no código civil: encontrando algo que não é de sua propriedade de valor acima de € 10, a pessoa deve procurar o setor de achados e perdidos do local; se não houver, deve entrega-lo à polícia. Se depois de seis meses o dono não aparecer, a pessoa tem direito a ficar com o bem, a não ser que ele tenha sido encontrado dentro do sistema de transporte público. Nesse caso, a empresa de transportes é que fica com a propriedade.

O negócio é tão sério que até o valor das recompensas está previsto. Se o bem valer entre €50 e €500, o proprietário deve remunerar a pessoa que o econtrou com 5% do valor. Para bens mais valiosos, 3% são suficientes. Para bens de valor sentimental, prevalece o bom senso entre o achado e o perdido.

Enquanto a pessoa não entrega o objeto (ou animal; também vale para bichos) para a polícia ou autoridade competente, é responsável por cuidar e manter sua integridade, ou seja: se entregar para alguém que não for o dono, é crime igual. E se não entregar para as autoridades competentes na primeira oportunidade, é considerado roubo.

Enfim, encontrar um objeto perdido aqui é coisa de muita responsabilidade; torça para não acontecer com você…

*Se tiver curiosidade de ler (em alemão) o artigo do Die Welt ao qual me referi, clique aqui.

Heroína na adolescência

A vida está sempre nos pregando peças. Penso que minha geração inteira leu “Eu, Christiane F., 13 anos, drogada e prostituída…” na adolescência e ficou tão chocada como eu com a história da menina que começou a fumar hachiche aos 12 anos para se sentir incluída e acolhida num grupo e acabou tendo que se prostituir para sustentar seu vício em heroína.

Mas o que eu jamais imaginaria é que um dia ainda iria reler o livro em sua língua original reconhecendo boa parte dos lugares de Berlim que ela relata. E que continuaria igualmente chocada e impressionada.

A história começa com sua família totalmente desajustada (os pais se casaram praticamente obrigados quando sua mãe engravidou, mas o pai não aceitava nem mesmo que ela o chamasse de pai na frente dos estranhos; era sempre o “tio”). A mãe trabalhava o dia todo para sustentar a família e ela passava o dia sozinha, sem ter com quem conversar. A pré-adolescência foi difícil, até que encontrou um grupo de crianças com problemas similares num clube de igreja, e acabou entrando nas drogas, que já circulavam por lá.

A moça tentou se livrar da heroína inúmeras vezes; confessa que ainda não está livre até hoje, com mais de 50 anos de idade e um filho que não consegue criar (ela perdeu a guarda por conta das confusões nas quais se meteu por causa das drogas). Christiane tem graves problemas circulatórios e é portadora de hepatite C, que contraiu por meio de seringas contaminadas; por causa disso, pode ter uma crise fatal a qualquer momento. Ela publicou outro livro em 2013 (“Mein zweites Leben” ou “Minha segunda vida”, em tradução livre) contando o que aconteceu depois da publicação deste que se tornou um clássico da literatura adolescente no mundo todo.

O namorado da Christiane, que no início do namoro chegou a se prostituir para comprar drogas para os dois e poupá-la da humilhação e dos riscos, conseguiu se livrar e hoje trabalha como motorista de ônibus em Berlim. Mas sua melhor amiga sucumbiu a uma overdose na flor de seus 14 anos.

Muito triste mesmo a história de uma moça inteligente que estragou completamente sua vida por pura carência e insegurança. Esse livro devia ser leitura e debate obrigatório nas escolas (assim como o filme Traffic, que me impressionou bastante também), mas não apenas isso.

É preciso também dar mais perspectiva às crianças (elas precisam de uma escola segura e acolhedora e, principalmente, de amor em casa) e suporte psicológico às pessoas que querem se tratar do vício.

Drogas são um problema sério, complexo e caríssimo para o Estado e para as famílias. Devia ser tratado com mais seriedade e respeito, principalmente pelos governos.

Mas penso, na minha ignorância de leiga, que a principal defesa é uma autoestima bem construída e a segurança que a pessoa tem em se sentir amada. Sem isso, talvez seja uma causa perdida. Sortuda eu que tive tudo isso em casa…

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O título original pode ser traduzido livremente por “Nós, crianças da estação Zoo” e remete à estação de trem/metrô em que Christiane e sua turma usavam como base para se encontrar, consumir drogas e se prostituir.

 

Empatia: a coisa mais linda do mundo!

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Essa semana ficamos todos chocados com o acidente aéreo ocorrido com a empresa Germanwings, durante um vôo entre Barcelona e Dusseldorf. O avião caiu nos Alpes e matou 150 pessoas. O mais chocante da história é que tudo indica que o co-piloto derrubou deliberadamente a aeronave, aproveitando-se do momento em que o piloto foi ao banheiro, trancando o cockpit por dentro.

Pois acabei de ler no jornal que uma passageira da Gemanwings que ia ontem de manhã de Hamburgo para Colônia, naturalmente apreensiva por causa do acidente, relata que o piloto, em vez de dar as boas vindas pela cabine, foi até a área de passageiros, pegou o microfone e disse que estavam todos muito tristes com o que tinha acontecido. Muitos funcionários da empresa recusaram-se a voar naquele dia, mas ele e sua tripulação estavam lá por livre vontade. Todos eles tinham família e iam fazer todo o possível para chegarem sãos e salvos em casa no final do dia.

Os passageiros, compreensivelmente emocionados, depois do silêncio inicial devido a surpresa, aplaudiram o gesto. Com certeza, foi um vôo bem mais tranquilo por causa da sensibilidade desse piloto. ‪#‎pormaisgenteassimnomundo‬

Quem quiser ler a notícia original (em alemão), aqui está o link do jornal Die Welt.

O suor dos inocentes

IMG_0021Vou ser uma velhinha cheia de histórias para contar; olha mais essa. Ontem deu um dia daqueles bem cinzas e o Conrado e eu decidimos fazer sauna. Eu já tinha mais ou menos uma ideia do que me esperava por conta de relatos de amigas que já tinham ido, mas não deixa de ser uma experiência pra lá de pitoresca para uma tupiniquim como eu.

Começa que sauna é sauna mesmo, não o que no Brasil costuma-se chamar pelo singelo nome de “whiskeria”. As pessoas vão lá para suar, relaxar e voltar para casa novas em folha.

A que a gente foi era no térreo de um prédio, com um pátio cheio de plantas no meio. Na recepção, uma moça de camiseta sem manga e shorts (apesar dos 2 graus de temperatura na rua) nos deu a chave de um guarda-volumes e uma toalha de banho. O vestiário (assim como a sauna e os chuveiros) é misto. Quando chegamos, tinha uma senhorinha muito simpática se vestindo.

Aí a gente tira a roupa e vai para um corredor aberto cheio de chuveiros tomar um bom banho (com sabonete e tudo, senão não pode entrar na sauna). Começamos pela seca, uma experiência meio surreal. Contei 16 pessoas, 12 homens e 4 mulheres, todos nus. A toalha servia para cobrir os bancos de madeira, já que nenhuma parte do corpo deve tocá-los por uma questão de higiene.

A iluminação é bem suave e a moça da recepção foi lá colocar as ervas na “churrasqueira”; ela dá umas abanadas por alguns minutos e, quando acaba a sessão, todo mundo aplaude (?!). O interessante é que ninguém olha para ninguém, cada um está concentrado no seu próprio suor. Silêncio absoluto, como se estivessem todos em meditação profunda.

Depois de 15 minutos (não aguento mais que isso), fomos para o pátio a céu aberto, cheio de trepadeiras bem verdes, mesmo no inverno (o calor da sauna deve ter alguma coisa a ver com isso). Ficamos um tempo repousando nas espreguiçadeiras com outras pessoas. Daí reparei numa plaquinha que recomendava o silêncio para respeitar a concentração de quem estava ali para relaxar. Mais uma sessão de sauna úmida, um banho final, um pouco de leitura na sala de descanso e um suco de pera para hidratar.

Dá para imaginar no Brasil um lugar assim, onde todo mundo fica pelado num ambiente confinado, no mais profundo silêncio e sem ninguém olhar para os outros? Hahahaha… eu não consigo…rsrsrsr

O feminismo e o chocolate

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É uma pena que muita gente (e muitas empresas) ainda não tenham entendido que o dia internacional da mulher não é para as moças ficarem se autocongratulando por terem nascido mulheres nem ficar felizes por receber rosas murchas pelas ruas. É um dia de muita reflexão, para que todo mundo pense a respeito sobre o que pode ser feito para que as diferenças entre os gêneros, que infelizmente continuam enormes, possam ser minimizadas, e que finalmente cheguemos ao mais alto estágio civilizatório, que é o da igualdade.

Para quem pensa que isso não é necessário e que já evoluímos bastante (uma parte conseguiu andar um pouco pra frente sim, mas ainda falta muito), basta lembrar que enquanto você lê esse texto, mulheres de todas as idades continuam a apanhar, ser estupradas, ter seus hímens retirados a sangue frio e ser apedrejadas até a morte sem dó nem piedade, só porque nasceram mulheres. Nem vou comentar o salário menor, os problemas de autoestima porque não conseguem se adequar a um modelo idealizado por outros ou as condições de trabalho.

Em vez de ficar aqui repetindo o quanto somos maravilhosas (sei que vou ser muito xingada por isso, mas se estamos falando de seres humanos iguais, nascer com uma vagina não torna a pessoa automaticamente maravilhosa; só a torna mais vulnerável, e é disso que temos que tratar), vamos ao que interessa: o que podemos fazer para que todas tenham chance de se desenvolver e ser respeitadas, que possam contribuir para que o mundo seja um lugar melhor para se viver.

Daí que resolvi trazer um exemplo sensacional que existe aqui em Berlim. Chama-se Shokofabrik e é uma cooperativa feminina.

O lugar tem esse nome porque a edificação onde a cooperativa está instalada funcionou como fábrica de chocolate entre 1888 e 1968. O prédio foi ocupado pelo movimento feminista e de lésbicas em 1981 e, desde então, tem feito um trabalho fantástico.

Como está instalado no bairro de Kreuzberg, onde uma parte significativa dos moradores é turco, a organização foi fundada, num primeiro momento, com foco nas mulheres dessa nacionalidade, que sofrem até hoje por causa do machismo de sua cultura.

Como é uma cooperativa, boa parte dos trabalhos é voluntário, mas trabalha-se também para que a renda revertida consiga sustentar os cursos, oficinas, consultorias e serviços ali oferecidos. Há cursos profissionalizantes, de línguas, de integração na cultura alemã, de empreendedorismo, de defesa pessoal; há uma creche que abriga atualmente 23 crianças de 1 a 6 anos de idade; há uma oficina para as mulheres que queiram construir seus próprios móveis; há diversas atividades físicas; há um café e até um serviço que vou testar em breve: o banho turco, uma antiga tradição  chamada Hamam.

A casa tem 13 mil m² distribuídos em 6 andares e é um desses empreendimentos que mudam a história de pessoas para sempre. Essas mulheres construíram um lugar de referência e proteção para suas irmãs e estão de fato transformando para melhor o mundo em que vivem.

Penso que são iniciativas assim que merecem nossa atenção e reflexão no dia de hoje. O que cada um de nós, homens e mulheres, pode fazer para tornar o mundo um lugar mais justo e igual?

Para quem quiser saber mais, recomendo uma visita ao site Shokofabrik. Além de turco e alemão, está disponível também em inglês.

 

O tal do círculo

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Toda vez que vejo um livro na lista dos mais vendidos, logo penso: ôba, um bestseller! Deve ter muita ação e ser fácil de ler. Aí, quando dei uma olhada no resumo do “Der Circle“, de Dave Eggers, a decisão de lê-lo estava tomada: é a história de uma empresa, chamada Circle que compra as outras gigantes da internet e se apodera de todas as informações pessoais dos usuários. Como resistir?

Bom, em princípio pensei que fosse algo do tipo “A rede“, estrelado pela Sandra Bullock. Ledo engano.

O problema já começa com a protagonista, que só conseguiu um emprego na tal empresa porque era colega de quarto da moça que se tornou uma das principais executivas do grupo. Não há como se identificar: ela é boba, chata, sem graça e desinteressante, além de ser acéfala e presa fácil para servir de inocente útil para a empresa. Chega a ser irritante o tanto que a moça simplesmente não pensa (saudades das heroínas do Sidney Sheldon).

A empresa mais parece uma universidade (mais ou menos como seria hoje uma pessoa trabalhar na Google). De fato, o parque fabril é chamado de campus e tem todas as facilidades para os 12 mil funcionários: moradia, restaurantes, lojas, academias, shows e  festas diárias, clínica de saúde. Tudo grátis.

Eles mantêm e obrigam os funcionários a participar ativamente das redes sociais internas e externas, a ponto de terem um ranking de popularidade que conta muito na avaliação de desempenho. São encorajados a interagir o tempo todo a tal ponto que a moça topa usar um colar com uma câmera expondo absolutamente toda a sua vida (e a dos amigos e parentes que interagem com ela) à apreciação pública.

A obsessão pelo que eles chamam de transparência ultrapassa todos os limites lógicos. Os lemas da empresa são: “segredos são mentiras“, “compartilhamento é cura” e “privacidade é roubo“. E ninguém acha estranho, exceto os pais da moça e o ex-namorado. A idiota acha que eles são caipiras por não quererem câmeras em todos os cômodos da casa para que o pessoal possa acompanhar o dia-a-dia deles (uma coisa tão legal, né, gente?).

O que mais me irritou no livro foi o discursinho barato usado por um dos fundadores para convencê-la que abrir mão da privacidade era uma coisa ótima: iria diminuir os crimes e a corrupção no mundo, as pessoas iriam pensar mais antes de fazer as coisas erradas ao saber que tem gente assistindo tudo o que elas fazem. Uma criança de quinta série é capaz de rebater o raciocínio com mais competência que ela; era só perguntar por que ele próprio não usava o colar. Sério.

A empresa mais parece uma seita, pois nunca vi um grupo de colaboradores tão desprovidos de senso crítico. Até poderia ser bacana, se eles não achassem que o que é bom para eles é também o melhor para o mundo e deve ser obrigatório para o bem comum (a palavra totalitarismo parece ser um termo desconhecido para esses nerds desmemoriados).

Olha, só cheguei no final das 558 páginas porque era realmente muito fácil de ler e meu alemão está realmente precisado de exercícios desse tipo. Mas se a pessoa vai ler em português, acho perda de tempo.

Meu resumo do livro: uma obra de ficção que se passa num mundo onde nunca ninguém leu ou sequer ouviu falar em “1984” de George Orwell.

Mas pelo menos o autor podia ter dado uma olhadinha, né?

Supermercado só no nome

Olha, não sei porque esse lugar se chama Supermarket, pois não se parece nada com um. Talvez a ideia tenha sido reunir ofertas variadas e acessíveis, só que num segmento mais cultural; sei lá.

Esse espaço conceitual (como eles mesmos se descrevem) reúne artistas, designers, arquitetos, fotógrafos, empreendedores e o povo da mídia em exposições muito bacanas. A instalação fica naquele shopping bacana que falei há um tempo (o Bikini Berlin) e é um misto de loja, galeria, lounge, restaurante e café. Aos domingos tem sempre uma banda de jazz tocando enquanto o povo relaxa e se joga num brunch.

Com vista para o zoológico e uma decoração aconchegante, dá vontade de morar nesse pedaço. Dá não?

Vem ver!

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Comece olhando para o teto e repare o capricho <3

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Comidinhas simples e frescas, todas feitas aqui mesmo.

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Jazz in Brunch, todo domingo a partir das 11 h.

Inferno

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Já faz um tempo que terminei de ler “Inferno”, do Dan Brown, mas agora me dei conta de que não compartilhei a dica de leitura.

Não é uma obra que eu leria em português, mas, para quem está aprendendo uma língua estrangeira, recomendo bastante (li em alemão e achei bem acessível). Os livros do Dan Brown são ótimos porque descrevem apenas cenas de ação; o personagem principal, o professor de simbologia Robert Langdon, não pensa, não come, não bebe, não dorme, não transa, não faz xixi, enfim, não faz nada a não ser correr e tentar decifrar enigmas. Isso reduz bastante o vocabulário e, porque os capítulos são bem curtos e sempre terminam com um gancho para o próximo, facilita demais.

Bom, a maior parte do enredo se passa em Firenze e só a descrição dos monumentos e museus já vale a leitura. Ainda não visitei essa belíssima jóia italiana, mas a vontade só aumenta. Ele passa um dia em Veneza e outro em Istambul também.

A história, apesar de muitíssimo criativa e bem descrita, tem vários furos (personagens que somem, partes mal explicadas), mas o que me impressionu mesmo foi justamente o argumento central da trama.

Eis que um cientista genial, polêmico e controverso, incomoda-se muito com o fato da população do planeta estar aumentando exponencialmente de maneira insustentável (apesar de ser o vilão, o moço tem toda razão e argumentos muito válidos). Por causa do aumento da expectativa de vida e redução da mortalidade infantil (devido a vacinas, curas de doenças, hábitos de higiene, tecnologias de reprodução, melhoria na alimentação, etc.) conquistadas no século XX, nunca houve tantos habitantes no planeta explorando tanto. Dá uma olhada no gráfico do crescimento populacional que ele apresenta no livro e assuste-se comigo. É apavorante:

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Fonte da imagem aqui.

Essa curva tende a subir infinitamente e o problema é que os recursos do planeta são limitados. Só para se ter uma ideia: se toda a população de hoje tivesse o mesmo nível de consumo de água, energia e produzisse a mesma quantidade de lixo que você e eu (estou considerando que somos ambos classe média), precisaríamos de quatro planetas Terra. Como não temos tantos planetas, a única maneira de manter nosso padrão de vida é que a maior parte da população da Terra seja absolutamente miserável no último grau de degradação. Você já pensou no absurdo que é isso? Sem falar que o número de seres humanos continua aumentando, sem nenhuma perspectiva de diminuir. Mesmo que se reduza o consumo de recursos e a produção de lixo, não há como sustentar essa situação.

Pois é, na história, o vilão ataca as organizações internacionais de ajuda humanitária e os acusa de ajudar a aumentar a população salvando pessoas e não dando a devida atenção a programas de planejamento familiar. Por todas as pistas que ele dá (usando o capítulo que trata do inferno na Divina Comedia de Dante Alighieri e episódios da peste negra) e que o protagonista interpreta, o que está em jogo é um super vírus que irá reduzir a população da Terra e resolver o problema, pelo menos, por ora. O tal cientista maluco se suicida durante a busca para impedir a tragédia que seria disseminar o tal vírus e a corrida do herói para “salvar” a humanidade é frenética.

Olha, não vou contar o final, mas achei surpreendente e muito criativo. Vai lá…

Pedalando sem lenço nem documento

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Coisas com as quais a gente tem que se acostumar, afinal, é outra cultura. Estou fazendo o checkup geral e teve aquela prova de esforço onde a pessoa tem que pedalar morro acima. Pois a menina grudou os negocinhos todos do aparelho em mim e me mandou pedalar… sem camisa! Sem nada! Toda vez que vou no médico é isso: seja homem ou mulher, eles ficam conversando na boa com o paciente sem roupa; é muito bizarro para quem nasceu e cresceu no Brasil, onde até topless é proibido. Aqui eles pegam sol pelados no parque e ninguém se incomoda. Fiquei pedalando e rindo e a moça nem entendeu nada…rsrsr

A parte boa é que, segundo o médico, meus exames estão todos fantastisch!! (nada de piadinhas, quem fez o exame foi a assistente, ele nem estava na sala, ok? Rsrsrsr).

A reinvenção do shopping center

Os berlinenses (e ouso dizer, os europeus, de maneira geral) não curtem muito passar horas em shopping centers. Diria até que detestam. O comércio de rua aqui é rei e, além disso, o consumismo não é tão desenfreado. Passear num shopping num dia de folga é considerada uma ideia bem bizarra por aqui, aliás. Qualquer berlinense preferirá ir a um museu, exposição,  ficar à toa na vida num parque ou ocupando a mesa de um café qualquer.

Por isso, os shopping aqui são pequenos (se comparados com os brasileiros), nada espetaculosos e prioritariamente frequentados por turistas.

Digo isso porque há alguns meses foi inaugurado o maior shopping de Berlim, que, para um brasileiro, é apenas mais do mesmo que a gente já está acostumado a ver: muito mármore, muito vidro, muito dourado, muito luxo, muitas lojas de marca…zzzzzz  O empreiteiro pediu falência ao término da obra, que teve vários atrasos, e o povo até fica fazendo piada com isso (o tal schadenfreude, palavra alemã que significa se alegrar com a desgraça alheia).

Mas no começo do ano passado teve um projeto bem ousado com o objetivo de mudar o conceito de shopping center: o Bikini Berlin, bem onde era o antigo centro do lado ocidental da cidade. Aí sim, conseguiram fazer um empreendimento com a cara e o conceito da cidade.

O Bikini Berlin, olhando de fora, parece mais um centro comercial (de fato, a construção não é muito grande, e a ideia não é essa mesmo). Todo o estilo da decoração é baseado em pallets e é bem minimalista: não tem dourado, não tem mármore, não tem gesso, não tem luxo (ufa!).

Na verdade, esse prédio é uma releitura do antigo Bikinihaus, que ficava no mesmo lugar, construído no auge da invenção do biquíni, nos anos 50. A edificação ganhou esse nome porque era arquitetonicamente dividida em duas partes, como a famosa roupa de banho tão em voga na época, veja que interessante.

O shopping fica coladinho ao Zoologische Garten (visitei o zoo durante a construção e foi bem difícil para os bichos, coitados, que sofreram demais com o barulho e a sujeira da obra) e tem vista para a ilha dos macacos balbuínos (aqueles com a bunda vermelha).

A maior parte das lojas do vão central é do tipo pop-up (ou seja, são temporárias) e montadas sobre estruturas de madeira e arame. Mesmo as lojas fixas são bem despojadas, com piso de cimento queimado e com o máximo de coisas feitas à mão (incluindo cartazes com o nome dos estilistas das lojas de fashion design).

A parte que mais gosto é um pano de vidro que dá diretamente para o zoológico; a moldura da janela tem almofadas espalhadas para a pessoa passar o dia inteiro lá meditando, se quiser. A parte externa tem um pátio também com vista para o zoo onde os cafés colocam mesinhas e sofás com design bem original. Além de cafés e lojas, o complexo de 7000 m² tem um cinema de rua, restaurantes, escritórios, uma escola de design, ateliers e um hotel (um dos mais bacanas que já vi, por sinal, totalmente dentro do conceito). Aliás, sobre os cafés vou falar depois; eles merecem um post só para eles…

Enfim, é tudo muito diferente do que a gente está acostumado a ver num shopping. Pelo que li, o lugar ganhou o coração dos berlinenses, mas não o bolso (parece que o retorno financeiro ficou um pouco aquém do esperado).

Para quem precisa alimentar os olhos todo dia com coisas bacanas e os neurônios com ideias novas, recomendo demais!

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Até a fachada é diferente dos outros shoppings, já que a construção não é um bloco, mas vários prédios interligados.

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Pano de vidro com vista para o zoológico; sim é possível ter paz dentro de um shopping.

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Os cartazes na frente dos cabides indicam os nomes dos estilistas.

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Em busca do cool

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Com certeza você já ouviu esse termo por aí: coolhunter. Mas você sabe o que significa, de onde veio essa palavra, para que ela serve?

Pois a queridíssima e muito competente Fah Maioli, expert no assunto, teve a delicadeza de escrever um livro explicando todos os pormenores, o Manual do Coolhunting: métodos e práticas.

Essa gaúcha que trabalha como trend analyst há 16 anos em Milão, conta que  o primeiro a usar a palavra foi Malcom Gladwell, num artigo escrito em 1997 para o periódico New Yorker. Revela ainda que antes do coolhunter, a palavra que mais se aproximava dessa prática era o flaneur, aquela pessoa que adora passar o tempo caminhando pelas ruas para contemplar cada detalhe da cidade: as coisas, as pessoas, os cenários, os personagens, a música, os cheiros (ah, como me identifico!).

Mas a partir daí, quando o coolhunter foi integrado ao sistema da moda, a coisa ficou muito mais complicada e sofisticada, pois há toda uma estrutura complexa por trás das coisas que consumimos, desde a forma como são identificadas e/ou definidas tendências, a observação do estilo de vida das pessoas até a valorização dos formadores de opinião; enfim. A Fah tem toda a paciência de destrinchar cada termo e cada papel, de explicar a influência de cada comportamento, além de contar um pouco da história da moda do ponto de vista antropológico e de cultura do consumo.

Então, para resumir bem, o coolhunter é a pessoa que caça hábitos, estilos de vida e tendências de consumo cool (bacanas, legais, com potencial para ser desejados e copiados, que possam impactar o mercado), incluindo aí moda, gastronomia, arte, música, design, arquitetura, literatura, cinema, etc. Ele é um intermediário de cultura que faz a ponte entre aos centros de produção cultural e as empresas de produção de bens de consumo.

E a Fah lembra que coolhunter não é uma profissão, mas um conjunto de atividades profissionais. Fiz um desenho para compreender melhor, mas não sei se está certinho (posso ter entendido errado, corrija aí alguma falha, amiga!) que mostra os diferentes papeis que o coolhunter pode assumir e as conexões entre eles.

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Se você é interessado em entender o espírito do tempo (Zeitgeist), não pode perder de jeito nenhum. Recomendo fortemente!

Aqui tem para vender.

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Se quiser saber mais sobre o tema, resenhei outros dois livros também interessantes: “Observatório de sinais: teoria e prática da pesquisa de tendências”, de Dario Caldas e “Cool Hunter“, de Scott Westerfeld