Category Archives: comportamento

Ajudando a formar cidadãos, não consumidores

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Olha que interessante; há algumas semanas postei aqui uma notícia de que a polícia de Berlin tinha sido destacada para dar suporte às crianças que estavam indo pela primeira vez à escola, ensinando-as a atravessar a rua, respeitar o semáforo, etc.

Pois ontem saiu outra notícia dizendo que a Alemanha está começando a enfrentar um problema que já acontece no mundo todo: pais que levam as crianças à escola de carro e param em fila dupla, atrapalhando todo o tráfego na região.

Pois a solução que eles pensaram em Frankfurt foi fazer os policiais explicarem para os pais que, fazendo isso, eles estão não apenas prejudicando os outros cidadãos, como também colocando em risco a vida das outras crianças que vão para a escola a pé e de bicicleta. Além disso, é bom para o desenvolvimento da criança fazer pelo menos o último trecho sozinha (elas se tornam mais responsáveis, independentes e aprendem a reconhecer sozinhas os perigos da rua). Assim, para os pais que insistem em levar o filho de carro, há a opção de estacionar a uma ou duas quadras de distância para o filho fazer o último trecho de maneira civilizada, como as outras crianças.

Adoro a maneira como esse polvo resolve os problemas!

PS: Eles têm duas expressões engraçadas para descrever esse tipo de pai/mãe: os pais-táxi e os pais-helicóptero (que se pudessem entregariam o filho de helicóptero no pátio da escola; fizeram até um filminho para ironizar a situação).

Aqui o link da notícia (em alemão) com o vídeo: http://blog.zeit.de/fahrrad/2014/09/19/elterntaxis-schulweg/

Selinhos solidários

É de pessoas generosas como o Gustavo Couto que o mundo precisa: além de excelente profissional e referência em design thinking aplicado à educação, o moço fica compartilhando comigo inbox as coisas bacanas que descobre.

Graças a ele, fiquei sabendo do projeto Pumpipumpe que quer diminuir o consumo desnecessário no mundo. Para isso, olha só a ideia simples e genial que eles tiveram: criaram selinhos que você pode colar na sua caixa de correio com os itens que você poderia emprestar para os seus vizinhos. Quando eles estiverem precisando, já sabem para quem pedir.

Além de tornar o mundo melhor, a gente ainda faz uma social com os moradores do prédio. O primeiro contato já é solidário, quer coisa melhor?

O projeto foi criado na Suíça (o site tem versões em alemão, francês e italiano) e você escreve e pede os selos correspondentes às coisas que tem para emprestar; eles também pedem sugestões de coisas que ninguém se lembrou ainda, mas que também podem ser úteis para alguém. A ideia é sempre produzir novos selos (ainda não tem xícara de açúcar…rsrsr).

Como tem um monte de gente trabalhando voluntariamente e há custos, você pode contribuir se e com quanto quiser. Eles também fornecem cartões postais lindos com os mesmos desenhos dos selos.

Eu já colei meus selos na caixa de correio e agora é só esperar algum vizinho tocar a campainha… :)

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No meu caso, posso emprestar ferramentas, livros, uma panela wok e uma balança de cozinha (ainda não desapeguei da bicicleta…rsrsr). No último selo aparece a mensagem “Alls das kannst du bei mir ausleihen” que, em uma tradução pra lá de livre quer dizer “todas essas coisas você pode me pedir emprestado“. Embaixo tem o site do projeto, caso o vizinho também queira participar.

Penso que eles ficariam contentes se alguém no Brasil quisesse expandir o projeto para baixo do Equador; é só entrar em contato pelo site.

PS: Já sei que vai ter gente curiosa perguntando o que está escrito no adesivo de cima. É um pedido para não colocarem folhetos, revistas e periódicos de propaganda, ou seja, spam de papel. Se não colocar isso, a caixa fica abarrotada. Outra curiosidade é que os apartamentos não têm números, então o correio distribui a correspondência pelo sobrenome que está marcado na caixa.

Chefe ou líder?

 

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De vez em quando vejo pessoas falando sobre liderança e tratam o termo chefe como sinônimo de líder. Pois é, então fica a pergunta: um líder é um chefe? Precisa ser chefe para ser líder?

Outra questão que aparece bastante nos treinamentos para empresas: para que vou dar um curso de desenvolvimento de liderança para pessoas que não têm subordinados?

Bem, vamos analisar primeiro o conceito de chefe. O dicionário Aulete diz que é a pessoa que exerce a autoridade principal, de comando, que tem poder de decisão, que dirige.

Já sobre líder, gosto da definição de Peter Drucker: “Líder é alguém que possui seguidores”. A de Wishard também é clara: “A essência da liderança é a visão”. Só para acabar, o resumão de Lin Bothwell consegue sintetizar de maneira brilhante: “A moral da história é clara: para ser líder é necessário saber para onde se vai”.

Não sei se vocês repararam, mas as definições de chefe e líder não têm nada a ver uma com a outra. Uma define posição, autoridade. Outra trata principalmente de inspiração.

Mas vamos desdobrar essas ideias direitinho para ver por que a confusão acontece.

Durcker diz que líder é aquele que tem seguidores (observe: seguidores, não fãs!).

O líder é um sujeito que consegue enxergar para o futuro e ver um cenário que deseja que se torne real. Como o líder quer muito que essa visão se materialize, pensa num jeito de fazê-la acontecer; estuda caminhos e descobre um jeito. Quanto mais ambicioso é o cenário, mais o líder entende que não consegue construi-lo sozinho — precisa de ajuda de outras pessoas, outros profissionais, outras competências. Precisa de mais gente que também tenha a mesma visão e que queira ir junto com ele no caminho para chegar lá.

Então, o que o líder faz? Apresenta esse cenário de maneira que consiga inspirar outras pessoas a segui-lo. Ele consegue comunicar a ideia de maneira que os seguidores consigam ver e entender o papel e a importância de cada um na construção do caminho.

E tem mais: dependendo da complexidade do cenário, o líder entende que o caminho é longo, penoso e que não consegue dar conta sozinho. Aí, não tem outro jeito: ele tem que preparar alguns seguidores para assumir a liderança em determinados trechos. Os envolvidos sabem que o foco é a visão, o cenário futuro, que não inclui o umbigo de ninguém; quem é o líder em qual parte do caminho é apenas um detalhe técnico.

Vamos a exemplos práticos: Martin Luther King inspirou milhões de pessoas na construção de um cenário que apresentava um mundo sem racismo. A visão era grande, complexa e de difícil realização, mas importantíssima. Ele conseguiu apresentar a ideia de maneira muito clara, e mais; conseguiu mostrar aos seguidores a importância de cada um nessa luta. O cenário em questão ainda está em obras, Martin já morreu, mas deixou muitos seguidores-líderes que se revezam na batalha. São pessoas de países, línguas e culturas diferentes, com atuações em diversos campos, com abordagens diferentes, mas que têm em comum a mesma visão.

Um exemplo mais do dia-a-dia, vejo defensores de animais abandonados. Tem muita gente trabalhando para construir um mundo sem bichos sofrendo maus tratos, atuando em diversas frentes. Há muitos seguidores e muitos líderes. Não há estrelas ou egos; há o futuro desejado, a visão.

O importante é que se saiba que o papel do líder é temporário e limitado, mas fundamental. E que a pessoa que está líder no momento é apenas um instrumento para fazer a visão se realizar.

E onde é que entra o chefe nessa história?

Bem, o chefe deveria ser a pessoa que foi escolhida pela empresa para tomar decisões justamente porque ele conhece e entende bem o cenário futuro, a visão da organização. Ele deveria ser uma pessoa que consegue traduzir bem esse quadro para sua equipe e inspirá-la a trabalhar juntos para construi-lo.

Nem sempre o chefe e a empresa possuem essa clareza de definições e acontece muito de pessoas assumirem o cargo sem estar preparadas, achando que precisam de fãs (ou então tementes). E, como disse antes, líder não precisa ter subordinados, mas seguidores. Pessoas que acreditam na ideia e sentem-se motivadas a participar.

A senhora que serve o café pode ser uma líder muito mais influente que o diretor da divisão, pois pode conseguir mudar o comportamento das pessoas se tiver grande poder de comunicação, mesmo não tendo nenhuma autoridade. Então, a questão de ter ou não subordinados, não é relevante nesse caso. O pessoal que faz trabalhos voluntários, às vezes sequer pode contar com uma pessoa ajudando no início do projeto — começa sozinho mesmo e vai arregimentado seguidores enquanto caminha.

Todos somos líderes e liderados em muitas e diversas causas, só depende da situação e do contexto. Mudamos de papel o tempo todo e, o mais importante para empresas, chefes, subordinados, líderes e seguidores entenderem é que as pessoas são movidas pela visão.

E é somente ela que importa, no final das contas.

Os primeiros passos

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Olha que fofura: o Conrado ouviu no rádio (por isso não tem o link da matéria) que hoje 3.000 crianças em Berlim estão indo à escola pela primeira vez (o ano letivo no hemisfério norte começa em setembro, depois das férias de verão).

Pois a polícia se mobilizou numa operação especial em todos os cantos da cidade para ensinar os pequenos a atravessar a rua e como se comportar no trânsito.

Muito amor, né? <3 <3 <3   

Você não é tão generoso quanto pensa…

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De vez em quando faço um favor ou outro para alguém e invariavelmente acabo ouvindo um “fico te devendo essa” no final. É claro que é só uma forma de falar, mas tem quem leve isso a sério.

Desconfio que há pessoas que mantêm tabelas com registros dos favores que fizeram, dos que receberam, e ficam conferindo para ver se os valores batem. Ajudas maiores contam mais pontos? Como medir o tamanho da contribuição de cada parte? Esses cálculos complicados geram não apenas sentimentos de injustiça (ah, como esse povo é ingrato!) como posts constrangedores em redes sociais.

E mais; tenho certeza que há viventes nesse planeta que acreditam que o Criador do Universo gasta seu tempo atualizando e analisando planilhas de boas ações e cruzando dados sobre a quantidade/qualidade de favores que cada pessoa presta. Depois, baseado em pontos alcançados numa estranha competição religiosa, Ele calcula classificação de cada mortal quando o jogo termina. Aparentemente, a pontuação define quem vai para onde depois que morre (bônus: se rezar muito ou fizer promessa pode ganhar pontos suficientes para receber algum favor divino enquanto está vivo).

O duro é que quem faz mais favores (segundo seus próprios critérios, claro), fica se achando muito generoso e superior aos demais mortais, portanto merecedor indiscutível de benesses e privilégios.

Será?

Vamos ser sinceros. Mesmo que o objetivo não seja ganhar pontos na divina gincana ou sair bem na foto, fazemos favores aos outros segundo nossos próprios interesses. Sempre.

Se ajudo um amigo ou pessoa querida numa situação qualquer, é porque eu é que vou ganhar em vê-la bem e feliz. É do interesse do meu coração; serei diretamente beneficiada com um sorriso ou abraço se a coisa der certo.

Se estou ajudando um desconhecido, é porque de alguma maneira essa pessoa contribui para que o mundo se movimente do jeito que eu quero. Todos temos um ideal de como as coisas deveriam ser; quando a gente observa alguém fazendo um gesto na direção que desejamos (seja uma pesquisa, um trabalho, um projeto), nada mais óbvio do que dar um empurrãozinho, não é?

Então, se o sujeito me escreve para tirar uma dúvida pessoal ou profissional, e posso ajudá-lo, por que não? Essa ação contribui para que o mundo fique mais próximo do modelo que imagino, onde as pessoas são mais felizes e bem resolvidas. Se elogio alguém é porque é minha intenção que ela continue reproduzindo esse comportamento, que está alinhado com meu mundo ideal.

Então não é uma questão de generosidade; apenas uma ação natural e lógica. Se você quer mover uma coisa numa direção, não faz sentido ficar parado e não ajudar quando surge uma oportunidade.

É claro que nem sempre se consegue fazer todos as ações necessárias para que o mundo siga na direção que a gente quer, seja por falta de recursos, tempo ou desconhecimento mesmo. A gente elege prioridades, mas no final das contas, acaba fazendo tudo por interesse.

Sou grata às muitas pessoas que me ajudaram ao longo da vida, mas não me sinto em dívida. Penso que tudo faz parte de um enorme movimento para fazer a bola girar (para um lado ou para o outro; o lado que recebe mais impulso acaba ganhando).

Enfim, estou fazendo o favor de cutucar aí sua cabeça para você parar de pensar em dívidas, pontos e planilhas e começar a pensar e movimentos, intenções e resultados.

De nada :)

Shopping de ideias

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Uma das coisas que mais gostava quando fazia software para robôs era estudar os processos de fabricação. Em cada projeto tinha que aprender coisas diferentes, compreender como os objetos eram construídos. Ajudei a automatizar máquinas para produzir bandas de rodagem para pneus de avião, cortadores de vidros para automóveis, prensas, alimentadores de tornos de comando numérico, perfuradoras de perfis de alumínio, aplicadores de cola em tubos de imagem; enfim, um mundo inteiro de descobertas e surpresas. Achei que nunca mais iria ter um trabalho tão desafiador. Ledo engano.

Como palestrante, a história se repete de um jeito diferente, mas não menos interessante. Novamente preciso estudar cada cliente e entender de que maneira as coisas que aprendi podem contribuir para melhorar seus processos e a atitude dos seus colaboradores.

Uma das palestras que fiz essa semana foi para lojistas de um shopping; conversamos sobre como as empresas e as pessoas precisam se adaptar às mudanças que vêm acontecendo e sobre como é possível fazer da interação com os clientes uma experiência memorável.

Foi na fase de preparação que me dei conta das diferenças enormes que existem entre um shopping no Brasil e num shopping em Berlim (talvez a análise possa se estender pela Europa, mas não me atrevo a generalizar).

Os shoppings, na cidade onde moro, são apenas centros de compras. Não são tão luxuosos, nem tão grandes, nem tão atraentes. As pessoas claramente preferem adquirir coisas em lojas de rua, mesmo no inverno rigoroso. No verão, os parques e lagos são o principal local de lazer; também se vai a museus, shows ao ar livre e uma mesinha na calçada de um café é uma alternativa de valor. Não passa pela cabeça de ninguém entrar num shopping apenas para perambular pelos corredores (nem mesmo para ir ao cinema, já que boa parte deles sequer conta com esse item). A impressão que tenho é que a maioria dos frequentadores é turista.

No Brasil, ao contrário, os shoppings têm um papel importantíssimo nas cidades. Não raro é a principal fonte de lazer e um local seguro para encontrar amigos, mesmo numa ilha cheia de praias, como Florianópolis, num dia lindo de verão.

Antes da minha fala, a equipe de marketing fez uma apresentação para prestar contas e descobri que uma das métricas de sucesso do empreendimento é o número de vagas ocupadas no estacionamento, o que me deixou um pouco chocada (não tenho certeza se todos os shoppings em Berlin contam com essa conveniência).

Se por um lado essa análise é um pouco assustadora, por outro é uma oportunidade enorme para os empreendedores, uma vez que evidentemente é muito mais difícil e desafiador ser lojista em Berlim. Os shoppings brasileiros possuem uma influência enorme na vida das pessoas, são um espaço importantíssimo de relacionamento; então por que não fazer dessa situação privilegiada uma oportunidade de fazer a vida na cidade melhor?

Claro que não vou discutir aqui a necessidade do governo em criar e administrar adequadamente espaços públicos de lazer; esse é um tema para longas e calorosas discussões. A questão da inclusão social é igualmente complexa e não é meu objetivo discuti-la aqui. Fui contratada para compartilhar minhas experiências com lojistas; então vou focar nesse ponto onde tenho acesso.

Shopping Centers são um modelo comercial em decadência no país onde nasceram, os Estados Unidos. Desde 2006 não são construídos lá esses centros comerciais fechados tão em voga em terras tupiniquins; na terra do tio Sam, inclusive, o abandono e fechamento desses prédios tem sido rotina, tanto devido à crise, como por excesso de oferta e aumento do e-commerce.

No Brasil, há que se prestar atenção nessa tendência para não reproduzir o modelo (e o desastre) americano.

Penso que cada vez mais a solução se desenha na direção da transformação desses espaços em centros de lazer e entretenimento onde as pessoas possam trocar a interação das redes sociais por calor humano real. Mais do que isso, os administradores e lojistas ganham muito em conhecer e aplicar os conceitos do marketing 3.0 (saiba mais aqui).

Espaços tão importantes devem assumir seu protagonismo com projetos que façam a cidade, o bairro, a rua, lugares melhores para se viver. Grafite, arte de rua, exposições, palestras, shows, cursos, debates, programas de incentivo e formação profissional, eventos esportivos, culturais e literários, enfim, projetos que tragam valor real para a comunidade e desenvolvam um vínculo emocional com o empreendimento são algumas ideias a ser exploradas. Ousaria dizer que um trabalho focado em design de serviços pode trazer resultados bem surpreendentes também.

Iniciativas que contribuam para desenvolvimento das pessoas e não sejam unicamente focadas no consumo podem não apenas beneficiar a comunidade; podem ser o único caminho para a salvação desse modelo de negócio.

A mulher que sabia voar

Sempre que passava pela estação de trem Zoologischer Garten, ficava intrigada com as vitrines do Museu Erótico (que tem uma sex-shop bem grande anexa) uma quadra depois. É que numa delas tinha a foto de uma moça jovem, com capacete de piloto, muito sorridente. Linda, mas nada erótica, pelo menos no sentido mais tradicional da palavra. O que isso teria a ver com o museu?

Veja a foto:
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Pois é, até que um dia convidei o Conrado para conhecer (não se vai num museu desses sozinha, a pessoa pode ter ideias que não deveriam ser desperdiçadas…rs) e finalmente fomos no final de semana passado.

Já tinha estudado um pouco a respeito dessa jovem, mas fiquei ainda mais encantada. A moça se chamava Beate Uhse e nasceu em 1919 em Wargenau, uma cidadezinha minúscula da Prússia Oriental que depois da Segunda Guerra passou a pertencer à Rússia. Para se ter uma ideia, em 1910 o povoado contava com míseros 114 habitantes. O pai era agricultor e a mãe foi uma das primeiras médicas alemãs, que criou a caçula de três irmãos com liberdade e autosuficiência; até um estágio em Londres Beate fez.

Agora, a explicação para a foto: com 17 anos, Beate conseguiu seu brevê como piloto de avião e essa foi uma paixão para a vida toda. Lutando na segunda guerra, conheceu seu primeiro marido, o também piloto Hans-Jürgen Uhse (de onde vem o sobrenome que ela tornou famoso).

Depois de perder Hans numa batalha no último ano da guerra, Beate fugiu de Berlin Oriental para o ocidente levando no avião o filho de dois anos, a babá, o mecânico de bordo e dois soldados feridos. Resolveu viver no povoado de Braderup e lá fundou seu primeiro negócio, uma vez que os aliados proibiram os pilotos alemães de voar; ela ia de bicicleta de casa em casa vender botões e brinquedos.

Depois do final da Guerra, os soldados voltaram para casa e muitas mulheres queriam evitar a gravidez; Beate lembrou-se da mãe, médica, que ensinava vários métodos anticoncepcionais naturais na comunidade. A moça então começou a vender um jornalzinho em Flenzburg, a maior cidade próxima, com essas informações; também respondia às muitas perguntas das mulheres, sempre cheias de dúvidas. O próximo passo foi vender preservativos masculinos junto com um livrinho de explicações e instruções de uso.

Beate começou a ver que a maioria das mulheres não tinha a sorte dela, de ser estudada, esclarecida, bem-resolvida e autoconfiante. Foi aí que achou que elas também tinham o direito de viver plenamente sua sexualidade como uma coisa divertida que fazia parte da vida.  Beate Uhse começou a vender então apetrechos sexuais, sempre preocupada em fornecer explicações e esclarecimentos.

Em 1952 os produtos começaram a ser vendidos por catálogo e 1962 foi aberta em Flensburg a primeira sex-shop do mundo; a empresa que fabricava os produtos à venda já contava então com 200 funcionários.

É claro que alguém com tanta liberdade causou muito incômodo numa sociedade conservadora como a daquela época; sofreu processos, perseguições, enfim, pagou o preço que a vanguarda exige.

A moça curiosa, corajosa e empreendedora casou-se três vezes, teve dois filhos e era uma profunda admiradora da natureza; plantava legumes e verduras, era boa cozinheira e praticou tênis, mergulho e golfe, além de pilotar aviões até perto de morrer, aos 81 anos. Ou seja, nada a ver com o estereótipo que se poderia esperar da dona de um dos maiores império de sex-shops da Europa.

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Beate com sua biografia e com seu terceiro e último marido, um professor americano de inglês que conheceu quando passava férias nas Bahamas. Ele era 25 anos mais novo e ficaram 10 anos casados.

Bom, sobre o museu, além da história da empreendedora, tem também esculturas, aquarelas e pinturas belíssimas (todas com conteúdo erótico, claro), além de peças curiosas. Vale a pena visitar.

Não sei vocês, mas adorei conhecer essa alemã ousada e atrevida.

 

Você tem que me ajudar

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Vivo recebendo (e imagino que você também) mensagens que começam com “você tem que me ajudar”. As variações são pouco criativas: “estou fazendo uma pesquisa/trabalho e preciso que você…”, “estou precisando de um emprego e…”, “quebraí o meu galho, vai…”, “preciso urgente vender meu carro e…”. Em resumo, o umbigo da pessoa ocupa todo o espaço disponível no texto e, não raro, chega a transbordar horas depois quando chega outra mensagem cobrando uma resposta.

Às vezes dá vontade de ler o conteúdo só por curiosidade, mas depois de receber tanto pedido sem cabimento, dificilmente o sentimento despertado é de solidariedade ou comiseração (mesmo assim, que fique registrado, sempre leio tudo e tento ajudar na medida do possível).

Ah, se as pessoas tivessem noção de que liderança não tem a ver com chefia, cargos ou vida profissional, quão mais eficientes seriam as comunicações entre as pessoas…

Toda vez que a gente quer que alguém nos ajude com alguma coisa, é preciso pensar primeiro em como encorajar essa pessoa a fazê-lo. Ninguém tem obrigação de arrumar emprego para um colega ou ajudar a vender seu carro, colaborar numa campanha ou responder a uma pesquisa. A vida não está fácil para ninguém e cada um tem seus próprios problemas e prioridades para resolver, que não são poucos. Não me entendam mal: solidariedade é necessária no mundo. O que estou propondo aqui é um meio de aumentar a colaboração sem apelar para o coitadismo ou a falta de educação.

Aí é que entra a questão da liderança: chamamos líder alguém que enxerga um cenário futuro como resultado de seu trabalho (também conhecido por visão) e consegue despertar nas pessoas a vontade de segui-lo no caminho que vislumbra para chegar lá.

Quanto mais ousada e abrangente é a visão, mais o líder sabe que precisa de ajuda. Aí é que entram as atitudes que ele/ela precisa desenvolver, e a primeira delas é conseguir descrever claramente esse cenário de maneira a animar as pessoas que quer engajar.

Mas ninguém vai se sentir motivado a ir junto se o cenário só beneficiar o líder e mais ninguém (já falamos sobre isso em “visão não é selfie”). Então, se o líder quer que as pessoas ajudem, jamais deve começar a descrição do cenário como “Preciso cumprir a meta do mês e…”.

Sabe-se que não é possível motivar outra pessoa, pois a motivação é um sentimento interno. O que se pode fazer é construir as condições favoráveis para que a pessoa se sinta capaz, confiante, entusiasmada e estimulada a colaborar na construção de uma visão que a emocione de alguma maneira.

Beleza, mas como vou convencer alguém ajudar a me arrumar um emprego? Ou a responder minha pesquisa para o TCC? Ou a vender meu carro? Ou a ajudar as crianças do orfanato?

Vejamos.

Se em vez de ligar para todo o pessoal que participa da pelada de domingo pedindo desesperadamente um emprego, o Asdrúbal primeiro estudasse a empresa na qual gostaria de trabalhar e o cargo (ou seja, começasse a construir a visão), conseguiria apresentar a ideia de maneira que fosse atraente para a própria empresa e para o Mário que trabalha lá; acompanhe.

Asdrúbal poderia chamar o Mário para uma conversa e dizer: “olha, estou me desligando da firma em que trabalhei nos últimos três anos e vi que há uma oportunidade na empresa YY; penso que poderia contribuir muito nessa função, uma vez que aprendi bastante sobre atendimento ao cliente nos dois cursos de extensão que fiz e enquanto era gerente do departamento tal. Desenvolvi um sistema que pode ser útil para a empresa YY, principalmente no segmento X. Seria possível obter um contato para apresentar uma proposta de trabalho?”. O Mário vai vislumbrar o seguinte cenário: uma melhoria significativa no atendimento ao cliente da YY (o que é bom para todo mundo) e o melhor: foi ele quem descobriu o talento e o indicou. Como não ajudar?

A chave é descobrir qual é sua visão e encontrar pessoas que compartilhem dela; pessoas que consigam ver valor na proposição e estejam dispostas a se mexer para fazê-la acontecer.

Vejamos o exemplo da venda do seu carro; o que eu mais gosto é desse vídeo que um diretor de arte americano fez para vender seu velho e fiel companheiro de 18 anos, todo rasgado e detonado. Vê se não dá vontade de divulgar a venda dessa joia, mesmo sem ele ter pedido.

Claro, você pode não ter o talento todo desse sujeito, mas pode muito bem pensar num jeito de apresentar a ideia que não seja apenas vantajosa para você, mas também para as pessoas de quem você espera colaboração.

No caso da pesquisa para seu TCC, sempre imagino que o estudo trará mais informações e conhecimento a respeito de um determinado assunto (que, naturalmente, é de interesse do entrevistado). Aí é mais fácil; basta oferecer o arquivo com os resultados do trabalho e enfatizar que o levantamento está colaborando para que se compreenda melhor a questão X. Ainda se pode acrescentar que o desdobramento da pesquisa prevê a busca de uma solução para o problema Y.

Campanhas para ajudar qualquer causa sempre rendem mais colaboradores quando oferecem um cenário inspirador (uma festa, um prêmio, produtos para venda, fotografias bacanas, humor, etc) do que o eterno mimimi repetindo a ladainha que o mercado é cruel e injusto. Apelar para o sentimento de culpa das pessoas funciona às vezes, mas emocionar positivamente é muito mais sustentável e gratificante.

Feito isso, não pedirei para você compartilhar esse texto (detesto quando pedem isso…rs), vou fazer melhor: convidá-lo para juntos tentarmos ajudar a diminuir o tráfego de mensagens apelativas e mal educadas e a aumentar os pedidos colaborativos e inspiradores.

Já pensou se todo mundo pudesse ler esse texto, como ajudaria?

Segunda chance de verdade

Desde que o pai abandonou a família, a mãe de Afonso* teve que deixar o pequeno, de cinco anos, cuidando do irmão de dois para trabalhar garantir o sustento da família. Eles passavam o dia todo sozinhos vagando pela comunidade, sem nenhuma disciplina ou cuidado. Afonso vivia na rua e acostumou-se a ser tratado como o cachorro vira-lata; quase nunca ia à aula. No início da adolescência, quis ajudar a mãe que ficou doente, mas como não tinha estudo e nenhum tipo de educação, o crime acabou sendo o caminho natural. É claro que foi preso. E presídios, pelo menos no Brasil, onde seu nome foi trocado por um número e dividiu com 70 pessoas uma cela em que só havia 16 colchões, não são o lugar mais indicado para quem quer sair dessa vida.

Foi aí que surgiu a oportunidade de ir para uma unidade APAC (Associação de Proteção e Assistência aos Condenados) e agora Afonso me diz que pela primeira vez na vida está sendo tratado com respeito e dignidade. Que pela primeira vez na vida está se sentindo gente. Que pela primeira vez na vida consegue enxergar um futuro.

Na APAC a disciplina é militar; tem hora para tudo, o comportamento é avaliado em cada item (esquecer de colocar o crachá, por exemplo, é um ponto que o condenado perde; cama mal feita, mais 1 ponto; se juntar 10 pontos corre o risco de voltar para o presídio comum, o que, para eles, é quase mais assustador que a morte). A equipe de funcionários que administra as unidades é enxutíssima, já que a maior parte do trabalho é feita pelos próprios presos, incluindo guardar a porta da entrada (sim, isso mesmo que você leu, não tem polícia lá para fazer esse trabalho). Nas unidades eles fazem vários cursos, incluindo aulas de primeiro e segundo graus que a maioria não teve, marcenaria (sim, eles lidam com chaves, martelos, facas e outras armas impensáveis num presídio comum) e qualquer outro tema que voluntários oferecerem. Para cada 3 dias trabalhados é reduzido um dia da pena.

O seu César*, um tiozinho muito querido, mostra com orgulho a horta que está cultivando num terreno sem muro que pertence à APAC. A horta é linda mesmo, mas a história dele é mais. Seu Cesar não cometeu crime nenhum, mas tem 40 anos para cumprir. Ele foi apresentado como inocente útil por um grupo de criminosos da pesada que morava no bairro. Como é analfabeto e não faz a menor ideia de como a justiça funciona, nunca teve advogado; simplesmente foi condenado e mandado para um presídio. A comunidade onde ele mora ficou tão sensibilizada com o caso que reuniu 600 assinaturas pedindo para enviá-lo a uma APAC. Seu César passa os dias cuidando da horta que abastece a cozinha do lugar (almocei lá e a comida é ótima), que fica a menos de 2 km da sua casa.

Como a equipe contratada para tomar conta dessas unidades é muito enxuta e os próprios presos mantêm o lugar limpo e arrumado, além de trabalhar e estudar em tempo integral, o custo é muito baixo se comparado a presídios comuns. Além disso, o índice de reincidência no crime, que no sistema prisional convencional chega a 86%, é inferior a 5% na APAC (fonte aqui).

O modelo das APACs foi criado em 1972 pelo advogado e jornalista Mario Ottoboni e foi exportado para vários países, inclusive, ora veja, a Alemanha. Tema de várias teses e dissertação, é um sucesso indiscutível.

Só uma comparação bem básica: numa APAC, a refeição é preparada pelos próprios detentos. Numa penitenciária, cada quentinha comprada por licitação custa R$ 25 (isso mesmo: quase mais do que você gasta para almoçar). É claro que os presos não comem esse valor, há várias denúncias de comida podre; agora imagine o potencial para desviar recursos que um sistema com mais de 500 mil detentos oferece, sem contar a prática constante de suborno a funcionários e facções do crime organizado trabalhando lá dentro.

Oportunidade de roubar: esse é o motivo pelo qual o pessoal que decide (que merecia muito bem estar atrás das grades) insiste no modelo falido e caríssimo dos presídios, enquanto as APACs ainda são minoria (cerca de 100 no Brasil inteiro, que atendem pouco mais de 2 mil apenados ).

É claro que funcionando de maneira tão eficiente, a APAC não poderia pertencer ao governo; é organizada e administrada como sociedade civil e se mantém com doações de pessoas físicas, jurídicas e entidades religiosas, parcerias e convênios com o Poder Público, instituições educacionais e outras entidades, além das contribuições de seus sócios.

O Tio Flávio é um dos meus amigos mais queridos, com quem tenho muita afinidade e amo como a um irmão. Indignado com essa situação absurda e injusta, está trabalhando firme para provocar a mudança. Foi ele quem me levou para dar uma palestra para os detentos do regime fechado da APAC de Nova Lima, em Minas Gerais. Impossível não se emocionar com as histórias, impensável não se envolver num projeto tão promissor como esse, que faz a gente ter a esperança de que ainda há uma saída.

De minha parte, o Tio Flávio ganhou uma aliada. Farei tudo o que estiver ao meu alcance para que o maior número possível de pessoas saiba da existência desse caminho e que a pressão para que esse modelo prevaleça seja cada vez maior.

Bora exigir justiça, minha gente?

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* Os nomes foram trocados.

* Agradeço do fundo do meu coração pela oportunidade ao meu querido amigo Tio Flávio e à toda a equipe da APAC Nova Lima que me recebeu de forma tão acolhedora e carinhosa; foi muito difícil segurar o choro quando eles cantaram uma oração para expressar as boas vindas.

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A disciplina transmite segurança para quem nunca teve contato com ela.

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Eles capricham em cada detalhe.

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Fala sério: mais arrumado que seu quarto, né?

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A prisão e a liberdade.

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O homicida que mora dentro de você

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Marcos tem 30 anos. Num dia de supremo azar, é assaltado e leva um tiro, disparado por um bandido nervoso.

Considerando que Marcos poderia viver até os 71 anos (expectativa de vida de um homem no Brasil), o ladrão roubou-lhe seus bens materiais e mais 41 anos de vida. Ninguém sabe como Marcos iria gastar esses anos todos, mas agora não há mais como saber. Eles lhe foram roubados. Marcos foi morto.

Pense; o tempo é a coisa mais preciosa que uma pessoa tem. Quando alguém lhe dedica seu tempo, valorize. A pessoa pode dar a você um relógio, um bombom, um computador e até um avião; tudo isso pode ser comprado com dinheiro, tudo isso pode ser resgatado, tudo isso pode ser medido em moeda. Menos o tempo.

Quando uma pessoa destina seu tempo a alguém, nunca mais irá recuperá-lo. É o maior presente de todos, aquele que não tem preço, o que não volta mais.

Eis que Ana marca um café com Mônica e se atrasa 25 minutos. Mônica não pode fazer nada enquanto espera. Ana ganhou da amiga seu bem mais precioso e fez o quê? Jogou-o fora. Como se não valesse nada.

Em última análise, Ana roubou 25 minutos da vida de Mônica. Como o tempo é um recurso finito e limitado, Mônica terá que tirá-lo de outro lugar; talvez da convivência com o filho, talvez dos momentos de lazer, talvez das preciosas e necessárias horas de sono.

Quando a gente se atrasa  20 minutos para uma reunião, está matando 20 minutos da vida de cada um dos participantes. Nossa vida é nossa; podemos matar todo o tempo que quisermos, é nosso direito. Mas fazer isso com o tempo do outro? É assassinato.

Matar 20 minutos da vida de alguém ou 30 anos é só uma questão de escala. Estamos privando o outro de viver, de escolher o que quer fazer com seu tempo. Do ponto de vista ético, é crime.

Infelizmente, é um crime socialmente tolerado e não consigo entender por quê. Não raro perpetrado por defensores da vida e da diversidade, há assassinos em massa atuando em todas as esferas. E a polícia não faz nada, o governo não faz nada, as pessoas não denunciam esses homicídios diários. Talvez porque cada um tenha lá sua parte de culpa. Serial-killers infestam nossa sociedade. E ninguém se dá conta. Há pessoas perdendo anos de vida em reuniões que nunca começam no horário, em encontros que nunca são pontuais, em promessas que jamais são cumpridas.

Não raro, os crimes ocorrem em cascata: um atraso numa reunião provoca outro, que impacta o dia de uma pessoa ocupada, que produz efeito em outra e mais outra. Os efeitos finais são imprevisíveis e levam a vida de um monte de gente junto, pessoas que não tinham nada a ver com a história e perdem horas, quiçá dias de vida sem saber a razão. Nenhum vírus consegue ser tão letal como esse deplorável atrasildus cronicus.

Claro, há situações em que a gente mata alguém porque o ato está fora de nosso controle; imprevistos acontecem. Mas eu falei imprevistos. A maioria dos atrasos é causado por eventos perfeitamente previsíveis, portanto, evitáveis. É tudo uma questão de planejamento, gestão de riscos e, principalmente, consideração pelos outros.

Há quem, incomodado com a situação, imediatamente transfere a culpa para o trânsito, o Marc Zuckerberg, o governo, o capitalismo, a Al-Kaeda, os funkeiros, a copa, o alinhamento dos planetas, a receita federal, o cosmos. Sim, os fatores externos são muitos e fogem do nosso controle, mas não adianta simplesmente praguejar e continuar com a metralhadora em plena ação, exterminando inocentes sem um pingo de culpa ou responsabilidade. Mesmo com todas essas dificuldades, é só lembrar que sempre existem os pontuais, aqueles seres respeitosos que compreendem a barbaridade que é matar gente e são contra genocídios não apenas retoricamente.

Planejamento, cuidado, consideração, gestão de riscos. A única maneira digna de retribuir quem nos dá de presente algo tão raro e precioso.

E para não gastar mais seu tempo, fico por aqui, convidando-o a refletir: será que você não estaria participando de alguma matança sem perceber?

Visão não é selfie!

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Selfies, como se sabe, são aquelas fotos que as pessoas tiram delas mesmas e compartilham nas redes sociais. O objetivo de um selfie é se exibir, mais nada. Mostrar aos outros que a pessoa está num lugar bacana, numa situação desejada, num dia de cabelo bom ou se sentindo bonita. O foco não é o outro, mas o adorado umbigo, a manutenção da própria auto-estima. Em princípio, não há mal nenhum nisso; é natural do ser humano querer ser amado, querido e desejado.

O problema é quando isso acontece com empresas que pregam a preocupação com o cliente, com as pessoas, com o social, com o mundo, com o planeta, e acabam perdendo a coerência pela vaidade de um selfie.

Acompanhe.

Nos objetivos estratégicos, a empresa diz que sua missão é cuidar, respeitar e entregar valor para seus clientes e colaboradores, além da sociedade em geral. Com variações não tão amplas, é o que mais se vê por aí.

Só que a prática não bate, e é fácil perceber por que. É que no objetivo seguinte, a visão, a frase começa com: “ser referência em….” ou “ser líder em….” ou ainda “aumentar a participação no mercado x e y…”. E o pior: divulgam isso em quadrinhos espalhados por toda a empresa e no site, para os clientes admirarem.

Vamos relembrar os conceitos dos objetivos estratégicos para descobrir onde está o problema.

A missão deve descrever o motivo pelo qual a empresa existe (e não é só ganhar dinheiro, senão ela poderia ser uma organização de tráfico de drogas muito lucrativa, por exemplo). Dinheiro é a geração de riqueza, o resultado e a recompensa pelo valor que a empresa entrega à sociedade. Então, a missão é o que a empresa oferece de valor, e para quem. Para que a empresa existe, seu propósito, a razão de sua existência.

Os valores e princípios, são os pilares, os limites, o que a empresa considera relevante; o que ela usa como base para a tomada de decisão. A partir daí, a gente pode inferir o que a empresa é capaz de fazer, e o que ela não faz de maneira alguma.

Mas o grande problema que tenho visto é o entendimento do que vem a ser a visão.

A visão é o resultado direto da missão. Se a empresa sabe qual é o seu propósito e o valor que entrega, com certeza é porque consegue enxergar um cenário futuro desejado que reflita o resultado do seu trabalho. Então, se minha missão é educar crianças, minha visão tem que descrever um mundo onde as crianças sejam educadas como resultado de meu trabalho.

A visão é o que a empresa enxerga, a descrição do cenário que ela vê no seu futuro; é o resultado direto do trabalho que ela faz e do impacto que causa no mundo.

Assim, fica fácil entender que a visão descreve um panorama, uma cena externa, o mundo afetado pelo trabalho que a empresa faz. “Ser referência”, “Aumentar vendas”, não são impactos causados pelo valor que a empresa entrega, não são descrição de cenários que traduzam valor para os outros, principalmente para seus clientes.

Eu, como cliente de uma empresa, pouco me importo se ela é referência, se está vendendo mais ou menos. Quero saber do valor que ela entrega para mim e a diferença que faz no mundo. “Ser referência” é ego, espelho; nunca valor. Em última análise, selfie.

É o mesmo que eu, como profissional, começar minha visão com “ser rica e famosa”. Pode até ser um desejo particular da pessoa (de minha parte, quero ser só rica…rsrs), mas jamais deve ser projetada e divulgada como o cenário resultante de minha participação profissional no mercado.

Não é valor para ninguém o fato de eu me tornar rica e/ou famosa, ser referência ou aumentar minha participação no mercado. Isso não interessa para os outros, não é descrição de cenário ideal de um mundo melhor por causa do meu trabalho nem aqui e nem em qualquer outro planeta do sistema solar, garanto.

***

Em tempo: descobri que minha missão é aprender para compartilhar; entregar valor em forma de informação e inspiração.

Minha visão é um mundo com mais pessoas inspiradas, críticas e curiosas; quero trabalhar para ver isso.

Olha, mas se ficar rica com isso, juro não não vou reclamar…rsrsrs

Jam Service Design Berlin 2014

Nos anos 40 do século passado, época de ouro do jazz, os músicos se reuniam depois da meia-noite (ou seja, depois do fim das apresentações) para tocarem juntos sem pauta definida em algum bar. Essa grande brincadeira musical baseada no improviso e no talento de cada participante fez com que o termo JAM (Jazz After Midnight) migrasse para outras áreas. Jam também significa geléia em inglês; então, quando a gente reúne pessoas com talentos diferentes para fazer algo de improviso, está também, de certa maneira, fazendo uma jam session (e nem precisa mais ser depois da meia-noite).

Final de semana passado participei de uma Jam Service Design em Berlim. O evento faz parte do Global Service Jam que acontece na mesma data em mais de 100 cidades espalhadas pelo mundo e com o mesmo desafio.

A ideia é a seguinte: reunir em um final de semana um grupo heterogêneo de pessoas (que nem é tão heterogêneo assim, já que quem se inscreve geralmente está interessado no tema e já sabe algo a respeito) se reúne para desenvolver um serviço baseado num briefing bem abstrato (já expliquei aqui que nesses workshops a ideia não é resolver um problema específico). Nosso briefing se resumia na planificação de um cubo (sim, apenas o desenho de um cubo aberto) e precisávamos desdobrar esse conceito para criar um novo serviço.

Para tanto, utilizou-se as técnicas do design thinking; não houve nenhum tipo de introdução teórica ou contextualização para não-iniciados, por isso recomendo informar-se antes de participar para não ficar boiando. E não dá para ficar muito preocupado com a utilidade e viabilidade do resultado dos trabalhos; como o pessoal da organização mesmo diz, uma jam session é para criar inovadores, não inovações.

Do ponto de vista do método, não havia nada de novo (depois de vários livros e cursos é um pouco mais do mesmo); mas a experiência em si foi inesquecível. O tempo é curtíssimo para fazer as tarefas e trabalhar em equipe com gente que você nunca viu antes e com backgrounds diversos. No meu grupo havia duas austríacas, uma egípcia, duas italianas, uma eslovena e dois alemães. Tivemos que sair na rua para entrevistar pessoas em busca de inspiração, negociar ideias, testar protótipos, tudo isso enquanto a gente se conhecia no meio da maratona.

Para mim pesou um pouco a dificuldade com as línguas; o idioma oficial do evento era o inglês (que entendo perfeitamente, mas tenho dificuldade em falar porque ainda misturo muito com o alemão), mas penso que mais da metade dos participantes também falava alemão (que consigo me virar, mas não a ponto de defender com segurança ideias absolutamente abstratas e subjetivas; eu sempre tinha que pensar bem em como apresentar minhas sugestões usando as palavras certas, o que tirou um pouco da espontaneidade). Enfim, minha participação ficou aquém do que poderia render se tivesse fluência absoluta em pelo menos um dos dois idiomas (nos workshops que participei em português deu para contribuir muito mais). Mas faz parte, daqui a alguns anos vou estar melhor (e com menos dor de cabeça depois de uma gincana de esforço mental…rsrsr).

A organização, totalmente realizada por voluntários, foi de tirar o chapéu. A gente ocupou as instalações maravilhindas de uma empresa de design service (Service Innovation Labs) que, para mim, foi a maior demonstração de desapego da face da terra (jamais emprestaria um espaço com cadeiras Charles Eames e Hermann Miller para 40 pessoas que não conheço fazerem aquela bagunça…rsrsrsr). Teve pizza, jantar à luz de velas, cartunistas registrando o evento em tempo real, café da manhã coletivo, apresentação de cases interessantíssimos, enfim, tudo de mais bacana possível. Além da oportunidade de conhecer gente linda, elegante e sincera de vários pontos do globo.

Uma experiência que recomendo demais (algumas cidades do Brasil também participam). Se você tiver a chance, não a perca!

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Algumas ideias classificadas por tema.

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Essa para mim foi a ideia mais genial de todas: em vez do absurdo de copos de papel e garrafas PET que se consome num evento, aqui era tudo de vidro. Cada pessoa escreve seu nome em fita crepe e cola no copo que irá usar durante todo o evento. Assim a gente nunca esquece o nome de quem está com o copo na mão :)

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Pessoal pensativo em uma das apresentações (nota: observe que em Berlin não acontece nenhum evento sem flores, é quase tão importante quanto água).

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Quero mapas assim na minha casa!

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Povo estiloso que a gente entrevistou na rua.

Série cores: o livro

Foto: Ligia Fascioni

Estou lendo “Wir Farben wirken: Farbpsychologie, Farbsymbolik und Kreative Farbgestaltung“, de Eva Heller, uma alemã de Hamburgo formada em sociologia e psicologia. O livro é resultado de uma pesquisa que ela fez com homens e mulheres tentando associar cores a 200 tipos de sentimentos diferentes. As perguntas eram no formato “De que cor é o amor?” ou “De que cor é o ódio?”, sendo que a entrevista iniciava perguntando qual era a cor predileta da pessoa.

Na introdução, ela analisa os vários impactos que as cores podem causar: psicológico, simbólico, cultural, político, tradicional e criativo.

Do ponto de vista psicológico, por exemplo, há várias associações diferentes que se pode inferir. Um morango verde ao lado de um vermelho é interpretado com imaturo, ainda não pronto, normalmente uma característica negativa. Mas um sinal verde no trânsito tem sempre uma conotação positiva. O verde também pode lembrar natureza, frescor. Ela reforça o que já sabemos: o contexto é muito importante na interpretação psicológica das cores.

Do ponto de vista simbólico, as cores são interpretadas conforme a experiência de um grupo social. Por exemplo, por que a cor verde é associada com esperança? Porque lembra os brotos da primavera, que trazem a expectativa da colheita. Já a inveja é representada por uma combinação de verde e amarelo (oi? Brasil?) porque a experiência mostra (?) que pessoas muito nervosas acabam sofrendo de icterícia (não consegui traduzir a Gallenkrank, mas penso que seja isso) e ficam com a pele amarelo-esverdeada.

Do ponto de vista cultural, as variações são enormes. Por exemplo, o verde é a cor sagrada do Islã e os reis sagrados egípcios aparecem nas reproduções com a pele verde. Na Inglaterra, o azul é a cor da melancolia; na Alemanha, quando uma pessoa está bêbada, ela está blau (ou azul). No ocidente, o luto é representado pela cor negra; no oriente, pela cor branca. Tudo tem a ver com a história e as convenções de cada lugar.

Do ponto de vista político, as cores têm a ver com as bandeiras e as armas de cada país, dinastia e história. Vermelho é a cor da revolução e está presente na bandeira de todos os países socialistas. Verde, a cor sagrada do Islã, aparece nas bandeiras de todos os países com essa crença. As listras da bandeira da Irlanda representam o catolicismo (azul) e o protestantismo (laranja), sendo que o branco separa as duas.

Do ponto de vista da tradição, às vezes acontecem contradições (mas a explicação sempre existe). Por que o verde, cor das hortaliças e verduras, é associada ao veneno? Porque essa também é a cor do arsênico. As cores das roupas ao longo da história nunca foram pautadas pelo gosto pessoal, mas pelo preço. Alguns pigmentos eram tão caros que apenas as classes mais abastadas tinham acesso; já cores fáceis e baratas nunca eram usadas por nobres.

Do ponto de vista da criatividade, as cores que os pintores escolhiam tinham muito a ver com a época e com o efeito que queriam que suas obras. E ainda há a expertise profissional, pois o conhecimento profundo de cores e nuances não está limitado a artistas e designers, que ficariam surpresos ao conhecer todo o espectro de brancos que um dentista consegue identificar, assim como um produtor ou vendedor de papel para impressão. Joalheiros notam diferenças quase imperceptíveis nos tons de verde de uma esmeralda; desse conhecimento e acuracidade vai depender a avaliação de preço da joia.

Pois é, com toda essa relatividade que existe na interpretação das cores e sua forte dependência do contexto, fiquei surpresa quando a autora simplesmente descreve seu grupo de amostragem para pesquisa como sendo formado por 1888 homens e mulheres entre 14 e 83 anos. E só.

Não diz qual é o percentual de homens/mulheres ou média de idade, não informa a classe social, nacionalidade, nível econômico, grau de instrução, profissão, etnia, se são religiosos ou não, enfim, existe uma infinidade de fatores altamente impactantes no resultado da pesquisa que foram simplesmente ignorados, uma vez que os resultados valem apenas para esse grupo específico, que, infelizmente, desconhecemos os detalhes.

Apesar dessa falha grave, o livro vale muito a pena e recomendo a leitura. Ignorando as interpretações psicológicas (as pessoas adoram receitinhas de que branco é paz, amarelo é alegria, amor é paixão, mas isso não é universal, como acabamos de ver), as explicações sobre a história de cada cor e seu processo produtivo são sensacionais e muito curiosas.

Ela detalha as 13 cores usadas na pesquisa falando sobre cada uma delas: azul, vermelho, verde, preto, rosa, amarelo, branco, violeta, dourado, marrom, cinza, prata e laranja.

Como sou boazinha (e, principalmente, preciso muito estudar alemão…rsrs), vou fazer uma série de posts falando sobre cada uma delas.

A primeira é sobre o azul, aguardem!

Cool hunter

coolhunterJá faz alguns anos assisti a uma palestra do queridíssimo Antonio Jorge Petruzzia, um designer de quem sou fã, onde ele dava a dica do livro “Tão ontem“, de Scott Westerfeld.

Fiquei com aquilo na cabeça, mas minha lista era tão enorme que acabei deixando passar o tempo. Pois essa semana estava xeretando uma livraria (aqui em Berlim é o paraíso; os lançamentos podem custar até € 30, mas está lotado de lojas vendendo livros ótimos por € 1,00!) e achei “Cool Hunter“.

Olhando a ficha técnica, vi que o original em inglês era “So Yesterday“, ou seja…  os alemães também costumam mudar os títulos quando eles acham melhor (e até que nesse caso nem ficou ruim).

Bom, por apenas uma moedinha levei o tal tijolo para casa. A história fala de um adolescente nova-iorquino que trabalha como cool hunter para uma empresa de consultoria. Em suas pesquisas, ele encontra na rua uma moça da mesma idade que inova na maneira de amarrar os tênis e então começa uma série de aventuras da dupla; olha, daria um belíssimo filme de Sessão da Tarde. Mas o interessante da história (que é justamente o ponto em que o Jorge chamou atenção) é a maneira como é descrito o processo de lançamento de um novo produto, principalmente no mercado da moda.

É basicamente uma pirâmide, onde no topo estão os inovadores, ou seja, as pessoas que têm ideias originais (tipo um jeito diferente de amarrar um tênis). Aí aparecem, logo abaixo, os trendsetters, que acham isso bacana e adotam imediatamente; os trendsetters são formadores de opinião, pessoas em evidência (pelo menos no mundinho da moda). Em seguida, entram os early-adopters (Frühen Übernehmen, em alemão), que são as primeiras pessoas comuns a usarem o tal negócio. Daí pra frente tem o resto; os conservadores, que usam depois que todo mundo já usou ou então aqueles que nem chegam a usar (os estagnados, ou Stehengebliebenen).

Pois os cool hunters cortam o caminho, descobrindo as inovações e levando-as direto ao mercado de massa por meio dessas consultorias para empresas. Por causa disso, há conflitos de interesses e grupos discordantes, o que traz aventuras e mistério à história (que, talvez por causa do idioma, achei um pouco confusa).

Penso que o livro é bem interessante (talvez porque um dos meus planos é fazer o curso de Cool Hunting com a Fah Maioli em Milão, nesse ano ou no outro), então fica a dica para quem curte o assunto (na verdade, acredito que todos os designers seriam beneficiados em lê-lo).

Já tinha pesquisado um pouco sobre o assunto para uma disciplina que ministrei uma vez para o curso de graduação em design. Quem tiver interesse em saber mais, é só clicar aqui para ler o outro post a respeito de tendências.

Mas pesquisando um pouco sobre as outras obras do autor, fiquei interessada mesmo é na série de ficção científica Uglies. Vou procurar os livros e aí conto mais.

Por ora, essa é a dica. Ok, com anos de atraso, mas ainda está valendo, né, Jorge?

Aprenda como se faz marketing de varejo

Fachada da loja Apple em Berlin.

Fachada da loja Apple em Berlin (Foto: Apple)

A despeito dos hipsters, uso produtos da Apple muito antes de virarem moda; lembro que o primeiro computador da marca que usei ainda se chamava Macintosh e era todo quadradinho, lá nos idos dos anos 90 do século passado. Já passei por vários sistemas operacionais (Unix, Linux, DOS, Windows e alguns específicos de microprocessadores) e para mim ainda não há nada que bata o iOS em termos de segurança, usabilidade e confiabilidade.

Concordo que é exagero e até um certo fanatismo ficar na porta da loja fazendo fila cada vez que a empresa lança um produto novo (geralmente espero o lançamento do seguinte para comprar o anterior com um preço melhor e bugs corrigidos), mas não posso negar que sou uma admiradora de longuíssima data.

Era fã apenas dos produtos, pois, além do site (um clássico, na minha opinião), nunca havia tido contato com lojas físicas. Pois bem, agora tenho a sorte de morar a apenas algumas quadras da Apple Store de Berlin. Ainda não comprei nenhum produto lá (meu telefone, de 2 anos, ainda está ok, e os computadores precisam ser encomendados pelo site, já que os da loja têm teclado alemão), mas frequento o lugar toda semana. É que esse povo realmente sabe como fazer marketing de varejo; cada vez que vou é uma lição a ser aprendida.

Além do atendimento espetacular (o time é enorme, para cada lado que você se vira tem um vendedor que parece muito feliz em lhe ajudar), há também as atividades paralelas: cursos, palestras, consultorias, workshops e até shows.

A loja, inaugurada no final do ano passado, está instalada ao lado de um antigo cinema. Eles restauraram todo o prédio e usam o cinema e as instalações anexas para oferecer cursos gratuitos dos aplicativos, sistema operacional e como tirar o melhor proveito de cada um dos equipamentos. Você quer comprar um iPad e não sabe qual? Eles explicam as diferenças técnicas entre os modelos e indicam o melhor para a sua necessidade de cada pessoa (não recomendam sempre o mais caro; são inteligentes e querem fidelidade). Olha, até penso que se houvesse um suporte assim no Brasil, ia ouvir menos pessoas reclamando que perderam todos os contatos quando o telefone foi roubado ou perdido (maior absurdo do mundo, coisa típica de quem não está usando corretamente o equipamento).

A maioria dos cursos de produtos específicos (softwares e aplicativos) são em alemão, mas quando o workshop é com um convidado (que geralmente não fala alemão), aí é em inglês mesmo. Por exemplo, já assisti uma palestra com o ilustrador espanhol Rafa Alvarez e achei que ia ser pura propaganda do iPad, que ele usa para desenhar. Que nada, o moço contou um caso em que realizou um trabalho numa viagem de avião, elogiou o equipamento e mais nada. O resto foi o portfólio dele mesmo e a promoção do próprio trabalho (nada mais justo, acho que ele não ganha nada para fazer a palestra, é só uma oportunidade de divulgação; todo mundo sai ganhando). Também assisti a uma apresentação do aplicativo para se ouvir concertos da Filarmônica de Berlin (eles chamam de Digital Concert Hall), cujo projeto foi de um músico da própria orquestra. A equipe explicou como o trabalho foi desenvolvido e ainda deu uma palhinha no final. Às vezes a palestra não tem nada a ver com a Apple nem com a loja, mas traz um assunto que pode ser de interesse dos clientes, como inovação, arte, música, design, etc.

E não é só isso: músicos em geral podem fazer pocket shows para promover seus trabalhos no auditório belíssimo (o tal ex-cinema).  Eles também podem vender CDs, claro, mas geralmente têm músicas disponíveis na loja iTunes. Para quem está cadastrado na Apple, resida ou não em Berlin, é tudo de graça (ficou claro por que não saio de lá?).

Será que os comerciantes brasileiros não poderiam aproveitar essa ideia como modo de fidelizar seus clientes e fortalecer a marca? Ações onde todos os envolvidos são beneficiados e a marca mais ainda?

Penso que shoppings poderiam usar as salas de cinema no período da manhã em parceria com as lojas; os bancos sempre têm salas de reunião onde poderiam oferecer cursos de interesse de seus clientes;  floriculturas poderiam usar seu espaço para ensinar como se planta; cafeterias poderiam oferecer palestras sobre barismo; boutiques poderiam falar sobre moda; restaurantes poderiam promover cursos de gastronomia; academias poderiam organizar eventos informativos sobre práticas esportivas e nutrição; enfim, as possibilidades são infinitas! No Brasil, sei apenas do O Boticário e Contem 1g que dão cursos de maquiagem e mais nada.

As lojas de eletrodomésticos, por exemplo, poderiam oferecer uma palestra para quem está interessado em comprar geladeiras (ou TVs, equipamentos de som, etc). Eles poderiam mostrar as diferenças entre os vários modelos e as adequações a cada caso; economizaria um tempão do cliente e a loja ganharia pontos por tomar a iniciativa de facilitar o processo decisório, que, em alguns casos, é bem complexo. Sem falar que haveria mais gente circulando pelo estabelecimento (apesar de ter uma entrada independente, o participante sempre tem que passar por dentro da loja para fazer um curso na Apple).

Em março vou fazer um curso específico de primeiros socorros para gatos domésticos oferecido pela clínica onde nossas princesas são atendidas. Além de praticar o alemão, posso aumentar a rede de contatos com pessoas que compartilham interesses semelhantes e ainda tenho certeza que vou aprender um monte de coisas úteis; tudo isso por apenas € 10. Olhaí uma oportunidade para o mar de pet shops que estão competindo por preço e reclamando da vida.

Tem tanto espaço ocioso e tanta oportunidade de fazer diferença com ideias tão simples! Fica a dica…

Auditório para palestras e shows.

Auditório para palestras e shows da loja Apple em Berlin (Foto: Apple)

Interior da loja.

Interior da loja (Foto: Apple)

Artoteca: o óbvio genial

Berlin, como não amar você?

Berlin, como não amar você?

Biblioteca é um lugar onde você vai para pegar livros emprestados, confere? Algumas emprestam também CDs e DVDs. E por que não emprestar obras de arte também?

Pois acabei de ficar sabendo que isso existe aqui na Alemanha (não consegui descobrir se há em outros lugares do mundo), mas a ideia é tão sensacional que me fez pensar por que eu nunca soube disso antes. E a ideia é tão óbvia: é claro que objetos de arte também merecem ser compartilhados da mesma maneira que livros.

Algumas artotecas (Artothek, em alemão) funcionam dentro de bibliotecas; outras, em galerias de arte, escolas, museus e associações. Há algumas, inclusive, baseadas em coleções particulares, olha só que bacana. Em comum, todas têm um acervo de obras de arte (pinturas, gravuras, objetos, fotografias, esculturas) disponíveis para empréstimo. Você faz a carteirinha e pode levar para casa, de graça, por três meses (o prazo pode ser renovado), um total de 10 gravuras, 10 quadros a óleo, 5 objetos e 5 fotografias de uma vez só!

Só na cidade de Berlin são sete artotecas com acervos bem bacanas. Na Alemanha inteira são 130 desses lugares mágicos concebidos para democratizar a arte e fazer mais pares de olhos felizes.

Quando vi o negócio, logo pensei: isso deve ser coisa de algum workshop de inovação, resultado de um brainstorming de gente criativa e ligada às necessidades do mundo contemporâneo. Quer saber? Nada disso. A prática de emprestar obras de arte como se fossem livros já existe há mais de 200 anos na Alemanha!

E eu aqui achando isso tão revolucionário; como sou bobinha….

NOTA: Só fiquei sabendo dessa maravilha graças à Marcela Faé, fotógrafa brasileira das boas que mora aqui e está sempre por dentro das coisas mais descoladas. Valeu, Marcela!

Para quem entende “inglish”

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Esse texto é de 2005, mas achei por bem ressuscitá-lo depois da mancada gigante das lojas Marisa que colocaram uma camiseta para vender com os dizeres “great rapers tonight”, que em tradução literal significa “grandes estupradores hoje à noite”; especula-se que houve um erro de grafia e onde se lê “rapers“(estupradores) deveria se ler “rappers” (cantores de rap)…

Deve ter vendido um monte sem que ninguém percebesse (o deslize foi notado quando a peça foi anunciada no site da empresa), a julgar pelas coisas que já observava naquele tempo.

Veja se não é…

****

Dia desses estava caminhando na rua, quando cruzo com um sujeito um pouco acima do peso. Normal, não foi isso que me chamou atenção. É que ele usava uma camiseta onde se lia algo parecido como “Eu sou gordo, posso emagrecer. E você, que é feio?”. Gente! Que coisa mais agressiva e grosseira! E o passante até parecia bem simpático, totalmente desconectado com a mensagem malcriada. Será que ele achava que realmente todas as pessoas que cruzavam com ele (e liam a frase) eram feias, daquele tipo que não tem remédio? Duvido. Nem todo mundo se dá conta do poder da palavra que uma simples regata carrega.

A roupa é uma baita ferramenta de comunicação, e já faz tempo. Camisetas com frases transformam seus usuários em outdoors ambulantes, cumprindo mais ou menos o mesmo papel que o monte de adesivos colados nos carros. Só pela camiseta (ou pelo carro), você pode descobrir um monte de coisas a respeito da pessoa. Se ela é religiosa (nunca entendi direito aquela frase “Deus é fiel” e nem a sua utilidade), se é bem-humorada, se é consumista, se torce para algum time, se é fã de alguém, se tem filhos pequenos (“Cuidado, Gleydyson a bordo!”), se trabalha com marketing multinível  (“Quer emagrecer? Pergunte-me como”).

Observe aquele povo que anda com camisetas e/ou adesivos de vários países e lugares. O que querem dizer? Acho que são cidadãos que querem informar aos transeuntes distraídos que eles já viajaram, que são descolados, estiveram “no estrangeiro” e lembraram de você, que não foi, mas precisa ficar sabendo do evento.

Tem também a turma das grifes famosas: do tal “Hard Rock Café”, ao “Planet Hollywood”, até Ambercrombie e Diesel. Já vi até uma regatinha com “Armani” em letras garrafais levando o totó para passear. A mensagem aqui também é clara: eu sou fashion, eu posso comprar roupas de grife, você não. Mesmo que boa parte das etiquetas sejam, como se diz, réplicas…

Mas o mais interessante mesmo são aquelas camisetas escritas em inglês, idioma nem sempre dominado por quem as veste (pelo menos é o que se presume). Já vi uma patricinha, muito linda, saindo do metrô em São Paulo com os seguintes dizeres estampados em letras garrafais na sua baby look: “Put some fun between my legs1. Ou ela andou faltando às aulas, ou tem um senso de humor muito particular, para não dizer, perigoso…

Também já me deparei com uma senhora francamente obesa, caminhando com muita dificuldade, metida numa camiseta extra-grande toda estilosa com os dizeres “Designed for best performance2.

E o que dizer da madame toda em branco e ouro, com a seguinte mensagem impressa em cristais Swarovski “I accept Visa3?

E meninas adolescentes, ou mesmo pré-adolescentes vestindo roupinhas estampadas “Sexy machine4? Será que elas se dão conta do significado dessas frases?

Quem já não deu uma risadinha ao se deparar com um modelo do tipo “Seu namorado não faz direito? Eu faço…”, ou “É chato ser bonito… mas mais chato ainda é ser feio…”, “Eu acredito em papai Noel”, “Por favor, não me fotografe”, “Cada um, cada um”, “Brasil, o jeito é formatar”, além das clássicas Superman e Che Guevara, que atire a primeira T-shirt.

E a galera está tão empolgada que as frases já andam freqüentando até calcinhas e cuecas, sem falar em pijamas e camisolas. E as mensagens são claramente direcionadas para um nicho de mercado muito especial, a julgar pelos veículos escolhidos na divulgação…

Pois é. Camisetas são realmente legais, divertidas e democráticas. Servem para mostrar ao mundo o que você pensa, a qual tribo você pertence, quais são as suas opiniões e visão do mundo. Mas antes de vesti-las, convém dar uma lida na mensagem, para saber se ela é compatível com a sua identidade, e, principalmenter, se externar suas opiniões por meio de camisetas e adesivos combina com sua maneira de ser.

Pelo que eu tenho visto, salvo exceções, até que a maioria é bem coerente com as atitudes da pessoa que a está vestindo.

Para o bem e para o mal…rsrsrsrs

—–

1Tradução livre: “Ponha alguma diversão entre as minhas pernas”

2Tradução livre: “Projetada para o melhor desempenho”

3Tradução livre: “Aceito Visa”

4Tradução livre: “Máquina sexy”

 

Como devia ser

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Tem horas que fico pensando como foi que a coisa desandou de tal maneira que passamos achar natural coisas completamente absurdas e a achar sensacional coisas que deviam ser rotineiras.

É que faz uns meses compramos um apartamento na planta aqui em Berlin. Pois esses dias a construtora promoveu o que no Brasil se costuma chamar de festa da cumeeira (Richtfest, em alemão), ou seja, a comemoração por terem colocado o último telhado.

Eis que os organizadores montaram uma tenda enorme no meio da obra (os prédios têm sempre um pátio interno, que eles chamam de Hof) com toda a infraestrutura para uma festa bacana: garçons, um dos melhores buffets da cidade, brindes, decoração, tudo. Quando entramos, a única diferença notada para uma festa no Brasil é que as mesas eram enormes e compridas, para serem usadas coletivamente (aqui é comum tanto em festas de rua como em casamentos finos).

Ao lado do guindaste gigante do lado de fora, que carregava suspensa uma guirlanda com fitas, tinha um palco para o tradicional discurso do dono da empresa e da secretária de obras da prefeitura (ou equivalente), que elogiou a qualidade da construção e a preocupação com o ambiente (uma parte do financiamento tem juros menores como subsídio para instalação de todos os sistemas de eficiência energética possíveis, olha aí a ótima ideia).

A surpresa boa começou mesmo foi com o discurso do dono da construtora, pois ele agradeceu aos clientes, claro, mas principalmente aos pedreiros, principais responsáveis por todos estarmos lá naquele dia; depois falou dos mestres de obras e toda a hierarquia de pessoas envolvidas no trabalho, chegando até aos corretores. O engenheiro responsável falou sobre o desafio de construir fundações em um local que recebe as vibrações do metrô que passa ao lado (não tem barulho, mas os alicerces precisam de amortecimento) e como a equipe estava orgulhosa do resultado obtido.

O bacana é que a coisa não ficou só no discurso não; a festa era realmente para todo mundo. A gente almoçou ao lado de dois pedreiros felicíssimos com a conquista e o trabalho realizado, dava para ver o brilho nos olhos deles. A equipe toda, que tinha trabalhado até o meio dia, passou a tarde comendo e tomando espumante junto com os clientes. O sujeito que operava o guindaste fez o maior sucesso quando entrou no recinto. Nada daquelas festas protocolares cheias de egos desfilando; era todo mundo curtindo junto um momento de alegria. A celebração de uma coisa que era boa sob todos os pontos de vista e para todos os envolvidos; lindo demais.

O que me deixou chocada é que não parava de pensar que isso, no Brasil, seria inimaginável. Se o construtor fosse muito consciente, até faria uma festa, mas totalmente separada dos clientes; claro que o buffet seria mais barato, sem espumante e camarões, no máximo churrasco e cerveja. E imagina só se as madames iriam comer em mesas coletivas ao lado dos peões de obra, com aquelas botas sujas de lama?

Uma coisa tão óbvia, tão lógica e tão simples, torna-se um acontecimento para uma tupiniquim como eu, que nem sabia que isso era possível. Compartilhei o fato no Facebook e muitos comentaram sobre o lindo gesto do empreiteiro como se, minha gente, reconhecer a participação dos pedreiros não fosse uma obrigação. Como se esses trabalhadores tão fundamentais fizessem parte de uma casta inferior que não pudesse se misturar, e só almas muito nobres teriam o desprendimento necessário para dar a mão a esses coitados. Ah, vá. Menos.

Daí que lembrei de uma entrevista que vi uma vez na televisão com os atores Tarcísio Meira e Glória Menezes. A Glória discorrendo sobre a simplicidade e generosidade do marido (ao lado, sorridente), pois ele falava com todo mundo, até com o jardineiro. ATÉ com o jardineiro, vejam só. Na época, lembro-me que os elogios rasgados a tamanha demonstração de humildade (oi?) me embrulharam o estômago.

Sinceramente, cada vez tenho mais certeza de que é aqui mesmo que eu quero ficar.

Para todos os gostos

Na Alemanha, um país onde bicicleta é de fato considerado um meio de transporte sério (são 74 milhões de bikes x 48 milhões de carros), é natural que a variedade de modelos também seja grande.

Minha galeria tem modelos de todos os tipos e quando penso que já vi de tudo, aparece mais uma coisa de duas rodas que pode ser pedalada.

Os mais bacanas são de carregar crianças (os estacionamentos das escolas ficam cheios) e há pais que carregam até 4 pimpolhos numa caixa acoplada. Parece divertido e eles não gastam com academia (pais e mães dividem direitinho as responsabilidades por aqui).

Dê uma olhada e escolha a sua!

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Essa amarelinha é dos correios, acho uma graça!

 

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A verdinha é da empresa concorrente dos correios (como é bom ter concorrência, aqui funciona direitinho)…

 

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Adorei essa toda colorida!

 

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Teve uma crise de malcriação e surtou…rsrsrsrs

 

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Senhorita pink <3

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Família reunida <3 <3 <3

 

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Indignação

Dan Borris

Fotografia: Dan Borris

Indignação é o sentimento de desprezo, raiva ou cólera despertado por um fato ou acontecimento considerado injusto pela pessoa indignada.

Pois então: sendo um sentimento, obviamente não se pode esperar que ele seja coerente, racional ou equilibrado. E emocionar-se (ou indignar-se) é direito inalienável de todo ser humano, tenha ele uma conta em redes sociais ou não.

Digo isso porque tenho observado um fenômeno que aparece toda vez que algum evento provoca indignação geral: os fiscais da internétis ficam decidindo quem tem e quem não tem o direito de se indignar.

Curiosamente, essas pessoas com máquina de lavar louça em casa costumam compartilhar imagens e frases com “lições de vida” ensinando que não se deve julgar os outros.

E olha que os guardiões da coerência no cyberespaço são perfeccionistas: cada vez surgem novos parâmetros para decidir quem tem mérito suficiente para demonstrar sua indignação em público e quem não tem.

Por exemplo: segundo uma rápida pesquisa que andei fazendo, a pessoa só tem o direito de se indignar com o sofrimento dos Beagles do Laboratório Royal se e somente se cumprir os seguintes requisitos:

1. não comer carne;

2. não usar cosméticos desses que vendem na farmácia (remédios então, nem pensar);

3. ter se indignado anteriormente de maneira bem destacada em pelo menos dois casos envolvendo maltrato de crianças e/ou índios;

4. se for um protetor de animais precisa ter adotado pelo menos uma criança pobre ou contribuir mensalmente com o sustento de um bebê africano.

Caso a pessoa não obtenha boa pontuação no teste, que fique quieta e faça de conta que não viu nada, afinal, quem ela pensa que é para se indignar? Um cidadão qualquer?

 

A mesma coisa acontece se alguém se escandaliza e se revolta com algum ato de corrupção. Segundo os fiscais de plantão, o escandalizado só terá o direito de se sentir um palhaço se conseguir cumprir os seguintes pré-requisitos:

1. tiver se indignado no mesmo nível ou superior com algo parecido (ou não) que o político de outro partido fez antes;

2. não ser assinante da Veja e nem assistir a Globo;

3. não tiver uma empresa (sócio ou diretor também perdem o direito);

4. ganhar menos que 5 salários mínimos.

Se não gabaritar, já sabe: contenha-se, pois você já tem pecados de sobra para ser classificado como culpado de tudo isso que está aí. Pagar impostos não é requisito suficiente para se indignar com o roubo descarado de dinheiro (aliás, isso nem aparece na lista).

 

Está inconformado com o salário dos professores e resolveu expressar sua indignação? Cuidado! Você só obterá o alvará no caso de:

1. ser estudante;

2. ter nota acima de 7 em todas as disciplinas;

3. não faltar mais que 20% das aulas;

4. estudar e trabalhar simultaneamente;

5. não for de mini-saia para a aula (esse é realmente eliminatório).

Desnecessário dizer, mas vá lá: está subentendido que só tem direito à reclamação quem estuda em escola pública (desde que não seja uma universidade federal, que é para ricos), tem bolsa de estudo ou possui cota. O resto tem que engolir a seco, pois direito de se indignar não é para burguesinhos que fazem intercâmbio.

 

Revoltado com o péssimo transporte público na sua cidade? Cuidado ao externar sua ira, pois só ganha o salvo-conduto para se indignar nas redes sociais se você realmente anda de ônibus, trem ou metrô. Os demais estão desautorizados e não têm nada que dar palpite. Sem mais.

 

Foi assaltado e resolveu mostrar sua raiva contando o relato? Olha, só passa se todos os itens forem cumpridos:

1. ganhar salário mínimo;

2. fizer pontuação máxima nos testes que indicam se você é de esquerda ou direita (claro que se tiver um pontinho para o lado da direita, está fora, amigo);

3. morar em uma comunidade carente;

4. não ter uma Hornet ou qualquer outra moto que não seja uma CG 150.

Se não cumpre os requisitos, melhor ficar quieto para seu próprio bem.

 

É importante ressaltar que há alguns itens que desclassificam automaticamente a pessoa fazendo-a perder a razão sob qualquer ponto de vista, independente do assunto que estiver sendo tratado. Isso acontece se:

1. ela tiver um iPhone;

2. ela não cumprimentar o porteiro.

 

É, gente, a coisa está complicada mesmo, o pessoal que decide quem pode e quem não pode se indignar está de olho. E pelo jeito que as coisas vão, daqui a pouco só vão liberar a licença para indignação para quem tiver protocolado seu processo de canonização ou provar que recebe bolsa-família há mais de 5 anos.

 

É ou não é para se indignar?