Dieta literária: devorando os livros certos

 

Dietrich Schwanitz, em seu “Cultura geral, tudo o que se deve saber” diz que somente a língua nos distingue dos animais e, mais do que a fala, a escrita é a chave para o domínio de uma língua. Falando, a gente pode descrever coisas e pessoas, mas as ideias precisam ser simples porque acompanhar o desenrolar da argumentação exige muita concentração. Por meio da escrita, é possível libertar a linguagem da situação concreta (fatos) e torná-la independente do contexto (ideias). Quando a gente fala, a emoção predomina sobre a objetividade; quando escreve ou lê, desenvolve muito mais a capacidade de abstração.

Beleza. Quer dizer que ler serve basicamente para desenvolver a capacidade de abstração, o que não é pouco se a gente analisar onde isso nos leva: compreender a dimensão e o contexto da encrenca que é esse mundão, o que implica em entender pelo menos o básico sobre como as coisas funcionam e como a gente chegou até aqui; esse passo é fundamental se quisermos mudar a realidade (ou mesmo deixá-la exatamente como está, o que exige esforço igual ou maior).

Por isso, se a gente fosse fazer um paralelo com a pirâmide de Maslow, que mostra as necessidades básicas do ser humano, ou ainda usasse a pirâmide nutricional, que apresenta a base mais adequada à nossa alimentação, poderíamos extrapolar para a construção de nossa pirâmide literária, que apresentaria a estrutura de nossa formação.

Penso que a base da pirâmide deveria ser composta por livros de filosofia, onde a gente conheceria o que já se pensou a respeito e em que pé está o debate (isso tem o pomposo nome de estado-da-arte). Poderíamos comparar ideias, analisar posições e situar nosso papel no mundo, assim como a nossa missão. Poderíamos escolher intencionalmente um comportamento diante da vida com um mínimo de coerência. Filosofia tem a ver com perceber nossa localização no tempo, no espaço e nas ideias. Sem isso, a gente fica vagando por aí sem saber aonde vai e porquê. A religião também pode se prestar a isso, mas para evitar entrar numa fila qualquer não tem jeito: há que se ler e se questionar muito.

Na base deveriam estar também livros de história, que complementam bem a filosofia. Por que certas nações vivem em guerra? Por que alguns povos são mais ricos que outros? Por que a terra é separada em países? Por que falamos português e não mandarim? Coisas básicas e fundamentais para não repetir erros (e votar em certos políticos).

Geografia também seria útil e básico para a gente se orientar. Fico assustada quando conversamos, em postos de gasolina, com motoristas de caminhão que não conseguem entender mapas nem fazem a menor idéia de distâncias ou de pontos cardeais. Eles aprendem o caminho com alguém e o repetem igual a ratinhos de laboratório. Triste, se a gente pensar que o mundo para eles poderia ser tão maior e mais interessante…

Por último, nesse nível, penso que seria importante ter noções de ciências (matemática, física, biologia) e de onde partem as linhas de raciocínio para que as coisas façam sentido. Como manter um corpo minimamente saudável se a gente nem sabe direito como ele funciona? Como se virar num mundo sem saber fazer contas? Conheço pessoas com o segundo grau completo que ainda não captaram o conceito de porcentagem. Muito preocupante.

Acredito que alguém com esse conhecimento essencial já deveria ter as ferramentas básicas para evoluir no mundo e partir para os próximos estágios (seria o equivalente a forrar o estômago com cereais, para dar “sustança”).

No meio da pirâmide, eu colocaria a literatura e as artes em geral em proporções bem generosas, pois que, afinal, são elas que nos fazem humanos. É onde estão os sonhos, as ideias, os cenários reais ou fantásticos. Por meio da literatura podemos viajar, conhecer lugares e viver coisas que nos seriam impraticáveis; conseguimos a proeza de participar e observar ao mesmo tempo; somos capazes de amadurecer e aprender com experiências alheias, verdadeiras ou absurdas. A literatura e as artes tornam possível o impossível, fazendo o mundo ficar absolutamente infinito.

Um pouco mais para cima, no próximo nível, em menor quantidade, penso que poderíamos nos concentrar em livros técnicos, que ajudariam a trabalhar melhor, aprendendo com outros. Certamente, qualquer profissional bem alimentado pelos estágios anteriores teria muito mais repertório para assimilar e aplicar esse conhecimento.

Na última etapa, lá na pontinha, depois de tudo bem mastigado e digerido, ficariam as notícias e atualidades, necessárias para que a gente não se isole do mundo, mas que precisam ser consumidas com comedimento. Notícia em excesso e sem contexto embrutece e anestesia.

É claro que isso é apenas o que eu consideraria como ideal, mas, evidentemente não pratico. Às vezes leio muito mais livros técnicos do que seria saudável e meus conhecimentos de história e filosofia são parcos e insuficientes. Tem dias até que só leio notícias e bobagens. Mais ou menos como uma dieta desequilibrada, onde a salada fica de lado e a gente se entope de batatas fritas e doces. Obesidade literária, alguém já ouviu falar?

Bom, agora, quem sabe, com a ajuda de uma providencial pirâmide, talvez seja possível priorizar e organizar minha dieta literária.

Se você não concorda com a minha, pode fazer ajustes ou construir a sua própria (como seria um nutricionista literário?); pode ajudar a manter a boa forma dos neurônios…

Lígia Fascioni | www.ligiafascioni.com.br

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Publicado originalmente em janeiro de 2010.

Segredo não é para contar

Escondida lá no fundo da livraria, a Marilena Chaui, no excelente “Convite à filosofia”, explica que um dos legados mais importantes da filosofia grega para o pensamento ocidental é a formalização da diferença entre o que é necessário e o contingente. Além disso, os gregos nos ensinaram que o contingente pode ser dividido entre o acaso e o possível.

Olha só: o necessário é aquilo que a gente não pode escolher, pois acontece e vai acontecer sempre, independente da nossa vontade. Assim, sempre haverá dias e noites; o tempo vai passar; todas as coisas serão atraídas pela gravidade; você vai morrer algum dia.

Já o contingente é aquilo que pode ou não acontecer na natureza ou entre os homens. Quando o contigente é do tipo acaso, também não está em nosso poder escolher. Exemplos de acaso: não posso determinar se um motorista bêbado vai ou não abalroar meu carro e provocar um acidente; também não posso arbitrar que meu pai seja ou não um jogador compulsivo nascido na Croácia.

A salvação do design

Há apenas uma semana, se alguém me perguntasse que livro eu levaria para uma ilha deserta, responderia, sem titubear, “O jogo da amarelinha”, de Julio Cortazar. É um romance cujos capítulos estão estruturados para serem lidos em qualquer ordem. Cada seqüência que o leitor escolhe gera uma história diferente. Muitos livros em um. Ideal para uma ilha, não é?
Pois agora mudei.

Frases da semana

De vez em quando posto aqui algumas frases do viciante Quotes on Design, mas o João Carlos Teixeira me apresentou outro site muito bacana também, com a diferença que os ditos são impressos em cartazes muito bacanas; o único porém é que o site não cita as fontes (coisa feia usar a frase sem contar o autor). Olha alguns que peguei no From up North. Vou tentar compartilhar aqui uma vez por semana (vamos combinar toda segunda?).

Menina com potencial

Professor César (por Juliana Cunha):

Eu estava vendo esse filme, Blue Valentine, que tem um diálogo entre um pintor de parede e sua mulher. A mulher queria ser médica, virou enfermeira e agora fala sobre todo o potencial que o marido tem e desperdiça. Sobre como ele poderia ser um desenhista ou um músico ouqualquer coisa, mas apenas desperdiça o potencial. O personagem do pintor é bem maletinha, mas eu gamei na resposta dele. Ele perguntou que diabos significa “potencial”, potencial para quê? Por que você tem que reverter seu potencial em dinheiro? etc. Ele pinta paredes. As pessoas ficam satisfeitas. Ele vai pra casa fazer o que quiser.

Vamos discutir gosto?

Por que deixar que gente esquisita, que você nem conhece, determine o que é feio e o que é bonito na sua vida? Por que sofrer para gostar “das coisas certas” se elas mudam junto com a moda, com o sucesso, com as convenções? Por que se acostumar a acatar sentimentos estranhos aos seus, que nada têm a ver com a sua história? Por que achar que a opinião de alguém que aparece na revista é mais importante que a sua?

Ignorância infinita

Essa tirinha aí de cima, para mim, é uma das coisas mais brilhantes que o genial Luís Fernando Veríssimo já criou (e olha que ele tem muita coisa boa). É sintética, engraçada, profunda. Pois me lembrei dela ontem quando tive o desprazer de conhecer uma pessoa. Nos cinco minutos em que interagimos, ela pronunciou a […]

A elegância do ouriço

Confesso que a primeira vez que vi “A elegância do ouriço“, de Muriel Barbery, fiquei curiosa por causa do título, mas a lista de desejos literários era tão grande que acabei deixando para depois. Então ganhei a dica da Raquel (leitora do blog) e mergulhei com vontade. Nossa, que coisa mais linda de se ler. […]