Arquivo de ‘inovação’

14 mai

Nossa, olha que projeto mais genial: a Joanninha, uma loja criada pelas sócias Alessandra Piu e Anna Fauaz, aluga livros, brinquedos e fantasias para crianças de até 7 anos, em vez de vendê-los. Os alugueis são por mês, trimestre ou ano e a criança pode trocar o brinquedo alugado nesse período. Se ela quiser muito, mas muito mesmo, a loja até pode vendê-lo, mas a ideia não é essa.

Todas as peças são feitas com materiais certificados e a criança deve devolvê-lo na mesma sacola em que ele veio (nossa, é assim que se educa crianças de verdade; sendo coerente nos mínimos detalhes). Outra coisa bacana é que lá não tem essa bobagem de brinquedos de ação para meninos e tudo rosinha para meninas; todo mundo pode brincar com o que quiser.

Cada objeto tem um caderninho que conta sua história, de onde esteve e como participou da vida da criança (elas próprias escrevem no caderninho, que vai circulando conforme o brinquedo vai sendo alugado). Assim o joguinho ou boneco não é descartável, pois tem sua história registrada. Ao mesmo tempo em que brinca, a criança aprende a dar valor às experiências, exercita a escrita (mesmo que com a ajuda dos pais) e aumenta sua rede de relacionamentos.

O serviço é oferecido em São Paulo e Belo Horizonte e, olha, fico orgulhosa de habitar um mundo onde uma ideia dessas vai pra frente. Assim dá até para ter alguma fé no futuro; o que tenho visto no dia-a-dia são serezinhos cada vez mais egoístas, mal-educados e consumistas.

Mas olha que máximo, nem tudo está perdido!

Achei a dica preciosíssima no sempre ótimo Mosca Branca.

7 mai

Fotografia: Studio Furia

Já é a terceira vez essa semana que leio comentários de diferentes pessoas nas redes sociais reclamando que alguém roubou sua ideia e ficou rico. “Fulano pegou a minha ideia e agora está ganhando um monte de dinheiro” brada um revoltado; “dei uma ideia na sala de aula, um colega pegou e montou um negócio; nem se lembrou de me pagar” reclama outro; “já estou de saco cheio de ter neguinho ganhando dinheiro nas minhas costas, às custas das minhas ideias”, finaliza uma terceira.

Mas, gente, ter ideias é a parte mais fácil e prazerosa. É como fazer sexo, sabe? Algumas pessoas têm um talento natural para a coisa; outras preocupam-se em desenvolver técnicas, empenham-se, praticam bastante e conseguem excelentes resultados. Há aqueles que dão até uma ajudinha para a natureza e outros que levam a coisa tão a sério que viram amantes profissionais. Mas é isso. Não dá para achar que o mundo lhe deve algo por causa desse “esforço”.

Uma ideia, sem sua materialização, não é nada. Na verdade é: prazer, brincadeira, exercício, interação. Mas a materialização é que cria o fato e talvez (apenas talvez) gere riqueza.

Ter ideias e não levá-las adiante é como ter filhos e largá-los pelo mundo. A parte chata, de empreender, é justamente aquela que ninguém quer: arranjar dinheiro para alimentar o neném e fazê-lo crescer; passar as noites em claro quando as coisas não vão bem; colocá-lo na escola e levá-lo ao médico; reunir um time de profissionais que vão da professora de inglês até o pediatra e bancar os gastos; aguentar as crises da adolescência; velar 24 horas por dia, com todo cuidado, carinho e amor durante anos. Isso tudo sem ter a mínima garantia que vai dar em alguma coisa. Pode surgir daí um Paul McCartney ou um Barak Obama. Ou uma Apple. Mas também pode ser uma Amy Winehouse. Ou o fulaninho que voltou do intercâmbio sem aprender nada. Não há como saber.

Os investidores (pais e mães) não podem adotar todas as crianças do mundo abandonadas por pais prolíficos em ideias, mesmo que sejam muito ricos. Precisam escolher onde vão apostar toda sua dedicação, pois sabem que o risco é altíssimo e parte importante do resultado vai depender do quanto vão se empenhar de verdade na tarefa.

Aí vêm os pais biológicos, que só participaram na hora da festa, e querem ser chamados de pais da criança quando a coisa dá certo?

Ah, mas se não fosse a minha ideia o negócio não teria nem nascido. Não pensam que sem o investidor que adotou o rebento, o pobre teria morrido de inanição ainda no berço. Não querem dividir os prejuízos quando o negócio não dá certo, não querem trocar fraldas quando precisa. Não querem correr o risco de investir seu precioso tempo na tal ideia esplendorosa. Não têm paciência para cuidar de crianças, mas querem colher os frutos do sucesso alheio.

Ah, vá. Ficam fazendo filhos, abandonam por aí para os outros criarem e ainda querem ter direitos.

Não têm não, viu? No máximo, uma bolsa família.

E olhe lá.

27 abr

Olha só como as ideias viajam pelo mundo e vão parar em lugares insuspeitados!

Em 2009, a Unisul promoveu um workshop de design em parceria com a Universidade de Firenze (Itália) e a Universidade de Tecnologia de Eindhoven (Holanda). Os professores dessas universidades vieram orientar um workshop de design que durou quase um mês e tive a oportunidade de participar como professora convidada. Trabalhei com 3 alunas: as ótimas Maíra Scirea, Isabelle Kowalski e Claudia Peterle.

O curso de moda também estava participando, então a ideia era criar roupas inovadoras para a empresa Mormaii, parceira do projeto.

Bom, o conceito do nosso trabalho final foi o seguinte: desenvolver uma roupa que não fosse descartável e pudesse ser customizada e personalizada como algo único para o indivíduo. A roupa deveria participar da trajetória da pessoa ao longo de toda a sua vida. O primeiro paralelo que fizemos foi com a pele, nossa roupa mais básica, que registra nossas interações com o mundo sem perder nenhum detalhe.

E se a roupa também pudesse mostrar as marcas das nossas emoções, como a pele já faz? Na verdade, bom seria poder trocar uma pela outra, como uma espécie de versão fashion de “O retrato de Doryan Gray” (mas isso já é elucubração minha). Se a roupa pudesse deixar registrados todos os nossos movimentos rotineiros, como a pele faz, formando marcas e rugas, ela seria única no mundo e parte da história de quem a usaria. Ela só seria emprestada para alguém que pudesse contribuir com nossa história, como um filho, por exemplo.

Bom, definida a ideia central, partimos para a prototipação, que era experimentar materiais que pudessem deixar registrados os movimentos; o primeiro teste foi cobrir uma camiseta com massa corrida, como dá para ver na foto abaixo.

Eu experimentando a camiseta de massa corrida e as meninas não gostando muito do resultado...rsrsr

Depois a gente acabou aplicando cola sobre lycra preta e colocando no freezer para craquelar (esses experimentos científicos fazem a gente testar cada coisa…). O resultado ficou mais discreto e aplicável; a gente pensou que ele poderia ser usado comercialmente se fosse desenvolvido algum tipo de produto que pudesse ser aplicado sobre o tecido e registrasse as marcas, mas sem estragá-lo. Pois bem, isso foi há 4 anos.

Semana passada, uma das orientadoras do programa nos mandou um e-mail de uma foto do Pinterest com a coleção 2013/2014 do celebrado estilista espanhol Balenciaga. Dá só uma reparada no modelito…

Balenciaga para a coleção 2013/2014

Aahahahah… não é bacana? Não, nenhuma de nós está achando que isso é plágio ou algo do tipo. A gente nem conhece bem o conceito da coleção do estilista e acho pouco provável que ele tenha tido acesso ao nosso projeto (eu mesma penei para achar um vídeo perdido no Youtube). Para quem trabalha com roupas e tecidos, era só uma questão de tempo para chegar a esse resultado, que, afinal, nem era nada de tão espetacular assim.

A questão é que as ideias voam, viajam, pululam, vivem, multiplicam-se e isso é lindo!

De qualquer maneira, para nós era só uma ideia que nunca iríamos colocar em prática, pois foi apenas um exercício de aprendizado. A empresa parceira também nunca manifestou a vontade de desenvolvê-la, de maneira que a pobre da ideia ia passar o resto da vida no limbo, não fosse essa iniciativa (que nem sabemos se vai dar certo, pois ainda é bem conceitual).

Mas achei essa coincidência divertida e uma amostra prática de como com tanta gente tentando ter ideias originais ao redor do mundo, elas acabam se esbarrando um dia.

Segue uma foto da equipe (foi uma delícia trabalhar com as meninas; sinto muitas saudades desse trabalho tão divertido e proveitoso!) e um vídeo que fizemos para apresentar o conceito do projeto, onde dá para ver melhor o teste com a massa corrida.

Equipe visionária criando tendências para o futuro da moda...rsrsrsr: Eu, a Isabelle Kowalski, a Maíra Scirea e a Claudia Peterle.

17 abr

Animaris ou bestas da praia são os nomes que o engenheiro mecânico e artista holandês Theo Jansen usa para se referir às suas incríveis criaturas. Já queria explorar a Holanda faz tempo, mas agora não vai ter jeito mesmo. Além da espetacular Amsterdam e da famosa cidade de Erasmo (Rotterdam), vamos ter que reservar um tempo para passear um pouco em uma praia próxima a Scheveningen só para ver essas criaturas milagrosas.

Os animaris são construídos a partir de tubos de plástico e possuem um engenhoso sistema de armazenamento de ar construído a partir de garrafas PET que propele o sistema todo com a ajuda do vento. Depois das “bestas” soltas, os movimentos dependem apenas do vento; não se tem nenhum controle sobre elas; por isso parecem tão vivas.

Na verdade, Jansen brinca com isso desde os anos 90 do século passado e já tinha visto outro vídeo sensacional faz alguns anos. Agora estava pesquisando sobre inovação e achei impressionante como o trabalho dele continua cada vez mais surpreendente.

Coloquei isso na minha lista de coisas imperdíveis para se ver nesse mundão de meodeos. Dá uma olhada no vídeo abaixo e dê uma revisada na sua…

clip 1klein kl from Strandbeest on Vimeo.

27 mar

Amanhã embarco para o Brasil para pegar um calorzinho, rever gente querida e trabalhar bastante!

A novidade é que acabei de fechar uma parceria com o Diego Trávez e vamos oferecer o workshop Design Desmodrômico em duas datas diferentes em Belo Horizonte (quem quiser saber tudo, é só clicar aqui). Quem fizer o workshop ganha um exemplar do meu mais novo filhote; não tem como perder, né?

Para quem não puder participar, depois só em Berlin…

22 mar

Bom, vamos combinar que loja de perucas não é a coisa mais comum de se encontrar numa cidade, se comparada com salão de beleza, farmácia, supermercado e outros tipos de comércio mais comuns.

Confesso que não vi tantas assim na vida; em comum, reparei que a vitrine é sempre cheia de cabeças neutras de manequim com perucas de cores e cortes diversos.

Pois bem; essa loja em Nuremberg resolveu inovar para valer: eles criaram uma personalidade para cada uma das cabeças neutras e sem graça adicionando acessórios: óculos, lenços, gravatas, laços, etc. Cada cabeça parece guardar uma história e um estilo diferente; e ainda tem homens, por sinal super descolados, coisa que nunca tinha visto em loja de peruca. A impressão que se tem é que eles estão numa festa e dá para ficar horas imaginando que se cada cabeça tivesse miolos, no que estaria pensando (escolha aí uma para experimentar!).

Achei muito legal e, de quebra, eles ainda diversificam o negócios vendendo os acessórios também. Muito bacana mesmo; se você tem uma loja de perucas, olhaí a ideia!

Tem para todos os gostos mesmo, até cabeça careca (acho que as perucas foram vendidas e não tinha mais para repor....rsrsrsrs).

20 mar

Faz tempo que queria mostrar uma empresa que conseguiu reinventar o negócio do chocolate de uma maneira que considero realmente inovadora; então vamos aproveitar a proximidade da páscoa para falar um pouco sobre isso. A Ritter Sport é uma marca de chocolate alemã com 100 anos de idade, mas de gagá não tem nada, olha só.

Num mercado tão competitivo como o europeu, que conta com os famosos chocolates belgas, além dos suíços e franceses, os alemães da Ritter tiveram que realmente escolher um posicionamento único, e conseguiram. Eles escolheram ser reconhecidos pela variedade de sabores e apostaram forte nisso.

Tudo começou nos primeiros anos da fábrica, quando a filha do fundador descobriu que se a barra fosse quadrada, em vez de retangular, era mais fácil de carregar no bolso. A partir daí, a fórmula do quadradinho norteou todo o design da empresa, inclusive o da marca gráfica. Para traduzir a enorme variedade de sabores, eles contam com boa parte das cores da tabela Pantone; há tantas cores quanto sabores e receitas de chocolate. Com um símbolo gráfico tão simples e colorido, o grupo conseguiu desdobrar a marca em produtos diversos para o fã-clube (tem desde roupinha de bebê até cadernos e bolsas). Ok, até aqui nenhuma novidade; um monte de marcas faz isso e com excelentes resultados.

A novidade é a loja de chocolates personalizados chamada Bunte Chokowelt (algo como “mundo colorido do chocolate”) que eles abriram em Berlin há dois anos. Você chega lá e escolhe o tipo de chocolate para criar sua barra: branco ou preto. Depois, vai definindo o que quer, como se fosse um sanduíche: nozes, passas, avelã, crocante, mel, iogurte, marzipan, flocos, menta, rum, coco, marshmallow, chili, etc; olha, não descobri quantos sabores tem, mas são muuuuitos. Depois ainda tem a cobertura, com outras tantas opções; uma loucura! Você monta sua barra de chocolate (quadrada, naturalmente) e depois de 30 minutos pode vir buscá-la!

Se quiser esperar dentro da loja, tem uma infinidade de opções de chocolates prontos, mas tem também um café bem charmoso no mezzanino com docinhos de chocolate e muffins diversos. Pode ficar tranquilo sentado num sofá lendo seus e-mails ou apenas folheando uma revista; o ambiente é bem aconchegante.

Esse, para mim, é um claro exemplo de identidade bem definida e posicionamento assertivo.

Eles têm projetos ambientais porque, claro, chocolate não dá na Alemanha e o deles vem da Nicarágua — então é necessário ajudar a conservar a floresta porque o cacau precisa da cobertura verde para proteger a plantação. Eles também têm um trabalho de educação ambiental bem interessante (dentro da loja tem uma sala de exposições que mostra o processo de cultura do cacau e porque ele precisa de uma floresta saudável no entorno) e um forte investimento em energias limpas (em especial a energia solar). Os outros ingredientes também são certificados, ou seja, a lição de casa está sendo feita direitinho.

Mas o além do esperado é o que diferencia a empresa: a aposta nos quadradinhos coloridos é tão séria que a marca mantém o Museu Ritter com obras de arte moderna e contemporânea inspiradas na figura geométrica. Fica ao lado da fábrica, na cidade de Waldenbuch (que ainda não conheço).

Olha, não sou chocólatra nem nada (entrei e saí da loja sem comprar nem comer nada), mas virei fã da marca. Penso que a identidade visual ainda precisa de alguns ajustes na tipografia, mas a ideia dos quadradinhos coloridos é genial. E aí, ficou com água na boca?

Então vamos passear um pouquinho pela loja que faz um chocolate especial só para você (de verdade)!

Entrada bem colorida.

A entrada cheia de cores

Dessa vez não precisei tirar fotos escondida; o gerente deixou, numa boa.

Para um chocólatra deve ser o paraíso...

A loja fica logo atrás.

Vista do mezzanino.

É pra comer com os olhos!

O café, no mezzanino.

Hipnotizante...

9 mar

Ontem passei pela frente da vitrine da C&A (curiosidade: o site em alemão é www.CUNDA.de) e achei muito louca essa cabeça de cavalo deprimida vestindo um tutu de bailarina e rodeado por garfinhos e colheres de plástico (quem não acharia?).

Eis que fui saber mais a respeito desse negócio e olha só quanta coisa legal acabei descobrindo.

A vitrine faz parte do projeto Reimagine Design Challenge promovido pela seção européia da empresa. É o seguinte: eles convidaram 8 designers de vários países para criar roupas conceituais usando utensílios plásticos (garfos, colheres, copos, pratos).

O desafio começou em 24 de janeiro e termina dia 13 de abril, com a premiação do vencedor. Você pode votar na Fan Page do projeto na criação que mais gostou; o designer vencedor ganhará € 10 mil para aprimorar seu atelier.

O bacana é que eles fizeram vídeos lindos, fotos e blogs para acompanhar o processo criativo de cada um; o pessoal da moda vai amar!

Olha aqui as criações e seus autores (se quiser votar ou saber mais a respeito do projeto, é só clicar aqui).

Acima: a capa (?) vermelha com saia branca é da Halina Mrozek, de Varsóvia (Polônia) e o vestido branco é da Pauline Van Dongen, de Arnhem (Holanda).

Acima: O moço com o cabelo da orelha espetado é obra do Tom van der Borght, de Gent (Bélgica); o vestido branco é da parisiense Axelle Migé.

Acima: a aplicação de ramos e flores feita com garfinhos verdes derretidos é da alemã de Schondorf Miriam Lehle. Já esse detalhe nas costas do casaco branco é da Georgina Santiago, de Barcelona.

Esses dois aí de cima são, para mim, os mais bonitos. As criações são, respectivamente, do Andreas Eberharter, de Viena, e Günselí Turkay, de Istambul.

***

Olha, gostei muito e tals. Mas continuei sem entender qual é a do cavalo….

14 jan

Ganhei de presente do Mário Verdi o  livro do Charles Bezerra e só tenho uma coisa a dizer: adorei!

A máquina de inovação: mentes e organizações na luta por diferenciação” é muito bem escrito e dá para ler numa sentada. Charles Bezerra não apresenta nenhum conceito novo, mas consegue dar uma organizada geral nas informações sobre o processo de inovação nas empresas e na cabeça das pessoas de um jeito muito didático. Mas também, o moço está longe de ser fraco: doutor em Inovação pelo Illinois Institute of Technology, é uma das maiores autoridades brasileiras no assunto e representante da América Latina no Design Management Institute Advisory Council.

A tal “máquina de inovação” a que ele se refere é o nosso cérebro. Bezerra apresenta o que os principais autores falam sobre a questão da complexidade e da simplicidade, do darwinismo e sua aplicação nos conceitos relacionados à inovação;  discorre sobre a importância da modelagem, questiona o peso que damos aos números e às pesquisas de maneira crítica e inteligente; tudo isso permeado com experiências pessoais muito interessantes, como se a gente estivesse assistindo uma palestra.

A história que eu mais gostei foi da que relata a brincadeira que ele fez com o próprio filho pequeno. Eles combinaram que todos os dias antes de dormir, o pequeno poderia perguntar o que quisesse (é claro que ele poderia perguntar em outros horários, mas esse era um ritual). O pai responderia como pudesse, mas, em contrapartida, poderia fazer uma espécie de “teste” para ver o quanto do assunto tinha sido entendido (algo simples, como perguntas de confirmação). As dúvidas do menino eram algo como “o que é a luz?”, “por que não existem mais dinossauros?” e coisas do tipo, típicas das crianças, que ainda não perderam a curiosidade natural que vem de fábrica.

Além de aproximar pai e filho de um jeito maravilhoso, Charles instiga a curiosidade do filho que passa o dia procurando algo interessante para perguntar; eles se divertem muito e a brincadeira perdura há anos, para deleite de ambos. Bezerra está ansioso porque sabe que, em breve, os papeis serão trocados e ele será o perguntador. Tem jeito mais lindo e querido de educar uma criança?

Mas uma coisa tenho que confessar: achei muito curioso o fato do autor falar sobre a integração entre todas as áreas, sobre como as disciplinas não são isoladas e ter usado uma metáfora tão cartesiana para representar o cérebro humano: uma máquina. Exatamente como Descartes falava, quando ainda não se falava em integração e se considerava que para se resolver um problema, bastava que ele fosse dividido em partes inteligíveis até encontrar a “peça defeituosa”. Será que o autor se deu conta do anacronismo? Talvez tenha sido proposital (pelo que vi, ele estudou muito mais filosofia do que eu, você e a torcida do Flamengo; não deve ter passado batido). Mas, para mim, ficou essa lacuna.

Foi muito fácil gostar do livro porque percebo que penso de uma maneira muito parecida com a do autor: que aprender apenas para acumular conhecimento não serve para nada e que não se cria coisa alguma de maneira isolada. Como ele mesmo diz, é muito difícil dizer, nesse livro, o quanto do conteúdo é de autoria dele e o quanto é de seus influenciadores, as pessoas que ele estudou para chegar a essas conclusões.

E concordo em gênero, número e grau quando diz “Criar é um ato coletivo, mesmo quando acontece em uma mente isolada“.

Recomendo muito a leitura.

Ah, e antes que eu me esqueça: muito obrigada, Mário Verdi!

18 dez

Quando a pessoa acha que não tem mais nada para inventar em serviços, surge um hotel com uma ideia genial (não sei como chegaram nisso, mas pela quantidade de gente em Berlin trabalhando com design thinking, não me surpreenderia se soubesse que saiu de algum workshop).

O suntuoso Hotel Ellington, construído em 1931 e patrimônio arquitetônico protegido pelo governo alemão, conseguiu inovar de uma maneira impensável para um estabelecimento aparentemente tão conservador. E fez isso sem perder o glamour e a tradição que lhe são inerentes, veja só.

O empreendimento lançou um programa onde a faxineira tira férias por um dia. Como na Alemanha praticamente ninguém tem uma diarista para chamar de sua e são os donos da casa mesmo que fazem a limpeza, geralmente aos sábados, então a ideia é fazer os faxineiros tirarem férias na sua própria cidade (no meu caso, no próprio bairro). O programa se chama “Sie genießen und wir putzen” ou “Você aproveita e nós limpamos“.

A pessoa se hospeda por um dia no hotel e funciona assim: o táxi vai pegá-lo em casa sábado de manhã e da mesma condução desembarcam as camareiras do hotel que farão a limpeza na sua casa; é uma troca de papeis. Em vez da tradicional faxina de sábado, você vira turista por um dia e volta com a casa limpinha. Não é puro luxo?

Olha só o que o programa inclui:

- dois dias inteiros e um pernoite em quarto duplo (2 pessoas)

- café da manhã de sábado

- cinema de luxo no sábado à noite com poltronas reclináveis até quase a posição horizontal e apoios para os pés. Acompanha uma taça de vinho e tapas (pestiscos)

- jantar no restaurante estrelado do hotel com menu de 3 pratos (entrada, prato principal e sobremesa) e bebida inclusa

- brunch no domingo incluindo uma banda de jazz ao vivo e uma garrafa de espumante

- faxina completa para um apartamento na cidade de até 80 m2

Quanto custa? A bagatela de € 378,00.

E se você tiver um carro, ele estiver sujo e se você quiser aproveitar, por mais € 60 e eles dão conta do serviço também.

Ok, não é barato nem para quem mora aqui, mas o hotel é master-blaster-luxo e o serviço é de primeira. Na verdade, a faxina é só um detalhe, mas que faz toda a diferença na experiência do cliente (dá para pagar o mesmo em qualquer hotel de luxo e voltar para uma casa suja e bagunçada).

Pena que ainda não estou podendo, mas achei isso aí a minha cara. Assim que meu orçamento permitir (ainda vai demorar uns bons “par de anos”), experimento e conto como foi, ok?

Ah, isso não é propaganda paga não (pena…eheheh). Foi notícia no jornal de hoje (olha aqui).

28 nov

Imagem: Granado

Depois que ser inovador entrou na moda, tem empresa surtando de tal maneira que chega a colocar em risco sua própria marca.

Boa parte das organizações esqueceu-se de um ponto essencial: inovação é um meio, não um fim. O fim é seduzir o cliente e fidelizá-lo; para isso há que se entregar valor. E, não custa lembrar, inovação, principalmente a desmedida, nem sempre é percebida como valor.

Digo isso porque até semana passada, eu era cliente fiel do O Boticário (tinha até carteirinha).  Deixei de sê-la porque a empresa não me quer mais e me deu um pé.

Acompanhe.

Entrei numa loja do grupo para comprar uma loção de limpeza para o rosto que uso há anos; considero os produtos para a pele da marca excelentes. Até reparei que eles colocaram um moço para atender, que se apresentou como maquiador (adorei!).

Pois é, o drama começou quando pedi a tal loção. Todo feliz, ele explicou que a empresa estava inovando em tudo e que meu produto tinha sido substituído por um tônico (mais caro 50%, diga-se de passagem). Retruquei explicando que tônico e loção têm funções diferentes, portanto não poderiam ser a mesma coisa.

Ele insistiu, dizendo que era exatamente igual, só tinham trocado a embalagem (ó moço, não faça isso não; então você está me dizendo que a empresa finge que inova para cobrar mais caro?). Eu insisti que não poderia ser a mesma coisa. Eis que entra na conversa outra vendedora, explicando que a linha era muito inovadora e que a minha loção tinha virado uma espuma (mas era igualzinha, repetia, só tinha trocado a embalagem).

Bom, como vi que aquilo não ia nos levar a lugar algum, tentei um batom que uso há pelo menos 20 anos (sim, meninas, o lápis avelã, top seller da marca). Pois o rapaz, novamente empolgado (agora estávamos falando de maquiagem, seu metier), explicou que o batom estava para sair de catálogo e seria substituído por uma linha completamente nova. Aliás, ele me informou todo feliz que eles estavam inovando também a maquiagem que seria completamente renovada a cada estação, de maneira que nada daquilo estaria à venda dali a 3 ou 4 meses.

Trocando em miúdos, o que o moço disse foi  “experimente, mas não se empolgue muito, pois, se gostar, logo não vai ter mais para vender”.

Estranha maneira de fidelizar o cliente, não acham? Endeusando a malfadada inovação, eles tiram de linha os produtos mais básicos. Trata-se da arte de puxar o tapete dos próprios pés; sinceramente, não consigo entender. É como se uma pizzaria tradicional tirasse a margherita, a portuguesa e a muzzarela definitivamente e o cardápio fosse trocando os sabores toda semana. Gostou da pizza? Azar o seu, semana que vem não vai ter mais. É o preço da compulsão pela inovação.

Sim, é bacana inovar, mas é preciso ter uma base. Não se pode perder de vista que o tradicional pode ser um valor muito caro ao cliente (se não fosse assim, o que seria dos clássicos?).

Na mão contrária de O Boticário, deparei-me, encantada, com toda a linha Granado redesenhada, valorizando justamente seus clássicos: não apenas o famoso polvilho antisséptico, mas também toda uma linha de coisas novas, mas com os cheiros antigos que fundamentaram o desenvolvimento da marca. Donos também de outra marca tradicional, a Phebo, a organização está apostando forte na revalorização do vintage.

O redesenho das embalagens é lindo; destacou a tradição sem parecer velho. A Granado sabe que vai ser difícil copiá-la, simplesmente porque não dá para qualquer um abrir uma empresa hoje e contar uma história que começou em 1870. As peças todas conversam entre si, incluindo o site. Taí uma empresa que soube dar valor aos clientes fieis.

O Boticário, não contente em jogar fora seu maior ícone, a embalagem do perfume original, que era linda e icônica como uma garrafa da Coca-Cola, agora  surtou a ponto de dispensar seus clientes mais fieis.

Uma pena. Depois que a febre passar, não sei se vai sobrar muita coisa.

E o pior de tudo é que fiquei sem meu batom preferido…

23 nov

Uma das vantagens de se trabalhar em Belo Horizonte é que o coffee-break é uma coisa dos sonhos; faz uma semana que praticamente me alimento só de delícias aqui na terra do pão de queijo. Mas ontem teve um treinamento para a equipe de uma universidade que trouxe novidades hora do lanche. É que além das xícaras convencionais de café, apareceu um copinho inovador feito de papel.

Parece mais sustentável que a versão convencional de plástico, além de mais prático para armazenar. Achei a ideia ótima, mas acho que o design ainda tem alguns pontos que precisam ser aprimorados.

Quando a gente enche o saquinho-xícara com café quente, ele não consegue isolar o calor e pode até queimar os dedos. Por causa disso, fica difícil de segurá-lo e a gente acaba pegando por baixo, onde tem a parte da emenda, que é mais larga.

Tomar o café também é uma sensação um pouco estranha, pois o copinho é mole (o papel parece craft, aquele de embrulho). A parte boa é que não vaza café e o saquinho continua perfeito depois que a pessoa esvazia o conteúdo, podendo ser reutilizado como qualquer xícara comum.

Olha, gostei da ideia, mas minha sugestão é que tenha uma parte mais grossinha na lateral (algo que lembrasse uma asa) que servisse de apoio para a pessoa segurar sem se queimar.

Olha só que interessante (o designer Beto Ferris, que estava fazendo o curso, serviu de modelo sem cobrar cachê!!).

E você, o que achou?

20 nov

Gente, já recebi de 3 fontes diferentes além de ter visto pelo menos duas postagens no Facebook e no Twitter: o vovô modelo.

A história é a seguinte: um grupo de 5 jovens estilistas recém-formados abriu uma empresa e o avô de uma das moças, o sr. Liu Xianping, de 72 anos, resolveu vestir as roupas para testar as combinações. A questão é que o vovô vanguardista tinha um talento até então insuspeitado, pois sabia muito bem combinar as criações da turma com muito charme. A neta adorou (quem não adoraria?) e ele virou modelo oficial da grife.

O detalhe é que o sr. Xianping se veste de mulher (achei-o elegantíssimo) e por isso o pessoal que se diz muito inovador fica rindo e ridicularizando tanta audácia nas redes sociais. Mas o vovô, que já passou da idade de se preocupar com o que os outros pensam (o pessoal que riu dele vive postando mensagens falando isso, veja só o paradoxo) não está nem aí. Ele afirma que nunca se divertiu tanto e que as sessões de foto são uma experiência ótima para todos os envolvidos. Parabéns para os estilistas que deixaram as convenções de lado e realmente fizeram algo novo apoiando essa estética pouco convencional.

Certo ele, viu? Adorei esse vovô modelo e penso que se a maioria das pessoas pensasse na dissonância entre o que pregam e o que fazem iria achar legal também.

Tem lição de vida mais linda que a desse senhor, que subverteu as regras, desafiou o status quo e criou uma nova referência estética para todos nós?

Chupem aí, netinhos caretas! O vovô Xianping é o cara!!! Linnnndo!!!!

Liga não, vovô. É pura inveja de gente que adoraria ter o seu charme e esse corpitcho elegantérrimo…eheheheh

22 ago

Olha só que ideia maluca, engraçada e muito ousada o designer Sang-soon Lee inscreveu no concurso Electrolux Design Lab; ele ficou entre os 30 finalistas (tem outras coisas interessantes, olha aqui). Ele bolou uma máquina de lavar roupas em forma de bambolê; enquanto você rebola, sua roupa fica limpinha. Taí uma boa parceria entre academias de ginástica e lavanderias, não acha?

É claro que é um produto conceitual e não dá para lavar lençóis desse jeito; mas achei muito bacana a capacidade que o sujeito teve de pensar numa coisa dessas. Adorei!!

Fiquei sabendo pela newsletter do Yanko Design.

10 mai

Fotografia: Anthony Redpath

Na semana passada(*) o mundo ficou conhecendo os ganhadores do Prêmio Nobel, que, de acordo com o testamento de Alfred Nobel, determina a premiação das descobertas que mais beneficiaram a humanidade. O prêmio é disputadíssimo e o sonho de consumo declarado de boa parte de gente que dedica a vida à pesquisa científica, à literatura e à política.

Mas o que muita gente não sabe é que nessa época são laureados também os ganhadores do IG Nobel, um trocadilho bem-humorado do prêmio com a palavra ignóbil, ou infame. O IG Nobel é organizado pela Universidade de Harvard desde 1991. Os trabalhos são analisados por uma comissão multidisciplinar que inclui atletas, autoridades políticas e científicas, e vários ganhadores do Prêmio Nobel original.

O objetivo é celebrar o incomum, honrar a imaginação e despertar o interesse das pessoas pela ciência, medicina e tecnologia, tudo com muito bom-humor. Nesses tempos de culto à inovação, nada mais bem-vindo.

A cerimônia acontece em Harvard para uma exclusiva audiência de 1.200 pessoas e a platéia tem o tradicional hábito de jogar aviõezinhos de papel no palco durante o evento. Assim, laureados com o Nobel (sim, aqueles sisudos cientistas ganhadores dos prêmios de física, química e economia, entre outros) varrem (sim, com vassouras mesmo) os aviõezinhos no palco. Eles se protegem com chapéus chineses para não serem atingidos pelos petardos e passam a cerimônia inteira varrendo. Às vezes interrompem a labuta para entregar algum prêmio, pois todos os IG Nobel são entregues por Nobels autênticos.

A idéia é contemplar pesquisas e patentes improváveis. Os premiados de cada ano têm os seus artigos publicados em um livro com uma linguagem mais acessível. Veja alguns exemplos de ganhadores:

Neste ano, Gregg Miller, de Missouri, ganhou o prêmio de medicina por ter inventado e patenteado uma prótese artificial de testículos para animais de estimação castrados. A prótese é vendida em vários tamanhos nas versões Original (rígida), Natural (macia) e Ultra-plus (super-macia).

Pesquisadores da Universidade de Newcastle, na Inglaterra, levaram o prêmio por submeter gafanhotos a trechos escolhidos do filme Guerra nas Estrelas e monitorar a sua atividade cerebral. O trabalho foi publicado no respeitado Journal of Neurophysiology em 1992.

Na área de economia, Gauri Nanda, do celebrado Massachusetts Institute of Technology defendeu o uso de sua invenção, o despertador que toca e se esconde repetidamente, como fator para o aumento da produtividade de trabalhadores.

A Universidade de Minnesota levou o prêmio de química com o inusitado trabalho investigativo concebido para responder à seguinte pergunta: as pessoas nadam mais rápido na água ou no xarope?

Em biologia, uma equipe de estudiosos de várias universidades espalhadas pelo mundo se uniu para pesquisar os odores das secreções expelidas por 131 espécies de sapos quando submetidos a situações de stress.

O destaque para a área de dinâmica dos fluidos foi para o trabalho desenvolvido por pesquisadores alemães, finlandeses e húngaros, que estudaram a pressão produzida por um pingüim quando ele produz flatulências e defeca. Os gráficos e cálculos são impressionantes!

Dois trabalhos fantásticos premiados na categoria medicina em anos anteriores: uma equipe da Universidade de Detroit se concentrou em analisar o efeito da música country em suicidas e a University College of London mostrou evidências científicas que os motoristas de táxi londrinos possuem o cérebro mais desenvolvido que a média dos moradores de Londres. Essa prestigiosa universidade contribuiu também com o incrível estudo sobre a assimetira escrotal de homens em esculturas antigas.

Ainda em medicina, merece destaque o trabalho de Peter Barss da McGill University que analisou os danos causados nas pessoas provocados por quedas de côcos. Ele publicou o artigo no famoso The Journal of Trauma.

Em química, um dos prêmios foi para o estudo de uma universidade japonesa sobre o motivo pelo qual a estátua de bronze localizada na cidade de Kanazawa não atrai pombos.

Estudos de psicologia impressionaram a comissão julgadora, que premiou o trabalho realizado na Holanda sobre o primeiro caso cientificamente comprovado de necrofilia homossexual praticada por um pato selvagem. Tem também o estudo da Universidade de Estocolmo que explica as razões científicas pelas quais as galinhas preferem as pessoas bonitas.

Ainda sobre animais, estudiosos japoneses publicaram no Journal of the Experimental Analysis of Behavior um relevante artigo em que relatam um método para treinar pombos para diferenciarem uma pintura de Monet de outra de Picasso.

Em física, cabe destacar a experiência realizada por estudiosos ingleses e holandeses que descreveram a experiência de fazer um sapo levitar com o auxílio de magnetos. A Universidade inglesa de Aston finalmente provou cientificamente porque o pão sempre cai com a manteiga para baixo. Um utilíssimo software que detecta automaticamente quando um gato caminha sobre o teclado do computador também foi premiado.

Matemática e estatística são duas grandes fontes inspiradoras para o IG Nobel: um indiano publicou no Veterinary Research Communications, o cálculo da área total de superfície ocupada por todos os elefantes indianos. Mas o artigo de estatística que mais provocou curiosidade foi o que descreveu as relações métricas entre o peso, o comprimento do pênis e o tamanho dos pés de um homem, realizado por pesquisadores das Universidades de Toronto e Alberta, no Canadá. Ficou curioso? Na conclusão do trabalho eles provaram que não há uma relação entre as medidas, isso não passa de um mito!

Os organizadores do IG Nobel lembram que os trabalhos premiados têm uma característica em comum: primeiro as pessoas não acreditam que alguém possa tê-los feito; depois elas riem; ao final, pensam.

De tudo isso, o que se tira é que o desenvolvimento humano precisa do inusitado, do improvável, do incomum, do ousado e do ridículo para acontecer. E, mais do que tudo, da capacidade de rir de si próprio, mesmo que você seja uma celebridade ganhadora do Prêmio Nobel.

Quer saber mais sobre o IG Nobel? Vá lá: http://www.improbable.com

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(*) Esse texto é de 2005, mas como ando lendo muita coisa sobre inovação, não podia deixar de compartilhá-lo. Vou dar uma pesquisada e postar os ganhadores mais recentes nas próximas semanas; aguardem!

7 mai

Contar histórias sempre foi uma coisa bacana, mas agora virou hype, e inclusive ganhou um nome fashion à altura: agora só se fala em storytelling.

Pois eu não queria ficar de fora dessa e juntei mais um livro à minha coleção dedicada ao tema. A obra da vez é “The story factor: inspiration, influence, and persuasion through the art of storytelling“, de Annette Simmons.

Que contar histórias é uma arte antiquíssima e desde sempre valorizada não é novidade nenhuma (vide a Bíblia, a Ilíada e as mil e uma noites de Sherazade, só para citar alguns velhos e batidos exemplos). Mas não faz assim tanto tempo que o mundo dos negócios se deu conta do poder da ferramenta; pois é desse café que a autora quer beber.

Annette começa citando uma frase linda de Isak Dinesen: “Ser uma pessoa é ter uma história para contar“. Ela não diz, mas penso que se os entrevistadores de emprego se dessem conta disso, relaxariam e simplesmente pediriam para o candidato contar sua história. Dá para saber quase tudo: o que ele valoriza, como enfrenta as situações, se é vaidoso, se é realmente proativo, se sabe de fato trabalhar em equipe, se sabe ou não compartilhar méritos, se tem peninha de si mesmo ou se gosta de desafios. Muito melhor e mais divertido do que ficar esperando ele dizer que seu maior defeito é ser perfeccionista, convenhamos.

A ideia central é usar as histórias para influenciar o comportamento das pessoas; ela defende que é muito melhor você demonstrar quem é por meio de uma personal novelinha do que ficar exibindo com falsa modéstia suas qualidades. Mas atenção, a moça adverte: jamais subestime a inteligência de quem está ouvindo. E enfatiza: “jamais, jamais, jamais conte uma história para alguém que você não respeita“. A pessoa percebe instantaneamente e sim, vai interpretar isso da maneira que você imagina.

A autora diz que a galera não precisa de mais informações; já está afogada nelas. O que o pessoal realmente quer é acreditar (em você, nos seus objetivos, na sua visão, na história que você tem para contar). Ela brinca que a fé é que move montanhas, não os fatos. E a fé é despertada por histórias, fato.

Annette diz que a história é como se fosse uma roupa que a verdade veste para que as pessoas possam se abrir para recebê-la (sim, as mentiras ficam com o bumbum de fora e todo mundo percebe). Se a verdade ficar batendo nas casas nua em pelo, o povo se assusta não abre a porta de jeito nenhum.

Ela ainda diz que a diferença entre dar exemplos e contar uma história está nos elementos de emoção e nos detalhes sensoriais dessa última. Isso faz com que as histórias, ao contrário dos simples fatos, sejam multidimensionais, e por isso, muito mais poderosas.

Simmons defende que os treinamentos das empresas não deviam usar regras escritas, pois elas ignoram completamente a mente de quem está na ação. Se em vez de princípios e receitas de comportamento, os profissionais fossem treinados com histórias, eles poderiam ser mais criativos na hora de resolver problemas.

Ainda não cheguei no final do livro (que tem poucas histórias para o meu gosto, apesar de muito interessante), mas até agora não se falou que essa poderosa ferramenta também tem um potencial enorme para múltiplas e indesejadas interpretações, completamente fora do controle de quem quer que seja (olha só o que fizeram com as parábolas da Bíblia). O negócio de fato tem poder, mas penso que não é para amadores não…

De qualquer maneira, lembrei-me da ótima contadora de histórias Rosana Hermann (que, não por acaso, é roteirista profissional entre outras coisas). Estávamos conversando sobre o assunto e ela compartilhou comigo uma teoria genial que adorei.  A Rosana diz que, no Brasil, as pessoas não mudam o comportamento simplesmente pela exposição dos fatos; elas querem histórias que conquistem e seduzam.

A ideia da moça é aproveitar as superstições que já são tão presentes na nossa cultura para mudar comportamentos. O plano é inventar novas superstições e espalhá-las massivamente com histórias do tipo: fazer xixi no muro faz o pinto do machão murchar depois de um tempo, ou; roubar dinheiro público provoca doenças fatais na família inteira da pessoa, ou; desviar verba da merenda faz o dedão do pé cair, ou; roubar celular faz o larápio ficar manco da perna esquerda para sempre… enfim… criatividade é o que não nos falta, nem bom-humor. E as pessoas acreditam em qualquer coisa apresentada com um mínimo de consistência (vide as franquias religiosas que proliferam desenfreadamente e as correntes de hoax não me deixam mentir).

Como a Rosana, acredito que isso que ela chama de “superstição cidadã” (nome mais que ótimo, nénão?) funcionaria muito mais do que qualquer outra campanha feita até agora. O pessoal adora acreditar em qualquer coisa, então vamos usar isso para o bem!

Por falar nisso, você sabia que as pessoas que param de ler minha coluna toda semana ficam impossibilitadas de soletrar a palavra superstição para o resto da vida? Olha, acho melhor não arriscar, vai que…

1 mai

Ilustração: Charis Tsevis

Essa é daquelas perguntas que valem um milhão, e Steven Johnson resolveu ser atrevido o suficiente para tentar respondê-la em “Where good ideas come from: the seven patterns of innovation“. Olha, preciso dizer: se ele não acertou, chegou muito perto. O sujeito pesquisou bastante e descobriu coisas muito interessantes.

Ele começa incinerando o mito do gênio solitário. Steven faz uma analogia com a teoria da evolução darwiniana e explica que a vida, assim como as ideias, depende principalmente do ambiente favorável e das conexões para existir. As ideias nunca são isoladas; tanto na escala do nosso cérebro, onde zilhões de neurônios não servem para nada se não estiverem conectados (e quanto mais conexões e recombinações, melhor), como nas dimensões de uma organização, uma cidade ou um país.

Johnson estudou mais ainda e identificou 7 padrões ambientais/comportamentais para o desenvolvimento de novas e boas ideias. Veja se você tem aí tudo o que precisa.

1. Adjacente possível. As ideias vão evoluindo a partir de outras; o adjacente possível trata das combinações que você pode fazer em cada estágio. Usando a teoria darwiniana, Steven dá o exemplo do caldo primordial na formação do planeta: com aqueles elementos, era possível um determinado número de combinações. Cada combinação dá origem a outro tanto de variações, numa sequência que pode formar uma célula. Daí, mais combinações, variações e possíveis resultados. O que ele quer dizer é que é preciso explorar as possibilidades adjacentes (alcançáveis nesse estágio evolutivo) para seguir adiante; não dá para pular direto de uma célula para um hipopótamo. Johnson fala que o adjacente possível é como as portas de uma sala. Cada uma que você escolher abrir, vai dar em outra sala, com outras portas e o desdobramento é infinito. Mas não dá para pular salas inteiras, tem que percorrer todo o caminho. Ele dá exemplos de invenções que não deram certo porque foram desenvolvidas numa época em que os adjacentes possíveis, ou seja, as portas disponíveis para serem abertas, não eram suficientes ou adequadas (a porta necessária estava a duas ou 3 salas de distância). Um exemplo: o Youtube não seria o sucesso que é se tivesse sido criado nos anos 80, pois a web não comportava vídeos com as facilidades de hoje e ainda não tinha banda larga. Então, antes de desenvolver uma ideia, tem que dar uma olhada nas portas para ver o desdobramento imediato. Às vezes, é preciso esperar mais um pouco.

2. Redes líquidas. Agora uma notícia até que óbvia, mas que me deixou um pouco chocada: praticamente não dá para inovar em cidades pequenas. Na verdade, não é que não dê, mas em metrópoles, as possibilidades de conexões (e adjacentes possíveis) são muito maiores, o que torna o ambiente mais favorável. Cidades grandes são comprovadamente mais criativas do que vilarejos. Steven comenta que já se buscou muitas definições para a palavra ideia remetendo a raios, lâmpadas, flashs, epifânias e eurekas, mas passaram longe do que realmente as ideias são. Para Johnson, boas ideias são conexões. Em princípio, conexões neuronais na cabeça de alguém. Mas essas conexões são resultado de outras conexões externas (experiências, informações, etc). Para se ter boas ideias, são necessárias duas precondições: uma grande rede (não é possível ter ideias geniais com apenas 3 neurônios, por exemplo) e que essa rede tenha capacidade de adaptar e adotar novas configurações. Mas há que se prestar atenção: não é que as redes sejam inteligentes; os indivíduos é que se tornam mais inteligentes quando se conectam nela. Esse é o motivo pelo qual, cidades maiores conseguem ser mais propícias a boas ideias; elas reúnem mais pessoas diferentes, culturas, modos de organização. Enfim, o caldo é mais rico. Quando o indivíduo se conecta nessa rede, tem mais elementos para recombinar; seu adjacente possível aumenta com o tamanho da rede em que está inserido. A mesma coisa vale para empresas; se elas estão conectadas com outras, ou seus próprios funcionários estão ligados, a possibilidade de ter boas ideias aumenta.

3. A intuição lenta. Como Malcom Gladwell (Blink) já demonstrou com muita propriedade, a intuição é quando nosso cérebro trabalha em background com todas as conexões que conseguiu acumular sobre aquele assunto e outros, correlatos ou não, até a hora que a linha de raciocínio de completa. Aí, a pessoa fica achando que teve um palpite, uma epifânia, sai gritando eureka feito doida. Mas o trabalho é  bem mais lento do que se imagina. As conexões levam anos para encontrarem um caminho de se ligarem umas às outras e também dependem dos adjacentes possíveis. Por isso é que Steven critica os brainstormings da maneira como são feitos; a probabilidade das conexões entre os participantes encontrarem um caminho entre os adjacentes possíveis em tão pouco tempo é bastante improvável.  O autor recomenda que todas as ideias e informações sejam registradas e revistas frequentemente (hábito que Darwin tinha).

4. Serendipitia. Essa palavra tem origem em um conto persa, onde três reis foram visitar uma princesa e descobriram no caminho várias coisas que não estavam procurando. Serendipitia é encontrar soluções por acaso (exemplo clássico forno de microondas, que foi inventado depois que um pesquisador descobriu que ele derretia os chocolates em seu bolso). Para isso, é preciso provocar constantemente conexões inusitadas e pensar sobre como elas poderiam ser desdobradas; mas o histórico de conexões internas tem que estar preparado para a sintonia, senão nada acontece. A web pode ajudar bastante quando a gente surfa e encontra assuntos interessantes que não estava procurando, por exemplo, mas a mente tem que estar preparada, senão é só perda de tempo mesmo. Outra coisa curiosa (mas também óbvia) é que não se faz conexões inusitadas na ordem; isso funciona mais no caos.

5. Erros. As pessoas que têm mais boas ideias, também erram mais (é claro, elas fazem mais conexões). O engraçado é que às vezes a gente acha que existe um erro só porque não tem explicação para o fenômeno. Os cientistas que descobriram sinais do Big Bang levaram mais de um ano achando que as manchas que estavam enxergando eram problema do telescópio (e às vezes é mesmo, não há como saber).

6. Exaptação. Esse é um termo emprestado da biologia, que descreve organismos otimizados para funções específicas, mas que depois foram usadas para outros fins com sucesso. Na inovação, o exemplo clássico é a prensa de Gutenberg, que foi inspirada nas prensas de uva para fazer vinho. Ou a World Wide Web, que nasceu dentro de um laboratório para servir de plataforma de pesquisa para hipertextos e hoje serve para tanta coisa que ninguém tinha pensado antes. Ou ainda o GPS,  que foi concebido para fins militares e agora é onipresente nos táxis das cidades grandes.

7. Plataformas. Nenhuma boa ideia começa do zero; há que se apoiar sempre nos ombros de gigantes, como já dizia o grande Isaac Newton. Se você usou plataformas abertas (sejam tecnológicas, matemáticas, literárias, artísticas ou o que for) para desenvolver sua ideia, seja generoso e também deixe sua plataforma disponível para os que vêm a seguir. Todo mundo ganha assim.

Johnson ainda fala mais sobre a tendência crescente do desenvolvimento de ideias em rede. Vale a pena  saber mais.

Por último, ele consegue resumir o livro todo num parágrafo: “Saia para caminhar; cultive intuições; anote tudo, mas mantenha suas anotações um pouco bagunçadas; abrace a serendipitia; cometa erros criadores; tenha múltiplos hobbies; frequente cafeterias e outras redes líquidas; siga os desdobramentos; deixe os outros construírem sobre suas ideias; empreste, recicle, reinvente. Construa uma base de contatos emaranhados.

Mais um motivo para amar Berlin. E eu nem sabia.

26 mar

Para o povo que acha que reality show é sinônimo de Big Brother (já deu né Bial?), olha só que ideia ótima vinda diretamente do Oriente Médio. Engenheiros e engenheiras de países como Síria, Egito, Kuwait, Líbano, Iraque e Tunísia  ficam confinados numa casa para inventarem coisas. Eles criam, testam, orientam, avaliam e até discutem política, veja só.

O objetivo do programa, chamado “Stars of Science” é encontrar os melhores inventores da região; há eliminação toda semana e os 4 últimos sobreviventes dividem o prêmio em dinheiro para começar um negócio e explorar comercialmente as respectivas invenções. Eles têm o livro do Alex Osterwalder (Business Model Generation) como referência inicial e os árabes estão vibrando com o concurso, que já está na quarta edição e rendeu invenções revolucionárias.

Bom, caso alguém tenha se esquecido, os árabes lideraram a matemática, a física e a química por vários séculos; não é à toa que, em vez de algarismos romanos, nós ocidentais usamos algarismos arábicos; os caras não são fracos já faz muito tempo.

Eu se fosse a Globo começava a prestar mais atenção nesse negócio. Já pensou se em vez de sonhar em posar para a Playboy ou G Magazine nossos jovens aspirantes à fama começassem a querem ser engenheiros, designers, matemáticos ou físicos? Não apenas a educação do país e o desenvolvimento tecnológico do país sairiam ganhando, como a programação da TV ficaria mais divertida. Fica a dica.

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Fiquei sabendo pelo ótimo Mosca Branca, onde tem um link para uma reportagem na Wired e um vídeo no Youtube.

25 mar

Minha mãe não acredita, mas adoro comer (mãe sempre acha que a gente está magrinho demais). Gosto tanto que paro quando não sinto mais o sabor (lá pela décima garfada), o que me faz sempre preferir bistrôs com vários pratos enfeitadinhos e caprichados a churrascarias rodízio e buffets livres.

Os economistas sociais já descobriram que a primeira mordida é sempre mais deliciosa que a última, pois nosso corpo (incluindo a língua) se acostuma e se adapta com muita facilidade; o que era sensacional no começo fica chato num instante.

Pois o genial chef catalão Ferran Adriá sabe muito bem disso. O moço simplesmente reinventou a gastronomia como nós a conhecemos. A biografia do mais festejado, polêmico, inventivo e ousado chef de cozinha dos últimos trocentos anos é uma aula de inovação para qualquer um que se interesse tanto por gastronomia como por inovação.

O livro “Ferran: the inside story of El Bulli and the man who reinvented food“, de Colman Andrews (um respeitado crítico de cozinha americano) começa contando a história do lendário restaurante El Bulli, instalado num lugar ermo, de difícil acesso, nos confins da Catalunha, e que mesmo assim conseguiu 3 estrelas da bíblia da gastronomia mundial, o guia Michelin. O restaurante, construído pelas mãos dos proprietários (os Schillings, um alemão e uma tcheca), nasceu como um bar de praia em 1962, e foi aos poucos se transformando num lugar respeitado graças aos investimentos e espírito inovador de seus idealizadores.

Para quem estuda inovação, é interessante notar a influência da liderança do Dr. Schilling no processo de amadurecimento do lugar. A Catalunha também aparece como um ambiente propício para a inovação culinária, dada à sua proximidade com a fronteira francesa e toda a cultura gastronômica resultante daí bem como a abundância e variedade de ingredientes locais.

Os chefs que passaram pelo lugar eram todos estrelados, mas os negócios nunca foram um sucesso financeiro. Quando Ferran chegou lá, aos 22 anos, já tinha passado por muitas experiências em restaurantes consagrados e o paladar já estava apuradíssimo. Em 1994, com o restaurante quase falindo, Ferran e o gerente do El Bulli, Juli Soler, compraram o lugar. Eles já usavam o período de inverno, quando o estabelecimento fechava, para fazer experimentos e criar novos pratos; mas a partir daí a atividade ficou mais intensa.

Ferran tem uma visão muito particular sobre o trabalho de um chef: “quando você cozinha, você cria uma conversação com quem vai comer. Com a cozinha de vanguarda, você cria uma nova linguagem de conversação. Para fazer isso, seu primeiro trabalho é criar um novo alfabeto. Então você faz as palavras, depois você cria as sentenças. Como cliente, você tem que ter boa vontade para tentar entender essa nova linguagem“.  Ele sabe que nem todo mundo aprecia essas novidades, mas não se incomoda. “A cozinha de vanguarda é para uma minoria. Jazz também é para uma minoria e não há nada de errado com ele; é maravilhoso“.

Pois foi exatamente isso que o chef mais famoso do mundo fez: reinventou o alfabeto da comida. Ele começou inserindo ingredientes catalães, como frutos do mar e alguns temperos, na clássica cozinha francesa, que ele dominava como poucos. Depois, começou a pensar em como poderia isolar o sabor de um ingrediente até que ele ficasse completamente puro, num estado em que pudesse ser recombinado com outros sabores também puros. O moço, que na época ainda nem tinha 30 anos, usou técnicas menos usuais em cozinhas e mais frequentes em laboratórios, pois, além da caramelização, defumação e processos semelhantes, também começou a experimentar a liquefação, a emulsificação, o ultra-congelamento com nitrogênio líquido, a esferificação e a produção de espumas e aerados.

A exigência com ingredientes da melhor qualidade fez com que os sabores isolados pudessem ser experimentados em outras dimensões. Usando as palavras do chef: “não apenas um dos sentidos deve ser estimulado; o tato pode ser provocado (contrastes de temperaturas e texturas), o olfato e a visão (cores, formas, ilusões de ótica) e o sexto sentido (reações emocionais como memórias de sabores de infância)”.

O El Bulli costumava receber apenas clientes com reservas; na ocasião, havia uma breve entrevista para conhecer as preferências e restrições alimentares de cada um dos comensais. No dia do jantar, uma sequência de aproximadamente 30 pratos eram servidos; um menu especial era preparado para cada uma das pessoas presentes. Cada prato, inspirado nas tapas andaluzas, era uma experiência gastronômica única; porções pequenas, mas altamente elaboradas para surpreender e encantar. Também não havia hierarquia entre entrada, prato principal e sobremesa; depois de uma única framboesa grelhada flambada com gin e zimbro, podia vir um crepe de camarão cortado em folhas finíssimas e fritas com gergelim e pimenta fresca, seguido de um sorbet de saquê coberto com espuma de ostras e tônica. Enfim, não havia como ficar indiferente. Para o restaurante, era um trabalho hercúleo, pois, com lugar para cerca de 50 pessoas, eles precisavam preparar mais de 150 diferentes tipos de pratos a cada noite.

Claro que um jantar desses não é para matar a fome; é uma experiência gastronômica para estimular os sentidos e ajudar a refletir sobre os sabores e prazeres; Darwin já dizia que a gastronomia era a maior descoberta do homem depois da linguagem. O El Bulli está mais para uma mostra de arte conceitual do que para uma cantina italiana, mas tenho certeza de que eu sairia de lá feliz e satisfeita.

Adriá é um espírito inquieto; depois de tanto sucesso, fama, capas de revistas no mundo todo e ser referência para qualquer um que estude gastronomia (ou inovação), ele mantém até hoje uma oficina de experimentação com vários chefes explorando as diferentes possibilidades de se construir pratos que surpreendem o paladar, com texturas e formas impensadas (a esferificação é uma técnica que transforma o ingrediente em algo parecido com sagu; imagine um sagu de lagosta, com o sabor concentrado ao máximo).

Por causa dessas mirabolâncias e sem ter com quem comparar, um crítico chamou sua cozinha de molecular. Ora, todo o processo de preparação de comidas é molecular (ao assar, cozinhar, fritar, marinar, etc, as moléculas são realmente alteradas); Ferran, que não quer ser apenas uma moda, não gosta de rótulos e rejeita esse especialmente. Ele diz que sua cozinha é desconstrutivista, do tipo El Bulli e nada mais.

A capacidade de inovação do chef é algo a ser estudado com bastante afinco; há que se aprender muito tentando entender como a cabeça desse gênio funciona. Agitado, ele já passou meses no atelier do escultor catalão Xavier Medina-Campeny estudando arte e compartilhando processos criativos;  sempre se pergunta por que não e testa suas ideias sem nenhuma restrição (deve ter estragado muita comida no processo).

O El Bulli fechou em 2010 (pena!) e Ferran comprou uma grande área na Costa Brava para construir uma fundação totalmente integrada à natureza que vai funcionar como um grande centro de estudos gastronômicos. Lá haverá laboratórios e locais para palestras, cursos, workshops e, espero eu, um restaurante-escola.

Ferran já deixou sua marca no mundo e a gastronomia, gostem seus críticos ou não, nunca mais foi a mesma depois do El Bulli. Aliás, uma curiosidade: Bulli era o apelido do cão bulldogue dos Schillings, fundadores do restaurante.

Pois é, depois disso tudo me deu uma baita fome. Mas é de alguma coisinha que ainda não sei o que é, sabe como, Sr. Adriá?

16 mar

Fotografia: Jeffrey Vanhoutte

Fazia um tempo que eu não postava ideias impossíveis (olha ali na nuvem de categorias; tem até uma específica para isso); tudo começou com esse post aqui. A questão é que quando se fala em inovação, esse exercício é bem importante para manter os músculos da criatividade em forma.

Então vamos parar de enrolação e partir para as 3 ideias impossíveis da semana (tem que recomeçar devagar, estou bem enferrujada)…

Microfone melódico: não importa se você está rouca, se tem voz de taquara rachada ou se desafina até para rir. Quando você fala nesse microfone, sua voz fica igualzinha à da sua cantora favorita. Já pensou uma palestra com a voz da Marisa Monte? Eu quero!

Sorvete com nanorobôs faxineiros: é só você sempre deixar para tomar o sorvete por último e pronto, os nanorobôs limpam os seus dentes nos mínimos cantinhos; fica melhor até do que a limpeza semestral no dentista. Escovar os dentes, passar fio dental, limpar a língua, nunca mais. É só tomar um sorvetinho antes de dormir (sabores a escolher).

Chip poliglota: você usa o chip como brinco e automaticamente passa a falar fluentemente a língua de sua preferência, e sem sotaque! Não vejo a hora de lançarem a versão em alemão…

E você, já pensou nas suas ideias impossíveis hoje? É difícil, mas não impossível :)