Será o ócio mesmo criativo?

IMG_9737

Há alguns anos, o pesquisador Carel van Schaik, especialista em primatas, fez uma escada de corda para pendurar seus instrumentos de medição numa das árvores em uma floresta na Sumatra. Os macacos que frequentavam o local simplesmente ignoraram. Na época, ele não pensou muito a respeito, mas depois, em outras pesquisas e vendo como os macacos costumavam ser inteligentes e curiosos, ficou intrigado com o caso. Como assim os orangotangos sequer prestaram atenção aqueles objetos totalmente inéditos para eles?

O jornal Die Zeit, que publicou Muße küsst Affe (Ócio beija macaco), conta que Schaik ficou surpreso com a resposta que encontrou para o enigma:  o ócio (sim, aquele mesmo de que falava o italiano Domenico de Masi). Quanto estão no habitat natural, os orangotangos estão preocupados em construir abrigos, escapar de predadores e conseguir comida. Eles não têm tempo para pensar, brincar ou ficar imaginando coisas. Toda energia é focada na sobrevivência. Novidades, inclusive, são vistas como ameaças (melhor não se aproximar de objetos estranhos).

Schaik repetiu a experiência, dessa vez com flores e frutas de plástico, além de bichos de pelúcia, nas florestas indonésias de Bornéu e Sumatra. Mesmo resultado; os macacos nem ao menos tomaram conhecimento. Mas quando colocou os mesmos objetos à disposição dos orangotangos em zoológicos de Zurique e Frankfurt, precisou de apenas alguns segundos para despertar a curiosidade dos bichos. Os brinquedos foram desmontados, separados em partes e cuidadosamente analisados.

A pergunta estava posta: será que os animais do zoológicos são mais curiosos e criativos, ou apenas mais entediados?

Para o pesquisador, as duas coisas são compatíveis. O tédio pode ser um forte fator para o desenvolvimento da criatividade. Para ele, pensar em arte, filosofia e até ciência, só é possível depois que as necessidades básicas já tiverem sido atendidas (faz sentido, se a gente se lembrar da pirâmide de Maslow). Os animais, num bom zoológico, se estão em um ambiente confortável e conhecido, podem gastar seu tempo brincando, aprendendo e pensando; o exato oposto de quem precisa lutar pela sobrevivência.

A ideia de zoológicos me incomoda bastante, principalmente quando os enjaulados são macacos. Mas a conclusão da pesquisa não deixa de ser interessante.

Não dá para pedir para uma pessoa que leva quatro horas indo e voltando do trabalho e mais oito cumprindo a jornada, além das tarefas domésticas e outras obrigações, que ainda por cima tenha grandes ideias. Ela realmente não tem cabeça para isso; está concentrada em sobreviver e encontrar um meio de pagar as contas. Quando uma população está exausta tentando obter o básico da sobrevivência, fica muito difícil se concentrar em ideias mais complexas, em ampliar o repertório, em aprender coisas diferentes.

Mas aí fiquei pensando que a falta e a necessidade de sobrevivência também provocam a busca de soluções criativas para problemas cotidianos; os livros, jornais e portais de internet estão cheios de casos assim, o que, de certa maneira, confronta os resultados da pesquisa com os orangotangos.

Não sei, mas talvez a curiosidade e a criatividade sofram mais influência da cultura do que o ambiente. Num zoológico, além do tédio e da segurança, o macaco que descobre alguma coisa interessante para brincar deve fazer sucesso no meio e, por isso, de alguma maneira é incentivado a procurar novidades. Na selva, o sucesso se chama comida; qualquer outra novidade é desaprovada pelo bando.

Numa sociedade de humanos, a situação é análoga, mas penso que há grupos que, mesmo com dificuldades de sobrevivência, de alguma maneira valorizam o curioso, o original, as soluções engenhosas. De certa forma, a criatividade acaba sendo estimulada porque a aceitação social passa por ela. Se a pessoa não consegue o sucesso pelo dinheiro (que seria a comida, para os macacos), consegue ser admirada pela criatividade.

De qualquer maneira, é só um achismo, pois não tenho nenhum estudo para fundamentar isso. Mas que fiquei com a pulga atrás da orelha, fiquei. E ela pulou de um orangotango…

Nota: tempo e ócio são fundamentais para a criatividade; sem tempo de relaxamento, não há como organizar as ideias, faz parte do processo (meu texto Tempo para criar fala mais sobre isso). O que estou discutindo aqui é a motivação; se é a falta do que fazer, como defende o artigo do jornal Die Zeit,  ou se é aceitação social (uma ideia que me ocorreu, mas totalmente sem fundamento).

Esse nem parece banco. Mesmo.

Uma das palestras sobre inovação e design thinking que vou ministrar no Brasil nessa semana e na outra é para um banco. Como as apresentações são sempre personalizadas para cada cliente, fui pesquisar cases de inovação em bancos, claro. Lembrava de ter lido algo sobre um banco alemão, mas há muito, muito tempo mesmo, quando […]