Arquivo de ‘livros’

2 jun

Quando me mudei para cá, em agosto de 2011, recordo o desespero que era visitar as muitas livrarias maravilhosas que tem em Berlin; eu era uma completa analfabeta (agora sou só metade…rsrsrs) e foi muito difícil porque ler é uma das coisas que mais gosto de fazer na vida.

Desse tempo, uma coisa não posso deixar de lembrar: o romance “Tschick“, de Wolfgang Herrndorf estava em todas as prateleiras dos mais vendidos e assim permaneceu por quase um ano.

Eu morria de curiosidade, mas só de folhear já via que não ia dar conta; pois essa semana resolvi me arriscar. Olha, com certeza perdi muitas das nuances por causa do meu pobre e deficiente alemão, mas juro que não entendi o porquê de tanto sucesso.

Sim, o livro é bom, mas nada de extraordinário. Conta a história de dois adolescentes de 14 anos que não são exatamente os mais populares da escola, principalmente entre as meninas.

O livro é narrado por Maik Klingenberg e o Tschick do título é o apelido do outro rapaz, o descendente de russos Andrej Tschichatschow. Ambos têm problemas em casa e são apaixonados por meninas na mesma sala (sem serem correspondidos, claro). Depois do final das aulas, os dois resolvem sair de férias em um carro roubado (na verdade, um Lada velho que o irmão de Tschick encontrou na rua). É claro que passam por aventuras diferentes para meninos dessa idade viajando sozinhos e sem juízo nenhum e conhecem pessoas pitorescas ao longo do caminho, como é de se esperar.

Não sei se é porque já li tantas histórias de adolescentes rejeitados e viagens transformadoras, que, sinceramente não achei muito original não. Ou talvez o livro seja ótimo e eu é que passei da idade de apreciá-lo como deve ser.

Está longe de ser ruim; para mim, foi apenas previsível demais. De qualquer maneira, recomendo a leitura (acho que já existe em português com o mesmo título).

2 mai

Quando estive em Belo Horizonte lançando o livro “Design desmodrômico para curiosos” e ministrando um workshop com o mesmo nome, tive a oportunidade de dar uma entrevista para a BHNews, emissora de notícias de BH (graças ao excelente trabalho do meu parceiro Diego Trávez e de sua assessora Laryssa Mariano). A entrevistadora era ótima, fez perguntas muito pertinentes e me deixou falar bastante (ôba!).

Assim deu para explicar direitinho que história é essa de desmodrômico de de onde surgiu o termo, além de esclarecer a questão do design thinking.

Dá só uma conferida!

1 mai

Uma das coisas que me fizeram escolher o curso de engenharia foi que sempre gostei de entender como as coisas funcionavam (ainda adoro!). E, como dizia Einstein, uma explicação não está clara o suficiente enquanto uma garçonete não puder entendê-la (sem preconceito, mas é que garçonetes não costumam ter formação em ciências; algumas até tem).

Então resolvi tirar da gaveta um projeto de mais de 20 anos: um livro que explica de um jeito bem fácil e divertido como funciona o sistema de posicionamento por satélites, o GPS. São coisas tão fantásticas que não entendo como não ensinam isso na escola, é muito bacana.

Ficaram curiosos? O livro só existe em versão eBook e as 20 primeiras páginas em PDF podem ser baixadas de graça clicando aqui.

Vai , tenho certeza que você vai curtir, mesmo que não seja muito fã de tecnologia.

16 abr

Li “Beat the reaper” (Josh Bazell) por indicação do Conrado, que tinha gostado muito. Traduzir o título é bem difícil; coloquei “correndo da morte” para capturar o sentido de desafiá-la e tentar ganhar dela, mas não cabe como tradução literal. Agora, dando uma pesquisada, vi que eles traduziram para o português como “Sinuca de bico”. Apesar de não ter nada a ver com o título original, até que consegue traduzir bem o espírito da história.

O protagonista vive uma história complicada e muito bem urdida; filho de pai americano de ascendência germânica e mãe hippie (ele nasceu em um ashram na Índia), foi criado pelos avós judeus, assassinados quando ele tinha apenas 14 anos.

Por conta de vingar a morte deles, Peter Brown (um dos seus vários nomes), torna-se um especialista em artes marciais, envolve-se com a máfia, apaixona-se por uma música romena, acaba tornando-se médico e vive uma vida agitadíssima e perigosa. A história principal se passa num hospital onde ele faz sua residência médica e onde a morte corre atrás dele para pegá-lo na forma de mafiosos mal-intencionados. O mocinho precisa salvar um dos pacientes, a própria pele e ainda lutar contra o cansaço extenuante de quem está há tantas horas de plantão que só consegue manter os olhos abertos por conta de drogas. Adrenalina pura.

Para mim, a parte mais emocionante nem é de ação; é quando ele vai visitar o campo de concentração em Auschwitz, na Polônia, para descobrir a verdadeira história dos seus avós (um dia ainda hei de reunir forças para ir até lá).

Pelo que pesquisei, a bem urdida trama já virou um filme protagonizado por Leonardo Di Capprio, mas ainda não assisti.

Fica a dica.

13 abr

Sabe uma história bem contada, inusitada e cheia de reviravoltas? Pois é, “The hundred-year-old man who climbed out of the window and dissapeared“, do sueco Jonas Jonasson, é dessas. O autor, um respeitado jornalista que resolveu largar tudo e se mudar para um sítio na Suíça e escrever o romance, é muito imaginativo.

Allan Karlsson, o protagonista, nasce numa pequena cidadezinha da Suécia em uma família miserável, a ponto de ir trabalhar numa fábrica de explosivos com apenas 10 anos de idade. Seu pai foi um idealista incorrigível e até certo ponto, muito ingênuo. Essa característica foi herdada pelo filho, que desenvolveu um talento único de sempre falar as coisas erradas nas horas mais impróprias. O que não o impediu de viver uma vida longuíssima cheia de aventuras ao redor do globo, ter um papel importantíssimo no desenrolar de guerras diversas e interagir com líderes mundiais do naipe dos presidentes americanos Truman e Nixon, do líder soviético Stálin, do chinês Mao Tse Tung, entre outros. Até um irmão bastardo (e meio retardado) de Einstein entra na história como seu melhor amigo.

O nonsense de Allan é a coisa mais deliciosa do livro; ele explode coisas e constroi bombas aparentemente sem a real noção das consequências de seus atos. Depois de tantas reviravoltas, no dia de seu aniversário de 100 anos, ele foge do asilo e se envolve e mais uma aventura deliciosa, dessa vez acompanhado de outros personagens não menos interessantes, de um cachorro e de uma elefanta chamada Sonja.

Para se ter uma ideia do perfil de seus companheiros de aventura, Benny, o dono de um quiosque de cachorro quente, ficou quase 30 anos na universidade fazendo diversos cursos porque ganhou uma bolsa de estudos do tio milionário que queria que ele e o irmão recebessem a fortuna apenas depois de ter um diploma universitário. Como Benny adorava estudar e não queria a fortuna, fazia o curso até o penúltimo semestre, onde abandonava e começava outro (para desespero do irmão, pois a fortuna seria repartida apenas quando os dois estivessem formados). Eis que esse personagem era um quase-médico, um quase-advogado, um quase-arquiteto, um quase-veterinário, um quase-historiador e mais um monte de quases variadíssimos, que o fizeram esgotar toda a fortuna do tio na sua eclética formação. E ainda tem um investigador de polícia carente emocional, um bandidão dono de uma gangue de traficantes, um velho com fama de ladrão e mais outros tipos curiosos.

O livro vai contando a vida do personagem principal em capítulos alternados com a aventura atual de um jeito muito leve e divertido; daria um bom filme.

Taí uma história boa para ler na rede num dia lindo de primavera. Recomendo demais.

***

Nota: Descobri que uma editora portuguesa já traduziu a obra e ela está disponível em algumas livrarias brasileiras.

9 abr

Nessa correria de hospital nem tenho tido tempo de lamber a cria direito. A editora 2AB fez uma edição caprichadíssima do “Design desmodrômico [para curiosos]“: meu querido tem formato quadrado, interior em papel polen, textos em azul marinho, ilustrações lindas e uma sobrecapa de acetato que cria um efeito tridimensional bem bacana no título. Como não amar?

Pois é, se você quiser um para chamar de seu, vou sortear 2 exemplares autografados no sábado, dia 13 de abril de 2013. Para participar, é só comentar esse post com nome e e-mail até a meia noite do dia 12 (sexta). Vou numerar por ordem de chegada e inserir os dados em algum aplicativo de sorteio (aceito sugestões).

É só um comentário por pessoa, ok? Boa sorte!

Se você é de Belo Horizonte, nem precisa participar do sorteio! É só se inscrever no workshop “Design desmodrômico” que vai rolar lá na semana que vem que o livro é de presente! Quer saber mais? Clique aqui.

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GANHADORES: comentários número 16 e 95 (clique aqui para ver no www.sorteador.com.br), respectivamente: Nayara Gonçalves e Fernando Ximenes! Obrigada a todos os demais pela participação e boa sorte na próxima vez!

14 jan

Ganhei de presente do Mário Verdi o  livro do Charles Bezerra e só tenho uma coisa a dizer: adorei!

A máquina de inovação: mentes e organizações na luta por diferenciação” é muito bem escrito e dá para ler numa sentada. Charles Bezerra não apresenta nenhum conceito novo, mas consegue dar uma organizada geral nas informações sobre o processo de inovação nas empresas e na cabeça das pessoas de um jeito muito didático. Mas também, o moço está longe de ser fraco: doutor em Inovação pelo Illinois Institute of Technology, é uma das maiores autoridades brasileiras no assunto e representante da América Latina no Design Management Institute Advisory Council.

A tal “máquina de inovação” a que ele se refere é o nosso cérebro. Bezerra apresenta o que os principais autores falam sobre a questão da complexidade e da simplicidade, do darwinismo e sua aplicação nos conceitos relacionados à inovação;  discorre sobre a importância da modelagem, questiona o peso que damos aos números e às pesquisas de maneira crítica e inteligente; tudo isso permeado com experiências pessoais muito interessantes, como se a gente estivesse assistindo uma palestra.

A história que eu mais gostei foi da que relata a brincadeira que ele fez com o próprio filho pequeno. Eles combinaram que todos os dias antes de dormir, o pequeno poderia perguntar o que quisesse (é claro que ele poderia perguntar em outros horários, mas esse era um ritual). O pai responderia como pudesse, mas, em contrapartida, poderia fazer uma espécie de “teste” para ver o quanto do assunto tinha sido entendido (algo simples, como perguntas de confirmação). As dúvidas do menino eram algo como “o que é a luz?”, “por que não existem mais dinossauros?” e coisas do tipo, típicas das crianças, que ainda não perderam a curiosidade natural que vem de fábrica.

Além de aproximar pai e filho de um jeito maravilhoso, Charles instiga a curiosidade do filho que passa o dia procurando algo interessante para perguntar; eles se divertem muito e a brincadeira perdura há anos, para deleite de ambos. Bezerra está ansioso porque sabe que, em breve, os papeis serão trocados e ele será o perguntador. Tem jeito mais lindo e querido de educar uma criança?

Mas uma coisa tenho que confessar: achei muito curioso o fato do autor falar sobre a integração entre todas as áreas, sobre como as disciplinas não são isoladas e ter usado uma metáfora tão cartesiana para representar o cérebro humano: uma máquina. Exatamente como Descartes falava, quando ainda não se falava em integração e se considerava que para se resolver um problema, bastava que ele fosse dividido em partes inteligíveis até encontrar a “peça defeituosa”. Será que o autor se deu conta do anacronismo? Talvez tenha sido proposital (pelo que vi, ele estudou muito mais filosofia do que eu, você e a torcida do Flamengo; não deve ter passado batido). Mas, para mim, ficou essa lacuna.

Foi muito fácil gostar do livro porque percebo que penso de uma maneira muito parecida com a do autor: que aprender apenas para acumular conhecimento não serve para nada e que não se cria coisa alguma de maneira isolada. Como ele mesmo diz, é muito difícil dizer, nesse livro, o quanto do conteúdo é de autoria dele e o quanto é de seus influenciadores, as pessoas que ele estudou para chegar a essas conclusões.

E concordo em gênero, número e grau quando diz “Criar é um ato coletivo, mesmo quando acontece em uma mente isolada“.

Recomendo muito a leitura.

Ah, e antes que eu me esqueça: muito obrigada, Mário Verdi!

10 jan

Durante a viagem do final do ano, fui virtualmente até o Japão e convivi uma semana com Aomane e Tengo, os protagonistas de 1Q84, de Haruki Murakami. Foram exatas 1.318 páginas e, apesar de algumas ressalvas, gostei bastante. A versão em inglês só tem na forma de tijolão com a história completa que, na verdade, é uma trilogia. Acho que no Brasil eles lançaram os volumes separadamente para não assustar muito o povo.

Escolhi esse livro na livraria porque ele me fisgou logo no primeiro capítulo, que apresentava Aomane, uma mulher misteriosa e cheia de segredos que passa por uma situação inusitada. E cheguei ao livro porque queria finalmente ler alguma coisa do famosíssimo Murakami; o sujeito já ganhou vários prêmios e é sucesso absoluto no Japão, sua terra natal, e no mundo.

Confesso que achei a história interessante e bem construída; mistura surrealismo com uma pitada de esoterismo (se a pessoa quiser interpretar por esse viés, que não foi o meu caso). Murakami realmente é muito criativo e sabe escrever.

Lendo tudo numa paulada só, achei alguns trechos dispensáveis e um pouco repetitivos, mas depois me lembrei que é uma trilogia, então o autor deve ter trazido novamente à tona alguns aspectos porque deve ter considerado o hiato de tempo entre a leitura de um volume e outro.

O que eu mais gostei mesmo da história é que ela não se passa na Europa e nem nos EUA, como a maioria dos livros que a gente (eu, pelo menos) acaba lendo. A trama toda se passa em Tóquio e ficamos conhecendo melhor os hábitos de alimentação, transporte e do dia-a-dia das pessoas que vivem lá (o que só aumentou minha vontade de conhecer essa parte do mundo).

Também fica clara a importância que os japoneses dão à higiene (já dizia a Sonia Bridi, no ótimo Laowai, enquanto os chineses, mesmo quando vivem no campo, cozinham até alface antes de comer, os japoneses, com aquela densidade populacional, comem peixe cru — tem que confiar e valorizar muito os hábitos de higiene mesmo).

Aomane é uma professora de ginástica competentíssima, além de personal trainer. Ela se alia a uma cliente muito rica e poderosa para assassinar homens que cometem crimes sexuais ou de maus tratos contra mulheres, usando uma técnica especialmente desenvolvida por ela.

Tengo é um professor de matemática que escreve ficção nas horas vagas e recebe a missão de tornar inteligível uma história fantástica (mas muito mal escrita) contada por uma menina de 17 anos que viveu até os 10 numa comunidade fechada pertencente a uma seita. O moço cozinha em casa (e parece que cozinha bem, vou até tentar algumas coisas) e, além de bonitão, é muito gente boa: honesto, correto, sensível e idealista. Mas tem o raciocínio um pouco lento para uma história de ação (a Aomane é bem mais esperta); além disso, tem o péssimo hábito de sempre repetir em voz alta a última frase dita pelo interlocutor quando conversa com alguém (achei isso um pouco irritante).

O título bizarro é uma alusão à obra distópica 1984, de George Orwel. A história se passa também em 1984 e Aomane percebe, num ponto do livro, que está vivendo uma realidade paralela ao mundo real; então ela nomeia esse estranho mundo de 1Q84, onde o Q significa “Question“, uma pergunta que ela não sabe responder, pois não conhece a natureza da dimensão que está experimentando.

Apesar do final bem previsível, o autor conseguiu segurar a onda e manter a atenção até o final com muita competência. Uma ressalva: as últimas 4 páginas são as coisa mais ridículas que já li na vida, tão melosas, cheias de clichês baratos e mal escritas (elas não mudam em nada a história, mas me fizeram sentir vergonha alheia pelo autor — como é que um cara tão bom pode ter escrito aqueles parágrafos?).

Dica: leia até o final e pare quando faltar 4 páginas. Vai por mim, evita constrangimentos desnecessários…rsrsrs…

27 dez

Estou gerando mais um livro; vai ser minha primeira cria a ser distribuída exclusivamente em formato digital e vai ter mais ilustrações que todos os outros juntos. O título ainda não está definido, mas vai ser algo como “Coisas que você queria saber sobre GPS e não tinha para quem perguntar“.

Na verdade, o embrião estava incubado há mais de 20 anos, quando trabalhei como engenheira no projeto de um robô aéreo. Encontrei o boneco do livro (em papel) e achei o conteúdo tão bacana que resolvi reescrevê-lo com atualizações e refazer as ilustrações.

A ideia é que absolutamente qualquer pessoa, incluindo aquelas que odeiam matemática e física, consigam compreender como funciona um receptor de GPS (além de finalmente entender o que são as coordenadas de latitude, longitude, altitude e outros termos relacionados a navegação).

Está dando um trabalhão monstro, pois quase todas as páginas têm desenhos. Esse aqui ilustra a situação onde explico que, antes do GPS, os navegadores tinham que sempre andar ao longo da mesma latitude para não se perder; isso fazia com que existissem verdadeiras “rodovias” no oceano, lugares por onde todo mundo passava por uma questão de segurança. O lado ruim é que os piratas aproveitavam o movimento para fazer a festa; mais ou menos como hoje…

Já dá para ter uma ideia da brincadeira; mais um mês e acho que consigo terminar.

Ah, e se alguém tiver alguma curiosidade e quiser fazer perguntas para serem incluídas no livro, é só usar o campo de comentários; vou adorar!

6 set

Lá se foi mais um livrinho daquela coleção fofa de livros de bolso encadernados com tecido metalizado e fitinha de seda para marcar. A história da vez mais parece sessão da tarde (de fato, fizeram um filme baseado no livro).

Oskar é um menino de 11 anos que tem leucemia; o transplante não funcionou e o caso dele é sério mesmo. O menino está internado e os pais, cada vez mais assustados com a situação, só vão visitá-lo aos domingos para levar presentes. No hospital trabalha uma dessas senhoras voluntárias que percebe a solidão de Oskar e se torna sua amiga.

Entre eles não há mentiras ou enganações; ambos sabem que ele vai morrer em breve. Pois a senhora tenta fazer com que ele vá em paz, sem raiva dos pais (Oskar não entende porque eles se afastam tanto e nunca tocam no assunto) ou do médico, que, do seu ponto de vista, parece tão arrasado a cada consulta que faz com que o menino se sinta culpado por não ter conseguido superar a doença.

O menino chama a senhora de Oma Rosa (Oma é avó em alemão) e eles conversam bastante. A senhora revela para ele um segredo incrível: ela era lutadora, dessas de luta livre, e ganhou inúmeros torneios emocionantes. Ela sempre usa as lições que aprendeu no ringue para explicar algumas coisas a Oskar.

Mas o mais interessante é a brincadeira que ela propõe a ele : nos últimos 12 dias do ano (é exatamente o que falta para o ano terminar), cada dia valeria 10 anos. Assim ele não teria a sensação de morrer cedo e iria se aproximando do final com sabedoria. O menino topa e a senhora não mede esforços em fazer com que ele viva intensamente esses dias restantes. Incentiva que ele se declare para uma menina, que também está internada (afinal, ele já está com 30 anos nesse dia); aliás, dá forças para que ele fale sempre o que está sentindo.

Nas horas em que ela não está junto, sugere que ele escreva uma carta a Deus, já que ambos se encontrarão em breve.

A coisa é realmente melodramática, mas nem por isso deixei de chorar. Por que a gente é tão hipócrita com a questão da morte? Por que meu pai estava nos deixando e a gente insistia, em nossas últimas conversas, que ele iria ficar bom? Na verdade, a maioria de nós age um pouco como os pais do Oskar, que evitam falar no assunto e não facilitam em nada esse processo que não precisa ser mais difícil do que já é.

Quando a pessoa aceita que se vai, consegue resolver as coisas pendentes e ir em paz, como o Oskar, sem falsas esperanças. Mas a nossa cultura torna tudo mais difícil e raramente a gente consegue ser sincero com alguém querido que está sofrendo de alguma doença terminal.

Olha, recomendo mesmo que todo mundo leia a história do Oskar, viu? Seria melhor para todos…

26 ago

Continuando a coluna anterior, em que falava do livro “How to find  fulfilling work“, de Roman Krznaric, vou compartilhar alguns dos exercícios que ele propõe e que achei muito interessantes.

O primeiro se chama “mapa de escolhas”, que consiste em desenhar o mapa da sua carreira. Nele, você indica todos os trabalhos que já teve e as diferentes motivações e forças que definiram sua rota em cada ponto (ex: escolhas educacionais, expectativas dos pais, aconselhamento de um profissional, oportunidade que surgiu, etc).

Esse aí é o meu exercício, com os trabalhos mais importantes.

Agora olhe seu desenho: você consegue ver algum padrão, algo que sempre foi mais relevante para nortear suas escolhas? Que motivações sempre pesaram mais: dinheiro, status, respeito, paixões, talentos, pessoas? Quais dessas motivações você quer priorizar no futuro?

No meu caso, já desconfiava, mas agora tive certeza: minha principal motivação é aprender, de preferência com gente bacana. É claro que também quero ganhar dinheiro, mas já recusei salários maiores porque não tinha muita perspectiva de aprender ou porque a equipe não era amigável (num dos casos, na entrevista, a pessoa me disse que a principal característica do grupo é que eles eram muito competitivos — eu não sou nada competitiva, iria me dar muito mal).

Agora outro, mais bacana: imagine 5 universos paralelos; em cada um deles você tem uma profissão diferente que gostaria de experimentar. Quais seriam elas?

Bom, aqui fui bem conservadora e pouco criativa, pois coloquei algumas coisas que já faço, mesmo que de maneira amadora, como ilustração. Também adoro ser palestrante, por isso vou continuar fazendo esse trabalho no Brasil e não pretendo desistir dessa carreira. Se eu conseguisse ganhar algum dinheiro escrevendo também seria ótimo. Mas ok, a ideia é começar a explorar possibilidades, sempre dá para refazer o exercício quando surgirem novas ideias. Também achei importante destacar o que me encanta em cada um desses universos, mas fica a seu critério colocar mais informações.

Agora, outro exercício desafiador: faça uma propaganda de você mesmo, descrevendo seus talentos (ex: você fala japonês e toca guitarra), suas paixões (ex: cultivo de orquídeas e coleção de carros de modelismo), causas em que você acredita (ex: proteção animal ou ambiental) e suas características pessoais (ex: impaciência, vaidade, sabe guardar segredos).

Depois, mais algumas coisas que sejam importantes, como o mínimo que você gostaria de ganhar ou o local de trabalho. Atenção: não coloque sua qualificação educacional ou trabalhos anteriores e nem se auto-elogie. Não conduza a propaganda para uma determinada carreira, tente ser o mais neutro possível.

Olha aqui a minha.

É uma propaganda, por isso saí assim, bonitinha...ehehe

Agora faça uma lista de 10 pessoas que você conheceu em diferentes estágios da vida e envie esse “anúncio” para algumas (poucas) em que você confia. Peça para elas sugerirem duas ou três carreiras que poderiam se adequar a esse candidato (por favor, não mandem para mim, não estou conseguindo dar conta da correspondência normal).

Peça para que elas sejam específicas; em vez de “trabalhar com crianças”, melhor seria dizer “trabalhar num projeto social com filhos de presidiários no RJ”.  Essa é uma fonte muito interessante de ideias que podem ser exploradas; com certeza, algumas jamais teriam passado pela sua cabeça.

Olha, taí um exercício bom para todo mundo fazer, pois dá uma organizada no que é mais importante para a gente e pode dar origem a ideias originais. Fique à vontade para me sugerir carreiras, ok?

E agora sim, vamos todos voltar ao trabalho que amanhã já é segunda-feira outra vez.

24 ago

Lá fui eu devorar mais um livrinho da coleção mais caprichada do mundo.

Gente, como não amar uma série de livros de bolso encadernados com tecido brilhante e fitinha de seda para marcar? Como boa malandra recém alfabetizada, estou escolhendo os mais magrinhos, mas minha meta é devorar todos eles, sem dó nem piedade!

A história da vez é “Monsieur Ibrahim und die Blumen des Koran” (algo como “Seu Ibrahim e as flores do Corão“) contada por um autor francês, Eric-Emmanuel Schmitt (estou preferindo livros traduzidos, pois os alemães “da gema” têm um jeito muito complicado de pensar que se reflete na escrita).

O romance conta a história de Moses, um menino que vive sozinho com o pai depressivo (a mãe abandonou ambos quando ele ainda era neném), que ignora completamente a existência do filho. Moses é esperto, mas compreensivelmente carente e inseguro.

Em suas andanças, acaba ficando amigo de um árabe muçulmano que tem uma quitanda no bairro. A amizade deles é cheia de casos engraçados, mas com sacadas bem bacanas.

Seu Ibrahim ensina várias coisas para o menino baseado no Corão, que ele interpreta e adapta segundo sua conveniência e bom senso. A primeira coisa que o menino aprendeu é que sorrir não é um luxo só para ricos, como pensava; é a chave para abrir o coração das pessoas. Moses vira puro charme e muda quase tudo à sua volta só com esse gesto simples.

Tem uma passagem bem interessante sobre o lixo (eles fazem uma longa viagem juntos). Seu Ibrahim fala que se você passa por um lugar e não há nem latão e nem lixo espalhado, é porque as pessoas que moram lá são muito ricas. Se tiver somente latões, mas nenhum lixo, as pessoas não são ricas nem pobres. Se tiver lixo, mas nenhum latão, as pessoas são pobres. E se as pessoas estiverem no meio do lixo, aí são miseráveis. Se a gente prestar atenção, é bem verdade. Interessante abordagem, né?

Outra do Seu Ibrahim, disparada quando Moses, que está dirigindo, tenta pegar uma auto-estrada: “as auto-estradas dizem ‘vá em frente, aqui não tem nada para ver’. Elas são para idiotas, que querem ir o mais rápido possível de um ponto ao outro. Nós não estamos fazendo geometria, estamos viajando…“. Essa eu ADOREI, por motivos motociclísticos…eheheh

Ele ainda fala sobre a dança: “Quando você dança, seu coração canta como se fosse uma ave querendo se unir a Deus“. E ensinou uma dança circular praticada pelos muçulmanos no Kette, um tipo de mosteiro. Moses se entrega ao ritual e consegue se livrar de todas as mágoas que estava guardando dentro de si. De fato, a dança liberta e faz a gente se sentir mais leve (pelo menos no meu caso). Se em vez xingar no Twitter as pessoas dançassem mais…

Não é lindo?

E ainda descobri que tem também em português, para quem tiver interesse em passear com o seu Ibrahim. Recomendo demais!

21 ago

Imagem: Alexei Lyapunov & Lena Ehrlich

Esse é meu ano sabático, em que parei de trabalhar para aprender alemão; mas em 2013 (se o mundo não acabar antes), volto ao batente, dessa vez aqui em Berlin.

Ora, mas todo o trabalho que desenvolvi no Brasil está calcado no domínio da língua portuguesa (consultorias, livros, palestras, cursos, etc); vou ter que dar um nó no cérebro para me reinventar novamente e descobrir como posso fazer alguma coisa interessante e lucrativa desse lado do oceano. Talvez volte a ser engenheira; talvez trabalhe com inovação; talvez até colabore com alguma empresa que queira atuar no Brasil, sei lá. A ideia inicial era fazer um pós-doutorado, mas não sei se tenho mais paciência com o mundo acadêmico; isso não está descartado, mas agora quero trabalhar.

O frio na barriga está grande, mas sei que não estou sozinha. Descobri isso na estante de uma livraria, nas páginas de “How to find fulfilling work”, de Roman Krznaric. No início, o livro nem me chamou muito atenção, pois faz parte da coleção “The school of life”, expressão com a qual não simpatizo nem um pouco. Talvez porque no Brasil as pessoas tenham o hábito de usar “a escola da vida” como substituta da escola formal, como se elas fossem mutuamente exclusivas; como se quem está vivo não frequentasse obrigatoriamente a tal da “escola da vida” independente de sua vontade (então, que mérito há?).

Pois é, fiz um esforço para vencer o preconceito e vi que o editor da série é o Alain de Botton, um filósofo suíço que gosto muito (já conversamos sobre esse moço: veja aqui e aqui). Aí fiquei mais confiante, mergulhei nas páginas e não me arrependi.

Roman Krznaric começa explicando que o desejo de um trabalho gratificante, que nos proporcione um senso de propósito, reflita nossos valores, paixões e personalidade, é uma invenção recente. O autor diz que existem duas novas aflições no mercado de trabalho sem precedentes na história: uma é a praga da insatisfação com o trabalho; a outra é uma epidemia de incerteza sobre qual carreira seguir (é verdade, recebo e-mails quase que diariamente de pessoas em crise profissional).

Ele apresenta pesquisas que mostram que metade da força de trabalho no ocidente está insatisfeita com sua situação profissional. Cerca de 60% dos trabalhadores escolheriam mudar de carreira se pudessem começar novamente. O trabalho de uma vida, aquele em que a pessoa começava e se aposentava na mesma empresa, virou relíquia do século XX; agora os contratos estão mais curtos e as pessoas mais ansiosas.

Roman nos conta ainda que a valorização do trabalho começou no renascimento, quando os valores de conformismo da igreja foram desafiados e as pessoas ficaram mais individualistas; são dessa época as autobiografias, os selos pessoais em cartas, os diários íntimos, os auto-retratos. Se o trabalho faz parte da vida, então ele também deve traduzir a pessoa, suas crenças pessoais e valores.

A coisa teve um impulso maior depois da revolução industrial e explodiu depois da segunda guerra, com a invenção de carreiras nunca antes imaginadas. O problema (e a solução) é justamente esse: nunca houve tantas opções para se escolher. E quanto mais liberdade, mais duro é, pois não estamos equipados psicologicamente para lidar com essa infinidade de alternativas; elas estão além de nossa capacidade cognitiva. Segundo o psicólogo Barry Schwarz, a partir de um certo ponto, não conseguimos mais lidar com a diversidade de opções e elas passam a nos tiranizar a ponto de nos deixar paralisados. Quanto mais opções são dadas a alguém, mais tempo esse alguém demora a decidir e ainda assim nunca tem certeza se a outra alternativa era melhor.

Uma coisa muito perigosa que o autor cita são os testes vocacionais; ele relata casos realmente absurdos e a origem dessas ferramentas pseudo-científicas que mais confundem do que ajudam.

Krznaric diz ainda que há três aspectos fundamentais para que a pessoa possa considerar seu trabalho gratificante: significado, fluxo e liberdade.

Sobre o significado, ele aparece sob 5 formas: ganhar dinheiro, obter status, fazer diferença, seguir nossas paixões e usar nossos talentos. Os dois primeiros são conhecidos como fatores motivacionais extrínsecos, isto é, vêm de fora. Nesse caso, o trabalho é um meio para se chegar até eles. Já os outros três são intrínsecos, onde o trabalho é um fim em si mesmo.

Roman diz que combinar dinheiro e valores nunca é simples (sobre isso vou falar numa próxima ocasião); mais fácil é combinar talentos e valores. Quando as necessidades do mundo encontram nossos talentos, aí podemos desenvolver nossa vocação (atente bem para isso: vocações são desenvolvidas, não descobertas). E aí, onde é que seus talentos encontram-se com as necessidades do mundo?

Há também uma discussão sobre a cultura de que, para explorar melhor nossos talentos, o ideal é que a pessoa se especialize. Mas isso não leva em consideração que a gente pode ser muitos ao mesmo tempo; dificilmente alguém tem um talento só. Sobre isso, existem duas abordagens clássicas: o generalista renascentista, que consegue levar várias carreiras simultaneamente (ex: Woody Allen, assim como Luís Fernando Veríssimo, toca profissionalmente numa banda de jazz) ou o especialista serial, que vai mudando de profissão, mas exerce apenas uma de cada vez (acho que sou a combinação das duas abordagens). Ele dá vários exemplos de profissionais, incluindo uma engenheira da Nasa que virou urbanista e diz que o mundo tem coisas interessantes demais para que a gente tenha que escolher apenas uma para a vida toda.

Enfim, para quem está num período de questionamentos e transição profissional, ou mesmo só para quem quer refletir a respeito, recomendo fortemente.

Roman sugere alguns exercícios que podemos fazer para avaliar nossas possibilidades profissional e aumentar o auto-conhecimento; vou compartilhar alguns bem interessantes na próxima coluna, aguardem.

Agora, voltemos ao trabalho.

19 ago

Desde a primeira vez que pus os olhos sobre “Die Analphabetin“, da Agota Kristof (já resenhei outros livros dela aqui e aqui), foi encantamento à primeira vista. É que agora, conseguindo ler um pouco em alemão, já me sinto uma semi-analfabeta. Mas quando cheguei aqui, há quase um ano, a sensação de ver as placas nas ruas, propagandas e vitrines era exatamente essa. Olha, posso garantir que não é nada agradável.

Agota é húngara e teve que fugir de seu país aos 21 anos quando o leste europeu ficou sob o domínio da antiga União Soviética. A travessia da fronteira com a Áustria foi dramática, pois ela e o marido levavam a filha de 4 meses; tiveram que caminhar pela floresta escura à noite e quase se perderam. Foram recebidos em um acampamento para refugiados e depois enviados para a Suíça francesa, para trabalhar numa fábrica. As dificuldades de adaptação foram imensas; tanto que, do seu grupo, 4 pessoas se suicidaram porque não conseguiram suportar a saudade, a solidão e o desespero de não entender a língua, e duas se arriscaram a voltar à Hungria, mesmo sabendo que seriam condenadas e presas caso conseguissem chegar. Muito triste.

Agota demorou 5 anos para falar francês com fluência e outros 2 para ler/escrever. Isso foi realmente difícil, pois a moça praticamente suportou todas as dificuldades da guerra e da vida porque amava ler e escrever. Hoje já publicou vários livros, encenou peças, escreveu novelas e participou de saraus no país que a acolheu e na língua com a qual agora possui mais intimidade.

Mas Agota admite que sua relação com o francês é complexa; o idioma acaba afogando e matando aos poucos sua língua natal, o húngaro, pois ela quase não tem mais com quem falar.

Pensei bastante a esse respeito. Imagino que vá levar pelo menos uns 5 anos para ser fluente e minimamente segura no alemão; um dos motivos pelos quais meu aprendizado tem sido lento é porque não estou completamente imersa. Só convivo com estrangeiros e escrevo todos os dias em português; é uma forma de não perder o contato com minha língua querida, mas realmente dificulta a imersão.

Vá lá, vou demorar mais um pouco, mas estou disposta a pagar o preço, pois, assim como a Agota, escrever é uma das coisas que mais amo fazer na vida (meu sonho é viver disso). E, escrever num alemão perfeito, com a desenvoltura e o conforto que tenho na minha língua mãe, acho que só morrendo e nascendo de novo na terra de Goethe…

Não encontrei a versão em português, mas há várias em espanhol (que dá para ler tranquilamente). Recomendo.

10 ago

Nossa, tive um ataque de leitura compulsiva e acabei devorando os outros 2 livros da trilogia iniciada pelo “Der große Heft”, da Agota Kristof, que já comentei aqui.

A mulher é genial mesmo; como é que um ser humano pode ser tão engenhoso?

Penso que não apenas os designers, mas todos os profissionais das áreas conhecidas como “criativas” sempre ganham muito quando lêem boa literatura. Além de uma verdadeira delícia que é poder desfrutar de tanta inventividade, dá para aprender e se emocionar bastantão.

Brilhantismo da autora à parte, para quem está aprendendo alemão, a trilogia é perfeita: o primeiro livro (“Der große Heft” ou “O grande caderno”) é simples e fácil, pois é escrito por crianças na forma de um diário. O segundo (“Der Beweis” ou “A prova”), já complica um pouco. Os capítulos são mais longos e são narrados em terceira pessoa, contando a história do ponto de vista de um dos gêmeos, que resolvem se separar (essa é a tal prova que eles têm que passar, já que sempre foram muito unidos). O terceiro (“Die dritte Lüge” ou “A terceira mentira”) é um desafio, pois os capítulos variam no tempo, variam de narrador, misturam imaginação com realidade e ainda por cima a história não bate muito com os livros anteriores (tudo isso em alemão…). Mas aos poucos as coisas vão fazendo sentido; as informações inexatas têm uma explicação, e ela é surpreendente.

É uma história tristíssima, pungente mesmo, mas que passa longe da pieguice. Mostra a complexidade das emoções humanas e a dificuldade do ser humano em lidar com sentimentos que não consegue entender bem. Já vi que tem em português na Estante Virtual e é baratinho; recomendo bastante.

Como sei que boa parte das pessoas que lêem esse blog vão acabar não tendo acesso à obra por motivos diversos, vou resumir a história só para o povo não morrer de curiosidade.

*** ATENÇÃO: se você pretende ler os livros, não leia o resto do post *** CONTÉM SPOILER ****

(mais…)

25 jul

Imagem: Dominique Piccinato

A maioria das pessoas que conheço (e me incluo também) se auto-descreve como otimista. Pois é, pelo que acabei de ler, parece que o povo está falando sério mesmo.

Se tivesse que resumir o livro “The optimism bias: why we’re wired to look on the bright side” do neurocientista Tali Sharot em um frase, diria que ele explica porque as pessoas tendem a ver sempre o lado positivo das coisas. Não tem mistério: somos programados assim por uma questão de sobrevivência, olha só.

Tali começa mostrando como a nossa percepção vive nos pregando peças. As ilusões visuais são velhas conhecidas (ele mostra algumas clássicas no livro), mas podemos nos autoenganar com todos os outros sentidos. Além disso, geralmente a gente acha que é mais competente, inteligente, interessante, lógico e bonito do que realmente é, entre outras coisas.

Não adianta você dizer que não e sair desfilando sua modéstia; isso é estatisticamente verificado; o autor apresenta pesquisas feitas no mundo todo. O entrevistador pede para a pessoa se auto-avaliar e dizer se está abaixo, na média, ou acima da média em vários quesitos (ex: honestidade, beleza, liderança, bom senso, inteligência, relacionamentos, etc) .

Só para se ter uma ideia, 93% das pessoas consideram que dirigem melhor que a média. Ótimo, então como é que apenas 7% podem estar na média ou abaixo dela?  A conta não fecha. Conclusão: tem muita gente (a maioria) se achando melhor do que é de fato.

O engraçado é que a gente consegue ver claramente esse desvio nos outros, mas dificilmente em nós mesmos. Nossa percepção da realidade é subjetiva e não raro é diferente da realidade objetiva.

A explicação é que de fora fica mais fácil de ver a diferença entre a realidade e o que o outro está percebendo. Como a gente não consegue ver a nossa, automaticamente conclui que somos menos sucetíveis a esse tipo de distorção de julgamento, por isso se acha melhor que os demais. Sei que dói ouvir, mas isso é verdade para mim, para você e para toda a torcida do Flamengo.

Uma outra coisa importantíssima é a nossa habilidade de viajar mentalmente no tempo e no espaço; podemos voltar ao passado ou projetar o futuro num piscar de olhos, sem nenhuma preparação especial; é só querer. Nosso cérebro foi desenvolvido com essa capacidade e quanto mais a gente usa, mais consegue fazer isso bem.

Pois é, agora é que vem o fato curioso: em última instância, é justamente essa capacidade de viajar mentalmente que nos faz ser tão otimistas. O desvio para ver as coisas de maneira positiva (inclusive em nós mesmos) simplesmente não existe sem a capacidade elementar de considerar o futuro.

A nossa percepção da realidade, aliás, é afetada por muitos fatores. Um dos mais importantes é imaginar o que os outros esperam de nós. O livro apresenta mais uma batelada de pesquisas onde o desempenho das pessoas varia absurdamente por causa de uma palavra citada antes de um teste (a simples menção da palavra “estúpido” no cabeçalho de uma prova pode alterar completamente a média geral para baixo, para se ter uma ideia).

Ele fala também o fenômeno da profecia auto-realizável: você ou outra pessoa projeta expectativas que acabam acontencendo porque você  se esforça para fazê-las acontecerem. Por exemplo: diga aleatoriamente para 5 alunos em uma sala de aula que eles são mais inteligentes que os outros e veja quem tirará as melhores notas. Batata, não tem erro.

Tali fala também que, por causa dessa nossa capacidade de projetar o futuro, adoramos esperar um pouco para receber a recompensa. Se a comida for deliciosa, aguardar por ela faz parte do prazer da refeição; se o carro é customizado, você não se incomoda de ficar um mês inteiro sonhando até o dia de seu tesouro chegar. É aquele ditado que diz que preparar a festa é tão ou mais gostoso que a festa em si; é a ciência abalizando o que sua avó sempre disse. Quanto maior a expectativa do prazer, mais as pessoas curtem a espera e até se decepcionam um pouco quando a coisa acontece rápido demais.

O livro, que recomendo bastante, fala ainda sobre a relação entre o otimismo e a depressão; sobre como o cérebro aumenta de tamanho as áreas que são mais trabalhadas da mesma maneira que os músculos crescem quando exercitados; enfim, tem muita coisa boa para se aprender.

Como conclusão, as pesquisas só mostram o que todo mundo já sabia faz tempo: porque a sexta-feira (e não o sábado) é o dia mais adorado da semana (e não o domingo, quando ninguém trabalha).

Pois é, então só posso desejar pra todo mundo o óbvio depois de ler isso tudo: uma longa e deliciosa espera até um final de semana cheio de surpresas ótimas!

22 jul

Desde que cheguei aqui em Berlin, uma das coisas que mais me fascinou foram as livrarias. É uma infinidade de títulos em lojas de até 6 andares capaz de deixar a pessoa zonza; tem também as lojinhas pequenas e charmosas, cheias de tesouros. No começo eu me sentia como uma diabética numa confeitaria; uma completa analfabeta, vendo todas aquelas delícias sem poder lê-las. Agora entendo um pouco mais e consigo ler os títulos e resumos da história.

Uma coisa que sempre foi meu desejo desde que vi pela primeira vez foi uma coleção de livros de bolso (9.3 x 15.4 cm) com capa dura em tecido; ainda tem aquela fitinha de seda que serve de marcador. Não bastasse tanta belezura e praticidade, as estampas são lindas (e o mais incrível: a média de preços é € 10).

Pois finalmente consegui ler meu primeiro romance em alemão (não se animem, continuo falando e entendendo pessimamente, mas é que ler é mais fácil) e é justamente dessa coleção. Comecei com livros infantis e notícias curtas no jornal; mas esse é o meu primeiro livro de “gente grande”.

Chama-se “Das große Heft” (O grande caderno) e a autora, Agota Kristof, é uma húngara que deixou seu país natal aos 19 anos, na revolução de 1956, e passou a viver na Suíça francesa.

O livro conta a história de dois meninos que são deixados pela mãe na casa da avó por causa da guerra. A velha senhora é uma bruxa daquelas horrorosas, mas os meninos (gêmeos) têm uma capacidade de adaptação impressionante. Eles conseguem conviver com a megera e passar pelos horrores da guerra aparentemente incólumes.

Os gêmeos são os narradores da história e a gente lê o que eles escreveram num grande caderno que compraram para compartilhar essa experiência. Os dois pensam e agem em perfeita sintonia, como se fossem uma pessoa só. São disciplinadíssimos e fazem exercícios diversos todos os dias para se fortalecerem contra todas as adversidades: fome, dor, injúrias, etc. Estudam sozinhos e escrevem no tal caderno.

Eles combinaram que só iriam escrever sobre fatos, não divagariam na redação. O que acontece é que eles narram cenas que teriam desequilibrado qualquer pessoa, de uma maneira objetiva e concisa, sem nenhuma emoção. Daí que a gente fica sem saber se eles são realmente frios e desprovidos de empatia (apesar de viverem fazendo boas ações) ou se essa é só a maneira que escolheram para narrar as aventuras, seguindo as regras que eles mesmos determinaram (e que seguem sem pestanejar).

Por causa disso, o livro fica fácil de ler até para mim; mas seu peso não deixa de ser imenso. Guerra é uma coisa por demais estúpida; impossível não se revoltar lendo o cotidiano dessas crianças.

Andei pesquisando e vi que tem uma tradução em português, mas o título ficou “Um caderno e tanto“, com a figura dos gêmeos na capa. Achei a tradução do nome inadequada, pois dá uma leveza que a história não tem; fica parecendo um livro infanto-juvenil, o que, definitivamente, ele não o é.

Recomendo muito a leitura, mas prepare antes o coração.

17 jun

Ilustração: Arturo Elena

Você sabia que o brasileiro é o povo que mais consome celulares no mundo? O governo vende isso como vantagem (pois se até o recorde na compra de carros eles consideram sucesso em vez de ver que isso só reflete a falência do sistema de transporte coletivo, falar o quê, né?), mas a questão não é tão simples não, olha só porquê.

Uma pesquisa feita em 2010 (fonte aqui), revela que, além de celulares, o Brasil também compra mais televisões e notebooks que o resto do mundo. Não me admira, conheço gente que tem 3 telefones e “atualiza” o notebook todo ano (talvez alguns estejam participando, emocionados, da Rio+20); isso sem falar que no Brasil, até a casinha de cachorro tem TV própria.

Pois olha só que interessante: nos países ricos, 40% do povo que respondeu a pesquisa disse não ter nenhuma intenção de comprar eletrônicos em 2011. Já nos países do Bric (Brasil, Rússia, Índia e China) a coisa é bem diferente: 91% da galera quer continuar na farra.

Reparando esse cenário de pessoas ensandecidas para se livrar de aparelhos em excelente estado de funcionamento, fico me lembrando de um conto de ficção científica que li há muitos anos e me impressionou muito.

O conto, de Frederik Pohl, chamado “O homem que comeu o mundo” conta a história de um menino que vive em algum lugar no futuro.

No mundo dele, onde a produção não pode parar de crescer, o consumo também não pode estabilizar. Sua família é muito pobre e, por isso, os pais são obrigados a passar os dias e as noites consumindo desenfreadamente em shoppings, bares e afins.

O menino mora numa casa imensa e se sente solitário com seus numerosos guardiães eletrônicos e montanhas de brinquedos inteligentes, trocados diariamente. E é profundamente infeliz.

Você pode pensar onde é que está o problema. Não é esse justamente o sonho de consumo de um monte de gente (talvez até, em certa medida, você eu?). Gastar insanamente, no melhor estilo Sex and City, como se não houvesse fatura de cartão de crédito amanhã?

Pois é, a questão é que o menino quer um quarto pequeno e aconchegante, e não um salão temático. Ele sonha em dormir abraçado todo dia com o mesmo ursinho de pelúcia, mas as versões mudam a cada dia e ele precisa acompanhar as tendências. Ele chora porque quer o colo da mãe, mas ela tem que consumir, e, além disso, os robôs-babás precisam ser testados. Ele quer brinquedos simples, mas tudo tem que interagir e desenvolver suas infantis capacidades cognitivas. Ele quer chorar, mas os mecanismos eletrônicos criados para acalmar crianças são insuportáveis e efadonhos.

Ele quer ser rico.

Rico é quem não precisa mais comprar. Rico é quem já tem o que precisa; rico não desperdiça, gosta das coisas que possui e não tem que servir de cobaia para novos lançamentos. Rico não sente a obrigação de ter, pode se preocupar apenas em ser. E o máximo dos máximos, os meninos ricos podem ficar com o mesmo ursinho de pelúcia até crescerem e eles mesmos decidirem quando não o querem mais.

Rico não precisa mostrar para todo mundo que tem o modelo mais caro da marca. Quem é rico mesmo, inclusive, encanta-se com o charme retrô das coisas usadas, aquelas gastas, que têm histórias para contar. Rico é aquele que tem muito mais que apenas dinheiro (e, às vezes, nem tem tanto assim).

Ok, nossa cultura não favorece, o mundo não facilita e os amigos não colaboram. Está cada vez mais difícil resistir aos lançamentos da Apple, mas acho que vale a pena pelo menos tentar.

Não sei vocês, mas eu já sei o quero ser quando crescer: milionária.

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O conto citado, “The man who ate the world”, é parte do livro “The science fiction weight-loss book”, editado por Isaac Asimov em 1983.

3 jun

Não vou enganar ninguém: compro livro pela capa. E já deixei de comprar livro pela capa também. Sinto muito, mas sou dessas.

E olha, dificilmente me dou mal nas minhas escolhas. Para mim, a capa, a diagramação, a qualidade do papel e a tipografia geralmente são compatíveis com a qualidade do conteúdo. Se a editora contratou um designer que se deu ao trabalho de ler o livro e entender o espírito da história para conseguir comunicar ao potencial leitor que vale a pena mergulhar naquelas páginas, provavelmente vale a pena mesmo. Quando a coisa é mal feita, o amadorismo mostra o nariz e é impossível não notar.

Às vezes tem coisas bacanas, mas mal impressas e com capas ruins; essas geralmente eu perco, infelizmente. E tem capas bacanas com conteúdos ruins, claro. Mas, olha, pela minha experiência (que não é tanta, mas também não é de se jogar fora), costuma funcionar.

Digo isso porque nunca tive problemas de peso (desculpaí) e sempre fui desencanada para comer; jamais comprei um livro de dieta ou equivalente na vida. Mas aí estava passeando pelo site da Amazon e vi essa belezinha de capa dura, chamada “Food rules: an eater’s manual“, de Michael Pollan com ilustrações da Maira Kalman. Sério, o livro é tão lindo que se fosse sobre a produção de tampas de lapiseiras descartáveis no Afeganistão, teria comprado do mesmo jeito.

Só para não contrariar a minha regra, o conteúdo é ótimo. O autor é um estudioso dos nossos hábitos alimentares e sabe que comer hoje em dia, não é tarefa para amadores. Ele é também autor do bem mais famoso “O dilema do onívoro” que ainda não li.

Apesar da fartura inédita no mundo, tem mais porcaria química do que aquilo que mereceria se chamar comida nas prateleiras dos supermercados. É tudo tão complicado que a pessoa quase precisa de uma pós-graduação em nutrição se quiser se alimentar sem riscos. Há várias pesquisas (cujas fontes ele cita) que associam diretamente à chamada dieta ocidental (a comida que os americanos comem e o mundo todo está indo atrás) o aumento de doenças fatais das mais diversas como diabetes, câncer de colo de útero e doenças do coração, sem contar o problema da obesidade.

Bom, pesquisas científicas existem aos montes, mas conhecimento não muda comportamentos, como já falamos aqui. Então, o Michael pensou que em vez de ficar contando calorias ou recombinando diferentes tipos de carboidratos, melhor seria criar frases simples, memoráveis e de fácil entendimento. No livro são 83 regras e a maioria é bem fácil de repetir como um mantra cada vez que for apresentado a uma tentação. Separei algumas mais interessantes (que estou tentando seguir) para você ter uma ideia:

1. Coma comida (coisas como margarina não são comida, são apenas substâncias comestíveis, o que é bem diferente).

2. Não coma nada que a sua avó não reconheceria como comida (coisas que vêm em caixinhas não existiam no tempo dela; a probabilidade de não serem comida é grande).

3. Evite alimentos que têm alguma forma de açúcar como um dos três principais ingredientes.

4. Evite alimentos que contêm ingredientes que um estudante da terceira série não consiga pronunciar (adorei essa!).

5. Evite alimentos que ficam exaltando o fato de fazerem bem para a saúde (as margarinas não param de fazer isso).

6. Evite alimentos que fingem ser o que não são (cremes que imitam queijos, margarinas que imitam manteiga, líquidos que parecem iogurte, coisas viscosas que imitam azeite, etc)

7. Evite alimentos que aparecem nas propagandas de TV; a produção tem que ser industrializada em grande escala para pagar os custos (aliás, evite comer vendo TV).

8. Coma comida que pode estragar e atrair insetos (uma coisa que não estraga e nem os bichos querem comer, com certeza não pode ser chamada de comida).

9. Coma somente alimentos que foram preparados por pessoas. Máquinas não fazem comida, fazem substâncias comestíveis.

10. As coisas que entram pela janela do seu carro não são comida.

11. Não é comida se tem o mesmo nome em todos os países (ex: Big Mac, Cheetos, Pringles, etc)

12. Coma mais plantas.

13. Carnes podem ser usadas como tempero ou em ocasiões especiais; mas não para todo dia.

14. Coma como um onívoro, ou seja, varie ao máximo a dieta e experimente novos tipos de plantas, animais e cogumelos. Um dos problemas dos produtos industrializados é que quase tudo é à base de soja e milho; aí tem que entrar a química para diferenciar os sabores.

15. Tente comer peixes pequenos (que não estão no topo da cadeia alimentar) e não criados em cativeiro, como sardinhas, trutas e anchovas.

16. Não coma coisas que já vêm com sal ou açúcar.

17. Leite é comida, não bebida; não serve para matar a sede. Assim como suco de frutas, deve ser consumido com moderação.

18. Você pode comer junk food (ex: batatas fritas), desde que você mesmo as prepare.

19. Tome uma taça de vinho no jantar.

20. Pague mais, coma menos (ou prefira um bistrô a um rodízio de comida à vontade; compre menos carne, mas escolha cortes mais nobres). Enfim, coma menos e com mais qualidade.

21. Coma quando estiver com fome, não quando estiver triste ou chateado.

22. A escrivaninha não é lugar para comer.

23. Não coloque na mesa nada que tenha rótulo (isso eu faço sempre; detesto rótulos).

24. Tenha sempre um buquê de flores sobre a mesa; as coisas ficarão duplamente saborosas (verdade!).

25. Quebre as regras de vez em quando, não seja obsessivo. Como dizia Oscar Wilde “Faça tudo com moderação. Inclusive ser moderado“.

Tem mais coisas muito interessantes (ele explica e dá exemplos para cada regra e a ilustradora também colabora bastante) que valem a pena pensar em comprar um volume para chamar de seu, viu?

O livro me impressionou tanto que estou começando a cozinhar mais em casa (depois posto umas receitas bem-sucedidas aqui). Além de mais gostoso, é muito mais barato, pode acreditar. E é bem como Pollan diz: na vida, você precisa reservar tempo para as prioridades, as coisas que são mais importantes. Comer é muito importante.

Agora olha uma amostra das ilustrações da Maira Kalman, para, sem trocadilhos, fazer você ficar com água na boca…

Ilustrações: Mira Kalman

31 mai

Finalmente acabei de ler “Extremely loud & incredibly close“, do Jonathan Safran Foer. Que o autor é um sujeito extremamente inspirado e sensível, eu já tinha adiantado aqui, com uma amostra de frases brilhantes.

Mas agora, além disso tudo, também reparei outra coisa que pode ser muito últil aos designers. Foer usa a tipografia como parte integrante da narrativa; não dá para não reparar.

No outro livro que eu tinha lido, “Everything ist illuminated“, ele mudava a fonte tipográfica para cada um dos narradores (que escreviam em épocas diferentes). Como a história era um pouco confusa, ajudava muito na compreensão.

Neste, há três narradores e a escrita não é lá muito linear (bem típico do autor). Ele não muda a fonte tipográfica dependendo de quem conta a sua parte da história, mas trabalha com o kerning (espaço entre as letras) de uma maneira muito original. Como a história é sobre um drama (um homem que perdeu seu grande amor no bombardeio que destruiu a cidade alemã de Dresden e um menino que perdeu o pai no atentado de 11 de setembro), a tipografia consegue fazer um papel bem relevante. É prosa, mas às vezes parece poesia, das mais delicadas. A ponto de fazer os olhos se encherem de lágrimas.

Lindo, comovente, doloroso, doce, e, ainda por cima, uma lição de tipografia.

Não sei se na versão em português os editores mantiveram essa sutileza tão sofisticada e importante para a história, mas, se eu fosse você e ainda não tivesse lido o livro, iria correndo dar uma volta na livraria mais próxima e dar uma folheada. Em poucos casos vi a tipografia fazendo figuração de maneira tão competente numa obra. Vai lá…

*** na versão em inglês, achei genial a pg. 280 e as subsequentes…