26 abr
Ele sempre foi o mais bonito de nós todos; os traços perfeitos, o cabelo loirinho. Tivesse minha mãe a sanha de algumas que querem expor sua expertise em caprichar nos rebentos, teria virado popstar infantil.
Na adolescência, revoltou-se, como era de se esperar. Não tive a chance de conviver com o Beto depois de adulto; nos encontrávamos pouco. Dele, lembro muito do olhar doce, da dicção ininteligível, da solicitude e dos sonhos grandiosos e inatingíveis. Pouco antes de ficar doente, adotou um filhotinho de cachorro porque soube que estava sendo maltratado. Era assim o coração enorme do meu irmão.
Esse contato perdido acabou explicando o mistério pelo qual acabei sendo privilegiada, pois passei os primeiros 20 dias no Brasil vendo-o todos os dias; no começo, quando ainda estava consciente, até comida na boca dei a ele. Ainda não sabia, mas esse era um presente que estava recebendo, a oportunidade de me despedir do meu querido. Desde que éramos crianças, não passávamos tanto tempo juntos assim. E essa situação singular é um mistério mesmo; nunca tive tantos dias sem trabalho e completamente à disposição para ficar com ele e minha mãe no hospital. Antes de viajar, quase todos os contratos que havia acertado depois meses de negociação acabaram sendo cancelados por motivos diversos. Agora entendo o porquê.
Quando voltei a Berlin, ele já estava em coma irreversível; agora o Conrado acabou de ligar dizendo que ele se foi. Depois de tanta dor e sofrimento, vítima de um linfoma letal que o levou em pouco mais de um mês, meu querido finalmente descansou em paz. Sua semente ficou no Gustavo, de 16 anos, que vai precisar ser muito forte para superar tudo isso. A sorte é que ele está cercado de muito amor e tenho certeza de que vai conseguir.
Tchau Betinho, valeu. Foi um privilégio ter sido sua irmã mais velha.
Mas da próxima vez tentarei aproveitar mais…


Copyright © Lígia Fascioni 2011.