Arquivo de ‘tipografia’

15 abr

Esse ditado latino pode ser traduzido livremente como “a verdade no vinho” e quer dizer, mais ou menos, que depois de uma ou mais taças de vinho é que a pessoa se revela e a verdade vem à tona. Sendo uma das bebidas preferidas lá em casa, sempre temos pelo menos uma garrafa para acompanhar as refeições.

E, vamos combinar, rótulos de vinho são uma diversão à parte, seja nas prateleiras de uma enoteca, seja em um supermercado. Os projetos gráficos me encantam, mas entretenimento mesmo são os nomes de vinhos portugueses e espanhois (que fazem mais sentido na nossa língua e ficam bem engraçados).

Vejam algumas pérolas da minha coleção…

Esse vinho devia custar mais barato por causa do nome, né? Produto com subsídio....

Cuidado com o dedo...rsrsrsr

Aahahahaha... se não gostar, não reclame. Apenas fique p...

O nome nem é tão exótico, mas olha que ilustração mais linda!

Os modelos estão mais para gatinhos, mas va lá... são muito fofos...

14 dez

Quando eu vi essa placa de sinalização no banheiro da escola onde estudo (a Volkshochschule Wilmersdorf-Charlottenburg), fiquei pensando: nossa, mas isso é tão óbvio, tão claro, tão…GENIAL!

Será que é algum símbolo universal que eu não conhecia? Sei lá, mas acho que nunca vi isso antes.

E você, já viu uma ideia assim tão bem sintetizada?

O masculino, sem dúvida, sob qualquer ponto de vista ou intepretação

O feminino, claramente (e genialmente) um complemento

25 nov

Meu amor por Belo Horizonte não é segredo para ninguém; tem pessoas nessa cidade que aprendi a gostar e admirar demais. Uma delas é o Gustavo Greco, da Greco Design.

Ele é o contrário do que se espera de um designer famoso e premiadíssimo (talvez porque seja advogado por formação…rsrsrs): é discreto, sabe ouvir, não fica por aí exibindo sua sabedoria e superioridade e não se cansa de querer aprender mais (passou 4 noites dessa semana sentado numa cadeira para aprender como se aplica o método de definição da identidade corporativa que desenvolvi; não é o máximo?).

Sou fã declarada de Gustavo por um motivo muito simples: se eu tivesse um décimo da competência e brilhantismo do moço, vocês não iriam me aguentar; eu me acharia a rainha da cocada branca, preta, queimada, tudo!

Só nesse ano, o estúdio ganhou nada menos que um leão em Cannes, o Red Hot Design Awards em Berlin, o IDEA Brasil, o London International Awards, o El Ojo de Iberoamerica e a Bienal Iberoamericana de Design, para citar apenas os mais famosos.

Já tinha visitado a casa onde eles trabalham no ano passado e me encantei (queria trabalhar lá); o lugar é lindo (olha aqui).

Mas vou deixar vocês com dois projetos deles que eu acho mais sensacionais. O primeiro é o projeto de sinalização do consultório de ortodontia Dauro Oliveira (uma ideia simples e genial, que usa os brackets e arames como material).

Agora, o projeto de sinalização da Bienal Brasileira de Design, cuja tipografia é um luxo só.

Como vocês podem ver com os próprios olhos, eles não ficam dando troféus assim para qualquer um não….

14 out

Ontem à noite teve a abertura de uma exposição muito especial: a exposição de cartazes raros e originais (de 1920 a 1950) que faziam propaganda de viagens de luxo de navio, trem, avião e até Zeppelin!

A queridíssima Raquel Chaves está ajudando a divulgar o evento que acontece na Galeria Zeitlos, na minha opinião a loja mais charmosa de Berlin (há algum tempo eles fizeram uma Exposição do Design Brasileiro que postei aqui).

A galeria fica no shopping Stilwerk (aquele mesmo da exposição de Charles e Ray Eames que também postei aqui) e comercializa apenas objetos originais de designers famosos, a maioria da década de 50 e 60.

Os 40 cartazes pertencem às coleções particulares de Joachin Apitz e Wegner Marc, que amealharam suas preciosidades visitando mercados de pulgas desde a infância.

Mas vamos ao que interessa: veja os cartazes e viaje no tempo imaginando a atmosfera glamourosa em que eles foram criados e divulgados…

6 set

Continuando a série sobre estações de metrô, olha só que bacana essa aqui: na Westhafen (U9), as artistas Françoise Schein e Barbara Reiter imprimiram letras e sinais tipográficos por toda a estação, fazendo experimentos variados com forma, agrupamento e alinhamento na composição. O texto usado é a Declaração Universal dos Direitos do Homem (traduzida para o alemão, claro).

Westhafen significa Porto do Oeste e realmente tem um porto lá (o maior de Berlin). Qualquer dia vou dar uma conferida ao vivo e depois mostro aqui.

No mais, eu gostei bastante; e você?

Aqui as artistas dizem que acreditam que todos as pessoas devem ser ajudadas e que a obra foi realizada em 2000. Também contam que Westhafen é o sexto ponto em uma rede de artistas de cidades do mundo que acreditam e apoiam os direitos humanos. As outras estações de metrô com trabalhos semelhantes ficam em Paris, Bruxelas, Haifa, Lisboa e Estocolmo.

8 jul

De vez em quando dou um pulinho lá no From up North para alegrar os olhos e a mente. Tem inspiração em fotografia, propaganda, ilustração e mais um monte de coisas bacanas, além de umas frases interessantes para pensar. Olha essas…

Tradução livre: "O adulto criativo é a criança que sobreviveu"

Tradução livre: "Preocupação é como uma cadeira de balanço: dá a você alguma coisa para fazer, mas não o leva a lugar nenhum"

Tradução livre: "Se é importante para você, você encontrará um jeito. Se não é, você encontrará uma desculpa"

Tradução livre: "As melhores coisas da vida são invisíveis. Por isso é que fechamos os olhos quando beijamos, rimos e sonhamos"

Tradução livre: "A cura para tudo é água salgada: suor, lágrimas ou o mar"

6 jun

Sábado, dia 6 de junho, vai ser aberta a 13a edição da dOCUMENTA, talvez a mais importante exposição de arte contemporânea do mundo. O evento acontece a cada 5 anos na cidade alemã de Kassel, a mais ou menos 400 km de Berlin.

Bom, mesmo com meu orçamento de estudante-sem-bolsa, vou ter que dar um jeito de ir. Como perder um acontecimento assim?

A exposição dura exatos 100 dias e movimenta artistas, colecionadores, curadores, críticos e todo o povo que faz e acontece na cena das artes ao redor do globo.

Pois essa semana saiu no The New York Times um artigo maravilhoso da jornalista especializada em design Alice Rawsthorn que é uma verdadeira aula de tipografia. Achei tão sensacional que vou compartilhar aqui um pouquinho das ideias dela com vocês.

Alice explica que, nessa edição, os organizadores optaram usar como logotipo a palavra dOCUMENTA escrita normalmente; a única particularidade é que ela está toda em caixa-alta, exceto pelo “d” inicial. A decisão é bastante incomum, a julgar pela assiduidade de marcas multisensoriais, complexas e cheias de movimento nos grandes eventos internacionais ; ainda mais numa exposição como essa, intrinsecamente ligada à criatividade.

Quem opta por usar apenas um logotipo sem o símbolo anexado, não raro apela sem dó para truques tipográficos com o objetivo declarado de chamar atenção. Rawsthorn comenta que normalmente não é muito chegada nessas “inovações” (grifo meu) que dificultam a leitura, como o Ford Th!nk e o I MiEV, da Mitsubishi; se essas marcas são distintivas e memoráveis, não o são pelas razões certas, mas pelo seu poder de irritação quando a pessoa tenta pronunciá-las ou escrevê-las (concordo plenamente com ela, acho que a brincadeirinha já datou e perdeu a graça). Por isso é que a moça ficou tão intrigada com a grafia da dOCUMENTA.

Mas a Alice, com cultura e conhecimento de sobra, conseguiu matar a charada; tem a ver com a moderna cultura alemã, acompanhem o raciocínio.

A dOCUMENTA aconteceu pela primeira vez em 1955, quando o artista e professor Arnold Bode resolveu organizar a mostra na sua cidade natal como uma forma de contribuir para a reparação dos danos causados pela Segunda Guerra Mundial. A ideia era promover empatia e entendimento entre diferentes nações, e o sucesso foi tão grande que a exposição tornou-se um evento mundialmente reconhecido e ansiosamente aguardado nas décadas seguintes.

Cada edição tem sua própria identidade visual, a maioria explorando variações tipográficas, geralmente em letras minúsculas, herança da conterrânea Bahaus. Aliás, esse amor pelas letras minúsculas veio do carismático artista e designer húngaro Laszlo Moholy-Nagy, que começou a dar aulas na lendária escola em 1923. Laszlo era conhecido por encorajar os estudantes a fazer experimentações e inspirou muita gente boa na época (na verdade, inspira até hoje).

As iniciais maiúsculas nos títulos e textos estavam muito associadas ao poder, à disciplina extrema e ao autoritarismo alemão. Quando o artista e professor Joseph Albers propôs usar apenas letras minúsculas, estava subvertendo o sistema e demonstrando uma certa liberdade de pensamento. A  partir de 1920 a Bauhaus praticamente aboliu a caixa-alta de todas as suas publicações, catálogos, convites para festas e performances (ironicamente, o letreiro da escola na cidade de Dessau é todo em maiúsculas, como se pode ver aqui).

Para o alemão, essa insubordinação tem um significado adicional ainda mais forte, pois nesse idioma todos os substantivos (não apenas os nomes próprios) são grafados normalmente com iniciais maiúsculas.

O espírito libertário, descomplicado e livre de hierarquia advindo do uso exclusivo de minúsculas passou a ter também um forte apelo vanguardista e foi abraçado com gosto pelo mundo do design, como se pode observar até hoje, tanto nos logotipos de pequenas empresas como os de grandes corporações. Se você observar bem, o negócio virou modinha, tem em todo lugar.

Mas a coisa desandou mesmo foi na década de 1990, com a popularização da internet; escrever tudo em caixa-baixa era mais rápido e prático, e proliferou de tal maneira que se tornou um clichê corporativo, totalmente adaptado ao “sistema” e sem nenhum traço da rebeldia que lhe deu origem. A julgar pelos logotipos totalmente desconectados do conceito inicial, boa parte dos designers sequer faz ideia do simbolismo dessa prática. Ou como explicar que grandes corporações, totalmente adaptadas e dominantes no atual sistema hierárquico e de poder se utilizem de um recurso que representa o seu avesso?

Por conta desse histórico, o comitê da dOCUMENTA resolveu fazer exatamente o contrário. Sim, a hierarquia das letras está de volta, mas agora novamente com um traço de rebeldia. A tal ponto que o manual de identidade visual permite o uso de qualquer fonte tipográfica, até mesmo as manuscritas, desde que respeitada a capitalização, a inserção do (13) no final e que as letras sejam impressas em preto.

Como resultado, a identidade visual do evento pode ser reconhecida em qualquer lugar, independente da aplicação e da fonte.

Gênio, gênio, gênio.

Tenho que limpar a baba logo, pois preciso de reservas para visitar a exposição. Me aguardem…

***

Para ler o artigo original “A symbol is born“, de Alice Rawsthorn, basta clicar aqui.

31 mai

Finalmente acabei de ler “Extremely loud & incredibly close“, do Jonathan Safran Foer. Que o autor é um sujeito extremamente inspirado e sensível, eu já tinha adiantado aqui, com uma amostra de frases brilhantes.

Mas agora, além disso tudo, também reparei outra coisa que pode ser muito últil aos designers. Foer usa a tipografia como parte integrante da narrativa; não dá para não reparar.

No outro livro que eu tinha lido, “Everything ist illuminated“, ele mudava a fonte tipográfica para cada um dos narradores (que escreviam em épocas diferentes). Como a história era um pouco confusa, ajudava muito na compreensão.

Neste, há três narradores e a escrita não é lá muito linear (bem típico do autor). Ele não muda a fonte tipográfica dependendo de quem conta a sua parte da história, mas trabalha com o kerning (espaço entre as letras) de uma maneira muito original. Como a história é sobre um drama (um homem que perdeu seu grande amor no bombardeio que destruiu a cidade alemã de Dresden e um menino que perdeu o pai no atentado de 11 de setembro), a tipografia consegue fazer um papel bem relevante. É prosa, mas às vezes parece poesia, das mais delicadas. A ponto de fazer os olhos se encherem de lágrimas.

Lindo, comovente, doloroso, doce, e, ainda por cima, uma lição de tipografia.

Não sei se na versão em português os editores mantiveram essa sutileza tão sofisticada e importante para a história, mas, se eu fosse você e ainda não tivesse lido o livro, iria correndo dar uma volta na livraria mais próxima e dar uma folheada. Em poucos casos vi a tipografia fazendo figuração de maneira tão competente numa obra. Vai lá…

*** na versão em inglês, achei genial a pg. 280 e as subsequentes…

25 mai

Hoje fiz uma coisa que estava na minha lista (que só faz crescer) há tempos: fui visitar o Buchstabenmuseum, ou, em bom português, o Museu das Letras. A ideia surgiu em 2005, quando duas apaixonadas por tipografia, Barbara Dechant e Anja Schulze, resolveram montar uma organização sem fins lucrativos para expor a incipiente coleção de letreiros e pesquisar mais sobre essa fascinante arte de escrever e sinalizar em letras grandes e tridimensionais. Em 2008 elas inauguraram o espaço, que já trocou de endereço duas vezes e agora está dentro de um shopping perto da Alexander Platz. As moças estão se organizando para conseguir um lugar maior e mostrar o acervo cada vez mais rico e variado.

O museu é pequeno, mas charmosíssimo. A variedade de cores, tamanhos, formatos e famílias tipográficas é de deixar designers totalmente descontrolados. Cada letra é catalogada caprichosamente; a ficha diz a que lugar pertencia, o endereço, o designer, a data, as dimensões, os materiais e tudo sobre aquele objeto de arte. Há desde letras da fachada de gigantes como a AEG, desenhadas e encomendadas por ninguém menos que Peter Behens até o letreiro de um cinema que fez parte do cenário do filme Bastardos Inglórios, filmado em Berlin em 2008.

Enfim, o que posso dizer é que meus olhinhos ficaram muito felizes com o presente. Como não sou egoísta, vou dividir com vocês também.

Deleitem-se…

Achou bacana? Então clique aqui e veja todas as fotos direto no Flickr.

7 fev

Puxa, recebi vários e-mails (a maioria prefere não postar publicamente sua opinião no campo de comentários) de gente dizendo que é um absurdo o artigo anterior que postei, onde defendo que os designers devem refletir sobre a real necessidade de uma marca gráfica para identificar seu trabalho.

Foram várias reclamações, algumas até bem malcriadas, mas o argumento mais frequentemente usado é o de sempre: que eu falo isso só porque não sou designer.

Pois então. Em uma pesquisa rápida de apenas 15 minutos achei alguns cartões de visita bacanas que não usam uma marca gráfica, mas exploram muito bem as imagens de apoio (que não caracterizam marca gráfica, pois não são perenes e variam com o suporte), mas ajudam a fixar na lembrança do cliente a identidade do profissional.

Tem umas ótimas de vários tipos de profissionais liberais, mas aqui vão apenas as de designers. E sim, há alguns desses profissionais que, aparentemente, concordam com meu ponto de vista (vão brigar com eles agora….eheheh).

18 set

A melhor fonte tipográfica existe meramente para comunicar uma ideia. Ela não está lá para ser notada, muito menos admirada. Quanto mais os leitores se dão conta do tipo ou do layout de uma página, pior é a fonte tipográfica.

É como o vinho; quanto mais transparente é a taça, melhor seu conteúdo pode ser apreciado“.

Sábias palavras de Beatrice Warde na década de 1930. Fonte: Just my type, de Simon Garfield, 2010.

5 set

Muita gente não sabe ou não se deu conta, mas o mundo da tipografia mudou completamente depois que um estudante universitário abandonou seu curso nos idos dos anos 1970 e resolveu assistir aulas de caligrafia para passar o tempo. Ele achava que isso não acrescentaria muito ao seu currículo, mas não podia evitar o fascínio que sentia pelas letras caprichosamente desenhadas. Dez anos depois, o sujeito projetou o primeiro computador onde quem escrevia podia escolher o tipo de letra que queria usar no texto; sim, estamos falando de Steve Jobs e seu revolucionário Macintosh.

Antes de Jobs, apenas profissionais especializados sabiam a diferença entre Bodoni, Times New Roman e Gill Sans. No mundo D.J., tipografia é mais popular que novela, e um pré-adolescente pode discutir violentamente com sua tia porque ela usou Comic Sans (tias adoram) em vez de Verdana no e-mail.

A partir do reconhecimento desse fenômeno é que o extraordinário “Just my type”, de Simon Garfield começa a ser narrado. Diferente dos outros livros de tipografia que já li, esse não gasta as páginas dissecando as características de cada família tipográfica. Ele fala das fontes sim, mas principalmente das pessoas que as criaram e suas histórias.

Fala do capricho de Jobs, que encomendou para sua equipe uma coleção de fontes com o nome das cidades que ele adora (Chicago, fonte do primeiro iPod; San Francisco, London, Geneva e New York, para citar algumas). Depois veio a Microsoft e nos deu mais um montão de opções. Aliás, você sabia que o “pai” da polêmica Comic Sans também criou sua irmã mais chique, a Trebuchet? E que essas duas são as melhores fontes para trabalhar com crianças disléxicas, sendo que a Trebuchet é uma das mais adequadas para o web design?

A história da Comic Sans é curiosa; Vincent Connare (que também era fotógrafo e pintor) foi contratado pela Microsoft em 1994 e um dos seus primeiros trabalhos foi analisar a tipografia de um pacote chamado Microsoft Bob, o avô do Office. Ele tinha planilhas, editores de texto e tudo mais, e a ideia era fazê-lo parecer bem amigável para os novatos. Mas Connare reparou que essa era uma tarefa impossível, pois as instruções e comandos eram todos escritos em Times New Roman. Então ele estudou algumas referências e, baseado em sua coleção de histórias em quadrinhos, criou a Comic Sans, cujo objetivo é transmitir diversão, descontração e humor. E, ninguém pode negar, a fonte é muito competente nesses contextos.

O problema é que o Comic Sans começou a aparecer cartas comerciais e institucionais (eu já recebi uma da Finep, juro!), ambulâncias, sites pornô, uniformes de futebol, cartões de visita de bancos e seguradoras, anúncios de produtos médicos, placas de advertência supostamente sérias e por aí vai. Claro que quem tem um mínimo de bom senso e olho ficou perturbado com o fenômeno (vale ressaltar que nem todo mundo com essas características é designer). Surgiram campanhas irônicas do tipo “cada vez que você manda um e-mail em Comic Sans um lindo coelhinho morre perfurado”, “Fora Comic Sans” e iniciativas cômicas do mesmo naipe.

Ainda tem muita gente que sonha banir o Comic Sans das opções de fonte do Word, mas não se pode negar que ela é uma ótima opção nas aplicações para as quais foi projetada. Como diz o próprio Connare “Se você ama a Comic Sans, provavelmente você não sabe muito sobre tipografia. Mas se você odeia a Comic Sans, você realmente não sabe nada sobre tipografia; melhor procurar outro trabalho.”

Tem outros causos interessantíssimos, como a história de Eric Gill, o criador da elegante e inimitável Gill Sans, um artista que criou a fonte sob encomenda para uma livraria em Bristol, Inglaterra. O sucesso foi tão grande que a fonte foi adotada pela Igreja da Inglaterra, BBC, British Railways e usada nas capas dos livros da Penguin Books; até o Ministério da Informação britânico foi cliente durante a guerra. Mas quando a biografia do Eric foi publicada em 1989, estourou o escândalo; o sujeito era um louco de pedra que adorava fazer experimentações sexuais com sua irmã, filhas e até seu cachorro. E ainda anotava no diário relatórios sobre os resultados. Claro que não faltaram movimentos para banir a fonte, mas a coitada não tem culpa do pai que tem, né?

Outra história bacana foi o relato sobre a mundança do logotipo da IKEA. A rede sueca de móveis e objetos bem projetados e baratos (não tem no Brasil, mas a Tok Stok e a Etna são tentativas de cópia relativamente bem-sucedidas, exceto pelo preço) arrumou a maior confusão quando tentou mudar a fonte tipográfica de sua marca, grafada em Futura, para o Verdana. A Futura, criada em 1920, é elegante e traduz muito bem o conceito de honestidade, praticidade e design ao alcance de todos. O argumento usado era que a Futura não estava presente na maioria dos computadores e a Verdana tinha sido projetada para esse fim, além de estar se tornando muito popular, o que faria a marca ser reproduzida em todos os meios com mais fidelidade. Bom, a Verdana é ótima para computadores, mas o ícone da IKEA são as letras garrafais pintadas em amarelo nas paredes azuis das lojas monumentais da rede. E nessa dimensão, não tem pra ninguém; a Futura impera sem concorrentes. Os clientes se revoltaram de tal maneira que a empresa teve que voltar atrás. Os executivos sempre pensaram que ninguém reparava nisso; até mesmo os clientes só então se deram conta do vínculo emocional que tinham com a marca.

Ainda tem mais um montão de coisas interessantíssimas: discussões frutíferas sobre visibilidade e legibilidade; a história dos símbolos & e $; a onipresença da Helvetica em metrôs, marcas e aeroportos do mundo todo; o sonho de Frutiger para a Univers; a dramática história da Baskerville; o fato de Veneza, em 1470 já ter 150 gráficas; o nascimento do itálico; as consequências de um e-mail todo escrito em caixa-alta (para quem não sabe, escrever um texto todo em maiúsculas é a maior ofensa que se pode fazer escrevendo – é o equivalente a berrar); o caso de amor entre Barak Obama e a fonte Gothan; a Transport, desenvolvida especialmente para sinalização rodoviária;  a história dos primeiros tipógrafos; a era Letraset (usei muito) e rotuladores Dymo; enfim, o livro é divertimento garantido e cultura tipográfica de primeiríssima. Exatamente o meu tipo…

Lígia Fascioni | www.ligiafascioni.com.br

28 jun

Fotografia: Vincent Bousserez

No Brasil do jeitinho, pessoas que se preocupam com detalhes são consideradas neuróticas, exigentes, perfeccionistas, enfim, irritantes. E para não parecer chata, boa parte da população evita com todo cuidado a atenção nos detalhes: se o português for muito correto, pode parecer pedante; se o acabamento for primoroso, é porque o sujeito não tem mais o que fazer na vida; se cuida bem da roupa, só pode ser “mauricinho” ou “patricinha”.

Experimente, como eu, pedir para substituir o hífen “-” entre expressões que separam idéias, pelo correto travessão “—” em uma peça gráfica. A moral da senhora sua mãe vai virar alvo dos piores julgamentos e a sua saúde mental será levianamente questionada. Onde já se viu prestar tanta atenção em “tracinhos” que ninguém mais vê?

É impressionante como é normal pegar um cartão de visitas de designers, publicitários e diretores de arte e ver aquele festival de hifens mal colocados. A desculpa mais comum é que isso não tem nada a ver com design gráfico. Ora, design gráfico é essencialmente uma ferramenta de comunicação, e para fazer isso direito, há que se respeitar as regras e convenções da língua. Além disso, todo sinal tipográfico tem seu uso adequado a cada situação; é justamente para comunicar melhor que eles foram inventados. Para mim, um bom profissional deve buscar todas as informações necessárias para exercer bem o seu ofício, incluindo aí as coisas que ele não aprendeu na escola mas que deveria ter aprendido. Isso é cultura, é o que faz a diferença.

A relevância das informações é também freqüentemente ignorada. Ou que outra explicação haveria para alguém colocar as palavras óbvias como endereço e CEP em um espaço tão exíguo como um cartão de visitas? Ou será que o designer teme que alguém possa confundir o CEP com o número de celular? Pode isso?

Os erros de português, então, são um capítulo à parte. As pessoas erram, sabendo que estão errando, e ainda dizem que é bobagem se preocupar, afinal, todo mundo entendeu o que elas disseram. Penso que em qualquer área de atividade profissional um dicionário e uma gramática em cima da mesa de trabalho são ferramentas fundamentais. Afinal, a nossa língua é mesmo complicada, e a toda hora a gente tem dúvidas. Eu erro, todo mundo erra, é humano, mas por que não tentar reduzir esses eventos tão chatos? Dá o mesmo trabalho fazer uma coisa caprichada e outra malfeita, onde, no segundo caso, se perde mais tempo e dinheiro quando tem que fazer de novo.

Há pessoas que se jactam de não se preocupar com detalhes afirmando que só se concentram no que é mais importante. Mas o que é mais importante? Se um engenheiro eletrônico achasse que os componentes menores não têm importância, se um oftalmologista acreditasse que 0,5 grau é só um detalhezinho mínimo, se um piloto de avião desprezasse os indicadores menores, se  um contador passasse a arredondar todos os centavos para não dar trabalho, se um costureiro considerasse que 1 cm em uma roupa não faz diferença, se um físico pensasse que os átomos são pequenos demais para merecer que alguém se ocupe deles; onde é que a gente estaria? E por que somente designers gráficos deveriam se dar ao luxo de ignorar detalhes? Será coincidência que os líderes de mercado e os profissionais mais respeitados sejam justamente aqueles que primam pela qualidade em todos os aspectos, inclusive naqueles que os concorrentes desprezam?

Alinhamentos precisos, espaçamentos estudados, cuidado na revisão, símbolos usados corretamente, nomes de arquivos coerentes e organizados em pastas com nomes elucidativos, documentação atualizada, backups periódicos, apresentação cuidadosa, respeito pelo tempo e dinheiro alheios, boa educação para tratar as pessoas — detalhes nem tão pequenos que, certamente, não tornam ninguém um neurótico obsessivo — mas certamente contribuem para uma atuação profissional muito melhor.

Em tempo: O hífen é um elemento gráfico de ligação e serve para UNIR palavras (ex: sabe-se) e/ou números (ex: 88030-001). Já o travessão, que tem o comprimento aproximado de dois hífens colados, serve para fazer justamente o contrário — SEPARAR e enfatizar conceitos e informações. É fácil saber quando usar hífen ou travessão; o hífen vem sempre colado nas palavras (claro, pois ele serve para unir); já o travessão tem sempre um espaço antes e um depois (se ele serve para separar, nada mais justo). Em inglês o travessão é chamado dash (endash quando tem a largura de uma letra n e emdash quando tem a largura de uma letra m — seus usos estão explicados em qualquer manual de tipografia). Ah, o número do CEP vem sempre antes do nome da cidade.

26 abr

o cérebro humano adora pegadinhas. Acho que é por isso que a gente simpatiza logo de cara quando vê uma marca gráfica bem sacada como essas, olha só.

Designer: Atakan Seckin

Autor: Siah Design

Designer: Cory Williams Crowther

Designer: Andre Sousa

Para mim o ais genial e menos óbvio. Direto da mente do Peter Vasvari.

Achado no Illusion Scene 360º.

23 fev

Olha só o top bizarrice que o Vinícius Magalhães me mandou de presente: uma pizzaria em Santa Marta, na Colômbia, chamada Vomito! Não acreditei e fui até o dicionário de espanhol para ver se a palavra tinha o mesmo significado que em português (vai que é um falso cognato), mas era isso mesmo. Até a fonte tipográfica remete a alguma coisa meio que escorrendo…arghhh…

Foi ele mesmo quem tirou a foto e ainda disse que uns amigos tiveram coragem de experimentar e não acharam a pizza ruim (esqueci de perguntar o sabor que eles escolheram).

Credo! A gente vê cada coisa nesse mundo…

8 fev

A Sabrina Mix, quando me manda coisa, pode contar que é boa! Olha só a coleção de vinhos inspirados nos setes pecados capitais com embalagens projetadas pelo estudio espanhol Sidecar. Tem mais informações aqui, no Lovely Package.

Eu gostei mais da gula. E você?

Ira

Avareza

Luxúria

Inveja

Soberba

Gula

Preguiça

17 jan

Estou sempre zapeando por sites de embalagens para ver coisas bacanas e originais. Pois olha que coisa mais genial encontrei no Lovely Package: a designer Sophia Georgopoulou bolou saquinho de sementes de papoula cujo achado é na tipografia. O tipo de projeto sensacional, daqueles que faz a gente duvidar “como é que ninguém pensou nisso antes?“.

9 jan

Decidi refazer o mosaico de placas de números porque tinha ficado ruim. Agora está mais organizado e aparecem todas as variações.

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***

As casas em San Antonio de Areco são numeradas de um jeito muito estiloso; as placas também têm o nome da rua. Essa só uma amostra. Show, né?

2 set

Tudo bem que tem aquela questão da mulher-objeto, etc, etc. Mas essas pin-ups são tão lindinhas que a gente até esquece um pouco desse papo. Não tem como não achar charmosa a embalagem desse chocolate, que vem com um selinho para ser retirado e mostrar as moçoilas em trajes íntimos.

Com hoje em dia a mulherada se deixando fotografar praticamente do avesso, não deixa de ter um certo ar de inocência essas mocinhas curvilíneas tão bem encaixadas no projeto gráfico (atenção especial para a tipografia fantástica).

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O projeto é de Kyle Tezak para Mindy’s Hot Chocolate de Chicago. Fiquei sabendo pela newsletter TrendLand.

13 jul

Gente, olha só que link mais sensacional o meu querido professor de yôga Enio Peretti me mandou: o elegantíssimo blog a book cover day, que publica todo dia uma belíssima capa de livro. Pelo jeito o blog é bem jovem, pois ainda só tem 3 páginas, mas tem tudo para ser um sucesso. Pelo bom gosto nas escolhas, virei fã e vou frequentar. Olha só uma amostra.

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