Arquivo de ‘tipografia’

7 fev

Puxa, recebi vários e-mails (a maioria prefere não postar publicamente sua opinião no campo de comentários) de gente dizendo que é um absurdo o artigo anterior que postei, onde defendo que os designers devem refletir sobre a real necessidade de uma marca gráfica para identificar seu trabalho.

Foram várias reclamações, algumas até bem malcriadas, mas o argumento mais frequentemente usado é o de sempre: que eu falo isso só porque não sou designer.

Pois então. Em uma pesquisa rápida de apenas 15 minutos achei alguns cartões de visita bacanas que não usam uma marca gráfica, mas exploram muito bem as imagens de apoio (que não caracterizam marca gráfica, pois não são perenes e variam com o suporte), mas ajudam a fixar na lembrança do cliente a identidade do profissional.

Tem umas ótimas de vários tipos de profissionais liberais, mas aqui vão apenas as de designers. E sim, há alguns desses profissionais que, aparentemente, concordam com meu ponto de vista (vão brigar com eles agora….eheheh).

18 set

A melhor fonte tipográfica existe meramente para comunicar uma ideia. Ela não está lá para ser notada, muito menos admirada. Quanto mais os leitores se dão conta do tipo ou do layout de uma página, pior é a fonte tipográfica.

É como o vinho; quanto mais transparente é a taça, melhor seu conteúdo pode ser apreciado“.

Sábias palavras de Beatrice Warde na década de 1930. Fonte: Just my type, de Simon Garfield, 2010.

5 set

Muita gente não sabe ou não se deu conta, mas o mundo da tipografia mudou completamente depois que um estudante universitário abandonou seu curso nos idos dos anos 1970 e resolveu assistir aulas de caligrafia para passar o tempo. Ele achava que isso não acrescentaria muito ao seu currículo, mas não podia evitar o fascínio que sentia pelas letras caprichosamente desenhadas. Dez anos depois, o sujeito projetou o primeiro computador onde quem escrevia podia escolher o tipo de letra que queria usar no texto; sim, estamos falando de Steve Jobs e seu revolucionário Macintosh.

Antes de Jobs, apenas profissionais especializados sabiam a diferença entre Bodoni, Times New Roman e Gill Sans. No mundo D.J., tipografia é mais popular que novela, e um pré-adolescente pode discutir violentamente com sua tia porque ela usou Comic Sans (tias adoram) em vez de Verdana no e-mail.

A partir do reconhecimento desse fenômeno é que o extraordinário “Just my type”, de Simon Garfield começa a ser narrado. Diferente dos outros livros de tipografia que já li, esse não gasta as páginas dissecando as características de cada família tipográfica. Ele fala das fontes sim, mas principalmente das pessoas que as criaram e suas histórias.

Fala do capricho de Jobs, que encomendou para sua equipe uma coleção de fontes com o nome das cidades que ele adora (Chicago, fonte do primeiro iPod; San Francisco, London, Geneva e New York, para citar algumas). Depois veio a Microsoft e nos deu mais um montão de opções. Aliás, você sabia que o “pai” da polêmica Comic Sans também criou sua irmã mais chique, a Trebuchet? E que essas duas são as melhores fontes para trabalhar com crianças disléxicas, sendo que a Trebuchet é uma das mais adequadas para o web design?

A história da Comic Sans é curiosa; Vincent Connare (que também era fotógrafo e pintor) foi contratado pela Microsoft em 1994 e um dos seus primeiros trabalhos foi analisar a tipografia de um pacote chamado Microsoft Bob, o avô do Office. Ele tinha planilhas, editores de texto e tudo mais, e a ideia era fazê-lo parecer bem amigável para os novatos. Mas Connare reparou que essa era uma tarefa impossível, pois as instruções e comandos eram todos escritos em Times New Roman. Então ele estudou algumas referências e, baseado em sua coleção de histórias em quadrinhos, criou a Comic Sans, cujo objetivo é transmitir diversão, descontração e humor. E, ninguém pode negar, a fonte é muito competente nesses contextos.

O problema é que o Comic Sans começou a aparecer cartas comerciais e institucionais (eu já recebi uma da Finep, juro!), ambulâncias, sites pornô, uniformes de futebol, cartões de visita de bancos e seguradoras, anúncios de produtos médicos, placas de advertência supostamente sérias e por aí vai. Claro que quem tem um mínimo de bom senso e olho ficou perturbado com o fenômeno (vale ressaltar que nem todo mundo com essas características é designer). Surgiram campanhas irônicas do tipo “cada vez que você manda um e-mail em Comic Sans um lindo coelhinho morre perfurado”, “Fora Comic Sans” e iniciativas cômicas do mesmo naipe.

Ainda tem muita gente que sonha banir o Comic Sans das opções de fonte do Word, mas não se pode negar que ela é uma ótima opção nas aplicações para as quais foi projetada. Como diz o próprio Connare “Se você ama a Comic Sans, provavelmente você não sabe muito sobre tipografia. Mas se você odeia a Comic Sans, você realmente não sabe nada sobre tipografia; melhor procurar outro trabalho.”

Tem outros causos interessantíssimos, como a história de Eric Gill, o criador da elegante e inimitável Gill Sans, um artista que criou a fonte sob encomenda para uma livraria em Bristol, Inglaterra. O sucesso foi tão grande que a fonte foi adotada pela Igreja da Inglaterra, BBC, British Railways e usada nas capas dos livros da Penguin Books; até o Ministério da Informação britânico foi cliente durante a guerra. Mas quando a biografia do Eric foi publicada em 1989, estourou o escândalo; o sujeito era um louco de pedra que adorava fazer experimentações sexuais com sua irmã, filhas e até seu cachorro. E ainda anotava no diário relatórios sobre os resultados. Claro que não faltaram movimentos para banir a fonte, mas a coitada não tem culpa do pai que tem, né?

Outra história bacana foi o relato sobre a mundança do logotipo da IKEA. A rede sueca de móveis e objetos bem projetados e baratos (não tem no Brasil, mas a Tok Stok e a Etna são tentativas de cópia relativamente bem-sucedidas, exceto pelo preço) arrumou a maior confusão quando tentou mudar a fonte tipográfica de sua marca, grafada em Futura, para o Verdana. A Futura, criada em 1920, é elegante e traduz muito bem o conceito de honestidade, praticidade e design ao alcance de todos. O argumento usado era que a Futura não estava presente na maioria dos computadores e a Verdana tinha sido projetada para esse fim, além de estar se tornando muito popular, o que faria a marca ser reproduzida em todos os meios com mais fidelidade. Bom, a Verdana é ótima para computadores, mas o ícone da IKEA são as letras garrafais pintadas em amarelo nas paredes azuis das lojas monumentais da rede. E nessa dimensão, não tem pra ninguém; a Futura impera sem concorrentes. Os clientes se revoltaram de tal maneira que a empresa teve que voltar atrás. Os executivos sempre pensaram que ninguém reparava nisso; até mesmo os clientes só então se deram conta do vínculo emocional que tinham com a marca.

Ainda tem mais um montão de coisas interessantíssimas: discussões frutíferas sobre visibilidade e legibilidade; a história dos símbolos & e $; a onipresença da Helvetica em metrôs, marcas e aeroportos do mundo todo; o sonho de Frutiger para a Univers; a dramática história da Baskerville; o fato de Veneza, em 1470 já ter 150 gráficas; o nascimento do itálico; as consequências de um e-mail todo escrito em caixa-alta (para quem não sabe, escrever um texto todo em maiúsculas é a maior ofensa que se pode fazer escrevendo – é o equivalente a berrar); o caso de amor entre Barak Obama e a fonte Gothan; a Transport, desenvolvida especialmente para sinalização rodoviária;  a história dos primeiros tipógrafos; a era Letraset (usei muito) e rotuladores Dymo; enfim, o livro é divertimento garantido e cultura tipográfica de primeiríssima. Exatamente o meu tipo…

Lígia Fascioni | www.ligiafascioni.com.br

28 jun

Fotografia: Vincent Bousserez

No Brasil do jeitinho, pessoas que se preocupam com detalhes são consideradas neuróticas, exigentes, perfeccionistas, enfim, irritantes. E para não parecer chata, boa parte da população evita com todo cuidado a atenção nos detalhes: se o português for muito correto, pode parecer pedante; se o acabamento for primoroso, é porque o sujeito não tem mais o que fazer na vida; se cuida bem da roupa, só pode ser “mauricinho” ou “patricinha”.

Experimente, como eu, pedir para substituir o hífen “-” entre expressões que separam idéias, pelo correto travessão “—” em uma peça gráfica. A moral da senhora sua mãe vai virar alvo dos piores julgamentos e a sua saúde mental será levianamente questionada. Onde já se viu prestar tanta atenção em “tracinhos” que ninguém mais vê?

É impressionante como é normal pegar um cartão de visitas de designers, publicitários e diretores de arte e ver aquele festival de hifens mal colocados. A desculpa mais comum é que isso não tem nada a ver com design gráfico. Ora, design gráfico é essencialmente uma ferramenta de comunicação, e para fazer isso direito, há que se respeitar as regras e convenções da língua. Além disso, todo sinal tipográfico tem seu uso adequado a cada situação; é justamente para comunicar melhor que eles foram inventados. Para mim, um bom profissional deve buscar todas as informações necessárias para exercer bem o seu ofício, incluindo aí as coisas que ele não aprendeu na escola mas que deveria ter aprendido. Isso é cultura, é o que faz a diferença.

A relevância das informações é também freqüentemente ignorada. Ou que outra explicação haveria para alguém colocar as palavras óbvias como endereço e CEP em um espaço tão exíguo como um cartão de visitas? Ou será que o designer teme que alguém possa confundir o CEP com o número de celular? Pode isso?

Os erros de português, então, são um capítulo à parte. As pessoas erram, sabendo que estão errando, e ainda dizem que é bobagem se preocupar, afinal, todo mundo entendeu o que elas disseram. Penso que em qualquer área de atividade profissional um dicionário e uma gramática em cima da mesa de trabalho são ferramentas fundamentais. Afinal, a nossa língua é mesmo complicada, e a toda hora a gente tem dúvidas. Eu erro, todo mundo erra, é humano, mas por que não tentar reduzir esses eventos tão chatos? Dá o mesmo trabalho fazer uma coisa caprichada e outra malfeita, onde, no segundo caso, se perde mais tempo e dinheiro quando tem que fazer de novo.

Há pessoas que se jactam de não se preocupar com detalhes afirmando que só se concentram no que é mais importante. Mas o que é mais importante? Se um engenheiro eletrônico achasse que os componentes menores não têm importância, se um oftalmologista acreditasse que 0,5 grau é só um detalhezinho mínimo, se um piloto de avião desprezasse os indicadores menores, se  um contador passasse a arredondar todos os centavos para não dar trabalho, se um costureiro considerasse que 1 cm em uma roupa não faz diferença, se um físico pensasse que os átomos são pequenos demais para merecer que alguém se ocupe deles; onde é que a gente estaria? E por que somente designers gráficos deveriam se dar ao luxo de ignorar detalhes? Será coincidência que os líderes de mercado e os profissionais mais respeitados sejam justamente aqueles que primam pela qualidade em todos os aspectos, inclusive naqueles que os concorrentes desprezam?

Alinhamentos precisos, espaçamentos estudados, cuidado na revisão, símbolos usados corretamente, nomes de arquivos coerentes e organizados em pastas com nomes elucidativos, documentação atualizada, backups periódicos, apresentação cuidadosa, respeito pelo tempo e dinheiro alheios, boa educação para tratar as pessoas — detalhes nem tão pequenos que, certamente, não tornam ninguém um neurótico obsessivo — mas certamente contribuem para uma atuação profissional muito melhor.

Em tempo: O hífen é um elemento gráfico de ligação e serve para UNIR palavras (ex: sabe-se) e/ou números (ex: 88030-001). Já o travessão, que tem o comprimento aproximado de dois hífens colados, serve para fazer justamente o contrário — SEPARAR e enfatizar conceitos e informações. É fácil saber quando usar hífen ou travessão; o hífen vem sempre colado nas palavras (claro, pois ele serve para unir); já o travessão tem sempre um espaço antes e um depois (se ele serve para separar, nada mais justo). Em inglês o travessão é chamado dash (endash quando tem a largura de uma letra n e emdash quando tem a largura de uma letra m — seus usos estão explicados em qualquer manual de tipografia). Ah, o número do CEP vem sempre antes do nome da cidade.

26 abr

o cérebro humano adora pegadinhas. Acho que é por isso que a gente simpatiza logo de cara quando vê uma marca gráfica bem sacada como essas, olha só.

Designer: Atakan Seckin

Autor: Siah Design

Designer: Cory Williams Crowther

Designer: Andre Sousa

Para mim o ais genial e menos óbvio. Direto da mente do Peter Vasvari.

Achado no Illusion Scene 360º.

23 fev

Olha só o top bizarrice que o Vinícius Magalhães me mandou de presente: uma pizzaria em Santa Marta, na Colômbia, chamada Vomito! Não acreditei e fui até o dicionário de espanhol para ver se a palavra tinha o mesmo significado que em português (vai que é um falso cognato), mas era isso mesmo. Até a fonte tipográfica remete a alguma coisa meio que escorrendo…arghhh…

Foi ele mesmo quem tirou a foto e ainda disse que uns amigos tiveram coragem de experimentar e não acharam a pizza ruim (esqueci de perguntar o sabor que eles escolheram).

Credo! A gente vê cada coisa nesse mundo…

8 fev

A Sabrina Mix, quando me manda coisa, pode contar que é boa! Olha só a coleção de vinhos inspirados nos setes pecados capitais com embalagens projetadas pelo estudio espanhol Sidecar. Tem mais informações aqui, no Lovely Package.

Eu gostei mais da gula. E você?

Ira

Avareza

Luxúria

Inveja

Soberba

Gula

Preguiça

17 jan

Estou sempre zapeando por sites de embalagens para ver coisas bacanas e originais. Pois olha que coisa mais genial encontrei no Lovely Package: a designer Sophia Georgopoulou bolou saquinho de sementes de papoula cujo achado é na tipografia. O tipo de projeto sensacional, daqueles que faz a gente duvidar “como é que ninguém pensou nisso antes?“.

9 jan

Decidi refazer o mosaico de placas de números porque tinha ficado ruim. Agora está mais organizado e aparecem todas as variações.

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***

As casas em San Antonio de Areco são numeradas de um jeito muito estiloso; as placas também têm o nome da rua. Essa só uma amostra. Show, né?

2 set

Tudo bem que tem aquela questão da mulher-objeto, etc, etc. Mas essas pin-ups são tão lindinhas que a gente até esquece um pouco desse papo. Não tem como não achar charmosa a embalagem desse chocolate, que vem com um selinho para ser retirado e mostrar as moçoilas em trajes íntimos.

Com hoje em dia a mulherada se deixando fotografar praticamente do avesso, não deixa de ter um certo ar de inocência essas mocinhas curvilíneas tão bem encaixadas no projeto gráfico (atenção especial para a tipografia fantástica).

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O projeto é de Kyle Tezak para Mindy’s Hot Chocolate de Chicago. Fiquei sabendo pela newsletter TrendLand.

13 jul

Gente, olha só que link mais sensacional o meu querido professor de yôga Enio Peretti me mandou: o elegantíssimo blog a book cover day, que publica todo dia uma belíssima capa de livro. Pelo jeito o blog é bem jovem, pois ainda só tem 3 páginas, mas tem tudo para ser um sucesso. Pelo bom gosto nas escolhas, virei fã e vou frequentar. Olha só uma amostra.

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24 jun

Olha só que bacana o Enio Peretti me mandou: uma coleção de marcas gráficas que conseguem sintetizar num símbolo um mundo de informações. Achei esses aqui os melhores, mas tem mais no DevSnippets. Inspirador…

Sushi personalizado

Pausa

Fale mais

Gás hélio

Churrascaria Dodo

Livraria Diamante

Morto

1 mai

Alguém pode me explicar o que significa essa placa? Será que tem a ver com o fato dos bebês nascerem de cabeça para baixo? Não captei…

13 jan

Acho que vou instituir o TSN (Troféu Sem Noção) aqui no blog e fazer um concurso anual onde serão escolhidos os 10 mais sem noção. Que tal?

Esse candidato foi presente do grande Michel Téo Sin. Parece que ele, assim como eu, só conseguiu enxergar E SP AÇO (ou ACO, conforme o ângulo) quando vê a placa do Espaço Design Class (?) Hãã..??

Na verdade, eu olho e a primeira palavra que salta é SACO. Depois, observando com calma, consigo ver o SP, e, com persistência, o AÇO. Seja lá como for, parece que está faltando um pouco de design (e, talvez, class também…).

24 nov

Isso é o que se pode chamar de um desastre tipográfico: o mini, que deveria comunicar algo de tamanho pequeno, é gigante. E a terminação lembra o verbo aturar, dizendo para o cliente alguma coisa que soa parecido com “me ature!“. Não, não vou comentar o relógio destacado no meio…

Quem me chamou atenção para o fato foi meu querido amigo Cristiano Chaussard.

26 out

Estou fazendo uma consultoria em Manaus (quarta-feira volto para lá) e me chamou atenção o jornal local, chamado “A crítica“. É que o designer (ou a agência de propaganda, não sei) que bolou o logotipo resolveu juntar as palavras e separá-las apenas por cores. Mas tipograficamente elas estão unidas e o significado é o oposto do original, uma vez que acrítica significa não-crítica (péssimo para um jornal ser acrítico, né?). Além disso, as cores diferentes poderiam ser interpretadas como uma ênfase ao não. A intenção não era essa, claro, mas o espaço para a dubiedade de interpretações está lá para quem quiser se divertir com equívocos.

Às vezes, no afã de inovar, ser original e recombinar coisas, o designer acaba prejudicando o cliente e mudando o conceito do negócio. Reparei isso principalmente quando passei pela fachada do prédio, onde a logotipia aparece numa cor só (não deu para fotografar). Penso também que o pessoal poderia ter escolhido um nome menos problemático. No endereço do site na internet, a palavra também é escrita tudo junto. Aí não tem designer que dê jeito…

10 out

Olha só que vídeo mais bacana eu achei no Amenidades do Design. É uma campanha para divulgar o jornal New York Times na Turquia que mostra os prédios e monumentos feitos de jornal. Nota 10 para a agência Leo Burnet!