Como devia ser

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Tem horas que fico pensando como foi que a coisa desandou de tal maneira que passamos achar natural coisas completamente absurdas e a achar sensacional coisas que deviam ser rotineiras.

É que faz uns meses compramos um apartamento na planta aqui em Berlin. Pois esses dias a construtora promoveu o que no Brasil se costuma chamar de festa da cumeeira (Richtfest, em alemão), ou seja, a comemoração por terem colocado o último telhado.

Eis que os organizadores montaram uma tenda enorme no meio da obra (os prédios têm sempre um pátio interno, que eles chamam de Hof) com toda a infraestrutura para uma festa bacana: garçons, um dos melhores buffets da cidade, brindes, decoração, tudo. Quando entramos, a única diferença notada para uma festa no Brasil é que as mesas eram enormes e compridas, para serem usadas coletivamente (aqui é comum tanto em festas de rua como em casamentos finos).

Ao lado do guindaste gigante do lado de fora, que carregava suspensa uma guirlanda com fitas, tinha um palco para o tradicional discurso do dono da empresa e da secretária de obras da prefeitura (ou equivalente), que elogiou a qualidade da construção e a preocupação com o ambiente (uma parte do financiamento tem juros menores como subsídio para instalação de todos os sistemas de eficiência energética possíveis, olha aí a ótima ideia).

A surpresa boa começou mesmo foi com o discurso do dono da construtora, pois ele agradeceu aos clientes, claro, mas principalmente aos pedreiros, principais responsáveis por todos estarmos lá naquele dia; depois falou dos mestres de obras e toda a hierarquia de pessoas envolvidas no trabalho, chegando até aos corretores. O engenheiro responsável falou sobre o desafio de construir fundações em um local que recebe as vibrações do metrô que passa ao lado (não tem barulho, mas os alicerces precisam de amortecimento) e como a equipe estava orgulhosa do resultado obtido.

O bacana é que a coisa não ficou só no discurso não; a festa era realmente para todo mundo. A gente almoçou ao lado de dois pedreiros felicíssimos com a conquista e o trabalho realizado, dava para ver o brilho nos olhos deles. A equipe toda, que tinha trabalhado até o meio dia, passou a tarde comendo e tomando espumante junto com os clientes. O sujeito que operava o guindaste fez o maior sucesso quando entrou no recinto. Nada daquelas festas protocolares cheias de egos desfilando; era todo mundo curtindo junto um momento de alegria. A celebração de uma coisa que era boa sob todos os pontos de vista e para todos os envolvidos; lindo demais.

O que me deixou chocada é que não parava de pensar que isso, no Brasil, seria inimaginável. Se o construtor fosse muito consciente, até faria uma festa, mas totalmente separada dos clientes; claro que o buffet seria mais barato, sem espumante e camarões, no máximo churrasco e cerveja. E imagina só se as madames iriam comer em mesas coletivas ao lado dos peões de obra, com aquelas botas sujas de lama?

Uma coisa tão óbvia, tão lógica e tão simples, torna-se um acontecimento para uma tupiniquim como eu, que nem sabia que isso era possível. Compartilhei o fato no Facebook e muitos comentaram sobre o lindo gesto do empreiteiro como se, minha gente, reconhecer a participação dos pedreiros não fosse uma obrigação. Como se esses trabalhadores tão fundamentais fizessem parte de uma casta inferior que não pudesse se misturar, e só almas muito nobres teriam o desprendimento necessário para dar a mão a esses coitados. Ah, vá. Menos.

Daí que lembrei de uma entrevista que vi uma vez na televisão com os atores Tarcísio Meira e Glória Menezes. A Glória discorrendo sobre a simplicidade e generosidade do marido (ao lado, sorridente), pois ele falava com todo mundo, até com o jardineiro. ATÉ com o jardineiro, vejam só. Na época, lembro-me que os elogios rasgados a tamanha demonstração de humildade (oi?) me embrulharam o estômago.

Sinceramente, cada vez tenho mais certeza de que é aqui mesmo que eu quero ficar.

14 Responses

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    Ênio Padilha
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    29 outubro 2013 at 7:46 pm

    Lígia, querida.
    Quando você disse que poderia melhorar o texto original (publicado no Facebook) achei exagero da sua parte. Mas você conseguiu mesmo melhorar o que já estava ótimo.
    Hoje estou em trânsito. Amanhã vou colocar esse novo texto no lugar do original.
    Parabéns, como sempre.

    • ligiafascioni
      ligiafascioni
      Responder
      30 outubro 2013 at 5:32 am

      Ainda dá para melhorar muito (sempre dá)….ehehehehe
      Beijos e obrigada 🙂

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    Elisabete Maria Colombi Lima
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    5 agosto 2015 at 4:53 pm

    A atitude do construtor é sábia. Se tiver pessoas felizes e bem remuneradas, ele certamente, terá funcionários satisfeitos e todos obterão mais sucesso na vida profissional e pessoal.

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    Viviane Beccaria
    Responder
    8 agosto 2015 at 1:22 pm

    Esse texto é uma ótima reflexão para percebemos o quanto nossa postura como cidadãos deve evoluir, e muito!Uma pena que acho esses gestos tão incomuns em nossa terra, dificilmente serão concretizados por aqui…A base educacional familiar no Brasil está beirando o fracasso, com pais invertendo valores e terceirizando suas obrigações em um cenário no qual ter é muito mais importante do que ser… Obrigada por compartilhar conosco essa experiência.

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    9 agosto 2015 at 9:09 am

    Ligia, morei durante 5 anos em Londres e desde que voltei ao Brasil… tenho constantes crises de identidade por ser brasileira e não aceitar a maneira como os brasileiros enxergam a vida ! Rsrs. Amo todos os seus textos! Muito obrigada por escrever exatamente o que antes eu não conseguia explicar com tanta clareza! Sou sua fã! Beijos

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    Carmen de Souza Renner
    Responder
    22 agosto 2015 at 10:16 am

    Oi, Lígia, nao nos conhecemos, mas foi uma total identificacao com as suas crônicas sobre Berlin. Eu vivo aqui há 16 anos e observo as diferencas também. Às vezes, me bate uma melancolia por admitir que sou feliz aqui e que a ideia de voltar para o Rio fica cada vez mais remota. Até me emocionei ao ler os seus textos. Danke! Und einen schönen Tag!

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    28 agosto 2015 at 12:47 am

    É bom olharmos o Brasil de longe. Quem nunca teve a oportunidade de estar fora, mesmo que por umas semanas, não sabe como é bom estar no Brasil, voltar . Passar um tempo fora é ótimo, mas estar aqui e contribuir para melhorar cada dia mais (se não ajudar em nada, melhor que fique por lá mesmo). Sei que é difícil voltar, mas não é para todos, ficar fora é para poucos.
    A vida de quem pode olhar de fora não é fácil, para os nossos padrões: passagens, hoteis, divertimentos caros. Dificil mesmo é para a maioria que não pode fazê-lo. Ainda usa o transporte público precário, mas dá lucros vultuosos aos empresários, com a devida conivência do poder público. Receber um salário mirrado e dar um “lucrão” ao patrão. Pagar os juros altíssimos do financiamento da casa própria, dando um ótimo lucro para o empresário da construção civil que corrompem (não todos) os funcionários públicos. A engrenagem é feia.
    Prezada Ligia Fascioni, enquanto tivermos uma elite tacanha e atrasada não mudaremos o Brasil, porque temos poucos com muito e a maioria com muito pouco. Pouco mesmo.

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    31 agosto 2015 at 10:27 pm

    Texto maravilhoso, que me faz lembrar o quanto nossa cultura tem sua podridão, apesar de maravilhosa em outros aspectos!

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    Paola
    Responder
    30 setembro 2015 at 3:10 pm

    Seu post é de 2013, mas tenho que comentar. Esse seu relato resumiu todo o porquê da minha admiração pela cultura e sociedade alemãs e me encheu os olhos d’água, pois tudo o que quero hoje é poder vender minha casa e meu carro financiados, conseguir um meio de sustento na Alemanha e conseguir me mudar, já que infelizmente já tentei e não consigo fazer nada pela cultura brasileira nesses pontos. Sim, o Brasil possui muitas benesses, mas essas questões sociais e empáticas realmente corroem meu ser.
    Estive na Alemanha duas vezes, e pude perceber esse mesmo respeito em relação à aparência. Da primeira vez, sozinha, solteira e jovem, fui muito bem tratada e respeitada. Cinco anos depois, por problemas de saúde, engordei 40 kg e, bem, digamos que o que já passei por preconceito aqui no Brasil não foi mole – ou você é claramente desrespeitada, ou é invisível. Voltei à Alemanha e… fui igualmente bem tratada! Não me sentia invisível como me sinto por aqui. Parece que as pessoas têm coisas mais importantes a se preocupar do que quanto os outros pesam. Comecei a reparar que mulheres lindas, no calor, não ficam recebendo olhares lascivos, nem cantadas nojentas na rua… senhoras com seus maridos senhores passeando de mãos dadas e tomando cervejonas em bares e biergartens, em meio a jovens, sem ouvir piadinhas nem olhares tortos. Deveria ser normal, mas, para brasileira que sou, é admirável.

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    Thiago Maia Toldo
    Responder
    14 julho 2016 at 5:26 pm

    E eu que é praí que eu quero ir <3

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    Rosalvo Ivo Kuhn
    Responder
    20 julho 2016 at 9:50 am

    Outra cultura, outros valores. Lembro da alegria dos colegas da empresa em que trabalhei, na juventude, quando fomos todos convidados pelo chefe para comemorarmos seu aniversário. Sexta feira, todos compareceram. Na segunda-feira ficamos sabendo de que no sábado houve a festa principal, para os amigos. Sensação de náusea na equipe. Melhor seria não ter convidado nenhum dos colegas. O resultado seria bem melhor.

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    22 julho 2016 at 9:52 am

    Ligia… cheguei aqui através de outro texto seu, que linkei no meu humilde blog…
    Não podia deixar de comentar, pois sou arquiteta, trabalhei durante 10 anos dentro de diversas obras. Minha mesa era na obra, não no escritório da construtora. Vou te falar: isso que vc relatou já aconteceu em uma única ocasião aqui comigo. Exatamente assim: foram os clientes (que no caso era uma instituição privada), a mão de obra, os projetistas e nós da construtora. Foi muito, muito legal! A comida era simples, churrasco e cerveja. Mas todos se divertiram muito! E foi um grande incentivo para continuarmos unidos até o fim da obra! Nem preciso dizer que foi a obra que mais gostei de trabalhar e a que fiz grandes amigos! Isso tem mais de 15 anos!
    Mas queria contar de outro causo que ocorreu nesta mesma obra… pode parecer contradizer a festa acima, mas acho que mostra como as coisas realmente são… na real.
    um dia, eu sentada na minha mesa, chega um funcionário da mão de obra (um carpinteiro), bate a porta do escritório, entra e me entrega um embrulho. Quando eu o abro, vejo a imagem de uma Nossa Senhora talhada em madeira. E pergunto o que é aquilo. Ele responde que é um presente para a única pessoa que lhe dava bom dia olhando nos olhos. Aquele era seu último dia na obra. Ele tinha sido mandado embora. Agradeci mesmo sem entender o porque eu mereceria algo por ter feito nada de mais…
    A sua escultura está comigo até hj… e eu nunca deixei de dar bom dia olhando nos olhos de ninguém…

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      22 julho 2016 at 3:41 pm

      Nossa, que história mais linda, Thaty! Fiquei até emocionada com a Nossa Senhora… tomara que o moço tenha encontrado outro emprego logo. E também já vi festa no final da obra, mas era sempre uma casa ou coisa de menor porte, nunca um condomínio residencial. Mesmo assim, dá para dizer que ainda há esperança <3

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