Herr Doktor

Mais uma diferença cultural para a coleção. Hoje eu estava na aula de alemão e, por algum motivo, acabamos falando sobre doutorado. Eu falei que era doutora e o professor quase não acreditou. Primeiro ele achou que eu ainda não tivesse defendido a tese (uia, lá se vão quase 10 anos), depois me perguntou, estranhando muito: mas por que você não usa o título?

Conversamos um pouco mais, me lembrei de algumas passagens e finalmente entendi por que ele estava tão surpreso. É que aqui na Alemanha, qualquer questionário que você for preencher (para qualquer coisa, até para comprar passe de ônibus), tem um espaço para você colocar o título de doutor, se tiver um. Os apartamentos não têm número; apenas o prédio. Aí, no interfone e na porta, tem um papelzinho com o sobrenome de cada morador. No meu prédio tem dois doutores (além dos dois secretos, o Conrado e eu, que ninguém sabe…eheheh). Se você é doutor aqui nesse país, o título gruda no seu sobrenome e vai sempre junto. Isso, ao contrário do que eu pensava, não é considerado pedante; é apenas o reconhecimento de um fato.

O povo respeita bastante porque, se por acaso você usar o título sem ter defendido uma tese, pode ser processado por crime de falsidade ideológica. Não interessa se você é médico, cirurgião, advogado, juiz, senador ou presidente. Para poder colocar aquelas letrinhas junto do seu nome, tem que ter defendido publicamente uma tese e sido aprovado por uma banca. Sem exceções. Ponto.

Não que isso faça de alguém melhor ou pior cidadão (na prática não muda rigorosamente nada), mas reflete claramente o respeito que o povo e o governo têm pela educação. Eles valorizam o estudo de verdade, até mesmo nos gestos mais cotidianos.

A parte difícil foi explicar para o professor que eu nunca liguei para isso porque no Brasil qualquer pessoa pode usar o título sem sofrer nenhum tipo de represália. É só escrever no cartão, colocar a placa na porta ou orientar a sua secretária para lhe chamar de doutor que está valendo. Não importa se você é um médico recém-formado que nunca vai fazer uma pós-graduação, se é um advogado de porta de cadeia, se é um dentista em início de carreira, se é um político com o primeiro grau incompleto ou apenas um rico que nunca pisou numa universidade. No Brasil, qualquer um é doutor, basta querer ser chamado como tal.

O professor ficou chocado: mas como assim? Eles só colocam o título e pronto, sem apresentar nada? As pessoas sabem que é mentira e mesmo assim ninguém é processado?

Sim, senhor, é assim mesmo. Isso reflete bem a cultura de um país onde a educação não tem valor nenhum e a maioria esmagadora das pessoas sequer sabe o que vem a ser uma tese.

O Conrado e eu estamos pensando em rever o uso do título aqui na Alemanha porque somos imigrantes e pode contar pontos. Mas no Brasil, nem pensar. Nenhum dos doutores de verdade que conheço usa o título no dia-a-dia. Na verdade, faço a mais absoluta questão de que não me chamem de doutora e fico bem constrangida quando isso acontece.

Desculpem aí os colegas, mas penso que ser chamado de doutor no Brasil é pejorativo.

Infelizmente.

3 Responses

  1. Avatar
    Clotilde♥Fascioni
    Responder
    3 julho 2012 at 2:32 pm

    Falou e disse a minha menina! Doutora de mil títulos.♥

  2. Avatar
    15 julho 2012 at 10:34 am

    Gostei muito desse post. Foi novidade pra mim que vc pode ser processado. Acho que no Brasil doutor virou sinonimo de profissonal da area de saude. Nao interessa que titulo tem ou quando se formou, se trabalha com saude é doutor. Meu pai é médico sem doutorado e acho que ele sempre foi chamado de doutor. E todos os médicos, e outras pessoas, que eu conheço acham uma ofensa sem tamanho chamar um advogado de doutor. Aqui na Alemanha esse sistema faz muito mais sentido.

    • ligiafascioni
      ligiafascioni
      Responder
      15 julho 2012 at 5:18 pm

      Oi, Paula!
      Pois é, aqui nem médico é Doutor. Nas placas aparece sempre Arzt, nunca Dr. (só quando a pessoa tem doutorado). Mas no Brasil não é só profissional da área da saúde e advogado não. Se você fechar os olhos e entrar numa Federação de indústrias, por exemplo, vai pensar até que está em um hospital, de tanto doutor que tem por lá. E os políticos em Brasília? Tem que rir para não chorar…ehehehe

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