O DNA da maçã

Sei que a morte do Steve Jobs já saturou os meios de comunicação e não se fala em outra coisa. Mas também tenho recebido vários e-mails questionando sobre a identidade corporativa da Apple (se ela sobrevive sem seu grande mentor).

Olha, eu acredito que sobrevive sim, e bem. Até porque a Apple é uma empresa, não uma EUpresa. Steve já fez muita falta da outra vez que saiu e, nessa segunda etapa, teve a consciência da importância de deixar sua menina dos olhos bem preparada para sua eventual falta. E vamos combinar que uma organização que pode contar com um Johnathas Ive e um Tim Cook na folha de pagamento tem tudo para não deixar que os viciados na maçã (como eu) não morram de inanição; pelo menos estou contando com isso.

A identidade de uma organização é seu DNA. Isso quer dizer que o conjunto de características que a tornam única e especial já nasce com ela, é congênito. Então será que isso significa que a identidade da empresa é igualzinha à do seu dono ou fundador? Será que os dois são uma coisa só?

Vamos pensar: uma empresa é uma entidade muito diversa de um ser humano. Ela é formada por pessoas, cujo número varia com o tempo. Uma empresa pode começar com apenas um proprietário ou com mais de 10 mil colaboradores (quando é fruto de uma fusão ou aquisição, por exemplo). Ela pode continuar por anos com um ou dois funcionários ou multiplicar várias vezes seu corpo original.

Já o fundador é uma pessoa de carne e osso e tem sua própria essência, sua maneira toda única de se comportar profissionalmente. Mesmo relaxado na vida pessoal, o dono pode ser muito exigente como empresário. Outros atributos (em geral, a maioria), permeiam tanto a sua vida pessoal quanto a profissional. Mas como separar uma coisa da outra? Será que elas precisam mesmo ser separadas?

Sim, precisam. Uma empresa é sempre maior que seu dono, e, apesar da maioria de suas características ser geralmente compatível (a empresa herda atributos do fundador), são de naturezas distintas, inclusive com ordens de grandeza diferentes. É como se uma empresa fosse um filho; ela herda genes dos pais, mas não se tem muito controle sobre quais são os que vão realmente vingar e predominar no caráter da cria.

Mas quando uma organização está começando ou é composta por apenas uma pessoa, a pergunta que sempre faço para identificar o caso corretamente nas minhas consultorias é: “se daqui alguns anos o dono morrer, a empresa acaba?”

1) Resposta NÃO: Ela é uma empresa de fato, isto é, vai crescer, agregar novos funcionários e seu dono, inclusive, vai poder tirar férias, ficar doente e até morrer, quando for o momento. Nesse caso, devemos definir a identidade da empresa para nortear todas as suas ações e comunicações. É um caso desafiador mas perfeitamente possível de ser resolvido, separando claramente o que é a empresa e o que é a pessoa. Não, a empresa não vai ser necessariamente “a cara do pai”. Para saber mesmo qual é seu DNA, é preciso investigar e pesquisar, sem julgamentos pré-estabelecidos.

2) Resposta SIM: Então, temos uma EUpresa. Não há nenhum problema nisso, eu, por exemplo, encontro-me neste caso. A minha empresa de consultoria existe porque preciso trabalhar dentro das regras do fisco, mas não tem identidade própria. Todo o trabalho de divulgação é feito sobre o meu nome. É o caso de muitos médicos, dentistas, advogados e outros profissionais liberais. Nesse caso, para haver coerência entre as ações e comunicações da empresa, temos que definir a identidade profissional de seu fundador.

Investi quase toda a última década pesquisando sobre o assunto e, para quem quiser saber mais, recomendo “DNA Empresarial: identidade corporativa como referência estratégica” de minha autoria, publicado em 2010 pela editora Integrare, de São Paulo.

A Apple é uma empresa de verdade com uma identidade própria e agora só nos resta torcer para ela ter puxado o pai.

Infelizmente, não há como ter certeza, pois está cheio de casos aí para mostrar que nem sempre a organização consegue herdar todos os genes que deveria de seu fundador. Acho que se o comandante Rolim Amaro fosse viajar de avião hoje, iria se horrorizar com o que passou a ser “o jeito TAM de voar“…

Lígia Fascioni | www.ligiafascioni.com.br

6 Responses

  1. Avatar
    Celso Renato
    Responder
    7 outubro 2011 at 2:32 pm

    Ligia, que bom ler ou ouvir vc novamente. Parabéns pelo trabalho.

    • ligiafascioni
      ligiafascioni
      Responder
      7 outubro 2011 at 3:16 pm

      Obrigada, Celso!

  2. Avatar
    7 outubro 2011 at 2:59 pm

    Muito bom este artigo. E eu concordo plenamente quanto à sua observação à respeito da TAM. Creio que ela perdeu muito em qualidade depois da morte do Comandante. E temo que aconteça o mesmo com a Apple. Não no curto prazo. O fato de ser uma empresa sólida produz uma inércia de qualidade que vai manter a empresa num determinado trilho por alguns anos. Mas depois pode se repetir o efeito TAM

    • ligiafascioni
      ligiafascioni
      Responder
      7 outubro 2011 at 3:15 pm

      Tomara que não, Ênio. Agora já viciei, não consigo viver mais sem a tal maçãzinha. E lá se vão 9 anos de convivência diária…

  3. Avatar
    Gustavo
    Responder
    8 outubro 2011 at 12:57 am

    oi Lígia, vc citou Johnathas Ive e Tim Cook, mas creio que quem terá um papel maior de aplicar o planejamento estratégico da empresa e continuar a visão da empresa será o co-fundador da Apple Steve Wozniak.

    Quanto à qualidade dos produtos Apple, Jobs era obcecado por detalhes, mas creio que de uma forma geral, isso irá continuar dentro da empresa.

    p.s.: Foram três caras que fundaram a Apple, Jobs, Wozniak e um tal de Ronald Wayne, criador da horrível logo inicial da Apple http://en.wikipedia.org/wiki/Ronald_Wayne
    Ele saiu da sociedade logo no início por uma bagatela de apenas 2.300 dólares…hoje deve estar profundamente arrependido haha.

    • ligiafascioni
      ligiafascioni
      Responder
      10 outubro 2011 at 1:38 pm

      Oi, Gustavo!

      Uma das maiores diferenças entre uma crônica e um artigo científico, é que a crônica não apresenta todas as informações de maneira exaustiva. Então, seguindo a regra da simplicidade, citei apenas os dois nomes mais conhecidos para representar o todo (pode ver que eles foram citados apenas como exemplo, não como os únicos que farão a diferença).

      A ideia é citar poucos exemplos que representem a ideia completa sem ter que cansar o leitor com descrições exaustivas. Isso é absolutamente intencional em tudo o que escrevo. Com certeza a equipe que vai fazer acontecer é muito maior e com muito mais pessoas do que as que eu citei (e as que você citou).

      Mas não me preocupo com os dados faltantes porque você está sempre alerta para completá-los! Daqui a pouco vou ter que colocá-lo como co-autor….ehehehe
      Obrigada e abraços 🙂

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