O riscos da viagem no tempo

Eu já tinha ouvido falar da Joyce Carol Oates; por isso fiquei curiosa quando vi “Hazards of Time Travel” (tradução livre: “Riscos/ameaças da viagem no tempo”) num dos sebos que frequento. 

A história é a seguinte: Adriane Strohl é uma adolescente que vive numa distopia nos Estados Unidos. O atentado de 11 de setembro era justamente o que políticos com viés ditatorial esperavam como chance de eleger um inimigo público número um e com isso justificar todo tipo de atentado à democracia. Aos poucos, um Estado Totalitário foi se formando a ponto do governo ter controle sobre o comportamento dos cidadãos e distorcendo livros de história (como em 1984 e o Ministério da Verdade). Aqui eles vão mais além; até as evidências científicas são reinterpretadas para favorecer o grupo de controle. E os anos passam a ser contatos a partir do 11 de setembro; antes disso, a história foi simplesmente apagada dos registros.

Eis que o histórico da família não era dos mais promissores nesse ambiente. Um tio, estudante de medicina, foi “vaporizado” (exterminado, morto, desaparecido, desintegrado na frente de todos) por participar de uma passeata. Seu irmão, o pai de Adriane, na época já atuando como médico, sofreu consequências mais leves — teve sua carreira destruída, e ficou sob constante vigilância. Mas, pelo menos, vivo.

O pais de Adriane eram pessoas inteligentes e esclarecidas, mas precisavam sobreviver. Então, eram enquadrados no regime na medida do possível, mas sempre incentivaram os questionamentos da menina. 

Pois Adriane acabou se destacando na escola; além das notas brilhantes, ela participava demais nas aulas. Perguntava o tempo todo, questionava os professores, duvidava do que não fazia sentido. Obviamente, começou a incomodar. A ponto que, no dia da formatura e prestes a entrar na universidade, foi presa porque seu discurso como oradora continha apenas perguntas (e nenhuma resposta). Num mundo de cidadãos padronizados, ela era muito diferente.

Aí começa a ficção científica muito criativa na história. Assim que foi presa (na verdade, exilada, no linguajar do regime, pois perdeu o contato com qualquer familiar, amigo ou conhecido), ela foi teletransportada para uma universidade medíocre no interior do país, mas no ano de 1959 (a primeira parte da história, em que Adriana vive, é passada por volta de 2040).

A protagonista vai parar num dormitório de moças da universidade, está matriculada e tem que frequentar as aulas como bolsista. Para ela, tudo é estranho: as pessoas fumam (será que elas não sabem que cigarro provoca câncer?), comem muita gordura, o comportamento das moças para agradar os homens é constrangedor, o sexismo não tem disfarces e não há internet (essa é uma das partes difíceis para ela). 

O choque ao ver uma máquina de escrever (um objeto que só tem uma função e não é conectado a nada!) e se dar conta do ano em que ela está é enorme! As colegas de quarto não entendem o seu desespero (qualquer erro pode fazê-la ser pulverizada, pois sua identidade como exilada é secreta e ninguém pode saber que ela veio do futuro e está cumprindo pena). A televisão, os hábitos, o cinema, tudo para ela é estranhíssimo.

Eis que ela tenta encontrar mais exilados e acaba achando um; como única pessoa em que pode confiar (ainda que secretamente, pois contatos entre exilados são expressamente proibidos), a moça se apaixona perdidamente.

A história vai se desenrolando bem. Só achei que bateu a preguiça bem no finalzinho; sei lá. Achei um pouco decepcionante, pois esperava algo mais elaborado, dada a criatividade da trama.

Mesmo assim, recomendo muito. Gostei bastante.

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