Paradoxos

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Paradoxos são irresistíveis. No começo, a gente custa a entender, mas depois de moer o cérebro, algumas coisas começam a fazer sentido. Segundo Oscar Wilde, um dos maiores criadores de paradoxos e mais polêmicos escritores de todos os tempos, “quando ouvimos um paradoxo, ganhamos um saber que não tínhamos. Ficamos mais sagazes e temos consciência disso”.
Paradoxo vem do grego antigo paradoxon (estranho, inesperado) e significa a expressão de um ponto de vista contrário ao senso comum. E, note bem, no momento em que expressa a contradição, o paradoxo revela nada menos que a ambivalência da natureza humana.

Pois o que me fez pensar nisso foi uma mesa redonda sobre design que participei semana passada. O assunto era ecodesign e a sua busca pelos produtos sustentáveis e materiais recicláveis. Pois foi aí que um dos debatedores levantou uma questão que eu não tinha pensado.

A gente está sempre em busca de insumos recicláveis, é quase uma compulsão. O pessoal mais consciente, quando que vê um objeto legal, sempre tenta saber mais sobre os materiais com os quais ele é construído. Mas, em algumas situações, é mais sustentável que o material não seja reciclável. Parece um paradoxo? Talvez, mas olha só.

Ele citou o exemplo da cadeira projetada pelo designer Philippe Stark (outro tipo polêmico) chamada Mr. Impossible. A cadeira tem esse nome porque foi concebida há alguns anos, mas até pouco tempo não existia tecnologia possível para construí-la. A peça é toda feita em policarbonato, um tipo de plástico duríssimo e muito resistente. O desafio era unir duas peças ovais sem usar cola e sem deixar emendas visíveis. As cadeiras agora são “coladas” a laser.

Atenção para um aspecto da malfadada cadeira: ela é praticamente indestrutível, portanto, também não é reciclável. Isso quer dizer que daqui a uns 200 anos, esse objeto vai continuar sendo uma cadeira. Pois não seria melhor mesmo assim? Que a gente não tivesse tantos objetos recicláveis, justamente para não ter que reciclá-los?

Para o ambiente, melhor que reciclar é reusar. Reciclar implica gasto de energia e reprocessamento; reusar exige criatividade e habilidade apenas.

É claro que os gadgets eletrônicos mudam a todo momento e se tornam obsoletos rapidinho. No caso deles, então, é imprescindível que sejam recicláveis, pois a gente não dá conta de tanto lixo. Mas móveis, roupas, louças, objetos de decoração e utilitários podem continuar sendo o que são por anos e anos, sem prejuízo para ninguém (desde que não sejam descartados, é claro). Se forem indestrutíveis, tanto melhor. Ou não? A afirmação me parece perigosa. Convém pensar mais um pouco.

Acho melhor então terminar esse texto com um paradoxo do genial Luís Fernando Veríssimo: “Se você tentou falhar e conseguiu, você descobriu o que é paradoxo.”

É ou não é?

Lígia Fascioni | www.ligiafascioni.com.br

6 Responses

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    Rodrigo
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    23 março 2009 at 11:11 pm

    Até um tempo atrás (e antes de adquirir um livro específico sobre o assunto), também tinha um conceito de ecodesign que se resumia a reciclagem, mas depois descobri que tem a ver com a totalidade da preservação: materiais renováveis, processos produtivos que consomem pouca energia, reaproveitamento/reuso/desmontagem, utilização de sobras e materiais descartados em outros processos, reciclagem, enfim, são muitas frentes. O único porém, na minha opinião, de objetos indestrutíveis, é a capacidade deles atenderem as necessidades por tempo indefinido. Todo mundo sabe como o mundo está consumista e doido pelo “fresh and new”.

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    24 março 2009 at 1:37 am

    Só é preciso reciclar tanto pois o consumo se tornou excessivo. O problema é que a troca por produtos mais novos – e consequentemente mais evoluídos – é meio incessável.

    As pessoas ficariam com coisas por vários anos sem trocar? Não sei se por cultura ou necessidade, mas novos produtos vão surgindo para saciar necessidades que não existiam antes deles surgirem. Um ciclo de consumo.

    Um assunto sem resposta talvez, precisando de análise caso a caso, pois mesmo um produto estando em perfeitas condições de uso depois de anos, ele já pode não ter serventia alguma, dado a evolução tecnológica acelerada.

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    13 abril 2009 at 6:25 pm

    Oi Lígia, falando em Ecodesign, passei pra divulgar minha mesinha, que está até amanhã concorrendo numa votação online no Spring Greening Contest do site inhabitat. Mais informações no http://www.radararquitetos.com. Abração, e desculpe o marketing pessoal descarado!

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    17 abril 2009 at 11:58 am

    Achei muito legal essa matéria aí… Eu tava pesquisando sobre paradoxos e descobri esse blog genial, pena que eu já “moi” o cerébro mais ainda não consegui entender direito o que Luís Fernando Veríssimo quiz dizer com aquele paradoxo, quem souber por favor me explique…!

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    Juliano Augusto ( Sorocaba)
    Responder
    29 abril 2009 at 1:05 pm

    Acredito que a mente de uma pessoa paradoxa, e seguida de grandes sufocações e gritos inaudíveis! É como se as pessoas fossem um componente eletrônico programavéis ao padrão em série e que jamais poderiam ser alterados! Talvês o mundo não saia do lugar, por possuir pessoas com tais programações, tornando-as cegas e surdas ao ponto de não perceber que algumas coisas não mudam porque a maioria pensam do mesmo modo. Isso é falta de personalidade e opnião própria ou falta de paradoxo?! Heim?

  6. Avatar
    Juliano Augusto ( Sorocaba)
    Responder
    29 abril 2009 at 1:14 pm

    Nikolas, ele quis dizer que os paradoxos, sente-se na necessidade de provar que algumas coisas são diferentes do senso comum ou seja, é totalmente diferente do que parece,e na maioria das vezes faz muito sentido o que dizem, e quando vc tenta provar para alguém que ela esta errada sobre alguma opnião comum imposta pela a maioria das pessoas (Isso para mim é falta de personalidade própria) e ela não concorda com vc, vc acaba se sentido frustrado e fracassado em provar isso para ela devido ao seu paradoxo. Entendeu?
    Abraço, fique com Deus

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