Superstição cidadã

Contar histórias sempre foi uma coisa bacana, mas agora virou hype, e inclusive ganhou um nome fashion à altura: agora só se fala em storytelling.

Pois eu não queria ficar de fora dessa e juntei mais um livro à minha coleção dedicada ao tema. A obra da vez é “The story factor: inspiration, influence, and persuasion through the art of storytelling“, de Annette Simmons.

Que contar histórias é uma arte antiquíssima e desde sempre valorizada não é novidade nenhuma (vide a Bíblia, a Ilíada e as mil e uma noites de Sherazade, só para citar alguns velhos e batidos exemplos). Mas não faz assim tanto tempo que o mundo dos negócios se deu conta do poder da ferramenta; pois é desse café que a autora quer beber.

Annette começa citando uma frase linda de Isak Dinesen: “Ser uma pessoa é ter uma história para contar“. Ela não diz, mas penso que se os entrevistadores de emprego se dessem conta disso, relaxariam e simplesmente pediriam para o candidato contar sua história. Dá para saber quase tudo: o que ele valoriza, como enfrenta as situações, se é vaidoso, se é realmente proativo, se sabe de fato trabalhar em equipe, se sabe ou não compartilhar méritos, se tem peninha de si mesmo ou se gosta de desafios. Muito melhor e mais divertido do que ficar esperando ele dizer que seu maior defeito é ser perfeccionista, convenhamos.

A ideia central é usar as histórias para influenciar o comportamento das pessoas; ela defende que é muito melhor você demonstrar quem é por meio de uma personal novelinha do que ficar exibindo com falsa modéstia suas qualidades. Mas atenção, a moça adverte: jamais subestime a inteligência de quem está ouvindo. E enfatiza: “jamais, jamais, jamais conte uma história para alguém que você não respeita“. A pessoa percebe instantaneamente e sim, vai interpretar isso da maneira que você imagina.

A autora diz que a galera não precisa de mais informações; já está afogada nelas. O que o pessoal realmente quer é acreditar (em você, nos seus objetivos, na sua visão, na história que você tem para contar). Ela brinca que a fé é que move montanhas, não os fatos. E a fé é despertada por histórias, fato.

Annette diz que a história é como se fosse uma roupa que a verdade veste para que as pessoas possam se abrir para recebê-la (sim, as mentiras ficam com o bumbum de fora e todo mundo percebe). Se a verdade ficar batendo nas casas nua em pelo, o povo se assusta não abre a porta de jeito nenhum.

Ela ainda diz que a diferença entre dar exemplos e contar uma história está nos elementos de emoção e nos detalhes sensoriais dessa última. Isso faz com que as histórias, ao contrário dos simples fatos, sejam multidimensionais, e por isso, muito mais poderosas.

Simmons defende que os treinamentos das empresas não deviam usar regras escritas, pois elas ignoram completamente a mente de quem está na ação. Se em vez de princípios e receitas de comportamento, os profissionais fossem treinados com histórias, eles poderiam ser mais criativos na hora de resolver problemas.

Ainda não cheguei no final do livro (que tem poucas histórias para o meu gosto, apesar de muito interessante), mas até agora não se falou que essa poderosa ferramenta também tem um potencial enorme para múltiplas e indesejadas interpretações, completamente fora do controle de quem quer que seja (olha só o que fizeram com as parábolas da Bíblia). O negócio de fato tem poder, mas penso que não é para amadores não…

De qualquer maneira, lembrei-me da ótima contadora de histórias Rosana Hermann (que, não por acaso, é roteirista profissional entre outras coisas). Estávamos conversando sobre o assunto e ela compartilhou comigo uma teoria genial que adorei.  A Rosana diz que, no Brasil, as pessoas não mudam o comportamento simplesmente pela exposição dos fatos; elas querem histórias que conquistem e seduzam.

A ideia da moça é aproveitar as superstições que já são tão presentes na nossa cultura para mudar comportamentos. O plano é inventar novas superstições e espalhá-las massivamente com histórias do tipo: fazer xixi no muro faz o pinto do machão murchar depois de um tempo, ou; roubar dinheiro público provoca doenças fatais na família inteira da pessoa, ou; desviar verba da merenda faz o dedão do pé cair, ou; roubar celular faz o larápio ficar manco da perna esquerda para sempre… enfim… criatividade é o que não nos falta, nem bom-humor. E as pessoas acreditam em qualquer coisa apresentada com um mínimo de consistência (vide as franquias religiosas que proliferam desenfreadamente e as correntes de hoax não me deixam mentir).

Como a Rosana, acredito que isso que ela chama de “superstição cidadã” (nome mais que ótimo, nénão?) funcionaria muito mais do que qualquer outra campanha feita até agora. O pessoal adora acreditar em qualquer coisa, então vamos usar isso para o bem!

Por falar nisso, você sabia que as pessoas que param de ler minha coluna toda semana ficam impossibilitadas de soletrar a palavra superstição para o resto da vida? Olha, acho melhor não arriscar, vai que…

6 Responses

  1. Clotilde♥Fascioni
    Responder
    7 maio 2012 at 6:36 pm

    Hahahah, muito bom. Se parar de ler a minha acontece a mesma coisa tá sabendo? Bjs♥

  2. 8 maio 2012 at 3:16 pm

    ES-PE-TA-CU-LAR !!! Show de artigo.
    Não sou supersticioso, mas… pelo sim, pelo não, vou ler a sua coluna todas as semanas, claro!

    Lígia, já li em algum livro (infelizmente não me lembro qual) que as superstições de não quebrar espelhos e não passar debaixo de escadas foram criadas com esse princípio da sua amiga Rosana Hermman. Dizia (o autor do livro) que, os espelhos eram produtos muito caros e não podiam ser transportados por serviçais negligentes ou descuidados. Daí a “ameaça” de que “quebrar espelhos dá 7 anos de azar” para que ninguém arriscasse o futuro enquanto fazia o serviço.
    Passar embaixo de escadas, por outro lado, sempre foi uma coisa arriscada por conta de que, sobre a escada pode haver alguém trabalhando, manuseando ferramentas e outras coisas. De tanto ter de administrar acidentes de trabalho os patrões inventaram essa de que passar debaixo de escadas dá azar. Aí ninguém mais se arrisca a passar debaixo delas. Reduziu-se, com isso, muitos acidentes domésticos e de trabalho.

    Que tal convencer os motoristas de que “andar muito rápido na estrada dá azar no destino da viagem”? Vai que funciona?

    • ligiafascioni
      ligiafascioni
      Responder
      8 maio 2012 at 3:48 pm

      Querido Ênio: se você e a Rosana se juntarem, o mundo estará consertado….eheheheheh
      Não sabia que essas superstições cidadãs já tinham antecedentes históricos, muito interessante!
      Beijocas 🙂

  3. 8 maio 2012 at 3:54 pm

    Assim como foi inventado que ‘manga com leite’ faz mal, para que os escravos que tinham mangas em abundância, não pegassem o leite que era ‘só para os senhores’.
    ro

  4. 8 maio 2012 at 4:16 pm

    Ótimo post. E acrescento a superstição na publicidade. Oportunidade de contar histórias para “conquistar” e “seduzir” o leitor/cliente.

  5. Diego Trávez
    Responder
    8 maio 2012 at 5:56 pm

    Fantástico! Amei esse artigo! Não é superstição é realidade: se ficar sem ler a coluna da Lígia vai perder as pratileirinhas do cérebro!

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