Arquivo de ‘contículos’

9 out

Ilustração: Nigel Cox

Gente, sou tão fã da Juliana Cunha que dessa vez fui obrigada a copiar e colar o último post dela. Olha só que pérola filosófica mais bem-humorada:

***

Poliéster

- Vestido novo?

- Não, não, apenas resolvi banalizá-lo.

- Usar no trabalho, né.

- Pois é. Triste esse momento em que a gente desiste de guardar roupas legais para ocasiões especiais…

- Que nunca chegam, uma merda.

- Nem fala.

- É o que dá ter roupas melhores que a sua vida.

- Apenas note que estamos falando de um vestido de poliéster.

- Um poliéster que engana, vai.

- Engana mesmo, né? Foi o máximo que ele conseguiu.

***

Como não amar uma pessoa que cria a expressão “banalizar um vestido”?

E você? Será que tem roupas melhores que a sua vida?

***

Veja mais coisas bacanas da Juliana clicando aqui.

15 mar

Pintura: Gustav Klimt (meu pintor favorito; é...hoje estou romântica)

Nossa, só porque fiquei enferrujada sem escrever contículos a partir de 3 palavras achadas aleatoriamente no dicionário, não precisava avacalhar, né? Agora vou ver o que consigo fazer com esse trio complicado. Vamos lá…

***

Solange acordou com a manopla do seu marido bem em cima dos olhos. Arlindo, que ganhava a vida como jardineiro, era assim mesmo; relaxava tanto no sono que se esparramava todo. A moça nem se mexeu, pois aquela mãozona acabava servindo como máscara e ela sempre dormiu melhor no escuro.

Os últimos meses foram complicados: Solange ficava mal no inverno, sentia muito frio, não tinha vontade de sair da cama para nada. Bela profissional: quem é que iria querer uma faxineira pusilânime?

Foi aí que nossa protagonista se deu conta: estava toda animadinha e plena de energia, mesmo sem saber se fazia sol ou não.

Sentiu um formigamento no cabelo e afastou com cuidado a mão do marido. Engraçado, parecia terra e folhas; estava até um pouco úmido. Uma bolinha no canto em forma de gota; seria um botão? Gente, por isso é que ela estava tão cheia de ideias: sua cabeça estava em plena eflorescência!

Olhou para o Arlindo e pensou: coisa mais linda, esse Amor-Perfeito

3 dez

Em não tendo dicionário de português aqui, peguei um de alemão mesmo e resolvi traduzir as 3 palavras que encontrei aleatoriamente (vejam que essa brincadeirinha está ficando internacional… esperem para ver quando eu começar a escrever nessa língua de bárbaros…rsrsrs).

O que achei foi Kab (cabo),Teilhaber (sócio) e Wimperntusche (rímel). Valha-me o Santo Antônio das Pessoas Sem Noção e vamos lá para meu, o seu, o nosso contículo da semana!
***

Wimperleydson estava enlouquecido naquele dia; o Kabizinho foi escolher logo um sábado para faltar no salão? Agora ele tinha que dar conta, sozinho, de uma formanda querendo luzes californianas em pleno inverno, a noiva do dia brigando com o futuro sogro pelo twitter, uma sujeita que veio fazer uma escova inteligente (sendo que o QI da escova era mais alto que o dela), uma recém-divorciada que queria repicar todo o cabelo e duas histéricas usando de violência extrema na disputa pela Neiva, a melhor manicure do Mercosul. Isso que as senhoras que esperavam pela depiladora ainda não tinha se manifestado.

Foi quando o Cabo Josinélson adentrou o recinto. Ele, seus braços másculos e fortes e seu sorriso matador, tudo de uma vez só.

- Cadê teu sócio, rapaz?

O cérebro de Wimper congelou para melhor curtir a cena e ainda não tinha se recuperado da forte emoção, quando ouviu a voz que servia de trilha sonora para todos os seus sonhos ultimamente. Por isso demorou um pouco para recobrar o domínio de suas faculdades mentais e responder, meio hesitante:

- Ele teve que faltar hoje. O Kab ligou dizendo que estava com dor de barriga, comeu alguma coisa que fez mal.

- Então faz favor de devolver esse casaco amanhã, sem falta. Ficou no meu carro desde ontem à noite, na volta da festa da Solange. Tem um bilhete no bolso para ele, tá?

- Tá…

Foi aí que o pobre Wimper tomou uma grande decisão: não piscar mais pelo resto do dia. O rímel iria borrar.

Fotografia: Thomas Hawk

8 nov

Fotografia: Jeremy & Claire Weiss

Mais um contículo criado a partir de 3 palavras achadas aleatoriamente no dicionário (exercício de criatividade; tente fazer em casa!).

***

O deputado Túlio Ricardo não aguentava mais aquela situação. Sexênio, seu secretário particular há anos, estava escondendo alguma coisa desde anteontem, quando voltou das férias no Qatar. Aquele arzinho de quem sabe mais que os outros não o enganava não; ele já tinha pêgo o rapaz rindo sozinho várias vezes sem nenhum motivo aparente. TR tinha que descobrir o que era.

Perguntar diretamente não era uma opção; não era à toa que o sujeito havia sido criteriosamente escolhido para ser seu assessor em assuntos randômicos. Nunca responder a uma pergunta era uma arte que ele cultivava com dedicação desmedida há muitos anos — tempo suficiente para tornar esse traço do seu caráter imodificável.

Mas nada que um bom detetive particular não pudesse resolver. O relatório estava agora sob sua mesa. Quem diria… então Sexênio tinha participado como ator num curta metragem alternativo e recebeu um prêmio como revelação no festival nacional de Qatar. Ganhou uma dinheirama de respeito e agora era celebridade naquelas bandas. Sexênio agora era Sex.

Céus, e agora? Se Sexênio pedisse demissão, quem iria atender ao telefone quando a ex-mulher de TR ligasse?

O deputado tomou a decisão: iria se matricular urgentemente num curso de teatro e providenciar passagens para o Qatar. Sem Sexênio, ele ficaria aqui completamente à mercê de Vandycreude. Resolveu então que tentaria a carreira artística e ficaria lá por pelo menos seis anos…

27 out

Imagem: Yan le Coroller

Bom, primeiro já vou avisando que não tem erro de digitação não: é necedade mesmo. Eu também não sabia que essa palavra existia, mas necedade significa ignorância, estupidez ou tolice (vejam como esse blog também é cultura!).

Dito isso, vamos a mais um contículo criado a partir de 3 palavras achadas aleatoriamente no dicionário (esse é bem rápido porque a agenda está cheia).

***

- Wandigleydson…

- Hã?

- Por que é que tem noitada, mas ninguém ouve falar em diada? Não tem farra nem coisa boa durante o dia?

- É mesmo, nem tinha reparado.

- E tem mais, olha só: tem bacteriano, microbiano, mas não tem virusiano. Não é discriminação?

- Não. É excesso de necedade no mundo mesmo.

19 set

Bom, como não trouxe dicionário de português e não sou louca de me arriscar a fazer contículos em alemão, pedi ajuda aos universitários do Facebook e o povo mandou várias sugestões. Por ordem de postagem, vamos às palavras selecionadas pelo Gabriel Tesser (se bem que eu acho que ele andou burlando as regras do jogo, pois não tem Perséfone no dicionário…rs).

Acho que o Horácio não vai se incomodar em fazer papel de menina na história

****

Paulão estava tentando trabalhar, mas Perséfone não deixava. A gata, que mais parecia uma almofada de talco daquelas antigas de caixinha, estava decidida a fazer sua sessão matinal de alongamento bem em cima do teclado do computador do moço.

Na verdade, Perséfone chamava-se Koré quando nasceu. Mas aos 6 meses já tinha feito tantos estragos na casa com suas unhas de madame precoce que chegou a abrir um buraco no sofá e caiu lá dentro. Paulão, um estudioso de mitologia grega e horóscopo, achou então que a alcunha da deusa da destruição ornava mais com o momento atual da bichana. Deusa a Perséfone já era mesmo, e tanto fazia o nome que tinha, pois a felina nunca atendia quando era chamada. A palavra mágica para fazê-la aparecer era “romã”.

Pois dado que a vontade de Perséfone era mais dura que diamante, Paulão desistiu de escrever seu resumo e foi ver a novelinha Carrossel, que estava passando naquele horário. Paulão nem desconfiava, mas Perséfone chamava o rapaz de Hades. E isso não era propriamente um elogio…

8 jul

Mais um contículo criado a partir de 3 palavras achadas aleatoriamente no dicionário.

***

Dagoberto não conseguia abrir os olhos, de tão inchados. Na cabeça, parecia que a bateria da Mangueira estava se apresentando para os jurados; era como se as suas têmporas tivessem virado uma passarela do samba. O sabor clássico de cabo de guarda-chuva invadia todo o seu sistema digestivo. As pernas pareciam um pouco indolentes e a barriga apresentava uma trilha sonora com o melhor do hip-hop.

A noitada parecia ter sido boa mesmo. Se ao menos ele se lembrasse de alguma coisa poderia saber a causa do estranho comportamento do seu cachorro Mário César. MC, que sempre fora um doce, agora teimava em repudiar seus carinhos.

Talvez a presença daquela ovelha descabelada, do pônei fantasiado de pirata e da banheira cheia de bonecas Barbie vestidas de noiva tivessem algo a ver. Ou aquela moça de cabelo azul abraçada num bebedouro de metal dormindo ao lado da cômoda, logo atrás daquele sujeito magrelo sentado de olhos fechados completamente estático, em posição de lótus, com um faisão se equilibrando sobre sua cabeça.

Teria que esperar a chegada de Gorete, sua faxineira e melhor amiga, para saber a explicação. Ela sabia de tudo e de todos (e ainda dava aulas de húngaro nas horas vagas).

A misteriosa senhora era sua última esperança, sua biografia em versão audio-livro. E ele queria saber muito o que iria acontecer no próximo capítulo.

Bem que Gorete podia chegar logo; Dagoberto estava cada vez mais apreensivo com o olhar da ovelha.

Mal sabia ele que sua personal sacerdotisa tinha morrido atropelada por uma manada de búfalos enlouquecidos enquanto esperava o ônibus; no momento do ataque ela se distraía pensando justamente sobre a loucura do mundo de hoje.

22 jun

Fotografia: Stuart McClymont

Mais um contículo criado a partir de 3 palavras achadas aleatoriamente no dicionário.
***

Rudnelson olhou fixamente para aquela pessoa parada bem à sua frente. Eles não se conheciam, mas ela estava tão pertinho que ele não resistiu viajar na batatinha e pensar em como seria se a moça, que tinha cara de se chamar Vandirene (seria um bom nome para ela), viesse a ser mãe dos seus filhos.

A prole ia ser magnífica, pois a suposta Vandirene era uma beldade. Megahair com mecha rosa até a cintura (e que cintura), salto plataforma bem alto, calça provocante, olhar desafiador. O perfume de rosas, então, era um capítulo à parte.

A diva parecia impaciente, mas como ter pressa, justo agora, que Rud visualizava os dois correndo pela praia em câmera lenta, vestidos de branco, acompanhados de um cachorro grandão? Não, melhor seria um cavalo, combina mais com praia. Depois, a cena do casal tomando um coquetel bem colorido, daqueles com guarda-chuvinha, num bar lotado com teto de sapé à beira da piscina. O biquíni dela era rosa pink neon e dava para ver a marquinha quando se mexia, requebrando sentada. Ao fundo, a banda Calipso entoava canções de amor e traição. Sua vontade era agarrar a Vandirene logo e tomá-la como sua, antes que outro aventureiro o fizesse.

A imagem era tão nítida que ele olhou nos olhos dela e ensaiou mandar um beijinho pelo ar. Seus lábios já estavam se projetando em formação quando algum lugar do fundo da sua mente gritou: “Te comporta, Rudnelson”.

Foi o que bastou para o sujeito cair na real. Tinha que liberar a catraca, pois o que mais tinha no coletivo lotado era passageiro de mau-humor morrendo de pressa. Gente mais sem imaginação

13 jun

Mais um contículo criado a partir de 3 palavras achadas aleatoriamente no dicionário.

***

Celeste teve que sair correndo para alcançar Fortuito, seu lindo labrador dourado. Ela nunca conseguia dar conta da energia do peludão; todo dia, quando saíam para passear, Celeste era praticamente arrastada por ele. Foi errando como um vagão desgovernado que acabou abalroando o Argemiro, indivíduo mau-humorado e pouco dado a relacionamentos sociais. O azedume do Argemiro era mundialmente conhecido por causa das declarações carregadas de fel que distribuía generosamente em várias línguas em sua conta no twitter, alcunhada @f***.

- Desculpe, seu Argemiro! O Fortuito acabou me puxando pela cordinha e…

- Desculpe é o caju, D. Celeste! Se não tem competência para levar um reles abanador de rabo para vagabundear por aí, que não se estabeleça! Saia da minha frente, que hoje não acordei muito generoso.

Foi quando Fortuito resolveu intensificar o contato lambendo as canelas do Argemiro. O sujeito, cuja única experiência de sorrir era para expressar sarcasmo, começou a gargalhar descontroladamente.

- Ai…ahahaha….ai….tira essa língua molhada daqui, sua comunidade de pulgas banguelas! Aai…ahahaha… para com isso!

Fortuito achou bacana a brincadeira e se empolgou mais ainda. Argemiro, que nem se lembrava da última vez que tinha relaxado a mandíbula, desistiu de resistir e acabou sentado na calçada, totalmente entregue.

O resultado é que Celeste e Argemiro acabaram abrindo um lucrativo negócio de relaxar pessoas estressadas com a ajuda de lambidas de cachorros. Eles já têm 8 cães de várias raças, mas o mais sem-vergonha é um vira-lata diferenciado chamado Preparativo. O negócio está indo tão bem que o Gegê, como é agora conhecido, fechou sua antiga conta no twitter e abriu outra, a @lambidazen. Dizem que está tão mansinho que nem liga mais para a baba…

7 jun

Ilustração: Sarah Jane Szikora

Mais um contículo que nasceu de 3 palavras achadas aleatoriamente no dicionário. Vamolá!

***

Creusa olhou desanimada para o espelho. Estava gorda como uma baleia. O vestido até parecia a batina daquele frei redondinho que fazia o meio de campo entre Romeu e Julieta. Horror. Precisava desesperadamente fazer alguma coisa. Não adiantava pedir conselho para a Bartira; essa, então, quando usava cinto, parecia mais um colchão enroladinho amarrado com uma corda. Mas era sua melhor amiga e entendia bem seu drama; então, o jeito foi desabafar.

- Colega, precisamos fazer alguma coisa. A festa da Babete é na semana que vem e se continuar nesse shape, a gente não vai pegar ninguém. Cê tá sabendo de alguma dieta nova, por acaso?

- Claro, Crê, tô sempre por dentro das calorias das famosas. Agora tem a dieta da Próclise, última moda em Hollywood.

- É? E nessa aí, o que a gente come?

- O bom é que não importa o que a gente come. O que importa é o que você faz antes.

- Como assim?

- Ué! Próclise é quando o pronome vai antes do verbo. Então, tem que ver o que você faz antes de comer, sacou?

- Mais ou menos, dá um exemplo…

- Se você tiver que ler uma página inteira de revista antes de dar uma garfada, já está valendo. Se der três voltas em torno da mesa antes de cada mordida, também. Vale qualquer coisa, mas tem que gastar pelo menos 2 minutos na tarefa. Assim, quando você termina de almoçar, já está na hora de jantar. Você passa o tempo todo comendo e não passa fome. A gente vai ficar fininha, fininha, amiga…

- Uau, não tem como dar errado. Acho que aquela princesa está tão magrinha por causa dessa dieta. Ela tem cara que retoca o delineador e dá umas 10 escovadas no cabelo antes de cada garfada. Assim, dá para comer até feijoada, né, nega?

- Vamos começar agora, então. Bora testar com as batatinhas fritas do Bar do Clodô. A gente faz assim: eu conto uma fofoca antes de comer uma batata e você conta outra. Vamos ver o quanto a gente emagrece.

- Tá bom, colega, mas vamos devagar, tá? Sei não, com tanta maravilha nessa dieta, tenho medo de esclerosar

19 mai

Dessa vez, não tive que procurar essas palavras no dicionário para escrever o contículo: o Antonio Bandeira as achou para mim e postou tudo no Facebook. Valeu, Antonio, mas vê se da próxima encontra palavrinhas mais fáceis…eheheh

***

Antenor estava mesmo de mau-humor. Trabalhava o dia inteiro e ainda tinha que aturar a Silvinha, professora chata que ficava insistindo para ele ler aquela pilha de livros mais chatos ainda que ela chamava carinhosamente de bibliografia, arma letal para a paz de espírito de alunos desesperados.

Logo hoje que ele acordou lembrando dos olhares que tinha recebido do Arnold logo cedo. Acordar com aquele ser cheiroso e macio respirando bem junto do ouvido.  Abriu os olhos e se perdeu no oceano dourado que eram os olhos do seu amigo. Num mar de cerveja, como não se embriagar?

Nunca pensou em se envolver com um ruivo, mas olha só as peças que a vida prega na gente. Depois da partida do Didi, achou que nunca mais iria ansiar por um macho peludo e quente encostando no seu peito, dormindo na sua cama. E aconteceu mais cedo do que ele pensava. Compungido, pensou na sorte que tinha.

Mas tinha que ler a tal bibliografia e a palavra que ele tinha que estudar era rágade. Hummm… tem uma definição aqui… meodeos, que professora mais sem-vergonha! O que é que essa mulher está querendo? Começou a ficar totalmente confuso, pois se deu conta de que estava era pensando nas rágades da Silvinha.

Melhor esquecer e se concentrar no texto; a última coisa que ele queria agora, na sua vida, era confusão. E a Silvinha tinha uma confusão incrível, quer dizer, rágades, ou melhor… esquece.

Mas antes, lembrou de chamar o Arnold. Estava na hora de encher o prato da ração.

9 mai

Mais um contículo criado a partir de 3 palavras achadas aleatoriamente no dicionário.

Turíbio olhou em volta e tudo o que conseguiu ver foi areia. Muita areia. Caminhões, trens, transatlânticos de areia e mais sobra suficiente para fazer uns 12 concursos internacionais de esculturas de praia. Mas de onde é que vinha tanto grãozinho, ó senhor? Precisava mesmo de tudo isso? Ele olhava para aquele cenário desolado e não acreditava como tinha ido parar lá.

Tudo começou quando ele estava “monitorando” um celular em cima de uma mesa de bar. O dono acompanhava uma mulher com cara de neurótica. A doida parecia alterada e a tempestade de perdigotos que o sujeito estava enfrentando dava vontade de chamar a defesa civil para avaliar o estrago da roupa. Acho que a louca estava sem rivotril, completamente surtada. Repetia sem parar que queria o chip dela de volta. O refrão “Devolve meu chip, Pedro!” era repetido com tanto vigor que faria Ivete Sangalo parecer afônica. E ele agarrado no aparelho, como se aquilo fosse o último ingresso para o show do U2.

Pois a tensão estava no auge quando o Armandinho, trambiqueiro conhecido do bairro, puxou a bolsa dela e saiu correndo olimpicamente. Os dois saíram atrás e o tal Pedro acabou deixando cair o negócio na calçada.

Turíbio viu, pegou disfarçadamente o “pacote” e saiu andando calmamente. Foi quando ele tentou ligar para a Elzinha que o celular se transformou numa nave, engoliu seu corpo com sofreguidão e cuspiu tudo nesse deserto sinistro. Agora ele estava num Saara de comercial de Sprite, só que sem Sprite e pior, sem celular. Droga. Se soubesse tinha mandado um SMS.

*****

2 mai

Mais um contículo criado a partir de 3 palavras encontradas aleatoriamente no dicionário.

***

Gleydson estava chateado com seu carro. De novo, o possante o tinha deixado na mão. Justo agora que ele tinha conseguido dar carona para a Leidy Dayane que trabalhava no Burger Prince junto com ele. Agora estavam os dois dentro do carro esperando o Wandernylson, mecânico, chegar com o socorro.

Dayane estava nervosa; o lance estava saindo o inverso do que ela pensava. E o Gley  também não estava se comportando muito bem nessa situação de crise. Onde já se viu, chutar os pneus de chinelo?

- Droga de carro velho, propaganda enganosa.

- Propaganda enganosa por que, homem?

- Leidy, você sabe de que marca é esse carro?

- Claro, é um Corcel. Aliás, um Corcel II.

- É isso mesmo, gata, e você sabe o que é um corcel?

- Olhaqui, sou loira, mas sei muito bem o que é corcel. É o nome chique que se dá a esses cavalos que os príncipes encantados montam nas histórias de amor.

- Ok, então olha para essa lata velha. Parece cavalo de príncipe, por acaso?

- Gley, relaxa. O carro não honra o nome, mas você até que parece um príncipe mesmo. O Príncipe do Hambúrguer, mas ainda assim, um príncipe.

Foi aí que o Gleydson olhou o decotão da moça e se acalmou. Cavalos, mesmo os de príncipes, não têm banco de trás. E, no mais, como resistir à fluidez do momento? Resolveu deixar rolar, para ver no que dava. Aquela Leidy prometia…

24 abr

Mais um contículo construído a partir de 3 palavras colhidas aleatoriamente no dicionário. Vamos lá.

***

A mania da Bernadete de fingir que ia participar do casamento real já estava irritando o Gláucio e acabando com a paz conjugal. Onde já se viu? A louca gastou todas as economias para encomendar um vestido de rica e descobriu até um sujeito, lá em Beijo das Freiras, nos confins de Pernambuco, que fazia chapeus forrados de seda. Deu para grudar na televisão e fazer planos sobre o tal dia. Parecia que a doidivanas vivia numa realidade paralela; agora só falava em esmalte de unha. Nem a noiva devia estar assim tão envolvida em preparativos nesse nível de detalhe…

- Dete, tem que parar com isso. Não aguento mais essa historinha. A gente mal se sustenta, como é que tu vai para Londres no tal casório? Tu nem fala inglês!

- Mulher chique não fala, Gláucio, só ouve. Para você ver que o Mr. Bean, que faz aqueles filmes mudos está na lista. Então não precisa.

- É? E a passagem?

- Que passagem, homem? Vou de carruagem, como os nobres. Eles mandam me buscar, você vai ver.

- Já vi que vou ter que frear essa mania de grandeza. Quem vai te buscar é o Pinel.

- Não é mania de grandeza, Gláucio. É o tamanho do meu sonho mesmo. Real.

15 abr

Tinha me esquecido de seguir os conselhos do mestre Edgar Allan Poe para exercitar a criatividade e o storytelling. É só abrir o dicionário aleatoriamente por 3 vezes e pegar a primeira palavra que aparece em cada vez. Depois, é só montar uma historinha. Para mim vieram dinossauro, infestado e pagar. Vamos lá.

***

O dinossauro Epaminondas tinha acordado com dor de cabeça. Suelen estava muito nervosa e ele previa que em breve um meteoro cairia sobre sua cabeça.

— Epa, não vem com essa conversa de novo de dor de cabeça. Já deu. Vê se descobre porque o Júnior está com a cauda tão machucada. Deve ser bulling na escola, só pode.

— Bulling nada, Su, esse menino está é passando tempo demais olhando as sombras na caverna do Pratão, aquele gordinho metido a esperto.

— Mas eles só ficam comendo rabo de mamute frito e olhando as sombras; não me consta que isso machuque .

— Su, você ainda não notou que o Pratão, é, na verdade, um porcão? Aquele buraco onde ele dorme deve estar infestado de baratodáctilos que fazem a festa no rabo do Júnior. Certeza.

— Tá bom, pode ser. Mas tem que ver issaí. Se a cauda da nossa cria continuar nesse estado, o guri vai pagar mico na escola e aí sim, o negócio tem potencial para virar bulling. Eu bem que falei que ele devia ter feito aquelas aulas de defesa jurássica.

A cabeça de Epaminondas começou a doer mais e ele só teve tempo de ver uma sombra gigantesca se aproximando assustadoramente da caverna.

23 nov

Fotografia: Signor Rossi

Feriadão, João Roberto está no canto da cozinha totalmente tomado pelo tédio, transpirando ócio até pela sola dos pés. Eis que entra Eneida porta adentro, esbaforida:

— Levanta, nêgo. Assaltaram a casa da vizinha!

— Não demanda, minha flor. Se assaltaram já a casa da vizinha, a nossa está fora de perigo. O ladrão não consegue dar conta assalto no atacado, ainda mais em feriado.

Ante a demonstração lógica que a moça não conseguiu refutar, só lhe restou meter as unhas no dedo anular para acalmar a comichão que sempre a acometia toda vez que ficava sem resposta.

O preocupante é que o dedo já estava tão esfolado que nem a aliança dava mais para usar.

***

Essa historinha é um exercício rápido de estilo e criatividade (calma, né, gente, é só a primeira…). Peguei a ideia do livro “O efeito Médici“. Lá diz que o grande Edgar Alan Poe fazia bem assim: abria aleatoriamente 3 vezes o dicionário e, com as primeiras palavras que encontrava, montava uma história. Eu achei essas três. Quer tentar outra história com elas?