Como está seu prazo de validade?

A imagem mostra uma fábric cuja torre onde está instalado o relógio apresenta uma instalação de um olho humano bem assustador.

Desde que aprendi a ler, desenvolvi um vício difícil de largar: devoro toda palavra impressa que aparece no meu campo de visão. Isso inclui cartazes nas paredes, folhetos diversos, livros, placas, qualquer coisa. É mais forte que eu, não consigo evitar.

Eis que o negócio piorou muito desde que me mudei para a Alemanha, pois voltei aos meus seis anos de idade e quero ler tudo o que aparece para tentar entender a língua e a cultura do lugar. E a cultura está nos lugares onde a gente menos espera: nos rótulos das embalagens, por exemplo.

No Brasil, os produtos todos trazem aquela frase ameaçadora e suas variantes: consumir até data tal. Prazo de validade: data tal. Consumir no máximo até data tal. Não consumir depois da data tal. A gente morre de medo de ultrapassar um dia sequer, a impressão é que a pessoa vai morrer se tomar um sorvete que venceu ontem.

Aí, quando cheguei na Alemanha, achei estranhíssima a frase: “mindestens haltbar bis: data tal”. É que mindestens é no mínimo, pelo menos. Haltbar é durável, conservável, resistente. Eu não entendia e pensava: como assim, mínimo? Eles deviam dizer que esse é o prazo máximo! Não faz sentido escrever isso no rótulo, está invertido.

Aí fui entender a tal da cultura por trás desse aviso inocente. Interpretando corretamente a frase, lá está escrito que eles garantem que o produto está bem conservado pelo menos até essa data. Pode ser que ele esteja bom depois, mas aí você vai ter que usar seu bom senso para saber. Mas no mínimo até essa data, tudo deve estar ok.

Deu para perceber a diferença sutil de abordagem?

Na nossa cultura, você precisa consumir o produto até a data tal de qualquer maneira. Na cultura alemã (ou europeia, não sei), não há uma ameaça velada. Apenas uma recomendação, apresentada de uma maneira, a meu ver, um pouco mais positiva. É claro que as mensagens mais restritivas no Brasil  podem ser porque ele nunca passou por uma guerra, porque é bem mais jovem e consumista ou até por causa do calor; num país tropical, essas questões de validade são mais sérias. De qualquer maneira, achei interessante.

Talvez essa diferença de visão seja responsável por tantas iniciativas de sucesso na Europa com lojas que só vendem produtos de validade vencida ou próximas do prazo com preços bem menores, como essa, na Dinamarca. No Brasil, imagino que seria complicadíssimo.

Lembrei disso porque minha mãe publicou um texto de humor onde ela descrevia uma cena em que três pessoas com “data de validade quase vencendo” estavam sentadas num café. No Brasil, logo estariam, para continuar a metáfora “impróprias para consumo”. Na Alemanha, onde a idade média da população é mais alta, elas estariam “na garantia” até o prazo, mas depois poderiam continuar ótimas; dependeria muito das condições de conservação…rsrs

Essas diferenças são muito sutis e delicadas, mas ampliam nossa visão do mundo. Quem diria que dá para aprender tanto lendo rótulos?

***

NOTA: a legislação brasileira de rótulos de embalagens dá um banho na Europeia, na minha opinião. Não é raro comprar produtos sem ter a mínima ideia da origem e de onde são produzidos. Aquelas tabelas nutricionais só aparecem às vezes.

O que uma coreógrafa pode nos ensinar sobre criatividade

A imagem mostra um grafite hiperrealista de uma mulher se alongando com os braços abertos e uma blusa azul.

Uma mulher, já septagenária, encontra-se numa sala grande, com pé direito alto, totalmente vazia, exceto pelos espelhos e as barras de exercícios fixadas nas paredes. É o equivalente à tela em branco para o pintor, à pedra bruta para o escultor, à folha em branco para o escritor. Ela tem apenas cinco semanas para criar, produzir e estrear um espetáculo de dança que as pessoas jamais esqueçam. Precisa decidir o tema, as músicas, os cenários, quantos e quais bailarinos participarão em cada etapa, os figurinos e a iluminação. É claro que pode contar com a ajuda de especialistas, mas é a responsável pelo conceito. E ela consegue. Já fez isso mais de uma centena de vezes.

Twyla Tharp, e mulher de quem estamos falando, tem conhecimento de causa para nos presentear com o ótimo “The creative habit: learn it and use it for life” (tradução livre “O hábito criativo: aprenda-o e use-o para a vida“). Ela já trabalhou com as maiores companhias de balé do mundo, criou espetáculos para gente como Mikhail Baryshnikov, coreografou os filmes Hair, Ragtime, Amadeus e O Sol da meia-noite, além de vários musicais na Broadway. Pode acreditar, um dos maiores nomes da dança contemporânea do século XX  sabe exatamente o que está falando quando discorre sobre criatividade.

No livro, ela confirma tudo o que outros especialistas já disseram sobre o tema: trata-se de um hábito, não iluminação divina (falo mais aqui). Twyla ainda reforça: se a criatividade é um hábito, a melhor criatividade é o resultado de bons hábitos de trabalho. Essa história de gênios naturais não existe e ela usa a história de Mozart como exemplo (ela se aprofundou muito na vida dele, pois coreografou o filme Amadeus).

Twyla explica que Mozart só conseguiu florescer porque tinha Leopold como seu pai, um dos mais famosos compositores e pedagogos da Europa na sua época, além de reconhecidamente um músico virtuoso no violino. Cultíssimo, mente aberta, colocou à disposição do filho todo o tipo de conhecimento possível. Observando que o menino gostava de música, ensinou tudo o que era necessário sobre a arte, incluindo harmonia, composição e contrapontos; a criança teve acesso aos melhores concertos, os melhores professores e os melhores instrumentos. E mais: Mozart dedicou-se mais do que qualquer outro músico à sua paixão. Aos 28 anos, além do precioso acervo, o famoso compositor partiu com suas mãos completamente deformadas pelo exercício compulsivo e incansável. Sim, ele tinha um dom, não se pode negar. Mas sem a disciplina férrea, a obsessão pela música, o acesso que seu pai lhe deu, poderia não ter passsado de apenas mais um jovem talentoso.

Infelizmente que essa ideia não vende; o próprio filme Amadeus prefere a versão da genialidade gratuita e impossível; ela nos conforta mais como seres humanos e nos redime do esforço, afinal, não nascemos gênios. Hábitos, exercícios e sacrifícios são muito chatos. Acreditar em genialidade é muito mais confortável, como explica esse outro livro aqui.

Twyla enfatiza também o quanto os rituais são importantes para se definir hábitos. Morando em New York, ela conta que acorda todos os dias às 5h30, veste-se, sai de casa, pega um táxi e vai até seu estúdio para se exercitar. É claro que ninguém (nem ela mesma) gosta de sair da cama a essa hora da madrugada, especialmente no inverno. O jeito é fazer tudo automaticamente, como se estivesse escovando os dentes. E a chave do ritual, por incrível que pareça, está em chamar o táxi. Porque, depois disso, não tem mais volta; ela tem que ir. Twyla relata rituais de profissionais de várias áreas; pintores que precisam de uma playlist para trabalhar, chefs de cozinha que precisam molhar a horta antes de começar o dia, e até Igor Stravinsky, que tocava uma peça de Bach antes de qualquer coisa. Você também deve ter os seus, dê uma reparada. Os rituais amarram o hábito e fazem com que ele se torne mais fácil e familiar.

Essa incrível mulher fala também sobre medos, sobre seu interessante hábito de colocar todas as informações sobre um projeto (incluindo inspirações) numa caixa de papelão, sobre imprevistos, sobre sua experiência como coreógrafa e que só se sentiu no perfeito domínio de sua profissão quando conseguiu apresentar seu 128° trabalho.

Recomendo o livro para todo mundo que tenha interesse no assunto (na verdade, todo mundo que produz algo, pois o conteúdo é útil sob vários pontos de vista); ainda tem vários exercícios de criatividade bem fáceis de se praticar.

E, olha, nem precisa saber dançar…

 

Top 10 de janeiro: inverno em Berlim

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Esse mês temos bastante neve e frio, mas isso não significa que todas as fotos sejam propaganda de sabão em pó que lava mais branco. Tem coisinhas coloridas também, pois olhos precisam de diversidade.

Dá uma olhada aí e escolha sua favorita!

Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra pássaros pousados sobre a grade que margeia o canal do rio Spree. Ao fundo, o Märkisches Museum, que conta a história da fundação da cidade de Berlim. — at Reederei Riedel Märkisches Ufer.
1. Essa foto fez tanto sucesso que foi parar na página do Märkisches Museum, que aparece ao fundo. O dia estava lindo. Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra pássaros pousados sobre a grade que margeia o canal do rio Spree. Ao fundo, o Märkisches Museum, que conta a história da fundação da cidade de Berlim. — at Reederei Riedel Märkisches Ufer.
Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra um prédio todo grafitado em cores fortes, visto de baixo. As sacaras têm grades com linhas finas de ferro. No detalhe em primeiro plano, o teto da sacada mostra um submarino. At Kreutzigerstraße.
2. Tenho muitas fotos desse prédio, mas não resisto fotografá-lo novamente toda vez que passo em frente. Pelo jeito, o povo que frequenta as minhas redes também o acha irresistível. Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra um prédio todo grafitado em cores fortes, visto de baixo. As sacaras têm grades com linhas finas de ferro. No detalhe em primeiro plano, o teto da sacada mostra um submarino. At Kreutzigerstraße.
 Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra a estação de metrô Biesdorf-Süd toda cercada por neve, exceto por um homem e seu cachorro branco. — in Biesdorf Süd, Berlin, Germany.
3. Eu gosto dessa foto porque, se a pessoa não prestar muita atenção, não vê o peludinho que está indo passear. Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra a estação de metrô Biesdorf-Süd vazia e toda cercada por neve, exceto por um homem e seu cachorro branco. — in Biesdorf Süd, Berlin, Germany.
Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra pessoas atravessando a rua coberta de neve. Em contraste com o frio intenso, os prédios nas laterais são pintados com cores quentes, como vermelho, laranja e amarelo. — at Eberswalder Straße.
4. Essa é a minha preferida do mês; uma nevasca bem forte e eu me sentindo dentro de um filme. Ao vivo o cenário é ainda mais lindo! Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra pessoas atravessando a rua coberta de neve. Em contraste com o frio intenso, os prédios nas laterais são pintados com cores quentes, como vermelho, laranja e amarelo. — at Eberswalder Straße.
Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra uma pessoa caminhando por um parque cujo chão está coberto de neve. A luz do sol penetra por entre os galhos secos das árvores formando sombras. — at Berlin Alte jakobstrasse.
5. Estava indo para a ginástica quando dei de cara com esse solzinho maravilhoso… Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra uma pessoa caminhando por um parque cujo chão está coberto de neve. A luz do sol penetra por entre os galhos secos das árvores formando sombras. — at Berlin Alte Jakobstrasse.
Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra a luz do sol sobre um vaso de tulipas brancas e vermelhas colocadas em uma mesa na calçada. As pétalas ficam transparentes e as pessoas caminham na calçada felizes com o calorzinho visual, já que as temperaturas são negativas. — at Kastanienallee.
6. Os dias de sol no inverno são impossíveis de lindos! Os cafés já ficam todos floridos, como esse aqui que colocou tulipas para alegrar a calçada. Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra a luz do sol sobre um vaso de tulipas brancas e vermelhas colocadas em uma mesa na calçada. As pétalas ficam transparentes e as pessoas caminham na calçada felizes com o calorzinho visual, já que as temperaturas são negativas. — at Kastanienallee.
Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra um carro antigo visto de frente (acho que é um Citröen) todo estampado com flores do campo. Na capota, o desenho de uma moça de cabelos pretos segurando uma rosa vermelha. O veículo é do restaurante francês Paulette, que fica no local onde ele está estacionado. Primavera ambulante � — at Knaackstraße.
7. Quem não queria dar uma volta numa belezinha dessas? Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra um carro antigo visto de frente (acho que é um Citröen) todo estampado com flores do campo. Na capota, o desenho de uma moça de cabelos pretos segurando uma rosa vermelha. O veículo é do restaurante francês Paulette, que fica no local onde ele está estacionado. Primavera ambulante � — at Knaackstraße.
Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra um homem de costas na margem do rio Spree distribuindo pedaços de pão para os pássaros que frequentam o lugar. Enquanto uns voam nervosos em todas as direções, outros aguardam calmamente sua vez pousados na grade de ferro. O dia está lindo. — at Reederei Riedel Märkisches Ufer.
8. Toda vez que chego perto de um lago ou na margem do rio me lembro que devia ter trazido pãozinho para os cisnes, patos e passarinhos. Ainda bem que o moço da foto se lembrou.Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra um homem de costas na margem do rio Spree distribuindo pedaços de pão para os pássaros que frequentam o lugar. Enquanto uns voam nervosos em todas as direções, outros aguardam calmamente sua vez pousados na grade de ferro. O dia está lindo. — at Reederei Riedel Märkisches Ufer.
Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra uma marina completamente vazia porque as águas do lago congelaram. Árvores emolduram a paisagem e o sol está baixo como se fossem cinco da tarde no Brasil. — at Am Pichelsee.
9. Nunca tinha visto uma marina sem nenhum barco. Fica lindo também! Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra uma marina completamente vazia porque as águas do lago congelaram. Árvores emolduram a paisagem e o sol está baixo como se fossem cinco da tarde no Brasil. — at Am Pichelsee.
Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra um Citröen antigo estacionado na rua. O vermelho intenso do carro da mesma cor dos detalhes da cerca de proteção atrás contrasta com a neve que cobre tudo. — at Volkspark Schöneberg
10. E esse vermelhinho, não está parecendo um Papai Noel? Rsrsrs… Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra um Citröen antigo estacionado na rua. O vermelho intenso do carro da mesma cor dos detalhes da cerca de proteção atrás contrasta com a neve que cobre tudo. — at Volkspark Schöneberg

 

Dois crimes regionais

A imagem mostra as capas dos dois livros resenhados.

Já comentei aqui algumas vezes que os alemães amam histórias policias e que as livrarias têm seções enormes dedicadas ao gênero. Essa semana tive oportunidade de ler duas histórias muito bacanas que vale a pena compartilhar.

O primeiro, “Winterkartoffelknödel“, de Rita Falk, é bem engraçado. O protagonista é um policial de Munique transferido para sua cidade natal, um Dorf (cidadezinha pequena, lugarejo, em alemão) onde passa a morar com sua avó e pai e trabalhar na pacata delegacia. A mãe dele morreu no parto, motivo pelo qual o irmão mais velho nunca o perdoou. O pai não se casou de novo e mora com a avó do rapaz, maníaca por liquidações. A história é engraçada principalmente porque narra a rotina num Dorf, as compras, as comidas (a propósito, “Winterkartoffelknödel” que dá título ao livro é um prato típico feito com batatas — algo parecido com um nhoque, só que com bolinhas menores e em formato de arroz), as relações entre as pessoas, enfim, um retrato bem-humorado do alemão médio que mora no interior.

O moço é meio lento e a resolução do crime propriamente dito não é das mais originais, além do que fico com muita raiva quando o protagonista deixa seu cérebro derreter ao ver um rabo de saia. De qualquer maneira, vale para se divertir e reconhecer as lojas, supermercados, hábitos e costumes do povo. Fez tanto sucesso que, pelo que pesquisei, virou até série de TV.

O segundo, “Das tote Zimmermädchen vom Bahnhof Zoo” (tradução livre: “A morte da camareira da estação Zoo”), de Rainer Stenberger e Ulrich Sackenreuter é uma das coisas mais geniais e bem boladas que vi ultimamente. Dois amigos, Percy Michalak e Alexander Diel estavam um dia no metrô quando tiveram a seguinte ideia: por que não escrever um livro de bolso que fornecesse informações interessantes sobre as estações de metrô e seus arredores, ao mesmo tempo que contasse uma história policial intrigante? Pois a dupla montou uma editora especializada nesse tipo de livro, a Ubahn Cops e convidou a dupla de autores, conhecidos e premiados roteiristas de cinema e TV para escrever as histórias.

O resultado é incrivelmente bem feito e impagável: uma mistura de guia de viagem com romance policial. Pelo que vi, eles já têm 3 volumes. Comprei o da Bahnhof Zoo porque fala da U2, a linha que passa pela minha casa e, por motivos óbvios, a que mais frequento.

A história começa quando o comissário de polícia Milan Makrovic se junta com o funcionário Oliver Dings, da BVG, empresa municipal de transportes, para resolver um crime. Eles passam por várias estações, comem Curry Wurst e Donner Kebab (pratos típicos daqui) comentam sobre as diferenças entre os kiosques, observam os passageiros, enfim, parece que você está andando com a dupla pela cidade. Há mapas, curiosidades e notas interessantes sobre cada estação e suas imediações (por exemplo, o sino que toca no Estádio Olímpico, no final da linha, é uma gravação do sino da igreja destruída na II Guerra e mantida assim). A história é muito bem contada, os personagens, hilários, são muito bem construídos, enfim, tudo perfeito (vou comprar os outros volumes: Alexanderplatz (U8) e Kottbussertor (U1)).

O único porém: até onde sei, só existe a versão em alemão. Está certo que o mercado interno é grande consumidor de literatura policial, mas se a coleção é voltada para turistas, fica faltando pelo menos a tradução para o inglês. Quem sabe…

 

Ajudando você a decidir

A imagem mostra uma pessoa sentada num banco. Ela é vista de costas, de frente para um amplo gramado num parque.

Já conhecia os irmãos Chip e Dan Heath do excelente e imperdível Switch, então não titubeei quando vi Decisive: how to make better decisions in life and work; sabia que vinha coisa boa.

Nesse livro, os irmãos analisam como tomamos decisões e de que maneira podemos melhorar esse processo.

Eles começam dizendo o que todos os autores sobre o tema concordam: o ser humano toma quase todas as decisões de maneira intuitiva, não racional. Outra constatação é que se dá muita importância aos fatos que mais se sobressaem. Eles usam uma metáfora ótima, a do holofote. Muitas vezes, quando vamos tomar uma decisão, a gente só presta atenção no que está sendo iluminado e acha que aquilo é absolutamente tudo o que se sabe sobre o assunto, quando, na verdade, há muita informação escondida nos bastidores, ou até mesmo nem tão escondidas, mas que estão apenas na parte do palco que não está sendo holofoteada no momento. Essa limitação de visão muitas vezes prejudica uma noção mais completa e equilibrada sobre o tema que está sendo tratado (e decidido).

Os dois conseguiram identificar então o que fica menos evidente no grande palco das decisões, que chamam de os quatro grandes vilões da tomada de decisão:
1. escolhas reduzidas
2. viés da confirmação
3. emoções do momento
4. excesso de autoconfiança

1. Escolhas reduzidas
Apesar, de relativamente óbvia, para mim essa foi uma das mais impressionantes. Os irmãos Heath afirmam que muitas vezes a gente erra na tomada de decisão porque insiste em enxergar a situação como uma equação binária, onde a resposta só pode ser sim ou não. Já tinha lido a respeito das limitações que essa mania pode causar nesse livro aqui, mas fiquei chocada em saber que 65% das decisões dos adolescentes americanos (que, teoricamente, teriam um mundo de possibilidades) são do tipo trade-off (sim ou não). É “vou ou não vou na festa”, “compro ou não compro esse telefone”, “termino ou não termino com meu namorado(a)”. O mundo das decisões vai muito além, a gente é que não percebe quando coloca os problemas dessa maneira. Olha só esse exemplo: perguntaram para um grupo de pessoas se, ao confrontadas com uma superoferta de um vídeo de um filme com seu ator/estilo favorito por $14.99, elas fariam ou não a compra. A questão foi apresentada de duas maneiras. A primeira era assim:

(a) compra o vídeo
(b) não compra o vídeo

Como resposta, 75% das pessoas comprariam o vídeo.

Agora, a questão foi apresentada de outra forma:

(a) compra o vídeo
(b) não compra o vídeo e gasta os $14.99 para comprar outras coisas

É incrível, mas com as opções apresentadas dessa maneira, 45% das pessoas não comprariam o vídeo. Foi somente lembrar que o dinheiro poderia ser usado para outros fins; prova de que a gente esquece completamente esse detalhe.

O mesmo aconteceu com um rapaz se torturando para decidir entre comprar um aparelho de som de $1000 da Pioneer ou um mais simples de $700 da Sony. O mais caro tinha mais recursos e ele não conseguia se decidir. Até que um vendedor iluminado apresentou a questão dessa maneira: você prefere um equipamento com mais recursos ou um outro bom (mas não excelente) e mais $300 de música? Para ele ficou claro que mais músicas tinham mais valor que um controle melhor dos baixos e agudos.

Enfim, o fato é que até CEOs de grandes corporações tomam decisões como se fossem adolescentes. Eles normalmente colocam a questão “compro ou não compro tal empresa” em vez de considerar que o valor investido na compra poderia ser usado em outros investimentos. A dica, então, é sair da armadilha da resposta binária e buscar respostas com combinações mais ricas. Essa vou levar para a vida.

2. Viés da confirmação
É fato conhecido que, quando a gente tem uma opinião, toda nossa atenção é voltada a notícias, fatos e eventos que confirmem isso. O fenômeno das redes sociais e os resultados das eleições estão aí para provar. A gente se cerca de pessoas que pensam de maneira parecida numa espécie de bolha e acaba acreditando que todo mundo vê o mundo como nós. Isso limita seriamente a avaliação do cenário de uma maneira mais ampla na hora de tomar decisões. Não queremos ouvir opiniões contrárias e cada pequeno acontecimento só existe para confirmar que aquela era a decisão mais acertada, mesmo quando não é. Sobre isso, em breve vou resenhar aqui o ótimo livro “The hallo effect” que está na minha lista faz tempo.

Por ora, as dicas dos irmãos Heath são:

• facilite/incentive as pessoas discordarem de você
• considere questões que contrariem suas informações
• considere o oposto do que você pensou

Outra recomendação é fazer pequenos experimentos para testar suas teorias antes de tomar a decisão final.

3. Emoções do momento
Decisões por impulso, no calor das emoções, em geral, não são as mais acertadas. A primeira coisa que a gente deve fazer, segundo os autores, é tomar alguma distância. Isso pode ser feito de várias maneiras como, por exemplo, analisando do ponto de vista de um observador externo (como Fulano de Tal tomaria essa decisão?) e pedindo opiniões de pessoas em quem você confia ou que já passaram por situação parecida. É importante lembrar que temos aversão a perdas e nos sentimos mais seguros com situações que nos são familiares, mesmo que não muito confortáveis; isso pode prejudicar muito a tomada de decisão. Outra dica é pensar nas consequências dessa deliberação daqui a 5 ou 10 anos.

Mais uma questão a se considerar é o autoconhecimento; quais são suas prioridades, princípios, valores, objetivos e aspirações de longo prazo? Muita gente não tem respostas claras para essas perguntas, o que as leva a tomar decisões erradas com frequência.

4. Excesso de autoconfiança
Pois é, todo mundo conhece a história do executivo da gravadora Decca Records que recusou gravar os Beatles alegando que bandas de quatro componentes eram ultrapassadas e aquele estilo de música não iria fazer sucesso; de Harry Warner, executivo da Warner Bros afirmando que o cinema mudo era ótimo e que ninguém gostaria de ver os atores falando; ou ainda, William Orton, da Western Union Telegraph Company que declinou a compra da patente do telefone porque considerava o invento apenas como um brinquedo sem utilidade. A história está cheia de profetas mal sucedidos. O que aconteceu nesses casos? As pessoas não conseguem compreender que o futuro não é um ponto com um único cenário e as variáveis são muitas. Uma frase que resume bem a questão, pois pode ser interpretada de várias maneiras, todas muito úteis: “a gente não sabe o que a gente não sabe”.

Para esses casos, há que se admitir que a gente simplesmente não sabe o que vai acontecer. Os autores recomendam usar um fator de segurança no caso de decisões mais ousadas (eu colocaria a questão de outra maneira: se a gente não conhece o futuro, convém considerar fazer gestão de riscos).

Um dos muitos casos interessantes que eles compartilham é a da loja online de sapatos Zappo, que tem uma excelente reputação de atendimento ao cliente. Eles entrevistam os candidatos tentando realmente descobrir se eles se alinham com os valores da empresa. Independente do cargo, todos começam no atendimento ao cliente e ficam lá por pelo menos uma semana. No final do período de treinamento, o candidato é convidado a uma reunião onde a seguinte oferta é feita: se ele não acredita do fundo do coração que aquele é realmente seu lugar, que será feliz na empresa, que fará diferença, a Zappos lhe dará $ 4 mil e ele pode ir embora sem ser questionado. Cerca de 2% dos candidatos aceita a oferta. Todos saem satisfeitos, economizam seu tempo e dinheiro. Todos ganham. Achei inteligente.

O livro tem uma série de outros exemplos e considerações e acredito que seria uma excelente decisão de sua parte escolher lê-lo.

Para ter um cérebro mais florido

a imagem mostra um jardim florido.

Sabe aquelas coisas que são óbvias, mas a gente nunca pensa a respeito? Mas aí lê um texto que faz absolutamente todo sentido? Foi o que aconteceu quando li “Your brain has a ‘delete’ button: here’s how to use it”, de Judah Polack e Olivia Fox. Veja se não é.

Eles começam reafirmando as bases científicas do que a gente observa na prática: quanto mais a gente exercita uma tarefa ou uma área de conhecimento, mais as conexões neuronais sobre esse tema são reforçadas. É claro que a gente sempre precisa buscar elementos novos para ampliar nosso repertório, pois só assim é possível fazer novas conexões e pensar de maneira mais ampliada; mas reforçar o que já se sabe também é importante.

Polack e Fox usam uma metáfora que achei muito interessante: nosso cérebro é como um jardim. Você planta coisas novas, mas também tem que cuidar das árvores e plantas que já estão lá. E esse lugar florido dentro da nossa cabeça tem uma equipe de jardinagem e paisagismo que cuida para que tudo funcione da melhor maneira; as células Glial (Glial Cells, não sei como traduzir isso) fazem esse trabalho. Elas arrancam as ervas daninhas, podam o que precisa e jogam fora as folhas velhas. Ou seja, elas mantêm o jardim limpo e organizado para que a gente possa ter as melhores condições para criar novas conexões e manter as que são importantes.

Essa faxina acontece toda vez que a gente dorme e pode ser tão completa que em alguns casos, podemos ficar com apenas 40% das conexões que tínhamos quando fomos dormir. O lixão todo é eliminado para a gente conseguir pensar de maneira clara e organizada (isso explica porque a gente não consegue pensar direito quando não dorme o suficiente; é porque a cabeça está literalmente bagunçada, lotada de porcarias).

Ok, mas a grande questão é: como é que as células Glial sabem o que é para podar, o que é para deixar como está e o que é para jogar fora?

Bom, aí temos uma pista interessante; pesquisadores descobriram que algumas sinapses neuronais são marcadas por uma proteína chamada C1q. Quando as microcélulas Gial estão fazendo a inspeção rotineira e detectam essa proteína, elas já sabem o que fazer: podam, ou melhor, destroem essa conexão neuronal para liberar mais espaço para novas conexões, ou seja, para que a gente possa aprender mais coisas.

Mas como é que essa proteína vai parar lá?

Bem, ela é assim, digamos, o equivalente a um fungo, bolor ou teia de aranha. Ou seja, aparece em lugares onde ninguém entra, ninguém usa, estão abandonados por muito tempo.

Assim, se você teve aulas de francês há cinco anos e nunca mais praticou, pode ter certeza que a maioria das conexões que você criou na época já foram podadas e recicladas para dar espaço a novos aprendizados. Para manter o jardim com as flores que você quer, tem que prestar atenção em quais você está regando todo dia.

Os autores deixam uma pergunta muito instigante para nos fazer refletir: se você gasta todo o seu tempo pensando em Game of Thrones e quase nada pensando no seu trabalho ou num projeto importante, quais das conexões você acha que o cérebro vai mandar para reciclagem na próxima faxina?

Bom a gente dar uma verificada para ver se não está colocando adubo em mato e deixando as flores morrerem.

 

 

Vamos falar sobre tribos

#paracegover A imagem mostra uma moça andando numa calçada. No muro atrás dela há uma série de silheutas de pessoas pintadas. Parecem sombras.

Sempre gostei dos textos do Seth Godin, mas nunca tinha lido um livro inteiro dele. Aí, quando tive a oportunidade, comprei Tribes: we need you to lead us, afinal, era sobre liderança, tema do meu mais recente livro, Atitude Pro Liderança.

A ideia central é que as pessoas se reúnem em torno do que acreditam (a visão) e, por isso, as tribos são formadas. E, também, por causa dessa consciência, pela primeira vez não se espera que apenas os chefes sejam os líderes em uma organização. Uma vez que a visão é o motivo das pessoas estarem reunidas, qualquer um que tenha essa visão de maneira clara e saiba como construi-la, pode liderar o grupo. Seth diz que liderar não é difícil; o problema é que temos sido treinados ao longo de anos para evitar essa posição a qualquer custo, a não ser que a pessoa se veja num cargo em que é obrigada a fazê-lo.

Outra diferença que ele salienta: liderar é diferente de administrar. Administrar tem a ver com manipular os recursos para obter um resultado conhecido. Liderar tem a ver com criar a mudança em que se acredita. Líderes têm seguidores. Administradores têm funcionários ou colaboradores. Administradores fazem coisas. Líderes fazem mudanças. E porque líderes fazem mudanças é que as pessoas evitam tanto essa posição; ela está longe de ser segura e confortável.

Godin diz que dois aspectos principais diferenciam um grupo de uma tribo: Continue lendo “Vamos falar sobre tribos”

Candy Andy

#paracegover A imagem mostra uma tela gigante de Andy Warhol exposta do Hamburger Bahnhof Museum, em Berlim, com um retrato de Mao Tse Tung no centro em uma parede branca estampada com grandes bolas da cor lilás.

Semana passada aproveitei os dias feios para revisitar alguns museus e, apesar de não ser especialmente fã de arte moderna e contemporânea, gosto muito do Hamburger Bahnhof Museum. Não havia nada de muito especial dessa vez: uma exposição interessante, porém, longe de ser inesquecível, da artista turca Gülsün Karamustafa, algumas instalações enigmáticas e vídeos diversos que, confesso, ainda não tenho capacidade de compreender e apreciar completamente. Restou-me então encantar-me novamente com o acervo, onde estão as obras de meus artistas preferidos nesse museu: Andy Warhol e Roy Lichtenstein.

Na volta, é claro que fiquei um tempão na loja do museu, uma das livrarias de arte mais completas que já conheci. É tanta coisa bacana que não me envergonho de dizer que compete com o próprio museu em termos de entretenimento. Poderia passar o dia todo folheando todos aqueles livros maravilhosos. Aí, num cantinho, tinha uma caixa (dica: sempre tem uma caixa dessas!) com pechinchas imperdíveis de livros que têm alguma imperfeição na capa ou encadernação (muitas vezes, devido ao manuseio descuidado dos clientes). Pois lá achei, por míseros €3.00, o sensacional “This is Andy Warhol“, escrito pela historiadora de arte britânica Catherine Ingram e ilustrado belamente por Andrew Rae. O preço original de capa é US$ 15.95 e vale mesmo.

O livro começa com a infância do famoso artista pop, quando sua mãe, a desenhista e ilustradora, Julia Warhola, lhe presenteava com seu chocolate favorito cada vez que ele fazia um retrato para ela; por isso, ela apelidou-o de Candy Andy (candy=doce). Aliás, segundo ele, em casa todos desenhavam o tempo todo. Ele mais ainda, uma vez que passou a infância toda doente de cama, principalmente nas férias de verão. Andy era obcecado por histórias em quadrinhos, pin-ups e revistas de moda e celebridades. Estudou artes na Carnegie Tech e, no último ano, para ajudar a pagar as mensalidades, fazia vitrines que eram o maior sucesso para lojas de departamentos; nessa época, tornou-se um ilustrador comercial dos mais bem-sucedidos da história. Ele adorava dançar e, no auge da carreira, chegou a declarar que nunca quis ser pintor; na verdade, sempre sonhou em ser sapateador. Pessoa com múltiplos talentos, produziu a famosa banda Velvet Underground, editou uma revista chamada Interview, fez vídeos, escreveu livros, enfim, não sofreu de tédio, com certeza.

Em New York, morou anos em uma casa de 4 pavimentos com sua mãe e 25 gatos siameses; todos chamavam-se Sam, exceto um, que chamava-se Hester. Inteligentíssimo, Andy era também um gênio do marketing; seu senso de oportunidade e talento para os negócios fez com que seu estúdio, não por acaso chamado Factory (Fábrica) fosse um dos mais lucrativos que se tem notícia (usar silkscreem para aumentar a tiragem das telas também foi uma inovação sua). A ideia de fazer retratos de celebridades foi mais uma de suas ideias com retorno financeiro altíssimo; uma das mais famosas, a de Marylin Monroe, foi feita logo após sua morte, para aproveitar o frisson causado pela notícia (e funcionou!). O retrato de Mao também foi resultado do assunto do momento nos jornais, quando Nixon visitou a China.

Ele não devia ser uma pessoa fácil: vaidoso, temperamental, imprevisível e cercado de pessoas igualmente instáveis emocionalmente, foi baleado uma vez por uma colaboradora do estúdio, a escritora Valerie Solanas, que anos antes já tinha disparado contra o escritor Arthur Miller. Warhol foi declarado clinicamente morto na ambulância, mas sobreviveu devido a um procedimento de ressuscitação dos paramédicos.

Outra curiosidade interessante é que Andy era um acumulador compulsivo (teve que comprar outra casa e se mudar, pois aquela de 4 andares estava lotada de coisas após alguns anos). Ele deixou 612 caixas  de papelão que chamou de cápsulas do tempo, onde guardava revistas, recortes de jornais, desenhos e objetos variados (de fósseis valiosos, embalagens vazias de remédios controlados, o diário de John Lenon arrematado em um leilão, até fatias de pizza). A ideia era tratar essas caixas como objetos de arte e vendê-las em sua galeria, o que acabou não acontecendo. Até hoje, algumas continuam intactas no museu que leva seu nome em Pittsburg.

Em 1987, depois de uma operação bem sucedida de vesícula, teve uma parada cardíaca e se foi de vez, aos 58 anos.

O sujeito teve realmente uma vida movimentada e fez, do seu jeito, diferença no mundo. E, não deixando de lembrar, teve bem mais que seus previstos 15 minutos de fama.

O que aprendi com o hipopótamo finlandês

O desenho mostra um casal de Moomins (seres parecidos com hipopótamos brancos) abraçados.

Minha queridíssima amiga Ana Rampim foi passar uns dias em Helsinki e me deixou com a missão especial de cuidar das gatinhas dela.  Durante alguns dias, fui lá brincar com aquelas fofas arteiras e já estava bem feliz com isso. Pois não é que na volta a Ana me trouxe um presente? Nem precisava, mas, né? Como posso recusar um clássico da literatura finlandesa?

The Exploits of Moominpappa (As explorações do Papai Moomin), de Tove Jansson, me ensinou, entre outras coisas, que devo ler mais clássicos infantis.

Tove, a autora, nasceu em 1914 e era filha de uma caricaturista com um escultor; ela escreveu a série de histórias com os personagens e todo o universo dos Moomin durante e depois da Segunda Guerra, quando tudo era dor, sofrimento e destruição. Seu texto é um alívio no meio de tudo isso; fresco, curioso, bem-humorado e engraçado. Não é à toa que os personagens são idolatrados em sua terra natal e outras partes do mundo.

Os Moomin são tão queridos que há parques temáticos no mundo todo, produtos licenciados, filmes de animação, histórias em quadrinhos e tudo o que se possa imaginar. Eles são tipo um Harry Potter finlandês!

Esse volume (são oito, no total) mostra o Papai Moomin contando a história de sua vida para seus filhos até o momento que conhece a mãe deles. É muito fofo, pois ele é tão inocente e se acha tão genial que é impossível não amar. Recebeu fortes recomendações da Mamãe Moomin: as partes não instrutivas eram para ser deixadas de fora do livro que ele está escrevendo e lendo, capítulo por capítulo, todos os dias para os filhos e amiguinhos.

Os Moomins, pelos desenhos da capa e algumas ilustrações no interior do livro, têm a forma de um hipopótamo. E foi assim que comecei a ler, imaginando um hipopótamo contando sobre o dia que, ainda filhote, foi deixado sobre folhas de jornal num orfanato controlado por criaturas chamadas Hemulen. Elas são como generais disciplinadíssimas nesse reino, e, ao encontrar o Moomin, decretaram: se tivesse chegado meia hora mais tarde, seria músico; se tivesse aparecido um dia antes, seria um jogador compulsivo. Mas a combinação de estrelas no momento era muito especial, de maneira que ele seria super talentoso.

Sabendo que era tão notável, Moomin não conseguiu suportar a vidinha chata do orfanato e fugiu para viver aventuras (olhaí um exemplo clássico de profecia auto-realizável). É engraçado porque, no começo, ele se apresentava assim para todos os seres que encontrava: “Sou Moomin, e nasci sob uma configuração especial de estrelas“. Ninguém dava muita bola, mas nada abalava sua autoestima (isso é uma coisa muito bacana). Eis que encontra outros personagens, constrói uma casa, viaja num barco, enfrenta gigantes e monstros, conhece o rei, salva vidas, até que encontra seu grande amor, uma charmosa Moomin fêmea.

Há cenas espetaculares de tão criativas que trazem soluções surpreendentes para brincadeiras de infância, como quando ele e seus amigos estão a bordo de um barco atravessando o oceano e um deles olha para o céu e diz: “aquelas nuvens ali não parecem três ovelhas fugindo de um lobo, que está correndo logo atrás?“. Todos concordam e um dos amigos decide salvá-las: ele pega uma corda e laça cada uma das nuvens. As ovelhas-nuvem, agradecidas, fazem parte da viagem como tripulação do barco. Quem pensaria numa coisa dessas?

Olha só quanta coisa deu para aprender:

  1. Ler livros infantis significa jogar fora todos os pré-conceitos. Quando vi o desenho de um hipopótamo na capa, imediatamente imaginei um animal assim, enorme e pesado, vivendo as aventuras. Só depois de ler quase um terço do livro, lá pela página 30, é que me dei conta de que eles estavam usando uma lata vazia como veículo. Então só podiam ser miniaturas num jardim.
  2. No começo procurava no dicionário nomes dos animais que não conhecia. Só depois saquei que eram criaturas inventadas…dãã…
  3. Aprendi que não tem problema ser vaidoso quando também se é generoso com os outros. As coisas se equilibram.
  4. Aprendi que é possível ter ironia fina também em livros infantis. Curiosíssima para saber se a parte do livro que foi vetada para as crianças, em que o Moomin vai viver com as Hattifattener, criaturas que nunca descansam e estão sempre viajando sem parar, foi contada em algum outro volume.
  5. Crianças finlandesas podem tomar rum quente na boa, desde que seja inverno (passei minha infância tomando vinho tinto no Brasil mesmo…rs) e não tem problema os adultos da história fumarem.
  6. Livros infantis, principalmente com animais e cenários inventados, podem ser um excelente exercício de imaginação e criatividade. Aí que a gente se dá conta como está enferrujado em ter ideias realmente originais.
  7. Aprendi que preciso urgentemente puxar Helsinki mais para cima na minha infindável lista de lugares para visitar com urgência.

Não tenho como agradecer por mais isso, Ana!

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NOTA: Descobri que lançaram algumas histórias em português recentemente. Vale dar uma procurada.

Top 10 de dezembro

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Na seleção das minhas fotos mais curtidas nas redes sociais no mês de dezembro tem decoração de natal, finalzinho do outono, panorâmica, espelho na água e até foto preto e branco. Ou seja, tem para todos os gostos. Corre escolher a sua preferida!

1. O parlamento alemão, com toda sua beleza! #paracegover A imagem mostra o prédio do Parlamento Alemão à beira do rio Spree. O céu está dramático. — at Berlin, Reichstag.
1. O parlamento alemão, com toda sua beleza! #paracegover A imagem mostra o prédio do Parlamento Alemão à beira do rio Spree. O céu está dramático. — at Berlin, Reichstag.
#paracegover A imagem mostra uma visão panorâmica da estação de trem Charlottenburg. Faz sol (a foto é de ontem) e as pessoas aguardam a chegada do trem. — at Berlin-Charlottenburg station.
2. Sempre há uma maneira diferente de ver; é só procurar! #paracegover A imagem mostra uma visão panorâmica da estação de trem Charlottenburg. Faz sol (a foto é de ontem) e as pessoas aguardam a chegada do trem. — at Berlin-Charlottenburg station.

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