Dois crimes regionais

A imagem mostra as capas dos dois livros resenhados.

Já comentei aqui algumas vezes que os alemães amam histórias policias e que as livrarias têm seções enormes dedicadas ao gênero. Essa semana tive oportunidade de ler duas histórias muito bacanas que vale a pena compartilhar.

O primeiro, “Winterkartoffelknödel“, de Rita Falk, é bem engraçado. O protagonista é um policial de Munique transferido para sua cidade natal, um Dorf (cidadezinha pequena, lugarejo, em alemão) onde passa a morar com sua avó e pai e trabalhar na pacata delegacia. A mãe dele morreu no parto, motivo pelo qual o irmão mais velho nunca o perdoou. O pai não se casou de novo e mora com a avó do rapaz, maníaca por liquidações. A história é engraçada principalmente porque narra a rotina num Dorf, as compras, as comidas (a propósito, “Winterkartoffelknödel” que dá título ao livro é um prato típico feito com batatas — algo parecido com um nhoque, só que com bolinhas menores e em formato de arroz), as relações entre as pessoas, enfim, um retrato bem-humorado do alemão médio que mora no interior.

O moço é meio lento e a resolução do crime propriamente dito não é das mais originais, além do que fico com muita raiva quando o protagonista deixa seu cérebro derreter ao ver um rabo de saia. De qualquer maneira, vale para se divertir e reconhecer as lojas, supermercados, hábitos e costumes do povo. Fez tanto sucesso que, pelo que pesquisei, virou até série de TV.

O segundo, “Das tote Zimmermädchen vom Bahnhof Zoo” (tradução livre: “A morte da camareira da estação Zoo”), de Rainer Stenberger e Ulrich Sackenreuter é uma das coisas mais geniais e bem boladas que vi ultimamente. Dois amigos, Percy Michalak e Alexander Diel estavam um dia no metrô quando tiveram a seguinte ideia: por que não escrever um livro de bolso que fornecesse informações interessantes sobre as estações de metrô e seus arredores, ao mesmo tempo que contasse uma história policial intrigante? Pois a dupla montou uma editora especializada nesse tipo de livro, a Ubahn Cops e convidou a dupla de autores, conhecidos e premiados roteiristas de cinema e TV para escrever as histórias.

O resultado é incrivelmente bem feito e impagável: uma mistura de guia de viagem com romance policial. Pelo que vi, eles já têm 3 volumes. Comprei o da Bahnhof Zoo porque fala da U2, a linha que passa pela minha casa e, por motivos óbvios, a que mais frequento.

A história começa quando o comissário de polícia Milan Makrovic se junta com o funcionário Oliver Dings, da BVG, empresa municipal de transportes, para resolver um crime. Eles passam por várias estações, comem Curry Wurst e Donner Kebab (pratos típicos daqui) comentam sobre as diferenças entre os kiosques, observam os passageiros, enfim, parece que você está andando com a dupla pela cidade. Há mapas, curiosidades e notas interessantes sobre cada estação e suas imediações (por exemplo, o sino que toca no Estádio Olímpico, no final da linha, é uma gravação do sino da igreja destruída na II Guerra e mantida assim, no meio do trajeto). A história é muito bem contada, os personagens, hilários, são muito bem construídos, enfim, tudo perfeito (vou comprar os outros volumes: Alexanderplatz (U8) e Kottbussertor (U1)).

O único porém: até onde sei, só existe a versão em alemão. Está certo que o mercado interno é grande consumidor de literatura policial, mas se a coleção é voltada para turistas, fica faltando pelo menos a tradução para o inglês. Quem sabe…

 

Ajudando você a decidir

A imagem mostra uma pessoa sentada num banco. Ela é vista de costas, de frente para um amplo gramado num parque.

Já conhecia os irmãos Chip e Dan Heath do excelente e imperdível Switch, então não titubeei quando vi Decisive: how to make better decisions in life and work; sabia que vinha coisa boa.

Nesse livro, os irmãos analisam como tomamos decisões e de que maneira podemos melhorar esse processo.

Eles começam dizendo o que todos os autores sobre o tema concordam: o ser humano toma quase todas as decisões de maneira intuitiva, não racional. Outra constatação é que se dá muita importância aos fatos que mais se sobressaem. Eles usam uma metáfora ótima, a do holofote. Muitas vezes, quando vamos tomar uma decisão, a gente só presta atenção no que está sendo iluminado e acha que aquilo é absolutamente tudo o que se sabe sobre o assunto, quando, na verdade, há muita informação escondida nos bastidores, ou até mesmo nem tão escondidas, mas que estão apenas na parte do palco que não está sendo holofoteada no momento. Essa limitação de visão muitas vezes prejudica uma noção mais completa e equilibrada sobre o tema que está sendo tratado (e decidido).

Os dois conseguiram identificar então o que fica menos evidente no grande palco das decisões, que chamam de os quatro grandes vilões da tomada de decisão:
1. escolhas reduzidas
2. viés da confirmação
3. emoções do momento
4. excesso de autoconfiança

1. Escolhas reduzidas
Apesar, de relativamente óbvia, para mim essa foi uma das mais impressionantes. Os irmãos Heath afirmam que muitas vezes a gente erra na tomada de decisão porque insiste em enxergar a situação como uma equação binária, onde a resposta só pode ser sim ou não. Já tinha lido a respeito das limitações que essa mania pode causar nesse livro aqui, mas fiquei chocada em saber que 65% das decisões dos adolescentes americanos (que, teoricamente, teriam um mundo de possibilidades) são do tipo trade-off (sim ou não). É “vou ou não vou na festa”, “compro ou não compro esse telefone”, “termino ou não termino com meu namorado(a)”. O mundo das decisões vai muito além, a gente é que não percebe quando coloca os problemas dessa maneira. Olha só esse exemplo: perguntaram para um grupo de pessoas se, ao confrontadas com uma superoferta de um vídeo de um filme com seu ator/estilo favorito por $14.99, elas fariam ou não a compra. A questão foi apresentada de duas maneiras. A primeira era assim:

(a) compra o vídeo
(b) não compra o vídeo

Como resposta, 75% das pessoas comprariam o vídeo.

Agora, a questão foi apresentada de outra forma:

(a) compra o vídeo
(b) não compra o vídeo e gasta os $14.99 para comprar outras coisas

É incrível, mas com as opções apresentadas dessa maneira, 45% das pessoas não comprariam o vídeo. Foi somente lembrar que o dinheiro poderia ser usado para outros fins; prova de que a gente esquece completamente esse detalhe.

O mesmo aconteceu com um rapaz se torturando para decidir entre comprar um aparelho de som de $1000 da Pioneer ou um mais simples de $700 da Sony. O mais caro tinha mais recursos e ele não conseguia se decidir. Até que um vendedor iluminado apresentou a questão dessa maneira: você prefere um equipamento com mais recursos ou um outro bom (mas não excelente) e mais $300 de música? Para ele ficou claro que mais músicas tinham mais valor que um controle melhor dos baixos e agudos.

Enfim, o fato é que até CEOs de grandes corporações tomam decisões como se fossem adolescentes. Eles normalmente colocam a questão “compro ou não compro tal empresa” em vez de considerar que o valor investido na compra poderia ser usado em outros investimentos. A dica, então, é sair da armadilha da resposta binária e buscar respostas com combinações mais ricas. Essa vou levar para a vida.

2. Viés da confirmação
É fato conhecido que, quando a gente tem uma opinião, toda nossa atenção é voltada a notícias, fatos e eventos que confirmem isso. O fenômeno das redes sociais e os resultados das eleições estão aí para provar. A gente se cerca de pessoas que pensam de maneira parecida numa espécie de bolha e acaba acreditando que todo mundo vê o mundo como nós. Isso limita seriamente a avaliação do cenário de uma maneira mais ampla na hora de tomar decisões. Não queremos ouvir opiniões contrárias e cada pequeno acontecimento só existe para confirmar que aquela era a decisão mais acertada, mesmo quando não é. Sobre isso, em breve vou resenhar aqui o ótimo livro “The hallo effect” que está na minha lista faz tempo.

Por ora, as dicas dos irmãos Heath são:

• facilite/incentive as pessoas discordarem de você
• considere questões que contrariem suas informações
• considere o oposto do que você pensou

Outra recomendação é fazer pequenos experimentos para testar suas teorias antes de tomar a decisão final.

3. Emoções do momento
Decisões por impulso, no calor das emoções, em geral, não são as mais acertadas. A primeira coisa que a gente deve fazer, segundo os autores, é tomar alguma distância. Isso pode ser feito de várias maneiras como, por exemplo, analisando do ponto de vista de um observador externo (como Fulano de Tal tomaria essa decisão?) e pedindo opiniões de pessoas em quem você confia ou que já passaram por situação parecida. É importante lembrar que temos aversão a perdas e nos sentimos mais seguros com situações que nos são familiares, mesmo que não muito confortáveis; isso pode prejudicar muito a tomada de decisão. Outra dica é pensar nas consequências dessa deliberação daqui a 5 ou 10 anos.

Mais uma questão a se considerar é o autoconhecimento; quais são suas prioridades, princípios, valores, objetivos e aspirações de longo prazo? Muita gente não tem respostas claras para essas perguntas, o que as leva a tomar decisões erradas com frequência.

4. Excesso de autoconfiança
Pois é, todo mundo conhece a história do executivo da gravadora Decca Records que recusou gravar os Beatles alegando que bandas de quatro componentes eram ultrapassadas e aquele estilo de música não iria fazer sucesso; de Harry Warner, executivo da Warner Bros afirmando que o cinema mudo era ótimo e que ninguém gostaria de ver os atores falando; ou ainda, William Orton, da Western Union Telegraph Company que declinou a compra da patente do telefone porque considerava o invento apenas como um brinquedo sem utilidade. A história está cheia de profetas mal sucedidos. O que aconteceu nesses casos? As pessoas não conseguem compreender que o futuro não é um ponto com um único cenário e as variáveis são muitas. Uma frase que resume bem a questão, pois pode ser interpretada de várias maneiras, todas muito úteis: “a gente não sabe o que a gente não sabe”.

Para esses casos, há que se admitir que a gente simplesmente não sabe o que vai acontecer. Os autores recomendam usar um fator de segurança no caso de decisões mais ousadas (eu colocaria a questão de outra maneira: se a gente não conhece o futuro, convém considerar fazer gestão de riscos).

Um dos muitos casos interessantes que eles compartilham é a da loja online de sapatos Zappo, que tem uma excelente reputação de atendimento ao cliente. Eles entrevistam os candidatos tentando realmente descobrir se eles se alinham com os valores da empresa. Independente do cargo, todos começam no atendimento ao cliente e ficam lá por pelo menos uma semana. No final do período de treinamento, o candidato é convidado a uma reunião onde a seguinte oferta é feita: se ele não acredita do fundo do coração que aquele é realmente seu lugar, que será feliz na empresa, que fará diferença, a Zappos lhe dará $ 4 mil e ele pode ir embora sem ser questionado. Cerca de 2% dos candidatos aceita a oferta. Todos saem satisfeitos, economizam seu tempo e dinheiro. Todos ganham. Achei inteligente.

O livro tem uma série de outros exemplos e considerações e acredito que seria uma excelente decisão de sua parte escolher lê-lo.

Para ter um cérebro mais florido

a imagem mostra um jardim florido.

Sabe aquelas coisas que são óbvias, mas a gente nunca pensa a respeito? Mas aí lê um texto que faz absolutamente todo sentido? Foi o que aconteceu quando li “Your brain has a ‘delete’ button: here’s how to use it”, de Judah Polack e Olivia Fox. Veja se não é.

Eles começam reafirmando as bases científicas do que a gente observa na prática: quanto mais a gente exercita uma tarefa ou uma área de conhecimento, mais as conexões neuronais sobre esse tema são reforçadas. É claro que a gente sempre precisa buscar elementos novos para ampliar nosso repertório, pois só assim é possível fazer novas conexões e pensar de maneira mais ampliada; mas reforçar o que já se sabe também é importante.

Polack e Fox usam uma metáfora que achei muito interessante: nosso cérebro é como um jardim. Você planta coisas novas, mas também tem que cuidar das árvores e plantas que já estão lá. E esse lugar florido dentro da nossa cabeça tem uma equipe de jardinagem e paisagismo que cuida para que tudo funcione da melhor maneira; as células Glial (Glial Cells, não sei como traduzir isso) fazem esse trabalho. Elas arrancam as ervas daninhas, podam o que precisa e jogam fora as folhas velhas. Ou seja, elas mantêm o jardim limpo e organizado para que a gente possa ter as melhores condições para criar novas conexões e manter as que são importantes.

Essa faxina acontece toda vez que a gente dorme e pode ser tão completa que em alguns casos, podemos ficar com apenas 40% das conexões que tínhamos quando fomos dormir. O lixão todo é eliminado para a gente conseguir pensar de maneira clara e organizada (isso explica porque a gente não consegue pensar direito quando não dorme o suficiente; é porque a cabeça está literalmente bagunçada, lotada de porcarias).

Ok, mas a grande questão é: como é que as células Glial sabem o que é para podar, o que é para deixar como está e o que é para jogar fora?

Bom, aí temos uma pista interessante; pesquisadores descobriram que algumas sinapses neuronais são marcadas por uma proteína chamada C1q. Quando as microcélulas Gial estão fazendo a inspeção rotineira e detectam essa proteína, elas já sabem o que fazer: podam, ou melhor, destroem essa conexão neuronal para liberar mais espaço para novas conexões, ou seja, para que a gente possa aprender mais coisas.

Mas como é que essa proteína vai parar lá?

Bem, ela é assim, digamos, o equivalente a um fungo, bolor ou teia de aranha. Ou seja, aparece em lugares onde ninguém entra, ninguém usa, estão abandonados por muito tempo.

Assim, se você teve aulas de francês há cinco anos e nunca mais praticou, pode ter certeza que a maioria das conexões que você criou na época já foram podadas e recicladas para dar espaço a novos aprendizados. Para manter o jardim com as flores que você quer, tem que prestar atenção em quais você está regando todo dia.

Os autores deixam uma pergunta muito instigante para nos fazer refletir: se você gasta todo o seu tempo pensando em Game of Thrones e quase nada pensando no seu trabalho ou num projeto importante, quais das conexões você acha que o cérebro vai mandar para reciclagem na próxima faxina?

Bom a gente dar uma verificada para ver se não está colocando adubo em mato e deixando as flores morrerem.

 

 

Vamos falar sobre tribos

#paracegover A imagem mostra uma moça andando numa calçada. No muro atrás dela há uma série de silheutas de pessoas pintadas. Parecem sombras.

Sempre gostei dos textos do Seth Godin, mas nunca tinha lido um livro inteiro dele. Aí, quando tive a oportunidade, comprei Tribes: we need you to lead us, afinal, era sobre liderança, tema do meu mais recente livro, Atitude Pro Liderança.

A ideia central é que as pessoas se reúnem em torno do que acreditam (a visão) e, por isso, as tribos são formadas. E, também, por causa dessa consciência, pela primeira vez não se espera que apenas os chefes sejam os líderes em uma organização. Uma vez que a visão é o motivo das pessoas estarem reunidas, qualquer um que tenha essa visão de maneira clara e saiba como construi-la, pode liderar o grupo. Seth diz que liderar não é difícil; o problema é que temos sido treinados ao longo de anos para evitar essa posição a qualquer custo, a não ser que a pessoa se veja num cargo em que é obrigada a fazê-lo.

Outra diferença que ele salienta: liderar é diferente de administrar. Administrar tem a ver com manipular os recursos para obter um resultado conhecido. Liderar tem a ver com criar a mudança em que se acredita. Líderes têm seguidores. Administradores têm funcionários ou colaboradores. Administradores fazem coisas. Líderes fazem mudanças. E porque líderes fazem mudanças é que as pessoas evitam tanto essa posição; ela está longe de ser segura e confortável.

Godin diz que dois aspectos principais diferenciam um grupo de uma tribo: Continue lendo “Vamos falar sobre tribos”

Candy Andy

#paracegover A imagem mostra uma tela gigante de Andy Warhol exposta do Hamburger Bahnhof Museum, em Berlim, com um retrato de Mao Tse Tung no centro em uma parede branca estampada com grandes bolas da cor lilás.

Semana passada aproveitei os dias feios para revisitar alguns museus e, apesar de não ser especialmente fã de arte moderna e contemporânea, gosto muito do Hamburger Bahnhof Museum. Não havia nada de muito especial dessa vez: uma exposição interessante, porém, longe de ser inesquecível, da artista turca Gülsün Karamustafa, algumas instalações enigmáticas e vídeos diversos que, confesso, ainda não tenho capacidade de compreender e apreciar completamente. Restou-me então encantar-me novamente com o acervo, onde estão as obras de meus artistas preferidos nesse museu: Andy Warhol e Roy Lichtenstein.

Na volta, é claro que fiquei um tempão na loja do museu, uma das livrarias de arte mais completas que já conheci. É tanta coisa bacana que não me envergonho de dizer que compete com o próprio museu em termos de entretenimento. Poderia passar o dia todo folheando todos aqueles livros maravilhosos. Aí, num cantinho, tinha uma caixa (dica: sempre tem uma caixa dessas!) com pechinchas imperdíveis de livros que têm alguma imperfeição na capa ou encadernação (muitas vezes, devido ao manuseio descuidado dos clientes). Pois lá achei, por míseros €3.00, o sensacional “This is Andy Warhol“, escrito pela historiadora de arte britânica Catherine Ingram e ilustrado belamente por Andrew Rae. O preço original de capa é US$ 15.95 e vale mesmo.

O livro começa com a infância do famoso artista pop, quando sua mãe, a desenhista e ilustradora, Julia Warhola, lhe presenteava com seu chocolate favorito cada vez que ele fazia um retrato para ela; por isso, ela apelidou-o de Candy Andy (candy=doce). Aliás, segundo ele, em casa todos desenhavam o tempo todo. Ele mais ainda, uma vez que passou a infância toda doente de cama, principalmente nas férias de verão. Andy era obcecado por histórias em quadrinhos, pin-ups e revistas de moda e celebridades. Estudou artes na Carnegie Tech e, no último ano, para ajudar a pagar as mensalidades, fazia vitrines que eram o maior sucesso para lojas de departamentos; nessa época, tornou-se um ilustrador comercial dos mais bem-sucedidos da história. Ele adorava dançar e, no auge da carreira, chegou a declarar que nunca quis ser pintor; na verdade, sempre sonhou em ser sapateador. Pessoa com múltiplos talentos, produziu a famosa banda Velvet Underground, editou uma revista chamada Interview, fez vídeos, escreveu livros, enfim, não sofreu de tédio, com certeza.

Em New York, morou anos em uma casa de 4 pavimentos com sua mãe e 25 gatos siameses; todos chamavam-se Sam, exceto um, que chamava-se Hester. Inteligentíssimo, Andy era também um gênio do marketing; seu senso de oportunidade e talento para os negócios fez com que seu estúdio, não por acaso chamado Factory (Fábrica) fosse um dos mais lucrativos que se tem notícia (usar silkscreem para aumentar a tiragem das telas também foi uma inovação sua). A ideia de fazer retratos de celebridades foi mais uma de suas ideias com retorno financeiro altíssimo; uma das mais famosas, a de Marylin Monroe, foi feita logo após sua morte, para aproveitar o frisson causado pela notícia (e funcionou!). O retrato de Mao também foi resultado do assunto do momento nos jornais, quando Nixon visitou a China.

Ele não devia ser uma pessoa fácil: vaidoso, temperamental, imprevisível e cercado de pessoas igualmente instáveis emocionalmente, foi baleado uma vez por uma colaboradora do estúdio, a escritora Valerie Solanas, que anos antes já tinha disparado contra o escritor Arthur Miller. Warhol foi declarado clinicamente morto na ambulância, mas sobreviveu devido a um procedimento de ressuscitação dos paramédicos.

Outra curiosidade interessante é que Andy era um acumulador compulsivo (teve que comprar outra casa e se mudar, pois aquela de 4 andares estava lotada de coisas após alguns anos). Ele deixou 612 caixas  de papelão que chamou de cápsulas do tempo, onde guardava revistas, recortes de jornais, desenhos e objetos variados (de fósseis valiosos, embalagens vazias de remédios controlados, o diário de John Lenon arrematado em um leilão, até fatias de pizza). A ideia era tratar essas caixas como objetos de arte e vendê-las em sua galeria, o que acabou não acontecendo. Até hoje, algumas continuam intactas no museu que leva seu nome em Pittsburg.

Em 1987, depois de uma operação bem sucedida de vesícula, teve uma parada cardíaca e se foi de vez, aos 58 anos.

O sujeito teve realmente uma vida movimentada e fez, do seu jeito, diferença no mundo. E, não deixando de lembrar, teve bem mais que seus previstos 15 minutos de fama.

O que aprendi com o hipopótamo finlandês

O desenho mostra um casal de Moomins (seres parecidos com hipopótamos brancos) abraçados.

Minha queridíssima amiga Ana Rampim foi passar uns dias em Helsinki e me deixou com a missão especial de cuidar das gatinhas dela.  Durante alguns dias, fui lá brincar com aquelas fofas arteiras e já estava bem feliz com isso. Pois não é que na volta a Ana me trouxe um presente? Nem precisava, mas, né? Como posso recusar um clássico da literatura finlandesa?

The Exploits of Moominpappa (As explorações do Papai Moomin), de Tove Jansson, me ensinou, entre outras coisas, que devo ler mais clássicos infantis.

Tove, a autora, nasceu em 1914 e era filha de uma caricaturista com um escultor; ela escreveu a série de histórias com os personagens e todo o universo dos Moomin durante e depois da Segunda Guerra, quando tudo era dor, sofrimento e destruição. Seu texto é um alívio no meio de tudo isso; fresco, curioso, bem-humorado e engraçado. Não é à toa que os personagens são idolatrados em sua terra natal e outras partes do mundo.

Os Moomin são tão queridos que há parques temáticos no mundo todo, produtos licenciados, filmes de animação, histórias em quadrinhos e tudo o que se possa imaginar. Eles são tipo um Harry Potter finlandês!

Esse volume (são oito, no total) mostra o Papai Moomin contando a história de sua vida para seus filhos até o momento que conhece a mãe deles. É muito fofo, pois ele é tão inocente e se acha tão genial que é impossível não amar. Recebeu fortes recomendações da Mamãe Moomin: as partes não instrutivas eram para ser deixadas de fora do livro que ele está escrevendo e lendo, capítulo por capítulo, todos os dias para os filhos e amiguinhos.

Os Moomins, pelos desenhos da capa e algumas ilustrações no interior do livro, têm a forma de um hipopótamo. E foi assim que comecei a ler, imaginando um hipopótamo contando sobre o dia que, ainda filhote, foi deixado sobre folhas de jornal num orfanato controlado por criaturas chamadas Hemulen. Elas são como generais disciplinadíssimas nesse reino, e, ao encontrar o Moomin, decretaram: se tivesse chegado meia hora mais tarde, seria músico; se tivesse aparecido um dia antes, seria um jogador compulsivo. Mas a combinação de estrelas no momento era muito especial, de maneira que ele seria super talentoso.

Sabendo que era tão notável, Moomin não conseguiu suportar a vidinha chata do orfanato e fugiu para viver aventuras (olhaí um exemplo clássico de profecia auto-realizável). É engraçado porque, no começo, ele se apresentava assim para todos os seres que encontrava: “Sou Moomin, e nasci sob uma configuração especial de estrelas“. Ninguém dava muita bola, mas nada abalava sua autoestima (isso é uma coisa muito bacana). Eis que encontra outros personagens, constrói uma casa, viaja num barco, enfrenta gigantes e monstros, conhece o rei, salva vidas, até que encontra seu grande amor, uma charmosa Moomin fêmea.

Há cenas espetaculares de tão criativas que trazem soluções surpreendentes para brincadeiras de infância, como quando ele e seus amigos estão a bordo de um barco atravessando o oceano e um deles olha para o céu e diz: “aquelas nuvens ali não parecem três ovelhas fugindo de um lobo, que está correndo logo atrás?“. Todos concordam e um dos amigos decide salvá-las: ele pega uma corda e laça cada uma das nuvens. As ovelhas-nuvem, agradecidas, fazem parte da viagem como tripulação do barco. Quem pensaria numa coisa dessas?

Olha só quanta coisa deu para aprender:

  1. Ler livros infantis significa jogar fora todos os pré-conceitos. Quando vi o desenho de um hipopótamo na capa, imediatamente imaginei um animal assim, enorme e pesado, vivendo as aventuras. Só depois de ler quase um terço do livro, lá pela página 30, é que me dei conta de que eles estavam usando uma lata vazia como veículo. Então só podiam ser miniaturas num jardim.
  2. No começo procurava no dicionário nomes dos animais que não conhecia. Só depois saquei que eram criaturas inventadas…dãã…
  3. Aprendi que não tem problema ser vaidoso quando também se é generoso com os outros. As coisas se equilibram.
  4. Aprendi que é possível ter ironia fina também em livros infantis. Curiosíssima para saber se a parte do livro que foi vetada para as crianças, em que o Moomin vai viver com as Hattifattener, criaturas que nunca descansam e estão sempre viajando sem parar, foi contada em algum outro volume.
  5. Crianças finlandesas podem tomar rum quente na boa, desde que seja inverno (passei minha infância tomando vinho tinto no Brasil mesmo…rs) e não tem problema os adultos da história fumarem.
  6. Livros infantis, principalmente com animais e cenários inventados, podem ser um excelente exercício de imaginação e criatividade. Aí que a gente se dá conta como está enferrujado em ter ideias realmente originais.
  7. Aprendi que preciso urgentemente puxar Helsinki mais para cima na minha infindável lista de lugares para visitar com urgência.

Não tenho como agradecer por mais isso, Ana!

****

NOTA: Descobri que lançaram algumas histórias em português recentemente. Vale dar uma procurada.

Top 10 de dezembro

15384385_10211501031231571_5992355188572371951_o

Na seleção das minhas fotos mais curtidas nas redes sociais no mês de dezembro tem decoração de natal, finalzinho do outono, panorâmica, espelho na água e até foto preto e branco. Ou seja, tem para todos os gostos. Corre escolher a sua preferida!

1. O parlamento alemão, com toda sua beleza! #paracegover A imagem mostra o prédio do Parlamento Alemão à beira do rio Spree. O céu está dramático. — at Berlin, Reichstag.
1. O parlamento alemão, com toda sua beleza! #paracegover A imagem mostra o prédio do Parlamento Alemão à beira do rio Spree. O céu está dramático. — at Berlin, Reichstag.
#paracegover A imagem mostra uma visão panorâmica da estação de trem Charlottenburg. Faz sol (a foto é de ontem) e as pessoas aguardam a chegada do trem. — at Berlin-Charlottenburg station.
2. Sempre há uma maneira diferente de ver; é só procurar! #paracegover A imagem mostra uma visão panorâmica da estação de trem Charlottenburg. Faz sol (a foto é de ontem) e as pessoas aguardam a chegada do trem. — at Berlin-Charlottenburg station.

Continue lendo “Top 10 de dezembro”

Como calcular ofensas

A imagem mostra a reprodução do quadro Auf Vorposten, de Georg Friedrich Kersting. Há um homem deitado sobre a relva. Ele está armado, usa uma capa azul e uma expressão infeliz.

Já faz um tempo que havia sumido, mas semana passada voltou a circular nas redes sociais um meme com os dizeres “a minha educação depende da sua” e suas variações “minha atitude depende de quem tu és”, “sou legal com quem é legal comigo”. A frequência e a convicção com que se compartilha esse tipo de mensagem são preocupantes, para não dizer assustadoras.

Nem vou entrar na vida pessoal; vamos analisar apenas a questão profissional: como vou contratar ou trabalhar com alguém que se orgulha de deixar a decisão de como vai se comportar nas mãos de um estranho? Nunca vou poder confiar nessa pessoa; vai que um grosso aleatório entra em contato com ela? Um profissional excelente tem um código que conduta que independe da educação, caráter ou postura de quem está do outro lado.

Ah, mas fulano me ofendeu. Eu não podia deixar barato.” Ah, é?

Penso que a chave de tudo está na palavra ofender. Reflita: é impossível ofender uma pessoa que não se deixa ser ofendida. E a ciência da computação (ou sei lá como se chama isso agora) pode nos ajudar a entender essa questão de um jeito bem simples, veja. Continue lendo “Como calcular ofensas”

Abracadabra para você no ano novo!

img_6562

Quer saber de uma coisa interessante? Os gnósticos helênicos usavam a palavra abracadabra para denominar um talismã que representava o curso do sol durante 365 dias.

É a mesma palavra mágica usada nos contos árabes para abrir portas difíceis que guardam tesouros. Os sírios, mais tarde, atribuíram ao nome poderes especiais de cura. E como se não faltasse mais nada, abracadabra também significa “Que Deus proteja“.

Os anos que iniciam são sempre mágicos, misteriosos, cheios de portas, segredos e surpresas. Cabe a cada um de nós decidir o uso que faremos da nossa abracadabra… desejo tudo de melhor para o que cada um de vocês escolher!

Duas histórias

A imagem mostra a capa de dois livros em alemão: "Allmen uns die Dahlien", de Martin Suter e "Das Ende des Alphabets", de Charles Scott Richardson.

Os livros estão longe de ser ruins, mas nenhum deles, na minha opinião, merece uma resenha própria. Vamos a eles, então.

Escolhi Das Ende des Alphabets (tradução livre: o fim do alfabeto), de Charles Scott Richardson, por causa do resumo do livro, na quarta capa. Ambrose Zephyr é um publicitário que começou a amar as letras ao visitar a tipografia de seu avô jornalista, quando criança. Ambrose, ao fazer 50 anos, submete-se a um checkup e descobre que tem um tumor na cabeça e apenas mais 30 dias de vida. Compartilha o problema com a esposa, Zappora Ashkenazi, que resenha livros para uma revista de moda. Os dois decidem então fazer uma última viagem inesquecível, revisitando algumas cidades onde já haviam estado, começando por Amsterdam. Mas, em Florença, entendem que não podem continuar, pois nada está fazendo muito sentido. Resolvem voltar e esperar os últimos dias na rotina caseira, entre livros e jornais.

Sinceramente? Esperava muito, mas muito mais.

Ambrose relembra como conheceu a esposa e faz relatos sobre a vida mediana, confortável e previsível que sempre levaram. Até que o livro acaba, obviamente, com a esposa escrevendo o último capítulo sozinha. É um recorte belo, claro, mas, para mim, não caracteriza um boa história. Fiquei com vontade de largar no meio várias vezes, tal o tédio, mas como era um livro curto, acabei indo até o final.

Não acho que seja ruim e provavelmente perdi muito da poesia das descrições por causa do idioma; talvez valha a pena tentar. Fiz uma pesquisa rápida e descobri que tem em português na Estante Virtual para quem tiver curiosidade.

O segundo é Allmen und die Dahlien (tradução livre: Allmen e as dálias), de Martin Suter. Allmen é um bon vivant suíço que parece ter vindo de uma família rica e tradicional, mas perdeu tudo devido à inabilidade com os negócios. Junto com Carlos, um imigrante guatemalteco ilegal, abre uma agência de recuperação de obras de arte. Carlos é um clássico mordomo: faz todos os trabalhos braçais, a administração da empresa e do dinheiro, além de ser um brilhante pesquisador. Ele traz Maria, uma colombiana também imigrante ilegal, que colabora nas investigações, além de fazer parte do serviço doméstico e cozinhar. Juntos, eles tentam recuperar um quadro de natureza morta que retrata um vaso com dálias, do francês Henri Fantin-Latour.

A obra foi roubada do apartamento de uma herdeira multimilonária que mora em um hotel. As condições em que a obra foi adquirida (ela ganhou de um grande amor, em homenagem a seu nome, Dhalia) não são muito claras, e ela prefere não envolver a polícia, mas quer o quadro de volta a qualquer preço.

A história é bem construída, e apesar de me incomodar um pouco com o quão serviçais são Carlos e Maria, o time de investigadores funciona direitinho. Suter também tem umas tiradas ótimas e fica claro que Carlos é mais inteligente que o patrão em várias oportunidades. Gostei muito das ironias e dos bordões em espanhol que Carlos usa.

O final deixa um gancho para o próximo livro, que ainda não decidi se lerei. É divertido, mas não sei.

De qualquer maneira, fiz uma rápida pesquisa e descobri que esse título não está disponível em português, mas outros livros do mesmo autor foram publicados no Brasil com sucesso. Vale a pena dar uma xeretada para ver o que tem de bom.