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Você não é tão generoso quanto pensa…

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De vez em quando faço um favor ou outro para alguém e invariavelmente acabo ouvindo um “fico te devendo essa” no final. É claro que é só uma forma de falar, mas tem quem leve isso a sério.

Desconfio que há pessoas que mantêm tabelas com registros dos favores que fizeram, dos que receberam, e ficam conferindo para ver se os valores batem. Ajudas maiores contam mais pontos? Como medir o tamanho da contribuição de cada parte? Esses cálculos complicados geram não apenas sentimentos de injustiça (ah, como esse povo é ingrato!) como posts constrangedores em redes sociais.

E mais; tenho certeza que há viventes nesse planeta que acreditam que o Criador do Universo gasta seu tempo atualizando e analisando planilhas de boas ações e cruzando dados sobre a quantidade/qualidade de favores que cada pessoa presta. Depois, baseado em pontos alcançados numa estranha competição religiosa, Ele calcula classificação de cada mortal quando o jogo termina. Aparentemente, a pontuação define quem vai para onde depois que morre (bônus: se rezar muito ou fizer promessa pode ganhar pontos suficientes para receber algum favor divino enquanto está vivo).

O duro é que quem faz mais favores (segundo seus próprios critérios, claro), fica se achando muito generoso e superior aos demais mortais, portanto merecedor indiscutível de benesses e privilégios.

Será?

Vamos ser sinceros. Mesmo que o objetivo não seja ganhar pontos na divina gincana ou sair bem na foto, fazemos favores aos outros segundo nossos próprios interesses. Sempre.

Se ajudo um amigo ou pessoa querida numa situação qualquer, é porque eu é que vou ganhar em vê-la bem e feliz. É do interesse do meu coração; serei diretamente beneficiada com um sorriso ou abraço se a coisa der certo.

Se estou ajudando um desconhecido, é porque de alguma maneira essa pessoa contribui para que o mundo se movimente do jeito que eu quero. Todos temos um ideal de como as coisas deveriam ser; quando a gente observa alguém fazendo um gesto na direção que desejamos (seja uma pesquisa, um trabalho, um projeto), nada mais óbvio do que dar um empurrãozinho, não é?

Então, se o sujeito me escreve para tirar uma dúvida pessoal ou profissional, e posso ajudá-lo, por que não? Essa ação contribui para que o mundo fique mais próximo do modelo que imagino, onde as pessoas são mais felizes e bem resolvidas. Se elogio alguém é porque é minha intenção que ela continue reproduzindo esse comportamento, que está alinhado com meu mundo ideal.

Então não é uma questão de generosidade; apenas uma ação natural e lógica. Se você quer mover uma coisa numa direção, não faz sentido ficar parado e não ajudar quando surge uma oportunidade.

É claro que nem sempre se consegue fazer todos as ações necessárias para que o mundo siga na direção que a gente quer, seja por falta de recursos, tempo ou desconhecimento mesmo. A gente elege prioridades, mas no final das contas, acaba fazendo tudo por interesse.

Sou grata às muitas pessoas que me ajudaram ao longo da vida, mas não me sinto em dívida. Penso que tudo faz parte de um enorme movimento para fazer a bola girar (para um lado ou para o outro; o lado que recebe mais impulso acaba ganhando).

Enfim, estou fazendo o favor de cutucar aí sua cabeça para você parar de pensar em dívidas, pontos e planilhas e começar a pensar e movimentos, intenções e resultados.

De nada :)

Sobre sombrinhas

Existe coisa mais charmosa, linda, alto-astral e elegante do que uma bela sombrinha colorida? Existe sim: essa sombrinha estar numa varanda coberta de flores.  E para minha sorte, essa é a paisagem mais comum no verão berlinense.

Em vez de fechar as sacadas com horrorosos vidros fumê, o povo daqui coloca essas lindas para fazer o prédio, a rua e a cidade ficarem mais bonitos.

Já pensou se a moda pega no Brasil, onde tem muito mais sol e cor para as pessoas aproveitarem?

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Duas portas

Eu tinha duas portas e muitas ideias.

Na Alemanha, dificilmente você vai entrar numa casa pela sala, como é no Brasil. Aqui sempre tem uma área que funciona como um hall de entrada para a pessoa deixar os sapatos e casacos. Geralmente essa área dá acesso a todos os cômodos da casa nos apartamentos pequenos (mais comuns) e tem muitas portas.

Pois entrando no meu apartamento, a pessoa dá de cara com duas portas; eu queria fazer alguma coisa com elas e esbocei uma dúzia de ideias. Então consultei o moço lindo que mora comigo, as duas gatas, e juntos chegamos a esse resultado; aí foi só desenhar e pintar.

A parte colorida é feita com tinta acrílica comum e o desenho é feito com canetinha (testei várias marcas e modelos, pois a ponta se estraga muito fácil, por isso é que tem tanta variação no preto).

Foi divertido fazer e gostei do resultado; e você?

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Veja o que dá incentivar criança a desenhar em paredes; os irmãos Gustavo e Otávio Pandolfo, gêmeos idênticos, são hoje uma das mais importantes referências no mundo do grafite e das artes. Eles assinam como osgemeos (tudo junto mesmo), mas acho que devia ser osgenios. Eles são demais!

Com trabalhos pelo mundo todo (inclusive em Berlin, olha), eles deixam um rastro de babas e queixos caídos por onde passam. Não foi diferente na exposição gratuita “A ópera da lua” que estão fazendo em São Paulo até o dia 16 de agosto.

O lugar é um capítulo à parte; o Galpão Fortes Vilaça é um depósito bem escondido; algumas salas foram cedidas para a exposição, mas a gente passa por dentro do armazém cheio de mercadorias (tudo a ver com o trabalho alternativo dos moços). A gente só descobre que no número 71 da rua James Holland tem uma exposição no endereço por causa da fila, olha só…

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Mas é entrar e se comover com tanta beleza. Sério, fazia tempo que não via tanta coisa linda e translumbrante num lugar só. Pegue o babador e prepare-se para uma amostra.

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Shopping de ideias

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Uma das coisas que mais gostava quando fazia software para robôs era estudar os processos de fabricação. Em cada projeto tinha que aprender coisas diferentes, compreender como os objetos eram construídos. Ajudei a automatizar máquinas para produzir bandas de rodagem para pneus de avião, cortadores de vidros para automóveis, prensas, alimentadores de tornos de comando numérico, perfuradoras de perfis de alumínio, aplicadores de cola em tubos de imagem; enfim, um mundo inteiro de descobertas e surpresas. Achei que nunca mais iria ter um trabalho tão desafiador. Ledo engano.

Como palestrante, a história se repete de um jeito diferente, mas não menos interessante. Novamente preciso estudar cada cliente e entender de que maneira as coisas que aprendi podem contribuir para melhorar seus processos e a atitude dos seus colaboradores.

Uma das palestras que fiz essa semana foi para lojistas de um shopping; conversamos sobre como as empresas e as pessoas precisam se adaptar às mudanças que vêm acontecendo e sobre como é possível fazer da interação com os clientes uma experiência memorável.

Foi na fase de preparação que me dei conta das diferenças enormes que existem entre um shopping no Brasil e num shopping em Berlim (talvez a análise possa se estender pela Europa, mas não me atrevo a generalizar).

Os shoppings, na cidade onde moro, são apenas centros de compras. Não são tão luxuosos, nem tão grandes, nem tão atraentes. As pessoas claramente preferem adquirir coisas em lojas de rua, mesmo no inverno rigoroso. No verão, os parques e lagos são o principal local de lazer; também se vai a museus, shows ao ar livre e uma mesinha na calçada de um café é uma alternativa de valor. Não passa pela cabeça de ninguém entrar num shopping apenas para perambular pelos corredores (nem mesmo para ir ao cinema, já que boa parte deles sequer conta com esse item). A impressão que tenho é que a maioria dos frequentadores é turista.

No Brasil, ao contrário, os shoppings têm um papel importantíssimo nas cidades. Não raro é a principal fonte de lazer e um local seguro para encontrar amigos, mesmo numa ilha cheia de praias, como Florianópolis, num dia lindo de verão.

Antes da minha fala, a equipe de marketing fez uma apresentação para prestar contas e descobri que uma das métricas de sucesso do empreendimento é o número de vagas ocupadas no estacionamento, o que me deixou um pouco chocada (não tenho certeza se todos os shoppings em Berlin contam com essa conveniência).

Se por um lado essa análise é um pouco assustadora, por outro é uma oportunidade enorme para os empreendedores, uma vez que evidentemente é muito mais difícil e desafiador ser lojista em Berlim. Os shoppings brasileiros possuem uma influência enorme na vida das pessoas, são um espaço importantíssimo de relacionamento; então por que não fazer dessa situação privilegiada uma oportunidade de fazer a vida na cidade melhor?

Claro que não vou discutir aqui a necessidade do governo em criar e administrar adequadamente espaços públicos de lazer; esse é um tema para longas e calorosas discussões. A questão da inclusão social é igualmente complexa e não é meu objetivo discuti-la aqui. Fui contratada para compartilhar minhas experiências com lojistas; então vou focar nesse ponto onde tenho acesso.

Shopping Centers são um modelo comercial em decadência no país onde nasceram, os Estados Unidos. Desde 2006 não são construídos lá esses centros comerciais fechados tão em voga em terras tupiniquins; na terra do tio Sam, inclusive, o abandono e fechamento desses prédios tem sido rotina, tanto devido à crise, como por excesso de oferta e aumento do e-commerce.

No Brasil, há que se prestar atenção nessa tendência para não reproduzir o modelo (e o desastre) americano.

Penso que cada vez mais a solução se desenha na direção da transformação desses espaços em centros de lazer e entretenimento onde as pessoas possam trocar a interação das redes sociais por calor humano real. Mais do que isso, os administradores e lojistas ganham muito em conhecer e aplicar os conceitos do marketing 3.0 (saiba mais aqui).

Espaços tão importantes devem assumir seu protagonismo com projetos que façam a cidade, o bairro, a rua, lugares melhores para se viver. Grafite, arte de rua, exposições, palestras, shows, cursos, debates, programas de incentivo e formação profissional, eventos esportivos, culturais e literários, enfim, projetos que tragam valor real para a comunidade e desenvolvam um vínculo emocional com o empreendimento são algumas ideias a ser exploradas. Ousaria dizer que um trabalho focado em design de serviços pode trazer resultados bem surpreendentes também.

Iniciativas que contribuam para desenvolvimento das pessoas e não sejam unicamente focadas no consumo podem não apenas beneficiar a comunidade; podem ser o único caminho para a salvação desse modelo de negócio.

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Esse nem parece banco. Mesmo.

Uma das palestras sobre inovação e design thinking que vou ministrar no Brasil nessa semana e na outra é para um banco. Como as apresentações são sempre personalizadas para cada cliente, fui pesquisar cases de inovação em bancos, claro.

Lembrava de ter lido algo sobre um banco alemão, mas há muito, muito tempo mesmo, quando comecei a me interessar por design thinking.  Pois fui pesquisar mais e a agência mais vanguardista e referência em inovação é do Deutsche Bank. E tem mais: fica apenas a duas estações de metrô da minha casa. E tem mais ainda: abre aos sábados!

Peguei minha bike e fui lá correndo conferir in loco, claro. Fica no Quartier 110 da Friedrich Straße (Q110 é o nome da agência) e já existe com essa cara futurista há 9 anos, segundo a funcionária que me atendeu e me mostrou tudo por lá.

A ideia é colocar em apenas uma agência todas as tendências e inovações para serviços bancários; aí, aos poucos, eles vão implementando uma ideia numa agência, outro módulo em outra, até que tudo vá sendo testado e aprimorado aos poucos. A moça me explicou que hoje todo mundo resolve tudo pela internet, não precisa ir à agência. Quando vai, é porque quer resolver alguma questão importante. Para isso, é necessário falar com uma pessoa, e mais, ser tratada como gente de verdade, não um número.

Eis então que a Q110 tem um café bem bacaninha, com livros e tudo. Tem uma sala de recreação infantil para deixar as crianças enquanto os pais se reúnem para falar de investimentos e aplicações. Tem uma loja que vende produtos de design, que eles chamam de trendshop. Tem várias salas de reuniões com estilos diferentes para ser atendido com privacidade. Tem uma esteira biométrica para incentivar a saúde e o bem-estar dos clientes (eles projetam um cenário de uma floresta na parede da frente para simular um passeio pela natureza que achei um pouco conceitual demais; mas não duvido que alguém vá lá para correr na esteira, não duvido de nada nessa cidade). Tem um coração gigante em fibra de vidro (dá para entrar nele) para explicar a importância dos exercícios na qualidade de vida. Tem uma mesa de ping-pong para quem quiser jogar. Tem até pratinhos com comida e água para quem vai com o cachorro (aqui eles entram e são bem-vindos na maioria dos lugares).

Tem também balcões com terminais de atendimento, mas não aqueles com vidros e uma distância enorme entre o caixa e o cliente; são apenas mesas altas para abrigar o terminal. A ideia é aproximar cada vez mais as pessoas.

Outra inovação é o horário de atendimento: diariamente das 10 às 18 h, inclusive aos sábados!

Bem, o que observei é que falta unidade visual ao ambiente; parece um amontoado de ideias colocadas num lugar só (e no final, é isso mesmo, até que faz sentido). Talvez o fato da agência já ter nove anos com esse formato indique a necessidade de uma atualização, tanto que eles se uniram ao blog de tendências designboom para fazer um concurso de ideias.

Como você imagina o banco do futuro? Vale propor gadgets, aplicativos, softwares, ambientes, enfim, o que mais passar pela sua criativa cabeça. As inscrições são até dia 15 de agosto e as informações estão todas nesse link.

Agora umas fotos da agência do futuro para se inspirar…

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Vista geral da agência.

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Bom lugar para ler um livro ou jornal.

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Lugar para os pequenos ficarem enquanto os pais são atendidos.

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Dá para se reunir com seu gerente tomando um café expresso. E atenção, isso não é uma agência personalité, top class, estilo ou uma dessas só para ricos…

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Balcões de atendimento.

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Para dormir e acordar com passarinhos

Uma das coisas que mais me deixa feliz em morar num apartamento próprio não é a propriedade em si, mas a possibilidade de: 1) derrubar paredes; 2) pintá-las como eu quiser.

Pois estou feliz da vida como num grande parque de diversões; paredes e mais paredes brancas esperando por ideias coloridas e bem-humoradas (o Conrado é corajoso no último; ele sempre me dá carta branca…rsrs).

Pois para o quarto de dormir eu queria uma coisa bem zen e inspiradora. Então pintei as esquadrias de um turquesa claro (ou menta, em algumas paletas).  Aí imaginei como seria dormir num quarto cheio de passarinhos coloridos e delicados.

Comprei umas bisnaguinhas de tinta acrílica (dessas do tipo escolar mesmo), desenhei os moços na parede com lápis (não consigo fazer dois iguais) e começou a diversão. As paredes aqui não têm massa corrida, então são bem porosas. Bom para a tinta acrílica que fica aquarelada, ruim para as canetinhas hidrocor que usei para desenhar os contornos e as folhas. Depois de testar várias marcas, algumas funcionaram (dica: aquela caneta preta Futura mandou muito bem).

E aí, que tal meus penosos?

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Três chaminés surpreendentes…

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Há duas semanas estamos morando na casa nova. Há dias estava observando pela janela do quarto essas três chaminés do lado direito e ficava me perguntando se era uma usina termoelétrica, fábrica ou o quê.

Hoje peguei a bicicleta e fui conferir: estou chocada!

Aquilo é uma usina de aquecimento de água!!!

A água de lá vem por canos subterrâneos e chega quente o suficiente para as torneiras e o aquecimento do piso. São 1750 km desses canos só na cidade de Berlin (imagina a engenharia que é transportar água fervendo).

Existem dezenas dessas usinas na cidade (atendem 32% dos domicílios) e boa parte delas aquece a água queimando…lixo! Não é genial? Fazendo uma pesquisa rápida, descobri que essa é uma das formas mais eficientes e econômicas de aquecimento, principalmente para o meio ambiente.

Incrível.

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Murakami errado, mas também vale

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Fiquei muito impressionada ao ler 1Q84, de Haruki Murakami (veja a resenha aqui). Li em inglês, claro, pois ainda não tenho coragem de encarar um tijolão de 1300 páginas em alemão, mas mesmo assim fiquei curiosa em ler outras obras menos extensas nessa língua.

Eis que xeretando livrarias, achei “In der Misosuppe“, do Murakami também. Só que fui ver depois, essa era outro autor (ou Murakami é um sobrenome comum no Japão, pelo menos entre escritores, ou então é um prenome comum e eles escrevem o sobrenome primeiro — sei que em chinês eles trocam a ordem, em japonês não sei).

De qualquer maneira, gostei muito da história. O protagonista, Kenji, é um rapaz de 20 anos, órfão de pai, que vive com a mãe. Ele abandonou a escola e ganha a vida como guia turístico na zona de prostituição de Tokio; com o dinheiro, aluga um apartamento na cidade onde se encontra com a namorada, Jun. A mãe acha que ele estuda e a relação dos dois parece bem distante.

Na véspera de ano novo (sempre achei que no Japão fosse em outra data, já que eles são budistas, mas no livro é dezembro mesmo), um cliente americano contrata o moço por 3 noites seguidas. O sujeito é bem estranho, tanto fisicamente como nas histórias desconexas que conta. O cliente gosta de Kenji e começa a forçar uma amizade que desconforta o rapaz, mas ele vai levando assim mesmo.

O guia tem um pressentimento estranho sobre o sujeito e chega a comentar com a namorada. Não é à toa; o rapaz descobre coisas muito impressionantes sobre o americano, capazes de mudar a vida dele para sempre. Kenji reflete sobre o comportamento desse cliente e das pessoas em geral; parece meio perdido e não sabe bem o que fazer com sua inteligência e sensibilidade.

Olha, vou começar a prestar atenção nesse Murakami também; parece que o nome (ou sobrenome) é marca de boa literatura.

Não sei se tem em português, mas recomendo muito.

Logística com estilo

Não tem como passar pela rua sem olhar duas vezes para o prédio vermelho, caprichadamente ilustrado com cenas do cotidiano.

Numa das faces, uma representação bem-humorada do que estaria acontecendo no interior no edifício. Nas outras paredes, cenas comuns da cidade: ruas, pessoas, um trailer de lanches, a rapunzel na janela mais alta, um bonde passando e até um ladrão carregando um saco de dinheiro.

No começo, achei que fosse uma seguradora, mas, na verdade, é uma empresa de logística especializada em mudanças. Não sei o que isso tudo tem a ver com a identidade da empresa (o site não faz nenhuma referência à originalidade do prédio), mas ficou divertido.

O nome, Zoolala, é usado na web por uma loja de produtos para animais. Talvez eles tenham comprado o prédio, ele já estava assim e ficaram com pena de pintar por cima — de qualquer maneira, convinha uma contextualização, penso eu. Ficou bacana, mas não ajuda o trabalho de branding.

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Denúncia: maus tratos a manequins alemães

Algo tem que ser feito urgentemente; veja as provas de que os manequins alemães estão sendo tratados de maneira humilhante. Alguns são colocados de castigo na porta dos estabelecimentos para passar ridículo na frente dos clientes.

Colhi pessoalmente alguns depoimentos para vocês verem que não estou mentindo. Compartilhe esse absurdo!

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Dei uma resposta atravessada para a dona da loja e aquela perua me colocou de castigo na vitrine com esse chapéu. Tenho certeza de que esse modelo não é tendência…

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Não devia ter feito bullying com meu colega japa aí ao lado, só porque ele é meio vesguinho. Agora vou ter que ficar na vitrine com essa peruca ridícula por uma semana. Afe!

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Nunca mais rio da roupa da namorada do dono. Um castigo desses ninguém merece… :(

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Pelado e pintado de azul, só de botas; nunca imaginei passar por isso um dia. Nunca mais arrumo emprego em loja de estilista maluco. Não vejo a hora de acabar o meu contrato.

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Gente, o que tem de mais roubar um cookie? Agora cortaram minha mão e vou ficar aqui na rua a semana inteira servindo de exemplo. E o cookie ainda estava velho…

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Furei a greve dos graçons e como punição vou ter que ficar aqui pendurado com esse cartaz que diz que sou furador sei lá o quê. Alguém pelo menos me ajude a traduzir esse negócio?

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Um calor dos infernos e tenho que ficar aqui no sol do meio-dia com esse casaco de peles e cachecol. Falar palavrão dentro da loja nunca mais… Scheiße!

moda + arte + literatura = yôga com estilo

Karl Schlarb é um sujeito interessante, além de muito simpático. A gente entra na loja-atelier dele, e logo o sorriso de boas-vindas se abre. Bom de papo, permite que a gente tire fotografias de suas criações mais que especiais, enquanto discorre sobre as características de cada uma.

Ele mesmo projeta e constrói os corpos elegantes (as pernas são de látex) que conseguem ficar em qualquer posição que se escolha (um desses está na lista da minha casa nova). Ele mesmo ri com as pernas trançadas de ponta cabeça da modelo e explica que seus bonecos fazem yôga avançada (e fazem mesmo..rsrs).

Os bonecos do Karl têm duas coisas muito especiais, além do corpo flexível: os rostos podem ser genéricos ou de escritores/filósofos famosos e as roupas trazem a marca de quem atuou profissionalmente no mundo fashion por muitos anos.

O moço estudou história da arte e design de moda. Trabalhou em grandes ateliers e, depois de muitos anos com ícones como Gucci e Prada, começou a achar tudo muito estressante e sem sentido. Foi aí que abriu uma livraria (literatura é sua outra paixão) e ficou alguns anos na companhia de seus autores prediletos.

Em 2010 teve a ideia de juntar seus três grandes amores: a literatura, a arte e a moda. Agora ele constroi seus bonecos exclusivos, com figurinos para lá de criativos e, nas coleções especiais, usa personagens famosos da literatura, filosofia, música e artes.

No alla hopp, a pessoa se sente em casa; mais um pouco e a gente senta, toma um chá com biscoitos e passa a tarde conversando. Fui levar o queridíssimo Renato Fuzz, que está em Berlim, para conhecer a Bergmann Straße e os arredores (que amo!) e passamos por lá.

Sabe o que mais gostei? Ele me contou tudo isso em alemão e eu entendi. Agora só faltam mais 32 anos e o idioma de Goethe estará sob meu inteiro domínio….rs

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A mulher que sabia voar

Sempre que passava pela estação de trem Zoologischer Garten, ficava intrigada com as vitrines do Museu Erótico (que tem uma sex-shop bem grande anexa) uma quadra depois. É que numa delas tinha a foto de uma moça jovem, com capacete de piloto, muito sorridente. Linda, mas nada erótica, pelo menos no sentido mais tradicional da palavra. O que isso teria a ver com o museu?

Veja a foto:
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Pois é, até que um dia convidei o Conrado para conhecer (não se vai num museu desses sozinha, a pessoa pode ter ideias que não deveriam ser desperdiçadas…rs) e finalmente fomos no final de semana passado.

Já tinha estudado um pouco a respeito dessa jovem, mas fiquei ainda mais encantada. A moça se chamava Beate Uhse e nasceu em 1919 em Wargenau, uma cidadezinha minúscula da Prússia Oriental que depois da Segunda Guerra passou a pertencer à Rússia. Para se ter uma ideia, em 1910 o povoado contava com míseros 114 habitantes. O pai era agricultor e a mãe foi uma das primeiras médicas alemãs, que criou a caçula de três irmãos com liberdade e autosuficiência; até um estágio em Londres Beate fez.

Agora, a explicação para a foto: com 17 anos, Beate conseguiu seu brevê como piloto de avião e essa foi uma paixão para a vida toda. Lutando na segunda guerra, conheceu seu primeiro marido, o também piloto Hans-Jürgen Uhse (de onde vem o sobrenome que ela tornou famoso).

Depois de perder Hans numa batalha no último ano da guerra, Beate fugiu de Berlin Oriental para o ocidente levando no avião o filho de dois anos, a babá, o mecânico de bordo e dois soldados feridos. Resolveu viver no povoado de Braderup e lá fundou seu primeiro negócio, uma vez que os aliados proibiram os pilotos alemães de voar; ela ia de bicicleta de casa em casa vender botões e brinquedos.

Depois do final da Guerra, os soldados voltaram para casa e muitas mulheres queriam evitar a gravidez; Beate lembrou-se da mãe, médica, que ensinava vários métodos anticoncepcionais naturais na comunidade. A moça então começou a vender um jornalzinho em Flenzburg, a maior cidade próxima, com essas informações; também respondia às muitas perguntas das mulheres, sempre cheias de dúvidas. O próximo passo foi vender preservativos masculinos junto com um livrinho de explicações e instruções de uso.

Beate começou a ver que a maioria das mulheres não tinha a sorte dela, de ser estudada, esclarecida, bem-resolvida e autoconfiante. Foi aí que achou que elas também tinham o direito de viver plenamente sua sexualidade como uma coisa divertida que fazia parte da vida.  Beate Uhse começou a vender então apetrechos sexuais, sempre preocupada em fornecer explicações e esclarecimentos.

Em 1952 os produtos começaram a ser vendidos por catálogo e 1962 foi aberta em Flensburg a primeira sex-shop do mundo; a empresa que fabricava os produtos à venda já contava então com 200 funcionários.

É claro que alguém com tanta liberdade causou muito incômodo numa sociedade conservadora como a daquela época; sofreu processos, perseguições, enfim, pagou o preço que a vanguarda exige.

A moça curiosa, corajosa e empreendedora casou-se três vezes, teve dois filhos e era uma profunda admiradora da natureza; plantava legumes e verduras, era boa cozinheira e praticou tênis, mergulho e golfe, além de pilotar aviões até perto de morrer, aos 81 anos. Ou seja, nada a ver com o estereótipo que se poderia esperar da dona de um dos maiores império de sex-shops da Europa.

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Beate com sua biografia e com seu terceiro e último marido, um professor americano de inglês que conheceu quando passava férias nas Bahamas. Ele era 25 anos mais novo e ficaram 10 anos casados.

Bom, sobre o museu, além da história da empreendedora, tem também esculturas, aquarelas e pinturas belíssimas (todas com conteúdo erótico, claro), além de peças curiosas. Vale a pena visitar.

Não sei vocês, mas adorei conhecer essa alemã ousada e atrevida.

 

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Você tem que me ajudar

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Vivo recebendo (e imagino que você também) mensagens que começam com “você tem que me ajudar”. As variações são pouco criativas: “estou fazendo uma pesquisa/trabalho e preciso que você…”, “estou precisando de um emprego e…”, “quebraí o meu galho, vai…”, “preciso urgente vender meu carro e…”. Em resumo, o umbigo da pessoa ocupa todo o espaço disponível no texto e, não raro, chega a transbordar horas depois quando chega outra mensagem cobrando uma resposta.

Às vezes dá vontade de ler o conteúdo só por curiosidade, mas depois de receber tanto pedido sem cabimento, dificilmente o sentimento despertado é de solidariedade ou comiseração (mesmo assim, que fique registrado, sempre leio tudo e tento ajudar na medida do possível).

Ah, se as pessoas tivessem noção de que liderança não tem a ver com chefia, cargos ou vida profissional, quão mais eficientes seriam as comunicações entre as pessoas…

Toda vez que a gente quer que alguém nos ajude com alguma coisa, é preciso pensar primeiro em como encorajar essa pessoa a fazê-lo. Ninguém tem obrigação de arrumar emprego para um colega ou ajudar a vender seu carro, colaborar numa campanha ou responder a uma pesquisa. A vida não está fácil para ninguém e cada um tem seus próprios problemas e prioridades para resolver, que não são poucos. Não me entendam mal: solidariedade é necessária no mundo. O que estou propondo aqui é um meio de aumentar a colaboração sem apelar para o coitadismo ou a falta de educação.

Aí é que entra a questão da liderança: chamamos líder alguém que enxerga um cenário futuro como resultado de seu trabalho (também conhecido por visão) e consegue despertar nas pessoas a vontade de segui-lo no caminho que vislumbra para chegar lá.

Quanto mais ousada e abrangente é a visão, mais o líder sabe que precisa de ajuda. Aí é que entram as atitudes que ele/ela precisa desenvolver, e a primeira delas é conseguir descrever claramente esse cenário de maneira a animar as pessoas que quer engajar.

Mas ninguém vai se sentir motivado a ir junto se o cenário só beneficiar o líder e mais ninguém (já falamos sobre isso em “visão não é selfie”). Então, se o líder quer que as pessoas ajudem, jamais deve começar a descrição do cenário como “Preciso cumprir a meta do mês e…”.

Sabe-se que não é possível motivar outra pessoa, pois a motivação é um sentimento interno. O que se pode fazer é construir as condições favoráveis para que a pessoa se sinta capaz, confiante, entusiasmada e estimulada a colaborar na construção de uma visão que a emocione de alguma maneira.

Beleza, mas como vou convencer alguém ajudar a me arrumar um emprego? Ou a responder minha pesquisa para o TCC? Ou a vender meu carro? Ou a ajudar as crianças do orfanato?

Vejamos.

Se em vez de ligar para todo o pessoal que participa da pelada de domingo pedindo desesperadamente um emprego, o Asdrúbal primeiro estudasse a empresa na qual gostaria de trabalhar e o cargo (ou seja, começasse a construir a visão), conseguiria apresentar a ideia de maneira que fosse atraente para a própria empresa e para o Mário que trabalha lá; acompanhe.

Asdrúbal poderia chamar o Mário para uma conversa e dizer: “olha, estou me desligando da firma em que trabalhei nos últimos três anos e vi que há uma oportunidade na empresa YY; penso que poderia contribuir muito nessa função, uma vez que aprendi bastante sobre atendimento ao cliente nos dois cursos de extensão que fiz e enquanto era gerente do departamento tal. Desenvolvi um sistema que pode ser útil para a empresa YY, principalmente no segmento X. Seria possível obter um contato para apresentar uma proposta de trabalho?”. O Mário vai vislumbrar o seguinte cenário: uma melhoria significativa no atendimento ao cliente da YY (o que é bom para todo mundo) e o melhor: foi ele quem descobriu o talento e o indicou. Como não ajudar?

A chave é descobrir qual é sua visão e encontrar pessoas que compartilhem dela; pessoas que consigam ver valor na proposição e estejam dispostas a se mexer para fazê-la acontecer.

Vejamos o exemplo da venda do seu carro; o que eu mais gosto é desse vídeo que um diretor de arte americano fez para vender seu velho e fiel companheiro de 18 anos, todo rasgado e detonado. Vê se não dá vontade de divulgar a venda dessa joia, mesmo sem ele ter pedido.

Claro, você pode não ter o talento todo desse sujeito, mas pode muito bem pensar num jeito de apresentar a ideia que não seja apenas vantajosa para você, mas também para as pessoas de quem você espera colaboração.

No caso da pesquisa para seu TCC, sempre imagino que o estudo trará mais informações e conhecimento a respeito de um determinado assunto (que, naturalmente, é de interesse do entrevistado). Aí é mais fácil; basta oferecer o arquivo com os resultados do trabalho e enfatizar que o levantamento está colaborando para que se compreenda melhor a questão X. Ainda se pode acrescentar que o desdobramento da pesquisa prevê a busca de uma solução para o problema Y.

Campanhas para ajudar qualquer causa sempre rendem mais colaboradores quando oferecem um cenário inspirador (uma festa, um prêmio, produtos para venda, fotografias bacanas, humor, etc) do que o eterno mimimi repetindo a ladainha que o mercado é cruel e injusto. Apelar para o sentimento de culpa das pessoas funciona às vezes, mas emocionar positivamente é muito mais sustentável e gratificante.

Feito isso, não pedirei para você compartilhar esse texto (detesto quando pedem isso…rs), vou fazer melhor: convidá-lo para juntos tentarmos ajudar a diminuir o tráfego de mensagens apelativas e mal educadas e a aumentar os pedidos colaborativos e inspiradores.

Já pensou se todo mundo pudesse ler esse texto, como ajudaria?

Prêmio Estampa Brasil

flyer divulgação Prêmio Estampa

Olha que boa notícia para designers, ilustradores e povo que curte desenhar estampas: estão abertas as inscrições para a 2ª edição do Prêmio Estampa Brasil que, nesse ano, está cheio de ótimas novidades!

Primeiro, a principal referência em design de superfície do Brasil, minha querida amiga Renata Rubim, foi convidada para ser curadora. Depois, as regras sobre a cessão dos direitos foi revista e ficou justa para todas as partes. Nessa edição o prêmio também foi dividido em duas qualificações distintas, estudante e profissional, que podem inscrever seus trabalhos em três categorias: natureza de verão (sol, mata, mar, rio, cachoeira, flor), cardápio de verão (suco, bebida, fruta, semente), verão e movimento (esporte, lazer, corpo, diversão). Os 72 finalistas (12 em cada categoria e qualificação) poderão ter seu trabalho estampado na coleção de verão 2015 da Lojas Renner. Os três primeiros colocados em cada categoria e qualificação receberão troféu, certificado, título de capitalização e participarão de exposições em São Paulo e outras duas capitais. E ainda: os 12 finalistas de cada categoria ainda terão seus trabalhos apresentados no livro Alma Brasileira 2014.

Fala sério: tem jeito mais bacana de turbinar seu currículo e ver seu trabalho reconhecido? Corre lá no site do concurso para ver o regulamento e mais detalhes sobre a premiação, as inscrições vão só até 31 de maio.

Aqui os links para saber de tudo: Site do ConcursoFacebook e Blog.

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A idade dos milagres

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Fazia muito tempo que não lia um romance tão bem escrito, tão prazeroso e… tão triste.

The age of miracles, livro de estreia da americana Karen Thompson Walker, começa como se fosse um legítimo Saramago e termina no melhor estilo ficção científica. Durante, é pura poesia.

A história é contada por uma menina de 11 anos, Julia. Um belo dia, descobre-se que o planeta Terra está girando mais devagar e que os dias estão ficando maiores. No começo é pouco mais de uma hora que se acrescenta, mas com o tempo, o intervalo entre o sol nascer e se pôr chega a durar semanas. As pessoas não sabem bem o que está acontecendo, são muitas transformações sem explicação, a força da gravidade aumenta, as marés são afetadas, vários fenômenos naturais aparecem como resultado e cada um tenta administrar a situação como consegue.

Depois do impacto inicial, onde o dia ganha algumas horas e gera certo caos (as funções onde as pessoas trabalham por turnos acabam ficando a descoberto, por exemplo), o governo americano (a história se passa na Califórnia), resolve que os dias continuarão a ter 24 horas, independente do tempo em que o sol permanece no firmamento.

Eis que as pessoas se dividem entre as que cumprem a determinação  e aquelas que preferem seguir seu relógio biológico (acordam quando o dia clareia e vão dormir quando está escuro). A intolerância com os diferentes manifesta-se com a violência habitual: eles são praticamente excluídos da sociedade e acabam se isolando, mesmo que seu modo de vida não interfira em nada no dos outros (sim, conhecemos essas manifestações de outros carnavais e os inseguros que não podem admitir que outros não sigam sua cartilha são infelizmente quase sempre maioria). Mas mesmo os “real timers“, como são chamados, não aguentam a pressão (imagine ficar 30 horas acordado direto depois de dormir 30, com a perspectiva de piorar).

The slowing, como é chamado o fenômeno, continua fazendo os dias crescerem cada vez mais e impacta a vida de de todos. Julia se apaixona pela primeira vez, a mãe não consegue administrar o medo de que o mundo acabe, o pai tenta manter a calma no meio do caos, o avô acredita numa teoria conspiratória. Tudo contado com muita delicadeza e sensibilidade.

Quando li a quarta capa com o resumo da história, achei o argumento genial. Agora, depois do fim, a vontade é de começar a reler tudo novamente.

Mais que recomendo.

Segunda chance de verdade

Desde que o pai abandonou a família, a mãe de Afonso* teve que deixar o pequeno, de cinco anos, cuidando do irmão de dois para trabalhar garantir o sustento da família. Eles passavam o dia todo sozinhos vagando pela comunidade, sem nenhuma disciplina ou cuidado. Afonso vivia na rua e acostumou-se a ser tratado como o cachorro vira-lata; quase nunca ia à aula. No início da adolescência, quis ajudar a mãe que ficou doente, mas como não tinha estudo e nenhum tipo de educação, o crime acabou sendo o caminho natural. É claro que foi preso. E presídios, pelo menos no Brasil, onde seu nome foi trocado por um número e dividiu com 70 pessoas uma cela em que só havia 16 colchões, não são o lugar mais indicado para quem quer sair dessa vida.

Foi aí que surgiu a oportunidade de ir para uma unidade APAC (Associação de Proteção e Assistência aos Condenados) e agora Afonso me diz que pela primeira vez na vida está sendo tratado com respeito e dignidade. Que pela primeira vez na vida está se sentindo gente. Que pela primeira vez na vida consegue enxergar um futuro.

Na APAC a disciplina é militar; tem hora para tudo, o comportamento é avaliado em cada item (esquecer de colocar o crachá, por exemplo, é um ponto que o condenado perde; cama mal feita, mais 1 ponto; se juntar 10 pontos corre o risco de voltar para o presídio comum, o que, para eles, é quase mais assustador que a morte). A equipe de funcionários que administra as unidades é enxutíssima, já que a maior parte do trabalho é feita pelos próprios presos, incluindo guardar a porta da entrada (sim, isso mesmo que você leu, não tem polícia lá para fazer esse trabalho). Nas unidades eles fazem vários cursos, incluindo aulas de primeiro e segundo graus que a maioria não teve, marcenaria (sim, eles lidam com chaves, martelos, facas e outras armas impensáveis num presídio comum) e qualquer outro tema que voluntários oferecerem. Para cada 3 dias trabalhados é reduzido um dia da pena.

O seu César*, um tiozinho muito querido, mostra com orgulho a horta que está cultivando num terreno sem muro que pertence à APAC. A horta é linda mesmo, mas a história dele é mais. Seu Cesar não cometeu crime nenhum, mas tem 40 anos para cumprir. Ele foi apresentado como inocente útil por um grupo de criminosos da pesada que morava no bairro. Como é analfabeto e não faz a menor ideia de como a justiça funciona, nunca teve advogado; simplesmente foi condenado e mandado para um presídio. A comunidade onde ele mora ficou tão sensibilizada com o caso que reuniu 600 assinaturas pedindo para enviá-lo a uma APAC. Seu César passa os dias cuidando da horta que abastece a cozinha do lugar (almocei lá e a comida é ótima), que fica a menos de 2 km da sua casa.

Como a equipe contratada para tomar conta dessas unidades é muito enxuta e os próprios presos mantêm o lugar limpo e arrumado, além de trabalhar e estudar em tempo integral, o custo é muito baixo se comparado a presídios comuns. Além disso, o índice de reincidência no crime, que no sistema prisional convencional chega a 86%, é inferior a 5% na APAC (fonte aqui).

O modelo das APACs foi criado em 1972 pelo advogado e jornalista Mario Ottoboni e foi exportado para vários países, inclusive, ora veja, a Alemanha. Tema de várias teses e dissertação, é um sucesso indiscutível.

Só uma comparação bem básica: numa APAC, a refeição é preparada pelos próprios detentos. Numa penitenciária, cada quentinha comprada por licitação custa R$ 25 (isso mesmo: quase mais do que você gasta para almoçar). É claro que os presos não comem esse valor, há várias denúncias de comida podre; agora imagine o potencial para desviar recursos que um sistema com mais de 500 mil detentos oferece, sem contar a prática constante de suborno a funcionários e facções do crime organizado trabalhando lá dentro.

Oportunidade de roubar: esse é o motivo pelo qual o pessoal que decide (que merecia muito bem estar atrás das grades) insiste no modelo falido e caríssimo dos presídios, enquanto as APACs ainda são minoria (cerca de 100 no Brasil inteiro, que atendem pouco mais de 2 mil apenados ).

É claro que funcionando de maneira tão eficiente, a APAC não poderia pertencer ao governo; é organizada e administrada como sociedade civil e se mantém com doações de pessoas físicas, jurídicas e entidades religiosas, parcerias e convênios com o Poder Público, instituições educacionais e outras entidades, além das contribuições de seus sócios.

O Tio Flávio é um dos meus amigos mais queridos, com quem tenho muita afinidade e amo como a um irmão. Indignado com essa situação absurda e injusta, está trabalhando firme para provocar a mudança. Foi ele quem me levou para dar uma palestra para os detentos do regime fechado da APAC de Nova Lima, em Minas Gerais. Impossível não se emocionar com as histórias, impensável não se envolver num projeto tão promissor como esse, que faz a gente ter a esperança de que ainda há uma saída.

De minha parte, o Tio Flávio ganhou uma aliada. Farei tudo o que estiver ao meu alcance para que o maior número possível de pessoas saiba da existência desse caminho e que a pressão para que esse modelo prevaleça seja cada vez maior.

Bora exigir justiça, minha gente?

—-

* Os nomes foram trocados.

* Agradeço do fundo do meu coração pela oportunidade ao meu querido amigo Tio Flávio e à toda a equipe da APAC Nova Lima que me recebeu de forma tão acolhedora e carinhosa; foi muito difícil segurar o choro quando eles cantaram uma oração para expressar as boas vindas.

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A disciplina transmite segurança para quem nunca teve contato com ela.

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Eles capricham em cada detalhe.

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Fala sério: mais arrumado que seu quarto, né?

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A prisão e a liberdade.

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Batman Elektronik

Sabe um lugar que não se cansa de surpreender? Pois essa é uma das coisas que me mais me fazem amar essa cidade.

Depois de visitar o Café dos Gatos fomos dar uma caminhada pelas imediações (Neuköln) quando fiquei intrigada com a placa de uma loja: Batman Elektronik, dizia.

Pena que era domingo e estava fechada, mas não resisti e fiquei espiando pela vitrine para tentar entender o porquê do nome tão exótico. Gente, a loja era ainda mais formidável que o nome, só posso dizer isso.

É que eles vendem componentes eletrônicos, compram equipamentos usados (também vendem e consertam) e, ao mesmo tempo, usam o espaço para expor obras de arte usando peças descartadas. O artista, no caso, é o próprio Sr. Batman (a loja tem esse nome porque é como se chama seu dono).

Agora olha só que máximo tudo isso! Como não amar? Impossível…

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O Sr. Batman tem também um site só para expor as obras que cria, clique aqui para ver todas as peças.

Tem até um video mostrando uma das peças (esqueci de dizer que todas giram), olha que viagem…

 

O homicida que mora dentro de você

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Marcos tem 30 anos. Num dia de supremo azar, é assaltado e leva um tiro, disparado por um bandido nervoso.

Considerando que Marcos poderia viver até os 71 anos (expectativa de vida de um homem no Brasil), o ladrão roubou-lhe seus bens materiais e mais 41 anos de vida. Ninguém sabe como Marcos iria gastar esses anos todos, mas agora não há mais como saber. Eles lhe foram roubados. Marcos foi morto.

Pense; o tempo é a coisa mais preciosa que uma pessoa tem. Quando alguém lhe dedica seu tempo, valorize. A pessoa pode dar a você um relógio, um bombom, um computador e até um avião; tudo isso pode ser comprado com dinheiro, tudo isso pode ser resgatado, tudo isso pode ser medido em moeda. Menos o tempo.

Quando uma pessoa destina seu tempo a alguém, nunca mais irá recuperá-lo. É o maior presente de todos, aquele que não tem preço, o que não volta mais.

Eis que Ana marca um café com Mônica e se atrasa 25 minutos. Mônica não pode fazer nada enquanto espera. Ana ganhou da amiga seu bem mais precioso e fez o quê? Jogou-o fora. Como se não valesse nada.

Em última análise, Ana roubou 25 minutos da vida de Mônica. Como o tempo é um recurso finito e limitado, Mônica terá que tirá-lo de outro lugar; talvez da convivência com o filho, talvez dos momentos de lazer, talvez das preciosas e necessárias horas de sono.

Quando a gente se atrasa  20 minutos para uma reunião, está matando 20 minutos da vida de cada um dos participantes. Nossa vida é nossa; podemos matar todo o tempo que quisermos, é nosso direito. Mas fazer isso com o tempo do outro? É assassinato.

Matar 20 minutos da vida de alguém ou 30 anos é só uma questão de escala. Estamos privando o outro de viver, de escolher o que quer fazer com seu tempo. Do ponto de vista ético, é crime.

Infelizmente, é um crime socialmente tolerado e não consigo entender por quê. Não raro perpetrado por defensores da vida e da diversidade, há assassinos em massa atuando em todas as esferas. E a polícia não faz nada, o governo não faz nada, as pessoas não denunciam esses homicídios diários. Talvez porque cada um tenha lá sua parte de culpa. Serial-killers infestam nossa sociedade. E ninguém se dá conta. Há pessoas perdendo anos de vida em reuniões que nunca começam no horário, em encontros que nunca são pontuais, em promessas que jamais são cumpridas.

Não raro, os crimes ocorrem em cascata: um atraso numa reunião provoca outro, que impacta o dia de uma pessoa ocupada, que produz efeito em outra e mais outra. Os efeitos finais são imprevisíveis e levam a vida de um monte de gente junto, pessoas que não tinham nada a ver com a história e perdem horas, quiçá dias de vida sem saber a razão. Nenhum vírus consegue ser tão letal como esse deplorável atrasildus cronicus.

Claro, há situações em que a gente mata alguém porque o ato está fora de nosso controle; imprevistos acontecem. Mas eu falei imprevistos. A maioria dos atrasos é causado por eventos perfeitamente previsíveis, portanto, evitáveis. É tudo uma questão de planejamento, gestão de riscos e, principalmente, consideração pelos outros.

Há quem, incomodado com a situação, imediatamente transfere a culpa para o trânsito, o Marc Zuckerberg, o governo, o capitalismo, a Al-Kaeda, os funkeiros, a copa, o alinhamento dos planetas, a receita federal, o cosmos. Sim, os fatores externos são muitos e fogem do nosso controle, mas não adianta simplesmente praguejar e continuar com a metralhadora em plena ação, exterminando inocentes sem um pingo de culpa ou responsabilidade. Mesmo com todas essas dificuldades, é só lembrar que sempre existem os pontuais, aqueles seres respeitosos que compreendem a barbaridade que é matar gente e são contra genocídios não apenas retoricamente.

Planejamento, cuidado, consideração, gestão de riscos. A única maneira digna de retribuir quem nos dá de presente algo tão raro e precioso.

E para não gastar mais seu tempo, fico por aqui, convidando-o a refletir: será que você não estaria participando de alguma matança sem perceber?

Desenvolvido por: Elton Baroncello