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Veja onde piso: especial “posso entrar?”

Nas minhas andanças pela cidade, reparei que algumas portas têm tipo um tapetinho de cerâmica bem na entrada. Um mais lindo que o outro; alguns estão bem desgastados (devem ter muitos anos e é um local onde todo mundo pisa), mas mesmo aqueles que estão bem maltratados são, para mim, puro charme.

Decidi compartilhar uma parte da minha coleção com vocês. Que tal?

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6 perguntas sobre trabalhar na Alemanha

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Não estou dando conta de responder ao tanto de emails e mensagens de gente querendo vir morar na Alemanha. A maior parte é da área técnica (engenheiros, analistas de sistemas, etc) ou criativa (publicitários, designers, etc).

Selecionei as perguntas mais comuns; vai que você está pensando em me escrever para perguntar justamente isso, né?

1. Como você veio parar na Alemanha?

Meu marido veio a convite de uma empresa alemã. Ele é um engenheiro extremamente qualificado e já havia morado aqui antes por 6 anos antes de fazer o mestrado na Inglaterra (o doutorado foi no Brasil); a vaga dele foi divulgada por cinco semanas aqui (hoje em dia não precisa mais se a pessoa vier com um emprego que pague acima € 44 mil/ano). Como não apareceu nenhum alemão com o perfil, foi contratado como diretor da empresa com a Blaue Karte (visto especial para alta qualificação). Depois de 21 meses contribuindo para a previdência social, ele obteve a autorização permanente para trabalhar e residir. Hoje temos nossa própria empresa de tecnologia (infelizmente, ainda não estamos contratando).

2. Dá para ir sem visto de trabalho?

Se vier como turista, pode ficar 90 dias por semestre na União Europeia sem visto, mas não pode trabalhar. Aí é só comprar a passagem e vir. Se vier como estudante, penso que tem que estar matriculado numa escola/universidade; aí o prazo pode ser bem maior (acho que mais de um ano), mas também não pode trabalhar. Para conseguir esse visto, é preciso comprovar que tem renda suficiente para se manter nos meses em que pretende ficar. O visto de trabalho eu não sei exatamente como funciona, mas o melhor de tudo é vir já com um emprego (aí, geralmente a empresa se encarrega de dar as orientações necessárias). Não se pode perder de vista que a concorrência é grande; italianos, espanhóis, portugueses e todos os profissionais que moram na União Européia não precisam de visto para morar e trabalhar aqui. Naturalmente, os brasileiros que possuem cidadania europeia também não têm esse problema.

3. Precisa falar alemão?

Olha, se a pessoa for um expoente na sua área, pode ser contratado só sabendo inglês, mas aí tem que trabalhar numa start-up (pessoal mais jovem e cosmopolita) ou numa multinacional. No começo dá para se virar só com o inglês, mas a pessoa precisará de ajuda, pois todos os contratos de serviços (aluguel, telefonia, transporte, internet, seguro saúde, registro de moradia, etc) são em alemão.

Outra coisa; para um adulto brasileiro, aprender alemão não é rápido como aprender inglês ou uma das línguas latinas próximas à nossa (espanhol, italiano, francês). Leva mais tempo, porque, além de uma gramática muito mais complexa, é preciso aprender a pensar de um jeito completamente diferente. Leia aqui sobre a minha experiência pessoal, caso tenha curiosidade.

4. O mercado está bom para a profissão tal?

Depende muito do currículo do profissional. Como em qualquer lugar do mundo, quem é mais qualificado, tem mais chances. Berlim, que é onde moro e conheço mais, é uma cidade pobre para os padrões alemães porque não tem muitas indústrias e a economia está mais voltada para serviços, onde a rede de relacionamentos é tudo. Tem muita gente da área criativa morando aqui e se equilibrando para pagar as contas no final do mês, pois a maior parte trabalha como freelancer. Há também muitas start-ups, mas essas geralmente não têm tantos recursos para contratar. Já em outras cidades da Alemanha, mais ricas, como Hamburgo, Munique e Stuttgart, penso que há um mercado mais aquecido em termos de trabalho, principalmente na área técnica. É nesses lugares que o dinheiro está.

Se você quiser fazer universidade ou mestrado aqui, sugiro esse ótimo post da Agenda Berlim (clique aqui para ler).

5. Como eu arrumo um emprego aí?

Tem alguns sites onde é possível pesquisar as vagas e o perfil que eles estão precisando. Veja alguns links:

Experteer

Meinestadt

Jobs.de

Aktuelle Jobs

Stellenanzeigen

Artconnect Berlin

Além desses, é possível pesquisar a empresa onde a pessoa quer trabalhar e entrar no portal para ver as vagas disponíveis. Algumas têm filiais no Brasil, o que pode facilitar o processo de recrutamento.

6. Dá para ganhar bem?

Essa pergunta é tão comum que fiz até um post só falando a esse respeito. Clique aqui para ler.

Atualização: Esse site aqui mostra os salários das profissões de nível superior nas diferentes regiões da Alemanha.

***

Bem, isso é o que tenho de informações por ora. Se alguém tiver mais para contribuir, fique à vontade para usar o campo de comentários.

Espero que tenha ajudado um pouco e viel Glück!!

 

Bendito caso: epílogo

Se você não leu ou não se lembra, leia as partes 1 e parte 2 para entender a história.

*****

Bem, entreguei meus “filhos” para a Leve Design e aguardamos. Uma semana depois, foi nos enviada a nova marca.

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Quando vi a proposta, não vou enganar ninguém: fiquei um pouco chocada. É que tanto a Cássia como eu pensamos que o trabalho seria apenas redesenhar o espelho de uma maneira mais profissional.

Mas as meninas do estúdio não são desenhistas; são designers de verdade (e das boas). Elas repensaram a marca na íntegra.

O primeiro sentimento foi de estranheza, pois não reconheci meus conceitos lá. Depois, analisando minha reação, entendi que era puro apego: o redesenho conseguiu aproveitar tudo dos conceitos desenvolvidos antes. As aplicações da marca, com direito a variação horizontal, monograma e estampa, definitivamente conquistaram nossos corações e mentes.

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Fazendo uma autoanálise entendi o que significa colocar em prática o que sempre defendi:  quando a gente tem foco no cliente, e não no umbigo, desapegar é fácil (ainda mais se o trabalho do profissional ficou evidentemente melhor que o seu).

O resultado é uma marca que me encheu de orgulho ter participado da concepção: uma autêntica experiência de co-criação muito gratificante para mim e, pelo que conversamos, para todas as partes envolvidas.

É sempre um prazer trabalhar com gente competente e ver o final feliz acontecer. Nesse projeto, cada uma fez o que sabe fazer melhor: eu desenvolvi o conceito a partir da identidade, a Leve Design projetou a marca gráfica e a Cássia vai fazer tudo isso virar um sucesso.

Aliás, nossa super empreendedora preparou um depoimento mostrando o ponto de vista dela nessa história toda. Está lá no site da Bendita Pele; clique aqui para ler.

***

BÔNUS: Depois dessa trabalheira toda, não consegui resistir e vou compartilhar a experiência hilária que a Cássia teve quando mandou fazer a placa que ficaria na fachada da loja. Ela mandou os arquivos para a empresa e olha o que a pessoa manda de volta, como solução para a fachada dela:

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A moça quase teve uma síncope quando viu isso e respondeu que a designer iria surtar se a placa ficasse assim, que era para fazer exatamente como estava no desenho. O responsável afirmou categoricamente que não precisava ser exatamente igual, que ela podia confiar porque ele sabia o que estava fazendo. Ele também era formado em design…. aiaiai!!!

Bendito caso: parte 2

Se você não leu ou não se lembra da parte 1, clique aqui para entender a história.

***

Nesse ponto da jornada, eu já tinha a identidade da empresa definida, suas características essenciais, e as diretivas principais para desenvolver a marca gráfica.

Gastei quase duas semanas rabiscando e tentando encontrar um conceito que sintetizasse o DNA da empresa e fugisse das borboletas óbvias e das mulherzinhas estilizadas. Por causa da ideia do retrô, até pensei numa pin-up; mas logo me dei conta de que poderia funcionar muito bem como apoio, jamais como marca principal. Isso porque a solução deveria contar com os seguintes atributos:

alta pregnância: é a capacidade de ter suas formas identificadas à primeira leitura em qualquer contexto. Sob esse ponto de vista, quanto mais limpa e mais simples, maior a pregnância.

legibilidade em modo reduzido: mesmo em tamanho pequeno, como num cartão de visitas, a marca gráfica precisa continuar sendo legível.

flexibilidade na aplicação: em algumas ocasiões, a marca gráfica precisará ser aplicada apenas em P&B, ou toda em preto, ou toda em branco. Em nenhum dos casos ela pode perder a capacidade de comunicar a ideia.

capacidade de ser vetorizada: transformar uma marca gráfica em vetores significa conseguir transformá-la em equações matemáticas. Por que isso é tão importante? Porque se tenho uma marca que é construída por meio de pixels, como uma fotografia, se eu precisar ampliá-la do tamanho de uma parede, vou ter que ter uma resolução muito alta para não perder informação, e sempre haverá um limite para ampliação que depende do número de pixels do arquivo original. Se a figura puder ser traduzida em figuras geométricas e equações matemáticas, não existe limite de tamanho nem para mais, nem para menos. É só mudar o fator de escala nas equações e sempre vai ficar exatamente igual ao original.

Bem, consegui chegar em dois conceitos que, a meu ver, cumpriam os requisitos básicos e traduziam bem a ideia a ser comunicada.

1. Espelho. A ideia do espelho veio com o estudo de formas retrô usadas como referência à cosmética. Pesquisei embalagens antigas e fui simplificando até chegar na moldura desenhada à mão (que traduz o trabalho manual e personalizado da esteticista, assim como o atendimento especial na loja, que seria quase uma consultoria em bem-estar). E o espelho, além disso, trata da auto-estima, do auto-conhecimento e da relação de cada pessoa consigo mesma. A proposta da Bendita Pele é justamente melhorar essa relação e torná-la mais agradável.

Com relação às cores, usei alguns tons como exemplo, mas não fazem parte da configuração original, que admite variações dentro de uma paleta determinada.

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Alguns exemplos de aplicação: cartão de visitas (frente e verso) e selo para embalagem.exemplos1

2. Anjo. O segundo conceito refere-se à palavra bendita, que também quer dizer abençoada. Como a questão do cuidado, da atenção, do bem-estar são muito fortes na identidade, pensei na ideia das asas de um anjo protetor. A Bendita Pele é traduzida aqui como o abençoado órgão do nosso corpo que nos protege e nos defende de todo o mal, assim como nos acolhe e nos permite que tenhamos boas sensações e prazer. Nesse caso, as asas do anjo são estilizadas e desenhadas igualmente à mão pelo mesmo motivo da alternativa anterior.

As cores também variam dentro da paleta e apresentei a solução com dois exemplos diferentes para mostrar a flexibilidade na aplicação que não compromete a identificação e o reconhecimento da marca.

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Aguns exemplos de aplicação: cartão de visitas (frente e verso) e selo para embalagem.

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Ambas gostamos das duas soluções, mas a dúvida continuava: qual delas poderia traduzir melhor o DNA da Bendita Pele?

Eis que a Cássia me perguntou se poderia consultar amigos e clientes (eu não queria que ela divulgasse que era eu que estava fazendo o trabalho porque, como disse, não faço isso profissionalmente e nem ofereço esse serviço). Disse que ela poderia mostrar, claro, desde que explicasse o contexto: que eu não era profissional da área e estava, digamos, “quebrando um galho”.

Foi aí que ela foi fazer um curso e mostrou as duas opções para a iluminada Mari Guedes (o estúdio Leve Design, do qual ela é sócia, era uma das opções que eu havia recomendado inicialmente).

Para nossa surpresa, o Leve Design generosamente comprou a causa: decidiu entrar na brincadeira e também participar da construção da identidade visual do empreendimento.

Como a parte mais trabalhosa, que é a definição do conceito, já estava pronta, o trabalho consistia principalmente em aprimorar a parte gráfica e sintetizar as ideias. Além disso, era necessário trabalhar melhor a tipografia (como não trabalho com isso, usei as de uso público; profissionais têm no acervo outras mais adequadas, compradas para essa finalidade).

No próximo capítulo veremos como terminou a novela com final feliz! Clique aqui para ler a última parte.

Sorria, você está sendo energizado!

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Quem me acompanha sabe que dificilmente posto assuntos muito pessoais, a não ser que a experiência possa ser útil para alguém. Pois esse é o caso agora.

Semana passada tive que fazer uma cirurgia na boca (uma daquelas aborrecidas operações que incluem dentes, gengivas, muita linha preta e injeções doloridas que não valem a pena detalhar). Fato é que saí do consultório parecendo que levei um soco no queixo e com a recomendação de falar o mínimo necessário, mexer a boca muito de leve, e usar uma placa de contenção no palato. Beleza.

A dor e o desconforto são coisinhas chatas, mas fazem parte. Como quase todo mundo, já fiz cirurgias diversas e passei momentos doloridos (felizmente poucos, pela minha lembrança). Mas nunca tinha me sentido tão mal, apesar da intervenção ser tecnicamente simples.

Passei a semana me sentindo fisicamente fraca (mas o negócio foi só na boca!), sem ânimo para nada. Olho no espelho e vejo uma mulher 10 anos mais velha, de aparência acabada. As pessoas que geralmente me tratam bem em todos os lugares (mesmo com famosa “frieza” dos alemães, sempre me senti acolhida) mal me olham. Até o Conrado achou que eu estava muito diferente. Estou mesmo. Nem passear na cidade, a coisa que mais adoro fazer, me animou no final de semana. E olha que numa outra oportunidade já caminhei 6 quarteirões com fortes náuseas e vomitando em duas praças no caminho só para ver um grafite, toda feliz (sim, tenho vergonha de dizer isso, mas é verdade….rsrsrs).

Alguma coisa estava errada comigo e eu precisava muito descobrir o que era; não estava gostando de jeito nenhum da pessoa que estava vivendo nesse corpo fraco. Ontem, conversando longamente com meu personal analista-marido, finalmente descobri: é que eu não podia mais sorrir por recomendações médicas (gargalhar então, nem pensar!) e isso nunca tinha me acontecido antes.

Nunca tinha reparado, mas estou sempre sorrindo, sempre. Isso me anima, me fortalece, me dá energia. Quando a gente não sorri, murcha completamente em todos os sentidos, é impressionante, juro! Como disse, já passei por alguns perrengues muitíssimo mais difíceis (na verdade, incomparáveis), mas eu podia sorrir e até fazer piada da desgraça. Mas agora fui proibida e não consegui dar conta.

Não é muito louco isso, minha gente? Preste atenção e faça o teste: fique um dia sem sorrir. É para acabar com a pessoa.

Se o seu médico não proibir expressamente, por favor, sorria. Mesmo que não tenha motivos, mesmo que não tenha vontade, mesmo que o mundo esteja caindo na sua cabeça, mesmo que você não queira, faça uma forcinha. Todo dia, sempre que puder, em todas as ocasiões; não tenha medo de ficar com cara de bobo. Eu vivi feliz 48 anos com cara de boba e posso dizer que é infinitamente melhor, mais divertido e mais saudável do que essa interminável semana encarnando a séria carrancuda.

Bom, esse era o recado. Amanhã vou tirar os pontos e tudo vai voltar a ser como antes.

Desejem-se sorte :)

***

PS: Esse desenho é da nova safra: mulheres sorridentes.

Bendito caso: parte 1

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Já falei várias vezes, mas não custa repetir: não sou designer. Sou engenheira eletricista por formação e meu contato com o design aconteceu somente após uma pós-graduação seguida de um doutorado na área. Por isso, não ofereço serviços em projetos: nem web, nem produto e nem gráfico. Minha expertise é gestão e sempre busquei trabalhar junto com os designers para materializar os conceitos.

Dito isso, preciso dizer que, mesmo assim, baseada em tudo o que já estudei a respeito (e não foi pouco), já me arrisquei a projetar alguns sistemas de identidade visual; foram somente três, para amigos, e depois de muita insistência. Verdade que que eles ficaram bem felizes com o resultado, e eu não me envergonho de tê-los feito, mas isso não faz de mim uma profissional no assunto.

Aí apareceu a Cássia Souza.

Essa moça é dessas pessoas que encanta logo de cara; sua principal e mais arrebatadora característica, além da simpatia, é a capacidade empreendedora. E ela é muito, mas muito interessada em aprender. Para se ter uma ideia, a formação dela é em estética, mas a conheci numa palestra minha sobre identidade corporativa.

Há algum tempo a Cássia me contou que o prédio onde estava localizada a estética, no sexto andar, tinha uma sala comercial vaga no térreo. Ela pensava em abrir uma loja associada à estética, mas não tinha sócia. A ideia não lhe saía da cabeça, até que, quando todo mundo está fechando negócios, essa maluca resolve abrir e apostar tudo na abertura de um. Como resistir a malucas?

O fato é que ela decidiu abrir mesmo sem sócia e precisava de uma marca para a empresa. A Cássia, de tanto estudar e assistir palestras, sabe exatamente o valor do design, tanto que já tinha contratado alguns (sempre com diploma). Pena que as experiências foram bem desagradáveis; eu tinha vontade de chorar quando ela me mostrava os trabalhos. Cada coisa mais tosca que a outra; alguns “profissionais” têm coragem de cobrar para copiar e colar cliparts do Google e chamar aquilo de marca. Ou então fazer desenhos baseados em tendências ou gostos pessoais e perguntar para os amigos se ficou bacana. Preocupada com a tragédia que estava se desenhando, recomendei três profissionais nos quais confio muito e que fariam um excelente trabalho, mas nesse momento ela não tinha condições de remunerar a competência deles à altura, pois estava fazendo uma reforma grande e comprando estoques.

Com medo que a moça contratasse mais um daqueles designers que usam os concorrentes como exemplo e para quem o ramo de estética se resume a borboletas ou mulherzinhas estilizadas (os mais ousados arriscam uma flor de lótus), acabei decidindo assumir a tarefa. Qualquer coisa que eu fizesse iria ficar melhor que esses trabalhos sem conceito, pé e nem cabeça; era a única certeza que eu tinha.

Bem, o primeiro passo, como todo designer sabe (ou deveria saber), é definir o conceito e entender a identidade da empresa, seu DNA, aquilo que a define e a diferencia de todas as outras.

Para isso, apliquei uma versão simplificada do workshop de identidade corporativa que desenvolvi para empresas (está tudo descrito em detalhes no meu livro “DNA Empresarial: identidade corporativa como referência estratégica). Ela fez algumas dinâmicas sozinha e eu sabia que haveria distorções, mas era isso ou nada (eu moro em Berlim e ela em Belo Horizonte). Tentei fazer uma análise bem objetiva da essência da marca e consegui traduzir seu DNA em algumas palavras: delicadeza, cuidado, personalização, equilíbrio, leveza, elegância, acolhimento, estética, força, carisma, liberdade e fortalecimento da auto-estima.

O próximo passo foi discutirmos um nome que fosse coerente com esse conjunto de atributos. Viver Bem, o blog que ela mantinha antes, era genérico e vago demais e não tinha nada do especial que traduzia o serviço personalizado do empreendimento; podia ser marca de biscoito ou qualquer outra coisa, além de já estar registrado. Ficamos quase um mês trocando ideias freneticamente até que chegou-se ao Bendita Pele (uma estética que também vende produtos de perfumaria para o corpo e para banho).

Para a materialização desse conceito, ficou definido que as formas deveriam ser orgânicas, amigáveis, delicadas, arredondadas, equilibradas e elegantes. As cores deveriam ser suaves, acolhedoras e calmantes. Decidimos também por utilizar fontes tipográficas manuscritas para destacar o trabalho personalizado da estética, do cuidado um a um. Outra referência era usar uma estética mais retrô, referindo a marca ao tempo em que as pessoas tinham mais tempo para si e a vida era menos corrida.

Até aí eu estava no meu elemento, na minha especialidade, na área em que passei anos estudando. Na época em que fazia consultoria, sempre contava com um designer na equipe para materializar essas ideias na prática; mas dessa vez não teve jeito, tive que assumir a função. A próxima etapa, mais sofrida e demorada para mim, foi gerar as alternativas.

Saiba o final feliz da construção dessa marca na próxima semana. Só posso dizer que os caminhos acabaram sendo bem diferentes do que havíamos imaginado no início.

*****

Clique aqui para ver a parte 2 dessa história.

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Ladrões de beleza

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Acabei de ler “Diebe der Schöneheit“, de Pascal Bruckner e, olha, posso dizer que gostei. Não foi tão fácil de ler porque não é um livro de ação  (aqui os personagens pensam e filosofam) e as limitações com o alemão certamente me fizeram perder algumas sutilezas da escrita. Mas a história é fascinante, a ponto de me deixar impressionada. A boa notícia é que andei pesquisando e a obra já existe em português, com o título “Ladrões de beleza“.

Benjamin é um sujeito meio sem escrúpulos, preocupado basicamente com sua sobrevivência e bem-estar. Não é um mau caráter, mas digamos que lhe falta um pouco de empatia. Por conta de um romance que ele escreve na forma de um mosaico de frases roubadas de autores célebres, acaba conhecendo Helène, uma  parisiense jovem, rica e entusiasmada com o melhor que a vida pode oferecer. Ela praticamente adota Benjamin: compra-lhe roupas caras, ensina-o a apreciar bons vinhos e comidas, enfim, mima até não poder mais o moço, que está sempre entediado.

Eis que os dois estão voltando de um fim de semana nos Alpes e ficam presos na estrada por causa de uma tempestade de neve, perto de um vilarejo ermo. São socorridos pelo mordomo de um casarão próximo e aí começa o conto de horror.

*** Atenção: daqui em diante tem spoiler. Se quiser ler o livro pare aqui ***

O casal de proprietários é louco de pedra, ajudado pelo mordomo corcunda, fiel serviçal. A mulher, professora de filosofia, que teve uma juventude devassa e promíscua em busca de um sentido para a vida, é a chefe da quadrilha. Ela domina o marido, um advogado aposentado bem sucedido, e o mordomo. Juntos, eles constroem porões onde mantêm presas as jovens mais belas que conseguem encontrar.

A ideia é que gente bonita (serve para homens também, mas eles são mais difíceis de capturar) é culpada pelas outras pessoas se sentirem feias. Eles investigam a vida das eleitas e escolhem aquelas que usam a própria beleza para, de alguma forma, usar as outras pessoas. Fazem um tribunal próprio, sem que as “culpadas” tenham a menor chance de se defender, escolhem as vítimas, sequestram e as trancam por um ou dois anos, até que a beleza murche completamente e dela não sobre mais nada. As moças ficam no escuro, sozinhas, sem nenhuma informação, referência de tempo e nem o motivo pelo qual estão presas. Um belo dia, quando estão feias o suficiente, são devolvidas ao mundo completamente destruídas (e, na maioria dos casos, desequilibradas mentalmente também).  Fiquei especialmente impressionada com a crueldade dessa descrição, cheguei até a sonhar com isso.

O casal acaba sendo vítima do trio e não consegue fugir. Não porque sejam modelos de beleza, mas porque acabam conhecendo o segredo. O acordo para que sobrevivam é que Helène seja mantida presa e que Benjamin viaje até Paris com o mordomo para capturar três exemplares de beldades.

Passam-se meses, e a coisa só piora. No final, Benjamin ainda descobre que os malucos são tão bem conservados porque o cheiro das moças é rejuvenescedor (achei um pouco desnecessária essa alusão sutil ao “O perfume” de Patrick Suskind).

Benjamin conta a história toda para uma jovem médica psiquiatra que está fazendo plantão num hospital em Paris que fica intrigada com tudo. Ela consegue conferir e confirmar algumas pistas; o que ele conta parece ser verdade, mas não há muito como ajudar. Quando ela visita o casarão, tudo parece abandonado.

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Vou abrir aqui um parênteses sobre uma experiência pessoal que me aconteceu, enquanto lia o livro. A Bee Rosa, que acompanho no Facebook, faz colares lindos a partir de flores naturais colocadas dentro de bolinhas de vidro. Ela me ofereceu um presente: faria um colar com minha flor preferida, bastaria colhê-la e enviar a ela pelo correio. Fiquei toda empolgada com a ideia, e coloquei uma caixinha pequena dentro da bolsa para ir recolhendo florzinhas lindas por onde passasse.

Mas na primeira, levei um choque quando abri a mochila: a caixinha era um quarto escuro. A flor estava toda feliz pegando um sol com as amigas e curtindo a vida. Eu fui lá, tirei-a do seu ambiente e ia trancá-la dentro de um porão sem nenhum motivo por um longo tempo, até que ela murchasse. Exatamente como na história. Não consegui fazê-lo (contei para a Bee e ela deve ter me achado louca).

Mas não deixa de ser um pouco assustador reproduzir, mesmo que em escala, comportamentos que a gente acredita serem tão cruéis. É triste ver que, às vezes, mesmo sem perceber, a gente busca acabar com a beleza e a alegria assim que as vê; como tantos se incomodam em ver os outros felizes e livres. A Bee me salvou dizendo que posso deixar as flores no sol depois de colhê-las; é um dos métodos de conservação que posso usar sem deixá-las no escuro, vou tentar.

Eu ainda estou digerindo o livro.

Coloquei uma flor dentro dele.

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Top 10: as fotos preferidas de junho

O verão já começou, mas a primavera ainda está toda exibida em Berlim. A seleção desse mês também teve vários bichinhos: uma família de cisnes com direito a patinho feio e tudo, um patudo no metrô e a incrível cara que a Isabel fez quando foi pega no flagra.

Qual foto você gostou mais?

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O dia estava cinzento, mas era só o dia mesmo.

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Esse olho foi instalado sobre o relógio de uma antiga fábrica da AEG que hoje funciona como um condomínio de empresas, no bairro Pankov.

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Todo mundo se encantou com esse túnel florido. Pena que não tinha como transmitir o perfume também…

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Uma família de cisnes com direito a dois patinhos feios. Eu achava que era só historinha de criança, mas parecem patinhos mesmo!

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Essa rua é tão verdinha; melhor lugar para almoçar em Moabit. A comida nem é aquilo tudo, mas o cenário…

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Essa é a esquina mais colorida da cidade. Fica em frente à estação de metrô Nollendorf Platz; acho que eles mudam toda a pintura umas duas vezes por ano. Estou colecionando as modificações para fazer uma galeria, que tal?

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Esse moço obediente estava meditando sobre o sentido da vida enquanto aguardava a condução. Fez o maior sucesso no Instagram e no Facebook. Como não? <3 <3

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Às vezes fico tão comovida que dá vontade de chorar quando ando pela cidade. Como pode existir um lugar tão lindo? A primavera aqui é cinematográfica.

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E essa carinha impagável que a Isabel fez momentos antes de avançar nas flores para saboreá-las? Quem aguenta essa gatinha?

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Entrei num hotel (a porta estava aberta e sou pior que cachorro) e vi um espelho de frente para o outro bem no corredor de entrada, olha a loucura do momento inception. E querem saber? Hoje achei outro. Acho que vou juntar mais para fazer uma galeria.

 

A tal da loja sem embalagem

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A loja sem embalagem inaugurou em Berlim há quase um ano e desde o lançamento do projeto, venho sendo marcada no Facebook todas as vezes que sai alguma notícia a respeito. A pedidos, fui obrigada a ir até lá.

Bem, por algum motivo, vejo tantas coisas extraordinárias nessa cidade, mas não sentia vontade de conhecer essa loja em especial. Não sabia explicar por quê. Ontem eu fui e entendi um pouco melhor.

A ideia, que vem sendo vendida como inovadora e revolucionária, é muito bacana, mas não considero nem inovadora e muito menos revolucionária. Primeiro porque já existem projetos semelhantes com o mesmo conceito em vários lugares do mundo. Comprar produtos a granel é uma prática que conheci ainda criança, quando ia comprar feijão ou arroz no armazém próximo à minha casa, ou mesmo amendoim japonês e balas na barraca de doces perto da escola. O vendedor tinha uma espécie de caneca com alça, que funcionava como medidor, ou então usava uma balança mesmo. Se você quisesse, ele punha tudo num saco ou cone de papel, mas também podia colocar no pote que você levava de casa ou na sua lancheira; para ele, tanto fazia.

Em Florianópolis havia uma loja muito mais inovadora, do meu ponto de vista (não sei se ainda existe, que acho o conceito ainda mais disruptivo): sabendo que a embalagem é responsável por uma parcela importantíssima do preço de um perfume, você podia ir lá e fazer o refil no seu próprio vidro, pagando somente pelo volume de líquido.

Mesmo aqui em Berlim, em qualquer quitanda que se vá comprar legumes e verduras, você leva sua própria sacola e não usa embalagem nenhuma. Os próprios supermercados não fornecem sacolas, você tem que comprá-las se quiser usá-las (acho que no Brasil tem alguns lugares que é assim também).

Nas lojas de artigos naturais no Brasil, que eu saiba, praticamente tudo é vendido a granel nos mesmos moldes. Basta que o comprador leve sua embalagem se não quiser usar as do estabelecimento. Ou seja, depende muito mais do comportamento do consumidor do que da loja.

Por tudo isso é que não entendi o auê em torno da Original Unverpackung em Berlim. A ideia é bacana? É, sem dúvida! Tem o meu apoio? Mas é claro, como poderia ser diferente? É inovadora? Não acho, sinceramente.

Fisicamente, é muito parecida com as dezenas de lojas de produtos naturais, regionais e veganos que já existem na cidade: simples, charmosa, bem organizada, despojada e com um atendimento especial.

Os produtos estão organizados exatamente da mesma maneira que a gente conhece de casas de produtos naturais no Brasil. Se você esqueceu de levar sua embalagem em casa, pode comprá-las na loja (como em qualquer outro lugar): há vidros, saquinhos de tecido e sacos de papel, pode escolher.

Além das frutas e verduras, vi massas, grãos diversos, biscoitos e produtos de higiene e limpeza (aí sim eu vi novidade). Tem também bastante coisa com embalagem, mas sempre de vidro (sucos, sopas, geleias e refrigerantes, por exemplo).

Já ministrei uma disciplina sobre embalagens no curso de design e posso dizer: a embalagem não é apenas lixo dispensável. Ela muda a percepção em relação ao produtos, traz informações imprescindíveis (conteúdo, validade, procedência, entre outras coisa), protege e conserva os perecíveis, entre outras funções muito importantes. O problema não é ter embalagem, mas o fato dela ser descartável. Se as empresas e as pessoas fizerem um esforço conjunto para gerar menos lixo (o que beneficiaria a todos), seria só uma questão de projetar invólucros que pudessem ser realmente reaproveitados. Nesse aspecto, lojas desse tipo que divulgam o conceito de menos lixo, ajudam muito a mudar a cultura do desperdício.

A questão é que, apesar de ficar apenas a uns 2 km da minha casa, não senti vontade de ir até lá fazer minhas compras, pois posso fazer a mesma coisa (exceto no caso de arroz, massas e produtos de higiene e limpeza) na quitanda ou no supermercado de produtos naturais e orgânicos que ficam a menos de uma quadra de onde moro.

Os preços em geral também eram um pouco mais altos que a média, além da variedade ser bem pequena (por exemplo, produtos de higiene, cosméticos e limpeza eram só de uma marca). A questão da pouca variedade dá para entender, mas os preços eu fico um pouco em dúvida.

Parece que os moradores compartilham da minha percepção, pois a loja estava vazia e, enquanto estive lá, todas as pessoas entraram para saber sobre o projeto, mas ninguém fez compras. Tem até um aviso na porta informando que eles não são um museu, então pedem a colaboração de € 1 para quem quiser tirar fotos.

Para mim, é mais uma loja de produtos naturais/regionais/sustentável que soube fazer muito bem sua divulgação e a gestão da marca. Mas a quitanda a alguns metros parecia estar vendendo bem mais, cada pessoa levando sua própria sacolinha de casa. Pelo menos, foi a impressão que tive…

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Os saquinhos de tecido são uma graça, mas conheço várias lojas, inclusive no Brasil, que também têm.

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Imagem bem familiar para quem frequenta lojas de produtos naturais.

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Tem bastante coisa com embalagem, como sopas, molhos e geleias, mas o vidro, totalmente reutilizável, é coerente com o conceito.

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Dá para comprar shampoo também, mas só tem essa marca.

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Bacana, mas não parece revolucionário.

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O charme que todas as lojas de produtos orgânicos aqui têm.

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Sim, temos feijão, e de vários tipos!

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Tem refrigerante também (mas as embalagens de todas as marcas são recebidas de volta em qualquer supermercado da Alemanha, para reciclagem, então não tem diferenciação nesse ponto).

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As embalagens de sopa estão lindas, mas acho que também tem para vender em supermercados bio, muito comuns aqui.

 

Até não poder mais

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Existe uma palavra em alemão muito interessante, que se chama ausschlafen. Schlafen é o verbo dormir; ausschlafen é dormir até acabar o sono. É quando a pessoa acorda sozinha, sem despertador, renovada, descansada, zerada e cheia de energia para começar de novo.

Ausschlafen é uma das delícias da vida (pratico sempre que posso), mas essa semana descobri outra palavra ainda mais bacana: ausleben.

Leben é o verbo viver. Ausleben é viver até a exaustão, até não poder mais, até esgotar todas as possibilidades, até completar a missão, até dar o caso por encerrado. Até morrer.

Achei tão lindo uma língua ter uma palavra para expressar essa ideia.

Vamos ausleben?

Entenda por que preconceito = preguiça de pensar

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O neurocientista Gregory Berns, autor do ótimo “O iconoclasta”, já explicou: nosso cérebro foi construído de maneira a consumir o mínimo possível de energia.

Fato é que, mesmo que a gente passe o dia inteiro deitado sem fazer nenhum movimento, o danado continua gastando; por uma questão de sobrevivência, ele teve que bolar um jeito de ser menos perdulário.

Para resolver isso, nossa CPU bolou alguns truques que a fazem ficar mais eficiente: um deles é rotular tudo o que lhe aparece pela frente, num esquema chamado categorização preditiva (o nome científico pode até parecer bonito, mas na linguagem popular isso é o mesmo que preconceito).

A coisa funciona da seguinte maneira: em vez de processar uma informação completa e cheia de detalhes toda vez que entra em contato com algum tipo de estímulo, o cérebro infere o que está vendo, ou seja, ele registra apenas uma parte da cena e conclui o resto.

Assim, nossos miolos escolhem algumas partes mais familiares que conseguem reconhecer e ignoram o resto. Isso economiza energia e funciona muito bem no dia-a-dia, mas destrói, sem dó nem piedade, toda nossa imaginação, cultura e capacidade criativa. É que sem trabalhar, nosso cérebro engorda e fica jogado o dia inteiro no sofá comendo besteira. Para ter ideias que mudem o mundo, precisamos de um cérebro atleta, saudável, em excelente forma física.

Por que então preconceito é a mesma coisa que preguiça de pensar?

Porque preconceito é exatamente isso: em vez de considerar todas as variáveis, a gente pega só um pedaço da informação e tira uma conclusão inteira. Claro que a conclusão vai se basear ou em experiências anteriores (não preciso analisar todos os elementos do feijão cada vez que saboreio uma feijoada; basta olhar um bago e já sei que gosto tem) ou em experiências de outros (minha avó dizia que os ciganos são todos dissimulados. Então eu, que nunca vi um cigano ao vivo em toda minha vida, já sei exatamente como eles são, pensam e sentem, só de ver uma moça de saia comprida).

Para quem quer obedecer cegamente à natureza e economizar energia de verdade, é simples. Pegue um livro antigo cheio de regras e cumpra-as à risca, sem questioná-las (melhor ainda, interpretando-as da maneira que exija o mínimo esforço mental possível). Repita opiniões terceiros sem nem ao menos checar se têm fundamento ou não. Leia só a manchete e não o texto inteiro. Interprete a palavra normal como sinônimo de certo. Veja só que econômico. Não se gasta praticamente nenhuma caloria nisso. E o cérebro fica lá, lerdo e flácido, mergulhado feliz no ócio do preconceito.

A única maneira de fazer o nosso sr. Preguiçoso fazer musculação e estar em forma para novos desafios é confrontar o sistema perceptivo com algo que ele não sabe como interpretar, pois nunca viu nada parecido antes. Isso força a criação de novas categorias de classificação.

É como se a gente tivesse prateleiras para guardar todas as informações dentro da cabeça, para recuperá-las quando precisar. Pois quem não questiona e só segue regras, tem meia dúzia de prateleiras montadas por outros, com ideias simplórias, repetidas, rasas e muito, muito preconceituosas.

Quando a gente lê, duvida, conhece novos lugares, novos hábitos e novas ideias, constrói guarda-roupas inteiros dentro da cabeça, cheios de prateleiras, gavetas e sistemas requintados de classificação. Não é que a gente não pratique mais a categorização preditiva, mas ela vai ficando mais refinada, mais precisa. Quando vejo uma moça de saia comprida, não basta colocá-la na única gavetinha disponível, aquela que herdei da minha avó; há uma imensidão de possíveis nichos para guardar aquela informação e, não raro, preciso construir mais um para acomodar a nova pessoa que acabei de conhecer.

No fim, esse trabalho infinito de marcenaria é a tal musculação. É o que nos faz humanos inteligentes, o que nos faz evoluir.

E não sou eu quem estou dizendo isso não. Uma pesquisa canadense aponta a forte relação entre pessoas conservadoras e um QI médio mais baixo, ou seja, os preconceituosos são menos inteligentes; depois de pensar sobre o que o Dr. Berns nos explicou, faz todo o sentido, né?

Quando alguém só tem meia dúzia de prateleiras para guardar tudo e vê algo que não se encaixa, seu cérebro ignorante simplesmente rejeita, diz que não presta e ataca, por puro medo do desconhecido. Nem sabe onde anda o martelo para o caso de ter que construir alguma coisa. Em casos extremos de burrice aguda, chega a bater ou matar só para não ter que levantar do sofá.

Você conhece tipos assim. Pessoas que, tendo cérebro, não o usam. Muitas dizem acreditar na existência de num Criador; mas será que não se dão conta que não há maior desrespeito que esse? Ter um cérebro e não usá-lo?

Acho que não. Para concluir isso, teriam que pensar.

Não precisa chutar o balde para empreender

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Basta abrir um site, uma revista, um jornal, ou mesmo ligar a televisão, para sermos bombardeados por histórias de pessoas que largaram um emprego chato e tornaram-se donas de seu próprio negócio. Dentistas que deixaram o consultório para abrir uma pousada, publicitários que abandonaram a agência para tocar um food-truck, executivos que trocaram as viagens frequentes por uma fábrica de bijuterias na garagem, engenheiros que, sei lá, viraram guias de turismo. Os relatos sempre são de pessoas muito felizes e realizadas, algumas até milionárias.

A questão é que as matérias são escritas de tal forma que a única conclusão possível é que trabalhar em uma empresa que não é sua saiu de moda há muito tempo e o indivíduo precisa ser mesmo muito acomodado para manter uma carteira de trabalho assinada. Omitem o fato de que, de acordo com o IBGE, 48% das empresas fecham as portas antes de completar três anos de vida; também se esquecem que nem todo mundo tem perfil para largar tudo e recomeçar do zero, e nem por isso são profissionais menos importantes ou menos valorizados.

Empreender significa experimentar, realizar, tomar iniciativa, colocar em prática. E para quem é empreendedor, fazer acontecer na sua empresa ou na de outrem dá no mesmo. Há pessoas que, por motivos diversos, preferem ter a segurança do salário, das férias remuneradas, do décimo terceiro e da licença médica quando precisar. Isso não quer dizer, de maneira alguma, que elas sejam acomodadas ou menos empreendedoras que aquelas que tentam carreira solo.

Convencer o chefe ou o departamento que a ideia é boa, factível e que pode ser lucrativa é tão difícil quanto convencer um investidor. Estruturar uma equipe com gente competente, engajada, com talentos complementares e sintonizadas com a visão da empresa é igualmente desafiador se você é o dono ou se é apenas o coordenador. Administrar o tempo e os recursos, cumprir prazos e não deixar faltar dinheiro é complicado em qualquer contexto. Um empreendedor carrega a proatividade no sangue, seja como dono, seja como colaborador.

O segredo, nos dois casos, é a  consciência da liderança.

O líder é um sujeito que consegue enxergar para o futuro e ver um cenário que deseja que se torne real. Como o líder quer muito que essa visão se materialize, pensa num jeito de fazê-la acontecer; estuda caminhos e descobre um jeito. Quanto mais ambicioso é o cenário, mais o líder entende que não consegue construi-lo sozinho — precisa de ajuda de outras pessoas, outros profissionais, outras competências. Precisa de mais gente que também tenha a mesma visão e que queira ir junto com ele no caminho para chegar lá.

Então, o que o líder faz? Apresenta esse cenário de maneira que consiga inspirar outras pessoas a segui-lo. Ele consegue comunicar a ideia de maneira que os seguidores consigam ver e entender o papel e a importância de cada um na construção do caminho. E tanto faz se ele precisa convencer o chefe, os companheiros de departamento, o gerente do banco ou futuros colaboradores que começarão ganhando pouco.

E tem mais: dependendo da complexidade do cenário, o líder entende que o caminho é longo, penoso e que não consegue dar conta sozinho. Aí, não tem outro jeito: ele tem que preparar alguns seguidores para assumir a liderança em determinados trechos. Os envolvidos sabem que o foco é a visão, o cenário futuro, que não inclui o umbigo de ninguém. Quem é o líder em qual parte do caminho é apenas um detalhe técnico.

Resumindo, o líder é alguém com uma visão e sabe como fazer para torná-la real. Quando faz isso em sua própria empresa, é um empreendedor. Quando faz isso numa organização da qual não é sócio, é um intraempreendedor.

As empresas sabem que líderes são valiosos e importantes para realizar sua visão; sem eles, não há como ter sucesso.

Então, se você não está disposto a arriscar tudo para abrir um negócio baseado na incerteza e prefere um pouco de segurança para ousar, o caminho é esse mesmo. Encontre uma empresa que compartilhe da sua visão, que esteja alinhada com seus valores e faça acontecer.

O mercado, a sua família, a empresa, os clientes, os colegas de trabalho e os investidores agradecem.

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Top 10: as fotos mais legais de maio

Seguem as mais votadas esse mês!

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O pessoal colabora como pode enfeitando a cidade para celebrar a primavera. Essa linda estava no Hackescher Markt.

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As bicicletas com cestinhas originais caíram no gosto do povo. De lá e de cá. Essa ponte pêncil maravilhosa fica na Friedrichsgracht, Mitte.

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A rua mais linda do mundo (na minha opinião, a Oderbergerstraße, em Prenzlauerberg, Berlim) estava florida de ponta a ponta, dos dois lados. O espetáculo só dura uma semana, mas vale pelo ano inteiro.

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Essa moça tem um amigo de verdade para todas as horas: dentro do provador da Zara ele aguardava, sem stress, o momento em que sua opinião seria solicitada…rsrs

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Casal de velhinhos simpáticos foi com o cão passear na floresta… quer dizer… uma das muitas ruas verdes de Schöneberg.

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Perdi o ônibus e resolvi fazer o trajeto a pé, olha que sorte. O paraíso estava bem no meio do caminho… em Moabit, na Dove Straße.

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Mais uma foto da lindíssima Oderbergerstraße (veja que as árvores ainda não tinham florescido; estão verdinhas). As tulipas são protagonistas na primavera.

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Sei que está ficando chato, mas eu não considero a Oderbergerstraße a rua mais bonita do mundo à toa; esse é só um exemplo do monte de cafés bacanas que tem por lá.

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Definitivamente, esse foi o mês da Oderbergerstraße. Ela estava mesmo deslumbrante, voltei vários dias para namorar um pouco essas flores todas. E quando se tem buquês naturais como esse amarelinho…

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Para fechar, esse portal amarelo, também na Oderbergerstraße. Gente, fala sério: é ou não é a rua mais linda do mundo?

E você, de qual delas gostou mais?

Como podemos ser menos canalhas?

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Estou me controlando para não ler mais nada em português (meu pobre alemão suplica para que eu diminua o relacionamento com minha língua mãe e lhe dedique mais tempo), mas está difícil.

Da última vez que estive no Brasil, tive a sorte e o privilégio de assistir uma palestra do brilhante professor Clóvis de Barros. Feliz com essa aula tão inspiradora, não pude resistir quando, na volta, já no aeroporto, fui aliciada na livraria pelo “Somos todos canalhas: filosofia para uma sociedade em busca de valores”, cria dele com o também professor de filosofia Júlio Pompeu.

Como já dizia meu ídolo Oscar Wilde, “posso resistir a tudo, menos às tentações”. Então vamos lá…

O livro já começa com um formato interessante; inspirados em Platão, os dois professores dialogam sobre o conceito de valor. Um escreve um texto, outro complementa, o primeiro refuta, o segundo defende e assim vai. O objetivo não é nos fazer chegar a uma conclusão, mas, apresentadas as ideias de filósofos consagrados e os conceitos que eles tinham de valor, fazer-nos pensar para entender, afinal, qual é o nosso conceito pessoal de valor (que é subjetivo e diferente para cada pessoa).

Na primeira parte, os professores apresentam o início da ideia de valor: a importância ou exatidão de uma coisa em relação a uma referência. O grande desafio é encontrar essa tal referência como sendo o sinônimo de melhor (que também é um conceito relativo).

Eles começam apresentando o que os gregos pensavam a esse respeito: o valor de uma ação humana é resultado da comparação entre ela e a ideia de virtude, em que os principais parâmetros seriam a verdade, a beleza e o bem.

Eles falam também que os gregos acreditavam que uma coisa tinha valor, e, portanto, era justa (ou seja, ajustada às virtudes), quando cumpria sua função no cosmos. Para usar tal conceito, partia-se do princípio de que o cosmos era perfeito e que cada coisa que existia nele tinha uma função específica: cabia a cada coisa e a cada ser descobrir sua razão de existir e executá-la da melhor maneira possível. Um profissional excelente, sob esse ponto de vista, seria o equivalente a uma árvore que desabrocha a partir de uma semente e desenvolve todo o seu potencial.

Mas essa teoria também admite que há pessoas que nascem para ser mato e, então, todo o esforço para virar árvore contraria a natureza, veja só. Dessa forma, para os gregos, existiam seres humanos melhores e mais valorosos que outros. Essa medida era dada segundo a função que a natureza lhes atribuía concedendo-lhes talentos específicos.

E eis que chegamos à segunda parte, que fala de Cristo e dos filósofos modernos. Aí houve uma ruptura radical no conceito de valor, começando do princípio que todos os seres humanos teriam as mesmas possibilidades e potencialmente, o mesmo valor, mesmo que desigualmente desprovidos pela natureza de recursos e talentos.

Enquanto para os gregos, a superioridade viria da riqueza dos talentos naturais, para os cristãos, viria do emprego que se faz do livre arbítrio, ou seja, como cada um usa os recursos que a natureza lhe deu para agir de acordo com os ensinamentos do Criador.

O Júlio chama atenção para uma coisa interessante: convivemos hoje em dia com os dois critérios simultaneamente. Às pessoas que nos são próximas, julgamos o valor pelas suas atitudes. Àquelas que não conhecemos, usamos o critério mais genérico, a natureza (quando estigmatizamos grupos inteiros por suas características étnicas, por exemplo).

Bem, a discussão filosófica segue longe, cada vez mais interessante.

De tudo, o que mais me marcou foi a definição atualizada de ética. O gregos definiam esse termo como a vida boa e feliz, em conformidade com a natureza e a função que ela auferiu a cada coisa e a cada ser vivo.

Acontece que a teoria de valores do filósofo Stuart Mill, denominada consequencialista, diz que o valor da conduta humana não está na intenção de quem age, como acreditam os cristãos, mas na eventual felicidade que proporciona a todos por ela afetados.

Clóvis se baseia nela, de certa forma, para cunhar o conceito de ética adaptado aos dias de hoje: “ética é o emprego da inteligência coletiva para o aprimoramento da convivência”.

Antiética, portanto, é a pessoa que não pensa nos outros, que não tem capacidade de empatia, que prioriza seu bem-estar e vantagens pessoais em primeiro lugar. E, com isso, voltamos ao título do livro, “somos todos canalhas”, ou seja, todos temos momentos em que nos despimos de nossa capacidade de empatia e desprezamos a convivência, o coletivo. Em que pensamos mais no nosso conforto do que no impacto que os nossos hábitos causam ao planeta e aos outros seres humanos. Por isso, somos canalhas.

Ao reconhecer o fato depois da bela aula desses dois filósofos contemporâneos, fica a questão: se queremos uma convivência melhor (menos guerras, menos violência, menos poluição), como podemos trabalhar para ser pelo menos um pouco menos canalhas?

Temos que achar rápido essa resposta, o mundo está se desintegrando enquanto a gente discute…

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Jardim das xícaras

Adoro comprar loucinhas nos mercados de pulgas, mas algumas xícaras maravilhosas acabam ficando sem pires no meio da bagunça das caixas onde são expostas. Resolvi levá-las mesmo assim e arrumei um jeito de olhar para essas lindas todo dia quando acordo: elas se transformaram em charmosos vasos para suculentas.

Será que você também não tem umas louças que poderiam virar jardim? Dá uma procurada!

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Top 10: as fotos mais legais de abril

Todo dia compartilho nas redes sociais as belezuras que fotografo por aí. Em abril, essas foram as que mais geraram comentários e likes.

Você concorda?

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Esse por-do-sol incendiário conquistou o coração dos leitores. Mas como não?

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A vista de cima da Oberbaumbrücke, no bairro de Kreuzberg, mostra a torre de TV, o logo da Mercedes e uma bicicleta. Quer mais Berlim do que isso?

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Grafite na Bullowstraße, Schöneberg: um banho de luz para todos nós…

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Um dia de sol é tudo que um berlinense precisa para ser feliz.

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O Volkspark de Schöneberg sempre lindo e inspirador.

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Essa cena é muito comum por aqui: um pai todo descolado, com o filhote a tiracolo e o cachorro, indo a algum lugar de metrô. Muitos acharam-no parecido com o estilista brasileiro Alexandre Herchcovitch; também achei.

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A vista de cima do Hotel Park Inn mostra a torre de TV bem de frente.

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A cidade encerejada conquistou corações e mentes de todos <3

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Um dia feio, porém lindo.

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Mais cerejeiras se exibindo sem cerimônia. Elas ficam impossíveis na primavera!

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Revaler 99

Imagina um terreno enorme, cheio de galpões igualmente imensos, além de muita área livre, onde em 1867 foi construída uma oficina de manutenção de trens para a empresa ferroviária real prussiana; para se ter uma ideia do tamanho, em 1882 a organização chegou a empregar 1200 funcionários.

Com a reunificação da Alemanha, aos poucos as oficinas passaram para outras regiões com mais infra-estrutura e ficou tudo abandonado até 1999, quando uma associação cultural arrendou o lugar.

Pela quantidade de galpões, muitos deles parcialmente demolidos, às vezes o local parece um pouco sinistro; mas só parece. Na verdade, trata-se de um “antro” de criatividade, arte, esportes radicais e economia sustentável.

RAW-tempel (RAW é a abreviação de Reichsbahnausbesserungswerk, ou oficina imperial de manutenção de estradas de ferro) é o nome da associação cultural que administra o lugar e arrenda os galpões para todo tipo de atividade cultural. Hoje em dia tem arena coberta para skate, escola de escalada, taekwondo, meditação, cross-fit, casas de show e discotecas (Astra, Cassiopeia, Suicide Circus, RAW Club, etc), galerias de arte (Urban Spree e Art RAW) e até um delicioso e imperdível festival de street-food que acontece todo domingo à tarde no Neue Heimat (que também funciona como clube de jazz), além de estúdios de design e fotografia.  Nos domingos de verão, também abriga um mercado de pulgas bem interessante e, em algumas datas, cinema ao ar livre.

O lugar é inteirinho grafitado e frequentado por todo mundo que gosta de arte; na minha opinião, a mais completa tradução de Berlim.

Fica na Revaler 99, Friedrischain, bem pertinho das estações de trem e metrô da Warschauer Straße.

Mas vá antes que acabe; vi no jornal que a área foi vendida a uma incorporadora na semana passada. Tomara que não queiram acabar com um dos locais mais charmosos e icônicos da cidade…

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Grafites estão por toda parte.

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Pista de skate coberta pra ninguém botar defeito.

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Aqui até o entulho vira arte.

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Num dos dias que fui, tinha uma feira de quadrinhos na galeria Urban Spree.

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Esses galpões sinistros… 

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Torre de escalada (faz parte de uma escola e também tem paredes internas de várias alturas próprias para a prática). 

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Bom-humor sempre, em toda parte.

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Street-food aos domingos, não dá para perder!

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Mercado de pulgas que só funciona no verão.

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Fila para entrar nos galpões de street-food.

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Para se exercitar…

Supertex

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Meu programa favorito no final de semana é visitar mercados de pulgas (e em Berlim, opção é o que não falta), até porque tem sido minha principal fonte de fornecimento de louças e livros.

As louças são maravilhosas e únicas (qualquer dia as mostro aqui) e os livros não ficam atrás, principalmente por causa do preço. Todas as feiras têm muitas barracas que oferecem livros quase novos ao preço irrisório de €1,00. Impossível resistir.

Pois o livro dessa semana foi o Supertex, do holandês Leon de Winter. Ele me conquistou já pela capa e pela encadernação forrada com tecido, fitinha de seda para marcar a página e tamanho de bolso. Do autor eu nunca tinha ouvido falar, mas a editora costuma publicar boas obras nessa coleção de luxo.

Max Breslauer é o principal executivo do império de lojas populares de roupas baratas que herdou do pai, a tal Supertex do título. Ele abandonou uma promissora carreira de advocacia depois que a mulher o deixou e acabou indo ajudar o pai nos negócios. As rusgas e os mal entendidos, que vinham desde a infância, tornam-se mais acentuadas quando os dois começam a trabalhar juntos e transformam-se num dilema quando o pai morre afogado inesperadamente poucos anos depois e ele precisa assumir os negócios.

A história começa com um pequeno acidente de trânsito que desencadeia uma crise existencial no protagonista; ele usa seu poder e dinheiro para conseguir uma consulta de um dia inteiro com uma respeitada terapeuta e começa a contar sua história.

Aqui vi uma técnica narrativa que ainda não conhecia; a história do protagonista é menos interessante do que a de todos os outros personagens coadjuvantes. A história do pai, um judeu sobrevivente da guerra, do irmão, da ex-mulher, da namorada do irmão e até do sogro do irmão são muito mais atraentes e surpreendentes. Tudo gira em torno da religião, da fé (que ele não tem) e dos costumes judaicos.

O cenário principal é Amsterdam e uma parte da história se passa em Casablanca. Ainda não visitei nenhuma das duas cidades, mas fiquei muito curiosa.

Andei dando uma pesquisada e encontrei apenas o original holandês e uma versão em espanhol na Amazon (eu li em alemão). Penso que o autor ainda não foi traduzido para o português; uma pena.

Vou procurar outras obras dele; para quem tiver acesso, recomendo bastante.

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