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De noite, na cama…

Afterdark von Haruki Murakami

Afterdark von Haruki Murakami

Muita gente pergunta como consigo ler um livro por semana se estudo e trabalho em tempo integral.

Bom, além de não ter filhos, o que facilita bastante (não sei como as mães conseguem dar conta da vida!), ajuda o fato de que também não vejo televisão (deveria ver mais, pois seria melhor para o aprendizado da língua, mas não tenho paciência). Some-se a isso o fato de que não saio de casa sem um livro na bolsa (não ter que dirigir ajuda demais) e que não durmo sem ler pelo menos uns dois capítulos, fica fácil. Vira um hábito, como escovar os dentes. Não importa a que horas eu me deite, preciso ler antes de cair no sono.

Como dorminhoca de marca maior, fico encantada com as pessoas que conseguem dormir pouco e, mais; conseguem ficar acordadas durante a noite toda. Minha cabeça simplesmente para de funcionar se eu ficar muitas horas seguidas acordada; jamais poderia ser médica. Acho que por isso fiquei tão atraída pelo título desse romance do Haruki Murakami chamado Afterdark (o título continuou em inglês, mesmo na tradução alemã).

A história se passa em uma única noite e conta a história de uma moça chamada Mari que resolveu passar a noite fora de casa porque queria um pouco de paz e solidão (ela disse para os pais que dormiria na casa de uma amiga). Numa lanchonete em Tóquio, entretida na leitura de um tijolão, encontra por acaso um rapaz que só viu uma vez na vida, numa piscina pública. Aos poucos a história vai se desenrolando: a irmã da moça é uma beldade que atrai todos os rapazes, mas, por algum motivo desconhecido, está dormindo há dois meses. Acorda para comer e tomar banho, não interage com ninguém e cai novamente em sono profundo.

Mari, que estuda chinês, é chamada por uma conhecida do rapaz para ajudar numa emergência. A conhecida, uma ex-lutadora de boxe, agora é gerente de um hotel de encontros e precisa se comunicar com uma prostituta chinesa que apanhou de um cliente e teve todas as suas coisas roubadas. Mari, o rapaz, que é músico, a gerente do hotel e suas funcionárias conversam e trocam impressões durante essa longa noite cheia de experiências e aprendizados.

A história não tem nada de excepcional, mas gosto da maneira como Murakami vai narrando os fatos.

Se você tem insônia, taí uma ótima dica de leitura.

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Top 10 de janeiro

Janeiro teve neve e muito branco, mas também muitos cenários coloridos em Berlim. O que você prefere?

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1. Ir para a escola de manhã e dar de cara com esse cenário é uma das melhores sensações que há. 

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2. O rio em processo de congelamento é uma coisa muito linda (e gelada) de se ver.

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3. Aqui ainda tem uns pedaços de gelo na água. Rio Spree passando pelo bairro Moabit, em Berlim.

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4. Às vezes me sinto como se estivesse dentro de um filme. Com essa foto fica fácil entender por quê.

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5. Minha primeira boneca de neve é uma japa mal humorada, mas cheia de charme. Fez sucesso; saiu até na seleção de fotos de bonecos de neve do portal de um jornal aqui de Berlim…rs

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6. Por do sol às quatro da tarde. É cedo, mas é lindo! Rio Spree no bairro Moabit.

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7. Esse cisne estava entretido tentando passar por entre as placas de gelo (esse bicho tem uma pata enorme; agora entendo porquê).

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8. Minha mão quase congelou esperando passar um trem, mas acho que valeu a pena, né?

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9. Adoro ver músicos carregando seus instrumentos pela rua, mas geralmente as capas são pretas. Achei essa mais estilosa; tive um monte de ideias para pintá-la…rsrs

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10. Essas pombas são funcionárias da torre de TV; elas não faltam ao trabalho um dia sequer. Um exemplo!

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Vidas extraordinárias

Desde a última vez que estive no Brasil, em dezembro do ano passado, estou para compartilhar uma experiência riquíssima que tive em Belo Horizonte; fui convidada a assistir uma palestra sobre inclusão de pessoas com deficiência promovida pelo Programa SENAC de Acessibilidade. As histórias que ouvi, na ocasião, fizeram-me ver as coisas de um modo totalmente novo.

Primeiro, aprendi que o termo “pessoas portadoras de deficiência” não é adequado, pois tudo que é portado por alguém, não faz parte da pessoa, e pode ser retirado quando não for mais necessário. Posso portar uma bolsa, um crachá, um telefone. Mas não uma deficiência.

A expressão “pessoas com necessidades especiais” também não cabe, pois necessidades especiais são 300 toalhas brancas no camarim de um astro pop, por exemplo. Quem apenas quer se locomover, trabalhar, viver, não tem está pedindo nada de especial; são necessidades básicas de qualquer ser humano.

Pessoa deficiente” enfatiza uma qualidade negativa que não é o principal fator identificador daquele ser humano. Então, o mais adequado é “pessoa com deficiência“.

No total, foram quatro palestras muito inspiradoras e transformadoras. Primeiro, fiquei conhecendo o projeto Mano Down, um trocadilho bem-humorado com o nome do famoso rapper brasileiro Mano Brown. Leonardo Gontijo tem um irmão caçula, o Dudu, com síndrome de Down. Desde a infância, os dois são muito ligados e Leonardo resolveu se dedicar a fazer de Dudu uma pessoa autônoma e realizada. Dudu do Cavaco, como é mais conhecido, é músico e faz shows e palestras por todo o Brasil. Uma linda história de amor entre dois irmãos.

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Leonardo Gontijo e Dudu do Cavaco, o Mano Down.

Depois da palestra esclarecedora da advogada Patrícia Siqueira, do Ministério do Trabalho, sobre as leis de cotas nas empresas, veio a incrível história do David. Um moço bonito e inteligente, de 27 anos, cheio de dúvidas, questionamentos e desejos; exatamente como você e eu. Só que o David nasceu sem as pernas e com apenas o toco do braço esquerdo. O mais incrível do caso dele, para mim, foi a atitude da mãe. Grávida aos 17 anos e sozinha (o pai do menino não quis nem saber e desapareceu assim que soube da gravidez), fez tudo que estava ao seu alcance para fazer do filho uma pessoa independente e com uma autoestima saudável. Lutou para que ele sempre estudasse em escolas públicas comuns, frequentasse todos os programas dos garotos da idade, andasse pela cidade sozinho e sem auxílio, enfim. Essa mulher é um ser humano realmente excepcional, conseguiu fazer com que a falta dos membros do filho fosse apenas um detalhe na vida dele (e dela). O resultado é o que David conseguiu estudar (faz Direito), viaja e se locomove sozinho com o auxílio de uma cadeira de rodas elétrica e trabalha como palestrante na mesma empresa que me representa no Brasil, a DMT Palestras. Não é para encher de orgulho todos os envolvidos?

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David Cesar, meu colega de trabalho.

Por último, impossível não se encantar com o bom-humor dos Irmãos FOT, os queridos Romário e Ricardo Fot. Eles são gêmeos e se descobriram completamente cegos aos nove anos de idade, vítimas da “Síndrome do olho de gato“. Mas isso não os intimidou: ambos têm curso superior e pós-graduação, sendo que o Ricardo é professor em uma faculdade de administração. Os dois também viajam pelo Brasil dando palestras, ajudando as empresas a entender e incluir a diversidade nos seus quadros.

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O Brasil tem nada menos de 45 milhões de pessoas com algum tipo de deficiência, que você não vê porque elas sequer conseguem andar na rua, quando mais estudar. Nem toda pessoa com deficiência tem uma família estruturada, bem resolvida e amorosa para ajudar a superar tantas dificuldades. Quanto mais gente conhecer a realidade, mais se perderá o medo do desconhecido e se aproveitará esses talentos desperdiçados.

Se você tem uma empresa, penso que seria de grande valia contratar qualquer um deles (ou todos); empatia, superação, proatividade e, principalmente, muito amor envolvido. Só pode fazer bem.

Muito obrigada, SENAC/MG, Tio Flávio Cultural e DMT Palestras; vocês, como sempre, me proporcionando essas experiências inesquecíveis.

Dois policiais

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Nas minhas peregrinações em mercados de pulgas atrás de livros bacanas, encontrei esses dois policiais: um que achei chato e outro muito bom.

Vamos falar primeiro do “Hunde von Riga“, do Henning Mankell. A tradução do título é “Cães de Riga” e me chamou atenção porque Riga é a capital da Letônia e está na minha lista de cidades para conhecer urgentemente, pois dizem que é linda. O autor é sueco (os suecos são ótimos para escrever thrillers; vide a trilogia Millenium do Stieg Larsson) e o comissário que investiga os crimes chama-se Kurt Wallander. Depois descobri que o tal Wallander é famoso e protagoniza uma série que passa na televisão; então esse é apenas um dos episódios.

O que achei? Para um thriller, arrastadíssimo. O tal Wallander, na minha opinião, deveria se chamar “Mallander”, pois as coisas acontecem e ele apenas observa.  Inseguro, presa fácil de mulheres complicadas, o sujeito não tem nenhuma ideia brilhante na história e o crime acaba se resolvendo sem a participação dele. Mesmo assim, parece que a maioria não compartilha da minha opinião, pois se até um seriado o personagem ganhou, então talvez ele não tenha se saído bem apenas nessa história. Quem sabe eu ainda dê uma outra chance para esse “Mallander”. Vou pensar.

Já o segundo livro, “Fundort Jannowitzbrücke“, é o romance de estreia de Stefan Holtkötter, que em 2005, quando o livro foi publicado, trabalhava como consultor motivacional para desempregados durante o dia e complementava a renda como Barman durante a noite, em Berlim.  Nesse meio tempo, o moço ainda conseguiu tempo para escrever a história. O título me atraiu porque Jannowitzbrücke é uma ponte que fica a apenas algumas quadras de onde moro, e abriga uma estação de trem. O livro conta a história de um serial killer que mata moças com um perfil bem específico até que uma foge do padrão. O bacana é que há o comissário problemático (aqui o moço se chama Michael Schöne), mas também uma equipe de investigadores de polícia bem treinados que não deixa espaço para um herói. O sucesso do trabalho depende da colaboração e sensibilidade de cada um, como, aliás, é comum no seriado Tatort do qual já falei aqui.

O que achei? Sensacional! Além das paisagens bem conhecidas (boa parte da ação se passa entre a Alexanderplatz e Kreuzberg, locais próximos), o roteiro é bem escrito e ele consegue manter atenção até o final. Pelo que vi, a carreira do moço decolou, pois já lançou 11 livros depois desse e agora é autor em tempo integral. Vou procurar outros!

 

Como ver o mundo

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Encontrei “How to see the world”, do professor de mídia, cultura e comunicação da New York University, Nicholas Mirzoeff, num cantinho da livraria do Kultur Forum, em Berlim. Estava saindo meio atordoada da belíssima exposição Boticelli, que reúne originais e releituras, quando dei de cara com essa brochura linda da coleção A Pelican Introduction (já vi que tem outros títulos ótimos).

Como resistir a alguém que se propõe a ensinar a gente a ver o mundo? Dica: não resista. Vale cada sílaba impressa. Os capítulos são divididos em: Como ver o mundo; Como ver você mesmo; Como pensamos sobre o ato de ver; O mundo da guerra; O mundo da tela; Cidades mundiais, mundos de cidades; O mundo em mudança; Mudando o mundo; Ativismo visual.

É muita coisa para resumir numa resenha de uma página, mas, na minha opinião, já na introdução ele mostra a que veio e apresenta números impressionantes (e atuais,  pois o livro é do final de 2015) como o fato de 52% da população da Nigéria ter menos de 15 anos (assim como 40% de toda a população da África Sub-Sahariana). Tanto na Índia como na China, mais da metade da população tem menos de 25 anos de idade. Que 6 bilhões de horas de vídeo são assistidos todos os meses no Youtube, uma hora para cada pessoa na Terra. Somente no ano de 2014, um trilhão de fotos foram tiradas; um belo número, se a gente considerar que até 2011, todas as fotos existentes somavam 3 a 5 trilhões. Até o final da década, segundo o Google, serão 5 bilhões de pessoas conectadas à internet (em 2012, mais de 33% da população já tinha acesso).

Ele conclui que, querendo ou não, somos uma sociedade cada vez mais visual e a tendência é aumentar a comunicação por esse meio, uma vez que o mundo é majoritariamente jovem e vive nas cidades. E a internet não é mais um meio de comunicação de massa. É o primeiro meio universal do Planeta Terra.

Ele mostra que isso também mudou a maneira como vemos as coisas e o mundo.

Nicholas usa como exemplo uma foto da Nasa, de 1972, tirada pelo astronauta Jack Schmitt, tripulante da Apollo 17. A imagem intitulada “Mármore Azul” é uma das mais reproduzidas até hoje, pois pela primeira vez o planeta aparece inteiro numa fotografia. Ele a compara com a mesma foto tirada em 2012, que utiliza uma montagem de várias imagens de satélite com as cores e distorções corrigidas. É mais exata que a foto original, mas é falsa. É uma montagem. Ninguém foi lá e fez o click. A imagem é uma combinação de informações mais precisas, porém, parciais. É assim que estamos vendo o mundo agora.

E mais; no mesmo ano de 2012, o astronauta japonês Aki Hoshide estava na mesma situação de Jack Schmitt, mas em vez de fotografar a Terra vista do espaço, ele virou a câmera e fez uma selfie. A Terra aparece em segundo plano, no reflexo do seu capacete. Mais emblemático, impossível.

Não à toa, o primeiro capítulo é todo sobre o fenômeno das selfies. O bacana é que o autor não gasta tempo fazendo críticas a “essa juventude que está aí”. Ele analisa fatos, tendências e nos ajuda a ver esse mundo tão surpreendente, conectado, imediatista e cada vez mais visual.

Mirzoeff afirma que cultura visual envolve as coisas que nós vemos, o modelo mental que define como e o que nós vemos, e o que podemos fazer com o resultado disso. Cultura visual é a relação entre o que percebemos visível e o nome que damos ao que está sendo visto. E isso implica em conhecer também o que é invisível, o que não percebemos.

Ele ainda diz que o conceito de cultura visual mudou de 1990 para cá; antes, tínhamos que ir ao cinema para ver filmes, ao museu para ver exposições, ou visitar alguém em casa para ver suas fotografias. E ele diz mais: “Ver não é acreditar. É algo que nós fazemos, uma espécie de performance”.

Olha, vale ler o livro inteiro. Ele fala sobre os grafites, os mapas, a diferença conceitual entre as atuais selfies e os antigos auto-retratos, as mudanças climáticas, a arte contemporânea, o fenômeno da urbanização, a comunicação e a conexão nas cidades, e, principalmente, sobre como é possível mudar o mundo por meio de mensagens visuais.

Vai lá. Garanto que você não vai se arrepender.

Para que serve uma palestra?

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Dia desses, ao saber que viajo frequentemente ao Brasil para ministrar cursos e palestras para empresas, uma pessoa me perguntou: ok, cursos eu entendo que as empresas contratem, elas precisam dar treinamento para seus colaboradores desenvolverem novas habilidades. Mas por que alguém pagaria por uma palestra?

Boa pergunta, viu? E muita gente tem a mesma dúvida; então vou tentar responder o melhor que puder.

Bem, em linhas gerais, existem três tipos de palestras corporativas: as motivacionais, as biográficas e as informativas*.

As motivacionais são aquelas onde o palestrante transforma o senso comum em show. Elas servem para inspirar os colaboradores, fazer com que eles repensem seu dia-a-dia, mas não trazem informações novas; a base é o entretenimento. Nesse caso, vale tudo: teatro, música, performances, dinâmicas, piadas, desafios, cenários, etc.

As biográficas são histórias de vida contadas por alguém que teve uma experiência especialmente interessante. Geralmente são apresentadas por pessoas famosas, empresários bem-sucedidos, sobreviventes de catástrofes, aventureiros, pessoas com talentos especiais, atletas, jornalistas, artistas, escritores, enfim, expoentes em alguma área.

As informativas (onde me encaixo, pois não tenho talentos especiais nem sou famosa…rs) são palestras que compartilham algum tipo de conteúdo técnico, mas apresentado de maneira acessível e atraente aos leigos. São específicas para determinadas áreas e geralmente ministradas por professores ou profissionais reconhecidos. A ideia é contextualizar o assunto e provocar na audiência curiosidade para saber mais e buscar aprofundamento. Por isso, nesse tipo de palestra, quase sempre são fornecidas referências adicionais (livros, vídeos, textos) que as pessoas podem procurar depois.

Essa classificação não é estanque e pode se misturar, mas penso que em linhas gerais, é isso. As palestras motivacionais e biográficas são as mais valorizadas em termos financeiros; talvez as pessoas gostem mais de shows e de saber detalhes da vida alheia… brincadeira! Penso que o verdadeiro motivo é porque o primeiro tipo exige um enorme talento artístico para transformar eventos banais do dia-a-dia em grandes espetáculos transformadores; tem que ser muito bom mesmo. E gente famosa ou com vida extraordinária, além de rara, sempre é fonte de curiosidade.

Mas vamos falar um pouco mais sobre o valor das palestras informativas. A pergunta era: para que elas servem mesmo?

Minha resposta taxativa: para economizar o tempo e o dinheiro das empresas e dos participantes.

Vamos pensar: para apresentar o assunto tratado, o palestrante terá que ter feito muitos cursos sobre o assunto, comprado/lido/estudado dezenas de livros e trabalhado bastante sobre as ideias de vários autores até concluir alguns pontos que tornem esse conhecimento útil para ser aplicado na vida real. O próximo passo é arquitetar uma maneira de apresentar os fundamentos e as conclusões de maneira clara, didática, rápida e, principalmente, atraente; tudo isso em algumas dezenas de minutos (palestras costumam ter, no máximo, 90 minutos). Quanto mais curta a palestra, mais difícil é estruturá-la, mais trabalho dá.

Imagine se cada participante tivesse que fazer todos os cursos, ler todos os livros e conhecer todos os autores só para ter uma ideia geral sobre determinado tema que ele ainda nem sabe se se é ou não relevante para a empresa, se a ferramenta ou método apresentados são ou não adequados aos problemas da gestão atual, se a abordagem é ou não interessante, pertinente ou oportuna para a realidade de seu mercado. Complicado, demorado e caro, né?

Então, para saber se valeu a pena a empresa pagar por uma palestra, ela deve pensar quanto dinheiro foi economizado e quanto valor foi produzido no evento.

Mas, para evitar desperdícios e insatisfações generalizadas, é necessário que os organizadores cuidem de alguns aspectos; a negligência de um deles pode colocar tudo a perder.

— Certificar-se que o assunto interessa à plateia, que deve conseguir ver utilidade ou valor no tema.

— Verificar o nível de conhecimento dos participantes sobre o assunto para evitar que saiam sem nenhuma informação ou referência nova além das que já tinham; que pelo menos consigam ver a questão sob um ângulo que amplie sua visão.

— Informar-se sobre o palestrante; se domina o tema e se costuma apresentá-lo de maneira organizada e atraente, respeitando o tempo disponível.

— Cuidar para que a apresentação ajuste-se ao perfil e à linguagem do público.

— Preparar o ambiente para que ele favoreça a comunicação.

— Observar se o momento é adequado.

Por motivos óbvios, acredito fortemente que palestras são fontes de valor e podem trazer muitos benefícios para as empresas de uma maneira rápida e relativamente barata. Basta que a contratação seja adequada e observe os fatores acima.

De minha parte, adoro assistir palestras tanto quanto compartilhar as coisas que aprendo.

Para mim, um excelente investimento, especialmente em tempos de crise. E para você?

——-

NOTA: * Essa classificação eu acabei de inventar, pois pesquisei e não encontrei nada que ajudasse a explicar melhor o que estou tentando dizer.

Top 10 de dezembro

Uma das resoluções de ano novo é voltar a dar atenção ao blog, que está meio abandonado por excesso de trabalho.

Esse foi um mês bem variado, pois comecei em Belo Horizonte e passei por uma conexão longa em Lisboa, a caminho de Berlim, o que rendeu várias fotos.

Aqui selecionei as que ganharam mais curtidas nas redes sociais nesse período. E você, já escolheu sua preferida?

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1. Essa foto é o famoso e tradicional edifício Maletta, no centro de Belo Horizonte, visto da varanda do Centro de Referência da Moda, do outro lado da rua.

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2. A belíssima igreja de Lourdes, tradicional de Belo Horizonte, ao fundo dessas flores lindas (azaleias?).

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3. Essa foto foi tirada minutos antes da chuva alcançar o Mirante Caixa D’Agua, em Belo Horizonte, e eu me molhar toda…rsrs

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4. Na hora de embarcar para casa, tive a sorte de ter uma conexão longa em Lisboa. Aproveitei para dar uma voltinha por essa cidade querida…

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5. Essa foto foi um mistério para muitos, que acham que tenho muito talento para operar o Photoshop (nem tenho o programa instalado…rsrsr).

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6. Essa imagem solucionou o mistério da foto anterior. Adoro esse parque de diversões próximo à Alexanderplatz, em Berlim. Ele só funciona um mês por ano, até a véspera do natal.

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7. Os crepúsculos no inverno são inesquecíveis, pois o sol está mais inclinado e eles duram bastante tempo. Cheguei a me emocionar nesse dia, na Ilha dos Museus, em Berlim.

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8. Trabalho aqui perto, no bairro de Moabit. A foto foi tirada às margens do rio Spree, esse maravilhoso.

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9. Essa foto fez sucesso porque todos se posicionaram perfeitamente para encaixar na composição (na verdade, foram muitas fotos em sequência, até sair essa)…rsrs

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10. Essa foi a campeã de likes, mas o momento foi muito especial mesmo. Como o inverno demorou a chegar, as aves migratórias ficaram meio desorientadas; passaram dias vagando em bando pela cidade. Mas agora esfriou de verdade e tudo voltou ao normal.

Sempre me perguntam

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Nessa temporada no Brasil, estou ministrando palestras e cursos em várias cidades. No final, sempre me fazem perguntas curiosas que nada têm a ver com os temas abordados, mas dessa vez, uma das questões mais frequentes passou a ser mais frequente ainda; virou frequentíssima. A ponto de me motivar a escrever a respeito.

É fato conhecido que tenho 49 anos de idade e não tenho filhos. Pois essa é a questão que mais intriga moças e rapazes que me assistem e vêm conversar. As frases que mais tenho ouvido ultimamente: “Você não se arrepende? Todo mundo diz que vou me arrepender…“;”Também não quero ter filhos, mas não tenho como explicar isso às pessoas; será que sou anormal?“; “Todo mundo diz que não serei uma mulher completa sem filhos…“; “As pessoas dizem que sou muito egoísta porque não quero ter filhos“; “Minha mãe diz que nunca conhecerei o amor incondicional“; “Meu marido não quer ter filhos também e todo mundo acha isso muito estranho“. Mulheres que não têm filhos conhecem essas frases muito bem e muitas outras mais (reuniões familiares em épocas natalinas são prolíficas nesse tipo de comentário).

Bom, vamos comer a alcachofra pelas pétalas.

Não, não me arrependo. Minha vida é exatamente da maneira como eu queria que fosse. Não consigo me imaginar sendo mãe. Meu marido também está muito feliz com essa situação. Fui fazer terapia há alguns anos por causa das cobranças e não, não há nada errado comigo e nem posso ser diagnosticada como sendo mais egoísta que a média. Sou uma mulher perfeitamente normal e completa (seja lá o que isso queira dizer).

Uma ideia simples que parece ser quase impossível para a sociedade entender é que os seres humanos são diferentes; essa é justamente a graça e a riqueza do mundo. Há pessoas com raças, credos, orientações sexuais, visões, cabelos, corpos, estilos de vida, gostos pessoais e opiniões muito diversas umas das outras. Ainda bem que é assim.

Há mulheres que sempre sonharam ser mães, como a minha irmã. Que ótimo! É uma das melhores mães que conheço. Mas também tem mulheres que nunca tiveram esse sonho. Ok, sem problemas. Acho maravilhoso as que decidem adotar; para mim isso sim é que é amor incondicional. Não é seu sangue, não tem seus genes, mas você ama aquele ser como uma parte sua.

Existem inúmeros motivos racionais para não se ter filhos nos dias de hoje. O mundo está superpopuloso e sabe-se que precisaríamos de quatro planetas Terra para que todos os atuais habitantes pudessem usar a mesma quantidade de comida, água, energia que eu e você, que está lendo esse texto, usamos. Não temos 4 planetas. E o número de viventes está aumentando exponencialmente de forma assustadora. Há também a violência, as drogas, etc. Mas não vale a pena se aprofundar no tema porque o motivo que faz com que uma pessoa escolha ou não ter filhos não é racional. É total e inteiramente emocional.

Essa é uma escolha que muda a vida. Não apenas da pessoa, mas da criança. Por isso, o desejo de procriar tem que ser muito forte.

Na minha opinião, se somente as pessoas que realmente quisessem ter filhos o fizessem, não estaríamos nessa situação enlouquecedora. Pessoas que de fato, do fundo do coração, querem se dedicar a formar e educar outros seres humanos, deviam fazer isso com gosto. As demais, principalmente os que não têm 100% de certeza, poderiam pensar mais um pouco, para o bem de todos. E o Estado, que também seria muito beneficiado, deveria apoiar, principalmente porque ainda há mulheres demais sem esse direito básico e fundamental de escolher, seja por questões práticas, seja por pressão cultural.

Tenho várias amigas da minha idade e até bem mais velhas sem filhos; não conheço nenhuma que tenha se arrependido da decisão. De qualquer maneira, se isso acontecer, sempre poderão adotar; o que não falta é criança jogada no mundo por quem nunca as desejou.

Mas também conheço muito mais mães do que gostaria que me confessaram que, se tivessem ideia de como seria ter um filho (que hoje amam mais que tudo), não o teriam tido. Sonham com uma máquina do tempo que faça tudo ser como antes. Esse arrependimento, do meu ponto de vista, é o pior, pois não tem conserto.

Meninas e rapazes que sonham em ter filhos: façam isso e caprichem. Meninas e rapazes que não querem ter filhos: não há nada errado com vocês, não há nada para explicar, apenas sejam felizes.

É isso.

Top 10 de novembro

Olha só a lista das 10 fotos minhas mais curtidas nas redes sociais em novembro. Tem o outono de Berlim e todas as cores de Belo Horizonte. Farra para os olhos. Da boa!

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1. Já tinha decoração de natal no começo do mês na Nikolai Viertel <3

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2. Fiquei feliz porque o povo entendeu o que eu queria nessa foto: que a deusa da Coluna da Vitória parecesse que estava alçando voo…

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3. Essa luz no fim do dia (às 4 da tarde) encanta mesmo todo mundo. Impossível não admirar…

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4. Ruiva exibida e modelo profissional. Imagine o tanto de fotos em que ela aparece!

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5. Senhorzinho meditando no porto histórico da cidade.

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6. Meus meios de transporte preferidos: metrô, bicicleta e um bom par de pernas  :)

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7. Essa foto está de cabeça para baixo (achei mais legal assim). O mocinho se deixou fotografar no capô de um carro; deve estar acostumado com essa vida de modelo :)

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8. Todo mundo ficou hipnotizado com as janelas do Sheraton em Belo Horizonte. Não os julgo, também fiquei.

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9. Gente, esse tiozinho fofo fez questão de posar com um sorrisão quando viu que estava sendo fotografado. Tem como não amar?

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10. Belo Horizonte tem grafites maravilhosos. Esse é só uma amostra <3

 

Arquitetura do treinamento

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Sabe quando você ganha um presente que impacta a visão que você tem do seu trabalho e muda tudo daí pra frente? Melhor presente, não é? Pois ganhei um desses da empresa que me representa no Brasil, a DMT Consulting, por meio do seu braço especializado em cursos abertos, a DMT Inspira.

A mágica aconteceu num encontro presencial de dois dias inteiros sobre arquitetura do treinamento, facilitado pela querida e competentíssima Fernanda Godoy, cujo trabalho extraordinário ainda não conhecia. Tive que rever, criticar, desconstruir e reavaliar todos os cursos que ministrei até hoje (céus, como ainda tenho que comer feijão para fazer um trabalho memorável!).

Enquanto uma palestra serve para provocar reflexões, um treinamento existe para que um determinado grupo melhore sua performance por meio da repetição, fundamental para desenvolver uma habilidade específica. Por isso, é tão importante que um treinamento esteja fundamentado em apenas um conceito a ser trabalhado por vez. Eu disse UM.  E é necessário que essa performance possa ser medida e comparada depois. Ou seja, a avaliação de um curso não tem nada a ver com o fato dos participantes terem ou não ido com a cara do facilitador, se o coffee-break estava bom, se o ar-condicionado estava gelado ou se os conhecimentos de quem estava orientando os trabalhos estavam à altura do desafio. A questão a ser respondida é: funcionou? Será que objetivamente a performance das pessoas naquela medida que se propunha de fato aumentou? Quanto? Agora parece tão óbvio, mas em toda a minha vida de facilitadora, nunca recebi o resultado de uma avaliação que mensurasse isso.

É claro que já tinha lido algo a respeito da andragogia, da construção do conhecimento pelos participantes. Até já tinha trabalhado alguma ideias, mas ainda era cética de que seria possível aplicar em qualquer área do conhecimento (não esqueçamos que sou engenheira e, no meu entendimento, é preciso que o professor ensine de um jeito bem mastigado como resolver uma integral tripla; levaria 2368 encarnações para descobrir sozinha ou em um grupo na sala de aula). A questão é que, como ainda não tinha tido contato com métodos ou instrumentos específicos, queria fazer uma transição usando modelos mentais antigos. Ainda não sei se isso se aplica no ensino de cálculo avançado, mas pude rever muita coisa no meu próprio trabalho, agora que tenho mais ferramentas.

A premissa mais importante é que adultos têm experiências anteriores que devem ser valorizadas. Além disso, é necessário associar prazer no processo. Já li essas frases mil vezes, mas sem instrumentos, elas não servem para quase nada. Eram só frases bonitas que não se conectavam com minha experiência, exceto em casos muito específicos. Por isso o curso fez tanta diferença na minha vida.

Outra coisa importante que passa batida: para preparar um treinamento, é imprescindível que se saiba em que nível de consciência da incompetência o público está (não sabe que não sabe; sabe que não sabe; sabe que sabe; não sabe que sabe). Geralmente a gente não tem essa informação.

A Fernanda salientou para o fato de que o design instrucional (projetar instruções que cumpram seu objetivo de desenvolver determinada habilidade e que ao mesmo tempo sejam prazerosas) é muito trabalhado em cursos à distância, mas pouco explorados em atividades presenciais, pelo menos no Brasil.

Com os exercícios práticos, ficou bem claro sobre como costumamos pensar longe das necessidades reais. O RH da empresas define que os gerentes precisam desenvolver habilidades de liderança, por exemplo, mas de uma maneira muito vaga (as avaliações continuam focando no curso, não no resultado observado no dia-a-dia depois). Qual é o problema mais urgente agora? Cumprimento de prazos? Retenção de talentos? Aumento da visão estratégica? E para quê? Onde e como vai se medir se a performance melhorou nesses aspectos depois do curso realizado?

A definição de metas e objetivos claros são fundamentais para pensar toda a arquitetura do treinamento: desde o conceito central, desenvolvido como o núcleo de um mapa mental, até a definição da forma propriamente dita e seus respectivos instrumentos (pode ser que, no final, descubra-se que não é necessário um treinamento, mas uma campanha de comunicação ou um jogo, por exemplo, mais adequados ao desenvolvimento da habilidade em questão).

Espero que esse curso venha aumentar meu desempenho na criação e execução de treinamentos, principalmente agora que tenho mais ferramentas e que me dei conta de que estava no nível “eu sabia que não sabia, mas não tinha ideia que a ignorância era tão gigante!”…

Como diz a Fernanda, não é que o buraco seja mais embaixo; é que ele está em outro corpo…rs

Olha, foram dois dias inteiros de pancadas na cabeça (que, paradoxalmente, foram também deliciosas), de maneira que não dá para resumir todas as ideias num artigo escrito por uma leiga no assunto ainda em estado de choque.

O que posso dizer? Obrigada, DMT! Papai Noel não poderia ter me trazido um pacotinho mais bacana que esse!

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Poses muito esquisitas

Faz tempo que presto muita atenção nas vitrines, a ponto de criar uma categoria aqui no blog chamado “vida de manequim“. Escapa à minha compreensão entender como o fato de colocar bonecos bizarros ou claramente deprimidos em pontos importantes da loja pode ser usado para aumentar as vendas (que, claro, é o que todo comerciante quer). Depois reclamam que os negócios estão fracos…rsrsr

Mas tem uns que são muito criativos (adoro) e inventam umas poses diferentonas para chamar atenção.

Aprecie minha coleção de poses esquisitas e divirta-se!

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Vocês, pobres mortais, conformem-se com sua vidinha mediana. Para não dizerem que sou ruim, vou deixar vocês apreciarem minha pose de diva…

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Vai um cineminha 3D, amigo?

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Manequim também tem coceira….

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Surtei mesmo e não quero nem saber; vou passar o dia de pernas para o ar mesmo!

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Quem amarrou meus pés nesse banco? Será que o povo acha que sou uma louca perigosa só porque decidi experimentar esse modelito listrado com capuz sem as calças? Ah, vá…

Ler é o melhor remédio

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Se tem uma coisa que os alemães gostam mais do que cerveja e salsicha, são histórias policiais. E porque amam esse gênero, são muito bons nisso. Toda livraria que se preze tem pelo menos uma seção muito bem sortida de livros policias (que, em alemão, se chama Krimi); é mais ou menos como as livrarias brasileiras e suas seções de auto-ajuda. Simplesmente não existe livraria alemã, seja de livros novos ou usados, em que uma parte significativa do acervo não seja sobre essas histórias.

Daí que para um escritor ganhar um prêmio alemão no gênero tem que ser mesmo muito bom. Pois Wolfgang Schorlau, autor de Die letze Flucht (tradução livre: “A última fuga”), de 2011, conseguiu esse feito em 2006. E não foi à toa.

Quem me emprestou a obra foi a querida Elia Dolya e devorei tudo nesse final de semana, mesmo estando cheia de trabalho para fazer. A Elia deve ter achado bacana também porque, além da história se passar em Berlim, fala da relação entre os médicos e a indústria farmacêutica (ela é cardiologista).

A trama gira em torno de um caso de abuso infantil seguido de assassinato de uma menina de 9 anos. O acusado é um médico professor da universidade, pesquisador de novos medicamentos. Ele é preso e seu advogado pede ajuda do investigador particular, ex agente da Polícia Federal, Georg Dengler (fiquei sabendo que esse é o sexto caso do personagem). Dengler viaja de Stuttgart (onde mora) para ajudar a resolver o caso em Berlim. Aí está parte da graça do livro; dá para reconhecer absolutamente todos os lugares, até um grafite numa parede que Dengler observa de passagem.

A trama é muito bem amarrada (pelo menos não achei furos) e prende até o final.

Não sei se tem tradução em português, mas recomendo muitíssimo a quem tiver acesso. Virei fã. Obrigada, Elia!

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Um livreiro muito triste

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Quando peguei o volume na mão, no mercado de pulgas em frente à Hathaus Schöneberg, fiquei curiosa por dois motivos: o livro falava de livros (assunto sempre interessante para mim) e o autor tinha um nome que parecia brasileiro.

Pois “Das geheime Leben der Bücher” (a vida secreta dos livros), de Régis de Sá Moreira, é o primeiro trabalho traduzido para o alemão desse escritor filho de pai brasileiro e mãe francesa (ele escreve em francês). Achei a tradução do título em alemão ruim, não só porque o original em francês é Le Libraire, mas também porque a história é sobre o livreiro, não sobre os livros.

A novela, em formato de fábula, acompanha a vida de um livreiro solitário. Ele resolve montar uma livraria apenas com os livros que já leu. Para isso, o homem se dedica a ler praticamente todas as horas que passa acordado. Alimenta-se basicamente de chá e de leitura.

A livraria é grande e completa, e está sempre aberta, pois o livreiro dorme sentado em sua escrivaninha. Há clientes reais e imaginários, pessoas corriqueiras e esquisitíssimas; mas nada supera a enormidade que é a solidão do livreiro que se esconde da vida nas páginas de seus amigos queridos. Seus amores platônicos, seu medo de sair da livraria, mesmo que seja para atravessar a rua, seus diálogos, às vezes surreais, com clientes diversos; tudo é narrado com muita delicadeza e sensibilidade.

O livro não segue o contexto tradicional de uma trama, pois, de fato, não há propriamente um clímax, conflitos ou reviravoltas.

Mas as descrições e metáforas usadas para descrever a solidão de ser humano são tão fortes que chegam a ser poéticas.

O livreiro, por exemplo, sofre muito na terceira hora depois do meio-dia. É quando ele se sente miserável e atormentado. Todo santo dia, no mesmo horário.

Além disso, todos os dias, em horários variados, a tristeza vem tomar posse dele, como se fosse sua dona. Uma dor incomensurável, enorme, forte, dominadora, infinita. Ele precisa se esconder no fundo da loja para chorar até se exaurir. Depois de esgotado, a dor vai indo embora, devagar. Até que ele consegue voltar ao normal.

Todo dia.

Um história de depressão contada de um jeito muito triste, mas também muito lindo e pleno de sensibilidade. Gostei de passar uns poucos dias com o livreiro, mesmo que para compartilhar um pouco de sua angústia e suas dores.

Recomendo.

 

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Banho no aquário

Estava achando meu banheiro muito chato e pensei em várias coisas. A que mais me agradou foi transformá-lo num aquário visto por dentro. Aí foi só gastar umas 5 mil horas desenhando e pintando: pronto! Cada banho agora é um mergulho.

Parece uma casa com crianças, mas é só um casal de meia idade com duas gatas que gostam de se divertir…rsrsr

Ainda não tenho certeza se gostei. E você?

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As cores ficaram diferentes por causa da luz artificial.

Mas minha maior preocupação agora é: acabaram-se as paredes, mas não as ideias. Como faz?

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Top 10 de outubro

Saiu a seleção das fotos mais curtidas nas redes sociais em outubro que, na verdade, é um resumo do outono em Berlim. É ou não é a estação mais linda do ano?

Escolha aí a que você mais gosta!

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1. E esse ônibus amarelinho combinando com a paisagem?

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2. Fiquei um tempão esperando alguém passar para compor a cena. Mas quem poderia esperar dois patudos tão magrelinhos e fofos?

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3. Adoro trens, trilhos e céus lindos. Quando junta tudo isso, então… <3 <3

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4. O povo entendeu porque cheguei atrasada no trabalho; simplesmente encontrei isso no caminho. Plenamente compreensível, né?

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5. No outono a cidade, que é linda sempre, desabrocha em cores. Impossível não se apaixonar.

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6. Berlim toda ruiva e linda, vista de cima da Siege Saule.

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7. É muita cor numa estação do ano só. Meus olhos ficam embriagados…

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8. Quando o dia está lindo como esse, o alaranjado das árvores fica quase fosforescente!

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9. Esses tiozinhos da limpeza e dos cuidados parecem tão queridos! E o trabalho deles é exemplar, a prova está aqui.

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10. O dia de chuva mais lindo do mundo. Sem mais.

Warnemünde

Warnemünde é um dos balneários mais frequentados da Alemanha, além de sediar o maior porto alemão do Mar Báltico. O povoado, pertencente à cidade de Rostock (veja o post aqui) é fofo, cheio casinhas lindas e coloridas, uma alameda maravilhosa, muitos barcos turísticos e uma feira de comidinhas delícia, sem falar que as gaivotas parecem ter sido treinadas para sempre sair nas fotos com a melhor pose.

A praia tem areia branca bem fininha e o mar parece bem calmo, mas não deu para mergulhar porque já é outono (temos que voltar no verão). O movimento de cargueiros, ferrys e transatlânticos é impressionante mesmo; a gente fez uma passeio de barco para conhecer o porto e é tudo monumental.

Dá uma olhada!

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Um barquinho mais lindo que o outro…

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Ai, que sono!!

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Essa Promenade é muito charmosa.

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Barco-lanchonete

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Povo acompanhando interessado o içamento de um barco.

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É muito barco manobrando ao mesmo tempo no canal!

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E essas casinhas?

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Adoro farois!

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Praia cheia mesmo no frio.

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Pescador pensando na vida.

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Beira-canal

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Casinhas lindas!

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Porto

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Para qualquer lado que você aponte a câmera, tem sempre um penoso fazendo pose

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Não falei?

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Adorei essa escultura!

Rostock

Rostock fica a 230 km de Berlim e é uma das cidades mais importantes do norte da Alemanha por causa do seu porto, o maior do mar Báltico em terras germânicas. Fazia parte da liga hanseática e foi promovida ao status de cidade no remoto ano de 1218; a universidade local foi construída em 1419 e tem cerca de 12 mil alunos matriculados. Hoje a cidade tem 200 mil habitantes e, apesar de ter sofrido uma grande destruição durante as guerras, os prédios da centro antigo parecem muito bem restaurados e preservados; a cidade antiga ainda conserva vários portões e pedaços de muralhas das fortificações da Idade Média.

A gente só conseguiu passar um dia e meio no final de semana, mas já deu vontade de voltar. Mesmo saindo do miolo central, o bairro universitário e as adjacências são muito lindos e arborizados. Como qualquer cidade alemã, os parques são grandes e maravilhosos, ainda mais nesse outono cinematográfico. Os bairros mais afastados são marcados pela arquitetura socialista da DDR (a cidade ficou no lado oriental) com o infindável conjunto de prédios populares sem muito charme, mas sempre salvos pelos parques.

O que mais me surpreendeu (e é uma curiosidade, de fato), foi o conjunto de esculturas que fica na praça em frente ao prédio central da universidade, na principal rua de comércio. É um conjunto de esculturas de pessoas e animais celebrando a vida e a alegria chamada Brunnen der Lebensfreunde (Fonte da felicidade), demonstração pública extremamente rara na melancólica arquitetura de influência russa.

Mas vamos às fotos!

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Esse prédio comercial em estilo art-noveaux é lindo! As ilustrações em relevo também acompanham as paredes cegas laterais.

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Essas trepadeiras maravilhosas…

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Adoro essa combinação de cores

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A cidade é toda fofa!

 

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Essas casinhas coloridas…

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Reunião de pombos na Kröpeliner Straße, a principal rua de comércio (está calma assim porque a foto foi tirada num domingo de manhã).

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Esquerda: prédio central da universidade; direita: não consegui identificar, mas parece uma construção medieval.

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Ciclovias por toda a cidade

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As esculturas da Fonte da Felicidade (prédio central da Universidade ao fundo)

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Neuer Markt

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A cidade é toda cortada pelo rio Warnow

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Prédio da prefeitura, a Rathaus

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Parques no auge do outono

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Tem arte de rua também!

Mas o motivo da viagem mesmo era conhecer o famoso balneário de Warnemünde, que é um bairro de Rostock. Próximo post!

Mas eu me mordo de ciúme…

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Gente ciumenta, todo mundo sabe, é um problema. Problema para quem tem ciúme, claro. Sofre, agoniza, perde a razão e não mede esforços para ser desagradável, hostilizar, chantagear e desrespeitar o outro em todas as oportunidades. Ciumentos são incansáveis e não desistem até atingir seu objetivo, que é perder o ente amado.

Exemplo: um ciumento doentio faz o quê? Persegue, espiona, desconfia, chateia, inferniza o infeliz alvo de seu afeto até que ele desista e vá viver sozinho ou procurar outra pessoa, pois não aguenta mais tanta aporrinhação. Tudo é motivo para briga, desentendimento, barraco, constrangimento.

O que a pessoa ciumenta não entende é que se seu objeto de apego não quiser mais ficar com ela, ele não vai ficar mesmo e não há nada nesse mundo que possa impedi-lo. Pode até amarrar o pobre no pé da mesa e colar um selo de propriedade, mas o pensamento é livre e não está no controle de ninguém. Além do quê, sonhar ainda é de graça. É impossível prender o coração se ele quiser voar (ou fugir, no caso).

O que fazer, então, para não perder o grande amor? Ora, o óbvio. Empenhar-se para que ele não QUEIRA ir embora. Ou seja, fazendo tudo ao contrário do que o ciumento faz: tornando a vida da pessoa mais agradável, entregando valor para ela, preocupando-se com seu bem-estar, respeitando a liberdade dela, valorizando-a, confiando nela, fazendo com que cada momento ao seu lado seja memorável e encantador. Quem ama de verdade mesmo, faz isso com prazer e naturalidade. E não perde noites torturando-se com a suspeita de bilhetinhos imaginários escondidos em algum lugar.

Mas ciúme é um sentimento e, por isso, totalmente emocional, ilógico, teimoso, instável e cego. Pessoas, quando têm algum problema de auto-estima (acham que não são boas o suficiente e sentem-se ameaçadas por alguém fictício que possa ser melhor) fazem coisas idiotas. Sabotam-se. Dão chiliques. E precisam buscar ajuda.

Mas empresas e organizações não podem ser emocionais, não podem ser desequilibradas. Elas têm que raciocinar, pensar, analisar. Elas têm que entregar valor. Não podem ter surtos de ciúme doentio e ataques nervosos. Não podem querer resolver a questão no braço, na força bruta ou na base do decreto. Não podem ir às vias de fato querendo dar porrada na rua. Não podem chantagear quem as sustenta e ainda querer ter razão.

Se elas infernizarem a vida do cliente, ele vai embora batendo a porta com toda a força. Vai correr desesperado para os braços de outrem (e se o concorrente capricha nos mimos, mais difícil ainda para essa alma tão maltratada resistir aos encantos do desconhecido sedutor). E a empresa ciumenta vai à falência, desempregando pessoas, desonrando contratos, esgotando-se na sede de vingar-se dos competidores.

É sério.

Pena que há algumas organizações que nem assim conseguem enxergar o óbvio pugilista, aquele que aparece e dá um soco na cara para ver se acorda os distraídos. Né, senhores taxistas? Operadoras de telefonia e Internet, restaurantes, lojas, bancos…

Mais alguém?…

Para quem está começando

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O Atitude Profissional: dicas para quem está começando foi escrito porque eu queria muito um livro assim quando estava começando minha vida profissional. Fiz um monte de bobagens e teria evitado muita queimação de filme se tivesse tido algo semelhante para me orientar.

Se você está começando sua vida profissional ou conhece alguém que esteja (pode ser um estudante de qualquer nível também) baixe o conteúdo grátis ofereça a essa pessoa.

A versão impressa foi publicada em 2009 e a edição está esgotada.  Assim, revisei e ampliei essa segunda edição e resolvi publicá-la para download gratuito em formato PDF. Meu desejo é que ela seja novamente impressa, mas dessa vez distribuída gratuitamente a estudantes brasileiros; se alguém quiser encabeçar o projeto, tentarei ajudar no que for possível.

É de graça, não custa nada. É só clicar aqui para baixar :)

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Se tiver interesse, tenho outros livros grátis para baixar. Veja aqui.

Alhambra

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Já tinha lido a respeito de Alhambra, o fascinante palácio nascido como fortaleza, em 889, que serviu por séculos como sede do Emirado de Granada, com direito a Sultão e tudo. Os reis católicos Isabel de Castela e Fernando de Aragão tomaram posse do lugar no século XV, expulsando os judeus e muçulmanos que moravam na cidade fortificada durante a Santa Inquisição.

Pois estava na entrada do mercado público do bairro de Moabit (com predominância de muçulmanos da Turquia) quando vi o livro “Alhambra” para doação. Aliás, esse é um hábito adorável aqui em Berlim: seja no hall de edifícios públicos ou comerciais, não é raro a gente encontrar caixas com livros e objetos diversos para doação. Qualquer um pode deixar e qualquer um pode pegar. Peguei o lindão de 400 e tantas páginas, capa dura, e levei-o para casa.

O livro, escrito pela professora de história Kirsten Boie, moradora de Hamburgo, conta a história de um grupo de adolescentes alemães  estudantes de espanhol (certamente a língua mais admirada aqui na Alemanha; depois do inglês, obrigatório, todo mundo sonha em aprender espanhol) que vai visitar Granada numa viagem de estudos.

Eis que, procurando no mercado um presente para a mãe, o protagonista toca sem querer num tapete mágico e é transportado ao ano de 1492. Aí a confusão começa, pois além de loiro (tipo físico exótico) e com objetos estranhos (imagine um telefone celular em 1492), o rapaz não conhece bem os costumes. Faz amigos e inimigos, é confundido com o esperado noivo alemão da princesa Joana (filha do casal real), é declarado como tendo parte com o diabo pelo doentio inquisidor Torquemada e até condenado à fogueira o menino é.

No meio do caminho conhece todos os personagens históricos principais, incluindo Cristóvão Colombo, que buscava financiamento para sua viagem, e o Emir expulso do palácio, Abu abd’Allah. Enquanto isso, no presente, os amigos, professores e o dono da lojinha se desesperam com o seu inexplicável sumiço. E o menino tem o desafio de encontrar um jeito de voltar ao tempo atual.

Achei a história um pouco comprida demais, com algumas passagens desnecessárias, mas muito interessante de qualquer maneira. Com certeza, o dia em que for a Granada, verei o castelo com outros olhos. Tomara que seja logo!

Recomendo a leitura para quem gosta de história.

***

PS: Não achei nenhuma versão em português, mas certamente existe em inglês na Amazon e achei a versão digital na Livraria Cultura em espanhol. Eu li o original em alemão.

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