O que a dança-teatro pode ensinar aos inovadores

Professora Franziska Bender dando orientações para a aula.

Quando entrei na universidade, nos idos de 1984 (meldelz, são mais de 30 anos!), tinha uma disciplina obrigatória chamada Prática Desportiva, com turmas separadas por gênero. No curso de Engenharia Elétrica a turma era de 50 nerds; eu era a única “nerda”. Não dava para formar nem uma dupla para jogar peteca; tentei me encaixar nas turmas de nutrição ou pedagogia, mas o problema é que para os horários disponíveis, só tinha futebol ou handebol. Minha estrutura óssea é pequena, de maneira que sempre me dei muito mal em jogos onde é necessária luta corporal de alto impacto pela posse da bola. Foi então que descobri que a universidade tinha um grupo de jazz, com aulas à noite, e o melhor, valendo créditos para a tal Prática Desportiva.

Como nunca dançamos ao som do trompete de Miles Davis, tenho para mim que esse nome tem algo a ver com o maravilhástico musical All That Jazz, sucesso alguns anos antes. Pelo menos a trilha sonora do filme era onipresente nos ensaios. Resumo: passei os cinco anos do curso dançando, mesmo quando os créditos não valiam mais.

Eis que em meados de setembro do ano passado, passando pela frente de uma escola de música aqui perto de casa, vi que havia vagas para dança e me inscrevi. Depois de um teste, comecei as aulas de dança-teatro, uma coisa que nunca tinha experimentado na vida. Alguns anos antes havia assistido o maravilhoso documentário do Wim Wenders sobre a coreógrafa que é a principal referência em dança-teatro no mundo, a alemã Pina Bausch, mas, na época, não liguei o nome à pessoa.

De cara, fui escalada para uma apresentação e já mergulhei de cabeça nos ensaios que estavam em andamento. Nas aulas de dança que havia frequentado até então, participar da apresentação começando os ensaios a menos de duas semanas do evento seria impossível. Mas na dança-teatro é. Porque é diferente. Porque tem tudo a ver com inovação, colaboração, repertório, criatividade e, principalmente, improviso.

Em todas as aulas que eu tinha feito no passado, a coreógrafa inventava os passos, movimentos, desenhos, tempos, e qual grupo fazia o quê em cada momento da música. A nós, bailarinos, só restava ensaiar e repetir exaustivamente os movimentos até que fossem automatizados de maneira que finalmente podíamos realmente dançar.

Na dança-teatro é completamente diferente: ninguém repete nada. A coreógrafa é a responsável pela mensagem a ser transmitida, pela música e pelos diferentes momentos da performance, mas não define passos nem movimentos. Isso fica por conta da criatividade e repertório do bailarino.

Tanto é que fiquei muitíssimo confusa às vésperas da apresentação porque a professora queria ver meu Ablauf. Não entendi lhufas; procurei um dicionário para ver se tinha alguma outra tradução que se encaixasse no contexto (Ablauf é decurso, evolução, expiração). Só depois é que, com a ajuda das colegas, descobri que cada bailarino deveria fazer desenhos mostrando sua posição em cada parte da música e as respectivas palavras-chave orientativas (tipo alegria, energia, crescimento, dor, etc), para facilitar a memorização e dar tudo certo no final. Gente, se isso não é co-criação em seu estado mais puro, então não sei o que é.

Outra coisa que aprendi é que, ao contrário das minhas aulas anteriores, onde eu deixava o cérebro em casa e passava o tempo relaxando e repetindo movimentos, nessas aulas sou obrigada a criar conexões neuronais em escala industrial.

O que acontece é que a gente recebe instruções desafiadoras o tempo todo; aliás, a palavra teatro como parte do nome não é à toa. Por exemplo: numa das tarefas, é preciso imaginar que há uma bola de fogo passeando pelo interior do meu corpo. E isso precisa ficar claro para quem está assistindo. Ou então tenho que contar uma história triste usando apenas as mãos durante toda a dança. Ou só os dedos dos pés. Ou os cotovelos. Ou usar uma lanterna para expressar sofrimento profundo. Ou tratar, durante a evolução de uma coreografia, dois pedaços de madeira como se fossem talismãs preciosos. Ou ainda, dançar completamente fora do compasso da música (isso foi realmente uma das coisas mais difíceis que experimentei); ou interagir com um espelho simulando um encontro interno; ou dançar com uma cabeça de isopor como se fosse uma pessoa importante na minha vida; ou travar uma batalha com mais duas bailarinas, aliando-me, ora à uma, ora à outra (a sincronização deve ser só pelo olhar, já que tudo é improviso); ou manipular um objeto imaginário, como uma pena, uma bola de luz ou um martelo pesado; ou, como na apresentação inicial, imaginar que você é uma chama que se junta aos colegas ao longo da música até formar uma fogueira. Tudo isso dançando. Em alemão. Estão acompanhando o nível do negócio? Olha, não é fácil não. Ainda mais que ninguém lá usa dorgas, até onde sei….rsrs

Outra coisa que me chamou atenção é que aqui a criatividade e a expressão são mais importantes que o rigor técnico; ou seja, em princípio, qualquer um pode praticar, independente de suas condições físicas ou experiência anterior (claro, não estou falando de um grupo profissional).

A dança-teatro, além me apresentar um novo e maravilhoso lado do mundo da dança que eu desconhecia completamente, ainda me mostrou como meu repertório corporal é pobre, limitado e pouco criativo. Eu me achava muito descolada e acreditava que ia tirar de letra cada tarefa dessas, mas depois dos primeiros 40 segundos, vejo que já gastei absolutamente tudo o que tinha pensado em termos de movimento e me vejo desesperada procurando ideias. Um repertório colecionado por cinco décadas dançando como se não houvesse amanhã na sala de casa parece que até dá para o gasto, mas é praticamente nada se a gente for testar de verdade. E sempre ainda tem mais uns dois ou três minutos de música para desenvolver e dar um jeito de inventar movimentos novos. Pensa. Ginástica mental nível hard.

A conclusão que chego é que dança-teatro deveria fazer parte de cursos de inovação como pré-requisito. Tem quebra de convenções, exercícios de criatividade, co-criação, colaboração, prototipagem, desenvolvimento de solução de problemas e ainda faz bem para o corpo e para a mente.

Fica a dica. É bom demais da conta!

NOTA 1: A experiência relatada é baseada apenas nesses meses de curso, nessa escola, com essa coreógrafa. Uma amiga que fez dança-teatro na Itália me contou que as coisas lá são um pouco diferentes. Não faço ideia de como é no Brasil.

NOTA 2: Quero agradecer especialmente à coreógrafa Hanne Franziska Bender, pela sua paciência e queridice. E à nossa luxuosa pianista Olga Pancenko, que tem que dar um jeito de escolher e tocar músicas que ajudem nos desafios…rs

NOTA 3: As fotos são todas do meu amor Conrado Seibel. Ele fez dois vídeos também; para quem tiver curiosidade de ver, é só clicar aqui e aqui.

A pessoa tem que se desdobrar nos movimentos…
Mosaico de fotos com posições de dança
Dá para dar vazão a todo seu lado dramático…rs
Mosaico de fotos com posições de dança
Mas dá para ver que é divertido!
Professora Franziska Bender dando orientações na aula.
Ainda mais quando a professora é uma querida <3

Aula de bom humor

Acabei de voltar de uma palestra com o responsável pelo marketing da BVG, responsável pelo transporte urbano de Berlim. Eu já admirava a empresa e a maneira como ela se posiciona no mercado, mas agora virei fã de carteirinha (na verdade, tenho o ticket anual que é uma carteirinha mesmo…rsrsrs).

Até eles desconhecem um case de empresa de transporte urbano que consegue ser tão lúdica, debochada e ainda rir (muito) de si mesmo e dos clientes o tempo todo.

Na palestra, ele mostrou a estratégia que há por trás, a promessa, a personalidade e a “inszenierung” (não sei como traduzir, pois encenação não fecha) da marca.

A promessa é o “weil wir dich lieben” ou “porque nós amamos você”, que também é o slogan. Eles debocham, brincam, mas prometem cuidar.

A personalidade é o “berliner Schnauze“, que ao pé da letra é o “focinho berlinense” que quer dizer o mau humor típico dos moradores.

A inszenierung é o “echt Berliner“, ou o verdadeiro berlinense, aquele que é tolerante com tudo, não está nem aí para a maneira que as pessoas se comportam ou se vestem.

Ele explicou também a importância das redes sociais para se aproximar do público (acompanhar o twitter deles discutindo com os clientes é puro entretenimento).

É claro que um posicionamento ousado e debochado no último pode causar, como ele mesmo diz, shitstorms, mas a empresa diz que faz parte e não está muito preocupada com isso. Até porque as pesquisas de percepção mostram o quanto a BVG é amada e admirada: 41% dos entrevistados acham que a imagem da empresa melhorou muito com esse posicionamento e 56% acham que ficou igual; apenas míseros 2% acham que as campanhas pioraram a imagem.

Eles têm uma equipe interna que cuida do marketing e uma agência de estratégia, além de outras agências de publicidade responsáveis pelas peças. Mas o controle e a responsabilidade de tudo é deles mesmos. Achei que quem ia apresentar tanta ousadia seria um rapaz de 30 e poucos anos, mas o responsável por toda a brincadeira é meu contemporâneo (seguramente está nas cinco décadas de vida).

Só para lembrar do que estou falando, esse vídeo alcançou 1.6 milhões de views. Pensa: é o vídeo institucional de uma empresa de transporte urbano!!! Consegue imaginar?


[Uma breve explicação para quem não entendeu o vídeo: o cantor de rap que representa o fiscal de tickets, já que aqui não existem catracas, repete sempre “es mir egal” que quer dizer “para mim tanto faz” com as cenas mais bizarras. Eventualmente ele canta “es mir nicht egal” quando encontra alguém sem ticket, que, para a BVG, é a única coisa que realmente importa. Mais a cara de Berlim, impossível!]

NOTA: Assisti em primeira mão o próximo vídeo que será lançado em breve. É uma produção em parceria com a Deutsche Oper e está sensacional, com cantores de ópera reclamando da empresa dentro do metrô. Não lembro exatamente do mote, mas é algo como “ohne Drama keine Liebe” ou “sem drama não há amor”…. Muito bom!!! Hahahahaha….

OUTRA CURIOSIDADE: várias campanhas publicitárias nascem de alguém que postou alguma foto engraçada no Instagram usando a Hashtag da empresa e fazendo algum comentário espirituoso. Eles compram os direitos da foto e reproduzem com atores e fotógrafo profissional. Olha que sacada!!!!

O museu do fracasso

Certamente você já ouviu falar no mantra no mundo da inovação, condição conhecida por todos que frequentam o mundinho das start-ups: inovar significa arriscar. Isso quer dizer que tem que haver espaço para errar, falhar, fracassar. Desafio você a me recomendar um único livro sobre inovação que não traga essa mensagem em algum capítulo, alguma palestra que ignore a premissa.

Então todos concordamos que falhar faz parte do processo de inovar; é um dos princípios básicos do processo. Não quer errar, não se arrisque. Não quer perder dinheiro, não ouse. Não quer sofrer rejeição, não inove. Não quer se encher de dívidas, não empreenda. Empreender, por si, já é um negócio para gente corajosa que consegue domar seu medo; mas empreender inovando é um patamar acima de exposição ao perigo.

Dito isso, por que é que a maior parte da literatura de empreendedorismo e inovação só fala dos sucessos estrondosos? Por que os palestrantes do TED contam sempre histórias com finais felizes? Por que as revistas de negócios só colocam magnatas ou fenômenos financeiros nas capas?

O sueco Samuel West, ex psicólogo clínico com doutorado em inovação, não se conformava com isso. E ficou tão incomodado que resolveu ele mesmo tomar uma providência: construir o Museu do Fracasso (Museum of Failure). Diretor e curador da instituição inaugurada no início desse mês na cidade de Helsinborg, na Suécia, ele afirma que temos que parar de glorificar o sucesso e demonizar o fracasso; ambas as condições são igualmente importantes para a inovação. West pesquisou durante um ano e conseguiu reunir um acervo de 70 cases de verdadeiros desastres, tanto em serviços como em produtos físicos.

O lugar é um verdadeiro parque de diversões para quem se interessa pelo tema; traz vários casos famosos e conhecidos, como o Google Glass, o Newton (o “avô” do iPad, fabricado pela Apple) e a Bic for Her (aquela caneta pintada de rosa que seria, teoricamente, perfeita para mulheres que não gostam de usar canetas masculinas…rs). Ah, e tem também o jogo de tabuleiro do Donald Trump (West disse que tentou jogar de cabeça limpa, despido de preconceitos, mas o jogo é ruim demais da conta..rs). Deve ter muito mais coisa interessante, mas aí a pessoa precisa ir lá (é por isso que minha lista de lugares para visitar antes de morrer já está na metade da quinta encarnação…rs).

Não sei se está no acervo, mas o último fiasco bombástico que me lembro foi da Juicero, uma start-up que “inventou” uma máquina que espremia suco de fruta que vinha num sachê que somente a empresa fornecia (tipo uma Nespresso de suco). A engenhoca custava U$ 400, até que alguns sites resolveram testar a ideia espremendo o sachê na mão mesmo. Resultado: na mão era bem mais rápido, demonstrando que a máquina era absolutamente inútil. O pior é que eles já tinham levantado U$ 120 milhões para desenvolver o negócio, inclusive com investimentos da Google. Sim, há algo muito podre no reino das start-ups, mas isso é assunto para outro texto…

Segundo Walter, o objetivo é os empreendores entenderem que se até as grandes erram espetacularmente, então é ok um mortal comum falhar também. No mínimo confortante.

Bom, eu estou aqui trabalhando muito para não fazer parte desse museu. E você?

****

NOTA: Para quem tiver curiosidade, participei pessoalmente de um caso de fracasso em inovação (que não deve estar no museu), quando trabalhei em uma equipe que desenvolvia drones há mais de 20 anos. Está tudo contado nesse post aqui.

Mais um jeito diferente de levar Berlim para casa

Olha, eu nunca me considerei uma ilustradora, mas com a recepção tão positiva dos desenhos dos Wesen, agora me empolguei de vez.

Aí pensei em um novo jeito de juntar Berlim e ilustração em mais uma frente.

Eis que abri minha lojinha na Etsy para fazer retratos digitais especialmente com fotos minhas do muro de Berlim como fundo (trecho do Mauerpark). Taí um presente bacana e diferente como lembrança da cidade; bom para aquelas pessoas que a gente não sabe o que dar.

Os retratos são desenhados à mão com base em uma fotografia e pode-se escolher o background entre algumas opções, além da cor do cabelo; seguem fotos com alguns exemplos.

Como resultado, a pessoa recebe um arquivo em alta resolução que pode ser usado como perfil nas redes sociais, mas também imprimir mini-posters, camisetas, calendários, cartões postais, capas de telefone celular, almofadas e o que mais inventar.

O preço, se for direto comigo, é €65 (para uma pessoa); na Etsy é um pouco mais porque inclui as taxas da loja.

Se você se lembrar de alguém que poderia gostar, por favor, compartilhe 🙂

Para visitar a lojinha, é só clicar aqui.

Top 10 de abril: o reinado das tulipas

Abril é sempre essa maravilhosidade: primavera bombando, tulipas por toda parte, de todas as cores.  Impossível não se emocionar com o renascimento da cidade, com a invasão de brotos verdes e com essa luz tão especial. Vem alimentar seus olhinhos e deixe nos comentários qual sua foto preferida desse mês.

#paracegover Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra um campo de tulipas vermelhas sob a luz difusa do sol da tarde.
1. Se existe um paraíso mesmo, ele deve ser cheio de tulipas. Certeza! #paracegover Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra um campo de tulipas vermelhas sob a luz difusa do sol da tarde. — at Britzergarten.
#paracegover Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra uma calçada larga toda bordada pela sombra das árvores. Do lado direito, belíssimas fachadas amarelas banhadas pela luz do sol. Duas pessoas vêm caminhando. Há bicicletas estacionadas do lado esquerdo. Pena que, pela foto, não dá para ouvir os passarinhos cantando... — at Kollwitzstraße.
2. Essa luz é a coisa mais linda da primavera. Em conjunto com calçadas largas e fachadas maravilhosas, a imagem da perfeição. #paracegover Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra uma calçada larga toda bordada pela sombra das árvores. Do lado direito, belíssimas fachadas amarelas banhadas pela luz do sol. Duas pessoas vêm caminhando. Há bicicletas estacionadas do lado esquerdo. Pena que, pela foto, não dá para ouvir os passarinhos cantando… — at Kollwitzstraße.
#paracegover Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra o rio Spree com o Bode Museum e a Torre de TV ao fundo. A cena é emoldurada por glicínias floridas. O dia está lindo! — at Bode-Museum.
3. Mas não podemos desprezar a lindeza cacheada das glicínias. Não são maravilhosas? #paracegover Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra o rio Spree com o Bode Museum e a Torre de TV ao fundo. A cena é emoldurada por glicínias floridas. O dia está lindo! — at Bode-Museum.
#paracegover Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra a vista panorâmica de um parque onde as pessoas estão todas lagarteando no gramado ao sol da primavera. O dia está maravilhoso e a cena é refletida no lago cheio de nenúfares. — at Volkspark am Weinberg.
4. Sei que acabo me tornando repetitiva, mas o que é essa luz, minha gente? #paracegover Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra a vista panorâmica de um parque onde as pessoas estão todas lagarteando no gramado ao sol da primavera. O dia está maravilhoso e a cena é refletida no lago cheio de nenúfares. — at Volkspark am Weinberg.
#paracegover Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra uma moça, de costas, chutando a água de um lago para brincar com seus dois cachorros, que parecem estar se divertindo muito. A cena é emoldurada pelos troncos de duas árvores. — at Beethoven-Haydn-Mozart-Denkmal.
5. Dia perfeito, cenas perfeitas. Claro que não podiam faltar peludos…#paracegover Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra uma moça, de costas, chutando a água de um lago para brincar com seus dois cachorros, que parecem estar se divertindo muito. A cena é emoldurada pelos troncos de duas árvores. — at Beethoven-Haydn-Mozart-Denkmal.
#paracegover Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra as silhuetas de uma ciclista e uma mulher de capa escura caminhando sobre uma rua. Ao fundo, um prédio amarelo com portas vermelhas. Em primeiro plano, tulipas encarnadas. — at Oderberger Straße.
6. Tulipas onipresentes; as vermelhas são um espetáculo à parte. #paracegover Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra as silhuetas de uma ciclista e uma mulher de capa escura caminhando sobre uma rua. Ao fundo, um prédio amarelo com portas vermelhas. Em primeiro plano, tulipas encarnadas. — at Oderberger Straße.
#paracegover Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra um casal caminhando por uma alameda arborizada. A relva está coberta de tulipas brancas e amarelas, com algumas convidadas vermelhas. A foto de hoje é para a minha mãe, pois sei que ela adora lugares assim... — at Britzer Garten.
7. Quando alguém pede para eu imaginar como seria o paraíso, imagino um lugar assim. Você não? #paracegover Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra um casal caminhando por uma alameda arborizada. A relva está coberta de tulipas brancas e amarelas, com algumas convidadas vermelhas. A foto de hoje é para a minha mãe, pois sei que ela adora lugares assim… — at Britzer Garten.
#paracegover Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra um muro grafitado com uma figura em preto e branco (uma criatura de três olhos) desenhada no capricho, de forma bem detalhada, sobre o fundo vermelho vivo. Dois senhores voltando da feira próxima com suas compras aparecem na cena; um descansa sentado num banco de madeira e o outro, de costas, arruma o carrinho. — at Manstein4 Cafe.
8. Só para dar uma variada, um pouco de street art da boa colorindo o cotidiano das pessoas. #paracegover Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra um muro grafitado com uma figura em preto e branco (uma criatura de três olhos) desenhada no capricho, de forma bem detalhada, sobre o fundo vermelho vivo. Dois senhores voltando da feira próxima com suas compras aparecem na cena; um descansa sentado num banco de madeira e o outro, de costas, arruma o carrinho. — at Manstein4 Cafe.
#paracegover Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra duas pessoas passeando de bicicleta em um parque. O chão está coberto de florzinhas vermelhas caídas de uma árvore próxima. O dia está lindo ❤️ — at Beethoven-Haydn-Mozart-Denkmal.
9. As bicicletas, sempre elas. Como não amar? #paracegover Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra duas pessoas passeando de bicicleta em um parque. O chão está coberto de florzinhas vermelhas caídas de uma árvore próxima. O dia está lindo ❤️ — at Beethoven-Haydn-Mozart-Denkmal.
#paracegover Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra o prédio de uma rede de hoteis visto de baixo para cima. A fachada não tem ornamentos ou detalhes; as janelas são altas e compridas como portas (estilo contemporâneo bem popular em Berlim). A diferença aqui é que as paredes são curvas, fazendo com que a torre de 19 andares tenha uma aparência muito interessante. A foto foi deixada em preto e branco para salientar as formas. — at Motel One Berlin-Upper West.
10. Um pouco de concreto em preto e branco só para deixar claro que nem tudo são flores…rsrs… curvas assim também fazem a cidade bonita! #paracegover Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra o prédio de uma rede de hoteis visto de baixo para cima. A fachada não tem ornamentos ou detalhes; as janelas são altas e compridas como portas (estilo contemporâneo bem popular em Berlim). A diferença aqui é que as paredes são curvas, fazendo com que a torre de 19 andares tenha uma aparência muito interessante. A foto foi deixada em preto e branco para salientar as formas. — at Motel One Berlin-Upper West.

Berlim nunca mais será a mesma

Sabe quando você ama uma cidade do fundo do seu coração, declara esse amor todo dia com fotos, faz propaganda, elogia, mas queria fazer muito mais? Pois encontrei mais uma pessoa com a mesma paixão e a mesma vontade: a queridíssima Nicole Plauto, do Agenda Berlim. Personalidades diferentes, talentos complementares; a combinação perfeita para criar um negócio que vai fazer diferença na experiência das pessoas. Juntamos ilustração, história, fotografia, cultura, storytelling, humor, redes sociais e muito amor por Berlim num projeto só.

A gente queria que o povo pudesse levar um pouquinho dessa magnífica cidade para casa, mas que não fosse algo estático e convencional. Queríamos algo com história, uma coisa dinâmica que fizesse parte do dia-a-dia quando a pessoa voltasse de viagem, que tivesse significado. Aí surgiram os Wesen. Estamos trabalhando nisso há nove meses e olha a coincidência: hoje nosso projeto vai nascer para o mundo!

Os Wesen são plush toy arts com uma história bem interessante: na verdade, são seres de outro planeta que assumiram essa forma com a nossa ajuda, para serem mais amigáveis e confortáveis para os seres humanos. Mas por que isso? É que lá no planeta deles, na Galáxia de Andrômeda, todas as profissões são criativas (o trabalho rotineiro é feito por máquinas). Aí eles costumam passar um tempo em outros planetas, misturados com a população, para ampliar seu repertório de experiências (já falei várias vezes que, sem repertório, não tem inovação). Essas mentes criativas são completamente livres de preconceitos (pelo menos os que existem na Terra) e enxergam tudo com um olhar curioso e cheio de vontade de aprender. Escolheram Berlim porque aqui existe tolerância e respeito à diversidade; eles podem circular sem chamar atenção e conhecer gente de várias partes do mundo.

Os Wesen só se comunicam telepaticamente (a Nicole e eu ficamos observando esses seres exóticos por anos e demoramos para conseguir fazer contato). Ficamos tão encantadas com a história deles (são uns fofos, você vai ver) que resolvemos ajudá-los a ampliar a interação com os humanos. Por isso, ensinamos a eles como usar as redes sociais.

Essas criaturas (Wesen são criaturas em alemão) vão passear por Berlim, visitar teatros, museus, cafés, parques, eventos (as preferências vão de acordo com a personalidade de cada um) e compartilhar tudo nas redes sociais, com fotos e impressões; às vezes eles perguntam coisas que não conseguem entender muito bem. É a hora que os seguidores entram em ação para ajudá-los.

Eles usam um portal secreto escondido na cidade para chegar em Berlim e nem nós sabemos onde está localizado (se tiver alguma pista, compartilhe usando #wesensecretportal); de tempos em tempos, chegam novas expedições.

A primeira expedição assistida por mim e pela Nicole é formada por Helga, uma Professora de História do Cosmos super sarcástica e debochada que, por força de sua profissão, adora história e museus (ela vai contar tudo o que vai ver na cidade); Jean-Pierre, um Desenvolvedor de Genialidade Artificial que interessa-se essencialmente por tecnologia e por gente, principalmente pela maneira como são tomadas decisões — ele gosta de observar a reação das pessoas à aparência dele. Jean também adora arte, boa comida, bons vinhos e ama maquiagem. Mia é Coreógrafa de Notícias (essa é uma das maneiras mais populares de comunicação lá em Andrômeda); recém saída de um relacionamento, quer aproveitar ao máximo a experiência na Terra. Não perde uma festa e gosta de moda, culinária natural, animais e interessa-se, sobretudo, pela maneira como as pessoas se mexem.

Estamos trabalhando, em paralelo, para fabricar clones dos Wesen. Serão edições limitadas (sempre números primos, que são a base deles lá em Andrômeda) e numeradas, que incluirão um visto de permanência no planeta e autorização para que o humano o leve para viver em sua própria cidade, contando como as coisas funcionam lá. O humano também deve compartilhar essas experiências pelas redes sociais, pois só assim o Wesen original terá acesso a tudo. Imagina quanta informação isso vai gerar! Todas as cidades do mundo são interessantes para os Wesen e você poderá conhecer todas elas só seguindo esses queridos nas redes sociais!

Sem dizer que, a qualquer momento, novas expedições podem chegar, com novos Wesen e novas histórias, que vão gerar séries, games e mais um monte de coisas.

A Nicole e eu estamos muito empolgadas com nossos novos amigos e esperamos que vocês também curtam acompanhar o dia-a-dia deles no Facebook e no Instagram.

Aqui um vídeo com o resumo da história (com legendas em português).

O homem ilustrado

Do Ray Bradbury, só conhecia “Fahrenheit 451“, um clássico da literatura distópica (leia a resenha aqui). Sabia que ele tinha muitos trabalhos na área de ficção científica, mas nenhuma obra ainda tinha me caído nas mãos.

Até semana passada, quando, na visita semanal ao mercado de pulgas, acabei achando “Der illustrierte Mann“. É uma coleção de contos típica dos anos 1950/60, com máquinas inteligentes, viagens a Marte e outros planetas desconhecidos. Perfeito para ler antes de dormir.

Mas para mim, o mais especial nesse livro foi a forma como os textos foram costurados. Tudo começa quando o narrador encontra um homem numa parada durante uma viagem. O homem é enorme e está completamente vestido com mangas compridas, apesar do calor. Eles começam a conversar e o tal sujeito pede ajuda para comprar um lanche, uma vez que desde que caiu nas garras de uma mulher misteriosa, não consegue mais achar emprego.

A suposta bruxa, certo dia, encheu seu corpo de tatuagens hiperrealistas e coloridas que nunca se apagam ou perdem a vivacidade. Até aí, tudo bem; aliás, um sonho para qualquer tatuado.

A questão é que durante a noite as tatuagens criam vida e se mexem como se fossem um filme. Cada uma das 18 ilustrações conta uma história fantástica; justamente as narradas no livro, o que deixam o homem exaurido, além de assustar as pessoas com quem ele tem contato (isso antigamente poderia mesmo ser um problema; hoje em dia,  seria sucesso absoluto…rs).

Achei genial. As tramas também são muito criativas, apesar da melancolia comum a todas (exceto a última, que foge um pouco do padrão).

Adorei e recomendo!

top 10 de abril: o show das cerejeiras

Tem um ditado alemão que diz “April macht was er will” (tradução bem livre: “abril faz o que lhe dá na telha”). Isso é bem verdade; nesse mês pegamos temperaturas próximas de 25 graus com sol forte, mas também chuva, vento e até neve.

Além dessas surpresas climáticas, é em abril que a cerejeiras dão seu show e cobrem a cidade de florzinhas brancas e rosa.

Uma sensação inexplicável ver todas as plantas brotarem ao mesmo tempo; fica tudo num verde tão novinho e fresco, como se a vida renascesse para começar tudo do zero. Adoro!

Aqui a seleção das minhas fotos mais curtidas nas redes sociais esse mês. Qual é a sua preferida?

Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra a sombra de uma árvore projetada na relva de um parque. Acontece que a grama está toda coberta com florzinhas azuis; então fica parecendo que essas flores são a copa da árvore projetada no chão. O efeito ficou interessante, mas ao vivo ainda tem o perfume... — in Plötzensee, Berlin, Germany.
1. Pensa num dia lindo, mas tão lindo, que até a sombra pensa que é árvore florida. #paracegover Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra a sombra de uma árvore projetada na relva de um parque. Acontece que a grama está toda coberta com florzinhas azuis; então fica parecendo que essas flores são a copa da árvore projetada no chão. O efeito ficou interessante, mas ao vivo ainda tem o perfume… — in Plötzensee, Berlin, Germany.
#paracegover Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra barcos do porto histórico de Berlin sob um céu que varia do lilás ao turquesa. — at Historischer Hafen Berlin.
2. Céu lilás. Temos. #paracegover Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra barcos do porto histórico de Berlin sob um céu que varia do lilás ao turquesa. — at Historischer Hafen Berlin.
#paracegover Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra uma senhorinha com um sobretudo bege caminhando com a ajuda de um andador. Ela está emoldurada por uma cerejeira rosa, fazendo as vezes de um céu florido, e uma árvore carregada de magnólias perfumadas. — at Berlin-Kreuzberg, Mehringdamm.
3. Magnólias e cerejeiras juntas: impossível não amar. #paracegover Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra uma senhorinha com um sobretudo bege caminhando com a ajuda de um andador. Ela está emoldurada por uma cerejeira rosa, fazendo as vezes de um céu florido, e uma árvore carregada de magnólias perfumadas. — at Berlin-Kreuzberg, Mehringdamm.
#paracegover Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra um conjunto de prédios banhados pela luz dourada do sol, às margens de um dos canais do rio Spree. A cena é refletida numa poça d'água. — at Derag Hotel und Living Grosser Kurfuerst Berlin.
4. A louca da poça d’água ataca novamente! #paracegover Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra um conjunto de prédios banhados pela luz dourada do sol, às margens de um dos canais do rio Spree. A cena é refletida numa poça d’água. — at Derag Hotel und Living Grosser Kurfuerst Berlin.
#paracegover Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra uma mulher caminhando no parque. Ela usa camiseta branca e calça escura e está carregando um casaco vermelho nas costas. Em primeiro plano, flores silvestres azuis cobrem toda a relva. — in Plötzensee, Berlin, Germany.
5. Essas florzinhas azuis são lindas demais… #paracegover Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra uma mulher caminhando no parque. Ela usa camiseta branca e calça escura e está carregando um casaco vermelho nas costas. Em primeiro plano, flores silvestres azuis cobrem toda a relva. — in Plötzensee, Berlin, Germany.
#paracegover Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra uma ciclista de blusa rosa, aguardando para atravessar a avenida. A cena é emoldurada por uma cerejeira florida. — at Berlin-Kreuzberg, Mehringdamm.
6. Quem disse que a vida não pode ser cor-de-rosa? #paracegover Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra uma ciclista de blusa rosa, aguardando para atravessar a avenida. A cena é emoldurada por uma cerejeira florida. — at Berlin-Kreuzberg, Mehringdamm.
#paracegover Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra um céu azul escuro com algumas nuvens e um arco-íris perfeito!!!
7. O arco-íris mais lindo que já vi na vida! #paracegover Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra um céu azul escuro com algumas nuvens e um arco-íris perfeito!!!
 #paracegover Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra um campo de tulipas vermelhas sob árvores com folhas novas.
8. Quando uma amiga faz aniversário e convida a gente para festejar no paraíso… #paracegover Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra um campo de tulipas vermelhas sob árvores com folhas novas.
#paracegover Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra um grupo de pessoas às margens do lago Tegel. A vegetação ainda está sem folhas. Uma das pessoas carrega um monte de balões vermelhos. Na verdade, acredito que estavam fotografando para uma campanha publicitária ou algo do gênero, a julgar pelo figurino do casal e o tamanho das lentes da fotógrafa 😊 — at Greenwichpromenade.
9. A mim pareceu cena de filme… #paracegover Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra um grupo de pessoas às margens do lago Tegel. A vegetação ainda está sem folhas. Uma das pessoas carrega um monte de balões vermelhos. Na verdade, acredito que estavam fotografando para uma campanha publicitária ou algo do gênero, a julgar pelo figurino do casal e o tamanho das lentes da fotógrafa 😊 — at Greenwichpromenade.
#paracegover Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra uma mulher e uma menina caminhando sobre a calçada. Em volta delas tudo é cor de rosa, pois estão cercadas de cerejeiras floridas. No canto esquerdo, há um estacionamento de bicicletas. Alguns carros estragam a paisagem, como sempre...rs — at Divan Restaurant Berlin.
10. As cerejeiras fazendo o céu ficar cor-de-rosa. #paracegover Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra uma mulher e uma menina caminhando sobre a calçada. Em volta delas tudo é cor de rosa, pois estão cercadas de cerejeiras floridas. No canto esquerdo, há um estacionamento de bicicletas. Alguns carros estragam a paisagem, como sempre…rs — at Divan Restaurant Berlin.

Minha história com a street art

Esses dias me dei conta de que um dos projetos mais legais dos quais participei, a pintura do muro da Academia de Polícia no bairro da Trindade, em Florianópolis, está fazendo 15 anos. Como o tempo passa rápido! Como, naquela época, poderia imaginar que hoje estaria morando em Berlim e alimentando meus olhos diariamente com street art?

Esse projeto, capitaneado pela Associação Comercial e Industrial de Florianópolis, devia ser repetido mais vezes. Observando que os muros e paredes da região estavam sujos e causando má impressão, os organizadores conseguiram patrocínio de tintas e materiais com os comerciantes locais e promoveram um verdadeiro festival de street art. Os interessados deviam enviar seus desenhos que seriam mostrados para os donos dos respectivos muros; caso aprovassem, seria executado (olha aí uma solução baseada no consenso que é boa para todo mundo!).

Escolhi o muro da Academia de Polícia porque tinha um ponto de ônibus lá. Minha ideia era desenhar uma fila de pessoas conversando que seriam misturadas com as que estivessem esperando a condução. O desenho era genérico, baseado em ilustrações de um livro que eu tinha escrito antes (“De fila em fila: um guia de sobrevivência“, esgotado há anos — que me rendeu uma entrevista no Jô Soares), mas na real, não sabia exatamente quem seriam os personagens que iria desenhar.

Na época, 2002, estava escrevendo minha tese de doutorado e trabalhando em período integral em uma empresa privada. Assim, só tinha tempo para pintar o muro aos domingos; por esse motivo, levei quase dois meses para terminar de desenhar os 42 personagens ao longo dos 14 metros de muro. Olha, foi uma das coisas mais legais que já fiz na vida!

Tentei representar ao máximo os frequentadores do ponto de ônibus: estudantes da universidade, senhores e senhoras do curso da terceira idade, meu professor de mergulho, o Guga Küerten (que não frequentava o ponto, mas morava num bairro próximo), vendedores de tainha, criadores de curió, casais de namorados, mães com filhos pequenos, torcedores da Copa do Mundo (que seria realizada alguns meses depois), hippies, cambistas, enfim, todo mundo! No final, acabei escrevendo os prováveis diálogos entre eles no mais castiço “manezês”, espécie de dialeto ilhéu.

Justamente porque estava a desenhar pessoas, muitas se sentiam à vontade para interagir e dar palpites na obra, coisa que eu adorava. Lembro de umas freiras que estavam passando um dia e pediram para pintar um pouco; minha professora de ginástica, a querida Cida, que também deu suas pinceladas. Até meu saudoso e querido pai apareceu lá um dia para ajudar também. Uma farra!

Uma pena que na época eu não tinha câmera digital e o mundo não era tão fotografável; assim, tenho poucos registros e de qualidade questionável.

Das muitas histórias que vivenciei e dos surreais diálogos que lá se passaram, tenho registrados alguns. Lembro dos mais curiosos:

  1. Um senhor passou uma tarde inteira conversando comigo enquanto pintava; narrou toda a vida dele, desde menino até quando terminou a escola e fez concurso público. Hoje era aposentado, mas, contou, com orgulho, que sabia fazer 35 coisas na época em que trabalhou. Apesar de não entender direito o critério para classificar as tais “coisas”, fiquei assombrada. Acho que não sei fazer tudo isso não…
  2. Uma vez um carro cheio de gente parou para pedir, em coro, que eu incluísse na fila um torcedor de um dos times de futebol da cidade, o Avaí. Como não gosto de confusão, fiz um do Figueirense também. Algumas semanas depois, parou um carro cheio de torcedores do Figueirense que tiraram várias fotos ao lado de seu “representante” na fila…rsrs
  3. Um visitante contumaz era um catador de papel da região. Ele sempre parava seu carrinho ali e ficava conversando. Um dia ele criou coragem e me perguntou se eu estava ganhando dinheiro para fazer aquele trabalho. Expliquei que não, que era um projeto coletivo e voluntário. Aí me perguntou se eu sabia desenhar as pessoas “como elas realmente eram”, pois meus desenhos não representavam muito bem, conforme as palavras dele. Eu disse que não sabia desenhar da maneira como ele queria, como se fosse uma foto. Aí o moço não se conteve: “Mas então é por isso que não estão lhe pagando pelo trabalho! É porque você não sabe desenhar!”….hahahahahahahaha… adorei! Quem sabe ele tinha mesmo razão?
  4. Num dos finais de semana, tive que gastar toda a minha lábia para negociar com um menino que queria que eu desenhasse uma cobra para assustar as pessoas que estivessem no ponto. Consegui trocar por uma galinha e um passarinho…rsrsr
  5. Estava um dia calmamente pintando, quando se aproximaram três guardas: gelei, pois no final de semana anterior tinha justamente desenhado…um guarda! Achei que fossem reclamar, mas um deles disse que tinha um pedido; ele ficaria muito feliz se eu atendesse. Esperando o pior, olha o que o moço me disse: “É que todo mundo acha que aquele guarda ali sou eu; será que você podia escrever meu nome no distintivo para as pessoas terem certeza?”. E aguardou calmamente eu fazer a alteração para os colegas poderem tirar a foto dele ao lado do sósia…rsrs
  6. Uma moça que estava fazendo mestrado na UFSC me pediu para usar a imagem de uma estudante de arquitetura negra no seu documentário sobre cotas. Apesar de acreditar que essa não é a solução para a desigualdade (discuti bastante com ela a esse respeito, a menina era uma querida e super inteligente; respeitou minha opinião sem insistir), é claro que fiquei muito honrada por ela usar a imagem no trabalho.

Estou com outros projetos prioritários, mas um dos itens da minha lista é me enturmar com os grafiteiros de Berlim para ver como funciona a pintura de paredes por aqui (não quero correr o risco de ser presa…rsrs). Tenho para mim que é só uma questão de tempo. Aguardem…rsrs

#paracegover A imagem mostra um ponto de ônibus coberto.No muro ao redor dele, personagens desenhados conversando entre si.
A fila do ponto de ônibus ficou assim, lotada de gente, apesar de não ter ninguém esperando a condução no momento. #paracegover A imagem mostra um ponto de ônibus coberto. No muro ao redor dele, personagens desenhados conversando entre si.
#paracegover A imagem mostra pessoas sentadas no ponto de ônibus ao lado do muro desenhado.
Agora tem gente sentada. Os personagens que esperem em pé… #paracegover A imagem mostra pessoas sentadas no ponto de ônibus ao lado do muro desenhado.
#paracegover A imagem mostra um muro desenhado com pessoas em volta de um ponto de ônibus. A foto foi tirada do outro lado da rua e um carro passou bem na hora.
Passando de carro, a imagem era essa. Até que ficou interessante… #paracegover A imagem mostra um muro desenhado com pessoas em volta de um ponto de ônibus. A foto foi tirada do outro lado da rua e um carro passou bem na hora.
#paracegover A imagem mostra, na foto da esquerda, uma mulher abaixada, de camiseta branca, calça jeans e óculos de sol, pintando o muro. Na foto da direita, alguns personagens em detalhe.
Eu me divertindo horrores! Ainda bem que meu orientador nunca descobriu…#paracegover A imagem mostra, na foto da esquerda, uma mulher abaixada, de camiseta branca, calça jeans e óculos de sol, pintando o muro. Na foto da direita, alguns personagens em detalhe.
#paracegover A imagem mostra uma mulher sorrindo ao lado de um muro com desenhos inacabados.
Eu desenhando o muro. #paracegover A imagem mostra uma mulher sorrindo ao lado de um muro com desenhos inacabados.
#paracegover A imagem mostra uma estudante de arquitetura, um torcedor do Avaí, uma mulher segurando uma bolsa vermelha, minha professora de ginástica, a Cida e um policial militar. Um gato peludo (o Heitor) também aparece.
Detalhes do muro. #paracegover A imagem mostra uma estudante de arquitetura, um torcedor do Avaí, uma mulher segurando uma bolsa vermelha, minha professora de ginástica (a Cida) e um policial militar. Um gato peludo (o Heitor) também aparece. Estou no canto direito, preparando o pincel.
#paracegover A imagem mostra o desenho de duas mulheres conversando, um senhor de óculos e um rapaz fumando com o cabelo parafinado (era moda na época).
Mais personagens típicos. #paracegover A imagem mostra o desenho de um moço bem musculoso, duas mulheres conversando, um senhor de óculos, um rapaz fumando com o cabelo parafinado (era moda na época) e uma estudante de arquitetura com sua pasta, canudo de projetos e mochila.

A tal da casa

Uma cidade lotada de artistas e mentes criativas, só pode dar coisa boa como resultado. Pois olha só que ideia genial: um coletivo de street art aqui de Berlin chamado Die Dixons ficou sabendo que um antigo prédio do Berliner Volksbank iria ser demolido para a construção de um condomínio residencial e propôs o seguinte para os empreendedores da obra: por que não pegar o prédio vazio, antes da demolição, e preenchê-lo todo com arte? Street art é isso mesmo: a arte fugaz, temporária, não duradoura. E o que pode ser  mais perfeito do que um prédio com os dias contados para servir de local para uma grande exposição? O que pode ser melhor do que uma antiga filial bancária se transformar em galeria de arte?

O governo apoiou, empreendedores próximos, como o hotel Berlin Berlin, também entraram na brincadeira hospedando artistas de outras cidades e países gratuitamente e a construtora adorou a ideia de ser identificada com um projeto tão vanguardista: assim nasceu a The Haus**

O resultado é que 165 artistas fizeram a festa nas 108 salas distribuídas em 5 andares. Nada escapou impune: banheiros, corredores, elevadores, portas, tudo foi grafitado.

Inaugurada em primeiro de abril, a instalação fica apenas até dia 30 de maio. A entrada é gratuita e as filas são gigantescas (tentei duas vezes e só entrei na terceira, depois de uma hora de espera). É possível fazer visitas guiadas pelos próprios artistas (aliás, a coisa lá é organizadíssima), mas as reservas também já estavam esgotadas. Na saída, você pode doar o quanto quiser e ainda tem um livro sobre a exposição para vender por €30.

Quando a gente está na fila, sempre tem alguém (geralmente um dos artistas do projeto) informando sobre o tempo estimado de espera e pedindo compreensão. Como é expressamente proibido fotografar (o que achei ótimo, pois, ultimamente, é quase impossível apreciar as obras em um museu sem que tenha alguém tirando uma selfie na frente das obras), a gente ganha um saquinho plástico com fechamento de cola para guardar o celular. As pessoas que saem vão tecendo comentários elogiosos e dando força para os que estão na fila aguardarem, pois vale a pena.

E como vale! É como entrar num universo paralelo. Além dos grafites convencionais, há instalações de arte contemporânea (umas muito instigantes e sensacionais; outras incompreensíveis para mim, como sempre) e surpresas em todos os cantos. Quando eu fui, tinha uma turma de adolescentes visitando o local com a escola (acho isso tão lindo, de levar as crianças nos museus!).

Por motivos óbvios, não posso postar fotos aqui, exceto da fachada do prédio, mas a fan page do projeto está cheia de fotos, além desse artigo da Deutsche Welle, muito bem escrito, de onde tirei boa parte das informações.

Se você estiver em Berlim até o final de maio, não perca essa oportunidade.

Tomara que esse projeto seja muito copiado e vire moda. Todo mundo vai adorar!!!

——

** Haus é casa em alemão e o uso do artigo The em inglês, mostra a multiculturalidade do conceito.