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Heroína na adolescência

A vida está sempre nos pregando peças. Penso que minha geração inteira leu “Eu, Christiane F., 13 anos, drogada e prostituída…” na adolescência e ficou tão chocada como eu com a história da menina que começou a fumar hachiche aos 12 anos para se sentir incluída e acolhida num grupo e acabou tendo que se prostituir para sustentar seu vício em heroína.

Mas o que eu jamais imaginaria é que um dia ainda iria reler o livro em sua língua original reconhecendo boa parte dos lugares de Berlim que ela relata. E que continuaria igualmente chocada e impressionada.

A história começa com sua família totalmente desajustada (os pais se casaram praticamente obrigados quando sua mãe engravidou, mas o pai não aceitava nem mesmo que ela o chamasse de pai na frente dos estranhos; era sempre o “tio”). A mãe trabalhava o dia todo para sustentar a família e ela passava o dia sozinha, sem ter com quem conversar. A pré-adolescência foi difícil, até que encontrou um grupo de crianças com problemas similares num clube de igreja, e acabou entrando nas drogas, que já circulavam por lá.

A moça tentou se livrar da heroína inúmeras vezes; confessa que ainda não está livre até hoje, com mais de 50 anos de idade e um filho que não consegue criar (ela perdeu a guarda por conta das confusões nas quais se meteu por causa das drogas). Christiane tem graves problemas circulatórios e é portadora de hepatite C, que contraiu por meio de seringas contaminadas; por causa disso, pode ter uma crise fatal a qualquer momento. Ela publicou outro livro em 2013 (“Mein zweites Leben” ou “Minha segunda vida”, em tradução livre) contando o que aconteceu depois da publicação deste que se tornou um clássico da literatura adolescente no mundo todo.

O namorado da Christiane, que no início do namoro chegou a se prostituir para comprar drogas para os dois e poupá-la da humilhação e dos riscos, conseguiu se livrar e hoje trabalha como motorista de ônibus em Berlim. Mas sua melhor amiga sucumbiu a uma overdose na flor de seus 14 anos.

Muito triste mesmo a história de uma moça inteligente que estragou completamente sua vida por pura carência e insegurança. Esse livro devia ser leitura e debate obrigatório nas escolas (assim como o filme Traffic, que me impressionou bastante também), mas não apenas isso.

É preciso também dar mais perspectiva às crianças (elas precisam de uma escola segura e acolhedora e, principalmente, de amor em casa) e suporte psicológico às pessoas que querem se tratar do vício.

Drogas são um problema sério, complexo e caríssimo para o Estado e para as famílias. Devia ser tratado com mais seriedade e respeito, principalmente pelos governos.

Mas penso, na minha ignorância de leiga, que a principal defesa é uma autoestima bem construída e a segurança que a pessoa tem em se sentir amada. Sem isso, talvez seja uma causa perdida. Sortuda eu que tive tudo isso em casa…

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O título original pode ser traduzido livremente por “Nós, crianças da estação Zoo” e remete à estação de trem/metrô em que Christiane e sua turma usavam como base para se encontrar, consumir drogas e se prostituir.

 

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Empatia: a coisa mais linda do mundo!

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Essa semana ficamos todos chocados com o acidente aéreo ocorrido com a empresa Germanwings, durante um vôo entre Barcelona e Dusseldorf. O avião caiu nos Alpes e matou 150 pessoas. O mais chocante da história é que tudo indica que o co-piloto derrubou deliberadamente a aeronave, aproveitando-se do momento em que o piloto foi ao banheiro, trancando o cockpit por dentro.

Pois acabei de ler no jornal que uma passageira da Gemanwings que ia ontem de manhã de Hamburgo para Colônia, naturalmente apreensiva por causa do acidente, relata que o piloto, em vez de dar as boas vindas pela cabine, foi até a área de passageiros, pegou o microfone e disse que estavam todos muito tristes com o que tinha acontecido. Muitos funcionários da empresa recusaram-se a voar naquele dia, mas ele e sua tripulação estavam lá por livre vontade. Todos eles tinham família e iam fazer todo o possível para chegarem sãos e salvos em casa no final do dia.

Os passageiros, compreensivelmente emocionados, depois do silêncio inicial devido a surpresa, aplaudiram o gesto. Com certeza, foi um vôo bem mais tranquilo por causa da sensibilidade desse piloto. ‪#‎pormaisgenteassimnomundo‬

Quem quiser ler a notícia original (em alemão), aqui está o link do jornal Die Welt.

Leila Berlin

Olha só que ideia mais bacana para diminuir o consumismo e fazer com que as nossas escolhas sejam mais conscientes e divertidas; o pessoal do descolado bairro de Prenzlauerberg, em Berlim, bolou uma maneira de mudar o mundo e parece que está dando certo.

Trata-se de uma associação de pessoas dispostas a fazer diferença; elas alugaram um apartamento no térreo de um prédio e montaram a Leila Berlin.

O nome é um trocadilho com  leihen (emprestar) + Laden (loja) e o local é todo tocado por voluntários, que passam algumas tardes lá batendo papo e recebendo as “visitas”.

Funciona assim: a primeira sala, cheia de objetos e roupas, é para doação, ou seja, qualquer pessoa entra lá e pega o que quiser. Se tiver algo em casa que não usa mais, pode deixar de presente também. É bacana porque cada um escolhe o que quer levar e isso significa que o objeto vai ser realmente usado. O mais legal é que isso não é para os “pobrezinhos, coitados, que não têm dinheiro para comprar coisas“. Não comprar é uma opção de gente inteligente; como aqui a diferença entre as classes sociais quase não existe (ou é muito sutil), são pessoas como eu ou você que simplesmente escolhem algo bacana quando estão passando pela frente do lugar e levam para casa.

Essa organização nasceu porque as pessoas costumam deixar o que não querem mais em caixas na calçada escritas com a palavra “Geschenk“, que quer dizer “presente”. Eu mesma tenho uma bota maravilhosa que achei na rua; vi a linda, gostei e era o meu número, olha que sorte. Saí feliz da vida! Só que quando chove ou neva, as coisas acabam se estragando (principalmente roupas e livros). O que a Leila Berlin faz é oferecer um lugar para essas coisas de maneira que elas continuem disponíveis, porém, protegidas.

Isso é uma das coisas que mais gosto nessa cidade; as ações de não-consumo não são uma resposta à falta de dinheiro, mas à falta de conscientização.

Há outros dois quartos onde os associados podem alugar objetos diversos como patins, brinquedos infantis, guarda-sóis, bicicletas, ferramentas diversas, cafeteiras, eletrodomésticos variados, instrumentos musicais, malas, enfim, coisas que você geralmente compra para usar poucas vezes ou em ocasiões específicas.  A pessoa paga um pfand (tipo uma taxa de garantia) e recebe o valor de volta quando devolver o objeto, tudo com zero burocracia. Quando estive lá, uma mãe estava levando seu filho pequeno para escolher brinquedos para alugar. A criança já aprende desde pequena a compartilhar as coisas e dar valor à atividade, não ao objeto em si.

Isso é uma revolução de verdade para alguém que, como eu, vem de um lugar onde pessoas vão a Miami comprar roupas de grife para bebês vestirem…

O mundo tem jeito sim, ainda mais se a gente conseguir que essas ideias se espalhem :)

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Fofura de cliente…

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Essas caixas são brinquedos de tabuleiro.

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De tudo um pouco.

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Obrigada pela ótima dica, Rodrigo Sabatini!

 

 

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O suor dos inocentes

IMG_0021Vou ser uma velhinha cheia de histórias para contar; olha mais essa. Ontem deu um dia daqueles bem cinzas e o Conrado e eu decidimos fazer sauna. Eu já tinha mais ou menos uma ideia do que me esperava por conta de relatos de amigas que já tinham ido, mas não deixa de ser uma experiência pra lá de pitoresca para uma tupiniquim como eu.

Começa que sauna é sauna mesmo, não o que no Brasil costuma-se chamar pelo singelo nome de “whiskeria”. As pessoas vão lá para suar, relaxar e voltar para casa novas em folha.

A que a gente foi era no térreo de um prédio, com um pátio cheio de plantas no meio. Na recepção, uma moça de camiseta sem manga e shorts (apesar dos 2 graus de temperatura na rua) nos deu a chave de um guarda-volumes e uma toalha de banho. O vestiário (assim como a sauna e os chuveiros) é misto. Quando chegamos, tinha uma senhorinha muito simpática se vestindo.

Aí a gente tira a roupa e vai para um corredor aberto cheio de chuveiros tomar um bom banho (com sabonete e tudo, senão não pode entrar na sauna). Começamos pela seca, uma experiência meio surreal. Contei 16 pessoas, 12 homens e 4 mulheres, todos nus. A toalha servia para cobrir os bancos de madeira, já que nenhuma parte do corpo deve tocá-los por uma questão de higiene.

A iluminação é bem suave e a moça da recepção foi lá colocar as ervas na “churrasqueira”; ela dá umas abanadas por alguns minutos e, quando acaba a sessão, todo mundo aplaude (?!). O interessante é que ninguém olha para ninguém, cada um está concentrado no seu próprio suor. Silêncio absoluto, como se estivessem todos em meditação profunda.

Depois de 15 minutos (não aguento mais que isso), fomos para o pátio a céu aberto, cheio de trepadeiras bem verdes, mesmo no inverno (o calor da sauna deve ter alguma coisa a ver com isso). Ficamos um tempo repousando nas espreguiçadeiras com outras pessoas. Daí reparei numa plaquinha que recomendava o silêncio para respeitar a concentração de quem estava ali para relaxar. Mais uma sessão de sauna úmida, um banho final, um pouco de leitura na sala de descanso e um suco de pera para hidratar.

Dá para imaginar no Brasil um lugar assim, onde todo mundo fica pelado num ambiente confinado, no mais profundo silêncio e sem ninguém olhar para os outros? Hahahaha… eu não consigo…rsrsrsr

Surpresa colorida

Eis que você vai se encontrar com uma pessoa querida num bairro que ainda não havia sido totalmente “scanneado” e dá de cara com uma coisa dessas. Como não se encantar com tanto bom-humor?

Como é que a pessoa vai ficar triste se todo dia passa por uma coisa colorida dessas? Reparem o capricho das sacadas, que são de metal, mas com a estampa combinando. Enquanto uns brigam em reunião de condomínio, outros conseguem se unir para fazer da cidade um lugar mais bonito, interessante e bem-humorado. É disso que o mundo está precisando!

O melhor é que descobri o nome do artista, que trabalha sob encomenda e tem coisas muito bacanas no site, vai lá: Michael Fischer.

Moabit é o bairro onde mora a querida Nicole, da Agenda Berlim, reponsável por me fazer descobrir mais essa maravilhosidade (o nome da rua é Waldstraße). Obrigadão, querida <3

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Toda quinta-feira…

Como faz para parar de se deslumbrar? Por favor, se alguém souber, não me conte…

A quantidade de surpresinhas que essa cidade tem é infinita. Agora descobri que toda quinta-feira tem um festival de comida de rua no Markthalle Neun, em Kreuzberg, Berlim.

Berlim já teve 14 Markthallen, que são construções parecidas com as que chamamos no Brasil de mercados públicos. A maior parte foi destruída na Segunda Guerra Mundial, e hoje só restam quatro dessas edificações, que foram restauradas e funcionam como na versão original, vendendo frutas, legumes, hortaliças e laticínios, além de peixes e carnes. Ainda vou fazer um post falando sobre essas preciosidades, mas vale dizer que, como todo o comércio em Berlim, os horários de funcionamento são um pouco inusitados para nós. O Markthalle Neun (ou número 9), só funciona as quintas, sextas e sábados à tarde.

Mas todas as quintas-feiras à noite, esse lindo abre suas maravilhosas portas para o paraíso das comidas gostosas. Penso que já disse que, apesar de ser uma cidade cosmopolita e com restaurantes de todas as etnias e culturas, o forte dessa cidade não é a comida, que deixa bastante a desejar. Mas essas noites de Street Food, minha gente… são de deixar qualquer um babando.

As barracas, temporárias, são todas temáticas de acordo com a comida vendida (tem comida marroquina, árabe, turca, italiana, russa, alemã, portuguesa; até tapioca tem!); o lugar fica lotado de gente bonita e feliz numa celebração às coisas boas da vida, tudo com muita simplicidade, nada de frescura, zero de gourmetização. Comida de verdade, feita na hora.

Quando vier a Berlim, não perca a oportunidade de comer coisinhas gostosas nesse lugar maravilhoso!

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O feminismo e o chocolate

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É uma pena que muita gente (e muitas empresas) ainda não tenham entendido que o dia internacional da mulher não é para as moças ficarem se autocongratulando por terem nascido mulheres nem ficar felizes por receber rosas murchas pelas ruas. É um dia de muita reflexão, para que todo mundo pense a respeito sobre o que pode ser feito para que as diferenças entre os gêneros, que infelizmente continuam enormes, possam ser minimizadas, e que finalmente cheguemos ao mais alto estágio civilizatório, que é o da igualdade.

Para quem pensa que isso não é necessário e que já evoluímos bastante (uma parte conseguiu andar um pouco pra frente sim, mas ainda falta muito), basta lembrar que enquanto você lê esse texto, mulheres de todas as idades continuam a apanhar, ser estupradas, ter seus hímens retirados a sangue frio e ser apedrejadas até a morte sem dó nem piedade, só porque nasceram mulheres. Nem vou comentar o salário menor, os problemas de autoestima porque não conseguem se adequar a um modelo idealizado por outros ou as condições de trabalho.

Em vez de ficar aqui repetindo o quanto somos maravilhosas (sei que vou ser muito xingada por isso, mas se estamos falando de seres humanos iguais, nascer com uma vagina não torna a pessoa automaticamente maravilhosa; só a torna mais vulnerável, e é disso que temos que tratar), vamos ao que interessa: o que podemos fazer para que todas tenham chance de se desenvolver e ser respeitadas, que possam contribuir para que o mundo seja um lugar melhor para se viver.

Daí que resolvi trazer um exemplo sensacional que existe aqui em Berlim. Chama-se Shokofabrik e é uma cooperativa feminina.

O lugar tem esse nome porque a edificação onde a cooperativa está instalada funcionou como fábrica de chocolate entre 1888 e 1968. O prédio foi ocupado pelo movimento feminista e de lésbicas em 1981 e, desde então, tem feito um trabalho fantástico.

Como está instalado no bairro de Kreuzberg, onde uma parte significativa dos moradores é turco, a organização foi fundada, num primeiro momento, com foco nas mulheres dessa nacionalidade, que sofrem até hoje por causa do machismo de sua cultura.

Como é uma cooperativa, boa parte dos trabalhos é voluntário, mas trabalha-se também para que a renda revertida consiga sustentar os cursos, oficinas, consultorias e serviços ali oferecidos. Há cursos profissionalizantes, de línguas, de integração na cultura alemã, de empreendedorismo, de defesa pessoal; há uma creche que abriga atualmente 23 crianças de 1 a 6 anos de idade; há uma oficina para as mulheres que queiram construir seus próprios móveis; há diversas atividades físicas; há um café e até um serviço que vou testar em breve: o banho turco, uma antiga tradição  chamada Hamam.

A casa tem 13 mil m² distribuídos em 6 andares e é um desses empreendimentos que mudam a história de pessoas para sempre. Essas mulheres construíram um lugar de referência e proteção para suas irmãs e estão de fato transformando para melhor o mundo em que vivem.

Penso que são iniciativas assim que merecem nossa atenção e reflexão no dia de hoje. O que cada um de nós, homens e mulheres, pode fazer para tornar o mundo um lugar mais justo e igual?

Para quem quiser saber mais, recomendo uma visita ao site Shokofabrik. Além de turco e alemão, está disponível também em inglês.

 

O tal do círculo

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Toda vez que vejo um livro na lista dos mais vendidos, logo penso: ôba, um bestseller! Deve ter muita ação e ser fácil de ler. Aí, quando dei uma olhada no resumo do “Der Circle“, de Dave Eggers, a decisão de lê-lo estava tomada: é a história de uma empresa, chamada Circle que compra as outras gigantes da internet e se apodera de todas as informações pessoais dos usuários. Como resistir?

Bom, em princípio pensei que fosse algo do tipo “A rede“, estrelado pela Sandra Bullock. Ledo engano.

O problema já começa com a protagonista, que só conseguiu um emprego na tal empresa porque era colega de quarto da moça que se tornou uma das principais executivas do grupo. Não há como se identificar: ela é boba, chata, sem graça e desinteressante, além de ser acéfala e presa fácil para servir de inocente útil para a empresa. Chega a ser irritante o tanto que a moça simplesmente não pensa (saudades das heroínas do Sidney Sheldon).

A empresa mais parece uma universidade (mais ou menos como seria hoje uma pessoa trabalhar na Google). De fato, o parque fabril é chamado de campus e tem todas as facilidades para os 12 mil funcionários: moradia, restaurantes, lojas, academias, shows e  festas diárias, clínica de saúde. Tudo grátis.

Eles mantêm e obrigam os funcionários a participar ativamente das redes sociais internas e externas, a ponto de terem um ranking de popularidade que conta muito na avaliação de desempenho. São encorajados a interagir o tempo todo a tal ponto que a moça topa usar um colar com uma câmera expondo absolutamente toda a sua vida (e a dos amigos e parentes que interagem com ela) à apreciação pública.

A obsessão pelo que eles chamam de transparência ultrapassa todos os limites lógicos. Os lemas da empresa são: “segredos são mentiras“, “compartilhamento é cura” e “privacidade é roubo“. E ninguém acha estranho, exceto os pais da moça e o ex-namorado. A idiota acha que eles são caipiras por não quererem câmeras em todos os cômodos da casa para que o pessoal possa acompanhar o dia-a-dia deles (uma coisa tão legal, né, gente?).

O que mais me irritou no livro foi o discursinho barato usado por um dos fundadores para convencê-la que abrir mão da privacidade era uma coisa ótima: iria diminuir os crimes e a corrupção no mundo, as pessoas iriam pensar mais antes de fazer as coisas erradas ao saber que tem gente assistindo tudo o que elas fazem. Uma criança de quinta série é capaz de rebater o raciocínio com mais competência que ela; era só perguntar por que ele próprio não usava o colar. Sério.

A empresa mais parece uma seita, pois nunca vi um grupo de colaboradores tão desprovidos de senso crítico. Até poderia ser bacana, se eles não achassem que o que é bom para eles é também o melhor para o mundo e deve ser obrigatório para o bem comum (a palavra totalitarismo parece ser um termo desconhecido para esses nerds desmemoriados).

Olha, só cheguei no final das 558 páginas porque era realmente muito fácil de ler e meu alemão está realmente precisado de exercícios desse tipo. Mas se a pessoa vai ler em português, acho perda de tempo.

Meu resumo do livro: uma obra de ficção que se passa num mundo onde nunca ninguém leu ou sequer ouviu falar em “1984” de George Orwell.

Mas pelo menos o autor podia ter dado uma olhadinha, né?

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Top 10: as fotos mais legais de fevereiro

Essas foram as minhas 10 fotos mais curtidas nas redes sociais no mês de fevereiro. Aos pouquinhos o inverno vai se despedindo (esse ano ele quase nem veio, só deu um alô) e vamos nos preparando para a chegada da primavera.

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Essa aqui gerou uma discussão sobre as lâmpadas e até apareceu numa matéria do blog 99jobs replicada no Catraca Livre representando a cidade de Berlim.

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Como resistir a uma árvore sensualizando em pleno parque?

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Uma parte desse lago ainda estava congelado, mas o rapaz que serviu como modelo não estava nem aí para o frio.

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Esses canos fazem sucesso sempre que aparecem. Eles são drenos de água de obras de construção civil; só que em Berlim, não poderiam ser cinzas e feios como nos outros lugares, né?

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Um dos poucos dias de inverno de verdade esse ano, onde São Pedro resolveu se exibir mandando bastante neve.

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Esse prédio é ocupado, na sua maior parte, pelo ministério da Ciência e Tecnologia daqui. Mas não deve ser próprio, pois tem outros empreendimentos compartilhado o espaço também.

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Tive que pagar € 1 de cachê para poder tirar a foto, mas acho que valia muito mais. O dono da barraca de roupas no mercado de pulgas era um artista, acompanhado do seu peludo amigo performático.

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Tem dias que o melhor mesmo é ficar no preto & branco.

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Nunca posto selfies, mas achei bacana esse efeito de espelho no vidro da janela do trem. Supresa mesmo foi a reação: essa foi a foto mais curtida da história do meu Instagram + Facebook até hoje!

Pintando o sete em Berlim

Uma das muitas bobagens que ouvia (e acreditava) quando ainda morava no Brasil é que os alemães adoram artesanato brasileiro porque aqui na Europa não tem quase nada feito à mão. Falácia. Eles gostam do artesanato brasileiro simplesmente porque amam colocar a mão na massa e valorizam tudo o que não é fabricado em escala industrial.

Mas o que me chamou atenção mesmo foi um modelo de negócios muito interessante: cafés onde você pode ir, reunir-se com os amigos ou com a família para pintar cerâmica.

Em Berlim são sete filiais da Paint your Style e deve ter outras concorrentes também. Nas vésperas de Páscoa, Natal e férias escolares é quase impossível conseguir um lugar, de tão lotado. As crianças também curtem fazer aniversários aqui. Tem coisa melhor e mais divertida? Eu já fui com cinco amigas passar uma tarde maravilhosa para fazer um presente surpresa para outra que estava indo viajar. Cada uma pintou uma peça e foi inesquecível!

Funciona assim: você chega, e a primeira coisa a fazer é lavar as mãos (elas têm gordura que podem grudar na cerâmica e dificultar a absorção da tinta). Aí você escolhe a peça que quer (na estante tem algumas já pintadas para quem quer se inspirar), escolhe as cores, senta na mesa e começa a brincadeira. Embaixo da peça a pessoa pinta seu nome, para identificá-la depois. Quando você “fecha a conta” e entrega as peças no balcão, a moça guarda tudo em bandejas para colocar no forno depois (que só funciona alguns dias da semana). Aí ela marca um dia para você pegar sua obra de arte (ai, que ansiedade para ver como ficou!).

Por experiência própria posso dizer que é um programa prazeroso e integrador para pessoas de todas as idades. Ontem me encontrei lá com a Cris e a Gisele (que trabalha na loja de Kreuzberg). David, um dos sócios, foi super querido e me deixou fotografar tudo.

A gente sabe que uma coisa funciona e faz bem, quando vê uma criança com seus dois avós bem velhinhos pintando pecinhas como se todos tivessem a mesma idade, casais de namorados brincando juntos e amigas dando boas risadas. Como não amar isso, minha gente?

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Tente imaginar uma versão melhor do paraíso…

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É muito amor.

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Inspiração é o que não falta.

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Você escolhe a peça que vai pintar. Uma caneca custa por volta de € 10 com tudo incluso.

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Embaixo dos tubos de tinta tem uma amostra de cerâmica já cozida para a pessoa ter ideia de como a cor vai ficar. Quando a gente pinta, parece aquarela.

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Duas amigas passando a tarde da melhor maneira possível.

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Todo mundo adora brincar!

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A Gisele colocando as peças no forno.

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Se a pessoa quiser, pode levar pias e vasos (desde que caibam no forno). O risco deles se quebrarem no processo é grande, pois já sofreram um cozimento anterior, mas e as ideias que já comecei a ter por aqui? Rsrsrsrsrs….

 

Achei que vocês iam gostar de saber também.

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Tipos para todos os gostos

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Não me lembro como é que cheguei nesse livro (deve ter sido por uma das trocentas newsletters que assino), mas, olha, valeu demais. Comprei no pré-lançamento no final de janeiro e recebi semana passada, com autógrafo e tudo!

The type taster: how fonts influence you, de Sarah Hyndman, foi uma das melhores surpresas dos últimos tempos. A expectativa já era alta (por causa do nome), mas Sarah conseguiu superá-las.

O começo é o básico de qualquer livro de tipografia: fala da influência sutil das fontes tipográficas em qualquer peça de comunicação e observa que o que era domínio de poucos até pouco tempo atrás, tornou-se popular e acessível a qualquer um. Hoje, escolhe-se a fonte em que se vai ler um texto no Kindle como se fossem sabores de pizza. Conta o caso da Gap, que tentou mudar seu logotipo e teve que voltar atrás por causa da reação indignada dos clientes (ela não citou a Ikea, mas o caso foi análogo).

Um pouquinho de história também está lá: a primeira fonte (Engravers Old English, de 1450, com aquelas letras góticas, usadas por Gutenberg para imprimir a primeira bíblia), a invenção de outras fontes mais legíveis e, principalmente, a revolução provocada pela invenção do itálico, que diminuiu consideravelmente o tamanho e peso dos livros, aumentando sua portabilidade.

Sarah nos conta que os tipos, assim como as cores, sons, texturas, sabores e cheiros, provocam emoções e alteram a mensagem comunicada. Eles carregam mensagens subliminares, justamente porque a maioria de nós não presta atenção neles. As fontes fazem o papel de nosso tom de voz quando falamos: a palavra toda escrita em caixa alta (maiúsculas) simula gritos; fontes “gordinhas” equivalem a vozes graves, assim como as magrinhas, mais sutis, representam os sons mais agudos. As curvas e elementos dão musicalidade ao discurso, além de assertividade, seriedade, enfim, uma série de características que afetam o resultado final de nossa percepção.

Um exemplo bem comum é o de fazer com que um alimento industrializado pareça ser feito artesanalmente: ao inserir algumas falhas propositais na fonte tipográfica, como se fosse carimbada ou aplicada com estêncil, a mensagem é comunicada sem que o fabricante corra o risco de ser acusado de propaganda enganosa. Malino, né?

Hyndman fala um pouco também dos princípios semióticos: as formas arredondadas, como já nos explicou Donald Norman, são normalmente associadas à sensação de conforto, ao contrário dos ângulos agudos, que despertam nossos alarmes de perigo.

Em outro exemplo, ela nos explica como se sustentam os clichês nos cartazes de cinema: porque sempre se usa sempre fontes sem serifa para anunciar comédias; tipos modernos como o Didot para promover filmes românticos e a família Trajan para filmes épicos e inspiradores? Há fontes associadas ao luxo nostálgico, ao dinheiro, à moda, aos movimentos revolucionários, à ficção científica, enfim, é só observar com cuidado que dá para identificar padrões.

Mas o mais bacana mesmo são as muitas pesquisas práticas que ela  faz para descobrir como as pessoas percebem e sentem os tipos. Tem uma em que ela pede para o povo adivinhar quais são os produtos mais caros e mais baratos só pela fonte usada no rótulo e qual a profissão de alguém só com base nas fontes tipográficas usadas no seu cartão de visitas (ela produz vários, com as mesmas informações, mudando apenas a fonte). Aliás, esse capítulo sobre a relação entre as fontes e as profissões já vale o livro. É claro que se pode fugir dos clichês, mas há que se ter em mente que a mensagem terá um pouco mais de dificuldade de ser apreendida pela maior parte das pessoas.

Até a reação dos leitores a determinadas notícias no jornal sofrem influência de acordo com a fonte em que o texto é escrito. É claro que isso não é novidade para quem já leu um pouco sobre tipografia; o que ainda não tinha visto eram pesquisas com números que comprovassem a teoria.

Outro caso interessante é a avaliação que as pessoas fazem de um chef de um restaurante baseando-se na fonte tipográfica do menu. É incrível a influência, inclusive na percepção de preço. Há pegadinhas onde se faz uma pergunta capciosa (exemplo: “quantos animais de cada espécie Moisés levou para a arca?”. O trabalho do pesquisador David Lewis mostra que se a fonte é fácil de ler, 80% das pessoas erra e responde um par. Quando a fonte exige um pouco mais de concentração na leitura, esse número cai para 50%; metade consegue se dar conta que o sujeito da arca é o Noé, não o Moisés. Louco isso, né?

As fontes também influenciam o humor das pessoas e fazem com que elas consigam voltar no tempo (e nesse capítulo fiquei sabendo que há o Museum of Brands em Londres que guarda embalagens desde a época Vitoriana. Não posso perder de jeito nenhum!).

Sarah gosta e sabe brincar com as letras. Ela apresenta o equivalente tipográfico aos filtros de imagens do instagram. É legal demais, olha só:

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Ela diz também que as fontes que a gente mais gosta e usa revelam muito sobre a nossa personalidade (claro, assim como as roupas, o corte de cabelo, etc). Por isso, o livro é oferecido com a capa em cinco fontes diferentes e você escolhe qual prefere quando faz o pedido: Baskerville, Claredon, Didot, Gill Sans e Helvetica. O meu é em Gill Sans (adoro). Resumo: sou uma tradicionalista que gosta de pensar que é moderna…rsrsrs. O texto é bem maior, mas não vou reproduzi-lo aqui não (parece horóscopo; acerta umas coisas e erra outras).

Olha, o livro é diversão até o fim: veio com um óculos 3D para o estudo da percepção das fontes, propõe uma série de atividades (ótimo para professores) e até fotos de balas e biscoitos que traduzem a personalidade de cada fonte tem (com receitas e tudo!).

Meu único reparo é que essa primeira edição, de 2.000 exemplares, foi impressa on demand. Daí que a encadernação é boa, mas como o papel interno é muito grosso (170 g/cm²), fica difícil de manter o livro aberto durante a leitura.

No mais, recomendo com estrelinhas. Vai lá: The type taster.

Supermercado só no nome

Olha, não sei porque esse lugar se chama Supermarket, pois não se parece nada com um. Talvez a ideia tenha sido reunir ofertas variadas e acessíveis, só que num segmento mais cultural; sei lá.

Esse espaço conceitual (como eles mesmos se descrevem) reúne artistas, designers, arquitetos, fotógrafos, empreendedores e o povo da mídia em exposições muito bacanas. A instalação fica naquele shopping bacana que falei há um tempo (o Bikini Berlin) e é um misto de loja, galeria, lounge, restaurante e café. Aos domingos tem sempre uma banda de jazz tocando enquanto o povo relaxa e se joga num brunch.

Com vista para o zoológico e uma decoração aconchegante, dá vontade de morar nesse pedaço. Dá não?

Vem ver!

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Comece olhando para o teto e repare o capricho <3

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Comidinhas simples e frescas, todas feitas aqui mesmo.

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Jazz in Brunch, todo domingo a partir das 11 h.

7 exemplos de design da contradição

A gente sabe que a marca gráfica deve traduzir a essência da empresa que representa e que, quando isso não for possível, pelo menos que ela não contradiga seu DNA.

Pois, infelizmente, nem todas as empresas confiam essa missão tão importante a um profissional qualificado para o trabalho. Não vou discorrer sobre o processo de criação de uma marca, que é longo, trabalhoso e está longe de ser apenas um desenho.

Dito isso, há marcas mal construídas por diversos motivos; seja por sua qualidade gráfica e de reprodução, seja por falta ou inadequação de um conceito que a sustente.

Mas há erros que são mais básicos que esse: quando o design contradiz justamente o que está escrito. Pode parecer improvável, mas é mais comum do que se imagina. Seja por desatenção, amadorismo ou mesmo falta de uma análise crítica mais aprofundada, muitas empresas representam seu próprio nome de maneira contraditória.

Essa minha coleção de marcas é bem antiga (deve ter mais de 10 anos) e muitas empresas já fecharam ou atualizaram as representações. Mas a análise continua interessante.

Quer ver?

1. Uma marca que se chama êxito deve traduzir sucesso, confere? Mas qual é o símbolo do seu contrário, o erro, o fracasso? Seria um “X” bem grande grafado em vermelho como esse que aparece bem no meio da palavra? Bom, talvez eles considerem essa contradição uma inovação, vai saber…

exito

 2. O dicionário Aurélio diz que essencial é o indispensável, o necessário, o fundamental. Nenhum dos adereços agregados a essa marca gráfica são essenciais. São, pelo contrário, excessivos e supérfluos, pois não contribuem para comunicação do conceito. E o que dizer de uma marca de moda branca grafada em preto e laranja?

essencial

 3. Uma empresa chamada estática deve ter um símbolo gráfico, digamos assim, estático. Concorda? Mas você consegue imaginar algo mais dinâmico do que essa tríade giratória? Para mim, o movimento chega a ser hipnótico…

estatica

 4. Agora pense nessa empresa, a Rode Bem. Para rodar bem, é preciso que os pneus estejam em perfeito estado de conservação, com a banda de rodagem intacta e bem soldada na estrutura. Mas, peraí…é impressão minha ou essa banda de rodagem está descolando da roda?

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 5. Pense no conceito de completo: algo que está inteiro, sem nenhuma parte faltando. Exatamente como as letras dessa marca….ooops!

completo

 6. Inovação, você sabe, é uma coisa nova, que ainda não foi inventada, tipo assim… esquadro? Compasso? Ainda preciso dizer que o arquivo era um gif animado que não consegui reproduzir.

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7.  Essa última não é uma contradição propriamente dita, além do que, o design está mais bem feito que os demais. Mas penso que uma empresa que quer progredir e ir para a frente, não pode ter como símbolo um avião voando para trás, voltando. Sim, entendi que o avião forma o “E”, inicial da empresa. Mas a mim incomoda um pouco. Só uma opinião, claro.

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Para finalizar, só queria deixar claro que o que está sendo analisado não é a qualidade do projeto ou a competência do designer, mas a contradição entre o que está escrito e o como está escrito.

Pense nisso.

Rapaz feliz

Se tem uma coisa que dou valor é gente que usa a criatividade para diferenciar seu negócio. Daí que estou sempre ligada a ideias bacanas que saiam do lugar comum; passando pela Friedrichstraße já faz algum tempo, reparei na hamburgueria “Hans im Glück“.

O nome já me chamou atenção (a tradução é algo como “Hans feliz”). A origem é um conto dos irmãos Grimm, que, em português, virou “João com sorte” ou “João felizardo”. A história narra as aventuras do garoto, sempre otimista, que se mete em enrascadas mil, perde tudo o que conseguiu amealhar como resultado de sete anos de trabalho, mas sempre consegue ver o lado bom da coisa. É tipo uma Poliana alemã…rsrsr

A ideia dos empreendedores está impressa na página principal, com a frase que encerra o conto: “ Tão feliz como eu sou, não há homem sob o sol!“. E não duvido que eles consigam; o hambúrger não tem nada de especial, mas o ambiente é muito acolhedor. Todo decorado com troncos de árvores, a pessoa se sente mesmo numa floresta de conto de fadas.

Olhaí e vê se não é para o cliente ficar feliz mesmo.

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O moço aí do cantinho não pegou o espírito da coisa..rsrsr

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Inferno

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Já faz um tempo que terminei de ler “Inferno”, do Dan Brown, mas agora me dei conta de que não compartilhei a dica de leitura.

Não é uma obra que eu leria em português, mas, para quem está aprendendo uma língua estrangeira, recomendo bastante (li em alemão e achei bem acessível). Os livros do Dan Brown são ótimos porque descrevem apenas cenas de ação; o personagem principal, o professor de simbologia Robert Langdon, não pensa, não come, não bebe, não dorme, não transa, não faz xixi, enfim, não faz nada a não ser correr e tentar decifrar enigmas. Isso reduz bastante o vocabulário e, porque os capítulos são bem curtos e sempre terminam com um gancho para o próximo, facilita demais.

Bom, a maior parte do enredo se passa em Firenze e só a descrição dos monumentos e museus já vale a leitura. Ainda não visitei essa belíssima jóia italiana, mas a vontade só aumenta. Ele passa um dia em Veneza e outro em Istambul também.

A história, apesar de muitíssimo criativa e bem descrita, tem vários furos (personagens que somem, partes mal explicadas), mas o que me impressionu mesmo foi justamente o argumento central da trama.

Eis que um cientista genial, polêmico e controverso, incomoda-se muito com o fato da população do planeta estar aumentando exponencialmente de maneira insustentável (apesar de ser o vilão, o moço tem toda razão e argumentos muito válidos). Por causa do aumento da expectativa de vida e redução da mortalidade infantil (devido a vacinas, curas de doenças, hábitos de higiene, tecnologias de reprodução, melhoria na alimentação, etc.) conquistadas no século XX, nunca houve tantos habitantes no planeta explorando tanto. Dá uma olhada no gráfico do crescimento populacional que ele apresenta no livro e assuste-se comigo. É apavorante:

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Fonte da imagem aqui.

Essa curva tende a subir infinitamente e o problema é que os recursos do planeta são limitados. Só para se ter uma ideia: se toda a população de hoje tivesse o mesmo nível de consumo de água, energia e produzisse a mesma quantidade de lixo que você e eu (estou considerando que somos ambos classe média), precisaríamos de quatro planetas Terra. Como não temos tantos planetas, a única maneira de manter nosso padrão de vida é que a maior parte da população da Terra seja absolutamente miserável no último grau de degradação. Você já pensou no absurdo que é isso? Sem falar que o número de seres humanos continua aumentando, sem nenhuma perspectiva de diminuir. Mesmo que se reduza o consumo de recursos e a produção de lixo, não há como sustentar essa situação.

Pois é, na história, o vilão ataca as organizações internacionais de ajuda humanitária e os acusa de ajudar a aumentar a população salvando pessoas e não dando a devida atenção a programas de planejamento familiar. Por todas as pistas que ele dá (usando o capítulo que trata do inferno na Divina Comedia de Dante Alighieri e episódios da peste negra) e que o protagonista interpreta, o que está em jogo é um super vírus que irá reduzir a população da Terra e resolver o problema, pelo menos, por ora. O tal cientista maluco se suicida durante a busca para impedir a tragédia que seria disseminar o tal vírus e a corrida do herói para “salvar” a humanidade é frenética.

Olha, não vou contar o final, mas achei surpreendente e muito criativo. Vai lá…

Top 10: as fotos mais legais de janeiro

Decidi criar uma nova sessão aqui no blog; todo mês vou selecionar as 10 fotos que mais ganharam likes no meu Instagram e colocar aqui. A ideia é alimentar os olhinhos dos leitores com comida saudável e cheia de vitaminas.

Vamos?

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1. A princesa Charlotte fez o maior sucesso com esse olhar 43. Não é para menos, a diva é irresistível mesmo…

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2. As ideias para fazer a cidade ficar mais bonita, interessante e colorida são infinitas. Olha aqui mais uma, das boas.

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3. Pelo jeito não fui só eu que adorei essas florzinhas descabeladas.

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4. Chão molhado e dia nublado: adoro!

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5. Todo mundo se impressionou com esse grafite em Nollendorfplatz. Ousadias que só se vê em Berlim.

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6. Impossível ignorar esse prédio de esquina todo adesivado. Em Nollendorfplatz também.

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7. No coração da cidade, a Friedrichstraße nunca perde o charme.

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8. Mais uma vez levar visitas para conhecer o parlamento alemão. Essa cúpula de vidro é linda demais.

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9. Essa dama de vermelho deixou o povo de queixo caído. O diabo vai de metrô, aqui em Berlim…rsrsrs

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10. O lençol freático é muito baixo por aqui, então toda obra grande precisa drenar a água. Mas se canos são necessários, por que não colori-los? Não é à toa que eu te amo tanto, Berlim…

Agora, só mês que vem :)

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Pedalando sem lenço nem documento

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Coisas com as quais a gente tem que se acostumar, afinal, é outra cultura. Estou fazendo o checkup geral e teve aquela prova de esforço onde a pessoa tem que pedalar morro acima. Pois a menina grudou os negocinhos todos do aparelho em mim e me mandou pedalar… sem camisa! Sem nada! Toda vez que vou no médico é isso: seja homem ou mulher, eles ficam conversando na boa com o paciente sem roupa; é muito bizarro para quem nasceu e cresceu no Brasil, onde até topless é proibido. Aqui eles pegam sol pelados no parque e ninguém se incomoda. Fiquei pedalando e rindo e a moça nem entendeu nada…rsrsr

A parte boa é que, segundo o médico, meus exames estão todos fantastisch!! (nada de piadinhas, quem fez o exame foi a assistente, ele nem estava na sala, ok? Rsrsrsr).

A reinvenção do shopping center

Os berlinenses (e ouso dizer, os europeus, de maneira geral) não curtem muito passar horas em shopping centers. Diria até que detestam. O comércio de rua aqui é rei e, além disso, o consumismo não é tão desenfreado. Passear num shopping num dia de folga é considerada uma ideia bem bizarra por aqui, aliás. Qualquer berlinense preferirá ir a um museu, exposição,  ficar à toa na vida num parque ou ocupando a mesa de um café qualquer.

Por isso, os shopping aqui são pequenos (se comparados com os brasileiros), nada espetaculosos e prioritariamente frequentados por turistas.

Digo isso porque há alguns meses foi inaugurado o maior shopping de Berlim, que, para um brasileiro, é apenas mais do mesmo que a gente já está acostumado a ver: muito mármore, muito vidro, muito dourado, muito luxo, muitas lojas de marca…zzzzzz  O empreiteiro pediu falência ao término da obra, que teve vários atrasos, e o povo até fica fazendo piada com isso (o tal schadenfreude, palavra alemã que significa se alegrar com a desgraça alheia).

Mas no começo do ano passado teve um projeto bem ousado com o objetivo de mudar o conceito de shopping center: o Bikini Berlin, bem onde era o antigo centro do lado ocidental da cidade. Aí sim, conseguiram fazer um empreendimento com a cara e o conceito da cidade.

O Bikini Berlin, olhando de fora, parece mais um centro comercial (de fato, a construção não é muito grande, e a ideia não é essa mesmo). Todo o estilo da decoração é baseado em pallets e é bem minimalista: não tem dourado, não tem mármore, não tem gesso, não tem luxo (ufa!).

Na verdade, esse prédio é uma releitura do antigo Bikinihaus, que ficava no mesmo lugar, construído no auge da invenção do biquíni, nos anos 50. A edificação ganhou esse nome porque era arquitetonicamente dividida em duas partes, como a famosa roupa de banho tão em voga na época, veja que interessante.

O shopping fica coladinho ao Zoologische Garten (visitei o zoo durante a construção e foi bem difícil para os bichos, coitados, que sofreram demais com o barulho e a sujeira da obra) e tem vista para a ilha dos macacos balbuínos (aqueles com a bunda vermelha).

A maior parte das lojas do vão central é do tipo pop-up (ou seja, são temporárias) e montadas sobre estruturas de madeira e arame. Mesmo as lojas fixas são bem despojadas, com piso de cimento queimado e com o máximo de coisas feitas à mão (incluindo cartazes com o nome dos estilistas das lojas de fashion design).

A parte que mais gosto é um pano de vidro que dá diretamente para o zoológico; a moldura da janela tem almofadas espalhadas para a pessoa passar o dia inteiro lá meditando, se quiser. A parte externa tem um pátio também com vista para o zoo onde os cafés colocam mesinhas e sofás com design bem original. Além de cafés e lojas, o complexo de 7000 m² tem um cinema de rua, restaurantes, escritórios, uma escola de design, ateliers e um hotel (um dos mais bacanas que já vi, por sinal, totalmente dentro do conceito). Aliás, sobre os cafés vou falar depois; eles merecem um post só para eles…

Enfim, é tudo muito diferente do que a gente está acostumado a ver num shopping. Pelo que li, o lugar ganhou o coração dos berlinenses, mas não o bolso (parece que o retorno financeiro ficou um pouco aquém do esperado).

Para quem precisa alimentar os olhos todo dia com coisas bacanas e os neurônios com ideias novas, recomendo demais!

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Até a fachada é diferente dos outros shoppings, já que a construção não é um bloco, mas vários prédios interligados.

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Pano de vidro com vista para o zoológico; sim é possível ter paz dentro de um shopping.

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Os cartazes na frente dos cabides indicam os nomes dos estilistas.

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Em busca do cool

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Com certeza você já ouviu esse termo por aí: coolhunter. Mas você sabe o que significa, de onde veio essa palavra, para que ela serve?

Pois a queridíssima e muito competente Fah Maioli, expert no assunto, teve a delicadeza de escrever um livro explicando todos os pormenores, o Manual do Coolhunting: métodos e práticas.

Essa gaúcha que trabalha como trend analyst há 16 anos em Milão, conta que  o primeiro a usar a palavra foi Malcom Gladwell, num artigo escrito em 1997 para o periódico New Yorker. Revela ainda que antes do coolhunter, a palavra que mais se aproximava dessa prática era o flaneur, aquela pessoa que adora passar o tempo caminhando pelas ruas para contemplar cada detalhe da cidade: as coisas, as pessoas, os cenários, os personagens, a música, os cheiros (ah, como me identifico!).

Mas a partir daí, quando o coolhunter foi integrado ao sistema da moda, a coisa ficou muito mais complicada e sofisticada, pois há toda uma estrutura complexa por trás das coisas que consumimos, desde a forma como são identificadas e/ou definidas tendências, a observação do estilo de vida das pessoas até a valorização dos formadores de opinião; enfim. A Fah tem toda a paciência de destrinchar cada termo e cada papel, de explicar a influência de cada comportamento, além de contar um pouco da história da moda do ponto de vista antropológico e de cultura do consumo.

Então, para resumir bem, o coolhunter é a pessoa que caça hábitos, estilos de vida e tendências de consumo cool (bacanas, legais, com potencial para ser desejados e copiados, que possam impactar o mercado), incluindo aí moda, gastronomia, arte, música, design, arquitetura, literatura, cinema, etc. Ele é um intermediário de cultura que faz a ponte entre aos centros de produção cultural e as empresas de produção de bens de consumo.

E a Fah lembra que coolhunter não é uma profissão, mas um conjunto de atividades profissionais. Fiz um desenho para compreender melhor, mas não sei se está certinho (posso ter entendido errado, corrija aí alguma falha, amiga!) que mostra os diferentes papeis que o coolhunter pode assumir e as conexões entre eles.

coolhunter

Se você é interessado em entender o espírito do tempo (Zeitgeist), não pode perder de jeito nenhum. Recomendo fortemente!

Aqui tem para vender.

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Se quiser saber mais sobre o tema, resenhei outros dois livros também interessantes: “Observatório de sinais: teoria e prática da pesquisa de tendências”, de Dario Caldas e “Cool Hunter“, de Scott Westerfeld

 

Desenvolvido por: Elton Baroncello