Minha história com a street art

Esses dias me dei conta de que um dos projetos mais legais dos quais participei, a pintura do muro da Academia de Polícia no bairro da Trindade, em Florianópolis, está fazendo 15 anos. Como o tempo passa rápido! Como, naquela época, poderia imaginar que hoje estaria morando em Berlim e alimentando meus olhos diariamente com street art?

Esse projeto, capitaneado pela Associação Comercial e Industrial de Florianópolis, devia ser repetido mais vezes. Observando que os muros e paredes da região estavam sujos e causando má impressão, os organizadores conseguiram patrocínio de tintas e materiais com os comerciantes locais e promoveram um verdadeiro festival de street art. Os interessados deviam enviar seus desenhos que seriam mostrados para os donos dos respectivos muros; caso aprovassem, seria executado (olha aí uma solução baseada no consenso que é boa para todo mundo!).

Escolhi o muro da Academia de Polícia porque tinha um ponto de ônibus lá. Minha ideia era desenhar uma fila de pessoas conversando que seriam misturadas com as que estivessem esperando a condução. O desenho era genérico, baseado em ilustrações de um livro que eu tinha escrito antes (“De fila em fila: um guia de sobrevivência“, esgotado há anos — que me rendeu uma entrevista no Jô Soares), mas na real, não sabia exatamente quem seriam os personagens que iria desenhar.

Na época, 2002, estava escrevendo minha tese de doutorado e trabalhando em período integral em uma empresa privada. Assim, só tinha tempo para pintar o muro aos domingos; por esse motivo, levei quase dois meses para terminar de desenhar os 42 personagens ao longo dos 14 metros de muro. Olha, foi uma das coisas mais legais que já fiz na vida!

Tentei representar ao máximo os frequentadores do ponto de ônibus: estudantes da universidade, senhores e senhoras do curso da terceira idade, meu professor de mergulho, o Guga Küerten (que não frequentava o ponto, mas morava num bairro próximo), vendedores de tainha, criadores de curió, casais de namorados, mães com filhos pequenos, torcedores da Copa do Mundo (que seria realizada alguns meses depois), hippies, cambistas, enfim, todo mundo! No final, acabei escrevendo os prováveis diálogos entre eles no mais castiço “manezês”, espécie de dialeto ilhéu.

Justamente porque estava a desenhar pessoas, muitas se sentiam à vontade para interagir e dar palpites na obra, coisa que eu adorava. Lembro de umas freiras que estavam passando um dia e pediram para pintar um pouco; minha professora de ginástica, a querida Cida, que também deu suas pinceladas. Até meu saudoso e querido pai apareceu lá um dia para ajudar também. Uma farra!

Uma pena que na época eu não tinha câmera digital e o mundo não era tão fotografável; assim, tenho poucos registros e de qualidade questionável.

Das muitas histórias que vivenciei e dos surreais diálogos que lá se passaram, tenho registrados alguns. Lembro dos mais curiosos:

  1. Um senhor passou uma tarde inteira conversando comigo enquanto pintava; narrou toda a vida dele, desde menino até quando terminou a escola e fez concurso público. Hoje era aposentado, mas, contou, com orgulho, que sabia fazer 35 coisas na época em que trabalhou. Apesar de não entender direito o critério para classificar as tais “coisas”, fiquei assombrada. Acho que não sei fazer tudo isso não…
  2. Uma vez um carro cheio de gente parou para pedir, em coro, que eu incluísse na fila um torcedor de um dos times de futebol da cidade, o Avaí. Como não gosto de confusão, fiz um do Figueirense também. Algumas semanas depois, parou um carro cheio de torcedores do Figueirense que tiraram várias fotos ao lado de seu “representante” na fila…rsrs
  3. Um visitante contumaz era um catador de papel da região. Ele sempre parava seu carrinho ali e ficava conversando. Um dia ele criou coragem e me perguntou se eu estava ganhando dinheiro para fazer aquele trabalho. Expliquei que não, que era um projeto coletivo e voluntário. Aí me perguntou se eu sabia desenhar as pessoas “como elas realmente eram”, pois meus desenhos não representavam muito bem, conforme as palavras dele. Eu disse que não sabia desenhar da maneira como ele queria, como se fosse uma foto. Aí o moço não se conteve: “Mas então é por isso que não estão lhe pagando pelo trabalho! É porque você não sabe desenhar!”….hahahahahahahaha… adorei! Quem sabe ele tinha mesmo razão?
  4. Num dos finais de semana, tive que gastar toda a minha lábia para negociar com um menino que queria que eu desenhasse uma cobra para assustar as pessoas que estivessem no ponto. Consegui trocar por uma galinha e um passarinho…rsrsr
  5. Estava um dia calmamente pintando, quando se aproximaram três guardas: gelei, pois no final de semana anterior tinha justamente desenhado…um guarda! Achei que fossem reclamar, mas um deles disse que tinha um pedido; ele ficaria muito feliz se eu atendesse. Esperando o pior, olha o que o moço me disse: “É que todo mundo acha que aquele guarda ali sou eu; será que você podia escrever meu nome no distintivo para as pessoas terem certeza?”. E aguardou calmamente eu fazer a alteração para os colegas poderem tirar a foto dele ao lado do sósia…rsrs
  6. Uma moça que estava fazendo mestrado na UFSC me pediu para usar a imagem de uma estudante de arquitetura negra no seu documentário sobre cotas. Apesar de acreditar que essa não é a solução para a desigualdade (discuti bastante com ela a esse respeito, a menina era uma querida e super inteligente; respeitou minha opinião sem insistir), é claro que fiquei muito honrada por ela usar a imagem no trabalho.

Estou com outros projetos prioritários, mas um dos itens da minha lista é me enturmar com os grafiteiros de Berlim para ver como funciona a pintura de paredes por aqui (não quero correr o risco de ser presa…rsrs). Tenho para mim que é só uma questão de tempo. Aguardem…rsrs

#paracegover A imagem mostra um ponto de ônibus coberto.No muro ao redor dele, personagens desenhados conversando entre si.
A fila do ponto de ônibus ficou assim, lotada de gente, apesar de não ter ninguém esperando a condução no momento. #paracegover A imagem mostra um ponto de ônibus coberto. No muro ao redor dele, personagens desenhados conversando entre si.
#paracegover A imagem mostra pessoas sentadas no ponto de ônibus ao lado do muro desenhado.
Agora tem gente sentada. Os personagens que esperem em pé… #paracegover A imagem mostra pessoas sentadas no ponto de ônibus ao lado do muro desenhado.
#paracegover A imagem mostra um muro desenhado com pessoas em volta de um ponto de ônibus. A foto foi tirada do outro lado da rua e um carro passou bem na hora.
Passando de carro, a imagem era essa. Até que ficou interessante… #paracegover A imagem mostra um muro desenhado com pessoas em volta de um ponto de ônibus. A foto foi tirada do outro lado da rua e um carro passou bem na hora.
#paracegover A imagem mostra, na foto da esquerda, uma mulher abaixada, de camiseta branca, calça jeans e óculos de sol, pintando o muro. Na foto da direita, alguns personagens em detalhe.
Eu me divertindo horrores! Ainda bem que meu orientador nunca descobriu…#paracegover A imagem mostra, na foto da esquerda, uma mulher abaixada, de camiseta branca, calça jeans e óculos de sol, pintando o muro. Na foto da direita, alguns personagens em detalhe.
#paracegover A imagem mostra uma mulher sorrindo ao lado de um muro com desenhos inacabados.
Eu desenhando o muro. #paracegover A imagem mostra uma mulher sorrindo ao lado de um muro com desenhos inacabados.
#paracegover A imagem mostra uma estudante de arquitetura, um torcedor do Avaí, uma mulher segurando uma bolsa vermelha, minha professora de ginástica, a Cida e um policial militar. Um gato peludo (o Heitor) também aparece.
Detalhes do muro. #paracegover A imagem mostra uma estudante de arquitetura, um torcedor do Avaí, uma mulher segurando uma bolsa vermelha, minha professora de ginástica (a Cida) e um policial militar. Um gato peludo (o Heitor) também aparece. Estou no canto direito, preparando o pincel.
#paracegover A imagem mostra o desenho de duas mulheres conversando, um senhor de óculos e um rapaz fumando com o cabelo parafinado (era moda na época).
Mais personagens típicos. #paracegover A imagem mostra o desenho de um moço bem musculoso, duas mulheres conversando, um senhor de óculos, um rapaz fumando com o cabelo parafinado (era moda na época) e uma estudante de arquitetura com sua pasta, canudo de projetos e mochila.

A tal da casa

Uma cidade lotada de artistas e mentes criativas, só pode dar coisa boa como resultado. Pois olha só que ideia genial: um coletivo de street art aqui de Berlin chamado Die Dixons ficou sabendo que um antigo prédio do Berliner Volksbank iria ser demolido para a construção de um condomínio residencial e propôs o seguinte para os empreendedores da obra: por que não pegar o prédio vazio, antes da demolição, e preenchê-lo todo com arte? Street art é isso mesmo: a arte fugaz, temporária, não duradoura. E o que pode ser  mais perfeito do que um prédio com os dias contados para servir de local para uma grande exposição? O que pode ser melhor do que uma antiga filial bancária se transformar em galeria de arte?

O governo apoiou, empreendedores próximos, como o hotel Berlin Berlin, também entraram na brincadeira hospedando artistas de outras cidades e países gratuitamente e a construtora adorou a ideia de ser identificada com um projeto tão vanguardista: assim nasceu a The Haus**

O resultado é que 165 artistas fizeram a festa nas 108 salas distribuídas em 5 andares. Nada escapou impune: banheiros, corredores, elevadores, portas, tudo foi grafitado.

Inaugurada em primeiro de abril, a instalação fica apenas até dia 30 de maio. A entrada é gratuita e as filas são gigantescas (tentei duas vezes e só entrei na terceira, depois de uma hora de espera). É possível fazer visitas guiadas pelos próprios artistas (aliás, a coisa lá é organizadíssima), mas as reservas também já estavam esgotadas. Na saída, você pode doar o quanto quiser e ainda tem um livro sobre a exposição para vender por €30.

Quando a gente está na fila, sempre tem alguém (geralmente um dos artistas do projeto) informando sobre o tempo estimado de espera e pedindo compreensão. Como é expressamente proibido fotografar (o que achei ótimo, pois, ultimamente, é quase impossível apreciar as obras em um museu sem que tenha alguém tirando uma selfie na frente das obras), a gente ganha um saquinho plástico com fechamento de cola para guardar o celular. As pessoas que saem vão tecendo comentários elogiosos e dando força para os que estão na fila aguardarem, pois vale a pena.

E como vale! É como entrar num universo paralelo. Além dos grafites convencionais, há instalações de arte contemporânea (umas muito instigantes e sensacionais; outras incompreensíveis para mim, como sempre) e surpresas em todos os cantos. Quando eu fui, tinha uma turma de adolescentes visitando o local com a escola (acho isso tão lindo, de levar as crianças nos museus!).

Por motivos óbvios, não posso postar fotos aqui, exceto da fachada do prédio, mas a fan page do projeto está cheia de fotos, além desse artigo da Deutsche Welle, muito bem escrito, de onde tirei boa parte das informações.

Se você estiver em Berlim até o final de maio, não perca essa oportunidade.

Tomara que esse projeto seja muito copiado e vire moda. Todo mundo vai adorar!!!

——

** Haus é casa em alemão e o uso do artigo The em inglês, mostra a multiculturalidade do conceito.

 

Top 10 de março: a primavera chegou!

Finalmente, depois de um longo e tenebroso inverno, voltamos a ver flores nas ruas. O humor das pessoas muda, a ar muda, tudo muda! Uma das coisas que mais aprecio em morar aqui é justamente termos as quatro estações do ano bem marcadas, igual aos livros de história. E a primavera emociona e comove até os corações mais endurecidos; como resistir a uma cerejeira florindo?

Prepare os olhinhos para se deliciar!

#paracegover Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra uma bicicleta estacionada na frente de um mapa desenhado na parede. O mapa-mundi branco sobre o fundo azul traz a seguinte frase escrita em letra cursiva atravessando os continentes: "we are all immigrants and refugee". — at URBAN NATION.
1. Duas coisas maravilhosas: bicicletas e mapas. Não tem como n±ao amar! #paracegover Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra uma bicicleta estacionada na frente de um mapa desenhado na parede. O mapa-mundi branco sobre o fundo azul traz a seguinte frase escrita em letra cursiva atravessando os continentes: “we are all immigrants and refugee”. — at URBAN NATION.
#paracegover Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra uma cena escura (o corredor de saída da estação de metrô). Ao fundo, a escada com a luz do dia entrando. A silhueta das pessoas deu um tom de mistério... — at Märkisches Museum (Berlin U-Bahn).
2. Saí do metrô bem na hora em que os raios do sol estavam invadindo a estação. Ficou parecendo uma cena daquele filme “contatos imediatos de terceito grau”, né? #paracegover Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra uma cena escura (o corredor de saída da estação de metrô). Ao fundo, a escada com a luz do dia entrando. A silhueta das pessoas deu um tom de mistério… — at Märkisches Museum (Berlin U-Bahn).
#paracegover Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra um grafite na esquina de um prédio residencial pintado em tons de laranja. A obra representa uma criança lendo algo para um enorme urso polar castanho. Os dois parecem muito entretidos. A cena está toda refletida na poça d'água à frente, com a participação indesejada de carros estacionados no local. As árvores ainda estão todas sem folhas. — at Park am Gleisdreieck.
3. Esse grafite é muito lindo e duplicado, ainda por cima… #paracegover Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra um grafite na esquina de um prédio residencial pintado em tons de laranja. A obra representa uma criança lendo algo para um enorme urso polar castanho. Os dois parecem muito entretidos. A cena está toda refletida na poça d’água à frente, com a participação indesejada de carros estacionados no local. As árvores ainda estão todas sem folhas. — at Park am Gleisdreieck.
#paracegover Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra um homem solitário no meio do rio Spree praticando Paddling (remo em pé sobre uma prancha parecida com a de surf). Ao fundo, prédios e a escultura Molecule Man podem ser vistos. — at Oberbaum Bridge.
4. O que esse moço estava fazendo vestido assim, no maior frio, andando de Stand up Paddle, é um mistério que até hoje ninguém conseguiu decifrar. #paracegover Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra um homem solitário no meio do rio Spree praticando Paddling (remo em pé sobre uma prancha parecida com a de surf). Ao fundo, prédios e a escultura Molecule Man podem ser vistos. — at Oberbaum Bridge.
#paracegover Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra a fachada de um prédio que seria comum não fosse a ousadia e criatividade de pintar os element de volume em tons diferentes de azul, indo do lilás ao turquesa. Do lado direito à ênfase está nos quadrados e retângulos sobrepostos. Do lado esquerdo, listras. Em destaque, uma sacada típica alemã, com decoração eclética e bem colorida. — at Innstraße berlin.
5. Como bem descreveu minha amiga Renata Rubim, designer de superfície e especialista em cores, é pena que a cartela complementar de tons não foi bem escolhida. De qualquer forma, achei bacana! #paracegover Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra a fachada de um prédio que seria comum não fosse a ousadia e criatividade de pintar os element de volume em tons diferentes de azul, indo do lilás ao turquesa. Do lado direito à ênfase está nos quadrados e retângulos sobrepostos. Do lado esquerdo, listras. Em destaque, uma sacada típica alemã, com decoração eclética e bem colorida. — at Innstraße berlin.
#paracegover Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra duas pessoas caminhando sobre um calçada coberta por cerejeiras floridas. Em primeiro plano, um cacho deslumbrante. À esquerda, ao fundo, um prédio amarelo reflete o sol do dia maravilhoso. — at Schwedter Straße.
6. Ah, as cerejeiras… impossível não se emocionar ao ver um show desses…#paracegover Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra duas pessoas caminhando sobre um calçada coberta por cerejeiras floridas. Em primeiro plano, um cacho deslumbrante. À esquerda, ao fundo, um prédio amarelo reflete o sol do dia maravilhoso. — at Schwedter Straße.
#paracegover Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra um barquinho ancorado próximo à borda do rio. Em primeiro plano, um mini buquê de flores naturais brota no meio do capim. O dia está cinematográfico! — at Berlin-Haselhorst.
7. É sempre encantador ver esses buquês que brotam espontaneamente do chão! Tão delicados e arrumadinhos; parece que alguém colocou de propósito, só para compor o cenário… #paracegover Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra um barquinho ancorado próximo à borda do rio. Em primeiro plano, um mini buquê de flores naturais brota no meio do capim. O dia está cinematográfico! — at Berlin-Haselhorst.
#paracegover Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra a parte dianteira de uma vespa amarela estacionada na calçada. Atrás dela, uma parede grafitada com vários desenhos. A foto foi tirada de maneira a parecer que o passarinho pintado na parede está pousado no guidão da Vespa. Parece que ele quer passear; vamos? — at Prater Garten.
8. Vespa tem tudo a ver com street art. Aqui tentei fazer a combinação ser completa, uma totalmente integrada à outra. #paracegover Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra a parte dianteira de uma vespa amarela estacionada na calçada. Atrás dela, uma parede grafitada com vários desenhos. A foto foi tirada de maneira a parecer que o passarinho pintado na parede está pousado no guidão da Vespa. Parece que ele quer passear; vamos? — at Prater Garten.
#paracegover Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra três crianças caminhando em uma rua ao lado de uma praça. A cena é vista através das esquadrias de uma janela. — in Schöneberg, Berlin, Germany.
9. Fui fazer o checkup anual e essa era a vista das escadas do prédio do consultório médico. #paracegover Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra três crianças caminhando em uma rua ao lado de uma praça. A cena é vista através das esquadrias de uma janela. — in Schöneberg, Berlin, Germany.
#paracegover Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra uma escada externa com vários níveis, vista de lado. As paredes estão cobertas com uma instalação de arte composta de discos de metal onde vários artistas fizeram intervenções. Há um homem de preto descendo a escada enquanto consulta o celular. — at KINDL - Zentrum für zeitgenössische Kunst.
10. Aqui uma escadaria instalada no fundo de um beco, decorada de maneira muito especial: discos customizados por artistas. #paracegover Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra uma escada externa com vários níveis, vista de lado. As paredes estão cobertas com uma instalação de arte composta de discos de metal onde vários artistas fizeram intervenções. Há um homem de preto descendo a escada enquanto consulta o celular. — at KINDL – Zentrum für zeitgenössische Kunst.

Café surpresa

#paracegover Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra uma grande sala com pé direito altíssimo e seis tanques que antigamente eram usados para fazer cerveja. Em volta dos tanques há mesas e cadeiras. Os dois últimos tanques estão sobre um mezzanino.

Realmente a pessoa não perde nada em vagar por Berlim, como adoro fazer aos finais de semana. Escolho um bairro ou região e vou me perdendo sem medo; parece que tem uma coisa colorida naquela esquina? Vamos lá ver! E aquilo ali, o que será? Só indo para ter certeza!

Foi assim que, flanando pelo bairro de Neukölln (na verdade, tinha ido lá procurar material para um protótipo), deparei-me com essa escadaria maravilhosa no final de uma rua. Olha.

A imagem mostra um beco com uma escadaria de concreto no final, cheia de intervenções artísticas. Do lado direito há um elevador pintado de verde-limão.
#paracegover Descrição para deficientes visuais: A imagem mostra um beco com uma escadaria de concreto no final, cheia de intervenções artísticas. Do lado direito há um elevador pintado de verde-limão e um casal com duas bicicletas está entrando nele.

Vi esse casal subindo de bicicleta pelo elevador e fui atrás, de escada. Lá em cima tinha uma obra (acho que estão fazendo uma praça) e, ao lado, um prédio enorme e antigo. Aí descobri a Kindl, uma antiga cervejaria que foi transformada em centro de arte contemporânea, o KINDL – Zentrum für zeitgenössische Kunst. Entrei, vi uma instalação em vídeo bem interessante e gostei, mas principalmente fiquei encantada com a arquitetura do lugar. Mais o mais legal mesmo é o café que ocupa a maior parte do prédio.

O König Otto é um café vegetariano/vegano e fica exatamente na sala onde estão instalados os tonéis onde se fazia a cerveja. No projeto de restauração, tentaram interferir o mínimo no cenário original. Até os paineis de controle do processo de produção foram mantidos. Olha só que coisa mais sensacional!!

#paracegover Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra uma grande sala com pé direito altíssimo e seis tanques que antigamente eram usados para fazer cerveja. Em volta dos tanques há mesas e cadeiras. Os dois últimos tanques estão sobre um mezzanino.
Essa é a vista que você tem logo que entra. Não é linda? #paracegover Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra uma grande sala com pé direito altíssimo e seis tanques que antigamente eram usados para fazer cerveja. Em volta dos tanques há mesas e cadeiras. Os dois últimos tanques estão sobre um mezzanino.
A imagem mostra vários tonéis de cerveja em um salão. Há mesas em volta com algumas pessoas sentadas.
Um lugar calmo e quieto para ler, meditar e ter conversas importantes… #paracegover Descrição para deficientes visuais: A imagem mostra vários tonéis de cerveja em um salão. Há mesas em volta com algumas pessoas sentadas.
 A imagem mostra o detalhe de vávulas instaladas nos tanques de cerveja.
#paracegover Descrição para deficientes visuais: A imagem mostra o detalhe de vávulas instaladas nos tanques de cerveja.
#paracegover Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra pessoas sentadas em mesas ao lado dos tanques de cerveja. Em primeiro plano, pode-se ver os cardápios em pranchetas e uma tulipa amarela sobre uma mesa.
#paracegover Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra pessoas sentadas em mesas ao lado dos tanques de cerveja. Em primeiro plano, pode-se ver os cardápios em pranchetas e uma tulipa amarela sobre uma mesa.
#paracegover Descrição para deficientes visuais: são duas imagens nesse bloco; a primeira mostra o detalhe da porta aberta de um dos tanques, com uma tulipa amarela em primeiro plano. A segunda mostra o que tem dentro do tanque; um balde no centro e um pano úmido no canto.
Aposto que você queria saber o que tem dentro dos tanques, agora que não tem mais cerveja. Pois eu também. Todos eles estão com a tampa aberta e só têm um balde dentro com um pano (será que andou vazando água?). Como é um centro de arte contemporânea, penso que logo vão pensar em algo mais original para colocar dentro (ou será que isso já é uma instalação? Nunca se sabe…rsrsrs). #paracegover Descrição para deficientes visuais: são duas imagens nesse bloco; a primeira mostra o detalhe da porta aberta de um dos tanques, com uma tulipa amarela em primeiro plano. A segunda mostra o que tem dentro do tanque; um balde no centro e um pano úmido no canto.
#paracegover Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra quatro tanques e a porta de entrada do café.
Aqui uma vista geral quando se olha do mezzanino. Ao lado da porta de entrada, é possível ver os paineis de controle. #paracegover Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra quatro tanques e a porta de entrada do café.
 #paracegover Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra o painel de controle cheio de chaves e botões.
Aqui o detalhe do painel de controle; sim, podem me julgar, mas adoro paineis de controle! Acho-os lindos!!! #paracegover Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra o painel de controle cheio de chaves e botões.

A revolta de Atlas

A imagem mostra a escultura de um homem, toda vandalizada e pixada, como um Atlas que já está cansado de ser explorado e não reconhecido.

Se você acha que o Facebook só tem fotos de “família feliz e tretas, talvez não esteja seguindo as discussões certas. Estava acompanhando um post que falava de distopias quando alguém citou “A revolta de Atlas”, de Ayn Rand. Até então, só tinha lido as que conhecia como clássicas: “1984” (George Orwell), “Admirável mundo novo” (Aldoux Huxley) e “Fahrenheit 451(Ray Bradbury). Já tinha ouvido falar na filósofa Ayn Rand, mas não sabia que essa obra era uma distopia também. Bom, para minha sorte, minha amiga e sócia Nicole Plauto (não por acaso, economista) também estava na discussão e me emprestou o livro.

A revolta de Atlas” é considerado um dos livros mais influentes da história nos EUA; numa pesquisa feita pela Biblioteca do Congresso em 1991, foi escolhido entre os leitores como o segundo livro que mais fez diferença na sua visão de mundo, perdendo apenas para a Bíblia.

Aí você devora os três volumes e pensa: como é que essa leitura não é obrigatória em todas as escolas? A gente passa a entender melhor muita coisa que está acontecendo, principalmente o fenômeno Venezuela.

Já me encantei logo de início, pois a protagonista é uma engenheira linda, íntegra, inteligente, idealista, maravilhosa. Como a obra foi escrita na década de 1950, apesar da história se passar em um futuro indefinido, toda a estética e o pano de fundo vem desse período: músicas, roupas, cenários, hábitos, tecnologias. Viajei de verdade na trama junto com Dagny Taggart, a heroína tudo de bom.

Dagny é neta do fundador da maior rede ferroviária dos EUA, a Taggart Intercontinental. Ela só tem mais um irmão, que é um perfeito idiota. A moça estudou engenharia e é inteligentíssima; dá um show de criatividade para continuar operando as linhas de trem apesar das dificuldades que seu irmão (que não entende nada do assunto) cria, junto com seus amigos empresários e políticos.

O livro é extremamente maniqueísta e Ayn Rand, a autora, deixa bem claro quem são os mocinhos (empreendedores, ousados, criativos, disruptores, que fazem o mundo andar) e quem são os bandidos, os supostos “homem de bem (que só pensam no povo, nos direitos, no bem da humanidade, nos pensamentos mais elevados, porém não produzem nada). A maior preocupação dessas almas elevadas que desprezam o lucro (verdadeira maldição) é distribuir o resultado de quem de fato produz. Criam todo o tipo de problema possível para quem realmente quer trabalhar, com os argumentos mais descabidos, mas sempre em prol da igualdade de oportunidades.

Por exemplo: os trens da Taggart podem viajar a 160 km/h e as composições podem ter mais vagões por causa da tecnologia usada em seus trilhos; isso é injusto para os concorrentes, que não têm essa vantagem. A fim de promover a igualdade e impedir que apenas uma empresa lucre, a solução que os justos e coerentes “homens de bem, que, infelizmente, ignoram matemática básica, é limitar a velocidade e o número de vagões para todas as companhias. Se uma siderúrgica está produzindo muito e comprando outras unidades, então alguém tem que impedir o lucro enorme que seu proprietário vai ter. A solução é proibir que uma empresa tenha mais de uma fábrica e obrigá-la a vender as demais, a preços que o governo define, para, é claro, outros “homens de bem”. Como eles não sabem operá-las, a produção cai, e a concorrência “injusta fica muito evidente. Solução? Limitar por lei a produção, para que possa haver igualdade de oportunidades para todos. Se os donos das empresas reclamarem, é porque são egoístas. É claro que podem arcar com o prejuízo e lucrar um pouco menos, pois são empresários; então, por definição, nadam em dinheiro. Bom, você pegou a ideia, né?

Dagny tenta manter a ferrovia funcionando para transportar carvão, alimentos, máquinas, pessoas e tudo o que é necessário para as coisas andarem, mas os “homens de bem que estão no poder que só pensam no povo, resolvem desviar trens para transportar uma produção alternativa de toranjas de uma pessoa muito boa (coincidentemente amiga de alguns políticos) e que não visa o lucro; por isso, tem prioridade.

O que acontece é que as empresas começam a falir uma a uma. As pessoas competentes também não querem mais trabalhar, pois ninguém mais pode ser demitido e o salário é pago pela necessidade, não pela produção. Eis que os competentes viram escravos dos “necessitados, cujas necessidades crescem infinita e exponencialmente. As pessoas começam a se odiar mutuamente, o país entra em colapso. Falta aquecimento, falta comida, mas falta, mais que tudo, perspectivas. Os representantes do governo que assumem as empresas para promover a igualdade chegam a roubar material de estoque para vender no mercado negro (coitados, eles não têm competência técnica e nem inteligência acima da média, então são obrigados a se virar como podem). Trens deixam de circular por falta de pregos, o trigo apodrece nas ruas por falta de transporte, pessoas morrem de frio por falta de carvão para o aquecimento. Mas tanto a imprensa quanto a sociedade têm certeza que a culpa é dos industriais ganaciosos que só visam o lucro e não são capazes de pensar num mundo mais justo.

Ayn Rand escreveu a obra para mostrar sua linha filosófica voltada ao liberalismo econômico; há páginas inteiras com discussões bem profundas a respeito do valor do dinheiro e do trabalho, do conceito de igualdade, e do papel de cada pessoa na sociedade. Mas a trama de pano de fundo não fica devendo em nada a um romance convencional com aventuras, riscos, traições, paixões, festas, crimes e tudo que faz o leitor ficar grudado até a última página.

Sobre a teoria, ela é um pouco radical, claro, pois é uma teoria, mas em linhas gerais achei muito interessante esse ponto de vista. Os personagens principais são tão completamente racionais que fariam o Dr. Spock se achar um sentimental incorrigível, então é preciso dar um desconto. Mas acredito que com um pouco de equilíbrio, pode ser um caminho e reflete algumas das coisas nas quais acredito. Promover a igualdade de oportunidades é importante sim, mas, como dinheiro não cai do céu e governo nenhum produz riqueza, incentivar (e não atrapalhar) o empreendedorismo é fundamental.

Ayn é bastante assertiva com relação ao liberalismo porque nasceu no leste europeu e viu seu país e o pequeno negócio de seu pai (um armazém) ser totalmente arruinados pelo governo comunista. Quando emigrou para os EUA e viu outras possibilidades, desenvolveu uma linha de pensamento apoiada em seus estudos, claro, mas com forte influência de sua experiência pessoal.

Em tempos de Netflix sei que vai ser difícil convencer alguém a mergulhar nas 1.227 páginas; vi que já fizeram mais de um filme, mas duvido que tenham prestado, pois colocar a compexidade da trama e da história em, no máximo, 3 horas, é muito complicado.

Minha sugestão: faça um esforço para começar a ler. Você vai ver que, no máximo em duas semanas já terá devorado tudo e terá ficado com saudades dos personagens e da história, além de ter adquirido uma visão muito mais ampliada das teorias econômicas.

Vai por mim!

***

NOTA: Atlas é aquele titã da mitologia que carrega o mundo nas costas, como, na obra de Rand, os inovadores, produtores, empreendedore; por isso o nome do livro.

 

Criatura

Nem li direito a quarta capa para saber a história; confesso que, nesse caso, comprei o livro por causa do título: “Das Wesen” (tradução livre: “a criatura”). Daqui alguns meses ficará claro porque a palavra me chamou atenção, mas, por ora, vamos à obra.

O autor, o alemão Arno Strobel, trabalhava com tecnologia de informação em Luxemburgo, num grande banco, até que, aos 40 anos, resolveu começar a escrever thrillers. Esse é o quarto romance dele e fiquei curiosa para ler os outros.

A história começa com um comissário de polícia e seu parceiro recebendo uma chamada anônima denunciando o sequestro de uma criança. Eles vão até o endereço fornecido e, para a surpresa de ambos, encontram o médico psiquiatra condenado a 13 anos de prisão graças ao trabalho dos dois. Tinha sido o primeiro caso da dupla, há 15 anos.

Na época, Alex Seifert, que faz o narrador, conta que seu chefe, o comissário Bernd Menkhoff lhe deu uma bronca porque ele ficou muito emocionado em ver uma criança morta pela primeira vez. Bernd deixou claro que o trabalho exigia cabeça fria para não perder os detalhes; um erro e o criminoso poderia escapar. O tal psiquiatra, dr. Lichner, principal suspeito, era casado com uma mulher tão bela quanto calada e misteriosa. Ela acabou ajudando nas investigações e, depois do médico condenado, acabou ficando dois anos num relacionamento com Menkhoff. Ele tinha certeza absoluta da culpa do médico e fez de tudo para conseguir provas para condená-lo. Seu parceiro e subordinado, Alex, torturou-se por anos na incerteza de ter tomado a decisão mais correta, apoiando incondicionalmente seu chefe. Será mesmo que o tal médico era culpado? Menkhoff, apesar de experiente, parecia tão alterado naquela época. Cabeça sempre quente, nervos à flor da pele, o completo oposto à frieza de raciocínio que cobrou do colega novato.

Nessa chamada anônima, acabaram descobrindo que o psiquiatra estava sendo acusado de sequestrar a própria filha, que eles nem sabiam que existia. As investigações vão se desenrolando e Alex fica cada vez mais desconfortável com a ideia de que o médico possa ter sido condenado injustamente. Os parceiros descobrem que ex-muher dele, Nicole, também era sua paciente e tinha uma história de vida muito complicada.

Para quem gosta de ler policiais, não dá para dizer que o final é surpreendente; mas que é muito bem escrito, com certeza é.

Recomendo fortemente e vou já ficar atenta aos outros livros dele. Muito bom.

PS: Wesen normalmente é uma palavra usada para caracterizar criaturas ou seres não-humanos, mas, no livro, o psiquiatra a utiliza na forma mais ampla, que é a designação de ser, ente, vivente. Ele afirma, em mais de uma oportunidade, que é preciso conhecer a natureza dos seres. Daí o título.

Top 10 de fevereiro: fim de inverno

Fevereiro foi curtinho, mas deixou muitas imagens bacanas. Teve neve, mas também teve sol e dias lindos, cheios de cor. Vamos fazer um balanço?

Escolha aí a que mais você gostou.

#paracegover Descrição para deficientes visuais: A imagem mostra uma das margens de um canal do rio Spree. Há uma luminária, um banco, árvores sem folhas e o chão coberto de neve. Faz frio. — at Derag Hotel und Living Grosser Kurfuerst Berlin.
1. No começo do mês, a paisagem ainda estava assim, toda branquinha e melancólica. #paracegover Descrição para deficientes visuais: A imagem mostra uma das margens de um canal do rio Spree. Há uma luminária, um banco, árvores sem folhas e o chão coberto de neve. Faz frio. — at Derag Hotel und Living Grosser Kurfuerst Berlin.
#paracegover Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra uma rua onde passam pessoas, carros e ciclistas. Tudo, incluindo o poste de iluminação, o céu nublado e as árvores sem folhas, está refletido na poça d'água em primeiro plano. — at Gneisenaustraße.
2. Chuva, muita chuva foi o que teve esse mês. Mas teve também espelhos naturais bem inspiradores, como esse aqui! #paracegover Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra uma rua onde passam pessoas, carros e ciclistas. Tudo, incluindo o poste de iluminação, o céu nublado e as árvores sem folhas, está refletido na poça d’água em primeiro plano. — at Gneisenaustraße.
#paracegover Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra o rio Spree visto de cima de uma ponte. Na margem esquerda, os prédios dourados pela luz do sol são refletidos na água. — at Gotzkowskybrücke.
3. Falando em espelho natural, o que é isso, minha gente? São Pedro, quando quer, faz um trabalho bem caprichado! #paracegover Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra o rio Spree visto de cima de uma ponte. Na margem esquerda, os prédios dourados pela luz do sol são refletidos na água. — at Gotzkowskybrücke.
#paracegover Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra uma estação de trem vista por dentro. Há uma pessoa na plataforma vazia, consultando seu celular. A luz do sol faz com que os prédios ao fundo fiquem dourados. — at Berlin Jannowitzbrücke station.
4. E essa luz maravilhosa no fim do túnel? Há esperança, sim senhor! #paracegover Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra uma estação de trem vista por dentro. Há uma pessoa na plataforma vazia, consultando seu celular. A luz do sol faz com que os prédios ao fundo fiquem dourados. — at Berlin Jannowitzbrücke station.
#paracegover Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra uma bicicleta encostada em uma parede cuja metade inferior é revestida de cerâmica verde musgo e a parte de cima estampada com grafite hiperrealista representando girassóis gigantes. A despeito das temperaturas negativas, nessa fachada é sempre primavera... — at Berlin Hiddenseerstrasse.
5. Desconheço criatura que não ame girassóis; é a miss Simpatia das flores…rsrs #paracegover Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra uma bicicleta encostada em uma parede cuja metade inferior é revestida de cerâmica verde musgo e a parte de cima estampada com grafite hiperrealista representando girassóis gigantes. A despeito das temperaturas negativas, nessa fachada é sempre primavera… — at Berlin Hiddenseerstrasse.
#paracegover Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra o rio Spree visto de uma das margens em pleno crepúsculo. A luz é de tirar o fôlego... — at Kaiserin-Augusta-Allee.
6. A pessoa vai trabalhar e tem que passar por isso. Ninguém merece…rsrs.. #paracegover Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra o rio Spree visto de uma das margens em pleno crepúsculo. A luz é de tirar o fôlego… — at Kaiserin-Augusta-Allee.
#paracegover Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra a fachada de um dos prédios do Instituto Fraunhofer de tecnologia vista da outra margem do rio Spree. Um par de cisnes compõem o cenário sob a luz dourada do sol. — at Kaiserin-Augusta-Allee.
7. Essa luz dourada que faz tudo virar ouro é uma das coisas mais lindas do mundo, na minha opinião. Pena que os cisnes acharam que iam ganhar cachê, mas esqueci de levar pãozinho para os fofos, que ficaram bem decepcionados. #paracegover Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra a fachada de um dos prédios do Instituto Fraunhofer de tecnologia vista da outra margem do rio Spree. Um par de cisnes compõem o cenário sob a luz dourada do sol. — at Kaiserin-Augusta-Allee.
#paracegover Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra um homem caminhando com um carrinho de bebê. Ao fundo, uma parede toda grafitada com um grande beijo pink em destaque. — at Gabriel-Max-Straße.
8. Depois da barba, carrinho de bebê parece ser a moda mais cool aqui em Berlin para os homens. Tendência das boas! #paracegover Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra um homem caminhando com um carrinho de bebê. Ao fundo, uma parede toda grafitada com um grande beijo pink em destaque. — at Gabriel-Max-Straße.
#paracegover Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra uma ponte na parte de trás do Castelo de Charlottenburg. O lago embaixo dela está congelado. A vegetação tem apenas galhos. Muitas pessoas caminham sobre a ponte. O dia está lindo (mas a foto é do final de semana; hoje está bem nublado). — at Schlosspark Charlottenburg.
9. Lago congelado em dia de sol é foto bacana garantida. Acho que deve ficar boa até se clicar de olho fechado…rsrs #paracegover Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra uma ponte na parte de trás do Castelo de Charlottenburg. O lago embaixo dela está congelado. A vegetação tem apenas galhos. Muitas pessoas caminham sobre a ponte. O dia está lindo (mas a foto é do final de semana; hoje está bem nublado). — at Schlosspark Charlottenburg.
#paracegover Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra a praça central do Sony Center, em Berlim. O piso de granito preto reflete a arquitetura desenhada em concreto, aço e muito vidro. — at Sony Center.
10. Essa foi a última foto do mês e uma das mais coloridas. #paracegover Descrição para deficientes visuais: a imagem mostra a praça central do Sony Center, em Berlim. O piso de granito preto reflete a arquitetura desenhada em concreto, aço e muito vidro. — at Sony Center.

Cabo de gata

A imagem mostra a caoa do livro "Cabo de Gata". São três listras com um degradê que vai do verde ao preto sobre o fundo branco. Em cada uma, aparece a silhueta de um gato.

O título do livro me chamou atenção logo de cara; “Cabo de gata“, de Eugen Ruge estava em todas as vitrines da maior e mais querida livraria de Berlin, a Dussmann, em 2014. Olha, eu sei a fortuna que a editora precisa pagar para uma livraria (qualquer livraria) colocar o livro em destaque, seja na prateleira, seja nas ilhas de livros (no Brasil e no mundo é assim), então era um sinal de que o autor valia o investimento. Ruge, nascido na antiga União Soviética e formado em matemática, emigrou da DDR para a Alemanha Ocidental em 1988 para trabalhar com rádio e teatro. Ele é um autor respeitado e ganhou vários prêmios de literatura na Alemanha por outra obra. Como sempre faço, esperei um pouco e deu certo.

Semana passada, no mercado de pulgas que frequento quase todos os finais de semana, achei o volume por  € 1,00. Não tinha como não levar.

O livro conta a história de um químico com um bom emprego em um instituto de pesquisa berlinense que resolve largar tudo e parar para pensar. Ele tem uma ex-esposa e uma filha pequena (que não entendi bem se é ou não dele). Vende tudo sem saber direito o que vai fazer da vida, pede demissão, e compra uma passagem de trem para Barcelona. Passa uns dois dias lá meio entediado até que, num jornal, vê o desenho do mapa da Espanha e acha um lugar, bem no litoral sul, chamado Cabo de Gata. Resolve ir lá ver pessoalmente.

Como é inverno, o “Último paraíso da Europa“, como se auto-intitula o lugar, está praticamente deserto. O vento é gelado e o homem passa o primeiro mês sem fazer absolutamente nada. Ele não pensa, não filosofa, não faz planos, não escreve. Não está deprimido, apenas sem rumo.

Depois de três meses no vilarejo, quase no final do inverno, ele vai colocar uns postais na caixa de correio e uma gata o segue até a pensão em que está hospedado. Ele dá comida a ela e acabam dividindo a cama alguns dias depois, quando descobre que ela está grávida. Um barrigão enorme, cheio de gatinhos dentro. Fica um pouco assustado, mas continua se encontrando com a felina todos os dias à noite, perto da caixa de correio. Até que um dia ele passa a mão na barriga dela e a gata não gosta; sai indignada pela janela do banheiro e nunca mas aparece. Só então, depois de alguns dias, ele resolve começar a escrever, contando a história. Sim, essa é a história. Fim.

Devo ser muito insensível mesmo, pois fico perplexa quando vejo alguém conseguir preencher 203 páginas com rigorosamente nada. É claro que deve ter muitos simbolismos em todos os trechos, mas não consegui captar; e olha que gosto de personagens reflexivos (são, inclusive, meus favoritos). Mas aqui o protagonista é puro tédio, não tem absolutamente nada de interessante; nem na personalidade, nem na sua história. Ao contrário do autor, penso que a vida dele não daria um livro.

A parte boa foi o lugar, que realmente existe e parece muito bonito. Fiquei animada em conhecer o Cabo de Gata porque na história, o protagonista avista várias vezes flamingos rosa passeando pela praia.

Talvez o outro romance dele, o tal premiado, seja mais interessante, não sei; confesso que fiquei curiosa. Se alguém quiser se arriscar, que vá por sua conta e risco. De minha parte, lamento dizer que o livro vale exatamente o preço que paguei por ele…

E a segunda vida continua…

Olhando a capa dura maravilhosa (já disse e reitero: sou dessas que julga o livro pela capa SIM), a edição caprichada e a descrição da história, simplesmente não consegui resistir e levei para casa “Unser Zweites Leben” (tradução livre: Nossa segunda vida), do engenheiro francês especializado em energia solar Alain Monnier.

O livro, escrito em 2008, auge do jogo “Second Life“, fala de pessoas cuja vida só faz sentido porque têm seu avatar no mundo virtual para chamar de seu. Para quem não conhece, o Second Life é uma espécie de realidade paralela onde você pode escolher a aparência de seu personagem (o tal avatar) e viver uma vida como se fosse real: é possível viver, trabalhar, estudar, conhecer pessoas, ir a festas, vestir-se, fazer sexo, fazer turismo, tudo no ambiente virtual. No ápice da fama, quase todas as empresas reais tinham ilhas, prédios e escritórios lá. Universidades e escolas de língua imaginaram que esse seria um excelente ambiente de aprendizado, mas no final descobriram que as pessoas só estavam lá para conhecer outras e se relacionar. As iniciativas educacionais não tiveram muito sucesso; os bancos também acabaram saindo depois de gastar um bom dinheiro instalando filiais na Second Life.

Na história, o autor faz um recorte da vida real e virtual de alguns personagens; praticamente todos têm coisas mal resolvidas ou alguma insatisfação na vidade real, sejam doenças terminais, depressão, ansiedade, timidez extrema, insegurança, etc. Mas no Second Life (que em alemão é Zweites Leben) tudo muda; como cada um escolhe seu avatar, os corpos são exatamente como seus donos desejam. E a simulação é bem completa; há ricos e pobres. Alguns entram como ricos (na vida real) comprando avatares mais caros e até famosos (Marylin Monroe e Hitler aparecem na história; eles valem uma fortuna); promovem festas e compram roupas caras (pois tudo se paga com o dinheiro virtual, que pode ser trocado por dólares reais). As pessoas comuns começam tentando descobrir como o negócio funciona; algumas se adaptam bem e conseguem popularidade, patrocinadores e até amigos.

Como na vida real, os influenciadores de opinião também ganham dinheiro de empresas para usar determinadas marcas. Aí a gente vê personagens, como Isidro, um bon vivant riquíssimo na Second Life, acompanhando o número de seguidores minuto a minuto de maneira quase obsessiva. A sessão de sexo entre ele e o avatar de Joana D’Arc é visto por milhões de pessoas e ele ganha muito dinheiro virtual com o feito. Todas as suas ações são baseadas nas reações dos seguidores; ele não desvia sua atenção disso por nada e esse é o segredo do seu sucesso. Na vida real, é um homem doente terminal que só tem um amigo, Fernando, que prefere se afundar nos livros do que na internet.

Na minha opinião, o problema da obra é que ela é um recorte de histórias, mas não tem uma linha mestra que prenda a atenção. Apresenta e descarta vários personagens pelo caminho, como se fosse um trailer de demonstração do jogo. Há crimes, amores e traições, mas nada muito refinado ou especialmente interessante. O excesso de clichês também incomoda um pouco.

Andei fazendo umas pesquisas superficiais e o Second Life, apesar de perder participantes para o Facebook e outras redes sociais (que também não deixam de ser um jogo de popularidade de avatares, se a gente analisar bem), continua com impressionantes 900 mil usuários ativos por mês ao redor do mundo.

Como literatura, achei bem fraco. Mas como uma análise do comportamento humano e sua insaciável necessidade de ser popular, penso que vale a pena.

Minha conclusão é que, no final das contas, todo mundo só quer mesmo é ser amado.

Como está seu prazo de validade?

A imagem mostra uma fábric cuja torre onde está instalado o relógio apresenta uma instalação de um olho humano bem assustador.

Desde que aprendi a ler, desenvolvi um vício difícil de largar: devoro toda palavra impressa que aparece no meu campo de visão. Isso inclui cartazes nas paredes, folhetos diversos, livros, placas, qualquer coisa. É mais forte que eu, não consigo evitar.

Eis que o negócio piorou muito desde que me mudei para a Alemanha, pois voltei aos meus seis anos de idade e quero ler tudo o que aparece para tentar entender a língua e a cultura do lugar. E a cultura está nos lugares onde a gente menos espera: nos rótulos das embalagens, por exemplo.

No Brasil, os produtos todos trazem aquela frase ameaçadora e suas variantes: consumir até data tal. Prazo de validade: data tal. Consumir no máximo até data tal. Não consumir depois da data tal. A gente morre de medo de ultrapassar um dia sequer, a impressão é que a pessoa vai morrer se tomar um sorvete que venceu ontem.

Aí, quando cheguei na Alemanha, achei estranhíssima a frase: “mindestens haltbar bis: data tal”. É que mindestens é no mínimo, pelo menos. Haltbar é durável, conservável, resistente. Eu não entendia e pensava: como assim, mínimo? Eles deviam dizer que esse é o prazo máximo! Não faz sentido escrever isso no rótulo, está invertido.

Aí fui entender a tal da cultura por trás desse aviso inocente. Interpretando corretamente a frase, lá está escrito que eles garantem que o produto está bem conservado pelo menos até essa data. Pode ser que ele esteja bom depois, mas aí você vai ter que usar seu bom senso para saber. Mas no mínimo até essa data, tudo deve estar ok.

Deu para perceber a diferença sutil de abordagem?

Na nossa cultura, você precisa consumir o produto até a data tal de qualquer maneira. Na cultura alemã (ou europeia, não sei), não há uma ameaça velada. Apenas uma recomendação, apresentada de uma maneira, a meu ver, um pouco mais positiva. É claro que as mensagens mais restritivas no Brasil  podem ser porque ele nunca passou por uma guerra, porque é bem mais jovem e consumista ou até por causa do calor; num país tropical, essas questões de validade são mais sérias. De qualquer maneira, achei interessante.

Talvez essa diferença de visão seja responsável por tantas iniciativas de sucesso na Europa com lojas que só vendem produtos de validade vencida ou próximas do prazo com preços bem menores, como essa, na Dinamarca. No Brasil, imagino que seria complicadíssimo.

Lembrei disso porque minha mãe publicou um texto de humor onde ela descrevia uma cena em que três pessoas com “data de validade quase vencendo” estavam sentadas num café. No Brasil, logo estariam, para continuar a metáfora, “impróprias para consumo”. Na Alemanha, onde a idade média da população é mais alta, elas estariam “na garantia” até o prazo, mas depois poderiam continuar ótimas; dependeria muito das condições de conservação…rsrs

Essas diferenças são muito sutis e delicadas, mas ampliam nossa visão do mundo. Quem diria que dá para aprender tanto lendo rótulos?

***

NOTA: a legislação brasileira de rótulos de embalagens dá um banho na Europeia, na minha opinião. Não é raro comprar produtos sem ter a mínima ideia da origem e de onde são produzidos. Aquelas tabelas nutricionais só aparecem às vezes.