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Uma vitrine como você nunca viu

Olha só que interessante a ação dessa loja da Sisley; a marca francesa tem uma loja sem muito destaque na região central de Berlin e resolveu chamar atenção de uma maneira discreta (sim, isso é possível, veja!).

Eles colocaram um caminhão-vitrine estacionado bem na frente da fachada. Nunca tinha visto uma vitrine tão bacanuda, principalmente dentro de um veículo de carga. Pelo capricho e os acabamentos, a adaptação não deve ter ficado barata, mas ficou linda!

Adorei, e você?

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Gente feia

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Como tinha gostado muito de Coolhunter, do Scott Westerfeld, resolvi conhecer outros livros dele. Ele é especializado em literatura para jovens, mas estou preferindo leitura mais fácil agora porque alemão já é complicado que chega (um dia ainda lerei Thomas Mann no original, mas ainda vai demorar um pouco..rsrs).

Ugly: verlier nicht dein Gesicht* é uma obra de ficção científica onde, num futuro indefinido, a terra foi destruída pelos chamados “brutos” (nós) e alguns sobreviventes reconstruíram a civilização usando a tecnologia para usar menos recursos naturais e não poluir. A questão é que o conceito de limpeza foi extrapolado também na questão estética.

Nesse futuro, todas as pessoas crescem e estudam normalmente (a maioria em internato, pelo menos até a adolescência). Aos 16 anos, quando considera-se que o corpo já está formado, são todos submetidos a uma cirurgia plástica radical para aperfeiçoar não apenas a aparência, mas também o funcionamento do corpo (ossos são alongados com ligas sintéticas ultra resistentes, a pele toda é substituída, entre outras coisas). Os cientistas definem o que é considerado tecnicamente belo em termos de simetria e proporções e vai todo mundo para a forma.

A maioria esmagadora dos adolescentes adora, inclusive porque são condicionados a acreditar que são todos feios (uglies), a ponto de morarem numa parte separada da cidade. Eles têm softwares que simulam sua nova aparência (apesar das variações, são obviamente, todos muito parecidos). A protagonista sonha com esse dia, já que os “recém-bonitos” têm todos 16 anos e vivem em festas e reuniões sociais aparentemente pagos pelo governo (a população parece realmente ter diminuído muito). Além do que, seu namoradinho, algumas semanas mais velho, já sofreu a cirurgia e mora do outro lado da cidade.

A aventura acontece quando a mocinha conhece uma amiga que se acha bonita mesmo quando todos insistem que ela é feia. Ela gosta de ser como é e descobre um grupo de rebeldes que fugiu para viver em um lugar secreto sem ter que submeter à tal cirurgia transformadora.

Uma parte interessante é quando a moça encontra uma revista antiga (sobrevivente dos destroços do fim do mundo) e descobre que aquelas mulheres bizarramente magras e estranhas que estampam as páginas eram o padrão de beleza dos “rudes”. Ela se surpreende com a variedade de formas que o rosto e o corpo humano podem ter, vejam só.

Ler ficção científica em outra língua é meio complicado porque são descritas coisas que ainda não existem, mas pelo que pude deduzir, o povo todo se locomove por meio de skates voadores eletromagnéticos (amei essa parte).

Bem, a heroína passa por toda uma situação complicadíssima e arriscada, inclusive com teorias conspiratórias que não vou contar para não estragar. Ainda mais porque pensava que era uma trilogia e agora, pesquisando na Amazon, descobri que na verdade é uma quadrilogia. Só li o primeiro, então aguardem os desdobramentos.

Dei uma pesquisada e vi que a coleção foi lançada em português. Para saber mais, é só clicar aqui.

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*tradução livre: “Feio: não perca seu rosto”

Tapume chique

Numa das esquinas mais movimentadas da cidade de berlim, entre a Friedrischstraße e a Unter den Linden, fica a loja dos míticos carros esportivos da Porsche. Acontece que, bem nesse trecho, a expansão do metrô (que já é ótimo, mas eles estão pensando a cidade em 2030) está causando uma confusão enorme: desvios, tapumes, máquinas trabalhando, guindastes, enfim, tudo o que implica uma obra desse porte.

Pois a loja da Porsche aproveitou a bagunça para arrumar sua casa também e fechou as instalações para reforma. Mas olha só que ideia boa eles tiveram para a marca não cair no esquecimento enquanto o povo não pode entrar para admirar os carros: usaram o tapume para fazer uma mostra chamada “Porsche 911 im Spiegel der Zeit” (Porsche 911 no espelho do tempo). A “galeria alternativa” apresenta uma retrospectiva da história da propaganda em 100 anúncios do modelo 911 nos últimos 60 anos.

Em Berlim isso é uma prática bem comum; os próprios tapumes da obra do metrô mostram fotos antigas e contam um pouco da história daquele espaço. A ideia é tão boa que me lembrei de compartilhar.

Quem sabe vira moda nos outros lugares, né?

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Era uma casa nada engraçada…

Hausvogteiplatz, Berlin.

Hausvogteiplatz, Berlin.

Nos últimos tempos tenho conhecido e tido notícias de muita gente que está participando do programa Ciências sem Fronteiras, que leva universitários brasileiros a estudar no exterior. Como todo projeto grande, há de tudo: estudantes que aproveitam cada segundo e outros que só vêm fazer turismo e nunca aparecem na aula (o triste é que, pelo que soube de alguns professores, não é permitido mandar o sujeito de volta como punição, pois nada pode estragar as estatísticas…). Vantagens e desvantagens à parte, estou com uma sensação estranha e espero muito que esteja enganada.

O Brasil nunca teve um projeto sério de educação. Tive a sorte de sempre ter estudado em escolas públicas, do primário ao doutorado. Havia escolas ótimas, o problema é que eram poucas; nem todo mundo tinha acesso. Não venho de família rica e sempre ralei bastante; mesmo durante o doutorado trabalhei 40 horas/semana numa empresa privada. Mas não posso negar que tive muita sorte: consegui acesso a esse quartinho bom, mas pequeno, com um monte de gente querendo entrar. Se tivesse nascido e crescido num canavial em algum lugar no interior do Brasil, dificilmente teria essa chance. Repito, foi pura sorte.

Nossa situação na educação agora é sair desses quartinhos e construir uma casa. Justiça seja feita, até hoje governo nenhum se dignou a pensar nisso. Pela primeira vez na história, há alguma movimentação nesse sentido, de construir a tal casa. Só que temos aí vários problemas.

O primeiro é que não há um projeto para a casa. Nem um orçamento planejado. Nem uma equipe qualificada com a responsabilidade de construi-la.

E, para piorar, começa-se a obra pelo telhado. Não são medidos esforços para comprar telhas de vários tipos, de maneira completamente aleatória (pelo menos é a minha percepção). Há gente boa estudando maneiras eficientes de se fazer a melhor cobertura, há gente comprando telha de papel e vendendo como se fosse de ouro (que, de qualquer maneira, não seria adequado), tem gente construindo telhados com células solares pensando na sustentabilidade, tem quem use materiais tóxicos e ainda tem telhas baratas importadas da China; enfim, um pouco de tudo.

Para qualquer um que critique a maneira como a casa está sendo feita, seguem-se as maravilhosas cifras de tudo o que já foi investido até agora em telhas, algo que nunca foi feito antes (o que é verdade, não nego).

Mas, gente? Não temos projeto, não temos alicerces, não temos fundamentos! Onde vamos colocar essas telhas? Aliás, nem os tais quartinhos bons nos quais estudei estão recebendo manutenção adequada. Nossos estudantes estão entre os piores do mundo em todas as métricas internacionais para o ensino básico. As escolas não têm merenda, não têm livros, alguém superfaturou computadores velhos e nem a internet funciona. Dei aula para analfabetos funcionais no ensino superior (que está mais para ensino inferior) e fiquei impressionada. As pessoas não conseguem entender conceitos básicos como o de porcentagem, não conseguem estruturar uma frase completa.

Sei que a escola básica não é responsabilidade do governo federal, e sim dos estados e municípios. Mas a casa é uma só; tem que federalizar a coisa mais estratégica que esse país tem, que é a formação de gente! É nossa única salvação, a meu ver.

Há que se fazer um projeto sério, pensando no longo prazo, que seja justo, inclusivo e priorize o acesso à educação em todos os níveis. Que as pessoas aprendam a pensar por si próprias, não a reproduzir ideologias, seja lá quais forem. Que aprendam a ler, escrever, fazer contas, entender seu papel no mundo. Que possam sonhar, mas aprendam a fazer.

Por sorte, não entendo nada de construção de casas e nem de educação. É minha esperança.

Essa ignorância é o que me dá forças para acreditar que estou enxergando tudo errado e distorcido, e que a coisa não é tão ruim assim.

Tomara.

A fábrica de sonhos

Foto: site BMW

Foto: site BMW

Quando fiz minha primeira viagem de moto na garupa, pelo Chile, em 2002, jamais poderia imaginar que um dia estaria pilotando minha própria BMW F650GS e cruzando a Cordilheira dos Andes. Isso foi há muito tempo e a moto acabou sendo vendida, mas ontem tivemos a oportunidade de visitar o lugar onde ela nasceu.

No bairro de Spandau fica uma das três fábricas de motocicletas da BMW no mundo; a de Berlim é a única de verdade mesmo (as outras duas, uma em Manaus e outra em Rayong, na Tailândia, são apenas montadoras de alguns modelos).

BMW é a sigla de Bayerische Motoren Werke (Fábrica de Motores da Bavária) e a divisão de motocicletas, fundada em 1923, funcionou em Munique até 1969, quando se mudou para Berlin.

A fábrica produz 600 motos por dia (desde o bloco do motor até a montagem final para todos os modelos) e tem 1.900 funcionários.

Pena que não podia tirar fotos, mas foi uma experiência incrível (sem falar na saudade que bateu ao visitar um chão de fábrica com todos aqueles robôs articulados e fresas maravilhosas).

Mas o que mais me surpreendeu mesmo foi o cuidado nos testes finais. Sim, em cada etapa há um rígido controle de qualidade, como era de se esperar, mas no final da linha de produção tem um funcionário que realmente monta na moto, testa os freios ABS, engata todas as marchas e vai a 120 km/h (numa esteira, claro). Isso para  CADA UMA das unidades. Ficou todo mundo babando em saber que, além de ganhar para fazer esse trabalho dos sonhos (testar motos zeradas), os profissionais dessa etapa são dos mais bem remunerados na fábrica (o sujeito tem que ter muita sensibilidade e conhecimento para atestar que está tudo irretocável, além do que os equipamentos já mediram).

O guia que nos levou pela fábrica disse que todo ano eles recebem inscrições para o programa de estágio, que é bem concorrido (cerca de 500 candidatos se estapeiam por uma vaga), mas além de um excelente currículo, um pré-requisito básico é que a pessoa seja apaixonada por motos.

Olha, achei um excelente critério. Não é à toa que eles conseguem fazer máquinas tão perfeitas.

Para quem quiser ir, as visitas guiadas são em inglês e alemão. Mais informações clicando aqui. Recomendo demais!

PS: Quer saber mais sobre nossas viagens de moto? Visite o www.duasmotos.com.

 

5 dicas para não ser espontâneo nas redes sociais

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Qualquer pessoa, por mais distraída e sem noção que seja, tem uma ideia de como seria seu mundo ideal, confere? O que ela às vezes não se dá conta é que deveria agir e se comunicar de maneira que as coisas convergissem para esse mundo se materializar. Assim não precisaria reclamar da vida e se lamentar continuamente, pois estaria ocupada realizando a transformação.

Pois é, e pessoas que agem e se comunicam de maneira intencional, com um objetivo claro, não podem ser espontâneas, sabe por quê? Olha a definição de espontâneo no dicionário: instintivo, não premeditado, ou seja, aquilo que a pessoa faz sem pensar antes. Se eu ajo e me comunico sem pensar antes, sem ser intencional, o que acontece? Hummm…. qualquer coisa. Inclusive com resultados indesejados…

Nas redes sociais, pessoas espontâneas estão sempre à mercê da emoção do momento e postam fotos e textos sem refletir se aquilo contribui para o mundo que deseja realizar e como isso tudo será interpretado do outro lado da tela. E isso pode trazer consequências bem sérias, veja por que.

1. O que for publicado ficará para a eternidade. Tudo o que você posta nas redes sociais não dá mais para apagar. Mesmo que você delete o post, alguém pode ter salvado a imagem. De qualquer maneira, vale saber que empresas como o Facebook mantêm backups que podem ser requisitados pela justiça. Depois não adianta se lamentar; melhor não ser espontâneo e pensar antes de usar um meio público para fazer um desabafo íntimo que só interessa a você e a talvez mais uma ou duas pessoas.

2. Tudo o que você postar pode ser usado contra você num tribunal. É isso mesmo; cuidado com mensagens ou comentários racistas, homofóbicos, preconceituosos ou ofensivos a alguém ou a algum grupo em particular. Uma rede social não é uma mesa de bar, onde você fala bobagens sem pensar. E compartilhar mensagens criminosas faz de você cúmplice aos olhos da justiça; era essa mesma a sua intenção?

3. Publicou, não pertence mais a você. É do mundo. Isso mesmo, depois que apertou o botãozinho “publicar” não tem mais volta, o controle é totalmente perdido. Você não sabe quem vai ler, quem vai opinar, quem vai compartilhar, onde isso vai parar. Mesmo que a mensagem ou foto tenha ido apenas para um grupo de amigos, há muitos meios dela ganhar o mundo sem o seu conhecimento. Pense carinhosamente nisso antes de apertar o botão, por favor.

4. Verifique se o que você está compartilhando é verdade mesmo. Muita gente sai reproduzindo bobagens e divulgando mentiras sem ao menos se dar ao trabalho de conferir as fontes. Repare: como se chama a pessoa que espalha boatos maldosamente e de maneira inconsequente? Fofoqueiro, não é? Depois não adianta chorar, lamentar-se, dizer que não sabia, que não tinha a intenção. Quem tem acesso às redes sociais, também tem acesso ao Google e pode muito bem pesquisar as fontes para saber se aquilo que está compartilhando é verdade ou não. A não ser que sua intenção seja construir um mundo melhor baseado na fofoca.

5. Reflita sobre qual é sua intenção ao postar uma foto ou mensagem. Ela é útil para alguém? Ajuda, de alguma maneira, a construir o mundo que você quer? Por favor, não confunda chatice e mau-humor com utilidade; piadas e frases espirituosas podem fazer o mundo ficar mais divertido e leve, mas há que se ter um filtro. Por exemplo: se a informação que estou postando só tem utilidade para a minha mãe, por que não envio uma mensagem particular para ela, em vez de ficar poluindo a página de meus amigos que nada têm a ver com isso? Qual a minha intenção a cada foto ou foto que publico? O que quero que as pessoas pensem ou sintam, qual é a mensagem por trás da imagem?

Ok, já estou ouvindo vozes berrando “a página é minha e posto o que eu quiser”. Está claro, não discordo disso em nenhum ponto. Só quero chamar atenção para cada um pensar sobre a real intenção ao compartilhar cada informação e as consequências que o ato pode provocar.

Redes sociais são o pior lugar do universo para alguém ser espontâneo. Acredite, é sério.

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O muro de luz

A festa de comemoração aos 25 anos da queda do muro de Berlin é um evento que vai ficar na memória para sempre. Não tanto pelo final, mas pelo efeito que causou nas pessoas que caminharam ao longo do muro imaginário de luz.

O evento, planejado há sete anos pelos artistas e irmãos Christopher e Marc Bauder, distribuiu 8 mil suportes com balões de gás instalados ao longo dos 15 km da área central por onde passava o muro de Berlim (o muro completo, que contornava toda a área de Berlim ocidental, uma ilha capitalista no meio de um país socialista, tinha 160 km).

Na sexta-feira, dia 7 de novembro, os suportes foram instalados e os balões se acenderam. Foi muito emocionante ver gente do mundo todo caminhando ao longo  do “muro de luz” que se formou. Em vários lugares havia telões passando vídeos desde a construção e, em alguns pontos, suportes contando histórias de pessoas que tentaram atravessá-lo (algumas parecem ficção de tão fantásticas). Mas o impressionante mesmo é que, caminhando, dava para ter uma vaga ideia do que era ter um muro alto (na verdade, dois paralelos com um campo minado entre eles) separando famílias, amigos, enfim, pessoas.

No dia 8 (sábado), fui visitar as imediações do parlamento e do Portão de Brandemburgo, onde seria a cerimônia de encerramento do evento; já estava praticamente impossível chegar perto (e igualmente emocionante), motivo pelo qual escolhemos ver a subida dos balões à beira do rio Spree, perto da Oberbaumbrücke, no bairro de Kreuzberg.

Para mim, a grande sacada foi distribuir a festa em 15 km e por três dias (se somar os quase 4 milhões de moradores com mais os turistas, imagina só esse povo concentrado em volta do Portão de Brandemburgo). Mesmo assim, para todo lado estava lotado de gente, não tinha um espacinho que fosse perto dos balões; o bom é que aqui em Berlim você pode se meter tranquilamente numa muvuca sem medo; não tem briga, nem arrastão, nem nada — crianças em carrinho de bebê, idosos, cadeirantes e  cachorros frequentam a festa sem nenhum risco).

A hora de soltar os balões é que foi um pouco decepcionante; imaginei que eles seriam soltos todos de uma vez só, e acesos, mas o primeiro  subiu apagado com 15 minutos de atraso e os outros vieram numa sequência irregular. Cada balão tinha um padrinho (que foi escolhido por ter alguma história com o muro), cuja chave soltava a base. Talvez algumas não tenham funcionado direito ou os padrinhos ficaram emocionados e não conseguiram soltar, sei lá, mas ficou um anti-clímax depois de tanta espera.

Enfim, o bom é que a festa foi linda, na maior paz, São Pedro colaborou e eu agradeço muito o privilégio de ter participado.

Dá uma olhadinha nas fotos…

PS: Aqui tem o link do site oficial da festa.

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Checkpoint Charlie

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O muro de luz fazendo sombra no muro original (esse aí é um pedaço que ficou)…

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Portão de Brandemburgo

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Poder legislativo

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Cruzes de metal em homenagem aos mortos que tentaram cruzar o rio nadando para tentar escapar e acabaram alvejados pelos policiais da DDR.

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Reserva de tranquilidade

Quando estiver chateado, estressado, de mal com o mundo, põe uma música que você gosta e fica assistindo esse vídeo em loop infinito. É o outono em Berlin, na esquina da minha casa.

Garanto tranquilidade, paz e inspiração instantâneas.

Vai por mim.

Caminhos mineiros

Estou desde o começo da semana em Belo Horizonte trabalhando (e comendo) muuuuuito, por isso o blog está andando um pouco devagar nas atualizações.

Bem, pois nas minhas andanças por essa cidade linda, reparei que não existe um padrão único para calçadas. E mais, os mineiros parecem ser muito criativos com essas pedrinhas.

Olha só que lindeza <3 <3

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Suculenta

Quase nunca falo sobre padrões de beleza injustos ligados ao peso porque sou suspeita: nasci magra e sempre vivi sem olhar para a balança. Sim, é uma sorte nascer no século certo, mas não dá para simplesmente ficar quieta e aproveitar. Tivesse eu sido contemporânea de pintores renascentistas, ficaria sem marido, o que, numa época em que as mulheres dependidam deles para comer, seria uma verdadeira tragédia.

Ser magra é confortável e um “problema” a menos para resolver na vida, mas não consigo deixar de me preocupar com as pessoas que tiveram um pequeno atraso no timing e nasceram numa época em que as dobrinhas já haviam caído de moda. É muito sofrimento e cobrança por uma bobagem fabricada.

Padrão de beleza é uma convenção, sempre foi. E muda com o tempo, com o contexto, com a história. Aí, quem não está sintonizado, acaba se sentindo deslocado, inadequado, errado. Não está não.

É só pensar em como o padrão muda ao longo dos anos, dos séculos, de lugar para lugar. É só uma convenção besta. E convenções a gente muda.

Não estou aqui propondo que o novo padrão seja a abundância (também não quero ficar mal na foto), mas num momento tão rico de possibilidades como o nosso, é de uma pobreza inimaginável definir “peso ideal” de um jeito tão quadradinho e limitado.

A ideia é ver beleza onde tem e chutar esses padrões chatos e desnecessários. Dá para agradar aos sentidos sendo magra, gorda, alta, baixa, musculosa ou molinha, enfim, dá para gostar de feijão e de arroz ao mesmo tempo. Ou preferir um dos dois. Ou farofa. O que não dá é para estabelecer que todo mundo tenha que caber na mesma forma feito clones, pois aí perde a graça.

Esse texto todo é só para apresentar uma escultura linda que vi esses dias. Fiquei um tempão parada olhando essa beleza. Não descobri quem é o(a) artista, mas faz tempo que não vejo uma mulher tão bem representada. Mesmo sendo fisicamente tão diferente, consegui me ver nela inteirinha.

Olha só que coisa mais linda, cheia de graça… e poderosa!

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Alongando madeixas de gente feia

Semana passada estive em Hamburgo (infelizmente, apenas por algumas horas), mas deu tempo de achar coisas curiosas naquela cidade linda.

Pense: quando um cabeleireiro faz propaganda de alongamento de fios, geralmente usa aquelas modelos maravilhosas, com aquele cabelón de propaganda de shampoo para divulgar seu trabalho, não é?

Pois o Jörn Friseur não pensa assim: ele usou fotos de pessoas que não são exatamente modelos  de beleza, ainda mais fazendo caretas. Não são feios, mas rostos interessantes e curiosos que ninguém pensaria em usar para fazer propaganda de produtos de beleza. De fato, chama bastante atenção quando a gente passa pelo lado de fora do salão.

Só fiquei com pena porque pensei que tudo fizesse parte de uma estratégia de marketing bem pensada, mas não. Só uma ação para “ficar diferente” mesmo, ao que tudo indica, uma vez que não achei nada sobre a tal campanha e o site só tem uma página de propaganda que deve ter sido feita por um sobrinho quando tinha 12 anos (já deve estar aposentado e em outra profissão…rsrsrs).

Mesmo o trabalho tendo sido feito pela metade, achei bem interessante. E você?

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Ajudando a formar cidadãos, não consumidores

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Olha que interessante; há algumas semanas postei aqui uma notícia de que a polícia de Berlin tinha sido destacada para dar suporte às crianças que estavam indo pela primeira vez à escola, ensinando-as a atravessar a rua, respeitar o semáforo, etc.

Pois ontem saiu outra notícia dizendo que a Alemanha está começando a enfrentar um problema que já acontece no mundo todo: pais que levam as crianças à escola de carro e param em fila dupla, atrapalhando todo o tráfego na região.

Pois a solução que eles pensaram em Frankfurt foi fazer os policiais explicarem para os pais que, fazendo isso, eles estão não apenas prejudicando os outros cidadãos, como também colocando em risco a vida das outras crianças que vão para a escola a pé e de bicicleta. Além disso, é bom para o desenvolvimento da criança fazer pelo menos o último trecho sozinha (elas se tornam mais responsáveis, independentes e aprendem a reconhecer sozinhas os perigos da rua). Assim, para os pais que insistem em levar o filho de carro, há a opção de estacionar a uma ou duas quadras de distância para o filho fazer o último trecho de maneira civilizada, como as outras crianças.

Adoro a maneira como esse polvo resolve os problemas!

PS: Eles têm duas expressões engraçadas para descrever esse tipo de pai/mãe: os pais-táxi e os pais-helicóptero (que se pudessem entregariam o filho de helicóptero no pátio da escola; fizeram até um filminho para ironizar a situação).

Aqui o link da notícia (em alemão) com o vídeo: http://blog.zeit.de/fahrrad/2014/09/19/elterntaxis-schulweg/

Eu vejo tudo enquadrado

Era uma vez um lavabo sem janelas, entendiante, chato de dar dó. Fiquei pensando em como fazer esse lugar ficar interessante e acolhedor (casa para mim é isso), que fosse especial e diferente de todos os outros lavabos chatos e sem personalidade.

Aí lembrei das fotos que posto todo dia para mostrar um pouco da beleza e interessância dessa cidade linda pela qual sou tão perdidamente apaixonada. Eis que agora temos 500 fotos (sim, quinhentas, cortadas e coladas uma a uma sobre foam preto) cobrindo todas as paredes (ainda bem que o aposento é minúsculo…rs).

Gostou da ideia e quer fazer também, mas acha que não tem essa quantidade de fotos bacanas? Use as minhas! No Instagram não dá para baixar (nem eu consegui), mas no blog e no Facebook é bem fácil. No tamanho que imprimi, 7.5 x 7.5 cm (encaixei duas fotos no formato 10 x 15 cm para facilitar a impressão), a resolução não compromete o resultado. Dá um trabalhão, mas fica bem bacana.

Dá uma olhada aí como ficou para você se inspirar…

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O papel desenrolado (que só vi depois) é a colaboração da Isabel para a obra :)

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Selinhos solidários

É de pessoas generosas como o Gustavo Couto que o mundo precisa: além de excelente profissional e referência em design thinking aplicado à educação, o moço fica compartilhando comigo inbox as coisas bacanas que descobre.

Graças a ele, fiquei sabendo do projeto Pumpipumpe que quer diminuir o consumo desnecessário no mundo. Para isso, olha só a ideia simples e genial que eles tiveram: criaram selinhos que você pode colar na sua caixa de correio com os itens que você poderia emprestar para os seus vizinhos. Quando eles estiverem precisando, já sabem para quem pedir.

Além de tornar o mundo melhor, a gente ainda faz uma social com os moradores do prédio. O primeiro contato já é solidário, quer coisa melhor?

O projeto foi criado na Suíça (o site tem versões em alemão, francês e italiano) e você escreve e pede os selos correspondentes às coisas que tem para emprestar; eles também pedem sugestões de coisas que ninguém se lembrou ainda, mas que também podem ser úteis para alguém. A ideia é sempre produzir novos selos (ainda não tem xícara de açúcar…rsrsr).

Como tem um monte de gente trabalhando voluntariamente e há custos, você pode contribuir se e com quanto quiser. Eles também fornecem cartões postais lindos com os mesmos desenhos dos selos.

Eu já colei meus selos na caixa de correio e agora é só esperar algum vizinho tocar a campainha… :)

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No meu caso, posso emprestar ferramentas, livros, uma panela wok e uma balança de cozinha (ainda não desapeguei da bicicleta…rsrsr). No último selo aparece a mensagem “Alls das kannst du bei mir ausleihen” que, em uma tradução pra lá de livre quer dizer “todas essas coisas você pode me pedir emprestado“. Embaixo tem o site do projeto, caso o vizinho também queira participar.

Penso que eles ficariam contentes se alguém no Brasil quisesse expandir o projeto para baixo do Equador; é só entrar em contato pelo site.

PS: Já sei que vai ter gente curiosa perguntando o que está escrito no adesivo de cima. É um pedido para não colocarem folhetos, revistas e periódicos de propaganda, ou seja, spam de papel. Se não colocar isso, a caixa fica abarrotada. Outra curiosidade é que os apartamentos não têm números, então o correio distribui a correspondência pelo sobrenome que está marcado na caixa.

Para arranhar com classe

Quem tem gato sabe: se você não tiver um lugar muito bacana para os bichanos arranharem, seus sofás, poltronas e demais estofados sofrerão as consequências como um cão.

O problema é que os arranhadores disponíveis no mercado são tão horríveis que meus gatos, sempre pródigos em bom gosto e finesse, nunca deram bola para essas coisas feias cheias de cordas enroladas.

Eis que descobrimos aqui em Berlin um fabricante que faz móveis tão maravilhosos que podem tranquilamente compor a decoração da casa sem fazer ninguém passar vergonha.

Nossas gatas adoraram tanto que estamos até pensando em comprar outra peça. Os arranhadores são construídos artesanalmente em papelão ondulado e totalmente reciclado. Tem vários modelos, tamanhos e acabamentos diferentes, mas a estrutura é sempre de papelão.

Nessa primeira foto a Charlotte aparece posando como verdadeira princesa que é no seu divã exclusivo; as fotos seguintes foram retiradas da loja virtual do fabricante: cat-on.

Se o negócio não fosse tão pesado e trambolhudo, levaria um para o Otávio e o Horácio se divertirem, mas não tem como…

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Charlotte em seu divã, toda deusa <3

 

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Foto do site cat-on.com

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Foto do site cat-on.com

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Foto do site cat-on.com

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Foto do site cat-on.com

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Abençoado

Olha que ideia mais bacana e original é a fachada desse prédio, no bairro de Wedding; ele é todo decorado com anjos renascentistas de bronze (ou pintados para parecer que o são, pois não dá para ter certeza do material). É pena que não tenho asinhas como eles para voar e vê-los de pertinho.

Mas o efeito é sensacional; além de charmoso, o prédio fica super abençoado, né?

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Cara e coração

Tem umas lojinhas que têm uma fachada tão, mas tão caprichada, que é impossível não pensar no tanto de amor que tem lá dentro.  Na maioria são instalações simples, com zero de luxo, mas muito criativas e acolhedoras.

Veja uma amostra (a cidade está cheia delas) e veja se não dá vontade de entrar…

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Chefe ou líder?

 

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De vez em quando vejo pessoas falando sobre liderança e tratam o termo chefe como sinônimo de líder. Pois é, então fica a pergunta: um líder é um chefe? Precisa ser chefe para ser líder?

Outra questão que aparece bastante nos treinamentos para empresas: para que vou dar um curso de desenvolvimento de liderança para pessoas que não têm subordinados?

Bem, vamos analisar primeiro o conceito de chefe. O dicionário Aulete diz que é a pessoa que exerce a autoridade principal, de comando, que tem poder de decisão, que dirige.

Já sobre líder, gosto da definição de Peter Drucker: “Líder é alguém que possui seguidores”. A de Wishard também é clara: “A essência da liderança é a visão”. Só para acabar, o resumão de Lin Bothwell consegue sintetizar de maneira brilhante: “A moral da história é clara: para ser líder é necessário saber para onde se vai”.

Não sei se vocês repararam, mas as definições de chefe e líder não têm nada a ver uma com a outra. Uma define posição, autoridade. Outra trata principalmente de inspiração.

Mas vamos desdobrar essas ideias direitinho para ver por que a confusão acontece.

Durcker diz que líder é aquele que tem seguidores (observe: seguidores, não fãs!).

O líder é um sujeito que consegue enxergar para o futuro e ver um cenário que deseja que se torne real. Como o líder quer muito que essa visão se materialize, pensa num jeito de fazê-la acontecer; estuda caminhos e descobre um jeito. Quanto mais ambicioso é o cenário, mais o líder entende que não consegue construi-lo sozinho — precisa de ajuda de outras pessoas, outros profissionais, outras competências. Precisa de mais gente que também tenha a mesma visão e que queira ir junto com ele no caminho para chegar lá.

Então, o que o líder faz? Apresenta esse cenário de maneira que consiga inspirar outras pessoas a segui-lo. Ele consegue comunicar a ideia de maneira que os seguidores consigam ver e entender o papel e a importância de cada um na construção do caminho.

E tem mais: dependendo da complexidade do cenário, o líder entende que o caminho é longo, penoso e que não consegue dar conta sozinho. Aí, não tem outro jeito: ele tem que preparar alguns seguidores para assumir a liderança em determinados trechos. Os envolvidos sabem que o foco é a visão, o cenário futuro, que não inclui o umbigo de ninguém; quem é o líder em qual parte do caminho é apenas um detalhe técnico.

Vamos a exemplos práticos: Martin Luther King inspirou milhões de pessoas na construção de um cenário que apresentava um mundo sem racismo. A visão era grande, complexa e de difícil realização, mas importantíssima. Ele conseguiu apresentar a ideia de maneira muito clara, e mais; conseguiu mostrar aos seguidores a importância de cada um nessa luta. O cenário em questão ainda está em obras, Martin já morreu, mas deixou muitos seguidores-líderes que se revezam na batalha. São pessoas de países, línguas e culturas diferentes, com atuações em diversos campos, com abordagens diferentes, mas que têm em comum a mesma visão.

Um exemplo mais do dia-a-dia, vejo defensores de animais abandonados. Tem muita gente trabalhando para construir um mundo sem bichos sofrendo maus tratos, atuando em diversas frentes. Há muitos seguidores e muitos líderes. Não há estrelas ou egos; há o futuro desejado, a visão.

O importante é que se saiba que o papel do líder é temporário e limitado, mas fundamental. E que a pessoa que está líder no momento é apenas um instrumento para fazer a visão se realizar.

E onde é que entra o chefe nessa história?

Bem, o chefe deveria ser a pessoa que foi escolhida pela empresa para tomar decisões justamente porque ele conhece e entende bem o cenário futuro, a visão da organização. Ele deveria ser uma pessoa que consegue traduzir bem esse quadro para sua equipe e inspirá-la a trabalhar juntos para construi-lo.

Nem sempre o chefe e a empresa possuem essa clareza de definições e acontece muito de pessoas assumirem o cargo sem estar preparadas, achando que precisam de fãs (ou então tementes). E, como disse antes, líder não precisa ter subordinados, mas seguidores. Pessoas que acreditam na ideia e sentem-se motivadas a participar.

A senhora que serve o café pode ser uma líder muito mais influente que o diretor da divisão, pois pode conseguir mudar o comportamento das pessoas se tiver grande poder de comunicação, mesmo não tendo nenhuma autoridade. Então, a questão de ter ou não subordinados, não é relevante nesse caso. O pessoal que faz trabalhos voluntários, às vezes sequer pode contar com uma pessoa ajudando no início do projeto — começa sozinho mesmo e vai arregimentado seguidores enquanto caminha.

Todos somos líderes e liderados em muitas e diversas causas, só depende da situação e do contexto. Mudamos de papel o tempo todo e, o mais importante para empresas, chefes, subordinados, líderes e seguidores entenderem é que as pessoas são movidas pela visão.

E é somente ela que importa, no final das contas.

Os primeiros passos

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Olha que fofura: o Conrado ouviu no rádio (por isso não tem o link da matéria) que hoje 3.000 crianças em Berlim estão indo à escola pela primeira vez (o ano letivo no hemisfério norte começa em setembro, depois das férias de verão).

Pois a polícia se mobilizou numa operação especial em todos os cantos da cidade para ensinar os pequenos a atravessar a rua e como se comportar no trânsito.

Muito amor, né? <3 <3 <3   

Por que Berlim é tão diferente do resto da Alemanha?

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Rola um ditado aqui no qual se diz que “Berlim não é Alemanha”. Não é mesmo. Em Berlim as coisas são bem diferentes do resto da pátria de Goethe.

Enquanto o país é conhecido pela disciplina, organização e respeito quase cego às regras estabelecidas, aqui o povo é mais relaxado. Diria que Berlim é tipo a Bahia da Alemanha: uma mistura de culturas de pessoas descontraídas que seguem uma filosofia voltada ao bem estar e à qualidade de vida. Acaba sendo um celeiro de artistas de todas as áreas e um caldeirão cultural que está sempre fervendo. O efeito colateral disso é que as coisas não funcionam tão perfeitamente como no resto do país e o atendimento ao cliente… bem, não vou comentar…rsrsr

Berlim também é conhecida por ser pobre (pelos padrões alemães, que fique claro), pois não tem grandes indústrias, ao contrário de Munique, que, continuando a analogia, seria como São Paulo (rica e culta também, mas de uma outra maneira). Tanto que o lema de Berlim é “Pobre, porém sexy” (como não amar?).

Bom, mas como é que a sede do governo prussiano, conhecido pelo militarismo e disciplina ficou assim? Por que Berlim é tão diferente da Alemanha?

Primeiro, vamos ao contexto histórico. Depois da segunda guerra mundial, a Alemanha perdeu e foi dividida entre os aliados. A Rússia ficou com quase metade (e fundou a União Soviética, que congregava a maior parte dos países do Leste Europeu) e a Inglaterra, França e EUA ficaram com o restante.

Berlim era uma cidade muito importante para pertencer somente a um aliado. Então, mesmo ficando bem no meio da antiga Alemanha Oriental (ou DDR— Deutsche Demokratische Republik), acabou dividida também; uma parte (quase metade) para a Rússia e a outra parte para os demais aliados.

Agora imagine a tensão do povo que vivia na cidade na época da divisão (a fuga do lado oriental para a parte ocidental da cidade era tão grande que tiveram que construir o famoso muro). A qualquer momento a coisa podia explodir; uma ilha capitalista no meio de um país comunista medindo poder o tempo todo. Teve um ano (entre 1948 e 1949) que os russos bloquearam todas as estradas que davam acesso ao lado ocidental, de maneira que absolutamente tudo tinha que chegar de avião: de comida a combustível; de remédios a material de construção. Eram quase 600 voos cargueiros por dia para abastecer a cidade! Olha aí embaixo como era o mapa naquela época.

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Claro fica que ninguém queria morar nessa arapuca, né? Então o governo ocidental teve que se virar para incentivar as pessoas a viver na cidade e fez mais ou menos como o governo brasileiro para povoar Brasília: aumentou salários para quem se mudasse para lá, deu incentivos e prêmios, algumas regalias, enfim. Mas o que fez definitivamente diferença foi a isenção do serviço militar.

Naquela época, todo cidadão alemão tinha que cumprir dois anos de serviço militar obrigatório*. Depois de perder duas guerras, muita gente não se animava com a perspectiva. E adivinhe qual perfil? Artistas, intelectuais, pensadores, atores, escritores, músicos, criativos, enfim, toda essa gente que é um pouco avessa ao conceito de guerra e, principalmente, obediência.

Então, a maior parte dos alemães que tinham um perfil, digamos assim, mais alternativo, mudou-se para a cidade para fugir do quartel. Faz sentido, né?

A parte histórica eu já conhecia, mas essa relação entre dispensa do serviço militar e o perfil pouco “alemão” (no sentido mais estereotipado) de Berlim foi me apresentada numa festa de verão que fui no sábado, na casa de amigos. A mulher, uma berlinense da gema, do alto dos seus sessenta e poucos anos, viu a transformação da cidade in loco e me contou a história.

Adorei. Você não?

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* Segundo a Rosana Conte, que mora há mais de uma década na cidade e é casada com um alemão da antiga DDR, o serviço militar aqui na Alemanha (Militärdienst ou Wehrdienst) deixou de ser obrigatório em meados de 2011, quando o Exército se tornou profissional (quem entra é para seguir carreira). A opção para quem não quer se tornar militar é prestar um serviço social chamado Zivildienst (cuidar de idosos, pessoas deficientes e por aí vai); esta alternativa de prestação de serviços à comunidade já existe desde 1961, e foi criada para os jovens que por motivos pessoais não queriam vínculos com o serviço militar (não pegar em armas e matar por motivos religiosos, por exemplo).

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