Humanidade

Nas últimas semanas temos acompanhado angustiados o desenrolar do desastre climático do Rio Grande do Sul; o coração fica apertado e a emoção toma conta ao ver tantos vídeos de gente ajudando. mas também dá revolta em ver gente criando e disseminando fake news, assim como pessoas distorcendo os fatos por questões políticas. O fato é que nenhum governo até agora levou realmente a sério a questão climática, mas alguns foram piores que outros. Enfim, mas não é o tema aqui. Toquei nesse assunto porque nessas horas dá um certo pessimismo para onde caminha a humanidade. 

Esse livro já estava na minha pilha há muito tempo esperando a vez dele, coitado. Decidi por ele agora porque estou realmente precisando de esperança. E a julgar pelo outro livro do mesmo autor que já resenhei aqui (Utopia para realistas), “Humankind: a hopeful history“, de Rutger Bregman, achei que ia acalmar um pouco o coração. Acertei.

É uma pena que o jogo de palavras human (humano) + kind (nesse caso usado como tipo, espécie, mas também tem o significado de gentil, amigável, generoso) se perca na tradução literal (humanidade), porque é essa a ideia central do livro: os seres humanos são majoritariamente bons e generosos. 

Pelo que a gente lê por aí, custa a acreditar, né?

Mas no capítulo 1, sobre o novo realismo, a gente começa a entender a linha de argumentação.

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O céu no meio da cara

Há alguns meses rolou um evento na Embaixada do Brasil aqui em Berlim para promover a arte brasileira. Teve performance, música da boa e pintura — tudo muito belo e inspirador. O trabalho, capitaneado pelo grupo Cena Berlim, faz a gente realmente ter orgulho da terrinha. 

Pois na abertura, a performance da atriz Júlia Portes e do sound designer Frederico Santiago me impressionou muito; pelo talento, pela força, pelo realismo. E eis que a Júlia estava lançando também seu primeiro romance, “O céu no meio da cara”. É claro que lá fui eu para a fila dos autógrafos.

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Cottbus e sua biblioteca maravilhosa

Não tinha ouvido falar muito de Cottbus, uma cidade de 100 mil habitantes que fica a 1h30 de trem de Berlim.

Fui lá porque tinha lido algo sobre a biblioteca da universidade técnica de Brandemburgo que fica no campus de Senftenberg e, como boa caçadora de bibliotecas que sou, lá fui atrás do tesouro. E que tesouro, minha gente! Inaugurada em 2004, foi executada pelo escritório Herzog e de Meuron após vencer um concurso.

Depois disso já ganhou vários (e merecidos) prêmios e eu juro que moraria lá dentro de bom grado no meio do mais de 1 milhão de livros e mais um tanto de material multimídia. A grande estrela é a escada caracol. Essa obra de arte da arquitetura é um acontecimento! Todo o mobiliário, as cores, os materiais, as 600 mesas de leitura com tomada e iluminação próprias, os 7 andares de deleite visual. Eu moraria aqui dentro fácil. E você?

E olha que eu nem estava esperando nada da cidade (fui só para ver a biblioteca mesmo). Mas que gracinha!! A arquitetura, com muitos prédios em estilo art-deco e art-nouveau, homenageando o Jungedstill, tem, no seu teatro nacional uma construção muito próxima da Sessesion que vi em Viena; quero voltar lá para fazer uma visita guiada. Os prédios todos estão muito bem conservados e a cidade é uma teteia!E isso porque não fui no parque mais famoso da cidade (Branitz). Então, pelo jeito, vou ter que voltar…

A única mulher na sala

Bom, preciso dizer que esse foi um dos livros mais impactantes que li esse ano, não só pelo conteúdo, mas por tudo o que ele representa. 

Mas vou começar contando como “Die einzige Frau im raum” (tradução livre: “A única mulher na sala”), de Marie Benedict, veio parar nas minhas mãos.

Eu estava a caminho de um encontro de mulheres de tecnologia aqui em Berlim, quando passei por uma livraria. 

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O pressentimento de um final

Bom, primeiro queria contar como esse livro veio parar nas minhas mãos. Por acaso, estava andando na rua e vi uma caixa de papelão cheia de livros (quem mora na Alemanha sabe que isso é muito comum aqui; a pessoa faz a limpa e coloca tudo o que sobrou numa caixa de papelão na frente de casa para quem quiser, levar. Já achei coisas bem legais, inclusive um dos meus casacos preferidos, mas o que atrai minha atenção são os livros). Eis que esse era o único interessante, pois já tinha ouvido falar do autor, ganhador de vários prêmios. Peguei o presente e coloquei na minha pilha. Isso já faz um tempo. Pois essa semana resolvi abri-lo.

Gente, esse autor não é famoso à toa; “The sense of an ending” (difícil de traduzir a palavra “sense”, que tanto pode ser sentido como sensação, pressentimento, ou mesmo senso. Pelo contexto da história, achei que pressentimento encaixava melhor, mas a tradutora escolheu sentido na versão oficial da obra em português) é uma obra de arte.

Julian Barnes, o autor, me lembrou muito Sally Rooney, pela facilidade de traduzir sentimentos complexos e ambíguos.

A história é contada por Tony Webster e começa quando ele era adolescente e estudava num colégio só para rapazes muito prestigiado em Londres, em meados dos anos 1960. Ele e seus dois amigos inseparáveis trocavam dúvidas e curiosidades normais da idade, quando um aluno novo entrou no grupo: Adrian. 

Quieto, mas inteligentíssimo e de personalidade fascinante, não parecia  e nem se comportava como um adolescente comum. Ele desafiava professores e parecia saber mais que todo mundo. A mãe dele havia saído de casa e o deixado com o pai, o que tornava a história dele completamente diferente e inusitada, pois, na época, era quase impensável esse tipo de situação.

E ficaram ainda mais chocados com a “maturidade” quando Adrian conseguiu fazer uma análise racional e ponderada sobre o suicídio de outro colega de turma, que tinha engravidado uma moça na flor de seus 16 anos e não deu conta. Todos tinham praticamente a mesma idade e, do grupo deles, nenhum ainda tinha namorado. A surpresa com o evento misturava-se à curiosidade sobre o colega (como ele conseguiu uma namorada e ainda por cima relacionar-se com ela a ponto de engravidá-la?).

Os rapazes foram vivendo a vida, cada um foi para uma universidade diferente, mas ainda se encontrando nos finais de semana. Até que Tony começa a namorar Verônica, uma moça cheia de mistérios e atitudes que ele não conseguia decifrar ou compreender.

Verônica convida Tony para passar um final de semana na casa dos pais em uma cidade próxima; tudo muito tenso e estranho, como é de se esperar. Na manhã seguinte à chegada, Verônica deixa-o sozinho para passear com o pai e o irmão, e a mãe alerta-o sobre o poder de manipulação da filha, enquanto tomam café a sós.

A vida continua (Tony parece um britânico desses bem típicos, previsível, cortês e monótono). Verônica e ele acabam terminando o relacionamento depois de muitas atribulações e mal entendidos.

Pois para a surpresa de Tony, ele recebe uma carta de Adrian, pouco tempo depois, solicitando polidamente uma “autorização” para namorar Verônica. Aqui Tony pensa em como responder a esse “pedido”, rumina sobre a redação curta em um cartão postal, mas sem conclusões.

Passa-se pouco tempo e outra surpresa chega: Adrian dá fim à própria vida. Adrian, aquele moço genial, brilhante, querido por todos, desistiu de continuar no mundo. E termina a primeira parte do livro. 

O que eu esperava da segunda parte? Sei lá, a mesma história contada por Adrian, Verônica, ou até algum dos amigos.

Mas não, é Tony, 40 anos depois: casado e divorciado, com uma filha adulta e uma vidinha que é a cara dele. Chatinha, previsível, porém, confortável.

Mas agora é que a história realmente começa: ele recebe a carta de uma advogada dizendo que a mãe de Verônica faleceu recentemente e deixou uma quantia em dinheiro para ele (não desprezível, mas nenhuma fortuna — algo suficiente para passar um final de semana num bom hotel) e mais: o diário de Adrian.

Epa! O que a mãe de Verônica estava fazendo com o diário do moço? E por que a quantia em dinheiro? E por que ele, a quem só viu uma vez na vida? Aí ele se dá conta de que perdeu completamente o contato com Verônica e com os amigos. Não faz a menor ideia do que aconteceu nas últimas décadas. Casaram-se? Tiveram filhos? Foram felizes? 

Bom, aí é que começa a parte mais interessante da história, onde, preciso dizer, nem tudo se esclarece, mas muita coisa começa a fazer sentido, mesmo que de um modo muito sutil.

Ele se encontra várias vezes com a ex-mulher para pedir conselhos, consegue reencontrar Verônica, depois de muita insistência (sim, ele sabe ser chato e tem toda a paciência necessária para conseguir o que quer sem perder a classe). A questão é que o tal diário agora está com ela e a moça insiste em não devolvê-lo.

Mas ela mostra uma carta que ele mesmo escreveu em resposta àquela enviada por Adrian quando eles começaram a namorar (ué, mas ele não tinha mandado um cartão postal?).

Enfim, muitos desdobramentos escritos com muita elegância e sensibilidade. Não tem muita aventura, mas tem muita consistência e sentimento.

Realmente gostei. E, como eu já disse, tem versão em português (é só clicar aqui para garantir o seu exemplar). Então não tem desculpa…

A menina com todos os dons

Descobri o quarto sebo em Berlim especializado em livros em inglês; para estreá-lo, levei “The Girls with all the Gifts” (tradução livre: “A menina com todos os dons”), de M. R. Carey.

Não vou enganar ninguém; comprei porque gostei do nome, da capa e confesso que fui influenciada pelas frases elogiosas impressas em todos os lugares. 

Aí comecei a ler e me dei conta; não acredito! Caí numa história de zumbis, que detesto! Porém, uma história tão boa e bem escrita que não consegui largar até a página 460, quando acaba.

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Indistraível

Achei esse livro por acaso num sebo aqui em Berlim especializado em livros em inglês. Mas se soubesse que ele existia, já tinha comprado faz tempo. Já tinha amado o best seller do mesmo autor, chamado “Hooked”, que é praticamente um manual sobre como criar produtos digitais viciantes (leia aqui a resenha).

Mas Indistractable (tradução livre: Indistraível), de Nir Eyal, é ainda melhor e mais indispensável. Resultado de um trabalho de cinco anos de pesquisa, ele nos ensina sobre uma coisa importantíssima nos tempos atuais: como a gente pode evitar se distrair das coisas que realmente importam.

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Arruinado pelo design

Esse livro me foi recomendado em tantos lugares diferentes que não podia deixá-lo de fora. Então chegou a vez de “Ruined by Design: how designers destroyed the world, and what we can do to fix it” (tradução livre: “Arruinado pelo design: como os designers destruíram o mundo, e o que podemos fazer para consertar isso“, de Mike Monteiro.

A capa já é dramática: uma bomba atômica explodindo sob um filtro vermelho e, na frente, uma chamada para que os trabalhadores da Amazon se reúnam em um sindicato para lutar por condições de trabalho decentes. Mais panfletário, impossível. Mais necessário, impossível também.

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