O civilizado

A coluna passada deu o que falar no meu blog e caixa postal. Parece que muita gente não pegou bem a mensagem; como a responsabilidade sempre é de quem comunica, provavelmente não devo ter sido muito clara. Parte do problema pode ter se dado pela escolha da palavra “espontâneo”, que talvez não seja a mais adequada para traduzir a idéia (mas não achei outra melhor; aceito sugestões).

Vamos lá: quando falo espontâneo, quero dizer, segundo o Aulete, “Que ocorre ou se manifesta voluntariamente, sem constrangimento ou suscitação externa; que se realiza sem premeditação, como que por instinto, como que por si mesmo“. A chave da coisa está na premeditação (refletir sobre e decidir com antecedência) e no instinto. Ou seja, o espontâneo é aquele que não pensa antes de falar.

Um termo que poderia caber seria selvagem, mas evitei usá-lo porque é pejorativo demais e ninguém iria se identificar; além do mais, faz associações inadequadas com pessoas que vivem no mato, às vezes muito mais civilizados que o pessoal da cidade.

De qualquer maneira, em tese, o selvagem é movido por instinto, o oposto do civilizado. No começo dos tempos, todo mundo era selvagem puro, isto é, cada um pensava apenas em si e no seu bem estar (pense na imagem do homem-das-cavernas arrastando sua fêmea pelo cabelo). O homem evoluiu um pouco e viu que não dava para viver sozinho; passou a valorizar e proteger sua família e compartilhar o espaço e os recursos com os outros. Depois viu que era vantajoso para todos conviver com mais pessoas, e o grupo foi aumentando. Quanto mais aumentava o povo que tinha que conviver, mais as pessoas tinham que pensar menos em si e mais no grupo, no bem-estar coletivo (e tiveram que inventar as boas maneiras, senão a coisa iria complicar muito).

A civilização começou assim, e estamos num nível evolutivo onde não apenas devemos ter consideração e respeito por toda a humanidade, mas também pelos outros seres que coabitam conosco o planeta, e até pelo planeta em si. Quanto mais elementos a gente leva em consideração, e, principalmente, quanto maior a densidade de pessoas, mais difícil (e de certa forma, anti-natural) é ser civilizado.

É claro que é mais gostoso e confortável ser espontâneo, seguir apenas os instintos. É assim que as crianças, antes de serem educadas, agem. Se puderem, comem apenas sorvete, fazem suas necessidades fisiológicas sem nenhum controle e não têm preocupação com ninguém; o mundo se resume ao seu umbiguinho fofo. Só que não dá para crescer fazendo só o que gosta e o que quer, satisfazendo apenas suas vontades e desejos. Quer dizer, até dá, mas dificulta muito a convivência com os outros.

Quer um exemplo? Um estuprador, é, em potencial, um espontâneo nato. Ele não se importa com a vontade dos outros, só a dele. Não pensa nas conseqüências, só quer satisfazer seu desejo imediato. Quer outro exemplo? Quando a civilidade não é mais obrigatória, quando as regras não valem mais, alguns voltam à selvageria num piscar de olhos (cenas do filme Ensaio sobre a Cegueira: egoístas versus civilizados – lembra?). Já pensou em um escritório cheio de espontâneos? Não sei porque me lembrei do sensacional seriado “Os aspones“. É isso.

O oposto do selvagem é o mordomo inglês; o único objetivo da sua existência é servir e, para isso, ele abre mão até da própria vida particular. Há personalidades históricas, como Gandhi e a Madre Tereza de Calcutá que também refletem isso: o supra-sumo da civilidade.

Alguém aí acha que essas pessoas aí em cima são falsas, fingidas, artificiais, só porque não são espontâneas? Claro que não. Ser civilizado não dói tanto assim. Basta que a pessoa leve mais em consideração os sentimentos e necessidades alheias cada vez que for fazer ou se manifestar sobre algo. Se a gente não deve palitar os dentes em público é justamente para não tornar a cena desagradável para os outros, concorda? E ninguém morre por seguir essa e outras regrinhas básicas. A expressão verbal é só uma extensão desse comportamento.

Não dá para ser espontâneo todo o tempo, mas há que se considerar que nem todo mundo nasce com pendor para santo ou mordomo. Então, a gente precisa achar um equilíbrio.

Mas cabe lembrar que a civilidade não tem nada a ver com fingimento — é preciso obedecer regras para se viver em grupo, mas se a pessoa fica feliz em servir o outro, não chega a violentar a sua essência. Ninguém deixa de ser autêntico ou sincero sendo civilizado.

Civilizado não quer dizer sério, nem mal-humorado; a civilização é capaz de contemplar todos os temperamentos e perfis. É só se adaptar melhor ao contexto, observar o ambiente, prestar atenção fora do umbigo. E, inclusive, achar oportunidades onde ser espontâneo é necessário e tem valor para os outros.

O selvagem anda nu, independente das circunstâncias. O civilizado anda vestido, e, mesmo assim, ainda é ele mesmo, ainda pode ser autêntico.

É só não carregar demais na maquiagem que fica tudo certo…

Ligia Fascioni | www.ligiafascioni.com.br

5 Responses

  1. Avatar
    Marcie
    Responder
    16 fevereiro 2010 at 7:44 am

    Falar de livros, comentar leituras: ainda bem que não precisamos agir/não agimos como a srta. Kenton na cena da fotografia.

  2. Avatar
    Maikon
    Responder
    16 fevereiro 2010 at 6:47 pm

    Este assunto seria centro de todas as atenções em uma mesa redonda com todos os nossos políticos discutindo estes temas entre eles.

  3. Avatar
    Dora
    Responder
    14 abril 2013 at 11:19 am

    Lembrei também daquele filme antigo, O Anjo Exterminador, onde a civilidade vai pras cucuias. Mas acho que algumas pessoas se incomodaram com a palavra que você usou Lígia, porque elas se consideram espontâneas. Tipo, EU me considero espontânea e (acredito eu) não sou uma chata. Eu entendi o seu ponto, mas ser espontânea pra mim é justamente o OPOSTO do que é ser espontâneo pra você.. Hehehe.

    Essa pessoa que vc diz ser espontânea é para mim alguém FORÇADO, alguém que FORÇA A AMIZADE o tempo todo. E também não tenho uma boa palavra para definir isso, embora isso também tenha a ver com o que você colocou! E concordo que colocar esse comportamento – de falar sem pensar – como espontâneo, também faz sentido.. Vc pensou no exemplo dos BBB, que consideram isso virtude, ser eles mesmos, etc.

    Me considero espontânea *justamente* pq só falo o que penso quando vejo que é o momento certo (se é que isso existe), ou quando me sinto preparada, ou ainda depois de ter pensado um tempão sobre algo resolver comunicar aos outros algum tipo de idéia. Isso pode ser frustrante tb, pois podem não aceitar a minha idéia. O complicado é que a espontaneidade em si dá sensação de RAPIDEZ, algo que é feito NA HORA… E pra mim espontaneidade independe de tempo.

    Acho que é isso. Adorei os textos! ;o)

    • ligiafascioni
      ligiafascioni
      Responder
      14 abril 2013 at 11:23 am

      Oi, Dora!
      De fato, essa palavra “espontâneo” é complicada mesmo, pois as pessoas interpretam de maneiras diversas. Por isso é que fiz questão de colocar a definição formal que aparece no dicionário. Se você pensa antes de falar, não é espontânea de jeito nenhum…rsrsrsrs
      O problema é que as pessoas acabam associando o espontâneo ao verdadeiro, honesto e genuíno, sendo que você pode ser perfeitamente verdadeira, honesta e genuína (que penso que são palavras melhores para descrever seu comportamento) sem ser espontânea. É só olhar no dicionário e ver que é perfeitamente possível.
      Beijocas 🙂

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