3 jul 12
Mais uma diferença cultural para a coleção. Hoje eu estava na aula de alemão e, por algum motivo, acabamos falando sobre doutorado. Eu falei que era doutora e o professor quase não acreditou. Primeiro ele achou que eu ainda não tivesse defendido a tese (uia, lá se vão quase 10 anos), depois me perguntou, estranhando muito: mas por que você não usa o título?
Conversamos um pouco mais, me lembrei de algumas passagens e finalmente entendi por que ele estava tão surpreso. É que aqui na Alemanha, qualquer questionário que você for preencher (para qualquer coisa, até para comprar passe de ônibus), tem um espaço para você colocar o título de doutor, se tiver um. Os apartamentos não têm número; apenas o prédio. Aí, no interfone e na porta, tem um papelzinho com o sobrenome de cada morador. No meu prédio tem dois doutores (além dos dois secretos, o Conrado e eu, que ninguém sabe…eheheh). Se você é doutor aqui nesse país, o título gruda no seu sobrenome e vai sempre junto. Isso, ao contrário do que eu pensava, não é considerado pedante; é apenas o reconhecimento de um fato.
O povo respeita bastante porque, se por acaso você usar o título sem ter defendido uma tese, pode ser processado por crime de falsidade ideológica. Não interessa se você é médico, cirurgião, advogado, juiz, senador ou presidente. Para poder colocar aquelas letrinhas junto do seu nome, tem que ter defendido publicamente uma tese e sido aprovado por uma banca. Sem exceções. Ponto.
Não que isso faça de alguém melhor ou pior cidadão (na prática não muda rigorosamente nada), mas reflete claramente o respeito que o povo e o governo têm pela educação. Eles valorizam o estudo de verdade, até mesmo nos gestos mais cotidianos.
A parte difícil foi explicar para o professor que eu nunca liguei para isso porque no Brasil qualquer pessoa pode usar o título sem sofrer nenhum tipo de represália. É só escrever no cartão, colocar a placa na porta ou orientar a sua secretária para lhe chamar de doutor que está valendo. Não importa se você é um médico recém-formado que nunca vai fazer uma pós-graduação, se é um advogado de porta de cadeia, se é um dentista em início de carreira, se é um político com o primeiro grau incompleto ou apenas um rico que nunca pisou numa universidade. No Brasil, qualquer um é doutor, basta querer ser chamado como tal.
O professor ficou chocado: mas como assim? Eles só colocam o título e pronto, sem apresentar nada? As pessoas sabem que é mentira e mesmo assim ninguém é processado?
Sim, senhor, é assim mesmo. Isso reflete bem a cultura de um país onde a educação não tem valor nenhum e a maioria esmagadora das pessoas sequer sabe o que vem a ser uma tese.
O Conrado e eu estamos pensando em rever o uso do título aqui na Alemanha porque somos imigrantes e pode contar pontos. Mas no Brasil, nem pensar. Nenhum dos doutores de verdade que conheço usa o título no dia-a-dia. Na verdade, faço a mais absoluta questão de que não me chamem de doutora e fico bem constrangida quando isso acontece.
Desculpem aí os colegas, mas penso que ser chamado de doutor no Brasil é pejorativo.
Infelizmente.
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