Ansiedade doxástica

Tem um perfil no Instagram que eu adoro, apesar de segui-lo com um certo desconforto. 

É de um professor de história da arte chamado Tio Virso. O moço tem um conhecimento admirável, mas não é só isso: ele trata a arte no seu sentido mais amplo. Eu resumiria (não sei se corretamente) a visão dele como sendo arte toda manifestação de uma ideia, sentimento ou emoção humana. O resultado é que ele não apenas fala da história da arte branca europeia tradicional, como todo mundo conhece, mas também de outros continentes e perspectivas culturais. 

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O verdadeiro motivo

Achei o livro “Payoff: The Hidden Logic That Shapes Our Motivations” (tradução livre: “Recompensa: a lógica escondida que molda nossas motivações”) de Dan Ariely nos usados da Amazon e confesso que meu interesse inicial foi por causa da informação de que o volume era ilustrado (pensando aqui em fazer algo assim no meu próximo livro). 

Sou fã do Dan Ariely há muito tempo e até já conhecia parte do conteúdo por conta de outros livros que li dele como Positivamente Irracional. Mas Payoff é de uma coleção inspirada em palestras do TED que aprofunda um pouco mais o falado na apresentação. E o tema da vez é motivação, principalmente no trabalho (prestem atenção, gestores!).

Dan começa falando sobre a definição de motivação:

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Tudo é rio

Gosto de contar como os livros vieram parar nas minhas mãos porque, para mim, livro é um objeto sagrado. Um portal para outras dimensões que me fazem viajar no tempo e no espaço. 

Depois que comecei a seguir o Clube do Livro de Muenster no Instagram (a Valéria Jansen tem um grupo no WhatsApp) comecei a me inteirar mais do que está rolando na literatura brasileira. Pois no clube só se fala na Carla Madeira, e “Tudo é rio” foi eleito um dos melhores do ano pelas leitoras. Curiosa, comprei, claro. O outro romance dela, “A natureza da mordida”, está na pilha da minha cabeceira.

Mas aí me lembrei que em meados de 2017, uma amiga minha, a Lia Krücken, tinha um apartamento que alugava pelo AirBnb aqui em Berlim. Um dia ela estava viajando e me pediu para receber uma hóspede que estava chegando. Juntando os pontinhos, descobri que era ninguém menos que a Carla Madeira em pessoa. Obviamente ela não se lembra de mim, mas eu a guardei na lembrança porque no rápido small talk que tivemos, ela me contou que era de Belo Horizonte (minha cidade do coração) e sócia da agência Lápis Raro, onde minha amiga Cris Guerra já trabalhou. Bom, o mundo dá voltas e eu aqui agora babando pela obra da moça. “Tudo é rio” foi lançado em 2014 e eu, na minha ignorância do que rolava na cena editorial brasileira, perdi de ganhar um autógrafo. Fica pra próxima, né?

Mas vamos à história: começa contando a trajetória de Lucy, uma filha única muito amada (e mimada) que perdeu os pais ainda criança, indo viver com uma tia e as primas. Acostumada a ser o centro das atenções, teve dificuldades em se adaptar. A tia também não conseguiu amar aquela criança difícil como gostaria, e a predileção pelas primas nunca foi disfarçada. 

Na adolescência, Lucy descobriu que tinha um imenso poder sobre os homens; autocentrada no último grau, divertia-se com a ideia de poder ser o centro de tudo novamente e acabou se tornando prostituta. Um pouco da história dela me lembra Hilda Furacão e Dona Beja, não por acaso, também mineiras.

Logo em seguida, a gente fica conhecendo Dalva e sua tão numerosa quanto amorosa família e seu namoro com Venâncio. A mãe de Dalva, Aurora, é a personagem mais sábia e admirável da história, que não economiza em mulheres marcantes, generosas e inteligentes.

Dalva e Venâncio, cada um com seu passado, vivem um amor pleno e lindo. Mas Venâncio tem um ciúmes doentio da moça, o que estraga completamente a relação deles. 

Eis que Lucy entra na história, não da maneira esperada, mas ela, com seu jeito vulgar, sua arrogância e egoísmo, acaba ajudando os dois sem querer. 

Olha, fazia tempo que eu não lia um romance que justificasse o nome; uma história de amor daquelas antigas, sabe? E muito, mas muito bem contada. 

Também virei fã da Carla. Recomendo muito, mas muito mesmo.

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Montar e partir

Se tem uma coisa que eu morro de medo é ganhar livro de presente para resenhar, principalmente se conheço pessoalmente o autor. É que quem me acompanha aqui sabe que não sou exatamente gentil nas minhas resenhas; eu realmente entrego tudo o que não gosto na obra e faço crítica bem duras.

Mas quando o Ricardo Lugris me deu o “Montar e Partir” para resenhar, fiquei tranquila. Em parte porque já tinha lido o outro livro dele (do qual tive a oportunidade de desenhar o mapa do encarte) e em parte porque alguns dos textos publicados aqui eu já conhecia dos relatos de viagens que acompanho há anos.

Contextualizando: aprendi a pilotar motos aos 39 anos de idade (viu, você ainda pode!) para poder viajar mais tranquilamente com meu marido em nossas incursões pela América do Sul. 

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O congresso futurológico

Uma das coisas que me deixa mais encantada é sobre quão infinito é o mundo dos livros que a gente ainda não conhece; mesmo que o livro em questão seja muito antigo. É o caso do “The futurological congress”, de Stanislaw Lem, um polonês que foi um dos mais influentes escritores de ficção científica desde H.G. Wells. 

Lem é autor do clássico Solaris (que também não li). O Conrado me contou a história; ela é, de fato, genial, mas sua complexidade explica o fracasso na tentativa de fazer um filme razoável (também não vi o filme, mas todo mundo fala mal…rs).

O que posso dizer? Nossa, que sátira mais incrível! Como eu não tinha lido isso antes?

A história começa com um astronauta (Ijon Tichy) voltando à Terra para participar de um Congresso de Futurologia (seria o que hoje chamaríamos Futurismo) na Costa Rica, na cidade de Nounas (desconfio que seja uma cidade fictícia, pois não achei no mapa). O local foi escolhido por ser um dos mais representativos do problema que será tratado no evento: a superpopulação no planeta Terra.

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Como falar com robôs

Impossível ver esse livro numa livraria e não levá-lo; “How to Talk to Robots: A Girls’ Guide to a Future Dominated by AI” (tradução livre: “Como falar com robôs: um guia para garotas para um futuro dominado pela Inteligência Artificial”), de Tabitha Goldstaub.

A autora jogou videogames compulsivamente com seu irmão durante toda a infância. Sua mãe era editora de uma revista de moda e seu pai, representante de tecidos. Apesar de fascinada por computadores, acabou virando publicitária. Na universidade sempre procurou disciplinas relacionadas à computação, mas por causa de sua dislexia, acabou desistindo da programação.

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Torto arado

Já tinha ouvido falar em Torto Arado, de Itamar Vieira Junior, em vários lugares. A obra ganhou prêmios e o autor, geógrafo do INCRA e doutor pela UFBA em estudos étnicos e africanos, tornou-se uma celebridade no mundo literário. É que ele conseguiu o feito de ter vendido mais de 100 mil exemplares em um livro de ficção; coisa raríssima em terras brasileiras.

Estava namorando de longe, mas na minha rápida visita ao Brasil, em outubro, só passei por livrarias de aeroportos. Lá só tinha auto-ajuda ensinando como ficar rico rápido e alguns livros técnicos traduzidos. Literatura brasileira, não achei (nem mesmo o último do Chico Buarque). 

Enfim. Foi quando participei do Brempex (Encontro das Brasileiras Empreendedoras no Exterior) em Hamburgo, no mês de novembro, e lá encontrei a Valeria Jansen, do Clube do Livro de Münster. A moça traz livros brasileiros para cá e, na mesa de exposição, encontrei essa joia. 

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A Bauhaus vista de dentro

Nossa, só posso dizer que queria muito ter lido esse livro há alguns meses, quando ainda estava preparando um curso de história do design para a PUC/RS. Mas “The hiding game” (Tradução livre “O jogo de esconde-esconde“), de Naomi Wood, publicado em 2019, só caiu nas minhas mãos agora, e por por coincidência, pois achei-o por acaso num sebo.

O motivo do meu encanto é que o livro é sobre seis estudantes que se conhecem na Bauhaus, ainda em Weimar, em 1922. E a história deles vai se desdobrando junto com a da escola; eles se mudam junto com a instituição para Dessau e depois para Berlim, onde tudo termina. 

Paul, Charlotte, Walter, Jenö, Kaspar e Irmi passeiam pela cidade de Weimar, experimentam as inovações ensinadas na Bauhaus (aulas inteiras do professor Johannes Itten são descritas em detalhes; parece que a gente está lá), percebem a estranheza da população da cidade, extremamente conservadora, enfim, é tudo descrito de uma maneira muito imersiva.

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