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Uma história de Branca de Neve bem diferente

Desde pequeno, a mãe de Alexandre sempre o chamou pelo apelido: Branco. Não demorou para os amiguinhos logo adaptarem para Branca de Neve; e aí ele nunca mais conseguiu se livrar do codinome.

Com 12 anos, o menino arteiro foi matriculado num curso de barbeiro para ver se aprontava menos. Alexandre estudou o ofício por insistência da mãe, mas não deu muita importância ao assunto. Na adolescência, acabou se envolvendo com as companhias erradas e tornou-se uma grande dor de cabeça; até preso foi. Mas o nascimento do primeiro filho fez o moço pensar que era hora de mudar. Abriu sua primeira barbearia com a ajuda da esposa e da mãe (sim, sempre ela).

Hoje, é um sucesso na Batalha dos Barbeiros, representando o Brasil em torneios internacionais. Mas a grande sacada veio com a consciência de que é preciso recuperar gente que não teve o mesmo suporte que ele. Além de inspirar os jovens da comunidade com seu exemplo, ele usa moradores de rua, presidiários e pessoas em situação difícil como modelos para seus cursos. Uma ideia tão simples quanto genial, que ajuda todo mundo e recupera a autoestima de todos os envolvidos.

Além de uma pessoa generosa e competente, Alexandre é um verdadeiro artista, pois sua especialidade são cortes exóticos que fazem muito sucesso nas comunidades. Pode-se discutir gosto, mais jamais a incrível habilidade que esse moço tem com as tesouras.

Tive o privilégio de conhecer hoje a Barbearia Branca de Neve pelas mãos do querido Tio Flávio, que nunca se cansa de me apresentar gente interessante. Fico devendo mais essa.

Espero muito que essa história inspire outras pessoas; além de ser um exemplo de superação ao vencer as drogas, Alexandre está sempre envolvido em trabalhos sociais na comunidade (além do salão no centro de Belo Horizonte, ele tem outro no Morro do Papagaio, uma das maiores favelas da cidade). Dá uma olhada no que o moço consegue fazer; é impressionante!

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Esse aqui é o Alexandre, vulgo Branca de Neve, em plena ação.

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top 10 de junho: Berlim, Viena, Ljubljana e Belo Horizonte

Esse mês está bem variado de fotografias: tem fotos de várias cidades lindas e muito diferentes entre si. Apesar de algumas terem sido muitas curtidas, tentei evitar replicar as fotos de Viena e Ljubljana que já aparecem nas matérias sobre as respectivas cidades (5 coisas que aprendi em VienaEssa pequena jóia chamada Ljubljana); mesmo assim, foi bem difícil.

Mas vamos às top 10 do mês de junho; qual é a sua preferida?

PS: A pegadinha é que a seleção desse mês tem 11 fotos. Desculpem, mas não cheguei a uma conclusão sobre qual delas cortar…rsrs

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1. Esse belo jardim de rosas em Viena fica no Volksgarten; é uma pena mesmo que as fotos ainda não transmitam aromas. Sentar numa cadeirinhas dessas e ficar apreciando a beleza da vida, só pode fazer bem. #paracegover A imagem mostra uma fileira de cadeiras azuis de metal disponíveis para os visitantes. Atrás delas, um lindo e cheiroso jardim de rosas em plena florada.

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2. Esses belos jardins do museu Belverdere em Viena é também muito inspirador. #paracegover A imagem mostra os jardins do museu Belvedere vistos do palácio. As passagens são largas (as pessoas aparecem como formigas), há fontes com estátuas e a área verde segue padrões geométricos simétricos. O céu está azul com algumas nuvens.

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3. Esse é outra vista do Jardim das rosas no Volksgarten, em Viena; o universo simplesmente conspirou para que essa cena de filme acontecesse diante dos meus olhos. É minha foto preferida. #paracegover A imagem mostra um jardim de rosas bem cuidado, na sombra, em primeiro plano. Ao fundo o Burg Theater, branco e iluminado pelo sol. Do lado esquerdo, um rapaz anda de skate. Também é possível ver uma revoada de pássaros no canto superior direito.

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4. Em Ljubljana pegamos alguns dias de chuva. Mas isso só fez essa jóia ficar ainda mais brilhante. #paracegover A imagem mostra uma mulher levando uma bicicleta e uma sombrinha amarela. Ela está passando por baixo de um viaduto para chegar ao parque Tivoli.

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5. Essa cena de Ljubljana me fez lembrar o filme ET. Você também reconhece? #paracegover A imagem mostra uma rua estreita, fechada para carros. Chove torrencialmente. Uma pessoa passa de bicicleta coberta com uma capa de chuva amarela. Atrás dela, uma vitrine acessa, com iluminação também amarela.

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6. Um flagrante de Chapeuzinho Vermelho fugindo do Lobo Mau em plena Ljubljana. Eu fiz a vovozinha e fiquei na minha, só admirando essa calçada maravilhosa. #paracegover A imagem mostra uma calçada com motivos geométricos. Uma mulher com uma capa vermelha aparece de costas pedalando uma bicicleta.

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7. Outra foto que deveria transmitir cheiro (como não amar a primavera?), mas dessa vez em Berlim. #paracegover A imagem mostra uma calçada larga, onde um homem caminha com um cachorro. Em primeiro plano, lírios que perfumam a rua e embriagam os passantes. Há várias bicicletas estacionadas no canto direito ao lado de cavaletes de madeira dobrados (é uma loja de materiais para pintura artística).

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8. Mais uma de Berlim, bem pertinho da minha casa. #paracegover A imagem mostra um prédio antigo à beira de um canal do Rio Spree cuja fachada é refletida na água como um perfeito espelho. Do lado, direito, estacionado, um barco todo enfeitado com flores e luzes coloridas. Ao fundo, uma ponte.

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9. Essa também é uma das minhas preferidas. Fiquei bem triste quando vi essa cena de cortar o coração. O que vale é que logo em seguida o palhaço se levantou e passou por mim com um largo sorriso. #paracegover A imagem mostra uma calçada bem larga. O lado direito está fortemente iluminado pelo sol; no lado esquerdo, faz sombra, e nos degraus de uma porta vê-se o perfil de uma pessoa vestida de palhaço. A fantasia é super colorida, mas a pessoa está curvada, como se estivesse muito, mas muito triste. Ainda bem que depois constatei que foi só um momento de descanso…

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10. Os últimos dias do mês tive o privilégio de passar numa cidadezinha chamada Cordisburgo, onde nasceu o grande Guimarães Rosa, no interior de Minas Gerais. A cena é de um hotel fazenda que mais parece uma cidade cenográfica, o Arraial dos Contos. #paracegover A imagem mostra um casario com portas e janelas coloridas, parte do bairro que compõe os quartos do hotel. Em primeiro plano, um ramo de azaleias.

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11. A visita à Cordisburgo se deu por conta de uma convenção com gerentes e diretores de uma empresa. Tive o privilégio de dar uma palestra e facilitar uma dinâmica nesse hotel maravilhoso, cheio de gente querida. Até festa junina teve. #paracegover A imagem mostra uma capela branca com duas janelinhas vermelhas contornadas de azul-escuro sobre a porta, também azul e vermelha. Toda a fachada é contornada de azul e tem presa no cume varais de bandeirinhas de chita colorida.

2 coisas sobre inovação que Nikola Tesla nos ensina

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Semana passada tive a sorte de poder visitar a exposição “Nikola Tesla, man of the future” em Ljubljana, em homenagem ao 160º aniversário de seu nascimento em Smiljan, Croácia.

Tesla foi um dos maiores gênios que a humanidade já produziu. Ele nasceu em uma família de intelectuais; o pai era pastor, cultíssimo, e sabia bem a importância de uma formação. O moço teve acesso às melhores escolas da época e cedo já foi identificado como uma criança superinteligente, que não se conformava com um “isso não é possível”. Para se ter uma ideia de quão prolífica era sua mente, Tesla morreu com cerca de 300 registros de patente em seu nome. Sim, você leu certo: três centenas de inventos originais. É culpa dele a existência do motor e o gerador de corrente alternada, o rádio, a comunicação wireless, a lâmpada fluorescente e o controle remoto por rádio, entre outras coisas revolucionárias. Todo estudante de engenharia elétrica conhece o nome porque Tesla virou unidade de medida de indução magnética (ele revolucionou esse campo também, com suas teorias sobre campos magnéticos). Sem falar das importantes contribuições à robótica e à computação. O sujeito definitivamente não era fraco não.

E o mais bacana é que ele não restringia suas áreas de interesse à física, eletricidade e mecânica: gostava poesia a tal ponto que, após horas de pesquisa exaustiva sobre motores de corrente alternada, resolveu caminhar com seu amigo em um parque de Budapeste enquanto recitava Fausto, de Goethe. Fausto, minha gente! De Goethe! Ele sabia os versos de cor. E mais: com isso descobriu a solução e desenhou-a na areia, com a ajuda de um galho de árvore. Interessado também por filosofia e linguística, falava 8 idiomas (sérvio, italiano, tcheco, francês, inglês,  latim, húngaro e alemão!), gostava de música erudita e era um gourmet.

Pois bem, o moço recebeu toda a formação que precisava na Europa, mas não conseguia desenvolver suas ideias. Aí conseguiu uma carta de recomendação para trabalhar com ninguém menos que Thomas Edison e emigrou para os Estados Unidos.

Não sei se todo mundo sabe, mas naquela época os engenheiros eletricistas eram divididos em dois times, rivais de morte: os que acreditavam que a melhor solução era corrente contínua (o princípio da pilha, com os polos positivo e negativo bem definidos) e os da corrente alternada (os polos não eram fixos e se alternavam várias vezes por segundo). Era o time CC (corrente contínua) contra o CA (corrente alternada).

Bem, se a gente considerar que Edison também era um gênio do mesmo calibre, não deve ter sido fácil a convivência entre os dois. Principalmente porque Edison era do time CC e Tesla era do CA. Depois de alguns anos trabalhando juntos, não teve mais jeito, a não ser a separação definitiva.

A sorte apareceu quando ele conseguiu vender a patente do sistema de corrente alternada ao empreendedor e também inventor George Westinghouse, que usou o princípio em uma demonstração espetacular na Feira Mundial de Chicago. Graças a isso, conseguiu o contrato para a instalação de uma usina nas Cataratas no Niágara e, mais tarde, para o todo o sistema de transmissão e distribuição de energia elétrica dos Estados Unidos.

O que ficou para mim dessa história toda como resumo do que Tesla nos ensina?

1. Não basta ter conhecimento, criatividade, capacidade técnica e ousadia. É preciso um ambiente que favoreça a inovação. A Europa, naquela época, com todo seu conhecimento e erudição não ajudou, e os Estados Unidos, com sua cultura empreendedora  de riscos, ganhou uma das cabeças mais brilhantes da história. Aliás, uma não, a maioria dos gênios europeus encontrou lá campo fértil para o desenvolvimento de suas ideias, que inclui redes de relacionamentos, acesso ao dinheiro, ferramentas e materiais.

2. Não basta ter conhecimento técnico. A maioria esmagadora dos grandes visionários tem cultura geral ampla e rica, não apenas entendem de um assunto específico. Na cabeça deles convivem em paz matemática, física, eletromagnetismo, poesia, gramática, música, culinária e arte, entre outras coisas. Para ter ideias, é preciso repertório, isso é, colecionar o máximo possível de experiências nas mais diversas áreas do conhecimento. Os gênios sempre souberam disso.

Para quem quiser saber mais a respeito do ambiente de inovação e do perfil do profissional inovador, aqui tem mais artigos: De onde vêm as boas ideiasInovação: quando voar não bastaQuando a inovação chegou na cozinhaCriatividade sem inovação.

Essa pequena jóia chamada Ljubljana

Confesso que mal tinha ouvido falar da capital da Eslovênia (e da própria Eslovênia) antes de viajar para participar da PAC World, uma conferência técnica na área de proteção e automação elétrica (fomos por causa de nossa empresa, a mergedK).

A cidade é uma verdadeira preciosidade; pequena, charmosa e cheia de amor aos detalhes. A melhor infraestrutura turística que já vi na vida! Tem até carrinho elétrico (esses de campos de golfe) para levar turistas com dificuldade de locomoção para passear no centro histórico. Banheiros limpíssimos e gratuitos, todas as pessoas do setor de serviços falando inglês fluentemente, informação farta, fácil e disponível, muita simpatia, capricho, história, cultura, verde e arte. Você pode alugar bicicletas, passear de barco, praticar Stand-up Paddle ou canoagem. Até um café de gatos achei; mesmo ficar à toa sem fazer nada é lindo naquele cenário. É o mais perto da perfeição turística que já experimentei. Sério. Devia servir de benchmark para todas as outras.

Bom, minha admiração já começou com a própria Eslovênia, que fez  fez parte dos Impérios Romano e Bizantino e, veja só, também do Império Austro-Húngaro (não é à toa que sua arquitetura barroca e com influências do movimento Jungendstil estão presentes em todo lugar). Depois fez parte da antiga Ioguslávia; foi dos poucos países a conseguir sua independência, em 1991, sem guerra (a Sérvia, Croácia, Bósnia Herzegovina, Montenegro e Macedônia não tiveram a mesma sorte), talvez porque falem uma língua completamente diferente das outras. Aliás, essa é outra qualidade surpreendente: com pouco mais de dois milhões de falantes, eles conseguem produzir literatura, cinema, balé, teatro e obras de arte em quantidade e de qualidade impensáveis para essa escala. E o povo tem o maior orgulho (com razão) de conseguir conservar o exótico idioma. A própria Ljubljana (lê-se Liubliáná; o “j” tem som de “i”, como no alemão), com apenas 280 mil habitantes, consegue oferecer cerca de 10 mil exposições culturais por ano! Pense!

Bem no meio da cidade tem uma enorme rocha, onde fica um castelo (no sentido de fortaleza, não de palácio), datado do século XII. Em volta, passa o rio Ljubljanika, com suas dúzias de pontes de variados estilos. No centro histórico, em frente à Igreja Franciscana, existem três pontes lado a lado, uma bem pertinho da outra, chamadas Tromostovje. A explicação é que no início só existia uma ponte, mas a cidade precisava de um caminho para passar o trilho dos bondes. A ideia era demolir aquela e construir uma mais larga, mas o sensato e talentoso arquiteto Jože Plečnik (responsável pela maior parte das obras de urbanização depois da segunda guerra) achou que era uma pena desmanchar uma obra tão boa, antiga e em perfeito estado de funcionamento. Foi então que construíram as outras duas para pedestres. Hoje não passa mais o bonde por lá (aliás, o centro histórico foi recentemente todo fechado para carros, uma verdadeira maravilha!), mas as opções de passagem continuam.

Com a entrada na União Europeia, em 2004, deve ter havido um grande aporte de dinheiro que eles souberam usar muito bem na restauração do castelo e de suas preciosidades arquitetônicas. Além das inúmeras atrações culturais, dos cafés, restaurantes, sorveterias, livrarias e lojinhas de design nas duas margens do rio, tem um parque lindo chamado Tívoli, onde fica a escola de Design Gráfico (fui a uma exposição de gravuras; o prédio é maravilhoso).

Olha, eu passaria um mês lá fácil. Recomendo.

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#paracegover A imagem mostra uma ponte vista de frente. Nas suas laterais, filas de colunas neoclássicas. Ao fundo, casarões coloridos e o castelo no alto do morro. Várias pessoas passam pela ponte no momento.

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#paracegover A imagem mostra um belo exemplo dessa arquitetura belíssima: um prédio amarelo com uma faixa xadrez azul turquesa e branco. A porta é um arco decorado com círculos e arabescos. Duas mulheres caminham na rua.

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#paracegover A imagem mostra mais uma das pontes de Ljubljana; essa com os parapeitos de vidro transparente. Há casarões ao fundo e algumas pessoas passam pela ponte, enquando outras remam em pé em pranchas. Ao fundo, do lado direito, é possível ver o castelo no alto do morro. O céu está azul decorado com algumas nuvens.

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#paracegover Mais uma vista do rio com os casarões antigos em vista panorâmica.

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#paracegover Em primeiro plano, flores plantadas a margem do rio. Ao fundo, vê-se a outra margem com uma escadaria, prédios antigos, uma praça e uma escultura esférica de madeira ao lado de um chafariz.

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#paracegover Vista dos telhados da cidade da trilha que sobe para o castelo.

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#paracegover A imagem mostra, do lado direito, uma parede na sombra; ela é listrada de preto e branco e tem um coração vermelho-vivo com o nome do atelier-loja escrito em branco. Do lado esquerdo, um senhor de roupas claras e chapéu caminha tranquilo.

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#paracegover Essa escultura representa a diversidade das faces humanas. É fácil passar despercebida, ela fica num beco do centro histórico.

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#paracegover Esse prédio, maravilhoso, pertence a um banco. É vermelho vivo e todas as janelas, saliências e contornos são adornados por uma estampa geométrica nas cores azul, vermelho e amarelo. É sensacional!

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#paracegover A imagem mostra uma moça de costas, sentada num banco de jardim, embaixo de uma árvore no parque Tívoli. Ela segura uma sombrinha turquesa. Do lado direito, o prédio da faculdade de Design Gráfico.

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#paracegover Dois exemplos da belíssima arquitetura da cidade. Do lado esquerdo, um prédio de esquina com uma torre arredondada; a parte de baixo é vermelha, e a de cima, amarela. Do lado direito um perfeito exemplar da arquitetura Jugendstil: um prédio também de esquina, mas completamente diferente. A parte superior é toda adornada com estampas em tons de turquesa e vermelho ferrugem.

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#paracegover A imagem mostra uma praça com um sol estilizado desenhado em branco no piso; várias pessoas caminham pelo local e um ciclista passa pelo centro do círculo. Ao fundo, árvores e prédios antigos. O dia está nublado.

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#paracegover A imagem, do centro histórico, mostra a igreja franciscana ao fundo, pintada de vermelho, com um prédio bege na lateral. No primeiro plano vê-se os paralelepípedos de uma das três pontes que atravessam o rio nesse ponto. Do lado direito, um buquê de balões coloridos à venda. Um ciclista passa pela ponte, quase no centro da foto.

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#paracegover A imagem mostra o calçadão do centro histórico com seus guarda-sóis, mesinhas, cadeiras e flores, parte integrante dos inúmeros cafés e restaurantes. Em primeiro plano, um cartaz anuncia o cardápio do dia. Ao fundo, pode-se ver outro desses.

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#paracegover A imagem mostra uma rua estreita, metade na sombra e metade no sol. Do lado esquerdo (sombra), vê-se uma lojinha decorada com esmero, flores e esquadrias pintadas de azul. No sol, pessoas passeiam de bicicleta.

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#paracegover A imagem mostra duas fotos de ruas diferentes. Ambas estreitíssimas; uma reta e outra em curva.

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Dia do beijo

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Sexta-feira passada foi um daqueles dias históricos que a gente nem imagina que vai viver. Eu era adolescente quando vi uma reprodução de “O beijo”, de Gustav Klimt, num livro de história da arte da biblioteca pública. Fiquei fascinada e passei a estudar e ler tudo o que encontrava sobre o artista.

Em 1997, quase 20 anos atrás, na primeira viagem que fiz à Europa, para visitar a feira de tecnologia de Hannover, achei um livro lindíssimo da Taschen com os principais trabalhos dele. Naquele tempo os livros de arte não eram tão comuns no Brasil, nem tão acessíveis. Comprei aquela maravilhosidade e nem liguei para o fato do texto estar em alemão. Jamais imaginei que um dia poderia lê-lo. Outra daquelas surpresas sensacionais que a vida nos dá de presente; agora posso decifrá-lo sem dificuldade.

Pois agora pude contemplar a tela original de “O beijo”. Levei um tempo para apreciar os detalhes, pois meus olhos estavam embaçados pelas lágrimas que teimavam em transbordar. Ainda bem que o Conrado estava ao meu lado para me abraçar e compartilhar um momento tão importante; afinal, foi ele quem me trouxe até aqui.
É tanta gratidão que não tenho nem palavras para expressar. É como se toda a beleza do mundo estivesse concentrada naquela sala, naquela hora.
***
O choro só acabou quando caímos na gargalhada ao ver que o museu teve que reservar uma sala ao lado com uma reprodução para as pessoas poderem tirar selfies. Se não tivesse visto, não acrediatria. O Belvedere ainda teve a presença de espírito de aproveitar esse surto coletivo de narcisismo para criar uma hashtag no Instagram. Assim as pessoas podem divulgar suas selfies e o museu ao mesmo tempo. Se não pode com o inimigo, una-se a eles!

5 coisas que aprendi em Viena

Não, eu não estava preparada para Viena. Estudei, li, pesquisei, mas quando olhei para aquilo tudo, meu queixo caiu. Não sei se porque os pouquíssimos dias que passei lá estavam lindos, era primavera e tudo cheirava a rosas, porque fui com meu amor, ou por tudo isso junto. Não importa.

Meus sentidos ficaram entorpecidos por causa de tanto estímulo, essa é que é a verdade. Mas não à toa; muita história, cultura e arte num lugar lindo só.

Em 1910, Viena era a quinta maior cidade do mundo, perdendo apenas para Londres, Paris, New York e Chicago, mas perdeu 25% de sua população depois da I Guerra Mundial (que, por sinal, começou lá, com o assassinato do arquiduque Francisco Fernando, herdeiro do poderoso Império Austro-Húngaro). A dinastia Habsburg acabou, mas deixou um legado de palácios, castelos e jardins de cair o queixo.

Saí de lá feliz e inspirada pelos clássicos, modernos e contemporâneos austríacos. Resumindo bem, aprendi 5 coisas novas a respeito dessa cidade única.

  1. ARQUITETURA

Talvez porque tenha sido poupada de bombardeios nas guerras, há muitas, muitas mesmo, construções originais ainda em estilo barroco, da época áurea dos Habsburg. Sem contar as obras incríveis deixadas pelo movimento Secessão e do louquíssimo arquiteto Friedensreich Hundertwasser (vamos falar sobre ele depois). São castelos, museus, óperas, teatros, parques e edifícios “comuns” de cair o queixo. Só flanar pelas ruas por onde Freud caminhava já é um convite ao torcicolo.

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#mariatheresienplatz #paracegover A imagem, em formato panorama, mostra uma fonte com figuras de bronze ao centro. Do lado esquerdo, o prédio do museu de história natural, na sombra, meio azulado. Do lado direito, o museu de história da arte, iluminado pela luz do sol do final da tarde, num tom alaranjado. Duas mulheres e uma criança caminham do lado direito.

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#KarolinenGasse #paracegover A imagem mostra um prédio que mistura os estilo neoclássico e barroco (pelo menos acho que é isso, mas não sou especialista). As paredes são ornamentadas com pinturas e esculturas.

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#secession #Friedrichstraße #paracegover A imagem mostra o edifício sede do movimento Secessão, construído pelo arquiteto Joseph Maria Olbrich. O prédio é branco e todo ornamentado com motivos no estilo art-nouveau.

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#Majolikahaus #LinkeWienzeile #paracegover A imagem mostra como fazer alguém que gosta de arquitetura ter um ataque do coração: um prédio todo decorado com elementos art-nouveau, típico do movimento Secessão, nascido em Viena no final do século XIX. Essa edificação, construída pelo arquiteto Otto Wagner, é conhecida por Majolikahaus, ou casa de Majolika. O nome remete à Ilha de Mallorca, na Espanha, mas em italiano a palavra significa também faiança, a técnica de pintura em cerâmica esmaltada (a fachada é toda em cerâmica, por isso nunca perde a cor; basta lavá-la periodicamente) .

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#Secession #paracegover A imagem em preto e branco mostra um detalhe do piso do prédio do Movimento Secessão. Os arabescos, curvilíneos e simétricos, são no estilo art-nouveau. Do lado esquerdo aparecem meus sapatos.

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#Schikanedergasse #paracegover A imagem mostra um prédio barroco visto de baixo com o céu azul ao fundo. A fachada é amarela e os contornos das janelas altas, de um amarelo mais forte e dourado. O prédio abriga o Carlton Opera, o hotel em que nos hospedamos (***) e recomendamos.

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#Majolikahaus #LinkeWienzeile #paracegover A imagem mostra uma visão panorâmica dos prédios do arquiteto secessionista Otto Wagner: a Majovikahaus (esquerda, com a fachada florida). O prédio da direita não tem um nome específico, mas é do mesmo arquiteto e igualmente sensacional. É todo em branco com detalhes florais dourados.

2. ARTE

Bem, um lugar que deu origem a um movimento artístico tão importante quando o da Secessão, não pode ser qualquer coisa. Liderado por Gustav Klimt, tudo começou por causa do choque de gerações, em 1861. Havia um órgão oficial, a Cooperativa dos Artistas de Artes Decorativas da Áustria que era muito respeitado (com aquele tanto de castelo e palácio no currículo; como não?), mas a turma de Klimt queria fazer algo novo. Como não conseguiu quebrar os rígidos padrões estéticos da cooperativa, fundou uma nova associação. Como dá para ver em algumas fotos acima, o prédio é lindo (mas completamente diferente dos palácios). Também não dá para esquecer que por aqui andaram Egon Schiele, o discípulo mais próximo de Klimt, e os músicos Amadeus Mozart, Franz Schubert e Johann Strauss, só para citar os mais conhecidos.

A gente vê arte por todo lugar nessa cidade, é só ter os olhos atentos.

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#KartnerStrasse #paracegover A imagem mostra um prédio comercial com lojas no térreo, mas as paredes do primeiro e segundo andares são decoradas com uma pintura barroca mostrando anjos, nobres e cavaleiros de armadura sob um céu azul e em frente a uma parede dourada. Em frente ao prédio há um calçadão com bancos com pessoas sentadas, guarda-sóis e uma árvore (do lado esquerdo).

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#Löwengasse #paracegover A imagem mostra uma rua em primeiro plano, em que os trilhos do tram passam no plano horizontal. Do lado esquerdo há um edifício de esquina cuja parte de baixo é pintado de amarelo vivo com faixas sinuosas alaranjadas. Do lado direito vê-se uma árvore frondosa.

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#DerKuss #BelvedereMuseum #paracegover A imagem mostra o quadro “O beijo”, de Gustav Klimt, onde um homem beija uma mulher. Ambos estão envoltos por um manto dourado. A sala é escura e o fundo é preto. Em primeiro plano pode-se ver pessoas em volta da guia, que está explicando a obra.

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#belvedere #paracegover A imagem mostra uma estátua de uma criatura mitológica, com cabeça e seios de mulher, asas de pássaro e corpo de um leão. Está instalada nos jardins do museu Belvedere.

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#belvedere #paracegover A imagem mostra o teto do átrio da palácio/museu Belvedere. O contorno é dourdo e no centro há uma obra ricamente colorida que mostra anhos e demônios lutando sob o céu azul.

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#magdalenenstraße #paracegover A imagem mostra uma rua de prédios mais recentes (porém mal cuidados). Do lado direito pode-se ver uma parede com uma grade pintura realista mostrando um homem pensativo de barca e boina segurando um aquário. Aos pés dele, um cachorro atento.

3. COMIDA

O mercado público da cidade, o Naschmarkt, é um convite aos sentidos (sinto falta de um mercado grande e variado assim aqui em Berlim; conheço todos os Markthallen, mas nenhum é tão completo). Não curtimos muito comida típica alemã, mas descobrimos um restaurante português (Lisboa Lounge) ali perto que é uma delícia. Comi um dos melhores polvos da minha vida por um preço bem acessível.

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#Nashmarkt #paracegover A imagem mostra uma banca de verduras e legumes dentro do mercado público. Pessoas caminham do lado direito.

4. DIVERSÃO E OUSADIA

Minha percepção foi de que os austríacos são normalmente muito bem humorados. A comunicação facilitou bastante (Viena é a segunda maior cidade com falantes da língua alemã; só perde para Berlim), mas deu para ver que eles sabem se divertir pelos cartazes, avisos e sorrisos. No Museum Quartier, onde tem um espelho d’água no pátio interno, há um aviso fofo para não alimentar os jacarés; as lixeiras são todas mortas de fome pedindo para as pessoas alimentá-las; todas as propagandas são assim, cheias de gracinhas. Sem falar que o parque de diversões Prater completou 250 anos em março desse ano, é mole? E a roda gigante, que funciona até hoje, é de 1897.

No campo ousadia na terra da Conchita Wurst, ninguém melhor que o arquiteto Friedensreich Hundertwasser para representar todo o atrevido bom humor dos austríacos. O sujeito, que devia ser um louco maravilhoso, autointitulava-se o “doutor dos prédios feios”. Bastava que pessoa que morasse em uma horrorosidade chamá-lo e ele ia correndo com sua equipe dar um jeito de colocar cor e diversão no local (o cara trabalhava na obra junto com os pedreiros). Hundertwasser fez até uma “lei dos direitos das janelas” onde o morador teria o direito de fazer intervenções por fora de sua janela até onde seu braço alcançasse para provar que ali morava um ser humano. Preciso dizer que se ele fosse vivo faria qualquer coisa para ser sua estagiária? O livro dele contando os causos é sensacional. Aguardem que vai ter resenha.

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#hundertwasserhaus #paracegover A imagem da esquerda mostra suas mulheres estudando um mapa sentadas na borda de um chafariz. Elas estão sob uma das fachadas do prédio chamado Hundertwasser, que tem um portal curvo cheio de espelhos colados. A imagem da direita mostra os fundos do prédio, todo colorido e coberto de hera.

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#hundertwasserhaus #paracegover A imagem mostra a fachada do prédio projetado pelo arquiteto Hundertwasser. Cada janela é diferentes, assim como cada pedaço é de uma cor. A superfície é toda irregular.

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#hundertwasserhaus #paracegover Mais uma vista do exótico e colorido prédio na esquerda. Na direita, a imagem mostra um leão de cimento fazendo selfie com a casa ao fundo.

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#hundertwasserhaus #paracegover A imagem mostra detalhes da fachada, com duas formas orgânicas, coloridas e com aplicações de espelhos e ladrilhos.

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#hundertwassermuseum #paracegover A imagem da esquerda mostra o prédio interno do museu que homenageia o arquiteto Hunderwasser (ele também projetou esse prédio). A imagem da direita mostra o portal do museu que fica na calçada dos fundos. Um pomba passeia calmamente sob o portal, na calçada.

5. AMOR, MUITO AMOR

O movimento gay, como toda cidade com alto nível cultural e artístico, vai super bem por aqui, obrigada. Passamos por vários bares bacanas e lugares coloridíssimos. Na semana anterior à Parada do Arco-Íris, todos os trams (bondes) andaram com uma bandeirinha colorida; os semáforos tinham duas pessoinhas com um coração entre elas, no lugar do tradicional bonequinho. Um amor.

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#straßenbahn #paracegover A imagem da esquerda mostra o detalhe do semáforo, com os dois bonequinhos de mãos dadas e um coração no meio. A imagem da direita mostra um ponto de tram com a ponta de um veículo chegando. Ele carrega a bandeira do arco-íris na dianteira. Na calçada, um casal caminha de mãos dadas.

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#Mühlgasse #paracegover A imagem mostra uma janela com a esquadria branca e vermelha. A parede tem as cores do arco-íris em uma faixa do lado esquerdo. O fundo é amarelo.

Bom, com o tanto de museus que essa cidade tem (são 182 cadastrados) e coisas lindas para ver, com certeza terei que voltar (ainda queremos ir à ópera, pois dessa vez não deu).  Então, para quem vai visitar (ou voltar), fica a dica: reserve o máximo de dias que puder para essa verdadeira experiência sensorial.

Street art também é autoconhecimento

Há alguns dias soube, por um cartaz num ponto de ônibus, que o Groth Gruppe, uma grande construtora (por coincidência, a mesma que construiu o apartamento onde moro), estava promovendo gratuitamente, para quem quisesse participar, workshops de street art no canteiro de obras de um de seus empreendimentos.

A ideia é que os participantes construam coletivamente obras que depois serão expostas no local, com direito a festa e tudo. Achei essa ideia excelente, principalmente para aumentar o sentimento de pertencimento da comunidade a uma obra civil que impacta enormemente o entorno.

Foram três sessões, cada uma facilitada por artistas famosos na cidade (e olha que o que não falta em Berlim é artista). A primeira eu perdi porque não fiquei sabendo, mas aproveitei muito as outras duas. Até porque, analisando agora, quando recebi as fotos do evento, dei-me conta do quanto essas experiências contribuíram para meu autoconhecimento.

O primeiro workshop foi facilitado pelos artistas Various & Gould. O casal tem trabalhos maravilhosos de colagens pela cidade (já fotografei alguns) e a primeira tarefa consistia em escolher duas palavras quaisquer. Cada um escrevia (ou desenhava; eles enfatizaram que a tipografia era um elemento importantíssimo na escolha) a sua e seriam eleitas duas pelo grupo. Minha proposta, a palavra alles (tudo, em alemão) desenhada num formato de globo, foi uma das escolhidas na seleção final. A outra foi Kunst (arte, em alemão), desenhada bem ao estilo grafite por um rapaz.

Enquanto os outros participantes treinavam técnicas de pintura em telas usando moldes, sprays e outras ferramentas, os autores das duas palavras precisavam desenhá-las no painel de acrílico coberto com uma película. A ideia era a gente recortar a película e deixar apenas a palavra coberta. Assim, todos juntos iriam fazer intervenções em diversas camadas e no final a gente tiraria a película, deixando a palavra em branco. Também fiz algumas intervenções, diverti-me muito e foi sensacional. Voltei para casa como criança pequena cansada depois de brincar o dia todo.

O segundo workshop, com o artista Christian Awe, também super prestigiado e conhecido, foi um pouco diferente. Também tínhamos dois paineis grandes para trabalhar, mas ele escolheu uma paleta de cores para cada equipe: uma usaria cores quentes, a outra, cores frias.

Houve mistura de técnicas diversas: aquarela, tinta acrílica, moldes com spray, bolinhas de gude sujas de tinta escorrendo pela prancha, colagens e sobreposições usando fita crepe, enfim, aprendi um monte de coisas. Mas, para mim, o outro tinha sido tão mais legal…

Voltei para casa pensando por que seria. Os dois tinham sido conduzidos por artistas bacanas, os participantes eram praticamente os mesmos e os resultados nem tinham ficado tão diferentes assim.

Depois de muito pensar, descobri: é que não gosto de pintar, eu amo desenhar! No primeiro workshop passei mais da metade do tempo desenhando. No segundo, tentei improvisar um pincel de dedo e depois com um graveto, mas não ficou bom. Para mim, pintar é até divertido, desde que seja um meio para desenhar.

Já pintei muros, quase não tenho mais paredes livres em casa, amo tintas e canetas mais que tudo. Mas preciso desenhar. Sem isso, para mim, é como se a obra ficasse inacabada, como se eu não tivesse conseguido me comunicar. Fica faltando!

Talvez isso explique também meu encanto por obras hiperrealistas e predominantemente figurativas; as abstratas só me chamam atenção se tiverem algum desenho, algum traço deliberadamente desenhado, como Paul Klee.

Enfim, são décadas desenhando e pintando para só agora me dar conta do que realmente gosto de fazer.

Achei interessante compartilhar minha experiência e conclusões porque pode colocar uma pulguinha aí atrás da sua orelha. Ou, quem sabe, no seu caso, um pincel ou um lápis.

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Fotos: @Klemens Renner @Groth Gruppe #paracegover Na imagem eu apareço observando os trabalhos do portfolio do artista Christian Awe. O portfólio está em forma de pranchetas com fotos organizadas dentro de uma caixa de papelão. Estou vestindo um macacão de TNT para proteger a roupa das tintas. Ao fundo um muro rabiscado, um painel rosa pink para ser trabalhado e uma mesa cheia de tintas.

 

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Fotos: @Klemens Renner @Groth Gruppe  #paracegover Na foto eu apareço fazendo experimentos com moldes e tinta em spray. Uso um macacão branco de TNT, máscara descartável sobre o nariz e a boca e luvas azuis. Do lado direito da imagem aparece uma montanha de paralelepípedos, já que estamos trabalhando no canteiro de obras.

 

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Fotos: @Klemens Renner @Groth Gruppe #paracegover Aqui aparecem a equipe que participou do primeiro workshop (19 pessoas) e mais um cachorro fofo que também é artista. Ao fundo, o painel com a palavra “alles” desenhada por mim. Do lado esquerdo, ao fundo, aparece uma parte do painel “Kunst”.

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Fotos: @Klemens Renner @Groth Gruppe #paracegover Na imagem apareço mostrando os testes que fiz numa tela para o artista Christian Awe. É claro que ele incentivou, mas, pela minha cara, dá para ver que não gostei muito do resultado…rs

PS: Meu sonho continua sendo pintar (ou melhor, desenhar) um mural em Berlim. Bem grande. Quem sabe?

Top 10 de maio: mezzo Paris, mezzo Berlim

A novidade dessa edição é que agora todas as fotos têm descrição #paracegover. A ideia é aumentar a acessibilidade para que mais pessoas, em especial as que possuem alguma deficiência visual, possam compreender os posts.

O mês começou com uma semana em Paris com minha mãe e minha irmã. A Cidade Luz é espetacular, mas cheguei à conclusão que Berlim não fica muito atrás. Meus olhos terminaram o mês bem alimentados, e os seus?

Dê uma olhada e escolha sua preferida!

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1. Uma foto clássica de Paris é essa, da pirâmide invertida do Louvre. #paracegover A imagem mostra o subsolo da pirâmide de vidro que fica no pátio central do Museu do Louvre, em Paris. A pirâmide da foto é invertida (com a ponta para baixo), toda de vidro, com as estruturas metálicas que sustentam a construção à mostra. A sala é bem iluminada pela luz natural (o dia está lindo) e várias pessoas observam, tiram fotos e conversam. Há projeções de sombras no chão, formando um grafismo interessante.

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2. Café Au Vieux Paris d’Arcole. #paracegover A imagem mostra um café com mesas externas cheias de gente. As paredes do prédio bege e esquadrias verde-água são cobertas por trepadeiras de glicínias lilases.

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3. Roda Gigante na Place de La Concorde (Jardin des Tuileries). #paracedover Essa foto foi tirada de cima de uma roda gigante, de dentro de uma cabine. Aparecem as esquadrias arredondadas da porta de vidro, feitas de metal polido. Ao fundo, a paisagem da cidade com vista para o Rio Sena. No vão entre os dois metais da fechadura, está a torre Eiffel, encaixada bem no meio da fenda. Faz sol na capital parisiense.

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4. Torre Eiffel vista da Rue de L’Université. #paracegover A imagem mostra uma rua com prédios antigos muito bem cuidada. No início e no final dela, vê-se árvores. Ao fundo, a majestosa Torre Eiffel, sob um céu azul impecavelmente limpo.

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5. Vista da ponte Roßstraße, Berlin, Mitte. #paracegover A imagem mostra a vista de cima de uma ponte, sob o sol suave da manhã. Do lado esquerdo, prédios antigos e rústicos e um barco ancorado com algumas cadeiras sob o deck. Ao fundo, é possível ver uma ponte paralela a que se está. Ambas atravessam um dos inúmeros canais do Rio Spree, que percorre toda a cidade.

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6. Casal passeando no boulevard Engeldamm, em Kreuzberg, Berlim. #paracegover A imagem mostra um casal empurrando um carrinho de bebê emoldurado por um jardim bem verde e florido. A área onde o casal caminha (terço superior da imagem, ao centro) é mais clara e está em foco. O jardim em volta, que ocupa a maior parte do quadro, está na sombra e fica desfocado. As flores, muitas, são em um tom de magenta bem saturado.

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7. Homem misterioso. #paracegover A imagem mostra uma “parede” feita com uma trepadeira de rosas pink em plena florada, com uma flor bem aberta em primeiro plano, no canto esquerdo inferior. Ao fundo, uma passagem que mostra a silhueta de um homem. Fim do mistério: o homem é o Conrado <3

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6. Passeio de bicicleta às margens do canal. #paracegover A imagem mostra, em primeiro plano, um buquê natural de florzinhas minúsculas brancas com o miolo amarelo. Do lado direito, há uma mulher com um casaco rosa pedalando em uma bicicleta, na beira do canal do rio Spree. Ao fundo, vê-se os prédios de um amarelo bem vivo iluminados pelo sol forte do fim de tarde.

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9. Túnel de glicínias no jardim em volta do lago Engelbecken, Kreuzberg. #paracegover A imagem mostra um túnel de glicínias lilases. Do lado direito, é possível ver um muro em parte coberto com trepadeiras verdes, em parte pintado com grafite. Há um casal passeando com um cachorro (ambos vestem preto e ela tem o cabelo azul) e duas pessoas de bicicleta.

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10. Moldura luxuosa, próxima ao Engelbecken, Kreuzberg. #paracegover A imagem mostra um homem caminhando na calçada; em primeiro plano, aparecem galhos cobertos com flores de um magenta profundo emoldurando a cena. Os galhos formam uma espécie de “X” como moldura. Do lado direito, ao fundo, é possível ver mais árvores do tipo, bem floridas.

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Será o ócio mesmo criativo?

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Há alguns anos, o pesquisador Carel van Schaik, especialista em primatas, fez uma escada de corda para pendurar seus instrumentos de medição numa das árvores em uma floresta na Sumatra. Os macacos que frequentavam o local simplesmente ignoraram. Na época, ele não pensou muito a respeito, mas depois, em outras pesquisas e vendo como os macacos costumavam ser inteligentes e curiosos, ficou intrigado com o caso. Como assim os orangotangos sequer prestaram atenção aqueles objetos totalmente inéditos para eles?

O jornal Die Zeit, que publicou Muße küsst Affe (Ócio beija macaco), conta que Schaik ficou surpreso com a resposta que encontrou para o enigma:  o ócio (sim, aquele mesmo de que falava o italiano Domenico de Masi). Quanto estão no habitat natural, os orangotangos estão preocupados em construir abrigos, escapar de predadores e conseguir comida. Eles não têm tempo para pensar, brincar ou ficar imaginando coisas. Toda energia é focada na sobrevivência. Novidades, inclusive, são vistas como ameaças (melhor não se aproximar de objetos estranhos).

Schaik repetiu a experiência, dessa vez com flores e frutas de plástico, além de bichos de pelúcia, nas florestas indonésias de Bornéu e Sumatra. Mesmo resultado; os macacos nem ao menos tomaram conhecimento. Mas quando colocou os mesmos objetos à disposição dos orangotangos em zoológicos de Zurique e Frankfurt, precisou de apenas alguns segundos para despertar a curiosidade dos bichos. Os brinquedos foram desmontados, separados em partes e cuidadosamente analisados.

A pergunta estava posta: será que os animais do zoológicos são mais curiosos e criativos, ou apenas mais entediados?

Para o pesquisador, as duas coisas são compatíveis. O tédio pode ser um forte fator para o desenvolvimento da criatividade. Para ele, pensar em arte, filosofia e até ciência, só é possível depois que as necessidades básicas já tiverem sido atendidas (faz sentido, se a gente se lembrar da pirâmide de Maslow). Os animais, num bom zoológico, se estão em um ambiente confortável e conhecido, podem gastar seu tempo brincando, aprendendo e pensando; o exato oposto de quem precisa lutar pela sobrevivência.

A ideia de zoológicos me incomoda bastante, principalmente quando os enjaulados são macacos. Mas a conclusão da pesquisa não deixa de ser interessante.

Não dá para pedir para uma pessoa que leva quatro horas indo e voltando do trabalho e mais oito cumprindo a jornada, além das tarefas domésticas e outras obrigações, que ainda por cima tenha grandes ideias. Ela realmente não tem cabeça para isso; está concentrada em sobreviver e encontrar um meio de pagar as contas. Quando uma população está exausta tentando obter o básico da sobrevivência, fica muito difícil se concentrar em ideias mais complexas, em ampliar o repertório, em aprender coisas diferentes.

Mas aí fiquei pensando que a falta e a necessidade de sobrevivência também provocam a busca de soluções criativas para problemas cotidianos; os livros, jornais e portais de internet estão cheios de casos assim, o que, de certa maneira, confronta os resultados da pesquisa com os orangotangos.

Não sei, mas talvez a curiosidade e a criatividade sofram mais influência da cultura do que o ambiente. Num zoológico, além do tédio e da segurança, o macaco que descobre alguma coisa interessante para brincar deve fazer sucesso no meio e, por isso, de alguma maneira é incentivado a procurar novidades. Na selva, o sucesso se chama comida; qualquer outra novidade é desaprovada pelo bando.

Numa sociedade de humanos, a situação é análoga, mas penso que há grupos que, mesmo com dificuldades de sobrevivência, de alguma maneira valorizam o curioso, o original, as soluções engenhosas. De certa forma, a criatividade acaba sendo estimulada porque a aceitação social passa por ela. Se a pessoa não consegue o sucesso pelo dinheiro (que seria a comida, para os macacos), consegue ser admirada pela criatividade.

De qualquer maneira, é só um achismo, pois não tenho nenhum estudo para fundamentar isso. Mas que fiquei com a pulga atrás da orelha, fiquei. E ela pulou de um orangotango…

Nota: tempo e ócio são fundamentais para a criatividade; sem tempo de relaxamento, não há como organizar as ideias, faz parte do processo (meu texto Tempo para criar fala mais sobre isso). O que estou discutindo aqui é a motivação; se é a falta do que fazer, como defende o artigo do jornal Die Zeit,  ou se é aceitação social (uma ideia que me ocorreu, mas totalmente sem fundamento).

Ponto de ônibus perfumado

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O ponto de ônibus que fica na esquina da Friedrichstraße e a Französische Straße fica no meu caminho para o trabalho. Há semanas que observo um anúncio que fica no ponto, mas como quase sempre estou em cima da hora, acabo olhando só pela janela mesmo.

Mas ontem não deu mais; a curiosidade foi maior e fui obrigada a descer do ônibus para ver do que se tratava. E sim, minhas desconfianças faziam sentido. De fato, eles colocaram um vidro de perfume de verdade encaixado na estrutura do ponto do ônibus.

E você pode experimentar o perfume. E é um Chanel!

O mecanismo funciona assim: você coloca a mão num buraco que tem ao lado da vitrine para ter acesso a ela pela lateral (aí os buracos são menores para ninguém levar o frasco embora), onde dá para passar os dedos. No momento em que o sensor percebe que seus dedos estão no espaço interno da vitrine, o frasco borrifa perfume neles. E sua mão sai cheirosíssima da experiência.

Em volta do buraco para colocar a mão, está escrito o seguinte: “Ousado, independente, audaz: descubra aqui o Mademoiselle Coco“.  De fato, a pessoa tem que se atrever um pouco para experimentar. Achei genial.

Ok, está certo que a propaganda sensorial está instalada numa das esquinas mais chiques da cidade, bem em frente às Galleries Lafayette. Mas não me canso de me espantar com dois aspectos dessa ação de design de experiência:

1. A anúncio está lá há semanas, intacto, sem nenhum dano. Acho que alguém vai lá todo dia trocar o vidro vazio por um cheio.

2. Eles consideram que o público que consome o perfume (ou tem potencial para consumir), anda de ônibus. E aqui isso faz todo o sentido mesmo.

Vontade de parar lá todo dia agora…rsrs

PS: Achei outro ponto de ônibus assim no Hackescher Markt, local de grande afluxo de pessoas e bem popular. Nas mesmas condições. Estou achando que são vários desses espalhados pela cidade <3

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Um estranho lugar para se morrer

Ein seltsamer Ort zum Sterben von Derek B Miller

Quando li a quarta capa de “Ein seltsamer Ort zum Sterben” (Um estranho lugar para se morrer), de Derek B. Miller, fiquei completamente fisgada.

O livro conta a história de Sheldon, um veterano americano da Guerra da Coréia que, ao ficar viúvo, vai morar em Oslo, com sua única neta e seu marido norueguês. Poucas semanas depois de se mudar, Sheldon, sozinho em casa, ouve barulhos na escada do prédio. Abre a porta do apartamento e uma mulher com um menino pequeno entra, muito assustada. A porta é arrombada, a mulher é assassinada, mas Sheldon se esconde e consegue fugir com o menino. Pareceu-me uma aventura interessante. Ainda mais porque se passa em Oslo, cidade que já tive oportunidade de visitar uma vez (adoro ler livros que se passam em lugares nos quais estive).

A história é empolgante mesmo, mas achei a leitura um pouco difícil. Sheldon sente uma imensa culpa porque, sendo veterano de guerra e idealista, acabou direcionando seu filho único, Saul, para o mesmo caminho; só que Saul morre na Guerra do Vietnã deixando uma mulher com uma menina pequena (a tal da neta com quem ele mora agora). A neta foi abandonada pela mãe e criada por ele e a esposa.

Sheldon está senil, tem frequentes flasbacks de conversas com o filho e a falecida mulher, traz no corpo o desconforto da idade, mas sente-se irremediavelmente atraído por ajudar o menino. Nem mesmo ele sabe porque não procurou a polícia. Talvez quisesse resgatar a relação com o filho.

A questão é que tanto os investigadores do crime como os próprios criminosos (uma gangue de Kosovo, cujos integrantes entraram legalmente na Noruega como refugiados) estão atrás do menino (que é filho do assassino) e de Sheldon, que usa toda sua inteligência e experiência para escapar.

Como disse, achei a leitura um pouco difícil, pois o protagonista faz muitas viagens no tempo e às vezes confunde memória com realidade; a trama dos bandidos também não é simples. Eles se sentem injustiçados porque lutaram pelo seu povo (do lado que perdeu) e agora não são bem-vindos na terra em que nasceram. Por outro lado, também não conseguem se integrar cultural e socialmente no país nórdico, nem ao menos aprender a língua. A história fala, inclusive, da dificuldade de se investigar refugiados envolvidos em crimes (a ficha pregressa deles não está disponível nem para a polícia) e todas as complexidades inerentes ao processo de imigração nessas condições. Outra história paralela é a da comissária responsável pela investigação do crime, competente, mas muito solitária.

Enfim, a trama é interessante e os personagens até que são bem construídos. Não sei por que achei um pouco cansativo vencer as 393 páginas. Talvez seja por causa das muitas cenas de guerra (reminiscências de Sheldon); detesto.

Mas o balanço final é positivo. Recomendo.

Top 10 de abril: é primavera!

As cerejeiras fizeram sucesso esse mês! Não é para menos; andar debaixo dos cachos perfeitos de florzinhas é como estar visitando uma amostra do paraíso.

Dê uma olhada nas mais populares e escolha sua preferida!

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1. Pensa num pedaço do paraíso: ele se chama Britzer Garten em Berlim!

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2. Esse navio pintado no prédio faz o cenário ficar surreal. Como não amar street-art?

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3. Sou obrigada a passar por essa calçada a caminho do trabalho. Não é para começar o dia de bom humor?

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4. Um dia lindo de sol em Prenzaluerberg. Não há como resistir…

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5. Flores em frente à subprefeitura de Moabit. E esse casalzinho fofo <3

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6. Mais uma obra impressionante de street-art da boa. Na Goethe Straße, em Charlottenburg.

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7. A Oranienstraße toda florida. Essa árvore é amor puro!

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8. Para você que nunca tinha visto um pé de nuvem. É aqui que elas nascem :)

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9. Bikes e flores. Tem combinação melhor?

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10. Por-do-sol às margens do rio Spree, em Moabit: para fechar com sol de ouro!

10 dicas para contratar um designer sem medo de errar

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Acompanho alguns fóruns de empreendedorismo nas redes sociais, tenho vários amigos empreendedores e posso dizer; contratar um designer é um desafio. E não é nem a questão de que os clientes não têm noção nenhuma do trabalho do designer e de sua importância.  Muitos sabem exatamente o peso que uma boa representação gráfica tem para seu negócio e mesmo com limitações orçamentárias, priorizam a contratação escritórios ou profissionais com diploma em vez de arriscar por si ou pedir favores a sobrinhos. Ainda que tomando todos os cuidados e levando o assunto muito a sério, tenho sabido de histórias escabrosas.

Há pouco tempo, uma grande amiga, consultora e palestrante, contratou um estúdio para definir sua identidade visual. Ela me mandou as três opções que lhes foram sugeridas: uma era tão, mas tão absurdamente diferente da outra, que só me restou perguntar como eles defenderam o conceito, ou seja, que identidade profissional era essa que estavam querendo traduzir. Sem resposta. Apresentaram então outra alternativa (depois de semanas), julgando ser a definitiva e explicando que o motivo do atraso era que o trabalho era muito complexo e precisava de muito estudo. Em menos de um minuto pesquisando no Google imagens encontrei a alternativa deles em um site de logos grátis (aqueles que os designers demonizam). Não mudaram nem a cor. Pois é.

Um casal de amigos aqui de Berlim contratou um designer local com a recomendação de que ele já tinha passado até pela BMW. O sujeito nascido e criado na terra da Bauhaus levou quatro semanas para entregar um folder tão tosco, errado em tantos aspectos, que, para coroar a obra, esqueceu de colocar o endereço do site (o negócio era um e-commerce). Quando questionado, justificou que isso atiçaria a curiosidade das pessoas, que procurariam o endereço no Google (reconhecer o erro, nem pensar, né?).

Outro caso é o da Bendita Pele, que relatei inteiro aqui (esse, pelo menos, com final feliz). E tenho certeza que todo mundo tem histórias igualmente infelizes para contar.

Então. Justamente para evitar que mais profissionais e empresas passem por esses perrengues desnecessários e a categoria dos designers fique ainda mais desgastada, vou dar aqui algumas dicas para facilitar a escolha do profissional responsável pela forma como as pessoas verão (literalmente) sua empresa no mercado.

Vamos lá:

1. Há médicos, dentistas, arquitetos, professores, cabeleireiros, advogados e pedreiros péssimos, ruins, médios, bons e sensacionais. Por que com designers seria diferente? Na verdade, você já sabe como escolher os melhores: da mesma maneira que você escolhe os outros profissionais. O negócio é sair pedindo dicas para amigos, conhecidos e clientes.

2. É importante entender que o trabalho que o profissional vai fazer é tentar representar graficamente a identidade de sua empresa, a essência, o caráter, a personalidade dela. Então ele precisa de algum método investigativo para determinar isso (um dos que estão disponíveis e de graça é o GIIC®, que eu mesma desenvolvi). Só então poderá começar desenvolver os desenhos e alternativas.

3. Sempre peça para ver o portfólio (isso é mais importante que o currículo). Lá vai ter os trabalhos que o profissional/empresa já fez. Escolha um item que você gostou muito (ou detestou) e peça para ele explicar como chegou no resultado. Isso vai dizer muita coisa sobre o método de trabalho. NOTA: Se a explicação for confusa ou não convencer, mau sinal. Procure outra alternativa.

4. Pergunte tudo, mas absolutamente tudo; não deixe nenhuma dúvida em aberto: como funciona, quais são as etapas, o que acontece se você não gostar, o que está incluso/excluso, se terá que pagar a mais cada vez que tiver que trocar o endereço no cartão de visitas, se você receberá um arquivo (ou vários) que poderão ser usados por outros fornecedores, enfim. Tudo o que se lembrar. Se o profissional/empresa for bom, terá um contrato escrito com todos esses detalhes. Isso se chama gestão de expectativas e os excelentes praticam sempre.

5. Avalie a apresentação visual do designer/empresa. Você consegue perceber as qualidades que está buscando? Se não consegue, uma boa dica é procurar outro. Se o profissional/empresa não faz a lição de casa, como vai atender seu projeto?

6. O manual de aplicação, documento que explica como a marca gráfica deve e como não deve ser utilizada (proporções, fundos, fontes tipográficas, cores, etc) é um item muito importante. Evita que o trabalho desenvolvido com tanto cuidado possa ser estragado porque você não sabia que não devia colocar a marca sobre um fundo estampado, por exemplo. Assegure-se que esse item esteja incluso no contrato.

7. Você não é obrigado a gostar do resultado apresentado. Se está desconfortável, explique ao profissional o motivo; o que exatamente não está bom do seu ponto de vista. Quanto mais específico for com relação aos pontos que estão lhe perturbando, mais fácil será para solucionar o problema. Se o profissional realmente estiver seguro do que fez, explicará o porquê da escolha de cada item (cores, formas, tipografia, etc) e o motivo pelo qual um ponto ou outro não deve ser alterado, mas pensará numa alternativa para adequar suas necessidades. Como você vai fazer seus clientes se apaixonarem pela empresa se você mesmo não é capaz?

8. Mesmo que goste do resultado, não deixe de comparar a solução gráfica apresentada com outros resultados no Google Images. Isso acontece até com empresas grandes; não é justo cobrar por um trabalho que não foi feito.

9. O trabalho que descrevi acima é o desenvolvimento de uma marca gráfica ou de uma peça gráfica. Isso não é Branding. Pode ser uma parte de um projeto de Branding, que é essencialmente estratégico e anterior ao projeto gráfico, mas são coisas diferentes. Se o profissional chamar apenas essa etapa de Branding, fuja. Ele não sabe o que está fazendo.

10. Se ficou feliz com o trabalho, não deixe de recomendar para os amigos. Só assim o mercado se livrará dos maus profissionais e valorizará de verdade os que merecem.

Uma das coisas mais lindas e bem-sucedidas do mundo é quando o cliente encontra seu designer e vice-versa. Palmas, abraços e muito sucesso para todos os envolvidos.

Não é isso que todo mundo quer?

Romance veneziano

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Levei para casa “Die Glasbläserin von Murano” (algo como “A sopradora de vidros de Murano“), de Marina Fiorato, porque a história parecia muito interessante (e a capa era linda, não vou negar…rs).

A autora é uma italiana de Veneza que mora em Londres; estudou artes e literatura em Oxford e trabalha como ilustradora, atriz e crítica teatral. A moça escreve bem e o trabalho de pesquisa histórica é impecável.

Uma das coisas que mais gosto no ato de ler, é a viagem. Durante a leitura, andei novamente pelas ruas de Veneza, seus becos estreitos, suas gôndolas, sua beleza única. A descrição precisa dos locais e a atmosfera do lugar ajudam muito o mergulho e fazem o passeio ainda mais prazeroso.

O livro conta a  história de Corradino Manin, o maior mestre soprador de vidros  que já viveu na Ilha de Murano. Nascido em 1631,  foi o responsável por viabilizar a construção dos espelhos gigantescos da cidade, entre outros trabalhos únicos. Por causa de uma série de intrigas, traições e questões políticas familiares, ele acaba preso na Ilha, onde desenvolve seu talento. A outra parte da narrativa acontece nos tempos atuais, onde uma descendente dele, estudante de artes que vive na Inglaterra, decide trabalhar como sopradora de vidros em Murano, função exclusivamente masculina até então.

A parte histórica e a trama são bem construídas e amarradas; já o romance é melodramático no último. A velha história da mulher que se separa porque não consegue engravidar, e acaba engravidando sem querer quando encontra o “homem certo”…zzzzzzzzzzzzz… aqueles mal entendidos totalmente dispensáveis que só acontecem porque pessoas adultas não conseguem conversar…zzzzzzzz… um tédio, mas enfim.

Vale muito a pena pela viagem, pela história, pela trama e pela narrativa, além das descrições bem precisas do processo de fabricação artesanal dos vários objetos de vidro. E se você curte romances melosos, vai com tudo; mas se você curte apenas história, vale também.

Para quebrar seus preconceitos…

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Ah, esses alemãos frios, distantes e nada sociáveis…rsrsr

Olha só que fofura a carta que estava na caixa do correio hoje:

Querido vizinho,

Há um mês estamos aqui em nosso apartamento no quarto andar com nossos móveis e incontáveis caixas de mudança. Nesse meio tempo, a maioria das caixas já foi desempacotada. A maioria das coisas já encontrou seu lugar. Quase tudo foi encontrado novamente. Algumas coisas estão ainda desaparecidas, como, por exemplo, nosso escorredor de macarrão. Mas ainda temos esperança de encontrá-lo nos próximos dias.

Então, nós estamos muito felizes porque o esforço da mudança já passou. Agora vem a melhor parte, que é conhecer nossos vizinhos. Por isso, ficaríamos muito felizes se vocês pudessem tomar uma bebidinha conosco na próxima quarta-feira, às 19h30.

Já estamos felizes em antecipação.

***
Como resistir a um convite desses, né?
Muito amor envolvido.

Se você vai se mudar em breve, fica aqui a inspiração <3

Fale como se estivesse no TED

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O Diego Marcello Trávez, que além de amigo e parceiro (a empresa dele é que cuida da minha agenda no Brasil), também é um descobridor de dicas interessantes para seus assessorados. Ele me mandou a foto de um livro que estava lendo e que recomendava muito; comprei e engoli o volume todo em menos de dois dias. Estava bom mesmo.

Talk like TED: tge 9 public-speaking secrets of the world’s top minds“, de Carmine Gallo (já resenhei o ótimo “Faça como Steve Jobs” dele também), pretende ser um guia definitivo de como fazer apresentações memoráveis. E acho que consegue.

Ele usa como base as apresentações do TED (Technology, Entertainment and Design), projeto criado em 1984 para divulgar ideias que merecem ser divulgadas. O modelo é centrado em apresentações de 18 minutos (no máximo) sobre os mais diversos temas como arte, design, negócios, educação, saúde, ciência, tecnologia e assuntos globais. Os vídeos das palestras são publicados na página do projeto (TEDTalks) e nada menos que um milhão de pessoas os assiste a cada dia.

Gallo mais de 500 das palestras entre as mais populares e, com a ajuda de neurocientistas, psicólogos e especialistas em comunicação, além de inúmeras entrevistas, análises estatísticas e sua própria experiência pessoal (que não é pequena), conseguiu identificar o que faz uma palestra ser assistida quase 38 milhões de vezes (como é o caso da apresentação de Ken Robinson, de 2012).

Ele começa apoiando o sucesso de uma apresentação em três pilares: emoção, novidade e memorabilidade.

A emoção é a parte que toca o coração das pessoas. E aí ele faz uma longa dissertação, cheia de exemplos práticos, sobre o poder do storytelling. É contando histórias que se chega ao coração das pessoas, que se realiza a conexão entre os seres humanos. Se as histórias forem pessoais, tanto melhor. Ele cita também a palestra de Brené Brown (vista 24 milhões de vezes) sobre o poder da vulnerabilidade e da empatia, além da clássica palestra de Amanda Palmer, sobre a arte de pedir. Nesse módulo, ele também fala sobre os gestos, as palavras, o tom de voz e até a velocidade com que a pessoa fala.

A novidade é o que nos move como seres humanos; somos curiosos por uma questão de sobrevivência. Sem isso, seria impossível evoluir. Uma pessoa precisa aprender algo novo em troca desses 18 minutos de atenção. E isso precisa ser mostrado de um jeito interessante; a melhor maneira é contextualizar os números que se pretende mostrar, comparando-os com outros do dia-a-dia ou mostrando-os em escala, usando metáforas, mostrando exemplos práticos com objetos reais.

Gallo revela ainda uma novidade (pelo menos para mim), veja só: aprender algo novo libera dopamina em altas doses; aprender é viciante como qualquer outra droga, tipo a cocaína, por exemplo. Só que é seguro e legal. Por que não levam isso realmente a sério nas escolas?

Por último, a capacidade de ser memorável. Reduzir a informação até que ela atinja sua essência, que pode ser na forma de uma história curta, uma frase, uma brincadeira, uma experiência multisensorial; algo que faça com que as pessoas se lembrem da mensagem. Que elas consigam resumir os 18 minutos em uma frase do tipo: é aquela palestra em que ele tira o computador de dentro de um envelope. Tenho certeza que você lembrou e sabe exatamente de qual palestra estou falando.

Na parte de memorabilidade, Gallo fala ainda sobre o senso de humor e seu papel na memória afetiva. Piadas devem ser usadas com muito comedimento ou evitadas por quem não é comediante profissional (o risco é enorme de alguém sair ofendido), mas rir de si mesmo e compartilhar histórias pessoais engraçadas pode ser um bom caminho.

O melhor é que o livro funciona como um curso, em que se pode lê-lo e acessar as palestras do TED para ver os exemplos que ele cita. Bom demais.

Mesmo que nunca pense em ser um palestrante ou professor, recomendo demais o livro, afinal, todo mundo precisa apresentar ideias.

Pois é, Diego querido, agora não vejo a hora de colocar tudo isso em prática…rsrs

***

PS: Em português, o livro saiu com o nome “TED: falar, convencer, emocionar”.

Top 10 de março

Olhando a linha do tempo do meu Instagram dá para perceber claramente a passagem do tempo e a mudança das estações. Esse mês e os próximos vão ter muita flor; prepare aí os seus olhinhos e escolha a foto que você mais gosta!

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1. Essa foi a mais curtida de todas, na estação de U-Bahn Büllowstraße. Ela é mesmo uma das mais lindas da cidade.

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2. Uma das coisas mais maravilhosas de morar num lugar que tem as quatro estações bem definidas é presenciar a chegada da primavera. Comovente e emocionante.

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3. Uma das maravilhosas salas da Gemälde Galerie, um dos museus nacionais de Berlim.

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4. Um dia de chuva para meditar. No ônibus, indo para o trabalho (é aquele de dois andares; adoro sentar em cima, bem na frente).

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5. A primavera se exibindo sem pudor. Ela pode.

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6. Esse conjunto de edifícios, entre o Gendarmenmarkt e o Checkpoint Charlie, ganharam cores para fazer a região mais colorida e alegre. Como não amar?

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7. Ah, essa luz de fim de tarde… para minha sorte, estava passando na Potsdamer Platz bem na hora.

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8. Fiquei um tempão esperando alguém interessante passar para compor a cena. A senhora muçulmana ficou bem desconfiada, mas é porque ela não sabe que ficou perfeita como modelo.

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9. Esses pátios internos nos edifícios são encantadores. Esse esconde uma escola de fotografia bem tradicional, na Viktoria Luise Platz, em Schöneberg.

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10. As árvores ainda estão secas, mas nas floriculturas a primavera está no ápice. Tulipas, hortênsias, flores do campo. Tem para todos os gostos <3

 

Italianos aprontando em Singapura

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Se você gosta de policiais bem escritos, recomendo o “Die schöne Hand des Todes” (tradução livre: “A bela mão da morte”), de Giancarlo Narciso. O autor, que vive pelo mundo trabalhando como freelancer, tal como seu alter-ego e protagonista, Rodolfo Capitani, já ganhou vários prêmios literários.

A trama é complicada, mas muito bem escrita. Conta a história de dois homens italianos, um tradutor e outro executivo, que se encontram na cidade-Estado de Singapura, onde ambos moram e trabalham. Ficam amigos e compartilham noitadas até que o executivo sofre um acidente e morre, não sem antes aparecer para se despedir e pedir dois grandes e arriscados favores.

A parte mais bacana, para mim, foi a descrição da cidade e da maneira como as pessoas vivem lá. Os personagens são os clássicos: mafiosos, belas mulheres, sábios budistas, enfim. Original não é, mas a trama é criativa e bem contada.

PS: Não achei em português, mas certamente deve haver traduções em inglês e espanhol, além do original em italiano.

Menos mais do mesmo

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Sempre digo e repito (porque realmente acredito) que empreender no Brasil é um ato de heroísmo. As pessoas que ousam fazer isso deveriam ser apoiadas, incentivadas, estimuladas e encorajadas de todas as formas possíveis. Elas deveriam servir como exemplo de coragem e persistência.

Pena que não é o que acontece.

Isso me lembra o Conrado contando sobre o dia em que foi registrar nossa empresa de tecnologia aqui em Berlim no que seria o equivalente à Junta Comercial (desnecessário dizer que os procedimentos de abertura são mais simples e rápidos). O funcionário público que fez o atendimento perguntou quantos empregos iríamos gerar em cinco anos. Como não temos intenção de ser uma corporação, o Conrado estimou algo entre cinco e dez engenheiros. O funcionário então, impressionado, deu-lhe os parabéns pela abertura da empresa e disse: “Então temos que tratá-lo muito bem, pois vocês vão gerar riqueza para a cidade e empregos qualificados“. Verdade verdadeira, pode acreditar.

Você consegue imaginar um funcionário público no Brasil pronunciando semelhante frase? Nem iria tão longe, pode ser uma pessoa comum mesmo, que você para na rua e diz que está abrindo uma empresa. Difícil, né?

Por isso é que tenho tanto respeito pelos verdadeiros heróis brasileiros que arriscam praticamente todo seu tempo e energia e não raro todas as suas economias para lutar contra a maré gigante que faz de tudo para afogá-los. Iniciativas de apoio (e tem muita, mas muita gente boa trabalhando nisso) para o empreendedorismo devem ser mais do que bem recebidas: merecem ser celebradas!

Hoje, quando recebi pelo correio o “Guia Prático das Novas Ferramentas Comerciais: da construção da marca ao atendimento ao consumidor“, veio junto no pacote uma lufada de esperança que tudo vai dar certo, apesar do quadro caótico em que nosso país se encontra no momento. Há perspectiva sim! Tem uma moçada muito boa querendo trabalhar e eles vão vencer, com certeza.

O meu queridíssimo e super competente Alex Lima, que me mandou o livro de presente, abre o volume compartilhando dicas preciosíssimas sobre branding. E está na companhia de um pessoal que de fraco não tem nada (saudades do ótimo Rodrigo Lóssio!).  Olha, acho que a leitura atenta pode substituir muito curso bom por aí.

Obrigada por mais essa, meus heróis. Ganhei o dia!

***

Recomendo muitíssimo e não só para quem quer empreender, mas para quem estuda branding, UX, jornalismo, conteúdo digital, marketing, vendas, mídias digitais e atendimento. Tem para vender em um monte de lugares; clique aqui para fazer uma pesquisa de preços.

O homem que amava as palavras

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Esse foi o achado mais sensacional dos últimos tempos: a história que conta como foi escrito o maior dicionário do mundo e um dos mais importantes de todos os tempos, o Oxford English Dictionary. Levando-se em conta que o trabalho levou mais de meio século, que o método para construi-lo foi inovador e que os personagens envolvidos são muito originais, o relato deixa muito romance bom no chinelo.

Morro de dó porque em mudanças a gente sempre perde coisas; perdi meu precioso volume quando vim para a Alemanha (não consegui descobrir o paradeiro do tijolão). Vou ter que comprá-lo novamente, pois é uma referência insubstituível. Ainda mais agora,  conhecendo sua história, tem ainda muito mais valor.

O título da versão alemã do livro de Simon Winchester, “Der Mann, der die Wörter liebte” (o homem que amava as palavras), é, na minha opinião, mais atraente e elucidativa que o original em inglês “The surgeon of Chrowthorne” (o cirurgião de Chrowthorne). Procurei no Google e achei “O professor e o louco” em português (ruim demais, parece tradução de nome de filme de sessão da tarde).

A história da elaboração do famoso dicionário, apesar da imensa quantidade de colaboradores envolvidos, foca-se em dois personagens principais: o primeiro é o organizador e editor da obra, James Murray, poliglota e gênio reconhecido em vários assuntos que, devido à pobreza da família, nunca conseguiu frequentar uma universidade; mesmo assim foi aceito na esnobe e seletíssima Sociedade Filológica Britânica e teve a ele confiada a hercúlea tarefa de terminar o dicionário (cujo trabalho, que já durava mais de 20 anos, ainda não tinha saído da letra “A”). Foram mais de 40 anos de dedicação exclusiva e esforço focado.

O segundo é principal colaborador do Dr. Murray: o Dr. William Chester Minor, nascido no Ceilão (hoje Sri Lanka), filho de um pastor protestante americano em missão naquele país. O pai vinha de uma família de posses e era proprietário de uma editora que distribuía as palavras sagradas em missões pelo mundo. Na adolescência, William, também poliglota e cultíssimo, foi enviado à terra natal de seus pais para estudar medicina. O período em que serviu o exército parece ter influenciado bastante sua estrutura psicológica.

O livro começa com o Dr. Murray indo visitar o Dr. Minor, pois, apesar de residirem a apenas algumas centenas de quilômetros um do outro, trabalharam de maneira colaborativa por mais de 20 anos sem nunca terem se encontrado pessoalmente. Dr. Murray estranhou que o Dr. Minor nunca tivesse tido a curiosidade de ir até a Universidade de Oxford, mas sabia que não raro sábios e eruditos eram também pessoas tímidas e introspectivas. Chegando à imponente construção em estilo vitoriano, anunciou seu nome e foi recebido por um senhor muito distinto e educadíssimo. Devidamente instalado na cadeira de visitantes na sala finamente decorada, começou o discurso de agradecimentos e elogios, ressaltando o quanto o trabalho voluntário e a dedicação sem limites tinham sido essenciais para que o projeto fosse bem sucedido. Eis que Dr. Murray é interrompido por seu anfitrião:

– Desculpe, deve estar havendo um engano; não sou quem o senhor está pensando. Esse é um hospício e sou o diretor. O Dr. Minor é um dos nossos pacientes; ele está conosco há mais de 30 anos.

A história propriamente dita começa então a ser narrada com o evento que ocasionou a prisão, um assassinato a sangue frio de um operário que voltava do trabalho de madrugada. Dr. Minor, que tinha alucinações e achava que estava sendo perseguido, simplesmente abateu o inimigo imaginário (que, por sinal, acompanhou-o ainda por um bom tempo, apesar de se sentir um pouco mais protegido dentro do hospital).

Dr. Minor era de família rica e pôde se instalar com conforto em sua cela (na verdade, duas, pois uma ele usava como biblioteca pessoal e escritório). Com todo o tempo do mundo disponível e uma inteligência muitíssimo acima da média, além de recursos para comprar o material que referência que fosse preciso, não admira que sua colaboração para o projeto tenha sido tão valorosa.

O Oxford English Dictionary foi um marco na história da língua inglesa porque pela primeira vez foram catalogadas todas as palavras possíveis e usadas citações bibliográficas diversas da literatura para fundamentar as definições e exemplificar sentidos. Esse trabalho monumental só foi possível porque o Dr. Murray convocou um exército de voluntários cuja tarefa era encontrar citações e enviá-las pelo correio na forma de pequenos bilhetes, com as palavras e os trechos dos textos onde elas haviam sido encontradas. Dr. Minor ajudou a selecionar, organizar e editar as mais de duas toneladas de papeizinhos de voluntários. Pensa.

E a gente aqui achando que o trabalho colaborativo, a wikipedia, o home office eram coisas muito revolucionárias…

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