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Para quem nunca me assistiu numa palestra, aqui vai um compacto de três minutos que a DMT Palestras fez da última vez que estive no Brasil, falando sobre identidade corporativa em um evento de RH.

Para o povo que estuda identidade corporativa, também pode ser útil. Quem quiser saber mais, é só escolher “identidade corporativa” aí na nuvem de palavras (ao lado, no desktop e embaixo, nos smartphones) que aparece um monte de textos e dicas sobre o assunto.

Divirtam-se aí :)

 

Pertinho do céu

Morar em Berlim me faz ter esperança que o mundo ainda tem jeito. Fazia tempo que eu sabia da existência do Klunkerkranisch, mas hoje resolvi fazer uma visita. Olha, restaurei minha fé na humanidade mais um pouco.

Já disse aqui que shopping center em Berlin não faz o menor sucesso; os maiores são prioritariamente frequentados por turistas, mas a maioria é centro comercial de bairro mesmo.

Outra coisa que já falei aqui é que só tem carro quem realmente precisa. E que jamais vai passar pela cabeça de um Berlinense pegar um carro para ir passear (?!!) num shopping. A cidade tem mais de mil parques e jardins, quase uma centena de lagos, que competem arduamente com os montes de cafés e museus. Shopping não tem chance mesmo.

Pois um deles (dos pequenos e antigos), instalado no centro do bairro hype de Neuköln, fica num prédio de 6 andares. O shopping ocupa os três primeiros, no quarto tem a biblioteca pública e os dois últimos são de estacionamento. Só que, como falei, quase ninguém vai de carro ao shopping.

Eis que pessoas querendo mudar o mundo (tem muitos deles nessa cidade) resolveram fazer um projeto para transformar os telhados planos da cidade em áreas verdes. Conseguiram mudas de plantas com o Ministério do Meio Ambiente e, pasmem: desativaram o estacionamento do sexto andar.

O que tem instalado lá agora é bem a cara de Berlim: um misto de jardim, horta comunitária, clube aberto, caixa de areia para crianças, street-food, cinema, teatro e shows ao ar livre. Nos intervalos, tem sempre um DJ tocando, das 10 da manhã à 1h30 do dia seguinte. A partir das 16h eles cobram ingresso (não sei quanto é porque cheguei antes, mas deve ser simbólico). É chegar e arrumar um sofá, pufe, banquinho ou sentar/deitar num tablado curtindo a vista maravilhosa.

É bem despojado, como tudo na cidade: móveis reaproveitados, muito pallet, vasinhos, jardins, matinhos, gambiarras e muita criatividade. Não tem moda, não tem exibicionismo, não tem lounge, não tem comida gourmet, ostentação é prática ignorada e ninguém fica desfilando por lá. O povo só quer se divertir num belo cenário e ser feliz. E disso, os berlinenses entendem mais que ninguém, pois conseguem se concentrar no essencial, sem perder tempo com firulas e jogos de aparências.

Tudo foi construído por iniciativa dos cidadãos; o Klunkerkranisch não tem dono, pois faz parte de uma associação que mantém o lugar. O legal é que você não precisa consumir nada, o espaço é livre para todo mundo curtir. Esse é o primeiro “telhado” a ser transformado em área verde cultural e funciona desde junho de 2013; o melhor é que esse povo do bem quer ocupar todos!

Fala sério: não é demais? Não é à toa que amo tanto esse lugar…

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Repare como o estacionamento do 5. andar está vazio.

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Pátio dos sonhos

Um dos hábitos que tenho ao andar pela cidade é entrar em toda porta que aparecer aberta, pois é garantido que vai ter surpresa boa: ou é o piso, ou a escada, ou a luminária ou, na maioria das vezes, o pátio interno do prédio.

Em Berlim, quase todos as construções (se não todas) têm um pátio, geralmente arborizado, onde ficam as lixeiras e as bicicletas.

Pois num desses domingos de mercado de pulgas que amo frequentar, estava passando pela Boxhagener Platz quando vi uma porta aberta num edifício bem comum. Entrei, claro.

Olha só que que eu achei!!

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E aí, gostou?

 

Para quem é bibliófilo

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Mesmo tendo lido depois de adulta, confesso que adorei “O mundo de Sofia”, do Jostein Gaarder. Daquelas obras que você vai devorando sofregamente e depois fica com pena que acabou. Depois ainda teve “O dia do curinga”, “Maya” e “Através do espelho”, todos ótimos.

Não dá para dizer o mesmo de “Bibbi Bokkens magische Bibliotek”, que ele escreveu junto com Klaus Hagerup. Verdade seja dita: não é culpa do livro, que é muito bom. É que Jostein escreve basicamente para adolescentes e pré-adolescentes e depois de ler duas ou três obras dele e tantas outras de outros autores, fica difícil não desvendar a trama logo no começo e pouco se surpreender com as reviravoltas da história, que ficam previsíveis para quem é “macaca velha” como eu.

O livro, escrito em 1999, ou seja, antes da internet ser um meio popular de comunicação, conta a história de dois primos: Nil, um rapaz de 12 anos, e Berit, uma menina de 14. Ambos noruegueses (como os autores), eles passam as férias em Fjærland, cidadezinha onde a menina mora.

Por sugestão de uma amiga comum, resolvem trocar cartas em um caderno depois que ele volta para Oslo. Funciona assim: Nil escreve o que viveu nos últimos dias e manda para Berit pelo correio; ela recebe, escreve e envia de novo. Bem pouco prático em tempos de internet, mas com certeza uma brincadeira que eu iria curtir de fazer com minhas primas se tivesse tido a ideia antes.

A questão é que aparecem uma mulher misteriosa com algumas coisas em comum entre os dois; cartas esquecidas, bilhetes achados, envelopes roubados.  Aparecem outros personagens misteriosos também e  as coisas ficam tensas. Os acontecimentos e enigmas estão sempre relacionados ao amor de ambos pelos livros e pelo histórico da tal mulher (a Bibi Bokkens do título), que é bibliotecária.

A missão deles é desvendar o mistério que cerca uma biblioteca mágica que guarda todos os livros publicados até hoje (uma versão moderna na Biblioteca de Alexandria, ó sonho!) e mais: os que ainda são apenas esboços e ainda serão publicados. No caminho, conta a história dos incunábulos (livros publicados logo depois da invenção da prensa móvel, por Gutenberg) e o sistema de classificação decimal por assuntos criado por Dewey.

Se você tem algum pré-adolescente em casa que gosta de ler, não perca a chance. E se você mesmo também curte essas adoráveis pilhas de papel encadernado, mergulhe sem medo.

Uma verdadeira novela

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Lutei por mais de 140 páginas e desisti. Detesto fazer isso, mas estava ficando mortalmente entediada com “Von der Schönheit” (Sobre a Beleza) da prestigiadíssima Zadie Smith e não estava vendo perspectiva de mudar a situação nas 370 que ainda faltavam. Que me desculpem os fãs da escritora, mas foi o que me restou.

Fazia tempo que estava curiosa para ler Zadie, considerada uma das revelações da literatura britânica nos últimos anos. Para mim, seu principal mérito é que o núcleo central da trama é composto por negros e a cor da pele deles em nada importa na história, ao contrário na maioria das obras de outros autores, onde os protagonistas ou são escravos ou vivem num submundo fugindo de preconceitos.

Já estava na hora de personagens negros contarem histórias onde a cor da pele não é a protagonista. Não estou negando o racismo, que, infelizmente, continua firme e forte, nem diminuindo os romances históricos de lutas e conquistas, mas penso ser saudável essa mudança de cenário.

Para mim, a autora coloca os personagens onde eles sempre deveriam ter estado: num papel comum, onde a cor não importa, é apenas uma característica física como outra qualquer. Na verdade, a cor até tem seu papel nas questões existenciais dos personagens, mas é compreensível, já que as questões existenciais integram a origem e a história da pessoa. Mais ou menos como um judeu questionando a própria existência e seus valores, ou um imigrante de qualquer país com cultura diferente. Não é a questão central, apenas faz parte da constituição de cada história de vida e da chave de seu entendimento.

No livro, um adolescente filho de um professor universitário, apaixona-se pela filha do maior rival acadêmico de seu pai. O problema é que fico com a impressão de estar assistindo uma novela das oito daquelas passadas no Leblon, onde se gasta capítulos inteiros descrevendo banalidades do dia-a-dia que não têm relevância alguma na trama (tipo dois personagens discutindo o que vão comer no almoço ou se um vai primeiro ao banco e depois na padaria). Não gosto de autores que desperdiçam palavras, frases, parágrafos inteiros sem dizer nada.

Não é que eu considere a autora ruim (até porque não li o livro inteiro);  a moça não deve ser tão respeitada e consagrada à toa. Talvez ainda tente mais uma vez, com outra obra. Parte da minha percepção pode ser devido ao fato de ter lido a versão em alemão, língua que estou longe de dominar totalmente; parte porque não me identifico com o estilo.

Se você quer se arriscar, vá lá. Mas vá com tempo, pois as coisas demooooooram para acontecer…

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Top 10: as fotos mais legais de julho

Verãozão em Berlim, esse mês teve fotos polêmicas, outras nem tanto e algumas compartilhadíssimas. Veja aqui o que bombou e escolha sua preferida.

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1. Todo mundo adorou os Minions no metrô. Mas como não amar essas fofuras?

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2. Essa poça d’água na calçada também rendeu vários likes. Co-autoria de São Pedro :)

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3. Em alguns domingos de verão acontece uma feira de artes sobre a Oberbaumbrücke, que fica interditada para esse fim. É muita beleza concentrada num lugar só.

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4. Esse senhor pensativo sobre a Oberbaumbrücke lembrou muito meu pai. Bem que poderia ser ele, né? Saudades…

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5. Essa foi a mais polêmica e também a mais compartilhada. Para mim, essa imagem simboliza a civilização, onde uma moça pode tirar a roupa no parque num dia de calor e simplesmente não correr nenhum risco de ser atacada, estuprada ou mesmo xingada. Ela ficou lá, de boas, curtindo a vida sem incomodar ninguém ou ser incomodada. Totalmente na sua. Meu sonho é que o mundo inteiro um dia seja um lugar onde as mulheres possam ser o que quiserem sem ser julgadas, agredidas ou maltratadas. Pena que, pelos comentários, deu para ver que muita gente ainda se incomoda muito com a vida alheia… ainda estamos longe.

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6. A primeira vez que uma foto minha saiu no metrô de Berlim fez bastante sucesso entre os seguidores. O nome saiu errado, mas eles acertaram na semana seguinte (outra foto). Essa semana mais duas foram escolhidas! Daqui a pouco vou ter que fazer uma seção com as fotos que mais bombaram no metrô….rsrsrsr

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7. E a Oderbergerstraße, a rua mais linda da cidade, continua encantando…

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8. Tenho uma foto dessa árvore no inverno, toda peladinha. Vou fotografá-la no outono e fazer uma série. Ela é linda!

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9. Quando faz muito calor, os chafarizes são liberados para todo mundo se refrescar. Delícia!

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10. A perfeição é assim.

Veja onde piso: especial “posso entrar?”

Nas minhas andanças pela cidade, reparei que algumas portas têm tipo um tapetinho de cerâmica bem na entrada. Um mais lindo que o outro; alguns estão bem desgastados (devem ter muitos anos e é um local onde todo mundo pisa), mas mesmo aqueles que estão bem maltratados são, para mim, puro charme.

Decidi compartilhar uma parte da minha coleção com vocês. Que tal?

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6 perguntas sobre trabalhar na Alemanha

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Não estou dando conta de responder ao tanto de emails e mensagens de gente querendo vir morar na Alemanha. A maior parte é da área técnica (engenheiros, analistas de sistemas, etc) ou criativa (publicitários, designers, etc).

Selecionei as perguntas mais comuns; vai que você está pensando em me escrever para perguntar justamente isso, né?

1. Como você veio parar na Alemanha?

Meu marido veio a convite de uma empresa alemã. Ele é um engenheiro extremamente qualificado e já havia morado aqui antes por 6 anos antes de fazer o mestrado na Inglaterra (o doutorado foi no Brasil); a vaga dele foi divulgada por cinco semanas aqui (hoje em dia não precisa mais se a pessoa vier com um emprego que pague acima € 44 mil/ano). Como não apareceu nenhum alemão com o perfil, foi contratado como diretor da empresa com a Blaue Karte (visto especial para alta qualificação). Depois de 21 meses contribuindo para a previdência social, ele obteve a autorização permanente para trabalhar e residir. Hoje temos nossa própria empresa de tecnologia (infelizmente, ainda não estamos contratando).

2. Dá para ir sem visto de trabalho?

Se vier como turista, pode ficar 90 dias por semestre na União Europeia sem visto, mas não pode trabalhar. Aí é só comprar a passagem e vir. Se vier como estudante, penso que tem que estar matriculado numa escola/universidade; aí o prazo pode ser bem maior (acho que mais de um ano), mas também não pode trabalhar. Para conseguir esse visto, é preciso comprovar que tem renda suficiente para se manter nos meses em que pretende ficar. O visto de trabalho eu não sei exatamente como funciona, mas o melhor de tudo é vir já com um emprego (aí, geralmente a empresa se encarrega de dar as orientações necessárias). Não se pode perder de vista que a concorrência é grande; italianos, espanhóis, portugueses e todos os profissionais que moram na União Européia não precisam de visto para morar e trabalhar aqui. Naturalmente, os brasileiros que possuem cidadania europeia também não têm esse problema.

3. Precisa falar alemão?

Olha, se a pessoa for um expoente na sua área, pode ser contratado só sabendo inglês, mas aí tem que trabalhar numa start-up (pessoal mais jovem e cosmopolita) ou numa multinacional. No começo dá para se virar só com o inglês, mas a pessoa precisará de ajuda, pois todos os contratos de serviços (aluguel, telefonia, transporte, internet, seguro saúde, registro de moradia, etc) são em alemão.

Outra coisa; para um adulto brasileiro, aprender alemão não é rápido como aprender inglês ou uma das línguas latinas próximas à nossa (espanhol, italiano, francês). Leva mais tempo, porque, além de uma gramática muito mais complexa, é preciso aprender a pensar de um jeito completamente diferente. Leia aqui sobre a minha experiência pessoal, caso tenha curiosidade.

4. O mercado está bom para a profissão tal?

Depende muito do currículo do profissional. Como em qualquer lugar do mundo, quem é mais qualificado, tem mais chances. Berlim, que é onde moro e conheço mais, é uma cidade pobre para os padrões alemães porque não tem muitas indústrias e a economia está mais voltada para serviços, onde a rede de relacionamentos é tudo. Tem muita gente da área criativa morando aqui e se equilibrando para pagar as contas no final do mês, pois a maior parte trabalha como freelancer. Há também muitas start-ups, mas essas geralmente não têm tantos recursos para contratar. Já em outras cidades da Alemanha, mais ricas, como Hamburgo, Munique e Stuttgart, penso que há um mercado mais aquecido em termos de trabalho, principalmente na área técnica. É nesses lugares que o dinheiro está.

Se você quiser fazer universidade ou mestrado aqui, sugiro esse ótimo post da Agenda Berlim (clique aqui para ler).

5. Como eu arrumo um emprego aí?

Tem alguns sites onde é possível pesquisar as vagas e o perfil que eles estão precisando. Veja alguns links:

Experteer

Meinestadt

Jobs.de

Aktuelle Jobs

Stellenanzeigen

Artconnect Berlin

Além desses, é possível pesquisar a empresa onde a pessoa quer trabalhar e entrar no portal para ver as vagas disponíveis. Algumas têm filiais no Brasil, o que pode facilitar o processo de recrutamento.

6. Dá para ganhar bem?

Essa pergunta é tão comum que fiz até um post só falando a esse respeito. Clique aqui para ler.

Atualização: Esse site aqui mostra os salários das profissões de nível superior nas diferentes regiões da Alemanha.

***

Bem, isso é o que tenho de informações por ora. Se alguém tiver mais para contribuir, fique à vontade para usar o campo de comentários.

Espero que tenha ajudado um pouco e viel Glück!!

 

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Bendito caso: epílogo

Se você não leu ou não se lembra, leia as partes 1 e parte 2 para entender a história.

*****

Bem, entreguei meus “filhos” para a Leve Design e aguardamos. Uma semana depois, foi nos enviada a nova marca.

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Quando vi a proposta, não vou enganar ninguém: fiquei um pouco chocada. É que tanto a Cássia como eu pensamos que o trabalho seria apenas redesenhar o espelho de uma maneira mais profissional.

Mas as meninas do estúdio não são desenhistas; são designers de verdade (e das boas). Elas repensaram a marca na íntegra.

O primeiro sentimento foi de estranheza, pois não reconheci meus conceitos lá. Depois, analisando minha reação, entendi que era puro apego: o redesenho conseguiu aproveitar tudo dos conceitos desenvolvidos antes. As aplicações da marca, com direito a variação horizontal, monograma e estampa, definitivamente conquistaram nossos corações e mentes.

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Fazendo uma autoanálise entendi o que significa colocar em prática o que sempre defendi:  quando a gente tem foco no cliente, e não no umbigo, desapegar é fácil (ainda mais se o trabalho do profissional ficou evidentemente melhor que o seu).

O resultado é uma marca que me encheu de orgulho ter participado da concepção: uma autêntica experiência de co-criação muito gratificante para mim e, pelo que conversamos, para todas as partes envolvidas.

É sempre um prazer trabalhar com gente competente e ver o final feliz acontecer. Nesse projeto, cada uma fez o que sabe fazer melhor: eu desenvolvi o conceito a partir da identidade, a Leve Design projetou a marca gráfica e a Cássia vai fazer tudo isso virar um sucesso.

Aliás, nossa super empreendedora preparou um depoimento mostrando o ponto de vista dela nessa história toda. Está lá no site da Bendita Pele; clique aqui para ler.

***

BÔNUS: Depois dessa trabalheira toda, não consegui resistir e vou compartilhar a experiência hilária que a Cássia teve quando mandou fazer a placa que ficaria na fachada da loja. Ela mandou os arquivos para a empresa e olha o que a pessoa manda de volta, como solução para a fachada dela:

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A moça quase teve uma síncope quando viu isso e respondeu que a designer iria surtar se a placa ficasse assim, que era para fazer exatamente como estava no desenho. O responsável afirmou categoricamente que não precisava ser exatamente igual, que ela podia confiar porque ele sabia o que estava fazendo. Ele também era formado em design…. aiaiai!!!

Bendito caso: parte 2

Se você não leu ou não se lembra da parte 1, clique aqui para entender a história.

***

Nesse ponto da jornada, eu já tinha a identidade da empresa definida, suas características essenciais, e as diretivas principais para desenvolver a marca gráfica.

Gastei quase duas semanas rabiscando e tentando encontrar um conceito que sintetizasse o DNA da empresa e fugisse das borboletas óbvias e das mulherzinhas estilizadas. Por causa da ideia do retrô, até pensei numa pin-up; mas logo me dei conta de que poderia funcionar muito bem como apoio, jamais como marca principal. Isso porque a solução deveria contar com os seguintes atributos:

alta pregnância: é a capacidade de ter suas formas identificadas à primeira leitura em qualquer contexto. Sob esse ponto de vista, quanto mais limpa e mais simples, maior a pregnância.

legibilidade em modo reduzido: mesmo em tamanho pequeno, como num cartão de visitas, a marca gráfica precisa continuar sendo legível.

flexibilidade na aplicação: em algumas ocasiões, a marca gráfica precisará ser aplicada apenas em P&B, ou toda em preto, ou toda em branco. Em nenhum dos casos ela pode perder a capacidade de comunicar a ideia.

capacidade de ser vetorizada: transformar uma marca gráfica em vetores significa conseguir transformá-la em equações matemáticas. Por que isso é tão importante? Porque se tenho uma marca que é construída por meio de pixels, como uma fotografia, se eu precisar ampliá-la do tamanho de uma parede, vou ter que ter uma resolução muito alta para não perder informação, e sempre haverá um limite para ampliação que depende do número de pixels do arquivo original. Se a figura puder ser traduzida em figuras geométricas e equações matemáticas, não existe limite de tamanho nem para mais, nem para menos. É só mudar o fator de escala nas equações e sempre vai ficar exatamente igual ao original.

Bem, consegui chegar em dois conceitos que, a meu ver, cumpriam os requisitos básicos e traduziam bem a ideia a ser comunicada.

1. Espelho. A ideia do espelho veio com o estudo de formas retrô usadas como referência à cosmética. Pesquisei embalagens antigas e fui simplificando até chegar na moldura desenhada à mão (que traduz o trabalho manual e personalizado da esteticista, assim como o atendimento especial na loja, que seria quase uma consultoria em bem-estar). E o espelho, além disso, trata da auto-estima, do auto-conhecimento e da relação de cada pessoa consigo mesma. A proposta da Bendita Pele é justamente melhorar essa relação e torná-la mais agradável.

Com relação às cores, usei alguns tons como exemplo, mas não fazem parte da configuração original, que admite variações dentro de uma paleta determinada.

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Alguns exemplos de aplicação: cartão de visitas (frente e verso) e selo para embalagem.exemplos1

2. Anjo. O segundo conceito refere-se à palavra bendita, que também quer dizer abençoada. Como a questão do cuidado, da atenção, do bem-estar são muito fortes na identidade, pensei na ideia das asas de um anjo protetor. A Bendita Pele é traduzida aqui como o abençoado órgão do nosso corpo que nos protege e nos defende de todo o mal, assim como nos acolhe e nos permite que tenhamos boas sensações e prazer. Nesse caso, as asas do anjo são estilizadas e desenhadas igualmente à mão pelo mesmo motivo da alternativa anterior.

As cores também variam dentro da paleta e apresentei a solução com dois exemplos diferentes para mostrar a flexibilidade na aplicação que não compromete a identificação e o reconhecimento da marca.

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Aguns exemplos de aplicação: cartão de visitas (frente e verso) e selo para embalagem.

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Ambas gostamos das duas soluções, mas a dúvida continuava: qual delas poderia traduzir melhor o DNA da Bendita Pele?

Eis que a Cássia me perguntou se poderia consultar amigos e clientes (eu não queria que ela divulgasse que era eu que estava fazendo o trabalho porque, como disse, não faço isso profissionalmente e nem ofereço esse serviço). Disse que ela poderia mostrar, claro, desde que explicasse o contexto: que eu não era profissional da área e estava, digamos, “quebrando um galho”.

Foi aí que ela foi fazer um curso e mostrou as duas opções para a iluminada Mari Guedes (o estúdio Leve Design, do qual ela é sócia, era uma das opções que eu havia recomendado inicialmente).

Para nossa surpresa, o Leve Design generosamente comprou a causa: decidiu entrar na brincadeira e também participar da construção da identidade visual do empreendimento.

Como a parte mais trabalhosa, que é a definição do conceito, já estava pronta, o trabalho consistia principalmente em aprimorar a parte gráfica e sintetizar as ideias. Além disso, era necessário trabalhar melhor a tipografia (como não trabalho com isso, usei as de uso público; profissionais têm no acervo outras mais adequadas, compradas para essa finalidade).

No próximo capítulo veremos como terminou a novela com final feliz! Clique aqui para ler a última parte.

Sorria, você está sendo energizado!

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Quem me acompanha sabe que dificilmente posto assuntos muito pessoais, a não ser que a experiência possa ser útil para alguém. Pois esse é o caso agora.

Semana passada tive que fazer uma cirurgia na boca (uma daquelas aborrecidas operações que incluem dentes, gengivas, muita linha preta e injeções doloridas que não valem a pena detalhar). Fato é que saí do consultório parecendo que levei um soco no queixo e com a recomendação de falar o mínimo necessário, mexer a boca muito de leve, e usar uma placa de contenção no palato. Beleza.

A dor e o desconforto são coisinhas chatas, mas fazem parte. Como quase todo mundo, já fiz cirurgias diversas e passei momentos doloridos (felizmente poucos, pela minha lembrança). Mas nunca tinha me sentido tão mal, apesar da intervenção ser tecnicamente simples.

Passei a semana me sentindo fisicamente fraca (mas o negócio foi só na boca!), sem ânimo para nada. Olho no espelho e vejo uma mulher 10 anos mais velha, de aparência acabada. As pessoas que geralmente me tratam bem em todos os lugares (mesmo com famosa “frieza” dos alemães, sempre me senti acolhida) mal me olham. Até o Conrado achou que eu estava muito diferente. Estou mesmo. Nem passear na cidade, a coisa que mais adoro fazer, me animou no final de semana. E olha que numa outra oportunidade já caminhei 6 quarteirões com fortes náuseas e vomitando em duas praças no caminho só para ver um grafite, toda feliz (sim, tenho vergonha de dizer isso, mas é verdade….rsrsrs).

Alguma coisa estava errada comigo e eu precisava muito descobrir o que era; não estava gostando de jeito nenhum da pessoa que estava vivendo nesse corpo fraco. Ontem, conversando longamente com meu personal analista-marido, finalmente descobri: é que eu não podia mais sorrir por recomendações médicas (gargalhar então, nem pensar!) e isso nunca tinha me acontecido antes.

Nunca tinha reparado, mas estou sempre sorrindo, sempre. Isso me anima, me fortalece, me dá energia. Quando a gente não sorri, murcha completamente em todos os sentidos, é impressionante, juro! Como disse, já passei por alguns perrengues muitíssimo mais difíceis (na verdade, incomparáveis), mas eu podia sorrir e até fazer piada da desgraça. Mas agora fui proibida e não consegui dar conta.

Não é muito louco isso, minha gente? Preste atenção e faça o teste: fique um dia sem sorrir. É para acabar com a pessoa.

Se o seu médico não proibir expressamente, por favor, sorria. Mesmo que não tenha motivos, mesmo que não tenha vontade, mesmo que o mundo esteja caindo na sua cabeça, mesmo que você não queira, faça uma forcinha. Todo dia, sempre que puder, em todas as ocasiões; não tenha medo de ficar com cara de bobo. Eu vivi feliz 48 anos com cara de boba e posso dizer que é infinitamente melhor, mais divertido e mais saudável do que essa interminável semana encarnando a séria carrancuda.

Bom, esse era o recado. Amanhã vou tirar os pontos e tudo vai voltar a ser como antes.

Desejem-se sorte :)

***

PS: Esse desenho é da nova safra: mulheres sorridentes.

Bendito caso: parte 1

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Já falei várias vezes, mas não custa repetir: não sou designer. Sou engenheira eletricista por formação e meu contato com o design aconteceu somente após uma pós-graduação seguida de um doutorado na área. Por isso, não ofereço serviços em projetos: nem web, nem produto e nem gráfico. Minha expertise é gestão e sempre busquei trabalhar junto com os designers para materializar os conceitos.

Dito isso, preciso dizer que, mesmo assim, baseada em tudo o que já estudei a respeito (e não foi pouco), já me arrisquei a projetar alguns sistemas de identidade visual; foram somente três, para amigos, e depois de muita insistência. Verdade que que eles ficaram bem felizes com o resultado, e eu não me envergonho de tê-los feito, mas isso não faz de mim uma profissional no assunto.

Aí apareceu a Cássia Souza.

Essa moça é dessas pessoas que encanta logo de cara; sua principal e mais arrebatadora característica, além da simpatia, é a capacidade empreendedora. E ela é muito, mas muito interessada em aprender. Para se ter uma ideia, a formação dela é em estética, mas a conheci numa palestra minha sobre identidade corporativa.

Há algum tempo a Cássia me contou que o prédio onde estava localizada a estética, no sexto andar, tinha uma sala comercial vaga no térreo. Ela pensava em abrir uma loja associada à estética, mas não tinha sócia. A ideia não lhe saía da cabeça, até que, quando todo mundo está fechando negócios, essa maluca resolve abrir e apostar tudo na abertura de um. Como resistir a malucas?

O fato é que ela decidiu abrir mesmo sem sócia e precisava de uma marca para a empresa. A Cássia, de tanto estudar e assistir palestras, sabe exatamente o valor do design, tanto que já tinha contratado alguns (sempre com diploma). Pena que as experiências foram bem desagradáveis; eu tinha vontade de chorar quando ela me mostrava os trabalhos. Cada coisa mais tosca que a outra; alguns “profissionais” têm coragem de cobrar para copiar e colar cliparts do Google e chamar aquilo de marca. Ou então fazer desenhos baseados em tendências ou gostos pessoais e perguntar para os amigos se ficou bacana. Preocupada com a tragédia que estava se desenhando, recomendei três profissionais nos quais confio muito e que fariam um excelente trabalho, mas nesse momento ela não tinha condições de remunerar a competência deles à altura, pois estava fazendo uma reforma grande e comprando estoques.

Com medo que a moça contratasse mais um daqueles designers que usam os concorrentes como exemplo e para quem o ramo de estética se resume a borboletas ou mulherzinhas estilizadas (os mais ousados arriscam uma flor de lótus), acabei decidindo assumir a tarefa. Qualquer coisa que eu fizesse iria ficar melhor que esses trabalhos sem conceito, pé e nem cabeça; era a única certeza que eu tinha.

Bem, o primeiro passo, como todo designer sabe (ou deveria saber), é definir o conceito e entender a identidade da empresa, seu DNA, aquilo que a define e a diferencia de todas as outras.

Para isso, apliquei uma versão simplificada do workshop de identidade corporativa que desenvolvi para empresas (está tudo descrito em detalhes no meu livro “DNA Empresarial: identidade corporativa como referência estratégica). Ela fez algumas dinâmicas sozinha e eu sabia que haveria distorções, mas era isso ou nada (eu moro em Berlim e ela em Belo Horizonte). Tentei fazer uma análise bem objetiva da essência da marca e consegui traduzir seu DNA em algumas palavras: delicadeza, cuidado, personalização, equilíbrio, leveza, elegância, acolhimento, estética, força, carisma, liberdade e fortalecimento da auto-estima.

O próximo passo foi discutirmos um nome que fosse coerente com esse conjunto de atributos. Viver Bem, o blog que ela mantinha antes, era genérico e vago demais e não tinha nada do especial que traduzia o serviço personalizado do empreendimento; podia ser marca de biscoito ou qualquer outra coisa, além de já estar registrado. Ficamos quase um mês trocando ideias freneticamente até que chegou-se ao Bendita Pele (uma estética que também vende produtos de perfumaria para o corpo e para banho).

Para a materialização desse conceito, ficou definido que as formas deveriam ser orgânicas, amigáveis, delicadas, arredondadas, equilibradas e elegantes. As cores deveriam ser suaves, acolhedoras e calmantes. Decidimos também por utilizar fontes tipográficas manuscritas para destacar o trabalho personalizado da estética, do cuidado um a um. Outra referência era usar uma estética mais retrô, referindo a marca ao tempo em que as pessoas tinham mais tempo para si e a vida era menos corrida.

Até aí eu estava no meu elemento, na minha especialidade, na área em que passei anos estudando. Na época em que fazia consultoria, sempre contava com um designer na equipe para materializar essas ideias na prática; mas dessa vez não teve jeito, tive que assumir a função. A próxima etapa, mais sofrida e demorada para mim, foi gerar as alternativas.

Saiba o final feliz da construção dessa marca na próxima semana. Só posso dizer que os caminhos acabaram sendo bem diferentes do que havíamos imaginado no início.

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Clique aqui para ver a parte 2 dessa história.

Ladrões de beleza

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Acabei de ler “Diebe der Schöneheit“, de Pascal Bruckner e, olha, posso dizer que gostei. Não foi tão fácil de ler porque não é um livro de ação  (aqui os personagens pensam e filosofam) e as limitações com o alemão certamente me fizeram perder algumas sutilezas da escrita. Mas a história é fascinante, a ponto de me deixar impressionada. A boa notícia é que andei pesquisando e a obra já existe em português, com o título “Ladrões de beleza“.

Benjamin é um sujeito meio sem escrúpulos, preocupado basicamente com sua sobrevivência e bem-estar. Não é um mau caráter, mas digamos que lhe falta um pouco de empatia. Por conta de um romance que ele escreve na forma de um mosaico de frases roubadas de autores célebres, acaba conhecendo Helène, uma  parisiense jovem, rica e entusiasmada com o melhor que a vida pode oferecer. Ela praticamente adota Benjamin: compra-lhe roupas caras, ensina-o a apreciar bons vinhos e comidas, enfim, mima até não poder mais o moço, que está sempre entediado.

Eis que os dois estão voltando de um fim de semana nos Alpes e ficam presos na estrada por causa de uma tempestade de neve, perto de um vilarejo ermo. São socorridos pelo mordomo de um casarão próximo e aí começa o conto de horror.

*** Atenção: daqui em diante tem spoiler. Se quiser ler o livro pare aqui ***

O casal de proprietários é louco de pedra, ajudado pelo mordomo corcunda, fiel serviçal. A mulher, professora de filosofia, que teve uma juventude devassa e promíscua em busca de um sentido para a vida, é a chefe da quadrilha. Ela domina o marido, um advogado aposentado bem sucedido, e o mordomo. Juntos, eles constroem porões onde mantêm presas as jovens mais belas que conseguem encontrar.

A ideia é que gente bonita (serve para homens também, mas eles são mais difíceis de capturar) é culpada pelas outras pessoas se sentirem feias. Eles investigam a vida das eleitas e escolhem aquelas que usam a própria beleza para, de alguma forma, usar as outras pessoas. Fazem um tribunal próprio, sem que as “culpadas” tenham a menor chance de se defender, escolhem as vítimas, sequestram e as trancam por um ou dois anos, até que a beleza murche completamente e dela não sobre mais nada. As moças ficam no escuro, sozinhas, sem nenhuma informação, referência de tempo e nem o motivo pelo qual estão presas. Um belo dia, quando estão feias o suficiente, são devolvidas ao mundo completamente destruídas (e, na maioria dos casos, desequilibradas mentalmente também).  Fiquei especialmente impressionada com a crueldade dessa descrição, cheguei até a sonhar com isso.

O casal acaba sendo vítima do trio e não consegue fugir. Não porque sejam modelos de beleza, mas porque acabam conhecendo o segredo. O acordo para que sobrevivam é que Helène seja mantida presa e que Benjamin viaje até Paris com o mordomo para capturar três exemplares de beldades.

Passam-se meses, e a coisa só piora. No final, Benjamin ainda descobre que os malucos são tão bem conservados porque o cheiro das moças é rejuvenescedor (achei um pouco desnecessária essa alusão sutil ao “O perfume” de Patrick Suskind).

Benjamin conta a história toda para uma jovem médica psiquiatra que está fazendo plantão num hospital em Paris que fica intrigada com tudo. Ela consegue conferir e confirmar algumas pistas; o que ele conta parece ser verdade, mas não há muito como ajudar. Quando ela visita o casarão, tudo parece abandonado.

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Vou abrir aqui um parênteses sobre uma experiência pessoal que me aconteceu, enquanto lia o livro. A Bee Rosa, que acompanho no Facebook, faz colares lindos a partir de flores naturais colocadas dentro de bolinhas de vidro. Ela me ofereceu um presente: faria um colar com minha flor preferida, bastaria colhê-la e enviar a ela pelo correio. Fiquei toda empolgada com a ideia, e coloquei uma caixinha pequena dentro da bolsa para ir recolhendo florzinhas lindas por onde passasse.

Mas na primeira, levei um choque quando abri a mochila: a caixinha era um quarto escuro. A flor estava toda feliz pegando um sol com as amigas e curtindo a vida. Eu fui lá, tirei-a do seu ambiente e ia trancá-la dentro de um porão sem nenhum motivo por um longo tempo, até que ela murchasse. Exatamente como na história. Não consegui fazê-lo (contei para a Bee e ela deve ter me achado louca).

Mas não deixa de ser um pouco assustador reproduzir, mesmo que em escala, comportamentos que a gente acredita serem tão cruéis. É triste ver que, às vezes, mesmo sem perceber, a gente busca acabar com a beleza e a alegria assim que as vê; como tantos se incomodam em ver os outros felizes e livres. A Bee me salvou dizendo que posso deixar as flores no sol depois de colhê-las; é um dos métodos de conservação que posso usar sem deixá-las no escuro, vou tentar.

Eu ainda estou digerindo o livro.

Coloquei uma flor dentro dele.

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Top 10: as fotos preferidas de junho

O verão já começou, mas a primavera ainda está toda exibida em Berlim. A seleção desse mês também teve vários bichinhos: uma família de cisnes com direito a patinho feio e tudo, um patudo no metrô e a incrível cara que a Isabel fez quando foi pega no flagra.

Qual foto você gostou mais?

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O dia estava cinzento, mas era só o dia mesmo.

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Esse olho foi instalado sobre o relógio de uma antiga fábrica da AEG que hoje funciona como um condomínio de empresas, no bairro Pankov.

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Todo mundo se encantou com esse túnel florido. Pena que não tinha como transmitir o perfume também…

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Uma família de cisnes com direito a dois patinhos feios. Eu achava que era só historinha de criança, mas parecem patinhos mesmo!

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Essa rua é tão verdinha; melhor lugar para almoçar em Moabit. A comida nem é aquilo tudo, mas o cenário…

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Essa é a esquina mais colorida da cidade. Fica em frente à estação de metrô Nollendorf Platz; acho que eles mudam toda a pintura umas duas vezes por ano. Estou colecionando as modificações para fazer uma galeria, que tal?

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Esse moço obediente estava meditando sobre o sentido da vida enquanto aguardava a condução. Fez o maior sucesso no Instagram e no Facebook. Como não? <3 <3

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Às vezes fico tão comovida que dá vontade de chorar quando ando pela cidade. Como pode existir um lugar tão lindo? A primavera aqui é cinematográfica.

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E essa carinha impagável que a Isabel fez momentos antes de avançar nas flores para saboreá-las? Quem aguenta essa gatinha?

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Entrei num hotel (a porta estava aberta e sou pior que cachorro) e vi um espelho de frente para o outro bem no corredor de entrada, olha a loucura do momento inception. E querem saber? Hoje achei outro. Acho que vou juntar mais para fazer uma galeria.

 

A tal da loja sem embalagem

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A loja sem embalagem inaugurou em Berlim há quase um ano e desde o lançamento do projeto, venho sendo marcada no Facebook todas as vezes que sai alguma notícia a respeito. A pedidos, fui obrigada a ir até lá.

Bem, por algum motivo, vejo tantas coisas extraordinárias nessa cidade, mas não sentia vontade de conhecer essa loja em especial. Não sabia explicar por quê. Ontem eu fui e entendi um pouco melhor.

A ideia, que vem sendo vendida como inovadora e revolucionária, é muito bacana, mas não considero nem inovadora e muito menos revolucionária. Primeiro porque já existem projetos semelhantes com o mesmo conceito em vários lugares do mundo. Comprar produtos a granel é uma prática que conheci ainda criança, quando ia comprar feijão ou arroz no armazém próximo à minha casa, ou mesmo amendoim japonês e balas na barraca de doces perto da escola. O vendedor tinha uma espécie de caneca com alça, que funcionava como medidor, ou então usava uma balança mesmo. Se você quisesse, ele punha tudo num saco ou cone de papel, mas também podia colocar no pote que você levava de casa ou na sua lancheira; para ele, tanto fazia.

Em Florianópolis havia uma loja muito mais inovadora, do meu ponto de vista (não sei se ainda existe, que acho o conceito ainda mais disruptivo): sabendo que a embalagem é responsável por uma parcela importantíssima do preço de um perfume, você podia ir lá e fazer o refil no seu próprio vidro, pagando somente pelo volume de líquido.

Mesmo aqui em Berlim, em qualquer quitanda que se vá comprar legumes e verduras, você leva sua própria sacola e não usa embalagem nenhuma. Os próprios supermercados não fornecem sacolas, você tem que comprá-las se quiser usá-las (acho que no Brasil tem alguns lugares que é assim também).

Nas lojas de artigos naturais no Brasil, que eu saiba, praticamente tudo é vendido a granel nos mesmos moldes. Basta que o comprador leve sua embalagem se não quiser usar as do estabelecimento. Ou seja, depende muito mais do comportamento do consumidor do que da loja.

Por tudo isso é que não entendi o auê em torno da Original Unverpackung em Berlim. A ideia é bacana? É, sem dúvida! Tem o meu apoio? Mas é claro, como poderia ser diferente? É inovadora? Não acho, sinceramente.

Fisicamente, é muito parecida com as dezenas de lojas de produtos naturais, regionais e veganos que já existem na cidade: simples, charmosa, bem organizada, despojada e com um atendimento especial.

Os produtos estão organizados exatamente da mesma maneira que a gente conhece de casas de produtos naturais no Brasil. Se você esqueceu de levar sua embalagem em casa, pode comprá-las na loja (como em qualquer outro lugar): há vidros, saquinhos de tecido e sacos de papel, pode escolher.

Além das frutas e verduras, vi massas, grãos diversos, biscoitos e produtos de higiene e limpeza (aí sim eu vi novidade). Tem também bastante coisa com embalagem, mas sempre de vidro (sucos, sopas, geleias e refrigerantes, por exemplo).

Já ministrei uma disciplina sobre embalagens no curso de design e posso dizer: a embalagem não é apenas lixo dispensável. Ela muda a percepção em relação ao produtos, traz informações imprescindíveis (conteúdo, validade, procedência, entre outras coisa), protege e conserva os perecíveis, entre outras funções muito importantes. O problema não é ter embalagem, mas o fato dela ser descartável. Se as empresas e as pessoas fizerem um esforço conjunto para gerar menos lixo (o que beneficiaria a todos), seria só uma questão de projetar invólucros que pudessem ser realmente reaproveitados. Nesse aspecto, lojas desse tipo que divulgam o conceito de menos lixo, ajudam muito a mudar a cultura do desperdício.

A questão é que, apesar de ficar apenas a uns 2 km da minha casa, não senti vontade de ir até lá fazer minhas compras, pois posso fazer a mesma coisa (exceto no caso de arroz, massas e produtos de higiene e limpeza) na quitanda ou no supermercado de produtos naturais e orgânicos que ficam a menos de uma quadra de onde moro.

Os preços em geral também eram um pouco mais altos que a média, além da variedade ser bem pequena (por exemplo, produtos de higiene, cosméticos e limpeza eram só de uma marca). A questão da pouca variedade dá para entender, mas os preços eu fico um pouco em dúvida.

Parece que os moradores compartilham da minha percepção, pois a loja estava vazia e, enquanto estive lá, todas as pessoas entraram para saber sobre o projeto, mas ninguém fez compras. Tem até um aviso na porta informando que eles não são um museu, então pedem a colaboração de € 1 para quem quiser tirar fotos.

Para mim, é mais uma loja de produtos naturais/regionais/sustentável que soube fazer muito bem sua divulgação e a gestão da marca. Mas a quitanda a alguns metros parecia estar vendendo bem mais, cada pessoa levando sua própria sacolinha de casa. Pelo menos, foi a impressão que tive…

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Os saquinhos de tecido são uma graça, mas conheço várias lojas, inclusive no Brasil, que também têm.

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Imagem bem familiar para quem frequenta lojas de produtos naturais.

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Tem bastante coisa com embalagem, como sopas, molhos e geleias, mas o vidro, totalmente reutilizável, é coerente com o conceito.

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Dá para comprar shampoo também, mas só tem essa marca.

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Bacana, mas não parece revolucionário.

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O charme que todas as lojas de produtos orgânicos aqui têm.

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Sim, temos feijão, e de vários tipos!

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Tem refrigerante também (mas as embalagens de todas as marcas são recebidas de volta em qualquer supermercado da Alemanha, para reciclagem, então não tem diferenciação nesse ponto).

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As embalagens de sopa estão lindas, mas acho que também tem para vender em supermercados bio, muito comuns aqui.

 

Até não poder mais

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Existe uma palavra em alemão muito interessante, que se chama ausschlafen. Schlafen é o verbo dormir; ausschlafen é dormir até acabar o sono. É quando a pessoa acorda sozinha, sem despertador, renovada, descansada, zerada e cheia de energia para começar de novo.

Ausschlafen é uma das delícias da vida (pratico sempre que posso), mas essa semana descobri outra palavra ainda mais bacana: ausleben.

Leben é o verbo viver. Ausleben é viver até a exaustão, até não poder mais, até esgotar todas as possibilidades, até completar a missão, até dar o caso por encerrado. Até morrer.

Achei tão lindo uma língua ter uma palavra para expressar essa ideia.

Vamos ausleben?

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Entenda por que preconceito = preguiça de pensar

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O neurocientista Gregory Berns, autor do ótimo “O iconoclasta”, já explicou: nosso cérebro foi construído de maneira a consumir o mínimo possível de energia.

Fato é que, mesmo que a gente passe o dia inteiro deitado sem fazer nenhum movimento, o danado continua gastando; por uma questão de sobrevivência, ele teve que bolar um jeito de ser menos perdulário.

Para resolver isso, nossa CPU bolou alguns truques que a fazem ficar mais eficiente: um deles é rotular tudo o que lhe aparece pela frente, num esquema chamado categorização preditiva (o nome científico pode até parecer bonito, mas na linguagem popular isso é o mesmo que preconceito).

A coisa funciona da seguinte maneira: em vez de processar uma informação completa e cheia de detalhes toda vez que entra em contato com algum tipo de estímulo, o cérebro infere o que está vendo, ou seja, ele registra apenas uma parte da cena e conclui o resto.

Assim, nossos miolos escolhem algumas partes mais familiares que conseguem reconhecer e ignoram o resto. Isso economiza energia e funciona muito bem no dia-a-dia, mas destrói, sem dó nem piedade, toda nossa imaginação, cultura e capacidade criativa. É que sem trabalhar, nosso cérebro engorda e fica jogado o dia inteiro no sofá comendo besteira. Para ter ideias que mudem o mundo, precisamos de um cérebro atleta, saudável, em excelente forma física.

Por que então preconceito é a mesma coisa que preguiça de pensar?

Porque preconceito é exatamente isso: em vez de considerar todas as variáveis, a gente pega só um pedaço da informação e tira uma conclusão inteira. Claro que a conclusão vai se basear ou em experiências anteriores (não preciso analisar todos os elementos do feijão cada vez que saboreio uma feijoada; basta olhar um bago e já sei que gosto tem) ou em experiências de outros (minha avó dizia que os ciganos são todos dissimulados. Então eu, que nunca vi um cigano ao vivo em toda minha vida, já sei exatamente como eles são, pensam e sentem, só de ver uma moça de saia comprida).

Para quem quer obedecer cegamente à natureza e economizar energia de verdade, é simples. Pegue um livro antigo cheio de regras e cumpra-as à risca, sem questioná-las (melhor ainda, interpretando-as da maneira que exija o mínimo esforço mental possível). Repita opiniões terceiros sem nem ao menos checar se têm fundamento ou não. Leia só a manchete e não o texto inteiro. Interprete a palavra normal como sinônimo de certo. Veja só que econômico. Não se gasta praticamente nenhuma caloria nisso. E o cérebro fica lá, lerdo e flácido, mergulhado feliz no ócio do preconceito.

A única maneira de fazer o nosso sr. Preguiçoso fazer musculação e estar em forma para novos desafios é confrontar o sistema perceptivo com algo que ele não sabe como interpretar, pois nunca viu nada parecido antes. Isso força a criação de novas categorias de classificação.

É como se a gente tivesse prateleiras para guardar todas as informações dentro da cabeça, para recuperá-las quando precisar. Pois quem não questiona e só segue regras, tem meia dúzia de prateleiras montadas por outros, com ideias simplórias, repetidas, rasas e muito, muito preconceituosas.

Quando a gente lê, duvida, conhece novos lugares, novos hábitos e novas ideias, constrói guarda-roupas inteiros dentro da cabeça, cheios de prateleiras, gavetas e sistemas requintados de classificação. Não é que a gente não pratique mais a categorização preditiva, mas ela vai ficando mais refinada, mais precisa. Quando vejo uma moça de saia comprida, não basta colocá-la na única gavetinha disponível, aquela que herdei da minha avó; há uma imensidão de possíveis nichos para guardar aquela informação e, não raro, preciso construir mais um para acomodar a nova pessoa que acabei de conhecer.

No fim, esse trabalho infinito de marcenaria é a tal musculação. É o que nos faz humanos inteligentes, o que nos faz evoluir.

E não sou eu quem estou dizendo isso não. Uma pesquisa canadense aponta a forte relação entre pessoas conservadoras e um QI médio mais baixo, ou seja, os preconceituosos são menos inteligentes; depois de pensar sobre o que o Dr. Berns nos explicou, faz todo o sentido, né?

Quando alguém só tem meia dúzia de prateleiras para guardar tudo e vê algo que não se encaixa, seu cérebro ignorante simplesmente rejeita, diz que não presta e ataca, por puro medo do desconhecido. Nem sabe onde anda o martelo para o caso de ter que construir alguma coisa. Em casos extremos de burrice aguda, chega a bater ou matar só para não ter que levantar do sofá.

Você conhece tipos assim. Pessoas que, tendo cérebro, não o usam. Muitas dizem acreditar na existência de num Criador; mas será que não se dão conta que não há maior desrespeito que esse? Ter um cérebro e não usá-lo?

Acho que não. Para concluir isso, teriam que pensar.

Não precisa chutar o balde para empreender

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Basta abrir um site, uma revista, um jornal, ou mesmo ligar a televisão, para sermos bombardeados por histórias de pessoas que largaram um emprego chato e tornaram-se donas de seu próprio negócio. Dentistas que deixaram o consultório para abrir uma pousada, publicitários que abandonaram a agência para tocar um food-truck, executivos que trocaram as viagens frequentes por uma fábrica de bijuterias na garagem, engenheiros que, sei lá, viraram guias de turismo. Os relatos sempre são de pessoas muito felizes e realizadas, algumas até milionárias.

A questão é que as matérias são escritas de tal forma que a única conclusão possível é que trabalhar em uma empresa que não é sua saiu de moda há muito tempo e o indivíduo precisa ser mesmo muito acomodado para manter uma carteira de trabalho assinada. Omitem o fato de que, de acordo com o IBGE, 48% das empresas fecham as portas antes de completar três anos de vida; também se esquecem que nem todo mundo tem perfil para largar tudo e recomeçar do zero, e nem por isso são profissionais menos importantes ou menos valorizados.

Empreender significa experimentar, realizar, tomar iniciativa, colocar em prática. E para quem é empreendedor, fazer acontecer na sua empresa ou na de outrem dá no mesmo. Há pessoas que, por motivos diversos, preferem ter a segurança do salário, das férias remuneradas, do décimo terceiro e da licença médica quando precisar. Isso não quer dizer, de maneira alguma, que elas sejam acomodadas ou menos empreendedoras que aquelas que tentam carreira solo.

Convencer o chefe ou o departamento que a ideia é boa, factível e que pode ser lucrativa é tão difícil quanto convencer um investidor. Estruturar uma equipe com gente competente, engajada, com talentos complementares e sintonizadas com a visão da empresa é igualmente desafiador se você é o dono ou se é apenas o coordenador. Administrar o tempo e os recursos, cumprir prazos e não deixar faltar dinheiro é complicado em qualquer contexto. Um empreendedor carrega a proatividade no sangue, seja como dono, seja como colaborador.

O segredo, nos dois casos, é a  consciência da liderança.

O líder é um sujeito que consegue enxergar para o futuro e ver um cenário que deseja que se torne real. Como o líder quer muito que essa visão se materialize, pensa num jeito de fazê-la acontecer; estuda caminhos e descobre um jeito. Quanto mais ambicioso é o cenário, mais o líder entende que não consegue construi-lo sozinho — precisa de ajuda de outras pessoas, outros profissionais, outras competências. Precisa de mais gente que também tenha a mesma visão e que queira ir junto com ele no caminho para chegar lá.

Então, o que o líder faz? Apresenta esse cenário de maneira que consiga inspirar outras pessoas a segui-lo. Ele consegue comunicar a ideia de maneira que os seguidores consigam ver e entender o papel e a importância de cada um na construção do caminho. E tanto faz se ele precisa convencer o chefe, os companheiros de departamento, o gerente do banco ou futuros colaboradores que começarão ganhando pouco.

E tem mais: dependendo da complexidade do cenário, o líder entende que o caminho é longo, penoso e que não consegue dar conta sozinho. Aí, não tem outro jeito: ele tem que preparar alguns seguidores para assumir a liderança em determinados trechos. Os envolvidos sabem que o foco é a visão, o cenário futuro, que não inclui o umbigo de ninguém. Quem é o líder em qual parte do caminho é apenas um detalhe técnico.

Resumindo, o líder é alguém com uma visão e sabe como fazer para torná-la real. Quando faz isso em sua própria empresa, é um empreendedor. Quando faz isso numa organização da qual não é sócio, é um intraempreendedor.

As empresas sabem que líderes são valiosos e importantes para realizar sua visão; sem eles, não há como ter sucesso.

Então, se você não está disposto a arriscar tudo para abrir um negócio baseado na incerteza e prefere um pouco de segurança para ousar, o caminho é esse mesmo. Encontre uma empresa que compartilhe da sua visão, que esteja alinhada com seus valores e faça acontecer.

O mercado, a sua família, a empresa, os clientes, os colegas de trabalho e os investidores agradecem.

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