Homo Deus

Depois do impactante “Sapiens, a brief history of humankind”, do Yuval Noah Harari, só me restou devorar “Homo Deus: a brief history of tomorrow” (Tradução livre: “Homo Deus: uma breve história do futuro“), do mesmo autor. Um é basicamente a continuação do outro; Sapiens falava sobre como chegamos até aqui; Homo Deus elucubra sobre como vamos continuar o caminho, dadas as decisões tomadas até agora. 

O que mais gosto do Harari, além, é claro, do espantoso conhecimento e erudição, é a capacidade dele de enxergar o panorama da nossa situação. Isso é muito difícil quando se está mergulhado nesse mar de informações.

O livro, que é um desses que desgraça completamente a cabeça da gente (hahahah… ao contrário do que parece, isso é ótimo), é dividido em três partes, onde as duas primeiras fundamentam a última. Vamos ver se consigo resumir as principais ideias.

 

O Homo sapiens conquista o mundo

Só essa parte já poderia ser um livro inteiro. Aqui, o autor diz que a humanidade sempre teve três principais preocupações para resolver: a fome, a praga e a guerra. No século XXI, todos esses três problemas já estão dominados. Ele não diz que estão resolvidos; é claro que muita gente ainda morre de fome, de doenças contagiosas e em guerras. Mas a situação mudou drasticamente.

A gripe espanhola, por exemplo, matou nada menos do que 30% da população do planeta em apenas alguns meses e, naquela época, nada havia a ser feito, a não ser enterrar os mortos. Até o século XX, a comida dependia totalmente das condições climáticas; as guerras por domínio de território faziam parte do dia-a-dia das pessas.

A questão é que, ao contrário das eras anteriores, onde não havia o que fazer, a não ser rezar pedindo piedade aos deuses, hoje há tecnologia e conhecimento para se resolver tudo isso. Se essas questões ainda acontecem, é por causa das políticas humanas, não por catástrofes naturais. Os famintos, doentes e mortos de guerra são todas vítimas políticas, não da natureza. Esses desafios são hoje completamente administráveis, caso se queira. Hoje em dia, é mais comum perder vidas por suicídio (800 mil em 2012) ou doenças causadas por comer errado (1.5 milhões em 2012) do em guerras (120 mil pessoas no mesmo período). Ironicamente, Harari diz que o açúcar tornou-se mais perigoso do que a pólvora.

As questões que ocupam a humanidade hoje são: a imortalidade, a felicidade e a divindade. 

A imortalidade é realmente um grande desafio; nem tanto por atingi-la (os estudiosos acreditam que é uma questão de tempo), mas como administrar um mundo sem morte, ou com vidas muito longas. Na verdade, eles falam em seres amortais. Não é que as pessoas não morram mais; é que elas não vão morrer mais de causas naturais (velhice, doenças, etc); mas podem continuar a morrer assassinadas, por acidente ou suicídio.

Mas imagine como será o mercado de trabalho para pessoas com, digamos, 150 anos. Afinal, não dá para trabalhar até os 100 anos e ficar 50 ou 80 sem fazer nada; o profissional terá que se reinventar a cada 30 anos ou menos. Como será isso? E o que será das religiões, quando a morte se torna algo tão distante a ponto de não se temer mais? O que será da previdência social, da questão da moradia num planeta já bem populoso? Esse tema ainda nos deixa muitas perguntas em aberto, mas já é bom ir pensando nelas. As pessoas estão vivendo cada vez mais tempo e não há mais volta.

A questão da felicidade é outra incógnita: o que é realmente ser feliz? Não há uma resposta única e nem mensurável (apesar das muitas tentativas, inclusive de governos, de monitorar essa variável). Cada ser humano é único e tem suas próprias questões existenciais. Felicidade depende muito mais de expectativas satisfeitas do que de condições objetivas. Hoje em dia, as pessoas nem ao menos se permitem ficar entediadas (sempre tem Smartphone à mão para nos entreter enquanto esperamos algo), o que dirá infelizes? Estamos cada vez mais intolerantes a emoções desagradáveis. Para a ciência, essas são sensações físicas não apenas identificáveis como reproduzíveis artificialmente, então tudo acaba se resolvendo com comprimidos.

Repare que o autor não critica ou elogia nada; ele tenta se limitar a descrever fatos e fenômenos que já estão acontecendo em busca de identificar padrões e tendências. Penso que ele consegue.

A questão da divindade é um pouco mais complexa. Na era pré revolução agrícola, a natureza era o que havia de mais sagrado no planeta (o que se chama de animismo). Se um Homo Sapiens daquela época quisesse que uma árvore desse mais frutos, ele simplesmente tentava se conectar com a árvore e de alguma maneira conversar com ela para fazer o pedido. Com a revolução agrícola e o fim do animismo, veio o teísmo. Um ou mais deuses eram responsáveis por tudo o que acontecia no mundo. Então, se o Sapiens precisasse de mais frutos, em vez de falar com a árvore, ele rezava para o seu Deus, construía templos, oferecia sacrifícios. Com a tecnologia e o conhecimento, o teísmo (onde a divindade é um Deus externo) transformou-se em humanismo, onde o homem é o centro do universo. Ele é mais importante que tudo, seus humores, suas vontades, desejos e necessidades sobrepõem-se a todas as outras vidas do planeta e ao próprio planeta. 

O humanismo fez com que nossos colegas animais de antigamente, nas eras primeiras, hoje sejam nossos escravos na mais completa acepção da palavra. Assim como toda a natureza. O humanismo está sempre cheio de justificativas para explicar porque o Sapiens é o Deus do Universo. E esse Homo Deus não é uma analogia com o Deus cristão, islâmico ou judeu; está mais para aqueles deuses mitológicos, que sintetizam as características humanas como a inveja, o ciúme, a insegurança, a luxúria, com superpoderes formidáveis, fazendo com que o mundo se dobre aos seus humores.

 

O homo sapiens dá sentido ao mundo

Aqui Harari relembra o conceito de storytelling e da ordem imaginária desenvolvida no livro anterior: todas as estruturas abstratas nas quais a sociedade humana é baseada são fictícias, inventadas pelos próprios seres humanos: países, continentes, nações, sistemas legais e políticos, religiões, dinheiro, empresas, enfim, todas essas construções só existem porque muitos humanos acreditam que elas existam. Basta que as pessoas parem de acreditar que dinheiro vale algo para que ele se torne apenas um pedaço de papel. Basta que um tribunal decrete a falência de uma empresa para que ela simplesmente deixe de existir (ou seja, as pessoas parem de acreditar que ela existe). 

Como Harari demonstrou, essa capacidade de criar histórias e entidades é essencial para que os humanos possam colaborar em grande número. Antes da invenção da escrita, essa colaboração era restrita a grupos de até mais ou menos 150 pessoas. Com a criação da escrita e do dinheiro, não há limites para a quantidade de pessoas que podem colaborar juntas defendendo uma ideia (seja de nação, no caso de uma guerra, seja de organização coletiva, no caso de uma empresa).

O autor acredita que no século XXI, com a ajuda da biotecnologia e dos algoritmos computacionais, vamos criar ficções ainda mais poderosas e religiões mais totalitárias do que em todas as eras anteriores.

 

O homo sapiens perde o controle

Harari usa o conceito de religião estendido: para ele, religião é a autoridade que define o que é bom e o que é ruim, o que é certo e o que é errado; o que é belo e o que é feio. Até bem pouco tempo, se havia uma decisão importante a ser tomada na vida, a pessoa procurava os sábios conselhos de seu padre, pastor, rabino ou líder religioso. Hoje, ela vai ao Google, olha as estatísticas, vê o que as outras pessoas fizeram em situações semelhantes. Ou seja, o ser humano está cada vez mais centrado em si com a ajuda da tecnologia. 

Ocorre que, tanto a biotecnologia como os algoritmos estão definindo para nós o que é bom e o que é ruim em todas as áreas da vida. Os algoritmos definem as notícias que devemos ver; se teremos ou não crédito; se devemos ou não fazer uma cirurgia; se devemos ou não ser contratados por tal empresa ou admitidos em tal universidade; enfim, nossa vida está nas “mãos” de algoritmos muito mais do que pensamos. 

Harari então nos apresenta as duas novas religiões humanistas que passarão a servir como referência daqui em diante: o tecno-humanismo e o dataísmo.

O tecno-humanismo é a utilização da biotecnologia para resolver os “problemas técnicos” do nosso corpo, como doenças, insuficiências, etc. Além disso, essas tecnologias serão usadas para dar superpoderes a uma elite de seres humanos (é claro, a maioria das pessoas vai melhorar suas condições de saúde, mas sempre haverá os “mais iguais”). Para esses Sapiens, a tecnologia será usada para, por exemplo, aumentar a memória, a capacidade de processamento, a força e a resistência física, o tempo de vida, o alcance dos sentidos, etc. O tecno-humanismo vai separar os seres humanos comuns dos super-humanos. Já vimos muitos filmes de ficção científica com esse tema para saber que é um ponto para se preocupar.

O dataísmo é o domínio dos algoritmos que processam volumes gigantescos de dados; o oráculo moderno. Esses programas é que vão definir o transporte que devemos tomar e o caminho a seguir (já não é assim?), diagnosticar doenças, aplicações em bolsas de valores, atividades recreativas e até pares românticos. Nesse ponto, a série “Black Mirror”, da Netflix,  é praticamente um catálogo de possibilidades.

É claro que esse resumo é bastante pobre para um livro de 513 páginas; mas espero que sirva de incentivo para que ele seja lido e estudado.

Temos um futuro todo em aberto, mas com os primeiros passos já muito bem encaminhados. Assustador, mas muito fascinante também.

1 Response

  1. coolhermit
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    17 junho 2018 at 11:46 am

    ÊNIO PADILHA, thanks so much for the post.Much thanks again. Really Cool.

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