Um sol é bom, dois é demais, três é o caos!

Imagine um planeta que orbita não apenas em torno de um sol, mas de três. A vida lá não é fácil; os três sóis influenciam-se mutuamente na questão da gravidade, de maneira que é impossível prever a posição deles no espaço. O planeta, coitado, nunca sabe qual sol estará mais perto ou mais longe, se vai ficar nessa posição por muito ou pouco tempo.

O resultado é que por algum tempo os habitantes conseguem desfrutar de uma certa estabilidade no clima, mas, sem aviso prévio, os movimentos são alterados e vem o caos: ou um dos sóis chega muito perto e torra toda a superfície do planeta, ou os três ficam longe demais e congelam tudo. Todas as combinações são possíveis, não há como prever.

A civilização do planeta bolou um jeito de sobreviver: quando a ameaça de caos aparece, eles desidratam os corpos, que reduzem drasticamente o seu volume. Aí são levados para um depósito e rehidratados assim que uma era estável começa (mesmo que ninguém saiba quanto tempo vai durar). É claro que os corpos desidratados são frágeis e alguns se quebram no processo; dependendo do tempo que ficam guardados e das condições de preservação, pode haver danos. Mas é o que tem; é assim que os trisolarianos vão sobrevivendo e evoluindo. Se você acha que a vida na Terra é difícil, imagina só isso.

Essa é a base de uma trilogia de ficção científica das mais brilhantes que já li; Isaac Asimov (citado algumas vezes na obra) se orgulharia. E sabe o que mais? É escrita por um chinês!

Cixin Liu, um ex engenheiro da computação que se tornou uma celebridade no seu país, já ganhou vários prêmios literários (na minha opinião, merecidíssimos!). Ele partiu de um problema clássico da matemática, originário da mecânica celeste para criar a história. O problema dos três corpos nunca foi resolvido; ou seja, por causa da atração gravitacional mútua entre os corpos, é impossível prever a posição de cada um deles. Grandes gênios (terráqueos) se debruçaram sobre a questão para tentar achar uma equação ou algoritmo, mas até agora, sem sucesso.

Na história, uma astrofísica acaba sendo levada a um centro de pesquisa secreto durante a revolução cultural chinesa. Decepcionada com a natureza humana, com a devastação da natureza, com a maldade das pessoas e tudo o que a gente já conhece, ela tenta se comunicar com outros planetas usando o sol como uma espécie de amplificador de sinais.

Eis que a mensagem chega a Trisolaris, onde os habitantes estão desesperados para acabar com o martírio dos três sóis. A ideia, apoiada pela chinesa, é que eles ocupem a terra e eliminem os humanos. Aos poucos, a comunicação vai avançando e uma organização global liderada por um milionário americano que acredita que a humanidade merece ser destruída (formada por pessoas decepcionadas por suas histórias pessoais) é formada para apoiar a invasão.

Os trisolarianos são muito evoluídos tecnologicamente, mas estão a muitos anos luz de distância do sistema solar. Eles enviam primeiramente fótons inteligentes que podem viajar nessa distância e servir de espiões, além de congelar e limitar as pesquisas dos humanos na área da física quântica e de nanomateriais.

Pelos cálculos dos cientistas, a Terra tem cerca de 400 anos para se preparar para a invasão da nave trisolariana que já está a caminho. Os governos do mundo inteiro se unem daquele jeito tosco que a gente conhece: fogueiras de vaidades, disputa por poder, brigas internas por diferenças de opinião, enfim.

Uma das soluções mais brilhantes encontradas, já que não se pode contar com a supremacia tecnológica na batalha, é a capacidade humana de enganar e criar truques. Os fótons conseguem interceptar todas as comunicações humanas e preparar os trisolianos para o contra-ataque. Porém, eles não conseguem ler pensamentos e nem interpretar duplo sentido, ironia, deboche e outras espertezas. É com isso que teremos que contar: com nossa astúcia!

Aí são escolhidos quatro homens (nenhuma mulher; típico!) no planeta inteiro que vão fazer o papel de Wallfacers: cada um tem que bolar uma estratégia com recursos ilimitados para implementá-la; mas eles não podem contar e nem discutir com ninguém qual é (senão os trisolarianos ficam sabendo). Eles também não podem dar pistas claras a ponto de que alguém possa deduzir o plano. Então, misturado com coisas realmente sérias, eles precisam fazer alguns absurdos (faz parte). 

A organização de terráqueos que apoia os Trisolarianos cria então os Wallbreakers, que são as pessoas que vão tentar adivinhar os planos do Wallfacers e contar para os invasores. Um jogo de gato e rato dos mais criativos, envolvendo inclusive a hibernação dos protagonistas para durarem 4 séculos e estarem presentes no dia da chegada da nave inimiga.

Sério; é uma das coisas mais geniais que já li. Tem filosofia, sociologia, romance, análise de comportamento, física, matemática e astronomia, tudo muito bem escrito e costurado nas 1708 páginas que somam os três volumes. Os personagens são muitíssimo bem construídos, especialmente o principal Wallfacer, o astrônomo oportunista e anti-herói Luo Ji.

Achei uma falha da editora britânica não ter escrito em nenhum lugar da capa que é uma trilogia, nem o nome dela. O autor, como eu disse, é Cixin Liu e o tradutor para o inglês dos volumes 1 e 3 também é um escritor de ficção científica premiado, o Ken Liu. Aliás, a tradução para o inglês é primorosa e explica todas as sutilezas e contextos dessa cultura que nós ocidentais sabemos tão pouco. Seguem os três títulos:

  1. The three-body problem
  2. The dark forest
  3. Death’s end

Olha, leitura mais adequada não há para esses tempos de pandemia e desilusão com os seres humanos.

Então, meus queridos, passem muito filtro solar e se joguem!

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NOTA: Dei uma pesquisada e existe a versão em português brasileiro. Não tem desculpa!

3 Responses

  1. Avatar
    Adriana
    Responder
    20 julho 2020 at 1:11 pm

    Pelo interessantíssimo relato, essa trilogia tem tudo para virar filme ou série.

  2. Avatar
    Vicenzo
    Responder
    23 julho 2020 at 1:47 pm

    Pelo teu relato realmente vale muito a pena a leitura.
    Ano de adorei como a ficção científica nos leva para um passeio em outra realidade para nós mostrar como fomos, somos ou seremos.

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