A psicologia da viagem no tempo

Fui atrás desse livro porque li elogios de várias pessoas em todas as redes sociais que participo. Mas acho que se esbarrasse com ele por acaso, teria comprado mesmo assim. “The Psychology of time travel” (tradução livre: “A psicologia da viagem no tempo”), de Kate Mascarenhas, é o tipo de título que me fisga.

A história é muito diferente de tudo que li até hoje sob vários aspectos; mas confesso que fiquei bem irritada no começo (eu e meus infinitos preconceitos…rs). Por sorte, confiei nas recomendações e teimei em continuar.

Mas vamos do início. Quatro amigas cientistas de especialidades diversas resolvem se unir e construir uma máquina do tempo. Internam-se por alguns anos no interior da Inglaterra e… conseguem. Olha, para mim ficou parecendo novela da Glória Perez. Fiquei irritada mesmo. Como assim? Como leitora contumaz de ficção científica, esperava pelo menos alguns fundamentos técnicos para tornar a história minimamente verossímil, mesmo que com teorias inventadas. Pois o negócio piorou! Depois de testar com um coelho em uma câmera do tamanho de uma caixa de sapatos, o próximo passo foi construir uma versão em que as quatro cabiam de uma só vez! Pior que a autora não sabe brincar. Apesar da máquina só permitir deslocamentos de no máximo uma hora para o futuro (e depois voltar), as lindas gostaram do joguinho e passaram uma noite inteira indo e voltando, dezenas de vezes, até cansar. Nenhuma médica presente para ver se o negócio era perigoso para a saúde ou não. Aí, confesso, ficou difícil continuar.

Na minha cabecinha limitada, há uma receita para histórias de ficção científica, e a fundamentação teórica é parte importante da narrativa. Bom, mesmo assim, continuei. Por sorte!

Com o sucesso do experimento, chamaram a imprensa para divulgar o feito e atrair investidores logo no dia seguinte da noite em que elas passaram brincando na máquina. Eis que a mais nova, Barbara, especializada em fissão nuclear, sofre com alguns efeitos colaterais e começa a falar bobagens sem nexo diante das câmaras, causando um pequeno escândalo (e olha que foram apenas frases disconexas; nada que ofendesse alguém ou fosse muito grave).

Mas a líder do grupo considerou essa falha inaceitável, irreparável e imperdoável. Como resultado, Margaret, a malvadona, exclui a moça do grupo e convence as outras duas a cortar relações com ela.

O negócio é um sucesso e se torna um império. E aí é que começa a graça da história. Todas as personagens, excetos poucas exceções no papel de figurantes, são mulheres. E são muitas. As protagonistas são fascinantes, não apenas por serem mulheres, mas por terem criado um mundo totalmente surreal.

A autora criou algumas regras para as viagens no tempo que a liberam para literalmente viajar sem restrições. A primeira grande sacada é que não dá para viajar para universos onde a máquina do tempo ainda não existe. Ou seja, só dá para ir ao futuro e depois voltar de lá. A outra coisa interessante é que a tecnologia limita as visitas a três ou quatro séculos adiante. Ah, e o mais importante: é impossível causar paradoxos temporais, ou seja, não dá para mudar a história — o que é para acontecer, vai acontecer, a despeito das viagens no tempo.

Essas premissas liberam muita coisa que não se vê em livros que exploram o tema. Por exemplo, os viajantes do tempo podem reunir seus vários “eus” em determinada data para apresentar um espetáculo de dança, por exemplo. Podem, inclusive, fazer sexo consigo próprios (uma forma bem sofisticada de masturbação…rs); podem vir do futuro dar conselhos para seu “eu” mais jovem; podem visitar pessoas que morreram desde que a máquina foi inventada. Podem voltar a viver experiências passadas com várias idades diferentes e ao mesmo tempo.

Na história, as moças criam uma empresa que presta serviços em viagens no tempo. É uma confusão danada com a contabilidade, já que a empresa opera em séculos diferentes. Os funcionários viajam para resolver diversos assuntos, desde investigar crimes (eles não podem mudar os fatos, mas podem colher evidências e entender o que se passou), descobrir traições (a pessoa não se sente traindo se está num tempo em que ainda nem nasceu com uma pessoa que ainda não existe). Como os viajantes do tempo também cometem crimes, a empresa cria um tribunal próprio e com leis próprias para julgá-los. Enfim, dá para desdobrar numa série infinita.

A relação das pessoas com a morte muda completamente; algumas, por opção, escolhem saber como e quando vão morrer. Mas isso não faz tanta diferença, já que os parentes e entes queridos sempre podem voltar no tempo para revê-las e bater um papo. Elas podem reviver as partes melhores repetidamente e deixar as piores quase esquecidas. É como se a gente tivesse todo o tempo do mundo para resolver as questões importantes, pois dá para voltar e reviver um evento quantas vezes quiser até compreendê-lo bem direitinho.

Só que na história, a cientista que foi excluída do grupo, não se conforma, claro. Sua neta, uma psicóloga, que tem muita afinidade com ela, acaba atendendo uma moça que foi testemunha de um crime brutal, cuja identidade da pessoa assassinada é desconhecida. Isso acontece depois que ela e sua vó recebem pistas que alguém de outra época (provavelmente uma de suas ex-colegas) mandou.

Aí tem romance entre pessoas que vivem em tempos diferentes, mistérios, crimes, investigações, ameaças e tudo de bom que um policial pode ter.

Foi aí que caiu a minha ficha: o nome do livro é PSICOLOGIA da viagem no tempo. Tudo gira em torno das questões psicológicas, não da tecnologia. Tem até um glossário muito engraçado criado pelos viajantes do tempo que trabalham na empresa e os testes psicológicos aplicados na admissão dos candidatos.

Olha, preciso dizer que se a autora tivesse uma amiga que ajudasse a dar um “tapa” nas questões técnicas, com certeza iria ajudar bastante. Mas mesmo assim, adorei e faço coro aos meus amigos: recomendo demais!

NOTA: O livro foi lançado o ano passado e ainda não tem tradução para o português (pelo que pesquisei, nem em alemão).

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