Dois crimes regionais

A imagem mostra as capas dos dois livros resenhados.

Já comentei aqui algumas vezes que os alemães amam histórias policias e que as livrarias têm seções enormes dedicadas ao gênero. Essa semana tive oportunidade de ler duas histórias muito bacanas que vale a pena compartilhar.

O primeiro, “Winterkartoffelknödel“, de Rita Falk, é bem engraçado. O protagonista é um policial de Munique transferido para sua cidade natal, um Dorf (cidadezinha pequena, lugarejo, em alemão) onde passa a morar com sua avó e pai e trabalhar na pacata delegacia. A mãe dele morreu no parto, motivo pelo qual o irmão mais velho nunca o perdoou. O pai não se casou de novo e mora com a avó do rapaz, maníaca por liquidações. A história é engraçada principalmente porque narra a rotina num Dorf, as compras, as comidas (a propósito, “Winterkartoffelknödel” que dá título ao livro é um prato típico feito com batatas — algo parecido com um nhoque, só que com bolinhas menores e em formato de arroz), as relações entre as pessoas, enfim, um retrato bem-humorado do alemão médio que mora no interior.

O moço é meio lento e a resolução do crime propriamente dito não é das mais originais, além do que fico com muita raiva quando o protagonista deixa seu cérebro derreter ao ver um rabo de saia. De qualquer maneira, vale para se divertir e reconhecer as lojas, supermercados, hábitos e costumes do povo. Fez tanto sucesso que, pelo que pesquisei, virou até série de TV.

O segundo, “Das tote Zimmermädchen vom Bahnhof Zoo” (tradução livre: “A morte da camareira da estação Zoo”), de Rainer Stenberger e Ulrich Sackenreuter é uma das coisas mais geniais e bem boladas que vi ultimamente. Dois amigos, Percy Michalak e Alexander Diel estavam um dia no metrô quando tiveram a seguinte ideia: por que não escrever um livro de bolso que fornecesse informações interessantes sobre as estações de metrô e seus arredores, ao mesmo tempo que contasse uma história policial intrigante? Pois a dupla montou uma editora especializada nesse tipo de livro, a Ubahn Cops e convidou a dupla de autores, conhecidos e premiados roteiristas de cinema e TV para escrever as histórias.

O resultado é incrivelmente bem feito e impagável: uma mistura de guia de viagem com romance policial. Pelo que vi, eles já têm 3 volumes. Comprei o da Bahnhof Zoo porque fala da U2, a linha que passa pela minha casa e, por motivos óbvios, a que mais frequento.

A história começa quando o comissário de polícia Milan Makrovic se junta com o funcionário Oliver Dings, da BVG, empresa municipal de transportes, para resolver um crime. Eles passam por várias estações, comem Curry Wurst e Donner Kebab (pratos típicos daqui) comentam sobre as diferenças entre os kiosques, observam os passageiros, enfim, parece que você está andando com a dupla pela cidade. Há mapas, curiosidades e notas interessantes sobre cada estação e suas imediações (por exemplo, o sino que toca no Estádio Olímpico, no final da linha, é uma gravação do sino da igreja destruída na II Guerra e mantida assim). A história é muito bem contada, os personagens, hilários, são muito bem construídos, enfim, tudo perfeito (vou comprar os outros volumes: Alexanderplatz (U8) e Kottbussertor (U1)).

O único porém: até onde sei, só existe a versão em alemão. Está certo que o mercado interno é grande consumidor de literatura policial, mas se a coleção é voltada para turistas, fica faltando pelo menos a tradução para o inglês. Quem sabe…

 

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