À procura de um quartinho

Imagem: Dominik Śmiałowski e Monika Prus

O processo de aprendizado do alemão tem me rendido ideias interessantes. É que nós brasileiros, quando aprendemos espanhol, italiano ou francês (não sou fluente em nenhuma delas, mas tenho os conhecimentos básicos), temos como prioridade aumentar o vocabulário, já que os idiomas latinos são relativamente parecidos. Em relação à gramática, é mais uma questão de fazer algumas adaptações ao que a gente já conhece, mas nada assim tão radical.

O inglês, apesar de mais diverso e sem a raiz em comum, tem uma estrutura gramatical mais simples do que a nossa, o que facilita bastante. Então, o foco é, novamente, o vocabulário.

Já no alemão, há que se lidar com os dois problemas ao mesmo tempo: aprender praticamente todas as palavras do idioma (não dá para aproveitar quase nada do que se trouxe de casa) e tentar entender a gramática, que define a maneira como as frases são construídas (claro que isso só se aplica a quem aprende depois de adulto e já está com as sinapses formadas; quem aprendeu em criança já cresce com o cérebro mais turbinado).

A verdade é que os alemães realmente pensam diferente da gente. A maneira como eles constroem as palavras (boa parte não tem no dicionário porque é urdida na hora, conforme a necessidade) é completamente fora de tudo o que eu já tinha visto e traduz bem a maneira como a cabeça desse povo funciona (não é melhor nem pior, apenas muito diferente). Eles vão juntando pedaços de outros vocábulos que, no contexto, mudam de significado e vão formando novas ideias.

Olha só um exemplo:

vor = antes de, diante

hängen = pendurar

Schloβ = fechadura (mas também pode ser castelo, palácio)

vor + hängen + Schloβ = Vorhängeschloβ = cadeado

Mas atenção: Vorhang é cortina e Schloβer é serralheiro. É genial, mas ao mesmo tempo, cheio de armadilhas!

A gramática também é um assunto à parte; até porque não é só uma questão de declinações, gêneros ou tempos verbais. É a maneira como a frase é elaborada que faz a coisa ficar mais estranha quando se tenta comparar com o português ou mesmo o inglês.

Não é raro eu conhecer o significado de todas as palavras de uma frase curta, e mesmo assim não ter ideia do que elas juntas querem dizer. Até porque os alemães têm uma predileção especial pela voz passiva (em vez de dizer “o gato comeu o biscoito” eles preferem “o biscoito foi comido pelo gato“), como se a língua já não fosse complicada o suficiente.

Quer ver? Olha só: “Um acht Uhr zieht Fritz an“.

Um = por volta de

acht = 8

Uhr = hora

zieht = verbo ziehen flexionado = puxar

Você pensaria: bom, às 8 horas o Fritz puxa alguma coisa. Mas não; é que na verdade, o verbo que está sendo usado é  anziehen, que significa vestir-se. É que em algumas situações, o verbo se despedaça e o “an” vai lá para o final da frase e muda tudo. Se a frase for bem comprida, imagina só o drama. Bolas, como lidar?

A questão é que aprender alemão é basicamente sair da zona de conforto onde a gente compara a novidade com o que já sabe e faz alguns ajustes. Aqui tem que começar do zero mesmo.

É preciso encontrar um lugar na cabeça que seja completamente livre de preconceitos, de ideias de como as coisas devem ser, e sem nenhum traço da nossa própria língua.

Tem que parar de fazer comparações e se entregar mesmo, de mente e coração abertos. Há que se achar um quartinho limpo dentro do cérebro, sem móvel nenhum, nem mesmo tapete. E começar a construir um jeito novo de dividir e usar os espaços, de se movimentar lá dentro, de fazer caber tudo sem atulhar demais.

Olha, confesso que depois de 3 meses de aulas diárias, estou com uma mochila cheia à procura do tal quartinho. Mas tenho certeza de que vai ser uma alegria essa “casa nova” para ajudar a ter ideias. É mais um ateliê morando em mim, são mais ferramentas para pensar, é mais uma coleção de lentes para ver o mundo.

Acho que o efeito é o mesmo se a pessoa tentar aprender russo, chinês ou árabe. Tem que virar tudo do avesso e abrir mais um espaço na cabeça para pensar de outro jeito. Que bom se todo mundo pudesse ter essa oportunidade, né?

Bom, não sei se vou ficar fluente no idioma de Goethe, mas pelo menos meu cérebro está fazendo bastante exercício. Do “alemão” é eu não preciso ter medo….eheheheh

***

PS: O “alemão” é como é conhecida popularmente a doença de Alzheimer, cujo nome é uma homenagem ao médico alemão que a diagnosticou pela primeira vez. Uma das maneiras mais eficientes de evitá-la, veja só, é exercitando o cérebro…

6 Responses

  1. Marina
    Responder
    19 dezembro 2011 at 8:24 pm

    Olha só, pelo que vc explicou aí, a língua alemã deve ser cheia de “phrasal verbs” que não fazem sentido separadamente, como “put up with” etc.

    • ligiafascioni
      ligiafascioni
      Responder
      20 dezembro 2011 at 4:46 am

      Oi, Marina!

      Sim, tem phrasal verbs (eu nem entrei nesses para não complicar mais), mas isso é diferente.

      Phrasal verb é mais ou menos um pacote “fechado” com poucas variações. Aqui a coisa muda o tempo todo, inclusive de posição, auxiliares, etc.

      Para você ter uma ideia, posso escrever a mesma frase juntando o verbo, apenas trocando a posição do advérbio de tempo, olha só: “Fritz anzieht um acht Uhr”.

      E se eu quisesse escrever a frase no passado, teria que ser “Um acht Uhr ist Fritz angezogen”. Olha só como ficou o verbo anziehen!

      E tem mais: se eu escrevesse “Um acht Uhr zieht Fritz um”, estaria dizendo que ele se muda de casa nesse horário. É mole?

      Aqui não é phrasal verbs; é verbs mesmo…eheheh

      Phrasal verbs ainda estão na categoria do vocabulário, não gramática. Também são chatinhos, mas uma vez que você os conhece, está resolvido…

      Küβe 🙂

  2. Natália Pires
    Responder
    19 dezembro 2011 at 10:39 pm

    Parece que é como desenhar com o lado direito do cérebro, sem pensar nas formas pré-determinadas que o cérebro dá para as coisas… Fiquei com vontade de aprender alemão! Quem sabe a criatividade não flui mais? ;P

    • ligiafascioni
      ligiafascioni
      Responder
      20 dezembro 2011 at 4:48 am

      Olha, Natália, sabe que também estou achando isso? Tomara que minha criatividade aumente, estou contando com isso 🙂

  3. Fatima
    Responder
    20 dezembro 2011 at 3:31 pm

    Nossa que artigo lindão! Aqui tem pitadas de neurociência, semiótica, linguística e gostei de ver essa menina vasculhando os bastidores da sintaxe-morfologia-verbológica goetheana ehhehe. O lance do gato ser comido deve ter a ver com “tirar a responsa” do gato sacumé, tipo assim, a culpa é do biscoito que tava ali …dando bobeira ahahaah
    Abraço daqui da Laguna/SC – Brasil

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