O luxo do códex

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Nossa, para quem adora papel, como eu, parece que o mundo está acabando! Os maiores jornais do mundo estão em crise e vendendo seus ativos para sobreviver; alguns estão fechando ou entrando em concordata. A Amazon acaba de lançar o Kindle, uma tela portátil para ler livros digitalizados; há vários outros fabricantes trilhando o mesmo caminho. Socorro! O que vão ser das livrarias e bancas de jornal?

Calma. Quando a gente lê “A aventura do livro: do leitor ao navegador”, de Roger Chartier, começa a entender que está vivendo apenas mais uma das muitas transformações pelas quais já passou a nossa comunicação escrita.

O homem já escreveu (e leu) em pedras, usou pedaços de couro, folhas de plantas e materiais variados até inventar o papel.

Chartier chama atenção para que se note que uma das maiores transformações, que muitas vezes passa despercebida, foi a criação do códex pelos romanos. Códex é o formato do livro (e, de certa forma, dos jornais) como o conhecemos hoje, onde o texto, escrito na frente e no verso da folha, é organizado em cadernos e coberto por uma capa. Antes disso se usava o rolo, bem menos prático.

O próximo passo foi mecanizar a maneira de imprimir e Gutemberg soube resolver muito bem a questão. Alguma perda houve, uma vez que foi necessário separar os tipos móveis dos desenhos e gravuras, antes tão integrados nos manuscritos. As cores também tiveram que ser reduzidas por um tempo. Com as tecnologias atuais, pudemos unir texto e ilustração novamente plenos de cor, mas outra vez o suporte da escrita está percorrendo caminhos inéditos.

De qualquer maneira, não precisamos ser fatalistas: assim como a TV convive ainda tão bem com o cinema, o teatro, o rádio e a internet; assim como o rolo sobreviveu muitos anos após a popularização do códex, também os manuscritos seguiram valorizados e usados muito tempo depois da prensa de Gutemberg.

Não há porque crer que será diferente com o livro, onde o papel vai sendo gradativamente substituído pela tela de um gadget qualquer. A grande questão que se apresenta não é a da mudança de suporte da escrita, mas a do comportamento do leitor.

Os jornais impressos estão desaparecendo porque a maior parte das pessoas os lê na Internet. É certo que muitos dos livros passarão a viver somente na forma virtual. Os leitores querem mais interação, estão menos lineares e mais apressados. O aprofundamento de conteúdo é para cada vez menos pessoas, já que a grande massa se contenta com manchetes, resumos e twitters de 140 caracteres.

Em se tratando de design gráfico, é claro que o suporte influencia no projeto. Nada pode se comparar ao cheiro da tinta e do papel, o peso das folhas, a emoção de abrir uma capa dura, o barulho que as páginas fazem ao serem viradas. Mas isso não significa que não haja espaço para outras formas de ler. Olha só quanta coisa nova há para aprender, o desafio de tornar a leitura atraente em um suporte ainda tão novo.

Penso que tanto o aprofundamento de um conteúdo como o prazer de folhear o papel, seja em um jornal ou em um livro, vai aos poucos se transmutar em um tipo de luxo. Com o crescimento do número de leitores, não há como dizimar florestas inteiras em nome da cultura — o livro e o jornal como conhecemos hoje são simplesmente insustentáveis. Mas isso nem de longe significa o seu fim, é só uma questão de escala e valor. Sempre haverá espaço para a experiência de interagir com o objeto livro, tão cheio de simbolismos e significados pessoais. A diferença é que esse contato não será mais tão fácil, comum, barato, cotidiano e trivial para a maioria das pessoas. Isso sem contar que boa parte dos leitores atuais nem sequer passou pelo livro ou jornal impressos; simplesmente pularam etapas por falta de acesso. Se a gente for observar, livros e jornais, assim como informações aprofundadas já são um luxo de fato.

Jornais, escritores, editoras e quaisquer outros provedores de conteúdo devem atentar para a variedade nos perfis de público. O que muda não é o livro, mas o comportamento das pessoas e a forma de interagir com a informação.

Não, não é o fim do mundo ainda. É só mais uma mudança natural, que não vem para dizimar meus queridos amigos.

Ainda bem…

Lígia Fascioni | www.ligiafascioni.com.br

2 Respostas

  1. Thiago K.
    Responder
    21 maio 2009 at 11:56 am

    Existe uma Barnes & Nobles em NY com uma seção só de papéis, que faz a gente ter vontade de não ter laptop!

  2. Luciana
    Responder
    22 maio 2009 at 11:40 am

    Oi, Ligia!
    Adorei o seu artigo, mas tenho apenas uma ressalva. No Brasil, todo papel produzido provém de florestas plantadas para essa finalidade (pelo menos foi isso que descobri fazendo uma matéria p/ a revista Publish), que sequestram grande quantidade de gás carbônico. Além disso, as fabricantes de papel são obrigadas por lei a preservar uma parte da sua área para preservação da mata nativa. Em algumas regiões, essa área pode chegar a 80%! Esse assunto é capa da Publish desse mês (lá vem o jabá…), por isso tô sabendo esses dados de cor! Então, podemos consumir papel com consciência, para diminuir a quantidade de lixo no planeta, mas sem a consciência pesada, pois são lindos e uma das maiores invenções do homem. Bjs!!!

    Lígia Fascioni: Oi, Luciana! Obrigada pelas informações preciosas e esclarecedoras. O que eu quero dizer é que, por mais que se mantenha a sustentabilidade no negócio do papel, as áreas plantadas são finitas e é difícil de acompanhar o crescimento do mercado nessa área. O papel não vai acabar (graças a Deus, senão eu morro!!), mas penso que vai ser cada vez mais usado com comedimento e consciência (que tal só revistas e livros lindos? Eheehhe…).

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