O que o cachorro viu

Fonte: Smashinghub.com

What the dog saw“é o mais novo livro do Malcom Gladwell (já falei do moço aqui) e reúne suas melhores colunas no jornal The New Yorker, onde escreve desde 1996.

O livro é dividido em três partes: a primeira fala de pioneiros, obsessivos e outras variedades de gênios menores e é o conjunto de textos que mais gostei. Ele relata histórias de pessoas comuns, porém, bem-sucedidas no que fazem, e tenta entender o que passa pela cabeça delas no processo de tomada de decisão.

Uma das mais interessantes conta a história de duas publicitárias e o impacto de seu trabalho na indústria da tintura de cabelo, bem como o papel dessa indústria no movimento de libertação das mulheres. Não faz muito tempo, quem pintava o cabelo era “mal-vista” e considerada “fácil” ou rebelde; moças de família não faziam esse tipo de coisa. Pois Shirley Polykoff, uma publicitária judia e muito à frente de seu tempo, achava muita injustiça as pessoas não poderem ter os cabelos da cor que desejassem.

Quando pegou a conta da empresa Miss Clairol, que tinha desenvolvido uma fórmula clareadora menos agressiva, Shirley bolou o lendário slogan “Does she or doesn’t she?” (uma brincadeira com ser ou não ser, onde a pessoa se pergunta se ela é ou não é “tingida“, uma vez que a tintura era tão perfeita que não havia como saber). Shirley dizia que, se só tinha uma vida para viver, preferia passá-la loira (certa ela).

Depois veio Herta Herzog, que era, na verdade, líder de um grupo de estudos da Universidade de Viena, cujo trabalho tentava entender as motivações das pessoas e seu comportamento social usando todas as ferramentas disponíveis da psicanálise. Herta fez pesquisas de campo e descobriu a relação estreita entre o movimento feminista e a grande revolução de comportamento que estava acontecendo nos anos 60 nos EUA. Depois de muito pesquisar, descobriu que pintar os cabelos representava uma espécie de prática libertadora que nada tinha a ver com armas de sedução enfatizadas por Miss Clairol. E trouxe, para a L’Oreal, a campanha “Porque eu mereço” (se ela visse o ridículo que são as propagandas dubladas no Brasil morreria de vergonha alheia), onde a mulher não estava mais focada em conquistar ninguém, mas em seu próprio e merecido bem-estar e independência. Há uma discussão bem interessante sobre o tema e seus desdobramentos, até porque Herta ainda vive e foi entrevistada pelo autor.

Outra história que me chamou atenção foi a que deu o título ao livro, sobre Cesar Millan, o famoso “encantador de cães” da National Geographic (adoro!).  Malcom queria entender o que é que os cachorros viam em César para ficarem tão hipnotizados e submissos quando ele entrava em ação.

O autor explica que o antropologista  Brian Hare fez experimentos e concluiu que os cachorros são os animais mais interessados em seres humanos que existem. Eles realmente ficam fascinados com a nossa presença e não perdem nenhum movimento nosso; uma espécie de fã no nível mais descontrolado mesmo.

O autor pesquisou mais um pouco e descobriu que aí é que está o segredo: César se move como um bailarino, segundo a análise de duas coreógrafas e estudiosas da dinâmica e expressão corporais. Ele tem perfeito domínio sobre seu centro de gravidade (César é baixo e forte), além de mover seu corpo de maneira a comunicar sem equívocos o que quer e o que pensa; sua expressão facial também está sintonizada com o resto. Os cães ficam literalmente encantados com essa segurança, que é tudo o que sonham em seus devaneios caninos.

Tem ainda a longa e fascinante história da invenção da pílula anticoncepcional por um católico fervoroso (sim, você não leu errado) que acreditava (pelos motivos errados) que esse era um método rigorosamente natural, de maneira que nunca compreendeu a rejeição de sua própria Igreja. Vale a pena ler com calma, pois as surpresas são muitas.

A segunda parte fala de teorias, predições e diagnoses, onde ele conta sobre os erros que levaram a Enron a falir e a levar junto tantos acionistas; os paradoxos da inteligência e a diferença entre choque e pânico, entre outras histórias bem interessantes.

A terceira parte fala sobre personalidade, caráter e inteligência. Ele discorre sobre gênios precoces e tardios, investiga algumas características da mente criminosa e discute até sobre o que revelam comportamentos em entrevistas de emprego.

Mas olha, vou confessar que só leio Malcom Gladwell porque ele fala de assuntos realmente fascinantes e é um pesquisador de respeito; sempre se aprende (e se surpreende muito) com as obras dele. Mas o moço bem que podia achar um jeito mais interessante de falar tanta coisa bacana e não desperdiçar palavras; a redação do moço é chata de doer, maçante até não poder mais.

Pois agora: será que os cachorros também acham?

6 Responses

  1. Avatar
    Clotilde♥Fascioni
    Responder
    16 janeiro 2012 at 3:11 pm

    Interessante a tua explicação para um texto ruim, quase me interessei, mas se é maçante prefiro só saber que existe.♥

    • ligiafascioni
      ligiafascioni
      Responder
      16 janeiro 2012 at 4:35 pm

      O texto não é ruim, eu é que achei chato. A ideia não é que o povo desanime de ler o livro, mas que siga em frente mesmo achando chato porque tem muita coisa boa lá dentro…
      Beijocas 🙂

      • Avatar
        19 janeiro 2012 at 7:25 am

        Estou com a Clotilde nessa. Tenho horror a livro mal escrito (especialmente quando o conteúdo é bom). Fico irritado com o autor que perdeu a oportunidade. É como ver um filme com uma boa idéia (um bom argumento) e um roteiro ruim, ou mal dirigido. Ninguém merece!

        Ainda bem, para ele, que existem leitores mais pacientes (como a Lígia) que mantém o foco no essencial. Invejo você, Lígia. Mas não tenho paciência não.

  2. Avatar
    Claudio
    Responder
    11 março 2012 at 4:32 pm

    Imbecil o comentário. Malcom Gladweel tem uma redação precisa e interessante, que apenas leitores elmentares como voce, que provavelmente não sabe ingles, diz isso.

    • ligiafascioni
      ligiafascioni
      Responder
      11 março 2012 at 8:55 pm

      Provavelmente é isso mesmo, Claudio. E todos que não possuem a mesma opinião que você, provavelmente, são imbecis. Obrigada pela contribuição…

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