Tipos para todos os gostos

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Não me lembro como é que cheguei nesse livro (deve ter sido por uma das trocentas newsletters que assino), mas, olha, valeu demais. Comprei no pré-lançamento no final de janeiro e recebi semana passada, com autógrafo e tudo!

The type taster: how fonts influence you, de Sarah Hyndman, foi uma das melhores surpresas dos últimos tempos. A expectativa já era alta (por causa do nome), mas Sarah conseguiu superá-las.

O começo é o básico de qualquer livro de tipografia: fala da influência sutil das fontes tipográficas em qualquer peça de comunicação e observa que o que era domínio de poucos até pouco tempo atrás, tornou-se popular e acessível a qualquer um. Hoje, escolhe-se a fonte em que se vai ler um texto no Kindle como se fossem sabores de pizza. Conta o caso da Gap, que tentou mudar seu logotipo e teve que voltar atrás por causa da reação indignada dos clientes (ela não citou a Ikea, mas o caso foi análogo).

Um pouquinho de história também está lá: a primeira fonte (Engravers Old English, de 1450, com aquelas letras góticas, usadas por Gutenberg para imprimir a primeira bíblia), a invenção de outras fontes mais legíveis e, principalmente, a revolução provocada pela invenção do itálico, que diminuiu consideravelmente o tamanho e peso dos livros, aumentando sua portabilidade.

Sarah nos conta que os tipos, assim como as cores, sons, texturas, sabores e cheiros, provocam emoções e alteram a mensagem comunicada. Eles carregam mensagens subliminares, justamente porque a maioria de nós não presta atenção neles. As fontes fazem o papel de nosso tom de voz quando falamos: a palavra toda escrita em caixa alta (maiúsculas) simula gritos; fontes “gordinhas” equivalem a vozes graves, assim como as magrinhas, mais sutis, representam os sons mais agudos. As curvas e elementos dão musicalidade ao discurso, além de assertividade, seriedade, enfim, uma série de características que afetam o resultado final de nossa percepção.

Um exemplo bem comum é o de fazer com que um alimento industrializado pareça ser feito artesanalmente: ao inserir algumas falhas propositais na fonte tipográfica, como se fosse carimbada ou aplicada com estêncil, a mensagem é comunicada sem que o fabricante corra o risco de ser acusado de propaganda enganosa. Malino, né?

Hyndman fala um pouco também dos princípios semióticos: as formas arredondadas, como já nos explicou Donald Norman, são normalmente associadas à sensação de conforto, ao contrário dos ângulos agudos, que despertam nossos alarmes de perigo.

Em outro exemplo, ela nos explica como se sustentam os clichês nos cartazes de cinema: porque sempre se usa sempre fontes sem serifa para anunciar comédias; tipos modernos como o Didot para promover filmes românticos e a família Trajan para filmes épicos e inspiradores? Há fontes associadas ao luxo nostálgico, ao dinheiro, à moda, aos movimentos revolucionários, à ficção científica, enfim, é só observar com cuidado que dá para identificar padrões.

Mas o mais bacana mesmo são as muitas pesquisas práticas que ela  faz para descobrir como as pessoas percebem e sentem os tipos. Tem uma em que ela pede para o povo adivinhar quais são os produtos mais caros e mais baratos só pela fonte usada no rótulo e qual a profissão de alguém só com base nas fontes tipográficas usadas no seu cartão de visitas (ela produz vários, com as mesmas informações, mudando apenas a fonte). Aliás, esse capítulo sobre a relação entre as fontes e as profissões já vale o livro. É claro que se pode fugir dos clichês, mas há que se ter em mente que a mensagem terá um pouco mais de dificuldade de ser apreendida pela maior parte das pessoas.

Até a reação dos leitores a determinadas notícias no jornal sofrem influência de acordo com a fonte em que o texto é escrito. É claro que isso não é novidade para quem já leu um pouco sobre tipografia; o que ainda não tinha visto eram pesquisas com números que comprovassem a teoria.

Outro caso interessante é a avaliação que as pessoas fazem de um chef de um restaurante baseando-se na fonte tipográfica do menu. É incrível a influência, inclusive na percepção de preço. Há pegadinhas onde se faz uma pergunta capciosa (exemplo: “quantos animais de cada espécie Moisés levou para a arca?”. O trabalho do pesquisador David Lewis mostra que se a fonte é fácil de ler, 80% das pessoas erra e responde um par. Quando a fonte exige um pouco mais de concentração na leitura, esse número cai para 50%; metade consegue se dar conta que o sujeito da arca é o Noé, não o Moisés. Louco isso, né?

As fontes também influenciam o humor das pessoas e fazem com que elas consigam voltar no tempo (e nesse capítulo fiquei sabendo que há o Museum of Brands em Londres que guarda embalagens desde a época Vitoriana. Não posso perder de jeito nenhum!).

Sarah gosta e sabe brincar com as letras. Ela apresenta o equivalente tipográfico aos filtros de imagens do instagram. É legal demais, olha só:

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Ela diz também que as fontes que a gente mais gosta e usa revelam muito sobre a nossa personalidade (claro, assim como as roupas, o corte de cabelo, etc). Por isso, o livro é oferecido com a capa em cinco fontes diferentes e você escolhe qual prefere quando faz o pedido: Baskerville, Claredon, Didot, Gill Sans e Helvetica. O meu é em Gill Sans (adoro). Resumo: sou uma tradicionalista que gosta de pensar que é moderna…rsrsrs. O texto é bem maior, mas não vou reproduzi-lo aqui não (parece horóscopo; acerta umas coisas e erra outras).

Olha, o livro é diversão até o fim: veio com um óculos 3D para o estudo da percepção das fontes, propõe uma série de atividades (ótimo para professores) e até fotos de balas e biscoitos que traduzem a personalidade de cada fonte tem (com receitas e tudo!).

Meu único reparo é que essa primeira edição, de 2.000 exemplares, foi impressa on demand. Daí que a encadernação é boa, mas como o papel interno é muito grosso (170 g/cm²), fica difícil de manter o livro aberto durante a leitura.

No mais, recomendo com estrelinhas. Vai lá: The type taster.

3 Responses

  1. Sandro Fetter
    Responder
    24 fevereiro 2015 at 5:37 pm

    Oi Ligia, tudo bem? Ótima a tua dica, sou designer, tipógrafo e professor e não tinha conhecimento do livro. Me permita comentar um detalhe na tua resenha, por favor. Acontece que não se tem registro de que Gutenberg tenha batizado sua fonte com um nome, como ele era alemão da mogúncia e os modelos caligráficos de blackletters –conhecidos popularmente como “góticos”– eram o padrão de escrita do norte da Europa, provavelmente ele não chamaria seus tipos de “old english”. Os livros especializados sempre se referem ao tipo “textura” de Gutenberg, sendo que textura era o modelo caligráfico de blackletters mais utilizado naquele momento e naquela região. Na verdade a fonte Engravers’ Old English foi desenhada por Morris Fuller Benton, tipógrafo americano, em 1907. É só um detalhe, mas faz diferença para os “tipochatos”, rsrsrsrsrsrs. Um abraço, : )

    • ligiafascioni
      ligiafascioni
      Responder
      25 fevereiro 2015 at 5:10 am

      Oi, Sandro!
      Puxa, obrigada elo esclarecimento, não fazia ideia. Agora que você falou, fui olhar o livro e no texto a autora só se refere a esse fonte como Blackletter. O “Engravers’ Old English” só aparece numa ilustração onde ela mostra a linha do tempo da evolução dos tipos (veja a imagem que anexei), mas, de qualquer maneira, está no ano errado. Talvez você possa dar um feedback direto para a autora (ela me pareceu bem acessível) pelo site; se ela é uma estudiosa do assunto, com certeza vai apreciar sua contribuição e talvez até fazer a correção na próxima edição.
      Obrigada mesmo!
      Abraços e sucesso!
      Linha do tempo: The type taster

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