Utopia para realistas

Coisa mais linda quando um livro vem para destruir nossas crenças e desafiar o senso comum. Pois se você concorda, não deixe de ler “Utopia for realists and how we can get there“, do Rutger Bregman.

O autor começa com uma visão bem otimista do mundo; diz que em 99% da história, 99% da humanidade era pobre, faminta, suja, medrosa, estúpida, doente e feia. Mas isso mudou radicalmente nos últimos 200 anos. Em apenas numa fração ridícula de tempo, bilhões de pessoas tornaram-se ricas, bem nutridas, limpas, seguras, espertas, saudáveis e, ocasionalmente, bonitas. Em 1820 cerca de 84% da população do planeta vivia em extrema pobreza. Esse número foi reduzido para 10% nos dias atuais. É claro que ainda é muita gente, mas que mudança! A se continuar nesse ritmo, é possível erradicar totalmente a extrema pobreza em breve.

Depois dessa empolgante introdução, o autor explica a utopia do título. É que a palavra utopia significa mais ou menos o mesmo que paraíso, a terra ideal, toda mel e leite, para citar uma das principais referências do autor, o escritor conterrâneo holandês Herman Pleij. Na cidade ideal, chamada Cockaigne, comida estaria disponível o tempo todo, o clima seria controlado e sempre agradável, o amor seria livre, haveria salário sem trabalho e cirurgias plásticas estariam ao alcance de todos para preservar a juventude.  A questão é que, nos dias atuais, pelo menos para boa parcela da população (a que decide), Cockaigne já existe. Essa fantasia medieval tornou-se muito próxima da realidade, apesar dos muitos, indesejados e imprevistos efeitos colaterais (poluição, obesidade, ansiedade, esgotamento dos recursos naturais, entre outros).

Até os milagres da Bíblia já estão ao alcance de muita gente: paralíticos que passam a andar (com o auxílio de exoesqueletos e outras tecnologias), doentes que são curados, cegos que podem voltar a ver; até animais extintos podem voltar a existir pela recuperação do DNA. Seis bilhões de pessoas, num mundo de 7 bilhões, possuem telefone celular. A expectativa de vida em 2012 (70 anos) era o dobro do que em 1900. A parcela da população que sobrevivia com menos de 2000 calorias por dia passou de 51% em 1965 para menos de 3% em 2005. A poliomelite fez 99% menos vítimas em 2013 do que em 1988. Por incrível que pareça, a incidência de assassinatos, roubos e até de guerras tem diminuído proporcionalmente de maneira considerável.

Um dos problemas que enfrentamos hoje (e Yuval Harari já disse em outras palavras em Homo Deus) é justamente a falta de utopias realmente motivadoras; temos mais visões de distopias. As pessoas e empresas estão obcecadas com atingir alvos e aumentar o desempenho. Na academia, está todo mundo escrevendo desesperadamente a ponto de ficar sem tempo para ler; publicando  para cumprir metas, portanto sem tempo para debater. As TVs e jornais só se preocupam com os números das vendas e da audiência. Hospitais, escolas e produtores culturais tornaram-se todos fábricas em busca de resultados mensuráveis. O Estado busca desajeitadamente corrigir os sintomas, em vez de buscar as causas.

Os índices de depressão não param de crescer e as mentes mais brilhantes do planeta estão pensando em como fazer as pessoas clicarem em um anúncio. Ao mesmo tempo, se em 1950 a gente perguntasse a um adulto se ele era uma pessoa especial, 12% responderiam que sim. Em 2010, 80% concordaram com a afirmação. É para se pensar.

A partir daí o autor começa a imaginar formas de construir uma nova utopia a partir de informações sobre a situação atual. Ele critica o Produto Interno Bruto, que, ao mesmo tempo que revela muita informações, esconde outras igualmente importantes; faz muitas ressalvas ao índice criado no Butão, a Felicidade Interna Bruta, e por aí vai.

Bregman diz que sem utopia, estamos perdidos e sem objetivos. Precisamos de desafios e de mudança, precisamos de planos e objetivos.

Agora é que vem a parte em que o senso comum é destruído, pois Rutger começa a discorrer sobre a renda mínima universal. Eu já tinha lido um pouco a respeito e me conservava cética, apesar de levemente favorável. Mas aqui ele apresenta evidências de que esse pode ser um caminho para a transformação social e tecnológica pela qual o mundo está passando.

O autor mostra diversos experimentos cujas evidências demonstram claramente que dar dinheiro diretamente para as pessoas que precisam, sem exigir nada em troca, produz resultados muito melhores (e a um custo significativamente mais baixo) do que bolar programas sociais sofisticados e cheios de burocracia. Sim, você leu certo. Ele tem evidências que levam a essa conclusão.

Bregman cita o economista Charles Kenny: “a maior razão pela qual as pessoas pobres são pobres é porque elas não têm dinheiro suficiente“. Elas não são burras, não são malandras, não são incompetentes. Elas apenas não têm dinheiro. Entre outros, ele descreve um experimento em que um montante relativamente modesto de dinheiro foi dado a moradores de rua (muito menos do que eles custam para os programas sociais) sem contrapartida. O resultado? Todos eles conseguiram mudar de vida. Em vez de gastarem dinheiro com drogas ou bebidas, como era de se esperar, a maioria conseguiu um teto para morar; vários se matricularam em cursos, fizeram reabilitação, visitaram suas famílias e passaram a ter uma vida digna.

O autor cita outros estudos, que mostram que quando uma pessoa não tem o básico para a subsistência, ela simplesmente não consegue pensar direito e calcular o impacto a médio e longo prazo das suas decisões. Aliás, ela mal consegue tomar decisões. A falta de dinheiro para as questões fundamentais da vida monopoliza o cérebro em busca de uma solução. Por isso, dar dinheiro para quem está com esse problema, libera a mente para pensar em outras coisas e ir adiante. Imagino o que você está pensando, mas leia o livro, por favor. Estamos falando de pesquisas sérias e evidências, não de opiniões ou achismos.

Ele fala que a desigualdade extrema é ruim, mas não pode ser eliminada, por uma questão de justiça; os trabalhos, resultados e valores são diferentes. Um médico não pode ganhar o mesmo que um varredor de rua por conta do período de investimento em qualificação. Pelo bem da nossa própria saúde (inclusive a do varredor). Mas ambos precisam viver com dignidade.

O autor vai além; a redução da jornada de trabalho. Tem até uma história bem interessante a respeito de Henry Ford. Rutger conta que a revolução industrial eliminou completamente o conceito de lazer da vida dos trabalhadores, que cumpriam uma jornada média de 70 horas por semana, sem férias nem finais de semana. O mesmo valia para as crianças.

Em 1926, um grupo de 32 homens dos mais bem sucedidos homens de negócios nos EUA foram instados a reduzir a carga horária de seus funcionários. Um total de dois acharam que a ideia tinha algum mérito. Os outros 30 achavam que mais tempo livre aumentaria os crimes, o alcoolismo, as dívidas e levaria o país à degeneração. Mas eis que Henry Ford, um dos dois que acharam a ideia interessante, resolveu apostar e implementou a semana de cinco dias em suas fábricas.

Bem, os outros industriais bufaram de raiva, xingaram o quanto puderam, mas tiveram que ceder aos números, pois a produtividade aumentou consideravelmente (experimentos atuais levam ao mesmo resultado).

Bregman acredita que a redução gradual da carga de trabalho pode reduzir o stress, amenizar os efeitos da mudança climática, reduzir acidentes, diminuir o desemprego e até mesmo melhorar a vida das mulheres, que ainda sofrem com duplas e triplas jornadas.

Ele ainda advoga que, trabalhando menos e tendo as condições mínimas para sobreviver, as pessoas produzirão mais arte, conhecimento e cultura, que, em síntese, é o que nos diferencia das máquinas.

Será? Adoraria apostar que sim.

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