Bola de luz

Como uma pessoa pode ser tão criativa, minha gente? Nunca me canso de me encantar com escritores, em especial os de ficção científica. 

O chinês Cixin Liu foi uma das maravilhosas descobertas nessa área; depois da trilogia iniciada com o “The three body problem”, fiquei curiosa para descobrir até onde vai a capacidade criativa desse moço.

No ótimo “Ball Lightning” (tradução livre e não literal: “Bola de luz”), ele desenvolve toda uma história fantástica a partir de um fenômeno físico ainda não explicado. 

Essa tal bola é como uma bolha transparente, porém, carregada de energia e com diferentes espectros de luz visível. Ela existe de verdade e aparece principalmente em dias de tempestade forte, com muitos raios e relâmpagos; ou seja, com o ar carregado de eletricidade estática. 

A narrativa começa no aniversário de 14 anos do protagonista. É uma noite de tempestade e uma bola dessas entra por dentro do apartamento. Por um movimento reflexo de seu pai, a tal bola descarrega sua energia e incinera instantaneamente seus pais, deixando o menino sozinho no mundo, perplexo e com um montinho de cinzas no lugar deles. A vida fica bem difícil e ele não compartilha essa experiência com ninguém. De algum jeito ele consegue ir se virando e dedica a sua vida a estudar e entender o fenômeno.

Há outras coisas estranhas e meio surreais que acontecem nesse meio tempo. 

Na faculdade de física, matemática e ciência atmosférica ele conhece um professor que o convida para fazer um estágio. Na ocasião ele conhece uma militar que pesquisa armas alternativas e se interessa em transformar essa bola numa arma de guerra.

Ao grupo de estudiosos une-se um físico igualmente genial, e experimentos são realizados pelo laboratório militar de novos conceitos da China (é preciso financiamento pesado para os experimentos — o protagonista, Chen, incomoda-se muito com a ideia de transformar as bolas em armas, mas não há outro meio de financiar a pesquisa).

Lin Yun, a belíssima e genial militar, é fascinada por armas e tem uma história bem complicada. O Dr. Ding Yi, o cérebro da física, é lógica em forma de um homem chinês. Junto com Chen, eles desenvolvem uma teoria incrível; fazem experimentos práticos e conseguem dominar a tal bola de luz, a ponto de, finalmente, transformá-la realmente numa arma.

Mas o fascinante mesmo é a linha de raciocínio que consegue explicar não apenas a existência das bolas, mas seu princípio de funcionamento e até mesmo os fenômenos estranhos e surreais que acontecem. 

Infelizmente meus conhecimentos em física quântica não me permitem avaliar a validade da teoria (o próprio autor diz que a obra é de ficção, então tem muita liberdade poética no processo criativo). Mas para uma leiga, as explicações me parecem bem lógicas e convincentes.

Se você gosta de física e de ficção científica, está aqui uma obra imperdível. Se não curte, talvez se perca um pouco nas descrições técnicas, necessárias para fundamentar a história.

Apesar do romance ter sido escrito depois da trilogia, o autor considera-o uma pré-continuação, ou seja, uma introdução para a trilogia, por causa de uma única frase dita por Chen para um pesquisador do SETI lá no último capítulo: “Se você realmente conseguir provar que o super-observador está assistindo o nosso mundo, a atividade humana está sendo bem indiscreta… você pode dizer que a humanidade está em estado quântico, e o super-observador irá forçá-la ao colapso”.  Para entender o que isso significa, só mesmo lendo o livro…

No final, Cixin faz um adendo e conta que ele mesmo presenciou a aparição de uma dessas bolas e ficou fascinado depois da experiência. Quem não ficaria? Queria muito ver uma dessas também. Vou ficar mais atenta em dias de tempestade…

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