O assassinato do comendador

Uma das maiores (senão a maior) causas da decepção é a expectativa alta. Como boa fã do Harumi Murakami, aguardei ansiosamente para ler “Die Ermorderung des Commendatore” (tradução livre: “O assassinato do comendador”). 

Não dá para dizer que é um livro ruim (Murakami não é capaz de cometer isso), mas, na minha opinião, ficou devendo. Eu não colocaria entre minhas obras preferidas.

A história é a seguinte: um pintor de retratos, que também é o narrador, recebe um ultimato da mulher, que quer se separar, e sai de casa. Passa um tempo viajando pelo país até que um amigo de faculdade, cujo pai era um pintor famoso, oferece a ele a casa na montanha que o pai usava como atelier.

O pai do moço era um sujeito misterioso; estudou em Viena logo antes de estourar a segunda guerra e voltou ao Japão em condições controversas. Nuca se aproximou do filho e sempre se isolou para praticar sua arte.

O protagonista pintor de retratos se muda para a casa e dá algumas aulas de pintura na comunidade local. Com o tempo, conhece um vizinho que mora do outro lado do Vale (é um sujeito cheio de segredos e mistérios). Coisas um pouco surreais acontecem e os dois se aproximam.

Entra na história uma menina de 13 anos (não me lembro de nenhum livro desse autor que não apareça uma menina adolescente), possível filha do tal vizinho. A menina desaparece por uns dias, na mesma época em que o protagonista experimenta uma experiência fantástica.

E o tal comendador? O “Assassinato do Comendador” é um quadro que o narrador encontrou escondido no sótão da casa e é diferente de tudo o que o famoso pintor dono da casa fazia. É uma cena de violência com vários personagens; um homem enfia uma espada no tal comendador, jorra sangue, uma donzela e duas outras pessoas observam a cena, sendo que uma delas parece estar espiando de dentro de um alçapão.

Depois de descobrir um santuário enterrado no jardim, o personagem do quadro que representa o tal comendador começa a aparecer para ele na forma física, do mesmo tamanho que aparece no quadro (cerca de 60 cm). O comendador se auto define como sendo uma ideia e dá algumas dicas para o narrador. Outros personagens aparecem depois, sempre com um papel na narrativa; um deles, por exemplo, se diz uma metáfora.

Olha, para ser sincera, esperava muito mais. A impressão que eu tenho é que o editor falou para o Murakami: “Você tem que me entregar mil páginas até a data tal; está estabelecido no contrato”. Aí o escritor reaproveitou partes de outros romances (duas cenas são claramente recicladas de outros livros) e mandou ver. 

É claro que, talentoso como ninguém, ele consegue prender a atenção e fazer uma série de metáforas interessantes, mesmo com um roteiro fraco. Sem falar na trilha musical da história e nas paisagens. 

Vou esperar o próximo Murakami. Espero que ele esteja mais inspirado.

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