O cheiro das coisas…

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O ser humano é prioritariamente visual, pois olhos acurados são muito importantes para a sobrevivência desde que o mundo é mundo. Os outros sentidos funcionam quase como coadjuvantes: importantes sim, mas nem de longe, “o cara”.
Para mim, que exercito os olhos mais do que tudo, como todo mundo, o outro sentido que vem logo em seguida é o olfato. Por isso, senti-me irremediavelmente atraída por “O cheiro das coisas — o sentido do olfato: paladar, emoções e comportamento”, de Bettina Malnic. Apesar da autora ser uma sumidade no assunto (essa professora da USP fez seu pós-doutorado em Harvard sob orientação da ganhadora do prêmio Nobel de Medicina e Fisiologia de 2004, Linda Buck), sua linguagem é simples, interessante e perfeitamente acessível para nós, simples mortais com narizes comuns.

A primeira coisa bacana é descobrir que o comportamento dos animais é completamente controlado pelo cheiro. Experimentos com camudongos (acredite ou não, eles têm o sistema olfativo muito semelhante ao nosso) mostram que eles só são capazes de distinguir o sexo das camundongas pelo cheiro, mesmo contra todas as outras evidências (uns verdadeiros Ronaldinhos). Medo, agressividade, violência? Tire o olfato do ratinho e veja-o tentando brincar com um gato mal intencionado – ele perde completamente a noção do perigo. As formigas chegam a tentar enterrar uma colega só porque ela foi borrifada com cheiro de formiga morta. O cheiro, para elas, é mais forte do que os protestos e esperneios da suposta moribunda.

Nos humanos, os pesquisadores descobriram que mulheres que moram juntas sincronizam o ciclo menstrual pelos odorantes naturais do suor das axilas. Esse mesmo cheiro faz com que um bebê reconheça a sua mãe e que você simpatize ou não com um pretendente.

Um aspecto que eu nunca tinha pensado é que, para uma coisa ser cheirada, ela tem que se doar, isso é, uma parte dela tem que evaporar na forma de pequenas partículas para chegar até os neurônios olfativos (isso mesmo, neurônios!) que ficam atrás do nariz. É por isso que os metais não têm cheiro de nada; eles não evaporam em forma de moléculas voláteis, portanto, a gente não tem como senti-los.

Os neurônios responsáveis pelo olfato são os únicos que têm contato direto com o ar. E a área da mucosa olfativa dos cães é 20 vezes maior que a nossa, mas eles têm menos capacidade de processamento desses sinais. Assim, esses bichos fofos são imbatíveis para detectar cheiros, mas só nós conseguimos associar lembranças, emoções e histórias inteiras a um mero galhinho de alecrim ou alfazema.

Os neurônios olfativos também são os responsáveis pelo paladar. Nossa pobre língua só detecta doce, salgado, azedo e amargo, além do umani (glutamato de sódio, aquele do tempero Ajinomoto). Então, para nós, doce de leite ou chocolate teriam o mesmo gosto se os seus cheiros não fossem tão diferentes e elaborados. Quando a gente mastiga, uma parte das moléculas voláteis da comida vão lá no fundo do nariz para seduzir nossos sensores olfativos. É por isso que, com gripe e nariz entupido, temos a impressão que toda comida tem o mesmo gosto. Não é impressão.

No livro tem muitas outras coisas interessantíssimas que devíamos levar em consideração e estudar mais a fundo. Afinal, o marketing sensorial parte do pressuposto que devemos envolver o consumidor com todos os sentidos. Uma ferramenta poderosa assim não deveria ser relegada ao segundo plano sem nem ao menos a gente conhecê-la direito, né?

E vou ficando por aqui porque sinto que o café já está pronto…

Lígia Fascioni | www.ligiafascioni.com.br

1 Resposta

  1. 28 junho 2009 at 6:15 pm

    Hola de parte de parejaspareja.es, encontre tu blog navegando por la red buscando ciclo menstrual en google. Me parece super interesante la información que tienes en tu blog y sin lugar a dudas regresare a leerlo. Tengo una pregunta, si podria traducir tu blog “O cheiro das coisas… « Ligia Fascioni” y añadirlos a un de mis blogs en italiano? Y por supuesto con el link direccionando a tu blog. Estare esperando tu respuesta. parejaspareja.es

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