O Homo Sapiens e as revoluções: como chegamos até aqui

Há livros e Livros. 

Sapiens, a brief history of humankind é do segundo tipo. Na minha opinião, deveria ser texto de referência para o ensino básico; ele é fundamental para que a gente consiga entender nosso papel nesse planeta.

O autor, Yuval Noah Harari é professor de História do Mundo na Universidade de Jerusalém e é dono de um incrível poder de síntese, além de um estilo irônico que faz a gente grudar no papel.

Sapiens é dividido em quatro partes: a revolução cognitiva, a revolução agrícola, a unificação da humanidade e, finalmente, a revolução científica.

As definições de um historiador para quem tudo é história, são sensacionais peças de concisão. Veja*:

A história dos átomos, moléculas e suas interações, é chamada química.

A história dos organismos é chamada biologia.

Há cerca de 70 mil anos, organismos pertencentes à espécie Homo Sapiens começaram uma forma com estruturas mais elaboradas chamadas culturas. O subsequente desenvolvimento dessas culturas humanas é chamada história.

As três revoluções que mudaram totalmente a história são contadas aqui de uma maneira leve, porém precisa e extremamente crítica. Não há heróis nem mocinhos, mas decisões e suas consequências.

A revolução cognitiva

Apesar do cérebro humano participar com apenas 2 ou 3% do peso do corpo, ele consome 25% de toda a energia gasta. E isso quando está em repouso. Nos outros primatas, o consumo não ultrapassa 8%. Por esse motivo, nossos ancestrais Sapiens gastavam muito mais tempo procurando comida e tinham seus músculos menos desenvolvidos (quando os recursos são limitados, há que se decidir como gastá-los; o cérebro decidiu tirar dos músculos para ficar com mais).

Porque seus bebês humanos eram muito mais dependentes que os filhotes de outras espécies, os Sapiens desenvolveram incríveis habilidades sociais. E aqui o autor discorre sobre nossa queda pela fofoca e pela vida alheia como um diferencial inquestionável da espécie.

Mas a questão mais interessante é que, para que se possa organizar socialmente e fazer com que indivíduos desconhecidos colaborassem mutuamente, foi necessário desenvolver o storytelling e a ficção. Foram criados mitos e histórias para convencer as pessoas a trabalhar juntas por um objetivo maior. 

E aqui o autor explica que a revolução Cognitiva é justamente esse ponto da história onde o Sapiens se desprende da biologia para tomar decisões e determinar comportamentos; a história é a protagonista a partir desse momento. Não há mais uma forma de vida “natural” que define as decisões e comportamentos; as escolhas são todas culturais.

 

A revolução agrícola

Nesse ponto, os humanos pararam de ser caçadores e coletores e passaram a domesticar algumas plantas e animais. Para isso, tiveram que se estabelecer em lugares fixos e deixar para trás o nomadismo.

A agricultura só foi possível por causa da capacidade dos seres humanos de pensar no futuro, de fazer planos. Com mais trabalho, menos tempo livre e mais planejamento, a população aumentou siginificativamente. E foi uma bola de neve. 

Os conceitos abstratos foram fundamentais para a revolução agrícola, pois era necessário imaginar maneiras de se organizar a produção e convencer pessoas a trabalhar. Deuses, religiões e mesmo ideias como liberdade, leis e governos são totalmente frutos da criatividade humana, pois não podem ser biologicamente ou fisicamente provadas; dependem fundamentalmente da crença humana para existirem. E são elas que permitem que pessoas desconhecidas colaborem mutuamente.

Aqui ele desenvolve teses bem interessantes sobre essas abstrações e a ordem imaginada como inter-subjetivismo (onde o objetivo é um fenômeno que existe independentemente da percepção humana; o subjetivo depende da percepção de um indivíduo e o inter-subjetivo depende da percepção de muitos indivíduos).

Harari discorre também sobre a invenção da escrita e o quanto ela mudou a maneira como o ser humano pensa; fala sobre o dinheiro e como ele é um sistema de confiança mútua, a questão dos gêneros e da (in)justiça.

Fala também da capacidade do ser humano em acreditar simultaneamente em conceitos contraditórios, fundamental para o desenvolvimento da cultura. E do imperialismo, da nossa xenofobia inata, das várias vertentes do humanismo, entre outras ideias interessantíssimas.

 

A revolução científica

Os últimos 500 anos testemunharam um crescimento tão fantástico do poder do Sapiens sobre o planeta que chega a ser assustador. O crescimento populacional explodiu e continua crescendo exponencialmente. É só pensar que em 1500, o planeta inteiro tinha 500 milhões de humanos; hoje somos 7 bilhões, 14 vezes mais gente em apenas 5 séculos! E mais: nosso consumo de energia cresceu 115 vezes!

A ciência moderna difere de todo o conhecimento anterior por causa de três pontos fundamentais:

  1. A admissão de nossa ignorância. Passamos a aceitar que quando as coisas que acreditávamos se provam erradas, isso significa que ganhamos mais conhecimento. Nenhum conceito, ideia ou teoria é sagrado para a ciência. 
  2. O uso intenso da observação e da matemática para desenvolver conhecimento.
  3. A aquisição de novos poderes por meio de novas tecnologias.

Por isso, o autor diz que essa não é uma revolução do conhecimento, mas a revolução da ignorância, pois é a ignorância que nos move (achei isso fantástico!).

Por causa da tecnologia, que é a aplicação prática da ciência, o teste real sobre o conhecimento não é mais se ele é verdadeiro ou não, mas se ele nos dá mais poder ou não. E o autor mostra como a ciência, o imperialismo e o capitalismo (importante: sem juízo de valor ou panfetlagem, apenas analisando os fatos) nos trouxe até aqui, para o bem e para o mal.

E que o desenvolvimento tecnológico depende de valores, mitos, aparatos judiciais e socioestruturas sociopolíticas para se desenvolver; isso pode levar séculos, não é coisa que se construa rapidamente. O que em parte explica porque, sendo o conhecimento hoje acessível (pelo menos teoricamente) a todos os países, somente alguns conseguem tirar proveito.

O autor fala do imperialismo europeu como a busca incessante do domínio de mais territórios não apenas para adquirir riquezas, mas também para adquirir mais conhecimento (cita vários exemplos históricos muito interessantes), enquanto que os outros imperialistas achavam que já dominavam o conhecimento e entendiam como o mundo funcionava. Isso fez muita diferença no resultado final. Por exemplo, quando os muçulmanos conquistaram a Índia, não levaram arquologistas para estudar a história do lugar, antropólogos, geólogos, biólogos e zoólogos, como os britânicos fizeram anos depois.

O Sapiens mudou completamente sua própria existência e também a da Terra. Mas será que foi para melhor? Será que somos mais felizes? Será que os outros animais que também compartilham o mesmo planeta também vivem melhor do que antes?

Em apenas 70 mil anos, um animal insignificante nos confins da África que nem aparentava ter vantagem sobre os outros transformou-se em um Deus. Quais serão as consequências disso?

Para quem, como eu, interessa-se pelo tema inovação, é imprescindível conhecer as inovações que nos trouxeram até aqui. 

O próximo volume do autor, que fala sobre os diversos cenários possíveis para nosso futuro, já está na cabeceira. É o “Homo Deus: a brief  history of Tomorrow”. 

Aguarde.

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* aqui fiz uma tradução livre, pois li a versão em inglês (o livro original é em hebraico). Há, com certeza, versões traduzidas para o português, mas não sei se as frases foram construídas da mesma forma.

1 Response

  1. ÊNIO PADILHA
    Responder
    8 junho 2018 at 11:00 am

    Sensacional. Cada resenha sua é uma anotação minha na “lista dos livros para comprar na próxima ida a uma livraria”.

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