Simplesmente vermelho

A gente vive num mundo colorido e sabe que cada cor tem seu valor, mas nenhuma é tão polêmica e cheia de personalidade como o vermelho. Por causa dela, reis, imperadores e até cidadãos comuns fizeram intrigas, guerras, espionagem e tingiram o solo de sangue, veja só.

Sobre a epopéia do vermelho é que trata o curioso “A perfect red: empire, espionage and the quest for the color of desire“*, de Amy Greenfield. A gente não faz idéia, mas o vermelho teve participação importante na economia de países, na manutenção de impérios e até na preservação ou aniquilação de vidas.

A autora (por sinal, filha e neta de tintureiros) conta que na Idade Média, a arte de tingir tecidos era conhecida e dominada por poucos e que esse expertise era passado de pai para filho. Conseguir os pigmentos corretos e fazer com que tecidos parecessem vivos e brilhantes era um desafio formidável, se considerarmos os parcos recursos; mas não menor era a dificuldade em impedir que desbotassem. O trabalho de tintureiro, apesar de muitíssimo bem remunerado, era sacrificante; o sujeito tinha que lidar com tinas enormes, temperaturas desumanas, ácidos perigosos, gomas tóxicas e substâncias esquisitas (estercos e fluidos corporais de animais diversos eram largamente usados como componentes).

Num mundo dominado pelo cinza, bege e branco-sujo (pense nos cenários dos filmes dessa época), uma cor viva nas vestes era privilégio de poucos (nobres, ricos e sacerdotes). E de todas as cores, a mais difícil de se obter e conservar era o carmim. Pessoas comuns, mesmo que tivessem acesso, eram proibidas por lei de usar esse tom (que variava muito de aparência, indo do vermelho amarronzado ao púrpura).

Durante o renascimento, a admiração pelo escarlate passou a ser um verdadeiro fetiche, de maneira que os proprietários de roupas dessa cor eram realmente afortunados (tecidos vermelhos equivaliam quase a ouro e jóias). A importância da coisa era tamanha, que os tingidores de Lucca, na Itália, famosos pelas suas habilidades e competências, eram sentenciados de morte caso resolvessem trabalhar em outra cidade (e os reis de vários lugares viviam fazendo-lhes convites indecorosos).

Tingir um tecido de vermelho era caro e complicado por causa das substâncias que forneciam o pigmento. A henna, por exemplo, funcionava para colorir a pele, as unhas e o cabelo, mas era completamente inadequada para tingir tecidos. Havia também a dificuldade de transporte; algumas raízes proviam bons resultados, desde que o tintureiro fosse um metódico compulsivo; qualquer piscada e a roupa do príncipe podia ficar marrom, coral ou alaranjada. Os especialistas do império otomano conseguiam resultados esplendorosos, mas o processo podia levar até 4 meses de trabalho duríssimo (e arriscado). O pau Brasil também teve seus dias de glória, mas foi rapidamente abandonado porque desbotava com muita facilidade. Havia vermelhos incríveis, mas a maioria vinha das entranhas de insetos exóticos, difíceis de se obter em grande escala; além disso, eles só funcionavam em lã e seda.

Foi aí que chegaram rumores que, nas terras recém descobertas por Portugal e Espanha (o Novo Mundo), havia um vermelho intenso e belíssimo, mais vívido que qualquer experiente tintureiro veneziano conseguiria fazer. O buchicho foi crescendo junto com a curiosidade. Seria verdade tamanha maravilha?

Pois é, se a gente considerar que os europeus acreditavam que na América todos viviam felizes, na mais perfeita paz e harmonia sem precisar de dinheiro ou governos, morando em cidades feitas de ouro, dá para duvidar um pouco. Mas nem tudo era idealização ou fantasia: a história do vermelho sensacional era real.

O tal encarnado era obtido pelos habitantes da América Central com a ajuda de um poderoso corante: o ácido carmínico, produzido pela fêmea da Cochonila, era capaz de tingir um tecido por séculos, sem desbotar. Pois os astecas conseguiram aprimorar essa espécie selvagem e criar uma super-cochonila, maior, com mais ácido-carmínico e capaz de produzir um vermelho muito mais intenso (fico pensando naquelas propagandas de esmalte e batom). Para esse povo, dado a sacrifícios humanos e rituais sanguíneos, essa cor tinha valor especial mesmo, o que justificava o investimento. Além do mais, até hoje a gente percebe como os mexicanos apreciam cores vivas. Eles não são tão coloridos hoje à toa; a excelência no ramo vem de muito, muito tempo.

Agora imagine um bando de europeus miseráveis chegando de navio no México e dando de cara com esse mundo multicolorido. Foi um deslumbre sem controle; para eles, as cores eram a coisa mais luxuosa que podiam imaginar; poucos tinham visto ao vivo um vermelho tão intenso. A inveja e a ganância destruíram a mais linda cidade asteca que já existiu, e o vermelho passou a ser uma cor infeliz para aquele povo. No outro lado do oceano, porém, a glória da cochonila estava apenas começando.

Os antigos mexicanos produziam o pigmento de cochonila em quantidades industriais e boa parte passou a ser enviado para a Europa até se tornar um ingrediente indispensável para a indústria têxtil. Mas como tudo na vida, quando ficou comum, acabou caindo de moda. Mesmo assim, o pigmento também servia para fazer o dificílimo preto absoluto, e os nobres, a exemplo de Steve Jobs e do pessoal mais cool de hoje, passaram a usar essa não-cor por um bom tempo.

A cochonila também começou a ser usada para fabricar cosméticos (blush e batom), tinta para os mestres pintores (Tintoretto, Vermeer, Rembrandt, Rubens e Van Dick desfrutaram dos benefícios do besourinho famoso) e corante para alimentos.

Esse pequeno inseto se alimentava e vivia pendurado num tipo de cacto que crescia no México, motivo pelo qual, por muito tempo, o país foi o principal fornecedor mundial de pigmentos. No meio disso houve intrigas, piratarias, batalhas e muito stress; depois da independência mexicana, a Guatemala e as Ilhas Canárias assumiram a dianteira na produção, mas só durou até a descoberta de corantes sintéticos muito mais baratos e abundantes, o que levou os fornecedores do pigmento animal à bancarrota.

Hoje, a cochonila é usada artesanalmente somente por índios mexicanos e um pouco da produção vai para corantes alimentícios naturais, mas a escala nem se compara aos áureos tempos.

E pensar que esse pequeno inseto hoje, pelo menos no Brasil, é apenas uma praga de jardim (sim, é aquele pulgão que deixa manchinhas brancas nas folhas da sua adorada samambaia).

A chochonila caiu em desgraça, mas o vermelho continua forte, apaixonante, sedutor e deslumbrante, seja lá qual for a maneira de consegui-lo. Ou como lembra a famosa banda britânica, Simply Red

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* Tradução: “Um vermelho perfeito: império, espionagem e a busca pela cor do desejo

Lígia Fascioni | www.ligiafascioni.com.br

7 Responses

  1. Avatar
    4 julho 2010 at 1:17 pm

    Oi Lígia,
    obrigada pela excelente matéria sobre o vermelho. Sou uma apaixonada por cores que no dia a dia ama se vestir de preto, rsrs. Sou publicitária, deve ter algo na minha essência.

    vou linkar essa matéria no meu blog ok?
    e vou amar sua visita, sou sua seguidora há algum tempo.

    historiasdepublicitaria.blogspot.com

  2. Avatar
    4 julho 2010 at 1:19 pm

    Que bacana, Lígia!! Obrigada por compartilhar as suas visões sobre o livro. Parece bem interessante, fiquei com vontade de ler também… 😉
    Beijos!

  3. Avatar
    4 julho 2010 at 3:36 pm

    Adorei seu site. Parabéns!!! 😉

  4. Avatar
    Clô♥
    Responder
    5 julho 2010 at 10:51 am

    Realmente o vermelho é apenas o máximo, mesmo que não seja para vesti-lo. Não consigo imaginar o mundo sem essa cor…♥

  5. Avatar
    5 julho 2010 at 9:25 pm

    Ótimo, ótimo, ótimo! Não conhecia esse detalhe do vermelho, valeu!
    Beijo,
    Renata

  6. Avatar
    7 julho 2010 at 3:19 am

    bom, no texto acima, diz que o vermelho que vinha do pau-brasil desbotava fácil e logo foi abandonado…mas esse “logo” aí foi o suficiente para os portugueses detonarem nossa valorosa árvore durante o ciclo-econômico do pau-brasil no brasil colônia…fato. Li em uma máteria na revista Terra há alguns anos atrás.

    E outra coisa que não confere com a realidade seria esse uso “artesanal” e o “pouco” que é utilizado na indústria alimentícia nacional. Pouco?

    Olha, eu particularmente acho nojento comer algo que tenha como corante insetos esmagados. Tento comprar alimentos que não contenham-nas mas é difícil. A cochonilha é usada em laaaarggaaaa escala pela indústria alimentícia. E cito nomes sim: tudo que for vermelho forte ou fraco, rosinha (sabores de morango, frutas vermelhas, etc) ou meio alaranjado pode conter cochonilhas esmagadas. Sucos Ades, iogurtes de várias marcas, sucos em geral e por aí vai. Pesquise e leiam os rótulos.
    Esse corante pode vir descrito nas embalagens com várias nomenclaturas, nomes comerciais como: carmim de cochonilha ou simplesmente carmim. Ou ainda em um ou dois tipos de códigos numéricos que não recordo. É barato para as indústrias, mas eu acho caro para minha saúde. Seria tão bom se utilizassem corante feito a partir da beterraba ou outros…estou disposto a pagar a mais por isso, da mesma maneira que os vegetais orgânicos.
    Não sou judeu nem muçulmano (eles não podem comer alimentos “impuros”, vide o conceito kosher) mas sou chato (exigente) pois saúde e beleza não se compra e vou muito bem, obrigado.

    p.s.: como amante de botânica, só finalizo dizendo que existem várias cores de cochonilhas, parda, branca, vermelha…e realmente são pragas chatas. Estas sim deveriam ser extintas! E não araras, onças, micos e outros maravilhosos animais exóticos.

    Lígia Fascioni: Oi, Gustavo! Muito obrigada pelos esclarecientos adicionais. Na verdade, talvez eu tenha me expressado mal. O livro não diz “pouco”, ele diz que hoje em dia esse corante é usado na indústria alimentícia sim, só que não como o soberano absoluto do tempo que ele não precisava concorrer com os corantes artificiais.

    Na verdade, essa participação vem aumentando porque esse é um corante considerado natural e orgânico (mas entendo perfeitamente quando você diz que é nojento pensar que a gente está comendo um inseto esmagado….eheheh).

    Sobre o pau-brasil, na situação de desespero e falta de noção que a gente conhece até hoje, basta algum recurso acenar para o sucesso em determinado ramo que logo ele é dizimado pela exploração descontrolada. O pior é que, de lá para cá, não mudou muita coisa…

  7. Avatar
    8 julho 2010 at 8:54 am

    Adorei o texto, bem esclarescedor, porém gostei especialmente quando comentas sobre Veermer e Anthony Van DicK, ambos estudados para meu Tcc, que versou sobre as relações da arte e da moda no período Barroco.
    http://ged.feevale.br/bibvirtual/Monografia/MonografiaMarlovaSchneider.pdf
    Um abraço!

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